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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Floresta da Liga: ação ecológica real ou greenwashing da Betclic e FPB?


O projeto "Floresta da Liga", lançado pela Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) em parceria com a Betclic, move-se num terreno profundamente ambíguo. Por um lado, há um esforço genuíno de intervenção num espaço degradado na Serra da Arrábida; por outro, é impossível não notar como a iniciativa se presta a dinâmicas evidentes de greenwashing, sportswashing e social washing. Ao transformar um antigo olival abandonado numa agrofloresta associada aos clubes das Ligas Betclic, e ao enquadrar a ação no programa Sports for Climate Action (associado à UNESCO e às Nações Unidas), junta-se a causa ambiental à promoção da modalidade. No entanto, quando se olha com mais atenção para os detalhes técnicos e operacionais, surgem várias questões que merecem um reparo sério.

Em primeiro lugar, no que toca ao ecossistema local, um restauro ecológico estrito com flora autóctone da Arrábida seria mais do que suficiente, incomparavelmente mais resiliente a longo prazo e com muito menor exigência de recursos externos, como água e infraestruturas. Contudo, uma reflorestação pura com espécies locais - como carvalhos, sobreiros e medronheiros - demora muitos anos a ganhar corpo e oferece pouca diversidade de cores vivas a curto prazo. A opção pelo modelo agroflorestal parece responder mais à necessidade de produzir um impacto visual imediato para conteúdos de comunicação e redes sociais do que propriamente à máxima eficiência ecológica de longo prazo.

Em segundo lugar, surge a questão da manutenção intensiva. Ao contrário da vegetação autóctone da Arrábida, que depois de bem estabelecida sobrevive apenas com a precipitação natural da região, os componentes hortícolas e agrícolas de uma agrofloresta exigem regas frequentes, poda contínua e uma gestão constante de recursos, justificando a instalação de sistemas de rega e vedações. O grande risco reside na sustentabilidade do compromisso: se o financiamento ou a manutenção do projeto falharem daqui a 3 ou 4 anos, a componente "agro" dificilmente resistirá, acabando por morrer ou ser sufocada pela vegetação selvagem.

Em terceiro lugar, é inevitável analisar o papel do patrocinador. A Betclic opera no setor das apostas desportivas online, uma indústria sob constante escrutínio ético e social pelos problemas associados ao vício do jogo e à saúde mental. Associar diretamente a marca a projetos ecológicos, à preservação do território e à chancela da UNESCO ajuda a humanizar a empresa, a construir goodwill junto do público e a "limpar" a sua imagem corporativa.

Embora à primeira vista possa passar a falsa impressão de ser uma empresa de baixo impacto ambiental por ser 100% digital, a pegada ecológica de uma multinacional de iGaming é considerável. Para manter uma plataforma de apostas ao vivo operacional, é necessário processar milhões de transações por segundo e transmitir streams de vídeo em alta definição, o que exige o funcionamento ininterrupto de data centers e servidores em cloud de elevado rendimento. Esta operação traduz-se num consumo elétrico massiço e na necessidade de sistemas de refrigeração exigentes em recursos, aos quais se soma a pegada de carbono digital gerada pelo tráfego de milhões de utilizadores em simultâneo. Além disso, existe um efeito multiplicador: ao investir milhões de euros na promoção de competições desportivas, a Betclic incentiva e sustenta todo um ecossistema que movimenta milhares de pessoas, viagens semanais e consumos energéticos em pavilhões e estádios.

Quando se analisa a matemática financeira e o retorno de investimento (ROI) de marketing desta iniciativa, a disparidade torna-se gritante. Custear a instalação e a manutenção de uma agrofloresta de apenas 2.500 m² — o equivalente a pouco mais de um terço de um campo de futebol - representa uma fração insignificante da verba global de publicidade e patrocínio da Betclic. Este investimento na Arrábida equivale a uma percentagem mínima do orçamento alocado habitualmente a uma única campanha de televisão ou ao próprio contrato de naming rights da liga. Em contrapartida, por um custo financeiro modesto, a marca obtém reportagens em órgãos de comunicação social, conteúdos valiosos para as redes sociais, menções em comunicados da FPB e uma associação direta a conceitos de elevado valor reputacional, como "biodiversidade", "futuro" e "ação climática".

É verdade que se pode reconhecer algum mérito técnico pontual na execução: o envolvimento da Biovilla traz conhecimento de terreno para a regeneração do solo, e a previsão de fases de monitorização a 2, 3 e 5 anos contrasta com ações pontuais de plantação que depois são abandonadas. Contudo, estes detalhes não alteram o diagnóstico global da iniciativa.

A intervenção abrange uns escassos 2.500 m², uma dimensão irrisória quando confrontada com a pegada ecológica real do basquetebol profissional - entre viagens de equipas, consumo energético em pavilhões, produção de merchandising e deslocação de adeptos - e com a pegada tecnológica e promocional da própria Betclic. Trata-se, no fundo, de uma manobra em que as fragilidades do modelo técnico e os riscos de abandono a médio prazo são ignorados em prol do impacto estético imediato. A "Floresta da Liga" funciona sobretudo como uma conveniente fachada ecológica e um exercício de propaganda corporativa, onde a urgência da crise climática e o ecossistema da Arrábida são instrumentalizados para produzir um retorno de imagem gigantesco a um custo irrisório para as marcas envolvidas.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Sem mais ambição, o Plano de Restauro da Natureza arrisca falhar a recuperação da biodiversidade



Na consulta pública do Plano Nacional de Restauro da Natureza, deixámos um alerta claro: tal como está, o plano não garante que a natureza em Portugal recupere ao ritmo e à escala de que precisa.

“O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única para travarmos a perda da biodiversidade em Portugal. Este é o momento para decidir se queremos apenas cumprir metas no papel ou recuperar verdadeiramente a natureza”, diz Joana Andrade, coordenadora do nosso Departamento de Conservação Marinha.

Na nossa participação na consulta pública que terminou a semana passada, reconhecemos o esforço feito para integrar diagnósticos, estratégias e medidas num único plano, mas consideramos que a versão final tem de ir mais longe. Restaurar a natureza não pode significar apenas contar hectares: é necessário avaliar se as espécies e ecossistemas estão efetivamente a recuperar. É necessário restaurar a conectividade, e não criar “ilhas” de natureza isolada.

Recompor números não chega, é preciso recuperar a vida selvagem
Sublinhamos a necessidade de reforçar a integração da biodiversidade e das espécies nos objetivos, metas e indicadores do plano, defendendo que aves e outros grupos devem ser utilizados como indicadores da eficácia do restauro. Sem isso, alerta, corre-se o risco de investir em medidas que não se traduzem em melhorias reais no estado da natureza.

Sublinhamos também a importância de olhar para os ecossistemas como um todo ligado: florestas, zonas húmidas, áreas agrícolas, mar e cidades estão interligados, tal como as espécies que deles dependem ao longo do seu ciclo de vida.

Outra falha preocupante é a resposta ainda insuficiente e fragmentada a pressões crescentes como a poluição luminosa, apesar dos seus impactos nas aves marinhas e noutros grupos - uma ameaça silenciosa, mas cada vez mais evidente.

O restauro deve chegar às cidades e aos edifícios
A natureza não está apenas nas áreas protegidas - está também onde vivemos. Defendemos que o Plano Nacional de Restauro da Natureza deve entender o ecossistema urbano como um contínuo, promovendo a biodiversidade não só nos espaços verdes, mas também nos espaços edificados. Isso implica proteger e criar condições para a nidificação de aves nos edifícios, restaurar vegetação em avenidas, reduzir a impermeabilização dos solos e adotar soluções que minimizem os impactos da urbanização, evitando que a biodiversidade fique confinada a pequenas ilhas verdes numa selva de asfalto.

Entre as propostas da organização estão a criação e proteção de locais de nidificação, instalação de caixas-ninho e outras estruturas em edifícios, prevenção de colisões com superfícies transparentes ou espelhadas e o reforço da conectividade ecológica nas cidades. Estas soluções mostram que todos podem fazer parte da recuperação da natureza, e que o plano não diz respeito apenas a grandes áreas naturais, mas também às nossas ruas, bairros e casas.

Sem financiamento estável, não há restauro duradouro
Alertamos que o plano assenta em bases financeiras frágeis e pouco claras. Falta ligar, de forma transparente, as medidas propostas aos custos reais e às fontes de financiamento, bem como garantir recursos nacionais estáveis e de longo prazo.

“Restaurar não é plantar hoje e esquecer amanhã”, frisa Joana Andrade. “Sem financiamento para manter, monitorizar e adaptar as medidas ao longo do tempo, os resultados dificilmente serão duradouros.”

Sublinhamos ainda que o financiamento deve ser alinhado com as metas reais do plano, partindo do custo efetivo das medidas em vez de contabilizar fundos já existentes, e defende que o investimento privado só pode ser aceite com garantias rigorosas de transparência e ausência de greenwashing, incluindo um registo público de projetos e resultados. Alertamos também para a necessidade de rever os subsídios públicos que continuam a prejudicar a biodiversidade e de usar a Avaliação Ambiental Estratégica como ferramenta para testar a coerência global do plano e assegurar ganhos ecológicos efetivos.

Sem medir bem, não se sabe se está a resultar
Outro ponto crítico é a monitorização. Defendemos sistemas robustos, com indicadores biológicos que permitam perceber se a natureza está efetivamente a recuperar.

Programas de ciência-cidadã, como o Censo de Aves Comuns, são essenciais para esse acompanhamento, mas precisam de financiamento estável e reconhecimento institucional para continuar a produzir dados de longo prazo.

Restauro faz-se com pessoas, no terreno
Destacamos ainda que o sucesso do plano depende da participação ativa de proprietários, agricultores, comunidades locais e organizações da sociedade civil.

Modelos como a custódia do território - baseados em acordos voluntários e colaboração de longo prazo - são apontados como ferramentas-chave para garantir que as medidas saem do papel e chegam ao terreno, mantendo-se no tempo.

Ilhas e mar não podem ficar para trás
Alertamos também para lacunas importantes no que toca às Regiões Autónomas e aos ecossistemas marinhos, onde continuam a faltar medidas claras para proteger espécies e responder a pressões específicas. A aplicação uniforme de indicadores nacionais ignora a existência de realidades ecológicas distintas nas ilhas, o que compromete a eficácia do plano. Mesmo quando não sejam considerados no reporte europeu, devem ser adotados indicadores regionais que permitam avaliar adequadamente a recuperação da biodiversidade nos Açores e na Madeira.

Uma oportunidade decisiva para a natureza em Portugal
O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única de inverter décadas de degradação ambiental - oportunidade que a formulação atual do plano não está a aproveitar.

“Sem mais ambição, melhor financiamento e uma implementação eficaz, baseada na ciência e na participação, Portugal arrisca perder uma oportunidade que pode não voltar tão cedo”, conclui Joana Andrade.

Mais informação

domingo, 23 de agosto de 2026

Renaturalização vs. Restauro Ecológico: Qual é afinal a diferença?



Numa altura em que a crise climática e a perda de biodiversidade dominam o debate público, ouvimos falar cada vez mais em "devolver o espaço à natureza". Contudo, nem todas as intervenções ambientais são iguais. Termos como restauro ecológico e renaturalização (rewilding) são frequentemente usados como sinónimos, mas representam filosofias e métodos bastante distintos.

Se quer entender como a ciência e os conservacionistas estão a tentar reanimar o nosso planeta, descubra a diferença fundamental entre estes dois conceitos.

O que é o Restauro Ecológico?
O restauro ecológico é uma intervenção intencional, planeada e minuciosa que visa recuperar um ecossistema que foi degradado, danificado ou destruído.

A palavra-chave aqui é referência histórica. Segundo os padrões definidos pela Society for Ecological Restoration (SER), o objetivo do restauro ecológico é olhar para o passado - para o estado do ecossistema antes do impacto humano significativo - e tentar reconstruí-lo.

Como funciona? É um processo altamente assistido pelo ser humano. Envolve a remoção de espécies invasoras, a reparação química do solo, a limpeza de poluentes e a plantação manual de espécies autóctones específicas.

Exemplo prático: A reflorestação de uma área que ardeu recentemente, onde técnicos e voluntários plantam manualmente milhares de sobreiros autóctones para reconstituir a floresta original que ali existia há um século.

Estudo de Referência: vários trabalhos académicos, como o estudo global publicado na revista científica Nature sobre prioridades globais para o restauro de ecossistemas, demonstram que o restauro ecológico ativo em áreas prioritárias pode evitar até 60% das extinções de espécies e absorver grandes quantidades de carbono.

No restauro ecológico, o ser humano assume o papel de arquiteto e jardineiro da paisagem.

O que é a Renaturalização (Rewilding)?

A renaturalização - amplamente conhecida pelo termo em inglês rewilding - adota uma perspetiva diferente. Em vez de tentar replicar uma fotografia do passado, a renaturalização foca-se em devolver a autonomia à natureza para que esta decida o seu próprio futuro.

A ideia central não é gerir o ecossistema para sempre, mas sim restaurar os processos naturais (como as cadeias alimentares e os ciclos da água) e, em seguida, o ser humano afastar-se.

Como funciona? Geralmente começa com intervenções pontuais de grande impacto — como a remoção de diques e barragens obsoletas para libertar o curso dos rios, ou a reintrodução de grandes herbívoros e predadores. A partir daí, a intervenção humana reduz-se ao mínimo.

Exemplo prático: Retirar os muros de betão das margens de um rio e reintroduzir castores. Os castores criam açudes naturais, alteram o fluxo da água, previnem cheias e criam ecossistemas húmidos onde novas plantas e animais voltam a prosperar sem qualquer ajuda humana.

Estudo de Referência: O relatório científico Rewilding Complex Ecosystems publicado na revista Science destaca como a reintrodução de espécies-chave e a redução da gestão humana aceleram a resiliência ecológica e a recuperação de funções tróficas naturais.

Na renaturalização, o ser humano é apenas o facilitador inicial que abre a porta e deixa a natureza assumir o comando.
CritérioRestauro EcológicoRenaturalização (Rewilding)
Ponto de ReferênciaO passado (estado histórico original).O futuro (processos naturais autónomos).
Papel do HumanoGestor e gestor contínuo.Facilitador inicial; depois retira-se.
Grau de ControloElevado (procura-se um resultado pré-definido).Reduzido (a evolução do ecossistema é aberta).
Ações TípicasPlantação de espécies nativas, controlo de invasoras.Remoção de barreiras nos rios, reintrodução de fauna chave.
existem
Existem Planos Nacionais para estas áreas?

Sim, existindo compromissos governamentais e europeus específicos, embora com abordagens institucionais diferentes:

1. Para o Restauro Ecológico (Existem Planos Oficiais Vinculativos)

O Restauro Ecológico é hoje uma política de Estado obrigatória na União Europeia:
  1. Plano Europeu: O Regulamento (UE) 2024/1991 relativo ao Restauro da Natureza da União Europeia exige metas juridicamente vinculativas: restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas da UE até 2030.
  2. Plano Nacional em Portugal: Portugal desenvolveu o seu Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN), coordenado pelo ICNF . Este plano prevê metas concretas até 2050 para a recuperação de ecossistemas degradados, incluindo a plantação contínua de árvores autóctones, recuperação de galerias ripícolas e proteção de solos.
2. Para a Renaturalização / Rewilding (Abordagem Complementar e Iniciativa Privada/ONG)
Não existe um "Plano Nacional de Rewilding" formal emitido pelo Governo com esse nome, mas a prática está integrada em estratégias de conservação e projetos locais:
  1. Enquadramento Estratégico: A Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade (ENCNB 2030) enquadra o aumento da conectividade ecológica e a promoção de processos naturais autónomos.
  2. Iniciativas no Terreno: O grande motor do rewilding em Portugal são ONG e parcerias internacionais. O principal exemplo é a ONG Rewilding Portugal, responsável por gerir projetos no Grande Vale do Côa e Corredor Ecológico do Oeste, em coordenação com iniciativas europeias como o projeto LIFE WolFlux para a conservação do lobo-ibérico.
Em conclusão
Embora o restauro ecológico conte com o respaldo direto de leis europeias e de um Plano Nacional com metas governamentais, a renaturalização surge como um complemento indispensável, liderado no terreno por redes e associações de conservação. Ambas as abordagens são essenciais para devolver o equilíbrio ambiental a Portugal e à Europa.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Grande Muralha Verde restaura 1,66 milhão de hectares na África



Cerca de 1,66 milhão de hectares estão em processo de restauração no Sahel, região africana entre o deserto do Saara e a savana do Sudão. O resultado representa a principal conquista da iniciativa Acelerador da Grande Muralha Verde, que completou cinco anos e teve o relatório apresentado esta semana pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).

Outros números em destaque do balanço incluem 24 milhões de toneladas de CO₂ equivalente sequestradas ou mitigadas, 4,6 milhões de empregos criados e 46 milhões de pessoas diretamente impactadas.

Segundo a UNCCD, o esforço envolve um conjunto de paisagens restauradas, áreas agrícolas, sistemas de água e comunidades. O objetivo é combinar a recuperação de terras com a segurança alimentar, a geração de oportunidades económicas, o acesso a energia limpa e o aumento da resiliência perante as alterações climáticas e a seca.

A Grande Muralha Verde foi criada em 2007 pela União Africana e pela UNCCD e reúne atualmente 11 países fundadores, numa área de 156 milhões de hectares, do oeste do Senegal ao Corno de África. Já o "Acelerador" foi criado em 2021 para melhorar a coordenação da iniciativa, acompanhar os recursos financeiros e ajudar os países a medir os resultados das ações de restauração.

Resultados parciais
Apesar dos avanços, o próprio relatório alerta que ainda há limitações importantes no acompanhamento dos resultados. O Observatório da Grande Muralha Verde monitoriza mais de 389 projetos, porém menos de 90 apresentam atualmente dados de acordo com os indicadores harmonizados adotados pela iniciativa.

A UNCCD considera os resultados, portanto, iniciais. Além dos 1,66 milhão de hectares em restauração, os dados disponíveis apontam para a criação de 4,6 milhões de empregos, contra uma meta de 10 milhões até 2030, e a produção de 2.315 megawatts-hora de energia limpa. A entidade ressalta que os processos de restauração de terras podem levar anos ou décadas para produzir resultados completos e que o levantamento da totalidade dos projetos ainda está em curso.

Para tentar superar a fragmentação das informações, foi criado em 2024, em Ouagadougou, Burquina Faso, o Observatório da Grande Muralha Verde. A plataforma reúne informações sobre projetos, financiamento, resultados e dados geoespaciais. Segundo a UNCCD, o sistema já foi endossado por dez dos 11 países fundadores.

Também foram criadas coligações nacionais em nove dos 11 países, reunindo ministérios, sociedade civil, universidades, setor privado e meios de comunicação. A intenção é melhorar a coordenação das ações e transformar os compromissos financeiros em resultados verificáveis nos territórios.

Desafio do financiamento
O Acelerador foi lançado após a Cimeira One Planet, em 2021, quando parceiros técnicos e financeiros anunciaram mais de US$ 19 mil milhões em compromissos para a Grande Muralha Verde. A iniciativa passou a funcionar como uma estrutura para coordenar os esforços, acompanhar os recursos e fortalecer a capacidade dos países de demonstrar os resultados obtidos.

O relatório, porém, aponta que a distância entre compromissos e resultados continua a ser um desafio. Além da falta de dados completos, a UNCCD cita dificuldades de coordenação entre diferentes atores e o tempo necessário para que os recursos financeiros se transformem em ações no território.

A próxima etapa deve dar maior peso à comunicação, a mecanismos financeiros inovadores e à gestão transfronteiriça de terras e águas. Entre as possibilidades mencionadas estão obrigações verdes, créditos de carbono e mecanismos de financiamento combinado.

A experiência também procura ampliar a dimensão social da restauração. O relatório destaca iniciativas de geração de rendimento para mulheres, capacitação de jovens e fortalecimento de empreendimentos locais. Num dos exemplos citados pela UNCCD, mulheres do Mali receberam equipamentos e formação e ampliaram uma cooperativa de transformação de produtos agrícolas. No Chade, mulheres foram capacitadas para instalar e reparar painéis solares, transformando o acesso à energia em fonte de rendimento.

COP17
Seca, degradação da terra e restauração dos solos serão temas centrais na 17.ª Conferência das Partes (COP17) sobre Desertificação, que decorre entre os dias 17 e 28 de agosto em Ulan Bator, capital da Mongólia. 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Portugal deve rever Plano de Restauro da Natureza, pede associação de ambiente

A associação ambientalista Zero alertou hoje que Portugal deve rever o Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN) antes de o enviar a Bruxelas, porque aprová-lo como está é “comprometê-lo à partida”.

Num comunicado a propósito do Dia Nacional da Conservação da Natureza, que se assinala na terça-feira, a associação deixa seis sugestões de mudança do Plano, não negando que este é um instrumento importante e “uma oportunidade histórica de transformar o restauro numa verdadeira política de Estado com força de lei”.

Entende a associação que o PNRN deve contemplar um relatório anual de execução, medidas localizadas e não vagas, haver uma entidade responsável pelo Plano e não “competências difusas”, haver uma autoridade de execução, e haver um compromisso orçamental plurianual do Estado e um inventário dos subsídios ambientalmente prejudiciais.

Um plano de restauro não se executa “com boas intenções, mas com datas, mapas, responsáveis e financiamento”, o que este PNRN não tem, diz a Zero.

Não se sabe se está a funcionar, porque o primeiro relatório de execução só está previsto dentro de seis anos, das 406 medidas 58% (237) são “nacionais” e sem localização definida, nenhuma das 406 medidas tem uma entidade responsável ou um custo estimado associado, a forma de governação está por definir, e dos 500 milhões de euros anuais anunciados há, segundo a Zero, apenas 168,7 milhões.

Ou seja, resume, o diagnóstico do PNRN está correto e Portugal sabe o que restaurar e porquê mas faltam as medidas concretas.

A propósito da efeméride de terça-feira a Zero recorda no comunicado que a 28 de julho de 1948 surgiu a associação de ambiente mais antiga da Península Ibérica, a Liga para a Proteção da Natureza, na altura criada pela defesa da Mata do Solitário, na Serra da Arrábida (o Parque foi criado em 1976).

E alerta que entre a classificação de uma área no papel e a sua gestão efetiva no terreno tem havido sempre “uma distância persistente”. É essa distância entre os plano e o resultado que a Zero teme ver repetida no PNRN.

A Zero recorda que os prazos para designar as Zonas Especiais de Conservação e publicar os respetivos planos de gestão terminaram em 2012 e não foram cumpridos, que em 2019, o Tribunal de Justiça da União Europeia condenou o país, e que a Comissão Europeia condenou Portugal a pagar uma multa que no verão passado já ia nos 100 milhões de euros.

O PNRN deve ser enviado por Portugal a Bruxelas em setembro próximo. Está em consulta pública no Portal Participa até 19 de agosto.

domingo, 12 de julho de 2026

Plano Nacional de Restauro da Natureza avança para consulta pública


Projeto coordenado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas vai estar em consulta pública até 19 de agosto, aberta a todos os interessados. Portugal prevê investir 500 milhões por ano até 2030.

A elaboração deste plano é uma resposta ao Regulamento Europeu do Restauro da Natureza, que estabelece que todos os Estados-membros devem restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas nestes próximos cinco anos, até 2030, garantindo ainda que até 2050 todos os ecossistemas que necessitem de recuperação vão estar em processo de restauro. [Consultar aqui, o estado da arte do Restauro da Natureza, na Europa]

De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), responsável pela promoção e coordenação deste processo, o projeto do Plano Nacional de Restauro da Natureza (PNRN) “estabelece prioridades de intervenção em ecossistemas terrestres, marinhos, agrícolas, florestais, ripícolas e urbanos, definindo medidas concretas e indicadores de monitorização para acelerar a recuperação dos habitats degradados”.

A nova legislação europeia relativa ao restauro de natureza, aprovada em 2024, definiu que cada um dos Estados-membros tem o dever de apresentar às autoridades europeias, até setembro de 2026, um plano nacional que estabeleça todas as medidas previstas para o alcance das respetivas metas e o caminho para aí chegar, incluindo as necessidades de financiamento.

O plano português prevê um investimento anual de 500 milhões de euros em restauro de natureza até 2030, considerando diferentes instrumentos comunitários e nacionais disponíveis, incluindo verbas do Portugal 2030, da Política Agrícola Comum, do Fundo Ambiental e dos EEA Grants, e também a tendência de crescimento do investimento privado.

O plano define também 407 medidas de intervenção em ecossistemas terrestres, costeiros e de água doce (152 medidas), marinhos (27), fluviais (83), urbanos (oito), agrícolas (84) e florestais (25). Estão ainda previstas 28 medidas para ajudar as espécies polinizadoras.

De acordo com o diagnóstico apresentado pelo Governo quando o plano foi pela primeira vez apresentado publicamente, no início de junho passado, cerca de 260 quilómetros quadrados do território nacional precisam de intervenções de restauro ecológico prioritárias, o equivalente a cerca de 0,3% da superfície do país.

Está prevista também a plantação de três milhões de árvores por ano, até 2030, a realização do plano de ação relativo aos polinizadores em Portugal e também projetos-piloto em cinco municípios (Beja, Évora, Leiria, São João da Madeira e Vila Real), que vão permitir testar soluções de adaptação às alterações climáticas, baseadas na natureza.

O plano inclui também programas já em execução, como o PRO~RIOS, que prevê a recuperação de 1500 quilómetros de linhas de água até ao final da década.

O projeto do PNRN que está agora em consulta pública e que será entregue a Bruxelas vai ser ainda avaliado e revisto a nível europeu, prevendo-se que a versão definitiva seja entregue até setembro de 2027.

Os 11 documentos que fazem parte deste projeto, incluindo a avaliação ambiental estratégica do plano, estão disponíveis no portal Participa e também no Portal do Restauro da Natureza.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Lorde - Team


Tanto a letra como o teledisco de "Team", da cantora Lorde, funcionam como um manifesto de resistência juvenil que rejeita os clichés do consumismo e celebra a resiliência das comunidades que vivem à margem do sistema. Na letra, a artista critica a ostentação e as falsas promessas de felicidade vendidas pela televisão, afirmando com orgulho que a maioria dos jovens vive em realidades invisíveis para a grande comunicação social através do icónico verso "vivemos em cidades que nunca verás no ecrã". Ao mesmo tempo, recusa a alienação das músicas festivas tradicionais ao cantar que já não tem paciência para que lhe digam para atirar as mãos para o ar, assumindo o peso do amadurecimento e a necessidade de procurar um propósito mais profundo. O refrão centraliza tudo na lealdade e na entreajuda, garantindo que, mesmo quando a realidade não é perfeita ou se vive nas ruínas de um palácio de sonhos, aquele grupo sabe exatamente como organizar-se, gerir a sua subsistência e comandar as coisas porque jogam todos na mesma equipa.

Fontes
The effect of eco-anxiety on pro-environmental behaviors and mental well-being: a parallel mediation model

Página Oficial
LORDE