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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Como as cidades estão a transformar os seus rios poluídos em paraísos para banhos

No dia 5 de Julho de 2026, durante uma onda de calor opressiva, parisienses e turistas nadaram no Sena, um de muitos rios que foram limpos e estão a receber novamente banhistas urbanos.

Durante a maior parte da vida de Pauline Janbon, a ideia de tomar banho no rio Sena, em Paris, era inimaginável.

“Quando éramos crianças diziam-nos que havia cadáveres a flutuar na água”, disse Janbon, uma estudante de 20 anos da Universidade da Sorbonne, em Paris. “Tinha a reputação de ser extremamente sujo.”

Em Junho deste ano, porém, quando uma onda de calor inédita assolou o país, Janbon e milhares de parisienses mergulharam nas águas outrora temidas da cidade para se refrescarem. No dia em que a conheci, ela estava junto à margem do Canal Saint-Martin, rodeada por hordas de banhistas, que saltavam, nadavam e boiavam na água.

“Até hoje, nunca tinha dado um mergulho na minha própria cidade”, disse Janbon, enquanto espremia água do cabelo. “Parece que estou de férias.”

Paris é apenas uma de muitas cidades europeias que se têm esforçado para tornar as suas vias aquáticas novamente seguras para banhos. Copenhaga, Basileia, Zurique, Berna e Oslo passaram anos a melhorar os seus sistemas de gestão de águas residuais, criando uma infra-estrutura de águas pluviais e implementando políticas para controlar melhor a poluição aquática. Os seus esforços têm sido maioritariamente bem-sucedidos, com os residentes das cidades da Europa a regressarem às suas águas. E à medida que as alterações climáticas criam ondas de calor mais intensas e frequentes, os urbanistas e residentes também estão a virar-se para estas águas para lidar com os dias mais quentes.

“Estamos a ver pessoas a renegociar os seus contratos sociais com a água nestas cidades”, disse Matthew Sykes, co-fundador e director do programa Swimmable Cities, uma aliança de organizações que promove o direito ao usufruto das vias aquáticas urbanas. “As pessoas começam a perceber que é melhor ter uma cidade onde se possa nadar.”

Um regresso histórico às águas
Até ao início do século XX, tomar banho nos rios urbanos era uma actividade comum na Europa ocidental e em algumas zonas da América do Norte. Eram construídas casas de banhos directamente em cima dos rios e havia sítios que as pessoas visitavam a lazer, bem como para se lavarem. A falta de canalizações em casas particulares significava que estas casas de banho – populares em cidades como Nova Iorque, Londres, Boston, Filadélfia e Paris – eram frequentemente o único sítio onde as pessoas podiam lavar-se.

À medida que a industrialização foi avançando e as populações subiram a pique nas cidades, os rios urbanos da Europa tornaram-se inimaginavelmente sujos. Em Paris, águas residuais, partes do corpo de animais e escoamentos de lavandarias eram despejados directamente no Sena. Por esta razão, a cidade proibiu os banhos em 1923, declarando a água insegura para a saúde humana.

As autoridades municipais começaram a discutir a limpeza do rio em 1988, mas só em 2016 é que a presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo, renovou o empenho da cidade em limpar o Sena, transformando o rio num pilar essencial da candidatura de Paris aos Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

“Paris fez muito do trabalho pesado pelas outras cidades”, disse Sykes, comentando que o gabinete do presidente da câmara sofreu muitas críticas da parte da imprensa e dos eleitores. “Tiveram de provar que uma iniciativa como esta, que já tinha sido testada em cidades mais pequenas, era possível em grandes metrópoles urbanas.”

Em Julho de 2025, quando o Sena abriu oficialmente ao público, mais de 100.000 pessoas nadaram nas áreas de banho designadas, levando a cidade a prolongar a época balnear até ao início de Setembro. Agora, com o rio a entrar na sua segunda temporada de banhos, Paris está a provar que limpar os rios não só é possível, como é essencial na época das alterações climáticas.

Em Junho, Paris sofreu a sua onda de calor mais grave de que há registo. França tem poucos equipamentos de ar-condicionado: apenas um quarto das casas e menos de 7 por cento das escolas estão equipadas com sistemas de refrigeração. Em Paris, os edifícios haussamannianos que dão à cidade o seu visual emblemático, são notoriamente mal isolados contra o calor, deixando os parisienses com poucas opções para se refrescarem. Quando as temperaturas aumentaram no final de Junho, os parisienses suados procuraram refúgio nos corredores refrigerados dos supermercados e aguardaram em longas filas para entrar nas piscinas municipais da cidade. No entanto, as opções mais populares para muitos foram os rios e canais recentemente limpos de Paris, aos quais hordas de pessoas desceram para dar o seu primeiro mergulho na cidade.

Cientificamente falando, os parisienses têm poucas razões para se preocuparem com a higiene da sua água. Todos os dias, a cidade monitoriza o Sena em busca de E. Coli e enterococci, que podem causar febre, infecções do tracto urinário e diarreia. Estes testes têm concluído de forma consistente que a água é segura para banhos, de acordo com os regulamentos da União Europeia.

Mesmo assim, um bloqueio mental impede muitos parisienses de nadar no Sena. Em 2021, quando a agência de sondagens IFOP pediu a mil pessoas francesas a sua opinião sobre o Sena, 70 por cento dos inquiridos descreveram-no como sujo, poluído e malcheiroso. Poucos disseram que seriam capazes de mergulhar no rio. E embora essa perspectiva tenha começado a mudar, a longa reputação do Sena como um rio sujo é difícil de limpar.

“Estou feliz por os meus filhos poderem desfrutar da água, mas eu não meto os pés lá dentro”, disse Soizic Prado, de 52 anos, sentada num banco, toda vestida, a ver os filhos brincar. “Tenho a certeza que é segura, mas passei a minha vida inteira a ouvir dizer que a água é suja”, explicou. “Ça donne pas envie” [“Não dá vontade”].

terça-feira, 30 de junho de 2026

A libertação dos rios: porque é que há várias países a destruir centenas de barragens

O rio apareceu quase de imediato.

À medida que as barragens no rio Hiitolanjoki, na Finlândia, foram sendo desmanteladas, o rio começou a mudar - a corrente ficou mais rápida e a água mais fria, parecendo menos um reservatório e mais um rio novamente. Depois vieram os peixes.

Pela primeira vez em mais de um século, os salmões remontaram o rio para além do local onde outrora se erguiam três barragens hidroelétricas, recuperando um troço de rio que se encontrava isolado há mais de um século.

Transformações semelhantes estão a ocorrer por toda a Europa, onde os países estão a desmantelar barragens e açudes envelhecidos - barragens que outrora alimentavam moinhos e fábricas, mas que agora, muitas vezes, já não têm grande utilidade.

“Assim que se remove uma barragem, o rio retoma o controlo“, explica Angela Ortigara, consultora sénior e estratega para a água doce da WWF Países Baixos, à CNN. “É uma ação que tem um efeito imediato e um benefício a longo prazo. “

Em 2025, foram removidas 603 barragens em 21 países - um número recorde e o mais elevado de sempre -, de acordo com o último relatório anual da Dam Removal Europe, uma coligação de seis organizações que trabalham para restaurar a conectividade fluvial.

A remoção destas barragens ajudou a restabelecer a ligação entre mais de 3.740 quilómetros (2.324 milhas) de rios em todo o continente e está associada ao objetivo da UE de restaurar 25.000 quilómetros (15.534 milhas) de rios de curso livre até 2030.

De acordo com o relatório, divulgado na semana passada, o número de barragens removidas ultrapassou em 11% o recorde anterior, estabelecido em 2024.

As remoções em 2025 foram também seis vezes superiores às registadas no primeiro recenseamento realizado em 2020.

Os números indicam que a recuperação dos rios está a ser cada vez mais adotada, mas refletem também uma reavaliação mais ampla do funcionamento dos rios numa era de fenómenos climáticos extremos. O que outrora era visto como um progresso é cada vez mais considerado um problema ambiental crescente.

Rios fragmentados
Estima-se que 1,2 milhões de barragens - incluindo barragens, açudes, bueiros e eclusas - fragmentem os rios da Europa, de acordo com o projeto de investigação “Gestão Adaptativa das Barragens nos Rios Europeus “ (AMBER), uma das avaliações mais abrangentes da conectividade fluvial alguma vez realizadas no continente. Muitas dessas estruturas foram construídas há décadas para fins hidroelétricos, de navegação ou agrícolas, mas milhares delas estão agora obsoletas.

Cientistas e grupos ambientalistas afirmam que as consequências podem ser de grande alcance.
“Quando um rio é represado, o seu leito - outrora protegido pela vegetação ribeirinha - transforma-se num lago ou reservatório de água parada, exposto ao sol. Isto aumenta significativamente a temperatura da água “, explica Pao Fernández Garrido, gestora sénior de subvenções do Programa Europeu “Open Rivers“, uma iniciativa de financiamento à escala europeia que apoia a remoção de pequenas barragens e barragens fluviais, com vista à restauração dos ecossistemas fluviais naturais.

Grandes volumes de água nos reservatórios também podem perder-se por evaporação. O material orgânico retido nos reservatórios acumula-se e decompõe-se ao longo do tempo, libertando metano - um potente gás com efeito de estufa que contribui significativamente para o aquecimento global, afirma Fernández Garrido à CNN. 

Os ecossistemas fragmentados têm também muito menos capacidade para fazer face ao aumento das inundações, das secas e dos fenómenos climáticos extremos, de acordo com a Agência Europeia do Ambiente. Ao longo da última década, nove em cada dez catástrofes naturais no continente estiveram relacionadas com a água, afirmou a agência.

“Perdemos cerca de 80% das nossas zonas húmidas ao longo do último milénio devido à drenagem, à impermeabilização e à degradação “, refere a agência à CNN. “As zonas húmidas ajudam a reduzir estes riscos, atuando como esponjas naturais, absorvendo água durante as cheias e libertando-a lentamente durante as secas. “

A Dam Removal Europe diz que a fragmentação fluvial é um dos principais fatores que contribuem para o declínio da biodiversidade de água doce na Europa, citando uma avaliação recente da Comissão Europeia que revelou que mais de 42% das espécies de peixes de água doce do continente estão ameaçadas, enquanto quase dois terços são consideradas em risco de se tornarem ameaçadas ou já se encontram próximas desse estatuto.

Espécies como o salmão do Atlântico e a enguia europeia, juntamente com algumas populações de truta, podem ser impedidas ou atrasadas na sua chegada aos habitats a montante necessários para a reprodução, o que contribui para o declínio das populações ou, em alguns casos, para a extinção local.

Mesmo nos casos em que estão instaladas passagens para peixes, a sua eficácia varia e, muitas vezes, estas não conseguem dar resposta às necessidades das espécies com menor capacidade de natação, deixando trechos significativos dos ecossistemas fluviais parcialmente desligados.

O impacto vai além dos peixes. A conectividade fluvial sustenta ecossistemas aquáticos na sua totalidade, desde insetos até aves e mamíferos. Quando o fluxo de sedimentos é interrompido, os leitos dos rios podem tornar-se mais simples e menos adequados para a desova, enquanto as alterações na temperatura e no caudal reduzem a diversidade do habitat.

Existem também preocupações crescentes relativamente ao envelhecimento das infraestruturas hídricas da Europa. Muitas barragens obsoletas não são devidamente mantidas e podem tornar-se riscos para a segurança à medida que se deterioram, especialmente durante fenómenos meteorológicos extremos.

“A construção de barragens fluviais acarreta uma longa lista de problemas de segurança e ambientais “, lembra Fernández Garrido. “É sempre mais seguro e mais económico trabalhar com a natureza do que contra ela. “

O impulso crescente em torno da recuperação dos rios está agora a ser reforçado também através da política de recuperação da natureza da UE.

No entanto, a política também tem sido alvo de críticas por parte de alguns grupos de agricultores e decisores políticos, preocupados com os potenciais impactos no uso do solo e nos meios de subsistência rurais.

O Regulamento da UE relativo à Restauração da Natureza, que entrou em vigor em 2024, estabelece metas vinculativas para restaurar, pelo menos, 20% das áreas terrestres e marítimas da UE até 2030, incluindo a restauração de, pelo menos, 25.000 km de rios para um estado de fluxo livre. O objetivo é recuperar quase todos os ecossistemas que necessitam de recuperação até 2050. Esta legislação marca a primeira vez que a conectividade fluvial e a remoção de barragens foram integradas na legislação da UE.

“Este regulamento tem o potencial de ser um verdadeiro ponto de viragem. Não se trata apenas de proteger o que ainda resta. Trata-se de devolver a natureza, de devolver os nossos rios“, aponta a Agência Europeia do Ambiente.

Rios restaurados
No entanto, a remoção de uma barragem raramente é tão simples como demolir betão.

Os projetos podem demorar anos a realizar-se, envolvendo avaliações ambientais, estudos de engenharia e negociações com os proprietários das barragens e as autoridades locais. Após a demolição, é necessário gerir cuidadosamente os sedimentos, estabilizar as margens dos rios e monitorizar os ecossistemas.

Mas, assim que as barragens forem eliminadas, a transformação pode ocorrer com uma rapidez notável.

Na Finlândia, a remoção das três barragens hidroelétricas ao longo do rio Hiitolanjoki, entre 2021 e 2023, reabriu as rotas de migração do salmão de água doce, uma espécie em perigo crítico de extinção, restaurando o acesso às zonas de desova que se encontravam bloqueadas desde o início do século XX. O salmão regressou a algumas zonas do rio logo na primeira época de migração.

Mais a leste, a atenção centra-se agora na barragem hidroelétrica de Palokki, na bacia hidrográfica do rio Vuoksi, na Finlândia, onde estão em curso planos para restaurar a conectividade numa outra bacia hidrográfica fortemente fragmentada.

“Quando este projeto for implementado, será o maior projeto do Programa Open Rivers alguma vez apoiado “, diz Fernández Garrido. “A remoção desta barragem irá desobstruir 1 523 quilómetros (946 milhas) de rio.“

Noutros pontos da Europa, estão a intensificar-se esforços de restauração semelhantes.

Em França, a remoção das barragens de Vezins, em 2020, e de La Roche Qui Boit, em 2022, no rio Sélune, que estavam em funcionamento desde as décadas de 1920 e 1930, restaurou quase 90 quilómetros (56 milhas) de curso de rio livre num dos maiores projetos de remoção de barragens alguma vez realizados na Europa.

No Lake District, em Inglaterra, a desmontagem da barragem de Bowston, em 2022, no rio Kent, contribuiu para restaurar um caudal mais natural do rio, melhorando as condições para os peixes migratórios e os ecossistemas circundantes.

Na Bélgica, a remoção de passagens subterrâneas na floresta de Anlier está a restabelecer a ligação entre afluentes mais pequenos que desempenham um papel importante na biodiversidade local.

A Espanha, a Dinamarca, a Suécia, a Alemanha e a Estónia têm vindo a levar a cabo projetos de remoção de barragens nos últimos anos, embora a dimensão destes esforços varie consideravelmente de país para país.

Em 2025, a Suécia eliminou o maior número de barragens, 173, seguida pela Finlândia, com 143, e pela Espanha, com 109.

Os países do sul e do sudeste da Europa, incluindo a Eslováquia, a Croácia, a Bósnia-Herzegovina e até mesmo a Ucrânia, devastada pela guerra, também têm vindo a eliminar barragens nos últimos anos, enquanto outros, como a Grécia, têm envidado esforços nesse sentido, salienta Ortigara.

Nos Estados Unidos, a remoção de grandes barragens demonstrou a rapidez com que os rios se podem recuperar assim que as barragens são eliminadas.

No rio Klamath, na Califórnia, o maior projeto de remoção de barragens da história dos EUA foi concluído em 2024, reabrindo centenas de milhas de habitat para peixes migratórios. No rio Elwha, em Washington, a remoção anterior de barragens restaurou o fluxo de sedimentos e provocou o regresso dos peixes e da vegetação após mais de um século de perturbações. Na Europa, muitas remoções continuam a envolver estruturas muito mais pequenas - açudes baixos, bueiros e barragens hidroelétricas envelhecidas -, mas os especialistas afirmam que o seu impacto cumulativo está a aumentar.

“Temos mais de um milhão de barragens na Europa “, realça Ortigara. “A remoção de algumas centenas por ano é um começo - mas não é suficiente. “

Segundo os especialistas, o sucesso dependerá da recuperação de trechos inteiros de rios e bacias hidrográficas, trabalhando em estreita colaboração com as comunidades locais e garantindo que, uma vez restabelecida a conectividade, esta seja mantida ao longo do tempo. “O verdadeiro desafio agora é a implementação - fazê-lo em grande escala e de forma estratégica “, refere a Agência Europeia do Ambiente.

“Quando um rio está vivo, tem um som “, diz Ortigara. “Ouve-se o seu murmúrio a escorrer pelas rochas. Vê-se vegetação à sua volta. É este fluxo da vida".

Por toda a Europa, esse som está agora a começar a regressar. Fonte

domingo, 29 de março de 2026

Beata Belanszky-Demkó

O Brilho, 2023

Beata Belanszky-Demkó é uma artista plástica contemporânea de nacionalidade húngara, cuja trajetória de vida e formação académica refletem uma profunda dedicação às artes visuais. Nascida em 1976 na cidade de Satu Mare, na Roménia, no seio da comunidade húngara da Transilvânia, mudou-se para a Hungria em 1990. Foi neste país que consolidou o seu percurso escolar e artístico, tendo frequentado a Escola Secundária de Artes Visuais e Aplicadas de Budapeste, uma instituição de referência onde aprofundou as bases do desenho e da composição.

A sua formação académica prosseguiu a nível superior na Universidade de Óbuda, em Budapeste, onde se licenciou em Design Industrial. Esta base técnica e estruturada confere à sua obra uma compreensão singular da forma e do espaço, que mais tarde fundiu com a liberdade da pintura. Embora tenha formação em design, Beata optou por dedicar-se inteiramente às belas-artes, desenvolvendo um estilo que oscila entre o impressionismo moderno e a abstração lírica.

Atualmente a residir em Sóskut, a artista utiliza predominantemente a técnica da espátula e tintas a óleo para criar paisagens e figuras humanas que primam pela harmonia cromática e pela exploração da luz. O seu currículo inclui inúmeras exposições individuais e coletivas, sendo membro ativo de diversas associações de artistas, o que reforça o seu papel no panorama artístico húngaro contemporâneo.

sexta-feira, 13 de março de 2026

The Marrow of the Infinite

Foto do meu amigo Rui Manuel Vitor Cortes

"The mountain does not hold the water;
it is the water,
and the water is the stone’s slow breath.

We do not look at the wild;
we are the wild looking back at itself,
remembering that the boundary of our skin
is as porous as the moss upon the rock.

To go out into the wild is to go in,
climbing not over the rocks, but through the soul,
where every moss-slicked boulder
is a scripture written in green and grey.

Our biological dance is in the spray;
we breathe what the forest exhales,
and the forest drinks what we let fall.
There is no "environment" out there to save -
only our own extended body,
leaping over the precipice in a roar of white foam.

We listen with the heart that reconnects.
In the rush of the current, we hear the world’s grief
and the world’s ancient, stubborn joy.

We stop being the masters of the flow
and become the flow itself—
held by the ancestors of the silt,
feeding the children of the sea.

The granite stands. The water moves.
And we, the watchers, are the bridge
where the mountain finally learns
how beautiful it is. "

João Soares, 13.03.2016

Pedi ao Gemini para criar uma música baseada no meu poema. Ouvir aqui

quarta-feira, 4 de março de 2026

Estudo liderado por investigadores do TERRA revela que mais de 94% dos rios europeus precisam de restauro ecológico


Foi hoje publicado na revista científica Global Change Biology um novo artigo científico liderado por investigadores do Laboratório Associado TERRA – Laboratório para a Sustentabilidade do Uso da Terra e dos Serviços de Ecossistemas – que mapeia, pela primeira vez à escala europeia, as necessidades de restauro dos ecossistemas de água doce.

Os resultados revelam um cenário preocupante pois menos de 5% das unidades fluviais analisadas cumprem simultaneamente os objetivos das duas principais diretivas ambientais europeias — a Diretiva Habitats e a Diretiva-Quadro da Água.

De acordo com o estudo, cerca de 89% das áreas analisadas apresentam habitats de água doce em estado de conservação desfavorável, mais de 55% apresentam espécies em estado de conservação desfavorável e aproximadamente 46% não atingem o “Bom Estado Ecológico” exigido pela legislação europeia da água. No total, mais de 94% das unidades fluviais europeias revelam necessidades de restauro associadas a pelo menos uma das diretivas.

Uma abordagem inovadora para apoiar políticas públicas
Para chegar a estes resultados, a equipa utilizou uma unidade de análise espacial — as River Restoration Units (R2U) (em português, Unidades de Restauro para Rios) — que permite integrar dados de biodiversidade e qualidade ecológica à escala da rede hidrográfica europeia, respeitando a estrutura funcional dos rios.

Esta abordagem permitiu harmonizar informação proveniente de diferentes fontes oficiais e identificar padrões espaciais claros de degradação, incluindo um gradiente europeu em que os habitats apresentam maior degradação, seguidos das espécies e, por fim, do funcionamento ecológico avaliado pela Diretiva-Quadro da Água.

Segundo os autores, este padrão pode refletir um processo sequencial: a degradação de habitats antecede a perda de biodiversidade, que por sua vez pode conduzir, com atraso temporal, à perda de estabilidade e funcionamento dos ecossistemas — um fenómeno descrito na literatura como “dívida de extinção” e “dívida de estabilidade”.

 Implicações para a nova Lei do Restauro da Natureza
Os resultados surgem num momento crucial para a política ambiental europeia, com a entrada em vigor do novo Regulamento Europeu do Restauro da Natureza.

Este estudo fornece uma base científica sólida de apoio à implementação desta legislação, identificando de forma explícita à escala europeia onde as necessidades de restauro são mais urgentes e onde a ação pode gerar maiores benefícios ecológicos.

Os investigadores sublinham que, apesar de décadas de políticas ambientais, a degradação dos ecossistemas de água doce continua generalizada na Europa. No entanto, destacam que existe uma janela de oportunidade: uma implementação ambiciosa e coerente das políticas de restauro poderá travar a acumulação da “dívida ecológica” e inverter as trajetórias atuais de perda de biodiversidade.

O estudo, intitulado “Europe’s Ecological Debt: Mapping Freshwater Restoration Needs”, foi coordenado por investigadores do Centro de Estudos Florestais (CEF), da Universidade de Lisboa, e membros do Laboratório Associado TERRA, e envolveu uma equipa internacional de cientistas de Portugal, Áustria, Dinamarca e Alemanha.[Fonte]

sábado, 14 de fevereiro de 2026

The Veins of the Earth


"It is not "water" that moves here,
but the mountain’s cold blood
seeking the lowest prayer.

The white rush of the stream
is the only clock that matters,
carving a dialogue between stone and gravity
long before we learned to speak.

Look at the moss—
those emerald lungs clinging to the bark.
The tree does not own the moss,
nor does the moss steal from the tree;
they are a single, breathing yes
to the dampness of the world.

We stand on the ridge,
clinging to our names and our borders,
while the ivy bridges the gap
between the root and the sky.

Under the floor of copper leaves,
the mycelium whispers in the dark,
proving that to be alone is an illusion
we invented to feel important.

The forest does not look at you.

It invites you to be quiet enough
to hear your own heart beating
in sync with the falling water,
until you can no longer tell
where the wood ends
and you begin. "

João Soares, 14.02.2026

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Chegou a hora de repor a permeabilidade do solo nas nossas cidades

Porquê?
1. Redução do risco de inundações e gestão das águas pluviais.
As superfícies impermeáveis ​​impedem que a água da chuva se infiltre no solo. Em vez disso, a água escoa rapidamente para o sistema de drenagem, muitas vezes sobrecarregando os sistemas durante chuvas intensas.

Repermeabilizar o solo:
- Diminui o escoamento superficial;
- Permite que a água se infiltre e recarregue o lençol freático;
- Reduz as inundações superficiais e o transbordo de esgotos, que infelizmente muitas vezes também recebem àguas pluviais.
Isto é cada vez mais crucial à medida que os eventos de chuva intensa se tornam mais frequentes, uma tendência destacada nas avaliações climáticas urbanas globais.

2. Arrefecimento das cidades e redução das ilhas de calor urbanas.
As superfícies impermeáveis ​​​​absorvem e irradiam calor, intensificando o efeito de ilha de calor urbana. Superfícies permeáveis ​​e com coberto vegetal:
- Retêm a humidade, permitindo o arrefecimento evaporativo;
- Reduzem as temperaturas da superfície e do ar ambiente;
- Melhoram o conforto térmico nas ruas e espaços públicos.

3. Recuperação do ciclo urbano da água e recarga dos aquíferos.
Quando as cidades estão totalmente impermeabilizadas:
- Os níveis das águas subterrâneas diminuem;
- A vegetação urbana torna-se dependente da rega;
- As cidades tornam-se mais vulneráveis ​​às secas.
Os solos permeáveis ​​ajudam a reconectar a água da chuva com os ciclos hidrológicos naturais, melhorando a segurança hídrica a longo prazo, o que é especialmente importante em cidades com escassez de água.

4. Apoio à biodiversidade urbana e à saúde do solo.
Solos saudáveis ​​abrigam microrganismos, insetos e raízes de plantas.
Permeabilizar o solo e design permeável:
- Melhoram a respiração e a fertilidade do solo;
- Permitem que as árvores urbanas desenvolvam raízes mais profundas e fortes, mais resistentes às intempéries;
- Apoiam polinizadores e habitats urbanos.

5. Equidade, habitabilidade e ordenamento do território
Em muitas cidades:
- Os antigos aglomerados urbanos estão localizados em zonas sujeitas a inundações e com deficiente drenagem;
- Soluções de engenharia são hoje fundamentais para resolver os problemas do passado, mas não se pode estar atualmente criar novos problemas resultantes de um mau planeamento.

As abordagens permeáveis ​​e baseadas na natureza (valas de infiltração, drenagem com vegetação, pátios permeáveis) são:
- Mais baratas e adaptáveis;
- Mais fáceis de serem concebidas em conjunto com as comunidades.

6. De que forma a permeabilização se parece na prática:
- Pavimentos e áreas de estacionamento permeáveis;
- Permeabilização de passeios, pátios escolares e espaços subutilizados;
- Jardins de chuva, valas de infiltração e trincheiras de infiltração;
- Árvores urbanas com solos estruturais;
- Recuperação de ribeiros naturais ou cursos de água sazonais.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Sobre este Inverno chuvoso - não aprendemos nada com as ideias de Gonçalo Ribeiro Telles


Este comboio de tempestades não é único. Muitas destas tempestades em sucessão são alimentadas por rios atmosféricos. São faixas estreitas de humidade tropical concentrada que atravessam o Atlântico. Quando o "corredor" se abre em direção à Península Ibérica, as tempestades seguem esse rasto como se estivessem em carris. Tudo depende de um "braço de ferro" de pressão entre os Açores e a Islândia. Quando esta oscilação está numa determinada fase, o jet stream (uma corrente de ar a grande altitude) empurra todas as tempestades diretamente para nós, em vez de as desviar para o Reino Unido ou Escandinávia. Antigamente não dávamos nomes às tempestades (como Joseph, Leonardo e Kristin), o que dava a ideia de que era apenas "um inverno chuvoso". Hoje, ao darmos nomes individuais a cada depressão, temos muito mais consciência de quantas estão a passar por nós seguidas. A perceção de excecionalidade resulta, em grande parte, da forma como os fenómenos recentes são lembrados. A nossa memória meteorológica é curta e estamos mais marcados pelos episódios de secas severas que têm sido a marca dos últimos ano. 𝐃𝐞𝐯𝐢́𝐚𝐦𝐨𝐬 𝐬𝐞𝐫 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐫𝐞𝐯𝐞𝐧𝐭𝐢𝐯𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐨 𝐡𝐢𝐬𝐭𝐨́𝐫𝐢𝐜𝐨 𝐝𝐞 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬. Aprender a não voltar a repetir a tragédia de 1967 (25 para 26 de novembro) em que choveu num só dia o equivalente a um quinto de todo o ano. A região da Grande Lisboa e do Vale do Tejo foi devastada. O regime de Salazar tentou "abafar" a dimensão da tragédia. Oficialmente falou-se em cerca de 460 mortos, mas estimativas reais apontam para mais de 700 vítimas.
𝐆𝐨𝐧𝐜̧𝐚𝐥𝐨 𝐑𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐨 𝐓𝐞𝐥𝐥𝐞𝐬 𝐚𝐥𝐞𝐫𝐭𝐨𝐮-𝐧𝐨𝐬 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐞𝐯𝐢𝐭𝐚𝐫 𝐝𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐦𝐚𝐭𝐞𝐫𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐞 𝐡𝐮𝐦𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐮𝐫𝐚𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐬𝐭𝐞𝐬 𝐢𝐧𝐯𝐞𝐫𝐧𝐨𝐬 𝐜𝐡𝐮𝐯𝐨𝐬𝐨𝐬 𝐞 𝐚𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐧𝐭𝐚𝐯𝐚 𝐬𝐨𝐥𝐮𝐜̧𝐨̃𝐞𝐬. 𝐍𝐚̃𝐨 𝐚𝐬 𝐨𝐮𝐯𝐢𝐦𝐨𝐬. 𝐈𝐧𝐬𝐢𝐬𝐭𝐢𝐦𝐨𝐬 𝐞𝐦 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐫𝐮𝐢𝐫 𝐞𝐦 𝐥𝐞𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐝𝐞 𝐜𝐡𝐞𝐢𝐚, 𝐞𝐧𝐭𝐮𝐛𝐚𝐫 𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐞 𝐫𝐢𝐛𝐞𝐢𝐫𝐚𝐬 𝐞 𝐚 𝐩𝐚𝐯𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐭𝐮𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐦 𝐚𝐬𝐟𝐚𝐥𝐭𝐨 𝐞 𝐜𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨.
𝐎 𝐂𝐨𝐫𝐫𝐞𝐝𝐨𝐫 𝐕𝐞𝐫𝐝𝐞 𝐝𝐞 𝐌𝐨𝐧𝐬𝐚𝐧𝐭𝐨, 𝐞𝐦 𝐋𝐢𝐬𝐛𝐨𝐚 𝐞́ 𝐮𝐦 𝐞𝐱𝐞𝐦𝐩𝐥𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚𝐝𝐢𝐠𝐦𝐚́𝐭𝐢𝐜𝐨: 𝐝𝐞𝐦𝐨𝐫𝐨𝐮 𝐪𝐮𝐚𝐬𝐞 𝟑𝟎 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐚 𝐬𝐞𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐜𝐥𝐮𝐢́𝐝𝐨 𝐞𝐱𝐚𝐭𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞 𝐞𝐥𝐞 𝐭𝐞𝐯𝐞 𝐝𝐞 𝐥𝐮𝐭𝐚𝐫 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐚 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐞𝐬𝐬𝐞𝐬 𝐢𝐦𝐨𝐛𝐢𝐥𝐢𝐚́𝐫𝐢𝐨𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐦𝐚𝐧𝐭𝐞𝐫 𝐚𝐪𝐮𝐞𝐥𝐞 "𝐞𝐬𝐜𝐨𝐚𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨" 𝐧𝐚𝐭𝐮𝐫𝐚𝐥 𝐝𝐚 𝐜𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞.

sábado, 24 de janeiro de 2026

JP Simões & Norberto Lobo - Canção da Paciência


O último disco em que José Afonso participou activa e integralmente. Passou despercebido a muita gente (que, provavelmente, achou terem sido suficientes as lágrimas vertidas por altura do espectáculo do Coliseu) e, no entanto, é um testemunho espantoso de vitalidade e lucidez criativa. Gravado entre Novembro de 82 e Abril de 83, com arranjos repartidos por Júlio Pereira, José Mário Branco e Fausto (concebidos, em boa parte dos casos, a partir de ideias de Zeca, como, de resto, aconteceu com a grande maioria das suas composições), constitui um verdadeiro olhar em volta, amadurecido e calmo, só possível por parte de quem viveu a vida com muita intensidade, com muita paixão. Uma autêntica viagem entre a utopia e o desencanto, é o que nos oferece Zeca Afonso neste álbum magnífico, onde é possível descobrir todas as memórias cruzadas dos tempos vividos, os desejos insatisfeitos, os sonhos. Onde pode descobrir-se, por exemplo, um dos mais belos poemas sobre o 25 de Abril («Papuça»), uma reflexão serena e quase existencial sobre o que se fez e o que ficou por fazer («Canção da Paciência»), uma certa angústia que não renega, antes reforça, tudo aquilo por que se passou («Eu Dizia»). E, também, a crítica acutilante («O País Vai de Carrinho»), o prazer dos sons e das novas experiências («O Canarinho»), a esperança que não morre («Utopia»). Um disco ao nível dos melhores, capaz de sobreviver aos tempos e às fronteiras.

Muitos sóis e luas irão nascer
Mais ondas na praia, rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio, a mendigar

Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida, para andar
Beba o fel amargo, até morrer
Já não tenho pena sei esperar

A cobiça é fraca, melhor dizer
A vida não presta, para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As águas do rio, são de correr
Cada vez mais perto, sem parar
Sou como o morcego, vejo sem ver
Sou como o sossego, sei esperar

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

GEOTA removeu mais uma barreira obsoleta no rio Alviela


No dia 29 de novembro foi removido, perante uma assistência entusiástica, o açude do Sourinho, uma barreira obsoleta à conectividade fluvial.

Esta remoção faz parte de um conjunto de ações de reabilitação a decorrer num troço de 300 m do rio Alviela. Coordenados pelo GEOTA, os trabalhos iniciaram-se em meados de novembro com a limpeza das margens e controle de espécies invasoras.

Na presença da população, proprietários e representantes das principais entidades envolvidas, a coordenadora do Programa Rios Livres GEOTA, Ana Catarina Miranda, salientou a relevância da colaboração institucional com a APA, o Município de Alcanena, entidades académicas como o ISCTE e o Instituto Superior Técnico (que apoiam no processo de participação pública e na monitorização de peixes e de sedimentos), a CLAPA e a E.RIO. Esta última foi representada por Pedro Teiga, que teve a oportunidade de explicar sucintamente o projeto de reabilitação em curso. Nuno Silva, Vice-Presidente do município de Alcanena, enfatizou a importância que estes projetos têm para o município e afirmou que continuarão a apoiar projetos como este.

A coordenadora do Programa Rios Livres do GEOTA, Ana Catarina Miranda, disse que esta é a segunda barreira removida no Alviela, num país onde “existem cerca de 15 mil barreiras à conectividade fluvial identificadas, grande parte delas obsoletas”, causando prejuízos ambientais e diminuição da resiliência às alterações climáticas.

“São estruturas que já não servem qualquer propósito económico ou social e que tendem a provocar impactos ecológicos significativos, desde a limitação das migrações piscícolas à retenção de sedimentos essenciais para combater a erosão costeira”, explicou.

A responsável sublinhou que Portugal tem o objetivo de libertar cerca de 500 quilómetros de rios, no âmbito da meta europeia de remoção de barreiras e recuperação da conectividade em 25 mil quilómetros de cursos de água.

“Atingir esta meta é o objetivo do Estado, mas a capacidade de atuação tem sido limitada. Projetos como o nosso, promovidos por organizações não governamentais e envolvendo a sociedade civil, os governos locais e as instituições académicas, colaboram com o Estado para que seja atingida esta meta”, afirmou.

O projeto no Alviela decorre desde 2023 e inclui mapeamento e priorização de barreiras, participação pública e monitorização.

A intervenção no açude de Sourinho é financiada pela DIMFE, pelo programa internacional Open Rivers Europe,  pela Fundação Calouste Gulbenkian  e pelo prémio Dam Removal Europe 2023, no valor de 15 mil euros, atribuído ao GEOTA pela remoção do açude de Vaqueiros (a primeira barreira eliminada no Alviela, em abril de 2023), com a segunda remoção a representar um investimento global na ordem dos 100 mil euros.

Segundo Ana Catarina Miranda, o GEOTA pretende remover uma barreira por ano entre 2026 e 2028, dependendo da aprovação de novo financiamento internacional.

“Aprendemos muito com as duas intervenções no Alviela. A partir de sábado, existirão menos duas barreiras nesta bacia, mas o problema é nacional e muito mais vasto”, salientou.

No final, Teresa Álvares, Administradora Regional da ARH Tejo e Oeste na APA, sublinhou que “a APA continuará a apoiar e a promover ações de reabilitação fluvial”, destacando os benefícios ecológicos, sociais e económicos que estas iniciativas proporcionam.

Siga o desenvolvimento dos trabalhos em curso em: Sourinho

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Ganhamos à EDP

Barragem de Miranda do Douro

Ganhamos!! Após anos e anos de cartas à PGR, inquéritos fiscais, ações em tribunais arbitrais, denúncias públicas, etc. e solidariedade de alguns partidos ganhámos! Um dos momentos simbólicos mais fortes foi a Carta Aberta de 27 de janeiro de 2021, do MCTM que marcou o confronto formal com as autoridades nacionais em relação à venda das barragens. Assim o Ministério Público vai exigir à EDP a entrega ao Estado de impostos que não foram pagos na altura, no total de 335,2 milhões de euros acrescido de juros.
De todos os Partidos e quadrantes saliento o papel do BE. Tem sido o partido mais próximo das causas do MCTM.
Deputados do BE, como Pedro Filipe Soares e Fabian Figueiredo, apresentaram requerimentos parlamentares e interpelações ao Governo sobre a venda das barragens.
O BE foi o primeiro partido a denunciar publicamente a perda de receitas fiscais para os municípios afectados.
Aos autarcas da Associação de Municípios do Baixo Sabor o meu agradecimento.
Aos políticos de Bragança eleitos pelo PS, Berta Nunes e Sobrinho Teixeira, o social-democrata Adão Silva e a representante do PCP, Fátima Bento também o meu agradecimento.
Por fim, claro, agradeço sobretudo o empenho do Movimento Cultural da Terra de Miranda que foi e continua incansável nesta matéria!

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Para que queremos a energia renovável?


"A resposta mais imediata é simples: queremos energia renovável para substituir os combustíveis fósseis e para usar energia endógena, reduzindo a dependência de importações. Esta necessidade ficou ainda mais evidente com a guerra em curso no Médio Oriente e o fecho do estreito de Ormuz.
Mas a resposta, sendo correta, está longe de ser completa. A boa resposta é que queremos energia renovável para fazer a transição para a sustentabilidade. E aqui importa ter em mente que renovável não é sinónimo de sustentável.
Um projeto de energia renovável que destrua ou degrade outros pilares da sustentabilidade perde grande parte do seu propósito. A produção de energia não pode ser avaliada apenas pelo seu mérito energético, ignorando os impactos nos territórios, nas comunidades, nos ecossistemas, na biodiversidade ou nos serviços que a natureza nos presta.
Uma barragem pode produzir eletricidade limpa, mas também alaga habitats, fragmenta rios e altera o transporte de sedimentos. Um projeto de biomassa pode tornar-se contraproducente se depender de exploração insustentável da biomassa. Qualquer projeto de energia renovável carece, por isso, de uma avaliação integrada do seu mérito e impacto global.
A energia solar surge à partida como a forma mais próxima de uma solução sustentável, ao captar diretamente a energia que o sol nos fornece diariamente. Ainda assim, também aqui não há soluções automáticas. Painéis fotovoltaicos instalados em telhados ou infraestruturas existentes são, em geral, uma opção sem conflito. Quando colocados sobre solos degradados ou com excesso de insolação, podem mesmo contribuir para o restauro ecológico e coexistir com alguns usos agrícolas. Mas quando implicam o abate massivo de árvores ou a substituição de ecossistemas naturais ou seminaturais valiosos, deixam de fazer sentido.
Há uma tendência humana para colocar o próprio setor ou os próprios interesses acima dos restantes. No setor da energia, isso traduz-se por vezes na ideia de que qualquer projeto de energia renovável deve avançar seja onde for, como se tivesse sempre interesse público preponderante. Não tem. Esse interesse tem de ser avaliado caso a caso, com base numa visão integrada do território.
A definição de áreas de aceleração para energias renováveis pode e deve ser parte da resposta. Mas só será eficaz se assentar em critérios sólidos, que garantam que acelerar não implica degradar, mas antes e idealmente ajudar a regenerar territórios. A melhor aceleração será aquela que orientar os projetos para onde há menor conflito com a natureza, com as pessoas e com usos já instalados do território.
Afinal, a pergunta mantém-se: queremos energia renovável para quê? Se a resposta for apenas para ter mais dessa energia, falharemos. Se for para construir um futuro verdadeiramente sustentável, então teremos de avaliar caso a caso e com critérios alargados de sustentabilidade."
Diretor para o Capital Natural na Direção-Geral do Ambiente da Comissão Europeia
Diretor para a adaptação e tecnologia de baixo carbono na Direção-Geral da Ação Climática da Comissão Europeia
Secretário de Estado do Ambiente
É Doutorado em Biologia Evolutiva e Licenciado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde foi Professor Auxiliar
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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Organizações ambientalistas reivindicam 15 medidas urgentes pela água


Mais de 70 organizações de seis movimentos ambientalistas, de norte a sul do país, apresentaram esta quinta-feira um manifesto reivindicativo que apela aos partidos políticos para que olhem para 15 medidas consideradas urgentes para proteção dos rios e da água.

"Aquilo que se pretende é efetivamente pôr na agenda política as questões da gestão da água e do uso eficiente da água, por forma a que esse recurso, que é finito, seja bem usado e para aquilo que é efetivamente necessário", disse à Lusa Paulo Constantino, porta-voz do Movimento pelo Tejo -- proTEJO, com sede em Vila Nova da Barquinha (Santarém).

Segundo alertou o dirigente, "as práticas que se vislumbram e que têm vindo a ser propostas conduzirão ao seu esgotamento e a uma escassez contínua por um excessivo consumo".

Entre as 15 reivindicações apresentadas, a poucas semanas das eleições legislativas de 10 de março, estão, por exemplo, medidas de combate à seca, de proteção de rios e águas subterrâneas, ou contra os transvases e construção de novas barragens, açudes e dessalinizadoras.

"Não pode haver ofertas ilimitadas de água", afirmou Constantino, tendo defendido a importância de "gerir as necessidades e as disponibilidades de água em cada bacia hidrográfica, satisfazendo as necessidades humanas e as necessidades ecológicas".

'Não aos transvases entre bacias hidrográficas' é a primeira reivindicação que consta num documento que os signatários enviaram na quarta-feira aos partidos políticos com assento parlamentar na Assembleia da República e a que a Lusa teve acesso.

Na lista de 15 reivindicações apresentadas, divididas entre o sim e o não, do lado a combater, segundo os signatários, está o "não aos transvases entre bacias hidrográficas, ao desperdício de água, aos projetos sustentados num aumento do consumo de água (dessalinizadoras, barragens), à construção da dessalinizadora do Algarve, e "à proliferação de barragens e açudes".

Do lado positivo elencam o "sim à proteção das águas subterrâneas, ao cumprimento integral e urgente da legislação comunitária e nacional (Diretiva Quadro da Água, Lei da Água) e à implementação urgente das medidas previstas nos Planos de Bacia Hidrográfica (PGRH), à definição e implementação rigorosa de regimes de caudais ecológicos", e à "implementação de processos de recuperação ecológica".

Ainda do lado positivo está o "sim ao efetivo controlo físico-químico e biológico dos efluentes libertados nos meios hídricos", à redução dos valores limite de emissão dos efluentes libertados pelas estações de tratamento, à definição de políticas eficazes no sentido de regulamentar a proliferação de monoculturas, à disseminação da informação 'online' de acesso livre, a uma estratégia de desenvolvimento conduzida por planos nacionais de restauro fluvial, de eliminação de barreiras transversais, de erradicação de invasoras e de eficiência hídrica a par do "desenvolvimento de programas que de uma forma massiva combatam a iliteracia ecológica".

Os movimentos ambientalistas pedem a "introdução destas questões na campanha eleitoral", e a "observação de um discurso com pensamento estratégico que represente um projeto viável de ação coletiva e individual responsável e com sentido de justiça intergeracional".

As 15 reivindicações pelos rios e pela água são subscritas por mais de 70 organizações nacionais e locais - que incluem Organizações Não Governamentais (ONG, ONGA, associações e municípios -, bem como cidadãos a título individual que fazem parte de seis movimentos com representatividade nas principais bacias hidrográficas do país (AMORA, Mondego Vivo, #MovRioDouro, MUNDA, PAS e proTEJO).

"(...) Chegámos à situação que nos coloca no limiar da sobrevivência face à rapidez das alterações climáticas e, em particular, face à degradação da quantidade e qualidade das águas superficiais e subterrâneas e respetivos ecossistemas", alertam os movimentos subscritores, num documento em que pedem aos decisores políticos para se "agir prioritariamente sobre as causas como forma de combater os efeitos".
Fonte: DN

domingo, 25 de dezembro de 2022

Encontros Improváveis: Olavo Bilac e Susan Kuznitsky

Susan Kuznitsky

"Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que é a providência da terra.

Nasce humilde; e, pequenino,
Foge ao sol abrasador;
É um fio d´´água, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre burburinho.

Agora ao sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.

Agora, indômito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa, cheio
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, alarga o seio,
Cava a terra, o campo alaga . . .

Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Até que cai finalmente,
No seio vasto do mar . . .

Mas na triunfal majestade
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava
O nobre rio, feliz
Mais uma árvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas e quantas
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos . . .

Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Fecundidade ao sertão . . .

E um nobre exemplo sadio
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é a providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o Amor!"

Olavo Bilac- "O Rio"

domingo, 13 de março de 2022

Projeto do CEF vai pela primeira vez quantificar impacto das barragens europeias na conectividade fluvial


O projeto Dammed Fish (Impacto da perda de conectividade estrutural e funcional de redes hidrográficas na biodiversidade piscícola – otimizando soluções de gestão) vai, pela primeira vez, quantificar o impacto de todas as barragens da Europa na conectividade fluvial Europeia.

Liderado pelo Centro de Estudos Florestais (CEF) do Instituto Superior de Agronomia (ISA), em conjunto com parceiros internacionais, o projeto vai produzir “ferramentas gratuitas” para que os gestores possam identificar qual o “melhor cenário de restauro, em cada bacia hidrográfica, de modo a maximizar a conectividade para as várias espécies de peixes”, reduzindo os “custos de intervenção” e a “perda de serviços de ecossistema resultante das barreiras”, explica o Centro, num comunicado.

O Dammed Fish é um projeto que se alinha com várias estratégias e diretivas Europeias, pelo que a equipa espera poder contribuir decisivamente para uma “melhor gestão das bacias hidrográficas e influenciar as futuras políticas da Europa sobre conectividade fluvial e conservação da biodiversidade piscícola”, lê-se no mesmo comunicado.

De acordo com o CEF, os rios ocupam menos de 1% da superfície terrestre e contêm apenas 0,01% de todo o volume de água presente no planeta. No entanto suportam cerca de 9,5% de todas as espécies animais conhecidas e quase 50% de todos os peixes, tendo, por isso, uma importância desproporcional para a manutenção da biodiversidade global.

O desenvolvimento das sociedades humanas teve sempre uma ligação estreita aos sistemas de habitas com água doce, que foram ficando cada vez mais impactados por pressões de origem antropogénica.

De todas estas pressões, a “construção de barragens e açudes”, que fragmentam os rios, é considerada a pressão que “afeta mais espécies de peixes a nível europeu”, influenciando “75% de todas as espécies de peixes ameaçadas” na Europa, refere o centro, acrescentando que, estas barreiras, além de muitos outros efeitos, “não permitem que os peixes se desloquem ao longo do rio, impedido a reprodução com sucesso de muitas espécies”.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Proteger os Ecossistemas de Água Doce

Os ecossistemas aquáticos de água doce são dos habitats mais ameaçados do planeta. O engenheiro florestal Amílcar Teixeira, investigador do CIMO, tenta preservar a qualidade dos rios e ribeiras nacionais, combatendo as grandes ameaças que sobre eles pairam.




O Homem está na origem dos grandes problemas que ensombram a conservação dos nossos rios e ribeiras. A qualidade da água é colocada em causa pelo excesso de poluição e pela enorme quantidade de material orgânico; a pesca excessiva tem um importante impacto predatório sobre os peixes, crustáceos e bivalves mais raros; a introdução de espécies exóticas compete ferozmente e contribui para a aniquilação das espécies autóctones. Como se isso não fosse suficiente, a construção de barragens e açudes muda a natureza das linhas de água, impede migrações e destrói habitats sensíveis.

Todos estes temas estão na agenda de Amílcar Teixeira. Sediados em Montesinho, em pleno Parque Natural, este investigador e a sua equipa do CIMO - Centro de Investigação da Montanha multiplicam-se em estudos de ecologia e de gestão destas áreas vulneráveis. Uma das suas riquezas é a Biodiversidade que albergam - um património natural, que presta serviços essenciais ao planeta e à Humanidade. Um simples mexilhão de água-doce, espécie atualmente muito ameaçada, pode filtrar 50 litros de água por dia. Sem a ajuda de químicos ou de substâncias industriais. Por isso, quando os troços dos rios de montanha eram cobertos por colónias deste mexilhão, a sua água não podia ser mais pura. E este é apenas um exemplo, que se pode multiplicar por toda a frágil cadeia ecológica.

Mesmo nos mais recônditos espaços de montanha, já não encontramos habitats verdadeiramente selvagens. Todos os ecossistemas sofreram alterações provocadas pela presença humana. Mas em locais como o Parque Natural de Montesinho, e em muitas outras áreas protegidas, a Natureza e o Mundo Rural podem e devem coexistir. Depende dos decisores políticos, centrais e locais, a definição de medidas que permitam a conciliação entre a conservação da Natureza e as atividades económicas, como a agricultura, a caça, a pesca e o lazer. Graças ao trabalho dos investigadores, como Amílcar Teixeira, sabemos qual a capacidade de carga desses espaços, como podem ser usufruídos de forma equilibrada e como devemos preservar o património natural que ainda guardam - e que é essencial para combatermos as alterações climáticas em curso.