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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

quinta-feira, 8 de maio de 2025

O novo macarthismo é uma oportunidade para a Europa?


«Foram poucos minutos, mas os suficientes para o ato de resistência ser fotografado e partilhado. Hasteado numa residência estudantil de Harvard, um pequeno pano lembrava que a “liberdade de expressão inclui a Palestina”. A mensagem responde ao estrangulamento financeiro às universidades decretado pela administração Trump. Com base na acusação de inação perante o antissemitismo, Trump exige que alterem currículos com critérios políticos e pretende influenciar critérios na admissão de estudantes internacionais.

Quem não capitular perante o novo macarthismo sentirá, de forma ainda mais violenta, o apertar no torniquete dos cofres públicos. A Johns Hopkins despediu mais de dois mil funcionários após um corte de 800 milhões de dólares. A Universidade de Columbia cedeu, após ver congelados 400 milhões por causa dos protestos estudantis contra a ocupação de Gaza. Dos 25 estabelecimentos de ensino superior que mais financiamento federal receberam nos EUA em 2023, pelo menos 16 estão sob investigação. Entre estes, 10 estão a ser alvo de especial atenção por parte de uma task force governamental contra o alegado antissemitismo, tratando qualquer crítica a Israel como apologia do Hamas.

Rebecca Simmons, médica e investigadora há mais de 50 anos nos EUA, viu o seu projeto sobre complicações na gravidez entre mulheres negras e pobres bloqueado por uma ordem executiva que proíbe financiamento federal a estudos sobre diversidade. Como este, há centenas de casos semelhantes, com impacto direto na saúde pública e inovação médica.

Nem as universidades internacionais com protocolos com as americanas, como algumas portuguesas, são poupadas, exigindo a administração Trump o fim de políticas contra a discriminação ou o fim da investigação em áreas “sensíveis” como a saúde pública.

Revolução Cultural
Das grandes firmas de advocacia às cadeias de televisão, a capitulação perante as exigências autocráticas tem sido regra nestes loucos meses em Washington. Justiça seja feita a Trump: nem as instituições mais poderosas são poupadas. Pelo contrário, a sua capitulação é especialmente importante, exatamente pelo seu poder simbólico. Por isso o braço de ferro com Harvard se tornou tão relevante.

Em resposta à chantagem, Harvard decidiu enfrentar Trump, garantindo que prefere perder 2000 milhões de dólares vindos dos cofres federais do que abdicar do controlo da instituição e da liberdade de definir os seus currículos. Claro que o desafogo financeiro da universidade mais rica do mundo, com um orçamento anual de 50 mil milhões de dólares, ajuda a alguma resistência. Mas o reitor sabe que tem muito a perder, como a isenção fiscal de que beneficia, vital para apoios privados. Até agora, nem isso demoveu a instituição, que sente também a responsabilidade de defender as restantes faculdades sem o seu músculo financeiro, de enfrentar a administração Trump em tribunal. O que está em causa, com este corte financeiro, não é tanto o funcionamento da universidade, mas o dos seus centros de investigação médica. Dos 9000 milhões de dólares que Harvard recebe do Estado, 7000 destinam-se a onze hospitais em Boston e Cambridge.

Os EUA estão a viver uma guerra cultural inspirada, na sua lógica, no estertor de Mao: a purificação do sistema político contra a imposição de um quadro de valores, não natural, pelas elites que dominam o sistema contra a vontade do povo. J.D. Vance não podia ter sido mais claro: “as universidades são o inimigo”. Vance, ele próprio formado em Yale, argumenta que a verdade e o conhecimento nos EUA têm sido moldados pelas universidades com base numa tirania. E perguntou: “Porque consentiram os conservadores esta tirania intelectual?” Quebrar as universidades é fundamental para impor uma nova hegemonia cultural.

A guerra cultural americana já não é meramente simbólica. Atacar as universidades serve três propósitos: destruir uma das últimas barreiras institucionais ao autoritarismo, castigar quem não se ajoelha e consolidar o ressentimento das bases contra as “elites do saber”. Trump segue o guião da Hungria, onde Orbán fez o mesmo, quebrando sem dificuldade a resistência das universidades, agora transformadas em fundações com amplo controlo político.

Vive-se, por cá, o mito da ausência de Estado no domínio tecnológico e científico norte-americano. A eficácia da chantagem de Trump, usando o corte de apoios públicos, desmonta a fantasia.

O investimento federal nas universidades ascende a 60 mil milhões de dólares, um valor trinta vezes superior (atualizado à inflação) às transferências anteriores à Segunda Guerra Mundial. Foi a corrida pela descoberta da bomba nuclear, um esforço titânico que juntou dezenas de investigadores das maiores universidades e institutos, que abriu o caminho para o financiamento de projetos de larga escala. A Guerra Fria, a conquista do espaço, a nova fronteira tecnológica, tudo foi consolidando o apoio público à investigação aplicada que abriu caminho a quase todas as grandes inovações do nosso tempo.

As empresas privadas investem quantias astronómicas em inovação aplicada. Mas ela repousa em décadas de investigação em ciência base que permite, anos depois, a massificação de produtos ou novas tecnologias. A nova geração de vacinas usadas para combater a Covid-19 foi possível graças à pesquisa e ao desenvolvimento efetuados nos anos 60 do século passado.

RIO
Consoante o ranking, 16 ou 20 das 25 melhores universidades do mundo estão nos EUA. Tirando uma breve aparição de Zurique, só as do Reino Unido, com três dos lugares cimeiros, se destacam nas europeias. Nenhuma de uma União Europeia que tanto fala em ciência e inovação. A China, pelo contrário, tem uma ou duas (e Singapura uma).

Não está escrito em pedra que as melhores universidades e centros de inovação fiquem sempre no mesmo país. A Alemanha foi o centro académico até 1933, e deixou de o ser com a perseguição aos judeus e à liberdade de expressão, essencial para o trabalho académico, dando origem a uma fuga de cérebros prontamente acolhida pelos EUA.

Mais de 75% dos investigadores que responderam a um inquérito conduzido pela Nature admitem abandonar os EUA para poder prosseguir o seu trabalho na Europa ou no Canadá. Algumas universidades europeias já sentem o aumento do número de candidaturas do outro lado do oceano e, como sempre, alguns estão mais acordados do que outros. Doze governos escreveram uma carta à comissária europeia da Inovação, defendendo uma estratégia concertada para tentar captar talento internacional para as universidades do continente. Entre esses países encontramos a França, Espanha, Alemanha ou Grécia, mas, como é evidente, nem sinal de Portugal.

É preciso repetir programas de atração, como o que os EUA levaram a curso no pós-guerra (Operação Paperclip), mas desta vez em sinal contrário. A Europa ainda tem uma vantagem em relação à China: é vista como um espaço de liberdade de pensamento, crítica e investigação.

Como avisa Bruno Maçães no Perguntar Não Ofende, a liberdade não chega (nem é certo que, em algumas áreas, isso seja assim tão relevante para os cientistas). A diferença salarial e de investimento em investigação é enorme. É preciso investir e coordenar investimento.

Primeiro Macron, depois Von der Leyen, foram bastante agressivos no discurso sobre a captação de talento das universidades norte-americanas. “A Europa deve continuar a ser a pátria da liberdade académica e científica”, disse a presidente da Comissão Europeia, na apresentação do programa “Escolhe a Europa”. Garantindo que a União Europeia já apoia investigadores que venham para o espaço europeu, atribuindo um complemento à sua bolsa, anunciou “um novo pacote de 500 milhões de euros para 2025-2027, para tornar a Europa um pólo de atracção para os investigadores.” Dá pouco mais 150 milhões por ano para todos os países europeus. Para que se perceba a gota no oceano, mesmo com os cortes de Trump, os EUA continuam a investir 7000 milhões só em Harvard.

Também aqui, o bom aluno português decide ficar para trás. Se a situação já não era boa com o anterior governo, agora temos o orçamento mais baixo da Fundação Ciência e Tecnologia desde 2018. De nada nos serve ter investigadores internacionais com vontade de vir para Portugal se os nossos centros estiverem lotados de precários a trabalhar sem reconhecimento. Não é só uma questão monetária, mas também de estatuto, autonomia e ambiente favorável à investigação.

Ou encaramos a produção de saber como um fator de diferenciação e qualificação da economia, ou continuaremos condenados a olhar para o sucesso dos outros, a depender de monoculturas de baixo valor acrescentado, como a do turismo, e a baixar o IRC na esperança de que assim nasçam flores no deserto. É uma escolha que devia passar pela campanha eleitoral.»

domingo, 8 de novembro de 2015

Quando as empresas são mais poderosas que os países

Imagine uma companhia com a influência da Google, do Facebook ou da Amazon. E que ainda recebe do Estado o monopólio do comércio com uma zona geográfica. Também pode cobrar impostos, assinar acordos comerciais, prender criminosos e declarar guerras. Esses eram alguns dos poderes e atribuições da Companhia Holandesa das Índias Orientais, criada no século XVII por empresários com o apoio do Governo dos Países Baixos para comercializar com a Ásia. Foi a primeira corporação transnacional que emitiu obrigações e ações no mercado para financiar o seu crescimento, um notório precedente que, séculos mais tarde, chegou às multinacionais modernas. Os novos gigantes empresariais não contam com os excecionais privilégios da histórica companhia holandesa, mas a sua receita e o seu valor na Bolsa superam o PIB de dezenas de países.

Hoje, a concentração de poder é especialmente clara no setor tecnológico. As cinco grandes – Apple, Google, Microsoft, Facebook e Amazon – são as mais valiosas da Bolsa. A sua capitalização oscila entre os 500 mil milhões de dólares do Facebook e os 850 mil milhões de dólares da Apple. Com este critério – um tanto volátil, mas indicador do potencial de uma empresa –, se a Apple fosse um país, teria um tamanho semelhante ao da economia turca, holandesa ou suíça. Silicon Valley, além disso, tem uma presença considerável nos novos negócios: a Google absorve 88% da quota de mercado de publicidade online. O Facebook (incluindo Instagram, Messenger e WhatsApp) controla mais de 70% das redes sociais em telemóveis. A Amazon tem 70% da quota de mercado dos livros eletrónicos e, nos Estados Unidos, absorve 50% do dinheiro gasto em comércio eletrónico.

69 das 100 principais entidades económicas do mundo são empresas e apenas 31 são países
As companhias das Índias (os britânicos e os franceses também tiveram as suas durante o período colonial) foram um reflexo do seu tempo, mas o seu poder faz lembrar, em certos aspetos, o das grandes corporações atuais. Serão os novos colonos? A organização não-governamental Global Justice Now realiza uma classificação que compara o volume de negócios das principais empresas com a receita orçamental dos países. Segundo essa lista, se a cadeia norte-americana de supermercados Walmart fosse um Estado, ocuparia o décimo posto, atrás dos EUA, China, Alemanha, Japão, França, Reino Unido, Itália, Brasil e Canadá. No total, 69 das 100 principais entidades económicas são empresas. As 25 corporações que mais faturam superam o PIB de inúmeros países.

Seria ingénuo pensar que o setor privado não influencia as decisões políticas, a elaboração de leis e o dia a dia dos cidadãos. Como é que esse poder se articula hoje? Moisés Naím afirma em O Fim do Poder que as estruturas estáticas que caraterizavam as grandes empresas há algumas décadas, como as das chamadas Sete Irmãs (conglomerados que controlaram a indústria petrolífera entre os anos quarenta e setenta), mudaram. O padrão, que se repetia na maioria dos setores, consistia em “poucas companhias que dominavam os seus respetivos mercados e eram tão grandes, ricas, potentes e enraizadas que era impensável prescindir delas”.

O autor, membro do Carnegie Endowment for International Peace (um think tank de Washington), diz que o próprio conceito de poder empresarial é agora mais volátil, flexível e fragmentado. “Criou-se um ambiente em que é mais fácil para os novos – em geral, não apenas na economia, incluindo os que têm ideias tóxicas – conseguir poder”, afirma Naím. “ExxonMobil, Sony, Carrefour e JPMorgan Chase têm um poder imenso e autonomia, mas os seus líderes estão mais limitados agora”, acrescenta. Para se adaptar a esta transformação, a humanidade deve “encontrar novas formas de se governar a si mesma”.

O poder hoje é mais competitivo. Reduziram-se as barreiras à entrada: chegam ao topo novas companhias, como a Inditex, e desaparecem clássicos como a Compaq. “É preciso ter em conta o horizonte temporal, porque há 10 anos falávamos do domínio da Microsoft e agora já não”, responde Naím numa entrevista, referindo-se ao poder da Google e do Facebook. Ele prefere não comparar empresas com países. “Não se mede a capacidade de influenciar necessariamente pela faturação de uma empresa em relação ao PIB de um país, já que a forma do poder empresarial difere da do Estado”, esclarece. Além disso, há novos atores cada vez mais influentes, como as novas sociedades de investimento, os fundos de cobertura (hedge funds) e mercados como os dark pools, onde se negoceia a compra e venda de ações sem a supervisão das autoridades.

O novo poder tornou-se mais intangível. “As empresas têm hoje menos ativos fixos e menos trabalhadores, reflexo de uma nova maneira de produzir, mais voltada para os serviços e para o conhecimento”, afirma Jesús María Valdaliso, professor de História e Instituições Económicas da Universidade do País Basco e coautor de Historia Económica de la Empresa (história económica das empresas).

Além disso, hoje os dados são um ativo essencial. Milhões de cidadãos informam-se, relacionam-se com os amigos e compram na Internet. Vão deixando pelo caminho um rasto de informações que se transformaram no “petróleo da era digital”, segundo a revista The Economist. Estes dados pessoais permitem a elaboração de perfis dos utilizadores graças aos algoritmos, que podem aprender, em minutos, padrões de comportamento que um ser humano levaria anos a identificar. “Uma das grandes estratégias das empresas de tecnologia é o efeito de rede: quanto mais utilizadores, melhor. Porque as pessoas utilizam o serviço que prestas, por mais aborrecido que seja, se as outras também o usarem. Afinal, como não estar no Facebook se todos os teus amigos também lá estão?”, afirma o jornalista Noam Cohen, autor de The Know-It-Alls: The Rise of Silicon Valley as a Political Powerhouse and Social Wrecking Ball (2017). Poucos escolhem viver à margem das redes sociais.

As cinco empresas mais valiosas da Bolsa são de tecnologia: Apple, Google, Facebook, Microsoft e Amazon
Como é o efeito político deste novo ouro negro? Através da rede, pode-se influenciar a opinião pública, como se vê na investigação em curso nos EUA sobre as interferências da Rússia nas eleições que deram a vitória a Trump em 2016, nas quais o Facebook, a Google e o Twitter foram fundamentais. “As empresas de tecnologia temem que, mais cedo ou mais tarde, se tente aprovar uma norma que altere substancialmente o seu modelo de negócios”, explica Pankaj Ghemawat, professor da New York University e da IESE Business School. Autor de World 3.0: Global Prosperity and How to Achieve It, ele enfatiza a dificuldade de quantificar e seguir algo tão imaterial como a informação.

Este fluxo de dados não existia no final do século XIX, quando John D. Rockefeller fundou a Standard Oil. “Há vozes que dizem que as fronteiras já não importam. Acredito que é algo exagerado, mas certamente é significativa a capacidade de algumas empresas se expandirem em negócios de todo o tipo”, afirma Ghemawat. A Amazon não é apenas uma das empresas que mais cresceram nos últimos anos; também é uma das que mais se diversificaram. É líder em comércio eletrónico e uma das maiores plataformas logísticas e de marketing, além de fornecer sistemas de armazenamento na nuvem (tendo a CIA entre os seus clientes). E mais: produz filmes e séries, comprou uma cadeia de supermercados e acabou de lançar a sua própria linha de roupa. Será que a Amazon está grande demais?

As grandes corporações modernas despontaram no final do século XIX como resultado da produção e da distribuição em massa, segundo teorizou Alfred D. Chandler, professor da Harvard Business School, que, a partir dos anos setenta, foi pioneiro no estudo da história das empresas. Para Chandler, os gestores (managers) tinham sido os verdadeiros heróis da era industrial porque tinham organizado a atividade económica, acoplando partes do negócio para criar grandes companhias como a General Motors. O académico defendeu essa ideia num dos seus livros, The Visible Hand (A Mão Visível), de 1977, cujo título se opõe à “mão invisível”, metáfora criada pelo economista Adam Smith no século XVIII para expressar a suposta capacidade autorreguladora do livre mercado.

Um exemplo extremo de grande corporação são os chaebol, conglomerados familiares promovidos pela Coreia do Sul para reativar o seu crescimento após a guerra (1950-1953). O maior deles é a Samsung, que responde por 20% do PIB do país asiático. Nos últimos anos, contudo, Seul tomou medidas para reduzir o poder destes gigantes. Prova disso é a recente condenação por corrupção do herdeiro da Samsung, Lee Jae-yong.

As Samsung e General Motors de hoje são diferentes. Ficou para trás a repetida frase que Charles Wilson disse nos anos cinquenta, quando era secretário da Defesa dos EUA: “O que é bom para o nosso país é bom para a General Motors.” Antes de ocupar o cargo, Wilson dirigiu a empresa (o ex-secretário de Estado, Rex Tillerson, presidia antes à ExxonMobil). Mas a globalização levou as grandes firmas a dispersarem-se pelo mundo. Por exemplo, 65% das vendas das empresas que têm ações na Bolsa espanhola vêm do estrangeiro.

Então, onde se localiza o poder neste mundo deslocalizado? Três analistas de sistemas complexos do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça, recorreram à matemática para construir um mapa da estrutura do poder económico. Reuniram dados de 43.060 empresas transnacionais, cruzando-os com o seu conjunto de acionistas e o seu volume de negócios. O resultado revelou que 147 firmas controlavam 40% da riqueza, quase todas elas instituições financeiras, como o Barclays Bank, o JPMorgan Chase e o Goldman Sachs.

O estudo foi publicado na revista PLoS One em 2011. Um dos seus autores, James Glattfelder, explica que a equipa trabalha para atualizar os dados. “A previsão é de que a distribuição do poder continue concentrada nas mãos de alguns atores altamente interconectados”, diz ele. O estudo é interessante, mas devemos considerar que as instituições financeiras nem sempre controlam o destino das empresas em que participam. Com muita frequência, simplesmente gerem dinheiro que pertence a investidores privados. Glattfelder responde que, desde 1980, e sobretudo desde a crise de 2008, há “uma enorme concentração da propriedade de ações nas mãos de investidores institucionais”. Tais investidores costumam ser bancos, fundos de pensões, seguradoras e sociedades de investimento que aplicam grandes quantidades de capitais.

Desde os anos noventa, algumas firmas são cada vez mais influentes. É o caso da BlackRock, a maior gestora de ativos do mundo (controla cinco biliões de dólares, quase cinco vezes o PIB espanhol). Em maio, acionistas liderados por esta empresa rebelaram-se contra a direção da ExxonMobil para obrigá-la a informar sobre as suas medidas contra as alterações climáticas.

Num exemplo mais próximo, há algumas semanas soube-se que a decisão de empresas e bancos catalães de transferir as suas sedes partiu de Nova Iorque e Londres. É nessas cidades que estão os grandes gestores de fundos de investimento, fundos de pensões e companhias de seguros, os acionistas das entidades e os donos de parte da sua grande dívida. A transferência de sede tentava fazer face à incerteza política que ameaçava as suas metas de rentabilidade. Nos EUA, os fundos institucionais possuem 80% do capital do índice Standard & Poor's 500; na Europa, 58% do Standard & Poor's Euro. Já em Espanha, 43% do capital está nas mãos de fundos internacionais, um recorde.

Também desempenham um papel importante os hedge funds (fundos especulativos), que utilizam os mercados de derivados para apostar na queda de um valor negociado no futuro. Um dos mais populares é o fundo de George Soros, conhecido por ganhar milhões após o ataque que perpetrou contra a libra nos anos noventa, embora também tenha perdido muito dinheiro apostando (erradamente) numa queda das Bolsas após a vitória de Trump. Em 1998, havia cerca de 3.000 fundos deste tipo; hoje são mais de 10.000.

E volta a surgir o papel-chave da tecnologia. É interessante o auge dos robôs no mundo financeiro. Eles costumam ser usados, por exemplo, na gestão de um mecanismo com um nome que soa a vilão: os dark pools. São redes privadas em que os investidores compram e vendem ações sem que se conheçam as suas intenções, evitando alterações de valor dos títulos que os possam prejudicar. Cerca de 42% do volume diário negociado nos mercados é feito em dark pools, segundo a empresa de consultoria Tabb Group.

Estes mercados na sombra existem há décadas, mas multiplicaram-se nos últimos anos graças à inteligência artificial. O tempo necessário para realizar uma ordem de compra e venda passou de 20 segundos, há duas décadas, para os 10 microssegundos atuais. Ou seja: 40.000 operações num piscar de olhos. Por isso, convém alargar o campo de visão. Já não basta ter em conta os conselhos de administração; a raiz do poder vai direta ao algoritmo.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Os 28 bancos que controlam o dinheiro do mundo, por François Morin


Para Morin, resistência à oligarquia financeira terá de ser feita “por ator coletivo, de legitimidade democrática incontestável e disposto a organizar o financiamento da atividade econômica mundial”
Livro aponta: oligarquia financeira subjugou bancos centrais, transferiu a Estados dívidas tóxicas e está prestes a provocar crise global ainda mais grave.

François Morin, entrevistado por Vittorio De Filippis | Tradução: Inês Castilho

150922-Hidra
A transferência, para os Estados, das dívidas privadas tóxicas de 28 grandes bancos “sistêmicos”, durante a última crise financeira, explica as políticas de austeridade praticas na Europa.
Francesas, europeias ou norte-americanas, todas as autoridades bancárias asseguram: se o mundo viver uma nova crise financeira, comparável à de 2007-08, nem os Estados, nem os contribuintes vão pagar as consequências. É possível acreditar?
O economista François Morin, professor emérito da Universidade de Toulouse e membro do conselho do Banco Central francês, tem uma resposta categórica: não. Em L’Hydre Mondial [A Hidra mundial], um livro publicado em maio, e no qual ele menciona dados inéditos, Morin mostra como 28 bancos de porte mundial constituem um oligopólio totalmente distanciado do interesse público.
Para colocar os cidadãos a salvo de desastres financeiros futuros, o autor considera que é necessário destruir estes bancos, que ele compara a uma hidra, e resgatar a moeda para a esfera pública. Eis sua entrevista:

Como um punhado de bancos tomou a forma de uma hidra mundial?
O processo é perfeitamente claro. Depois da liberalização da esfera financeira iniciada nos anos 1970 (taxas de câmbio e de juros definidas pelo mercado e não mais pelos Estados, e liberalização de movimento do capital), os mercados monetários e financeiros tornaram-se globais em meados dos anos 1990. Os maiores bancos tiveram então de adaptar a sua dimensão a esse novo espaço de intercâmbio, por meio de fusões e reestruturações. Reuniram-se as condições para o surgimento de um oligopólio em escala global. O processo assumiu rapidamente escala internacional e tornou-se gigantesco: o balanço total dos 28 bancos do oligopólio (50,341 trilhões de dólares) é superior, em 2012, à dívida pública global (48,957 trilhões de dólares)!
Desde 2012, descobriu-se também que esses bancos muito grandes se entenderam entre si de forma fraudulenta a partir de meados dos anos 2000. A partir desse momento, esse oligopólio transformou-se numa hidra devastadora para a economia mundial.

Em que esses bancos são sistêmicos?
Estes 28 bancos foram declarados, acertadamente, “sistêmicos” pela reunião do G20 de Cannes, em 2011. A análise das causas da crise financeira da crise iniciada em 2007-2008 não podia deixar pairar qualquer dúvida sobre a responsabilidade desses bancos no desencadeamento do processo. Estão em causa os produtos financeiros “derivativos”, que espalharam-se na época e ainda continuam a ser difundidos em todo o mundo. Lembremo-nos de que estes derivativos são produtos que visam oferecer garantias a seus possuidores, em caso de dificuldades econômicas – e alguns deles têm caráter muito especulativo. Sua conversão em dinheiro pode tornar-se catastrófica, em caso de uma crise. No entanto, apenas 14 bancos com importância sistêmica “fabricam” estes produtos, cujo valor imaginário (o montante dos valores segurados) chega a 710 trilhões de dólares — ou seja, mais de 10 vezes o PIB mundial!

E você afirma que eles praticam acordos fraudulentos?
Múltiplas análises demonstraram que esses bancos ocupam posições dominantes sobre vários grandes mercados (de câmbio, de títulos de dívida e de produtos derivados). É característico de um oligopólio. Mas desde 2012, as autoridades judiciais dos Estados Unidos, britânicas e a Comissão Europeia aumentaram investigações e multas que demostram que muitos desses bancos – sobretudo onze entre eles (Bank of America, BNP-Paribas, Barclays, Citigroup, Crédit Suisse, Deutsche Bank, Goldman Sachs, HSBC, JP Morgan Chase, Royal Bank of Scotland, UBS) – montaram sistematicamente “acordos organizado em bandas”. A imposição de multas de muitos bilhões de dólares, contra a manipulação do mercado de câmbio ou da Libor [taxa de referência para juros interbancários, estabelecida em Londres], demonstra que esta prática existe.

O mundo está sentado sobre uma montanha de bombas-relógio financeiras montadas unicamente por este punhado de bancos?
Há várias evidências de muitas bolhas financeiras que podem estourar a qualquer momento. As bolha do mercado de ações só pode ser explicada pelas enormes injeções de liquidez, por parte dos bancos centrais. Mas, acima de tudo, há a bolha da dívida pública que atingiu todas as grandes economias. As dívidas privadas tóxicas do oligopólio bancário foram maciçamente transferidas para os Estados, na última crise financeira. Este superendividamento público, devido exclusivamente à crise e a esses bancos, explica as políticas de “rigor” e “austeridade” praticadas em cada vez mais países. Este superendividamento é a ameaça principal, como se vê na Grécia.

Regulação de derivativos – inclusive de crédito –, luta contra o “sistema bancário da sombra”, reforço dos fundos próprios, separação entre bancos de depósito e de investimento… não se pode dizer que nada foi feito para estabelecer algum controle sobre os bancos.
Vamos olhar mais de perto. O “sistema bancário sombra”, ou seja, o sistema financeiro não regulamentado, não pare de crescer – notadamente através do oligopólio bancário – para escapar das normas de supervisão e, em primeiro lugar, para negociar com derivativos. O reforço de capital próprio dos maiores bancos foi ridiculamente baixo. E em nenhuma legislação em vigor há uma verdadeira separação “patrimonial” das atividades bancárias. Em suma, o lobby bancário, muito organizado em escala internacional, tem sido eficaz, e o oligopólio pode continuar na mesma lógica financeira deletéria que praticava antes da crise.

Como os Estados tornaram-se reféns do oligopólio sistêmico que são os bancos?
Depois dos anos 1970, os Estados perderam toda a soberania monetária. Eles são responsáveis. A moeda agora é criada pelos bancos, na proporção de cerca de 90%, e pelos bancos centrais (em muitos países, independentes dos Estados) para os restantes 10%. Além disso, a gestão da moeda, através de seus dois preços fundamentais (as taxas de câmbio e taxas de juros) está inteiramente nas mãos do oligopólio bancário, que tem todas as condições para manipulá-los. Assim, os grandes bancos têm nas mãos as condições monetárias para o financiamento dos investimentos, mas sobretudo do para o financiamento dos déficits públicos. Os Estados não são apenas disciplinados pelos mercados, mas sobretudo reféns da hidra mundial.

Há portanto uma relação quase destrutiva desses bancos com relação aos Estados
Essa relação é, de fato, devastadora. Nossas democracias esvaziam-se progressivamente, em razão da redução (ou da ausência) de margem de manobra para a ação pública. Além disso, o oligopólio bancário deseja instrumentalizar os poderes dos Estados, para evitar eventuais regulações financeiras, ou limitar o peso das multas às quais deve fazer face quando é pego com a boca na botija. Quer evitar especialmente processos de repercussão pública.

Mas os bancos não permitem aos Estados financiar os déficits orçamentários?
Não devemos esperar que os bancos privados defendam interesses sociais! Os bancos veem primeiro os seus lucros, que eles podem realizar por meio de suas atividades financeiras particulares, ou de suas atividades especulativas. Seus gestores olham para os Estados como para qualquer outro ator econômico endividado. Medem os riscos e a rentabilidade de um investimento financeiro. As dívidas do Estado são vistas por eles como um ativo financeiro, tal como qualquer outro – que se compra ou se vende, e sobre o qual é igualmente permitido especular.

Na mitologia grega, Hércules é o encarregado deve matar a hidra. E em nosso mundo: onde está o Hércules capaz de matar a hidra bancária mundial?
Sobre isso, não há dúvidas. Nosso Hércules de amanhã será um ator coletivo, uma futura comunidade internacional, de legitimidade democrática incontestável, libertada de seus dogmas neoliberais, e suficientemente consciente de seus interesses de longo prazo para organizar o financiamento da atividade econômica mundial. Dito de outra forma, um ser ainda imaginário! Um primeiro passo seria dado, contudo, se um novo Bretton Woods fosse convocado para criar uma moeda comum em escala internacional, e não apenas no contexto das soberanias monetárias nacionais restauradas.

Você aposta na inteligência política?
Sim, certamente! Mas, sobretudo, aposto na inteligência dos cidadãos do nosso planeta. As redes sociais podem ser instrumentos formidáveis para criar esta inteligência política, de que temos extrema necessidade hoje.

Estariamos caminhando para um desastre de escala sem precedentes?
Ele está diante de nós. Todas as condições estão maduras para um novo terremoto financeiro ocorrer, quando os Estados estão exangues. Ele será ainda mais grave do que o precedente. Ninguém pode desejá-lo, porque seus efeitos econômicos e financeiros serão desastrosos e suas consequências políticas e sociais podem ser dramáticas. Podemos vê-los na Grécia. Urgência democrática e lucidez política tornaram-se indispensáveis e urgentes.

Os bancos estão todos podres? As finanças, necessariamente perversas?
Quando um oligopólio superpoderoso administra o dinheiro como um bem privado, não podemos ser surpreendidos pela lógica financeira que resulta daí. Os bancos buscam metas de lucro, com a tentação recorrente, entre os maiores, de fazer acordos oligopolistas. A hidra bancária nasceu há cerca de dez anos, e já tomou conta de todo o planeta. O confronto de poderes, entre bancos avassaladores e poderes políticos enfraquecidos, parece agora inevitável. Um resultado positivo desta luta – a priori desigual – só pode ocorrer por meio mobilização de cidadãos que estejam plenamente conscientes do que está em jogo.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

737 donos do mundo controlam 80% do valor das empresas mundiais


O seu estudo, na fronteira da economia, da finança, das matemáticas e da estatística, é arrepiante. Três jovens investigadores do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique examinaram as interacções financeiras entre multinacionais do mundo inteiro. O seu trabalho - “The network of global corporate control” (“a rede de controlo global das transnacionais”) - examina um painel de 43.000 empresas transnacionais (“transnacional corporations”) seleccionadas na lista da OCDE. Eles dão a conhecer as interligações financeiras complexas entre estas “entidades” económicas: parte do capital detido, inclusive nas filiais ou nas holdings, participação cruzada, participação indirecta no capital.


Resultado: 80% do valor do conjunto das 43.000 multinacionais estudadas é controlado por 737 “entidades”: bancos, companhias de seguros ou grandes grupos industriais. O monopólio da posse capital não fica por aí. “Por uma rede complexa de participações”, 147 multinacionais, controlando-se entre si, possuem 40% do valor económico e financeiro de todas as multinacionais do mundo inteiro.

Uma super entidade de 50 grandes detentores de capitais
Por fim, neste grupo de 147 multinacionais, 50 grandes detentores de capital formam o que os autores chamam uma “super entidade”. Nela encontram-se principalmente bancos: o britânico Barclays à cabeça, assim como as “stars” de Wall Street (JP Morgan, Merrill Lynch, Goldman Sachs, Morgan Stanley...). Mas também seguradoras e grupos bancários franceses: Axa, Natixis, Société générale, o grupo Banque populaire-Caisse d'épargne ou BNP-Paribas. Os principais clientes dos hedge funds e outras carteiras de investimentos geridos por estas instituições são por conseguinte, mecanicamente, os donos do mundo.

Esta concentração levanta questões sérias. Para os autores, “uma rede financeira densamente ligada torna-se muito sensível ao risco sistémico”. Alguns recuam perante esta “super entidade”, e é o mundo que treme, como o provou a crise do subprime. Por outro lado, os autores levantam o problema das graves consequências que põe uma tal concentração. Que um punhado de fundos de investimento e de detentores de capital, situados no coração destas interligações, decidam, por via das assembleias gerais de accionistas ou pela sua presença nos conselhos de administração, impor reestruturações nas empresas que eles controlam e os efeitos poderão ser devastadores. Por fim, que influência poderão exercer sobre os Estados e as políticas públicas se adoptarem uma estratégia comum? A resposta encontra-se provavelmente nos actuais planos de austeridade.