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sábado, 13 de junho de 2026

Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia

Já tinha lido algumas obras de Byung-Chul Han aqui e aqui
A sua vida invulgar sempre despertou a minha curiosidade.
Para terem uma ideia, Han é um antigo metalúrgico que resolveu deixar a Coreia do Sul para estudar filosofia na Alemanha sem entender uma única palavra de alemão. Como não bastasse, debruçou-se sobre Heidegger e, pouco tempo depois, tornou-se uma espécie de celebridade.
A sua enorme popularidade não se deve à sua vocação para se expor; pelo contrário, Han vive afastado da turbulência gerada pelas redes sociais. Ainda assim, é popular. Creio que isso se deve ao facto de Han tratar-se, sobretudo, de um filósofo extremamente intuitivo e perspicaz. Os seus argumentos não se constroem em torno de uma linguagem técnico-filosófica fechada nos seus termos e conceitos, destinada apenas aos seus pares, mas antes a aforismos que deixam transparecer, com suavidade e leveza, a beleza do seu pensamento. Este pequeno ensaio é prova do seu brilhantismo.

Nesta obra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han faz um diagnóstico cirúrgico - e bastante sombrio - de como a internet, as redes sociais e os algoritmos mudaram a estrutura do poder.

Se no passado o capitalismo dominava os corpos e as indústrias, hoje o poder é exercido através do controle e da manipulação dos fluxos de dados. O livro defende que não vivemos mais numa democracia tradicional, mas sim em uma infocracia.

Os pilares centrais do livro
1. O regime de informação e a falsa liberdade
Han explica que saímos do modelo disciplinar (onde o poder reprimia as pessoas e era visto como um "vigia" violento) e entramos no regime de informação.
A grande armadilha da infocracia é que ela não opera pela proibição, mas pela sedução: nós nos sentimos livres e consumimos/produzimos dados voluntariamente o tempo todo. Essa sensação de liberdade é o que garante a eficácia da dominação. O poder agora é psicopolítico: ele entra na mente do indivíduo e prevê seus comportamentos sem que ele perceba.

2. A destruição da esfera pública e do discurso racional
Para que a democracia funcione, é preciso haver debate, escuta e um discurso racional (a ideia da esfera pública de Habermas). Han argumenta que a digitalização destruiu isso:
  • As redes sociais funcionam no modelo de "bolhas de filtro", onde os algoritmos nos mostram apenas o que já concordamos.
  • O debate deu lugar à polarização e à criação de "tribos digitais" que não dialogam entre si, apenas atacam.
  • A comunicação atual é rápida, fragmentada e guiada pelo like, o que impede a reflexão profunda e o amadurecimento das ideias políticas.
3. Da democracia à Pós-Democracia digital (Dataísmo)
O autor alerta para o perigo do "Dataísmo" — a crença cega de que os dados e a Inteligência Artificial podem resolver todos os problemas humanos. Na infocracia, a política perde a ideologia e a visão de futuro, transformando-se em uma mera gestão de sistemas baseada em Big Data. Os políticos correm o risco de serem substituídos por especialistas e cientistas de computação, esvaziando o verdadeiro sentido da ação política.

4. A crise da verdade e o novo niilismo
O último grande ponto do livro é o descolamento da informação em relação à realidade. Na era das fake news, dos exércitos de trolls e da desinformação em massa, a verdade factual perde a importância. O que importa é o impacto emocional e a velocidade com que a informação circula. Isso gera um niilismo contemporâneo: as pessoas perdem a crença na existência de uma verdade comum, fragmentando a base de confiança que sustenta a sociedade.

O grande aviso de Han: a informação, que teoricamente deveria nos libertar e nos manter informados, tornou-se a ferramenta mais sofisticada de vigilância, controle e deformação do processo democrático.

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Auto- exploração


Byung-Chul Han é um dos filósofos de referência da atualidade. Nascido na Coreia do Sul, naturalizou-se alemão, pois foi nesse país que desenvolveu grande parte da sua carreira académica – permanece lá a trabalhar – e dos seus contributos à filosofia.

Discursa sobre conceitos primordiais da atualidade, nomeadamente sobre o impacto da tecnologia na sociedade contemporânea, assim como nos próprios mecanismos do capitalismo. É na Universidade das Artes de Berlim que vem trabalhando e onde continua a exercer o seu peso como catedrático e meditador sobre os desafios que o mundo enfrenta.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Byung-Chul Han e a Psicopolítica


Em "Psicopolítica. Neoliberalismo e novas técnicas de poder" (Pschopolitik, 2014, tradução de Miguel Serras Pereira para a Relógio D’Água), Byung-Chul Han, pensador prolífico e bem-amado (europeu tardio, veio para a Alemanha depois de abandonar um curso superior relacionado com a metalurgia na Correia do Sul, de onde é originário), defende que a biopolítica, de Michel Foucault e Giorgio Agamben, se transformou em psicopolítica. Nesta nova forma de organização do poder, «O sujeito do rendimento, que se pretende livre, é na realidade um escravo. É um escravo absoluto, na medida em que sem qualquer senhor se explora a si próprio de forma voluntária. Não tem diante de si um senhor que o obrigue a trabalhar.» (p. 12) Além disso, a universalização do smartphone, alvo de uma profunda «devoção digital», universalizou o «exame e controle de si». Este livro prolonga Topologie der Gewalt, 2011, (Topologia da Violência, tradução de Miguel Serras Pereira para a Relógio D’Água), no qual observa que a violência deixou de ser exercida do exterior, passando a ser autoengendrada: ela «afasta-se cada vez mais da negatividade do outro ou do inimigo e incide cada vez mais sobre o próprio sujeito.» (p. 11) Passando de uma «deformação» da sociedade disciplinar para uma «depressão» da sociedade do rendimento. A pior das violências não é a da negatividade e do visível, mas a da positividade e do invisível, «exercida sem necessidade de inimigos nem dominação.» (idem, p. 10) Mas acrescenta também linhas de sentido a Was ist Macht? de 2005 (Sobre o Poder — não percebo porque alteraram tanto o título —, tradução Miguel Serras Pereira, Relógio D’Água, 2017), por vezes tanto que parecer ser outro Byung-Chul Han. Neste livro trata-se sobretudo, a partir de Michel Foucault, de criticar a ideia de que o «poder opera unicamente inibindo ou destruindo.» (p. 16) Pelo contrário, ele funciona como um catalisador que influencia ou acelera determinados processos, ele é produtivo. Claro que também há o poder destrutivo, o da opressão de um ditador, que retira liberdade ao sujeito. E talvez seja até maioritário. Mas, o que Han quis fazer neste livro foi realçar o poder como possibilidade de autoafirmação e a sensação de prazer e liberdade que daí emerge.

Regressando à Psicopolítica, não há qualquer tipo de revolução que a partir da incubadora marxista (refere-se sobretudo às ilusões de Antonio Negri com a sua «multidão cooperante») consiga estancar este novo modo de servidão, auto-servidão, auto-exploração. A «sociedade neoliberal do rendimento» abafou toda a resistência possível. Os mecanismos de contrapoder e de escrutínio são tão reduzidos que quase se resumem a um vago imperativo de transparência (criticado, contra a vox populi, pelo autor) para denunciar escândalos políticos (atacam-se as pessoas mais do que as ideias). 

Durante o século xx, o poder foi sobretudo disciplinar e dominado pela negatividade. Este poder, seguindo Foucault (Surveiller et punir, 1975; Histoire de la sexualité Vol. 1. La volonté de savoir, 1975; e, do mesmo ano, o curso no Collège de France, Il faut défendre la société),  surgiu no século xvii e deixou de ser o poder de morte que detinham os soberanos, como se fossem Deus, sobre os súbditos: «Em vez de torturar o corpo, o poder disciplinar fixa-o a um sistema de normas.» (Psicopolítica, p. 29) É um poder normativo que atua sobre o corpo e a mente do sujeito da obediência e do dever. Mas esse poder, coagindo com alguma violência através de preceitos e proibições, foi substituído por um muito mais eficaz: amável, manipulador, afirmativo e sedutor. «Seduz em vez de proibir. Não enfrenta o sujeito, concede-lhe facilidades.» (idem, p. 24) «O neoliberalismo é o capitalismo do “Gosto”. Distingue-se substancialmente do capitalismo do século xx, que operava por meio de coações e de proibições disciplinares.» (idem, p. 25) E Foucault (morreu em 1984, com 57 anos), segundo Han, não efetuou a passagem, apesar dos vários indícios que se podiam ler na realidade social, da biopolítica (poder disciplinar sobre a vida) à psicopolítica. Tal teria acontecido, ainda segundo Han, se Foucault não tivesse morrido precocemente. Han não concede a mesma lucidez a Giorgio Agamben. 

Se o capitalismo do século xx se preocupava, em primeiro lugar, com o biológico, o neoliberalismo atende à psique. Para o conseguir, «A psicopolítica neoliberal é uma política inteligente que procura agradar em vez de submeter.» (idem, p. 46) É por isso que se trabalha tanto o campo das emoções do «sujeito narcísico», a sociedade de consumo compra emoções e significações, muito mais o valor emotivo do que o de uso: «O capitalismo do consumo introduz emoções para estimular a compra e engendrar necessidades.» (idem, p. 55) Daí que, no mercado de trabalho, as competências emocionais quase tenham destronado as cognitivas. E tudo isto se joga ao nível pré-reflexivo, o que dificulta ainda mais a denúncia e a resistência. Tanto mais que o Big Data consegue, a partir das interações digitais, representar com extrema exatidão a «nossa pessoa, [a] nossa alma — uma representação talvez mais precisa ou completa do que a imagem que fazemos de nós próprios.» (idem, p. 71) Essa «lupa digital» favorece uma psicopolítica capaz de ler os nossos desejos mais profundos (talvez ininteligíveis para nós).

É preciso regressar a Topologia da Violência para sabermos o que a sociedade do rendimento, com os seus princípios de liberdade e desregulação, provocou na sociedade. Um campo patológico, vasto e profundo, governa uma grande parte dos indivíduos: na depressão vê-se o «fracasso de sujeito forçado à iniciativa perante o incontrolável» (p. 45); no burnout «é a relação tensa, de sobrecarga excessiva, de si mesmo consigo, que assume traços destrutivos.» (ibidem) Duas formas de autoagressão que não estavam inscritas na sociedade disciplinar. Para um dos seus principais teóricos, Karl Schmitt, a política vive da luta contra o inimigo, a possibilidade real da violência é a essência do político. Agora, o sujeito do rendimento, sem a negatividade do inimigo, vira-se para e contra si, «compete consigo mesmo e procura superar-se a si mesmo. Entra assim numa competição fatal consigo mesmo, num círculo infinito que, a certo momento, caba num colapso.» (idem, p. 62)

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Covid-19: Resistam à estupidez


O querer acreditar é a maior força do ser humano. Quando a vontade é muita, somos capazes de acreditar nas coisas mais estúpidas e inverosímeis. E neste momento estamos a transbordar de vontade em acreditar em algo que nos livre deste pesadelo. Roubaram-nos demasiados bens adquiridos, e ninguém gosta de ser roubado. Há os que querem acreditar porque são empresários desesperados, há os que não sabem viver sem festas, há os que estão a morrer de saudades dos abraços que lhes fazem falta e os que simplesmente estão tristes e querem voltar ao tempo em que havia mais sorrisos, e sorrisos a descoberto das máscaras que invadiram a nossa vida. Mas há que resistir. Resistam. Resistam à tentação de querer saber mais do que a ciência. Estão a pôr em risco a vossa vida, dos vossos e de todos nós. É perigoso não resistir à vontade de acreditar em parvoíces. E como a desinformação se espalha mais forte e rapidamente do que o vento, não é fácil ter tempo para desconstruir todas as baboseiras que se dizem por aí.

A ciência aos cientistas. Eu não imagino que alguém se levante do seu lugar num avião a passar por uma tempestade e tente tirar os pilotos do cockpit: “Sai daí! Eu é que sei aterrar este AirBus 380 no meio desta tempestade.” É isto que estamos a presenciar. Doutorados em patetices a dizer que sabem mais do que toda a comunidade científica. Olham para os números e tiram “conclusões”. E neste grupo estão também médicos (poucos, felizmente) que perigosamente por saberem qualquer coisinha sobre ciência esquecem-se de que a sua ignorância é muito maior do que o pouco que sabem. A ciência tem auto-regulação. Aceita o contraditório. Tem avanços e recuos, comete erros, mas aprende e evolui, e será sempre o mais perto da verdade que vamos estar.

“Morrem mais pessoas de cancro!” Sem dúvida, e mais ainda de doenças cardiovasculares. A mortalidade por doenças não-covid sem dúvida que subiu pelos danos colaterais do controlo da pandemia. Mas esta é uma forma simplista de olhar para um problema extremamente complexo. A pergunta que tem de ser feita é: quantas mais morreriam de causas não-covid, se a pandemia estivesse descontrolada? Há uma tentativa de conspirar a favor de forças obscuras que alimentam a teoria que os serviços de saúde só pensam nos doentes covid. Isto não é verdade! À semelhança de uma guerra (e eu detesto esta comparação) as pessoas morrem mais por falta de cuidados de saúde do que por tiros e bombas, mas enquanto houver tiros e bombas não haverá cuidados de saúde, e por isso quem os mata em ambas as situações é a guerra, é a pandemia.

Dinheiro e felicidade. Tendo em conta a forma como eu vejo a vida, desde o primeiro dia que considerei que a nossa saúde mental e felicidade e a catástrofe social dos que ficaram sem casa e sem alimentar os seus filhos têm de ser contrabalançadas com as consequências de saúde pública, sejam elas covid ou não-covid. Mas o que está em causa, e certamente matéria de grande debate em que eu tenho muitas mais perguntas do que respostas, é que o sofrimento colectivo que estamos a passar e a quebra da economia poderiam eventualmente ser maiores se fingíssemos que o vírus é apenas mais um e nos deparássemos com hospitais a transbordar de mortos. O pânico e o medo que daí também viria seria certamente pior do que o que estamos a viver neste momento.

Avante, Fátima, futebol e discotecas. Grandes ajuntamentos de pessoas ao ar livre com uma dispersão razoável e mais ainda se usarem máscaras parece não oferecer grande risco de contágio. Daí que a gritaria contra e a favor, políticas e religiões a propósito de grandes aglomerados, ainda que na minha opinião possam ser antipedagógicos, parecem ser menos perigosos do que um jantar com dez pessoas em casa com amigos ou familiares. Eu adoro futebol e adoro sair à noite, e talvez por saber o que por lá se passa sou obrigado a compreender a proibição de público e de álcool, porque os comportamentos rapidamente transcendem o razoável em ambas as situações. As escolhas são dificílimas, e as comparações principalmente para quem lhes dói no bolso são infinitas, mas vamos mesmo ter de acreditar que quem decide está a fazer o seu melhor perante um desafio épico.

Numerologistas. Parece que basta ir duas vezes ao site da DGS para nos tornarmos especialistas em números. Mas primeiro é preciso saber muito para se saber ler os números, e mesmo para quem sabe muito há muita coisa que os números não dizem: a solidão em que as pessoas morrem que é quase tortura, a gestão da culpa dos que infectaram os seus familiares e que os levou à morte, a absorção brutal de recursos humanos que esta doença consome e o labirinto logístico que é gerir um hospital cheio de covids e com tudo o resto. É mais difícil do que possam imaginar.

Vamos viver um período de histeria colectiva e muitos terão razão, o que é o mesmo que dizer que será dificílimo democratizar o que é melhor para todos. E por isso peço-vos encarecidamente que não alimentem as campanhas de desinformação, conspiração e negação, porque estas são perigosíssimas e põem a vida das pessoas de que mais gostamos em risco. E ver gente a morrer não é bonito. Acreditem.

Há milhões de pessoas a quem a ciência não chega e morrem infinitamente mais do que nós que nascemos rodeados de um mundo de saberes que salvam vidas. Não os neguem, simplesmente aproveitem-nos e não tentem ter uma opinião sobre como pilotar o avião no meio de uma tempestade.

Há muita vontade em acreditar na estupidez. Resistam.

sábado, 6 de fevereiro de 2021

A saúde pública à mercê dos negócios e da cegueira geopolítica

As pessoas estão dramaticamente ansiosas pelas vacinas, pelo que não se questionam sobre quem e como as fabrica. E dispensam até a informação que lhes é devida por parte de quem fez as escolhas.
Por José Goulão



A saga das vacinas em Portugal está distorcida. Centra-se na condenável batota para adulteração das listas de prioridades da vacinação que, apesar da sua gravidade, funciona como cortina de fumo para esconder aspectos muito mais inquietantes do processo, o principal dos quais é a submissão do governo e a abdicação da vontade própria perante a inconcebível e corrupta estratégia de selecção, compra e distribuição conduzida pela Comissão Europeia. Uma estratégia que se guia sobretudo pelo lucro e pela secundarização da saúde pública, desvalorizando e silenciando eventuais riscos associados.

O governo português prefere não ter voz na questão das vacinas da Covid-19. Remetendo-se à velha e nefasta posição de «bom aluno», sobretudo em tudo quanto diz respeito à imposição ilegítima do federalismo, arrasta os portugueses e o seu combate à pandemia para uma estratégia discricionária e prejudicial, centrada em volumes de negócios, em monopólios abusivos, em fantasmas e fundamentalismos geopolíticos – deixando a saúde pública à mercê de entidades cuja preocupação principal é a distribuição de dividendos aos accionistas e a recompra das suas próprias acções.

«As entidades seleccionadas para constituir o monopólio têm uma particularidade em comum: fabricam as vacinas contra a Covid-19 segundo metodologias que nunca foram experimentadas em seres humanos e, neste caso, nem mesmo testadas em animais. Em causa estão a tecnologia do ARN mensageiro (mRNA), no caso da Pfizer e de Moderna; e a utilização de adenovírus de chimpanzé, no caso da AstraZeneca»

Os resultados estão à vista. Falha retumbante e permanente nos prazos de entrega assumidos pelo monopólio dos gigantes da indústria farmacêutica na sequência de contratos parcialmente secretos e que os fabricantes das vacinas nunca tencionaram cumprir, sabendo que terão sempre tolerância para o fazer. Não é por acaso que os principais colossos da fabricação de vacinas conseguem amealhar anualmente quase quatro mil milhões de dólares em fugas aos impostos. Como igualmente não é por acaso que a Comissão Europeia tenha assumido, em nome dos governos dos Estados membros, que os fornecedores de vacinas escolhidos a dedo – fugindo às próprias regras de mercado – estejam isentos de qualquer responsabilidade em eventuais danos de saúde sofridos pelos cidadãos vacinados.

Esta é, de facto, a corrupção que mina profundamente o processo europeu de vacinação contra a Covid-19. A viciação das listas das prioridades é, neste quadro, um dano colateral, mais uma manifestação da corrupção nacional instaurada e enraizada ao longo de anos e anos de gestão do chamado bloco central.


Monopólio

A Comissão Europeia, entidade não eleita que há quase um ano vem fracassando estrondosamente na defesa da saúde dos cidadãos europeus perante a pandemia de Covid-19, assumiu autoritariamente a condução do processo de vacinação em nome dos governos dos 27.

A falha no combate à pandemia não é surpresa, sabendo-se que as pessoas nunca foram a preocupação da Comissão, como demonstram a generalização da política de austeridade e o descrédito absoluto do mito da «Europa dos cidadãos».

Por isso, entregar-lhe uma questão de vida ou de morte como é a da vacinação é um erro pelo qual os governos deverão ser responsabilizados. Uma irresponsabilidade que assume proporções de atentado contra a saúde das populações e mina o tremendo e desumano esforço que está a ser desenvolvido pelos profissionais do sector.

Como era de esperar, a Comissão Europeia entregou um processo tão sensível como o da vacinação ao monopólio dos gigantes farmacêuticos, neste caso representados pela alemã e norte-americana Pfizer em aliança com alemã BioNTech; e pela norte-americana Moderna, guiada por Bill Gates & Cia e protegida pela chamada «Aliança das Vacinas» (GAVI), na chefia da qual foi empossado recentemente Durão Barroso – e fica tudo dito. Como terceiro vértice do negócio, a Comissão tolerou a britânica e sueca AstraZeneca.

Os contratos acordados, e que estabelecem o compromisso de fornecimento de centenas de milhões de doses de vacinas, são parcialmente secretos. Informações sobre os seus conteúdos foram remetidas aos membros do Parlamento Europeu em versões censuradas.
O que diz bastante sobre a transparência do processo.

Bruxelas não se dignou explicar aos cidadãos as razões deste monopólio; em seu entender nem tem de fazê-lo. Sabe que as pessoas estão dramaticamente ansiosas pelas vacinas, pelo que não se questionam sobre quem e como as fabrica. E dispensam até a informação que lhes é devida por parte de quem fez as escolhas. Como já há muito vem dizendo o inevitável criminoso de guerra Henry Kissinger, não há como situações de medo e desconhecimento para que as pessoas se coloquem de bom grado sob poderes discricionários e autoritários.

As entidades seleccionadas para constituir o monopólio têm uma particularidade em comum: fabricam as vacinas contra a Covid-19 segundo metodologias que nunca foram experimentadas em seres humanos e, neste caso, nem mesmo testadas em animais.

Em causa estão a tecnologia do ARN mensageiro (mRNA), no caso da Pfizer e de Moderna; e a utilização de adenovírus de chimpanzé, no caso da AstraZeneca. Se isso é absolutamente seguro, na verdade não se sabe bem. As agências reguladoras que respondem perante a Comissão Europeia e os governos postulam que sim, que não há perigo. No entanto, basta consultar a base de dados de ensaios clínicos da Biblioteca Nacional dos Estados Unidos para ficar a saber-se, através do exemplo da Pfizer, que as vacinas da Covid-19 estão a ser ministradas ainda em período de testes. Percebe-se nessa documentação que a fase experimental iniciou-se em 29 de Abril de 2020; a fase das primeiras conclusões terminará somente em 3 de Agosto deste ano de 2021; e a data prevista para conclusão do estudo é apenas 31 de Janeiro de 2023.

«Incidências»

Apesar da situação de emergência que o mundo atravessa – e até por causa disso - um salto no escuro como este exige mais prudência verificada do que tranquilizações apressadas. Exige, sobretudo, informação e esclarecimento, que não são o forte deste processo.

Não é necessário investigar muito fundo através da internet para se perceber que existem casos de sintomas registados após a vacinação merecedores de explicações mais satisfatórias do que «situação normal», «coincidência» ou «a vacina não pode induzir a Covid-19».

Em Israel, por exemplo, onde decorre a mais vasta campanha de vacinação realizada até agora, com utilização do produto da Pfizer, 12 400 dos 189 mil vacinados testaram depois positivo à Covid-19 (6,2%), 69 dos quais já após as duas doses: 5,3% até ao sétimo dia, 8,3% entre o oitavo e o 14.º dia, 7,2% entre o 15.º e o 21.º dia e 2,6% entre o 22.º e o 28.º dia.

Por outro lado, no Sistema de Registo dos Efeitos Adversos das vacinas contra a Covid-19 do CDC dos Estados Unidos, VAERS, foram inseridas 9645 incidências até 22 de Janeiro, entre as quais 329 casos mortais, em pessoas que receberam vacinas da Pfizer e da Moderna. Trata-se de uma base de dados aberta e passiva onde são inscritos voluntariamente os casos registados – e que constituem uma pequena parte da realidade. O CDC considera que os números «estão dentro do esperado» e que não permitem deduzir que exista uma relação de causa e efeito entre a vacinação e os efeitos registados. Outras agências de controlo de doenças, designadamente a britânica e a europeia, procedem exactamente da mesma maneira perante a apresentação de situações adversas surgidas depois da vacinação.


A vacina Sputnik V foi registada em Agosto de 2020 pelo Centro Nacional de Investigação e Microbiologia Gamaleya, em Moscovo, na Rússia. O nome da instituição homenageia o insigne médico, microbiologista e epidemiologista russo e soviético Nikolai Fedorovitch Gamaleya (1888-1949)

Alargar horizontes

Na sua ânsia de conduzir o processo de acordo com os interesses que serve, os dos gigantes da indústria de medicamentos, a Comissão Europeia pôs claramente o carro à frente dos bois e arrastou os governos dos Estados membros numa estratégia infundamentada e sanitariamente arriscada.

Tendo em conta que está em causa o bem mais precioso das pessoas, a sua saúde, a Comissão Europeia e os governos não poderiam nem deveriam encerrar-se num processo estanque entregue a um monopólio pouco fiável em termos de respeito pela condição humana.

Tanto mais que, nos mais puros termos de mercado, existe ampla concorrência em relação à Pfizer, à Moderna e à AstraZeneca. Alguma dela com a vantagem de não ter aproveitado a ocasião para inventar através do recurso a metodologias nunca experimentadas em seres humanos e optar pela imunização à Covid-19 segundo modos mais tradicionais e cientificamente comprovados de produção de vacinas. É o caso, entre outros exemplos, da Coronavac chinesa e da Sputnik V russa. Que estão também elas em fase experimental, porque reduziram o período de duração dos testes e, no caso da russa, saltou também a fase de experiência em animais. Porém, têm a vantagem de resultar de métodos conhecidos e já com décadas de existência e prática, portanto com um histórico de efeitos e incidências menos sujeitos ao risco do desconhecido. A saúde de milhões de pessoas mereceria pelo menos que se pensasse nessas variantes.

Alargando horizontes, a Comissão Europeia proporcionaria uma capacidade de escolha informada aos cidadãos e reforçaria a quantidade, minimizando os riscos de ruptura de abastecimentos.

A Coronavac e a Sputnik V, no entanto, têm a inultrapassável desvantagem de desafiarem o garbo geopolítico ocidental, que pretende convencer as suas opiniões públicas de que sociedades tão «maléficas» não são capazes de produzir medicamentos pelo menos tão bons e eficazes como os dos monopólios farmacêuticos «civilizados».

Que não seja por isso. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, há quase 200 processos no mundo para produção de vacinas contra a Covid-19. Situação que aconselharia a Comissão Europeia e os Estados membros a estudar mais atentamente esses casos e a pesar de maneira muito mais fundamentada e eficaz a defesa do interesse que deveria estar no topo de tudo: a saúde pública.

Há, evidentemente, mais por onde escolher do que a Pfizer, a Moderna e a AstraZeneca com o seu penoso cortejo de atrasos, incumprimentos, garantias insuficientemente fundamentadas e ameaças para cidadão ver. A abundância prometida e contratada de centenas de milhões de doses transformou-se numa arrastada entrega de milhares, aos poucos e arrancada a ferros.

Por isso existem governos, certamente não tão «bons alunos» como o de Lisboa, que começaram a traçar caminhos próprios para cuidar da saúde dos seus. O húngaro, do famigerado Orban, comprou vacinas russas; o sueco, farto de tanta espera, está a fazer o seu próprio contrato bilateral com a AstraZeneca; a Alemanha – a própria Alemanha, imagine-se – encara a possibilidade de fabricar a Sputnik V moscovita.

A estratégia da Comissão Europeia começa a abrir rombos. O receio é que o governo português se lhe mantenha fiel até ao naufrágio anunciado.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

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