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sábado, 28 de março de 2026

Albert Einstein sobre a nossa interconectividade ecológica e cósmica


"O ser humano é uma parte do todo a que chamamos 'Universo', uma parte limitada no tempo e no espaço. Ele experiencia-se a si próprio, aos seus pensamentos e sentimentos, como algo separado do resto — uma espécie de ilusão de ótica da sua consciência.

Esta ilusão é uma espécie de prisão para nós, que nos restringe aos nossos desejos pessoais e ao afeto por algumas pessoas mais próximas. A nossa tarefa deve ser libertarmo-nos dessa prisão, alargando o nosso círculo de compaixão de modo a abranger todas as criaturas vivas e a totalidade da natureza na sua beleza."

Esta passagem profunda pertence a uma carta de condolências escrita por Albert Einstein em 12 de fevereiro de 1950.

O destinatário era o Rabino Robert S. Marcus, na época Diretor Político do Congresso Judaico Mundial. O Dr. Marcus havia escrito a Einstein num momento de desespero absoluto, procurando conforto espiritual após a morte prematura do seu filho de 11 anos, vítima de poliomielite.

O Contexto da Carta
Marcus questionava Einstein sobre como conciliar a visão científica do mundo com a necessidade de acreditar na imortalidade da alma para suportar a dor da perda. Einstein respondeu com este texto, que se tornou uma das suas reflexões mais famosas sobre a espiritualidade secular e a interconexão da vida.

O Texto Original (Inglês)
"A human being is a part of the whole, called by us 'Universe,' a part limited in time and space. He experiences himself, his thoughts and feelings as something separated from the rest — a kind of optical delusion of his consciousness.

This delusion is a kind of prison for us, restricting us to our personal desires and to affection for a few persons nearest to us. Our task must be to free ourselves from this prison by widening our circle of compassion to embrace all living creatures and the whole of nature in its beauty."

Onde ler o original
Como Einstein escreveu esta carta de forma privada, ela não foi um artigo científico publicado originalmente, mas foi preservada nos Arquivos Albert Einstein. Pode encontrar o registo e transcrições em fontes arquivísticas e literárias de referência:

  1. Albert Einstein Archives: o documento está catalogado sob a referência 33-188.
  2. Livro: The New Quotable Einstein, editado por Alice Calaprice (Princeton University Press).
  3. Digital: o site The Marginalian possui um artigo detalhado que inclui a carta enviada pelo Rabino e a resposta de Einstein.
A carta completa também está no livro "The Quantum and the Lotus: A Journey to the Frontiers Where Science and Buddhism Meet", 2020

Matthieu Ricard formou-se em biologia molecular, trabalhou e concluiu um Doutoramento no Instituto Pasteur, em Paris, sob a supervisão do cientista francês François Jacob, um cientista vencedor do Prémio Nobel, mas quando leu sobre filosofia budista, sentiu-se atraído pelo budismo. Eventualmente, deixou a sua vida na ciência para estudar com mestres tibetanos e é agora monge budista e tradutor do Dalai Lama, vivendo no mosteiro de Shechen, perto de Katmandu, no Nepal. Trinh Thuan nasceu numa família budista no Vietname, mas ficou intrigado com a explosão de descobertas na astronomia durante a década de 1960. Foi para o prestigiado Instituto de Tecnologia da Califórnia para estudar com alguns dos maiores nomes da área e é agora um astrofísico aclamado e especialista em como as galáxias se formaram.
Quando Matthieu Ricard e Trinh Thuan se conheceram numa conferência académica, no verão de 1997, começaram a discutir as muitas ligações notáveis ​​entre os ensinamentos do Budismo e as descobertas da ciência recente. Esta conversa transformou-se numa correspondência surpreendente, explorando uma série de questões fascinantes. O universo teve um início? Ou será que o nosso universo é apenas um numa série de universos infinitos, sem fim nem princípio? Será que o conceito de um início do tempo é fundamentalmente falho? Será que a nossa perceção do tempo é, na verdade, uma ilusão, um fenómeno criado nos nossos cérebros que não possui uma realidade última? Será que o impressionante ajuste fino do universo, que produziu as condições ideais para a evolução da vida, é um sinal de que um "princípio da criação" está em ação no nosso mundo? Se tal princípio da criação sustenta o funcionamento do universo, o que nos diz isto sobre a existência ou não de um Criador divino? Como é que a interpretação radical da realidade oferecida pela física quântica se conforma e, ao mesmo tempo, difere da conceção budista da realidade? O que é a consciência e como evoluiu? Pode a consciência existir independentemente de um cérebro que a gere?
A estimulante viagem de descoberta percorrida pelos autores nas suas discussões é recriada de forma primorosa em "O Quântico e o Lótus", escrito ao estilo de um diálogo animado entre amigos. Tanto os ensinamentos fundamentais do Budismo como as descobertas da ciência contemporânea são apresentados com grande clareza, e o leitor ficará profundamente impressionado com as muitas correspondências entre as duas correntes de pensamento e de revelação. Ao longo do seu diálogo, os autores chegam a um notável encontro de mentes, oferecendo, em última análise, uma nova e vital compreensão das muitas formas como a ciência e o budismo se confirmam e se complementam, e das formas como, como escreve Matthieu Ricard, "o conhecimento dos nossos espíritos e o conhecimento do mundo são mutuamente esclarecedores e fortalecedores".
"O Quântico e o Lótus é uma exploração instigante e reveladora dos paralelos fascinantes entre o pensamento vanguardista na física e o Budismo - uma conversa brilhante que qualquer pessoa pensante teria prazer em ouvir." — Daniel Goleman, autor de "Inteligência Emocional"
"O Quântico e o Lótus é o resultado rico e inspirador de um diálogo profundamente interessante entre a ciência ocidental e a filosofia budista. Este livro notável contribuirá muito para uma melhor compreensão da verdadeira natureza do nosso mundo e da forma como vivemos as nossas vidas." —Sua Santidade o Dalai Lama

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

"Homem mais feliz do mundo" partilha o segredo para uma vida feliz



Um monge budista de 76 anos é aparentemente a “pessoa mais feliz do mundo” e revelou que alcançar uma existência feliz leva apenas 15 minutos por dia!

Tendo obtido um doutoramento em genética molecular, Matthieu Ricard mudou o seu caminho da ciência para se tornar um monge budista e foi declarado a “pessoa mais feliz do planeta” após um estudo de 12 anos pela Universidade de Wisconsin.

Com 256 sensores ligados ao crânio do monge, os neurocientistas descobriram que o cérebro de Ricard produzia ondas gama ligadas à consciência, atenção, aprendizagem e memória durante a meditação, em níveis nunca antes relatados.

Os exames também mostraram atividade excessiva no córtex pré-frontal esquerdo do cérebro, em comparação com o lado direito. Isto lhe dá uma capacidade anormalmente grande de felicidade e também leva à redução da negatividade. Viva!

Mas o que é que o deixa tão... bem... feliz? Em entrevista ao Business Insider no Fórum Económico Mundial na Suíça há alguns anos, conforme relatado por Unilad, o monge explicou que tudo se resume a ser altruísta e benevolente.

“Não é a base moral”, disse ele. “É simplesmente que eu, eu, eu o dia todo estamos muito abafados. E é bastante miserável, porque você instrumentaliza o mundo inteiro como uma ameaça, ou como um tipo potencial de interesse [para si mesmo]”.

Ele continuou: “Se a sua mente está cheia de benevolência, você sabe, paixão e solidariedade… este é um estado de espírito muito saudável que conduz ao florescimento.

“Então você mesmo está num estado mental muito melhor. O seu corpo ficará mais saudável, assim foi demonstrado. E também, as pessoas vão perceber isso como algo legal.”

Embora não esteja especialmente interessado no título de “pessoa mais feliz do mundo”, o monge budista sugeriu que ter pensamentos felizes durante 10 a 15 minutos por dia é uma boa maneira de começar, e que é importante concentrar-se em não deixando a sua mente se distrair.

Ricard também deu uma palestra no TED sobre os hábitos de felicidade:

terça-feira, 29 de maio de 2018

Eduardo Punset entrevista Matthieu Ricard- A ciência da compaixão (legendado em português)



“Para além de meditar sobre a compaixão, temos que levá-la à ação”~ Matthieu Ricard


O biólogo e monge budista francês Matthieu Ricard, um dos nomes mais conhecidos que vem colaborando nas pesquisas científicas sobre meditação e compaixão, membro do Mind & Life Institute, é o entrevistado de Eduardo Punset no programa 60 intitulado “A Ciência da Compaixão“, da espanhola Redes Educación, com produção da Agencia Planetaria para a TVE da Espanha e transmitido originalmente em maio de 2010. O tema é a compaixão e o altruísmo verdadeiro como natureza humana intrínseca, que Matthieu Ricard defende contra a crença que as pessoas são intrinsecamente más, um dogma não apenas de parte da ciência, mas de campos da psicologia e da economia, como explica Ricard na entrevista. “Dizer que o altruísmo verdadeiro não existe é uma tolice“, afirma ele.

Abaixo, um dos trechos transcritos em português da entrevista: 

Eduardo Punset: Para grande parte da ciência ocidental o ser humano é intrinsecamente mau.

Matthieu Ricard: O que existe é um culto ao egoísmo. E me parece muito estranho, porque não se encaixa com os dados científicos. Se trata de uma caso de distorção, em princípio. Podemos ver na economia, e também em alguns aspectos da evolução, e também em alguns aspectos da psicologia. Há toda uma escola de filosofia chamada egoísmo psicológico, e inclui algo denominado egoísmo ético, que postula que somos egoístas e que está bem assim, que devemos sê-lo, “porque preocupar-nos?”, 

Punset: Temos que sobreviver… 

Matthieu Ricard: …e porque nos sentirmos culpados se não ajudamos os outros? Me parece a receita perfeita para chegarmos à catástrofe completa. Não só porque é profundamente enganoso, mas porque pressupõe que qualquer conduta ou motivação que parece altruísta tem sempre por trás uma motivação egoísta. 

Punset: Uma motivação subjacente… 

Ricard: … e se converte numa espécie de dogma. Ademais, na Psicanálise, praticamente tudo que temos está motivado pelo “eu”, “eu”, “eu”. Se tentamos ser bons, é à custa de algo, que não é muito bom para seu estado mental. Essa negação do lado bom da natureza humana me parece terrível. Para qualquer um que queira ver, os dados sociológicos demonstram que o altruísmo verdadeiro existe, claro. Também somos egoístas às vezes, e há pessoas mais egoístas que altruístas, mas dizer que o altruísmo autêntico não existe é uma tolice.

sábado, 6 de maio de 2017

Entrevista a Matthieu Ricard - A felicidade egoísta está condenada ao fracasso

Podemos ser felizes com pouco e infelizes com muito. Quem o diz é Matthieu Ricard, monge budista que, no início de maio de 2015, esteve em Portugal para falar sobre altruísmo e felicidade. Nesta conversa deixou um desafio: «ouse» fazer o bem aos outros sem esperar nada em troca.
Fonte: Notícias Magazine

 Foi reconhecido, de acordo com estudos científicos, como o homem mais feliz do mundo. Como é o seu quotidiano?_ Os seus colegas jornalistas gostam muito da história de acordo com a qual a minha humilde pessoa seria «o homem mais feliz do mundo». Foi um rumor, sem nenhuma base científica, que surgiu há uns anos num documentário sobre a felicidade apresentado pela cadeia de televisão australiana ABC, e que dizia que «talvez tenhamos aqui o homem mais feliz do mundo». Toda a gente po­de encontrar a felicidade desde que a procure onde ela se encon­tra. Quanto ao meu dia-a-dia, faço todo o possível para partilhar o meu tempo entre retiros meditativos e os projetos humanitários que tenho a cargo nos Himalaias.

Gosta muito de fotografia e coloca as imagens que faz num blogue com o seu nome…_ Para mim a fotografia é um hino à beleza. Comecei a fotogra­far aos 15 anos com um amigo fotógrafo de animais e apaixonado pela natureza. Após ter ido para os Himalaias, em 1972, fotogra­fei os meus mestres espirituais e o seu mundo. De acordo com os ensinamentos budistas, todos os seres detêm a natureza de Buda. Através da fotografia quis mostrar a beleza dessa natureza huma­na, a beleza e a dignidade, que podem coexistir com o sofrimen­to mais intenso e a esperança pode sobreviver mesmo à destrui­ção e à perseguição. O povo tibetano dá-nos essa prova, pois sou­be conservar essa alegria, a força interior e confiança enquanto sofria um genocídio humano e cultural. As imagens de sofrimen­to, de desespero e ignomínia abundam. Nunca consegui tirar fo­tografias dessas. Para mim, é essencial inspirar a esperança e a confiança, é aquilo que mais nos falta e de que mais precisamos.

Vários estudos indicam que as redes sociais podem levar a uma maior solidão do ser humano. Está de acordo?_ Com efeito, segundo a socióloga americana Sherry Turkle, os canais ditos «sociais» são, na realidade, um meio de estar só, es­tando conetado a muita gente. Um jovem de 16 anos que comu­nica principalmente através de mensa­gens fazia notar com uma certa amar­gura: «Um dia, um dia, mas de certeza não agora, gostaria de aprender a ter uma conversa.» Os jovens passaram da conversação à conexão. Quando se tem três mil amigos no Facebook não po­demos evidentemente ter qualquer ti­po de verdadeira conversa. Apenas nos conetamos para falar de nós próprios para um auditório garantido. As con­versas eletrónicas são lapidares, rápidas e por vezes brutais. As conversações humanas, face a face, têm uma natureza diferen­te: evoluem lentamente, têm muitas nuances e ensinam-nos a pa­ciência. Numa conversa somos chamados a ver as coisas de um outro ponto de vista, uma condição necessária à empatia e ao al­truísmo.

Vem a Lisboa falar sobre O Altruísmo e a Felicidade. Qual a principal mensagem que traz?_ Um dos maiores desafios da atualidade consiste em conciliar os imperativos da economia, da procura da felicidade e do respeito pelo ambiente. A economia e a finança evoluem a um ritmo cada vez mais rápido; a satisfação de vida mede-se com base num pro­jeto assente numa carreira, numa família, numa geração; e o am­biente, que tradicionalmente se media em eras geológicas, está, hoje, devido aos transtornos ecológicos provocados pelas ativi­dades humanas, em rápida mudança. Precisamos de um fio de Ariana que nos permita encontrar o caminho neste labirinto de preocupações graves e complexas. O altruísmo é o fio que nos po­de permitir ligar naturalmente as três escalas de tempo – curto, médio e longo prazo – harmonizando as suas exigências.

Uma família com o pai e a mãe desempregados pode ser feliz?_As circunstâncias da vida podem ser muito difíceis, mas é preciso lembrarmo-nos de que há mil maneiras de viver a ad­versidade. Quando somos confrontados com situações que não escolhemos, o modo como vivemos as coisas pode agravá-las consideravelmente, ou aligeirá-las. A nossa mente pode ser o nosso melhor amigo ou o nosso pior inimigo. Por muito influen­tes que possam ser as condições externas, o mal-estar, tal como o bem-estar, é essencialmente um estado interior. Devemos assim fazer todos os possíveis para melhorar as condições exteriores e a qualidade de vida, para enfrentar as desigualdades salariais e de riqueza que vão crescendo na maior parte dos países da OCDE e que são particularmente visíveis em Portugal, mas é importante não colocar todas as nossas esperanças fora de nós. É que pode­mos ser muito infelizes quando aparentemente temos tudo para ser felizes e, ao contrário, sermos serenos na adversidade.

Existe uma receita para alcançar a felicidade?_ Uma receita não, mas uma visão e métodos sim. A felicidade é, antes de mais, uma maneira de ser, um estado adquirido de pleni­tude subjacente a cada instante da existência e que perdura atra­vés das inevitáveis incertezas que vivemos. No budismo, a pa­lavra soukha designa um estado de bem-estar que nasce de uma mente excecionalmente saudável e serena. É uma qualidade que impregna cada experiência, cada comportamento, que abraça to­das as alegrias e todas as mágoas. É igualmente um estado de sabedoria e de conhecimento, liberto de venenos mentais e da cegueira sobre a verdadeira natureza das coisas. Soukha está es­treitamente ligado à compreensão da forma como funciona a nossa mente e depende da nossa forma de interpretar o mundo. É difícil mudar este último, mas é possível transformar a maneira como o percecionamos.

Ser feliz tem que ver com o «eu» ou com os «outros»?
_ Contribuir para a realização do bem dos outros é não só a mais desejável das atividades, mas também a melhor for­ma de realizar indiretamente o nosso próprio bem. A persegui­ção de uma felicidade egoísta está condenada ao fracasso, mas o contributo para o bem do outro constitui um dos principais fa­tores de estabilidade e, em última instância, de progresso em di­reção ao Despertar.

O altruísmo não é uma forma de apaziguar o ego? Quando fazemos bem aos outros não estamos, em primeiro lugar, a tratar de nós próprios?_ A autoestima – o facto de sentir contentamento quando as nos­sas aspirações são satisfeitas – é compatível com a benevolência para com o outro, em oposição ao amor-próprio, que coloca os nos­sos interesses à frente dos do outro e exige que o mundo inteiro te­nha em consideração os nossos desejos. No entanto, a realização do bem dos outros não implica o sacrifício da nossa própria feli­cidade, bem pelo contrário. Se nos movemos por uma motivação altruísta, sincera e determinada, contribuir para o bem do outro é uma situação vivida como uma vitória e não como um falhan­ço, um ganho e não uma perda, uma alegria e não uma mortifi­cação. «O amor é a única coisa que duplica de cada vez que a da­mos», dizia Albert Schweitzer. Nunca poderemos, assim, falar de sacrifício, uma vez que, subjetivamente, o ato cumprido, lon­ge de ter sido sentido como um sofrimento ou perda, trouxe-nos satisfação de ter agido de maneira justa, desejável e necessária. O mundo do ego é como um pequeno copo de água: umas pitadas de sal chegam para o tornar intragável. Mas o que faz estoirar a bolha do ego é compa­rado a um grande lago: um punhado de sal não muda em nada o sabor. Em conclusão, o egoísmo só faz perdedores: torna-nos infe­lizes e leva-nos a fazer infelizes os que nos rodeiam. O amor altruísta é a mais positiva de todas as emoções positivas.

Vai estar também no Porto numa conferên­cia sobre Meditação e Ciência. Qual é a liga­ção entre uma coisa e outra?_ A partir do ano 2000, foram lançados programas de investigação com um gru­po de pessoas que tinha consagrado uma vintena de anos ao desenvolvimento sis­temático da compaixão, do altruísmo e da paz interior. A análise de certos dados de­monstrou diferenças espetaculares en­tre os meditantes e os não praticantes. Os primeiros tinham a faculdade de gerar es­tados mentais precisos, poderosos e du­ráveis. De acordo com o investigador Ri­chard Davidson, de Wisconsin, «foi pos­sível demonstrar que o cérebro pode ser treinado e modificado fisicamente de uma forma que poucos imaginam». E quan­tas mais horas de prática, mais assinalá­vel é a transformação cerebral. Outros tra­balhos demonstraram que as áreas do cé­rebro ativadas pela empatia são distintas das que são ativadas pela compaixão e pe­lo amor altruísta. Sabemos que a resso­nância empática com a dor do outro pode conduzir, se repetida muitas vezes, a uma exaustão emocional e à aflição. É isto que vivem frequentemente os enfermeiros e médicos por estarem em contato com doentes em grande sofrimento. Este fenó­meno, conhecido em inglês como burnout, é traduzível como «exaustão emocional» ou ainda «fadiga da compaixão». Constatou-se que a compaixão e o amor altruísta estavam associados às emoções positivas. E que o burnout é uma «fadiga da empatia» e não da compaixão. Esta úl­tima, com efeito, longe de levar à aflição ou ao desencorajamento, reforça o estado de alma, o equilíbrio interior e a determinação corajosa de ajudar aqueles que sofrem. Assim, o amor e a compai­xão não geram nem fadiga nem desgaste, mas, pelo contrário, aju­dam a ultrapassá-los e a repará-los.

Os médicos acreditam nesse «poder» da meditação para prevenir doenças?_ Outras experiências científicas demonstraram que não é neces­sário ser um meditante muito treinado para beneficiar dos efeitos da meditação, e que vinte minutos de prática diária contribuem significativamente para a redução da ansiedade e do stress, da ten­dência a ficar colérico (cujos efeitos na saúde estão bem identifi­cados) e do risco de recaída em caso de depressão grave. Oito se­manas de meditação sobre a consciência plena, de cerca de trin­ta minutos diários, reforçam notavelmente o sistema imunitário. O que é indispensável, na prática, não é meditar durante longos períodos, mas fazê-lo regularmente. O estudo da in­fluência dos estados mentais sobre a saúde, outrora classificados como fan­tasia, está cada vez mais na ordem do dia da investigação científica.

Deixou uma carreira científica para abra­çar o budismo. Qual foi o momento deter­minante para essa mudança?_ O momento-chave foi o encontro com mestres espirituais tibetanos, na Índia. Tive uma imensa sorte de encon­trar o meu mestre espiritual, Kangyur Rinpotché, em 1967, perto de Djarlee­ling, na Índia, e de passar, depois da sua morte, em 1975, alguns anos em retiro perto do mosteiro onde viveu. A par­tir de 1981, tive o privilégio de viver 13 anos junto de um outro grande mestre tibetano, Dilgo Khyentsé Rinpotché, e de receber os seus ensinamentos. De­pois, tive numerosas ocasiões de ser­vir o XIV Dalai Lama e de receber os seus ensinamentos. Um mestre espiri­tual autêntico é alguém que vos mos­tra aquilo que vocês poderiam ser. É al­guém que está em perfeita sintonia com aquilo que ensina. O mensageiro torna–se a mensagem.

Meditar está ao alcance de todos?_ Claro que sim! A meditação visa al­cançar um melhor conhecimento da nossa mente e uma maior capacidade de gerir os nossos pensamentos. Estamos confrontados com a nossa mente de manhã à noite e é ela, afinal de contas, que determina a qualidade de cada momento da nossa existência. O facto de conhecer melhor a sua verdadeira natureza e de compreender os seus mecanismos vai influenciar de maneira crucial essa qualidade.

As emoções condicionam a nossa mente. O que diria a quem sente raiva, ciúme, inveja…?_ É preciso, em primeiro lugar, que essa pessoa reconheça o cará­ter destrutivo dessas emoções. Quando falamos de emoções ne­gativas, como no caso da raiva ou do ciúme, o termo «negativo» não tem valor moral, mas prático. Isto significa «menos» felicida­de e mais sofrimento. Ouvimos dizer que o budismo em geral, e a meditação em particular, visam suprimir as emoções. Tudo de­pende daquilo que entendemos por «emoção». Se forem pertur­bações mentais como o ódio e a inveja, porque não desembara­çarmo-nos delas? Se for um sentimento de amor altruísta ou de compaixão para com os que sofrem, porque não desenvolver es­sas qualidades? Este é, em qualquer caso, o objetivo da meditação. Compreendamos que é a acumulação e encadeamento das emo­ções e dos pensamentos que geram os nossos humores, os quais duram alguns instantes ou alguns dias, e que formam, a longo prazo, as nossas tendências e traços de caráter. É por isso que se aprendermos a gerir as emoções, pouco a pouco, de emoção em emoção, de dia para dia, acabaremos por transformar a nossa maneira de ser.

O budismo é uma filosofia de vida?_ O budismo é uma religião, uma filo­sofia, uma sabedoria ou uma arte de vi­ver? É uma questão frequentemente co­locada ao Dalai Lama e à qual responde com humor: «Pobre budismo! Eis que é rejeitado pelos religiosos, que dizem que é uma filosofia ateia, uma ciência da mente, e pelos filósofos que o colocam na prateleira das religiões. Mas isto po­de ser uma vantagem, pois permite-lhe construir uma ponte entre as religiões e filosofias». Diria que o budismo é uma tradição espiritual da qual emana uma sabedoria aplicável a todos os momen­tos da existência e em todas as circuns­tâncias.

E, em sua opinião, porque é que vai con­quistando cada vez mais seguidores no Ocidente?_ Tem de lhes perguntar! Não posso fa­lar por eles. Talvez seja devido ao facto de o budismo oferecer uma perspetiva muito pragmática em relação aos me­canismos da felicidade e do sofrimento.

Como vê o atual Papa Francisco? Existe algum ponto em comum entre o catolicis­mo e o budismo?_ Tenho grande admiração pelo Papa Francisco, pela sua simplicidade, pela sua humildade e bom senso. Estou con­vencido de que pode fazer muito pelo mundo. Fiquei particularmente surpreendido quando, pouco tempo depois da sua eleição, foi a uma prisão em Itália e lavou os pés a uma mulher muçulmana. O budismo e o cristianismo têm em comum a importância que dão ao amor ao próximo. É preci­so que as religiões estejam ao serviço dos mais humildes e dos ne­cessitados, o seu objetivo não deve ser o de converter as pessoas, mas sim ajudá-las e libertá-las dos seus sofrimentos.

O que «ganhou» em tornar-se um monge budista?_ A liberdade de me dedicar o mais possível – embora nunca o su­ficiente, devia, claro, praticar mais – à prática espiritual.

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QUEM É MATTHIEU RICARD?
Nasceu em Paris, em 1946, num meio privilegiado, filho do filósofo francês Jean François Revel e da pintora Yahne Le Tourmelin. Doutorado em Biologia Molecular pelo Instituto Pasteur, sob orientação do Prémio Nobel François Jacob, cedo se interessou pelo budismo. Decidiu então abandonar a carreira científica e tornar-se monge. Escreveu várias obras sobre a espiritualidade, sendo a mais conhecida O Monge e o Filósofo – um diálogo com o seu pai sobre o sentido da vida. É um amante da fotografia, tendo cerca de uma dezena de livros publicados com imagens de rara beleza sobre a Índia, Nepal, Butão e Tibete, e um membro ativo do Mind and Life Institut, com sedes na Suíça e nos EUA. Desenvolveu a asso­ciação Karuna-Shechen, através da qual apoia projetos huma­nitários e construção de pontes, sobretudo nos Himalaias. É também conhecido como o «homem mais feliz do mundo».

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

Mathieu Ricard : Os hábitos de felicidade

O que é a felicidade? Como podemos atingi-la? Mathieu Ricard, bioquímico de formação e monge budista por opção, diz-nos que podemos treinar as nossas mentes em hábitos de bem-estar de forma a gerar um verdadeiro estado de bem-estar e realização.
Às vezes chamado de “o homem mais feliz do mundo”, Matthieu Ricard é um monge budista, autor e fotógrafo.

Por que você deveria ouvir
Após formação em bioquímica no Instituto Pasteur, Matthieu Ricard deixou a ciência para trás para se mudar para os Himalaias e tornar-se monge budista - e para perseguir a felicidade, tanto a nível humano básico como como objecto de investigação . Alcançar a felicidade, ele passou a acreditar, requer o mesmo tipo de esforço e treinamento mental que qualquer outra busca séria envolve.

Suas reflexões profundas e com matiz científico sobre a felicidade e o budismo se transformaram em vários livros, incluindo The Quantum and the Lotus: A Journey to the Frontiers Where Science and Buddhism Meet . Ao mesmo tempo, ele também tira fotos sensíveis e deslumbrantes de seu amado Tibete.e o eremitério espiritual onde vive e trabalha em projetos humanitários.


Seu último livro sobre felicidade é Felicidade: um guia para desenvolver a habilidade mais importante da vida ; seu último livro de fotografias é Tibet: An Inner Journey .
O que os outros dizem 
“Matthieu Ricard, tradutor francês e braço direito do Dalai Lama, foi sujeito a testes clínicos intensivos na Universidade de Wisconsin, e como resultado é frequentemente descrito como o homem mais feliz do mundo.” -Robert Chalmers, O Independente