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terça-feira, 2 de junho de 2026

Ouçam o discurso de Noah Eckstein: O fim da escuta - porque já não sabemos debater? Um manifesto anti-polarização


Noah Eckstein inicia o seu discurso de forma descontraída, recorrendo à estrutura de uma piada tradicional: um cristão, um muçulmano e um judeu entram num bar. Contudo, contextualiza que, na sua própria família, essa união resultou no casamento dos seus avós e, gerações mais tarde, no seu próprio nascimento como um judeu orgulhoso que também celebra as heranças cristã e muçulmana da sua família.

O ponto central da mensagem de Eckstein baseia-se na lição que aprendeu com os seus avós (um muçulmano paquistanês que cresceu durante a guerra de 1947 e um refugiado judeu do Holocausto): o oposto da divisão não é o acordo, mas sim a compreensão. Ele destaca que o mundo atual nos empurra constantemente para binários e visões polarizadas (esquerda vs. direita, progressista vs. conservador, nós vs. eles), exigindo sempre que escolhamos um lado.

Os seus avós discordavam em inúmeros temas morais e ideológicos, mas mantinham o hábito de se sentar à mesa a debater e a demonstrar preocupação mútua. Eckstein lamenta que a sociedade atual tenha perdido essa capacidade; os debates tornaram-se mais barulhentos, as pessoas discutem apenas para vencer ou humilhar o adversário, e o indivíduo do outro lado deixou de ser visto como uma pessoa para passar a ser visto como um obstáculo.

O orador salienta que tentar compreender quem pensa de forma diferente não significa desculpar atos monstruosos ou abdicar dos próprios ideais. Pelo contrário, compreender o percurso e as motivações do outro é uma ferramenta crucial, aplicável tanto aos grandes conflitos geopolíticos como às pequenas interações do dia a dia — seja com um familiar no jantar de Ação de Graças ou com um colega de turma na faculdade.

Ao concluir, Eckstein deixa um desafio aos recém-graduados de Harvard: quando encontrarem alguém com quem discordam, devem defender as suas convicções, mas também devem colocar-se no lugar do outro e escutar como se pudessem estar errados. Lembra que os seus avós morreram fiéis às suas próprias crenças e tradições, sem nunca cederem nos seus ideais, mas mantiveram sempre o respeito mútuo. Num mundo profundamente fraturado, a verdadeira mudança e a cura das divisões só serão possíveis através de um esforço genuíno para compreender a humanidade do próximo.

Uma pequena bio aqui

Fez-me relembrar uma citação famosa "O oposto da guerra não é a paz... É a criação!" que consta numa obra de teatro musical, "Rent" (1996) composta por Jonathan Larson.

Em 2005 estreou a adaptação para o cinema de Rent, sob a direção de Chris Columbus.

domingo, 17 de maio de 2026

Estudo mostra que notícias falsas estão no DNA da extrema‑direita

Cimeira da extrema-direita europeia em Madrid (2025)

O estudo “Quando os partidos mentem? Desinformação e populismo da direita radical em 26 países”, publicado na revista científica The International Journal of Press/Politics, revela que extrema-direita é significativamente muito mais propensa a disseminar notícias falsas nas redes sociais do que qualquer outro campo político.

Os cientistas holandeses dedicaram-se ao estudo das publicações feitas entre 2017 e 2022 na rede social X por todos os parlamentares de 26 países. Nestes se incluem 17 membros da União Europeia, mas não Portugal, para além de países como os EUA, o Reino Unido e a Austrália. Um total de 8.198 deputados ou equivalentes e 32 milhões de publicações. As ligações a páginas partilhadas pelos deputados, cerca de 18 milhões, foram depois comparadas com as páginas utilizadas por serviços de “fact-checking”, a verificação de factos, e de monitorização de notícias falsas, analisando a fiabilidade das fontes. Os dados mostram que a extrema-direita é “o determinante mais forte para a propensão a espalhar desinformação”, sendo que deputados dos outros campos políticos, da direita até à esquerda mais radical “não estão ligados” a esta prática.

A conclusão, portanto, é que “a desinformação política deve ser entendida como parte integrante da atual onda de populismo radical de direita e da sua oposição à instituição democrática liberal”.

Afastada fica a teoria de que a desinformação era parte de uma prática política “anti-elitista” identificada como “populismo” já que partidos e parlamentares de esquerda que tinham sido como tal identificados não se dedicam à disseminação de mentiras.

Outra das ideias que se podem retirar da investigação é a “relação simbiótica” entre extrema-direita e uma constelação de meios de comunicação social ditos “alternativos” que têm servido precisamente para fortalecer este tipo de mensagens ideológicas baseadas na exclusão e na hostilidade para com as instituições democráticas.

Um dos co-autores do estudo, Petter Törnberg, da Universidade de Amesterdão, sintetiza que “os populistas da direita radical estão a utilizar a desinformação como ferramenta para desestabilizar as democracias e ganhar vantagem política”. Ele defende que é “urgente que decisores políticos, investigadores e público compreendam e lidam com as dinâmicas interligadas da desinformação e do populismo de direita radical”.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Da censura editorial à algorítmica: o legado de "A Manipulação do Público"


A obra "A Manipulação do Público" estabeleceu que a comunicação de massa não serve apenas para informar, mas para moldar o pensamento de acordo com os interesses das elites. Na era das redes sociais, os cinco filtros de Chomsky e Herman não desapareceram; tornaram-se mais rápidos, granulares e, acima de tudo, personalizados.

1. O Algoritmo como gestor de atenção
No modelo original de "A Manipulação do Público", a curadoria do que era "noticiável" residia nas mãos de editores humanos, cujas decisões eram balizadas por linhas editoriais e interesses corporativos claros. Hoje, esse papel de porteiro da realidade foi delegado ao código. O filtro algorítmico não opera com base em critérios de verdade ou interesse público, mas sim na metrificação da atenção.

Como o modelo de negócio das grandes plataformas depende do tempo de permanência do utilizador, o algoritmo privilegia conteúdos que geram conflito e indignação. Estas emoções, por serem neuroquimicamente mais viciantes, garantem que o utilizador se mantenha ligado à plataforma por mais tempo. O efeito secundário desta lógica é a criação de "bolhas" informativas: o sistema entrega a cada indivíduo uma versão da realidade que confirma os seus preconceitos, eliminando o contraditório e tornando o diálogo impossível.

O resultado é uma fragmentação social sem precedentes. A visão sistémica do poder -  necessária para compreender como as instituições funcionam e como podem ser questionadas - é substituída por narrativas polarizadas e personalizadas. Ao vivermos em realidades paralelas, perdemos a capacidade de alcançar um consenso social alargado sobre factos básicos, o que imobiliza qualquer tentativa de resistência coletiva. A "manipulação" moderna não consiste em dizer ao público o que pensar, mas em garantir que os diferentes segmentos do público nunca consigam pensar juntos.

2. A Publicidade de Precisão (Microtargeting): a engenharia das vulnerabilidades
A dependência da publicidade, que Chomsky e Herman identificaram como um filtro vital para a sobrevivência dos meios de comunicação tradicionais, atingiu um novo e inquietante patamar com o advento do Big Data. No modelo do século XX, a publicidade era uma "bomba de fragmentação": uma mensagem única lançada para uma massa uniforme, na esperança de capturar a atenção de uma percentagem do público. Hoje, a manipulação é cirúrgica e individualizada.

Através da recolha massiva de dados — que inclui desde o histórico de compras até padrões de sono e localização — o sistema já não comunica com um "público", mas com perfis psicológicos granulares. O consentimento é agora fabricado através de campanhas invisíveis de microtargeting. Isto significa que duas pessoas sentadas no mesmo sofá podem receber narrativas políticas ou corporativas opostas sobre o mesmo tema, cada uma desenhada para explorar as suas vulnerabilidades, medos ou desejos específicos.

Esta evolução altera a natureza da propaganda. Se antes a manipulação era visível e passível de ser debatida no espaço público, agora ela ocorre na esfera privada do ecrã individual. O perigo reside no facto de estas perceções serem moldadas de forma subliminar; o alvo raramente percebe que a informação que está a consumir foi otimizada para contornar as suas defesas racionais. Ao transformar o cidadão num conjunto de pontos de dados, o filtro da publicidade moderna consegue fabricar um consentimento que não nasce da argumentação, mas da estimulação psicológica pré-consciente, tornando a resistência intelectual muito mais difícil de exercer.

3. O Novo "Flak": o disciplinamento digital e o silenciamento invisível
No modelo original de "A Manipulação do Público", o Flak manifestava-se como uma resposta barulhenta e institucional: processos judiciais, cartas de protesto ou editoriais de ataque agressivo. Na era digital, este filtro tornou-se descentralizado e muito mais sofisticado. Hoje, o Flak opera em duas frentes complementares: o ataque público coordenado e o silenciamento algorítmico invisível.

A primeira frente é a da retaliação instantânea. O filtro da pressão deixou de ser exclusivo das elites para se tornar uma ferramenta de massa através do "cancelamento", de campanhas de difamação e do uso de exércitos de bots. Jornalistas ou figuras públicas que ousem desafiar as narrativas hegemónicas enfrentam uma avalanche de ataques que funciona como uma ferramenta de disciplina social, gerando um clima de autocensura digital permanente.

Contudo, é no mundo dos algoritmos que o Flak assume a sua forma mais insidiosa através do Shadowbanning. Esta ferramenta permite que o sistema discipline vozes dissidentes sem necessidade de as banir formalmente. O utilizador continua a publicar, mas o seu alcance é artificialmente reduzido ou limitado apenas aos seus seguidores mais próximos. É a forma definitiva de censura na era da abundância: não se apaga a mensagem, mas garante-se que ela se perde na imensidão do ruído.

A grande eficácia desta mutação reside na sua invisibilidade. Enquanto o banimento direto gera revolta e cria "mártires" da liberdade de expressão, o shadowbanning neutraliza a influência do indivíduo de forma silenciosa. Ao não receber o retorno habitual, o produtor de conteúdos é levado a acreditar que o seu discurso perdeu interesse ou relevância, minando a sua vontade de persistir. Assim, o sistema não só pune a dissidência, como a torna irrelevante sem nunca ter de assumir o papel de censor.

4. A barreira do custo e as fontes
A observação de que a média depende de fontes oficiais por serem "baratas" ganhou um contorno irónico na Internet. Atualmente, a informação de qualidade está frequentemente protegida por paywalls (muros de pagamento), enquanto a desinformação e a propaganda estatal ou corporativa são gratuitas e de fácil acesso. Isto cria uma desigualdade informacional profunda: quem não pode pagar pelo jornalismo independente acaba por ser o alvo mais fácil para a manipulação através de conteúdos gratuitos de baixa qualidade.

Filtro de "A Manipulação do Público"Adaptação para a Era Digital
PropriedadeConcentração de poder nas Big Techs (Google, Meta, etc.).
PublicidadeEconomia da atenção e exploração de dados individuais.
FontesInfluenciadores, grupos de fachada e Astroturfing.
FlakLinchamento virtual, censura algorítmica e ataques de bots.
IdeologiaPolarização extrema e o "Nós contra Eles" das guerras culturais.
A grande ironia contemporânea reside no facto de termos a ilusão de uma escolha infinita quando, na verdade, os filtros digitais tornaram o comportamento humano mais previsível e manejável do que nunca. O "consentimento" de hoje não é imposto; é extraído através do nosso próprio envolvimento digital.

Esta evolução do modelo de "A Manipulação do Público" revela que a arquitetura do controlo social sofreu uma mutação: passámos de um sistema de exclusão para um de saturação. No paradigma de 1988, o poder exercia-se pela escassez; como o espaço nas colunas dos jornais e o tempo de antena televisivo eram recursos finitos, os filtros operavam decidindo o que era silenciado. No entanto, na era digital, o controlo é exercido pela abundância. O algoritmo raramente se dá ao trabalho de esconder a informação dissidente; em vez disso, soterra-a sob uma avalanche de entretenimento efémero, notícias irrelevantes e ruído constante. O consentimento já não nasce do silêncio imposto, mas de uma distração perpétua que impede a reflexão profunda.

Paralelamente, a dependência de fontes oficiais, que Chomsky identificou como um filtro vital, deu lugar ao fenómeno do Astroturfing. Esta é a versão digital da manipulação de base: criam-se movimentos que aparentam ser espontâneos e populares (grassroots), mas que são, na realidade, orquestrados e financiados por grandes corporações ou interesses políticos. Através de exércitos de perfis falsos e influenciadores contratados, gera-se a ilusão de um consenso esmagador. O efeito psicológico no indivíduo é devastador: ao sentir-se isolado na sua opinião, o cidadão tende a ceder à pressão da "maioria" artificial, um fenómeno conhecido como a espiral do silêncio, agora potenciado por algoritmos.

A mudança mais radical, contudo, reside na transição de um sistema reativo para um sistema preditivo baseado na psicometria. Se a propaganda tradicional tentava convencer o público após o facto, o modelo atual antecipa-se. Através da análise minuciosa de cada like, do tempo de visualização e até da velocidade com que percorremos o ecrã (scroll), as plataformas constroem perfis psicológicos que nos conhecem melhor do que nós próprios. Este filtro invisível consegue prever quais as narrativas que nos farão mudar de opinião ou que gatilhos emocionais despertarão a nossa indignação. Assim, o consentimento é "fabricado" de forma preventiva, moldando a nossa perceção antes mesmo de termos consciência de que estamos a formar uma ideia sobre o assunto. No fim, a liberdade de escolha torna-se uma miragem dentro de um sistema que já calculou todas as nossas reações possíveis.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Exit North - Harm


Tema principal do álbum Harm/Terms (2025)
O vídeo oficial foi realizado e produzido pelo cantor Thomas Feiner. 
Tendo-se filmado contra um pano de fundo de clipes de IA adaptados e tratados, apresentando elementos simiescos entre outras coisas, Feiner afirma:
"Para o bem e para o mal, os media generativos vieram para ficar. E agora que os artistas foram, de certa forma, roubados, creio que é importante perceber se o propósito artístico pode ser reivindicado neste novo mundo. O vídeo em si é uma tentativa algo satírica nessa direção. Ilustra vagamente temas que inevitavelmente flutuam na minha mente hoje em dia: a história a repetir-se, a manosphere, o ressentimento, a radicalização, os ecrãs, os algoritmos e tudo o mais."

E porquê macacos?
"Se a sobrevivência do mais amigável foi o fator evolutivo que permitiu a civilização - então o que vejo agora parece quase uma espécie de contra-evolução. Por isso, usei os macacos como símbolos desse impulso retrógrado — sem qualquer intenção de desrespeito pelos animais!"

Notas sobre a tradução e contexto: 
  1. "Manosphere": Mantive o termo original, pois é o conceito usado internacionalmente para designar o ecossistema online de movimentos masculinos (muitas vezes ligados a ideologias de extrema-direita ou misoginia), que encaixa bem na tua observação inicial sobre o J.D. Vance e o fenómeno do "penedo" (alguém rígido ou retrógrado). 
  2. "Simian elements": Traduzido como "elementos simiescos" 
  3.  "Survival of the friendliest": Esta é uma brincadeira com a famosa frase de Darwin (survival of the fittest). Em Portugal, usamos "sobrevivência do mais apto", por isso a tradução "sobrevivência do mais amigável" mantém esse contraste evolutivo que o Feiner quis destacar.
Página Oficial
Exit North (youtube)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Artigo da Nature mostra como o feed algorítmico da rede X direciona a visão das pessoas para a direita e extrema-direita


O estudo demonstra que, ao contrário do feed cronológico (onde vês tudo o que as pessoas que segues publicam), o algoritmo filtra e prioriza. Se o utilizador interage com uma publicação de teor radical, o sistema passa a mostrar-lhe mais conteúdo semelhante, o que pode levar a um processo de radicalização gradual por falta de contraditório.

Um ponto implícito no debate atual (e tocado lateralmente no artigo) é a mudança de diretrizes da plataforma sob a gestão de Elon Musk. O estudo sugere que as alterações no código e nas políticas de moderação desde 2022 facilitaram a circulação de discursos que anteriormente seriam filtrados ou banidos, beneficiando desproporcionalmente movimentos de extrema-direita que testam os limites da liberdade de expressão.

A investigação demonstra que o algoritmo do X não é neutro e acaba por beneficiar desproporcionalmente as vozes da direita e da extrema-direita. Isto acontece porque o sistema está programado para maximizar o tempo de utilização e a interação, e os conteúdos típicos destes movimentos — que utilizam frequentemente retórica de indignação, teorias da conspiração ou ataques diretos ao "sistema" e aos adversários — geram níveis de resposta emocional muito elevados. O algoritmo interpreta este conflito como "relevância" e, por consequência, impulsiona essas publicações para um público muito mais vasto do que aquele que as segue originalmente.

Além disso, o artigo destaca que esta amplificação cria um desequilíbrio no ecossistema de informação. Ao comparar o feed cronológico com o algorítmico, os investigadores perceberam que o algoritmo atua como um megafone para narrativas que promovem a polarização afetiva. Ou seja, ele não se limita a mostrar o que o utilizador gosta, mas expõe os utilizadores de direita a conteúdos cada vez mais radicais, enquanto mostra aos utilizadores de esquerda conteúdos que os deixam indignados com a direita, aprofundando o fosso entre os dois grupos. No caso específico da extrema-direita, o estudo sugere que as mudanças nas políticas de moderação da plataforma desde 2022 permitiram que discursos antes considerados marginais ou tóxicos passassem a circular livremente, sendo frequentemente "premiados" pelo algoritmo com alcances multimilionários que as vozes moderadas ou de esquerda raramente conseguem atingir com a mesma eficácia orgânica. Fonte


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Seriously, what is a human being?


Friends,
It seems appropriate right now to try to clarify one of the most basic questions America is (or should be) struggling with: What does it mean to be a human being?
The confusion is mounting.

Three illustrations:

1. Corporations
Corporations are not human beings. That should be self-evident.

But in 2010, the Supreme Court ruled (in its Citizens United case) that corporations are the equivalent of “people” under the First Amendment to the Constitution, with rights to free speech.

This ruling has made it nearly impossible for the government to restrict the flow of money from giant corporations into politics. As a result, the political voices — and First Amendment rights — of most real human beings in America are being effectively drowned out.

But in coming years, states will have an opportunity to circumvent Citizens United by redefining what a “corporation” is in the first place. Absent state charters that empower them to become “corporations,” business organizations are nothing more than collections of contracts — between investors and managers, managers and employees, and consumers and sellers.

In the 1819 Supreme Court case Trustees of Dartmouth College v. Woodward, Chief Justice John Marshall established that:
“A corporation is an artificial being, invisible, intangible [that] possesses only those properties which the charter of its creation confers upon it …. The objects for which a corporation is created are universally such as the government wishes to promote.”

Montana is now readying a proposition for its 2026 ballot that would empower organizations that sought to be corporations there to do many things — except to fund elections. (I’ve written more on this, here.)

2. Artificial Intelligence
AI is not human, although it’s becoming increasingly difficult for many real people to tell the difference between “artificial general intelligence” and a real person.

As a result, some real people have lost touch with reality — becoming emotionally attached to AI chat boxes, or fooled into believing that AI “deepfake” videos are real, or attributing higher credibility to AI than is justified — sometimes with tragic results.

In his typically ass-backward pro-billionaire way, Trump has issued an executive order aimed at stopping states from regulating AI. But some governors — most interestingly, Florida’s Ron DeSantis — have decided to establish guardrails nonetheless.

DeSantis is calling on Florida’s lawmakers to require tech companies to notify consumers when they are interacting with AI, not to use AI for therapy or mental health counseling, and to give parents more controls over how their children use AI. DeSantis also wants to restrict the growth of AI data centers by eliminating state subsidies to tech companies for such centers and preventing such facilities from drying up local water resources.

In a recent speech, DeSantis said:
“We as individual human beings are the ones that were endowed by God with certain inalienable rights. That’s what our country was founded upon — they did not endow machines or these computers for this.”

I never thought I’d be agreeing with Ron DeSantis, but on this one he’s right.

Corporations are legal fictions. Human AI is a technological fiction. Neither has human rights. Both should be regulated for the benefit of human beings.

3. Non-Americans and suspected enemies
The third illustration of our current confusion over what is a human being is endemic in Trump’s policies toward immigrants and many inhabitants of other nations, now especially in and around Venezuela.

Yesterday, a federal agent shot and killed a 37-year-old woman during an immigration raid in Minneapolis. Despite what Trump and Kristi Noem say, a video at the scene makes clear that the shooting was not in self-defense. Minnesota Gov. Tim Walz said: “We have been warning for weeks that the Trump administration’s dangerous, sensationalized operations are a threat to our public safety,” adding that it cost a person her life.

ICE agents are arresting and detaining people on mere suspicion that they are not in the United States legally — sometimes deporting them to foreign nations where they’re brutalized — without any independent findings of fact (a minimum of “due process”).

Meanwhile, Trump and Stephen Miller, his assistant for bigotry and nativism, are busy dehumanizing immigrants. For example, Trump describes Somalian-Americans as “garbage.”

Last weekend, the U.S. killed an estimated 75 people in its attack on Venezuela, as it abducted Venezuelan president Nicolás Maduro and his wife. The U.S. has been bombing and killing sailors on small vessels in the Caribbean and off the coast of Venezuela on the suspicion they’re smuggling drugs into the United States — on the vague pretext that they’re “enemy combatants,” although Congress has not declared war.

Trump’s justification for all such killings has shifted from preventing drug smuggling to “regaining control” over oil reserves that Venezuela nationalized 50 years ago.

In all these cases, the Trump regime is violating fundamental universal human rights considered essential to human dignity.

Corporations and AI are not human beings, but people who come to the United States seeking asylum indubitably are human. So too are undocumented people who arrived in the United States when they were small children and have been here ever since. As are our neighbors and friends who, although undocumented, are valued members of our communities.

As are the Venezuelans who have been murdered by the Trump regime. So, what does it mean to be a human being?

It means the right to be protected from the big-money depredations of giant corporations, and from the emotional lure of AI disguised as a human.

And it means to be treated respectfully — as a member of the human race possessing inherent, inalienable rights.

These are moral imperatives. But America is doing exactly the reverse.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Por que razão as mentiras prosperam?


O episódio "A Guerra Contra a Verdade" examina o impacto generalizado e transformador da desinformação na era digital. Rastreando as suas raízes, desde a propaganda à sua rápida disseminação através de algoritmos de redes sociais, o episódio explora os factores que impulsionam as notícias falsas e as suas consequências, como a polarização e a erosão da confiança pública.

Apresentando histórias impactantes, incluindo as eleições nos Estados Unidos, a gripe aviária e a desinformação sobre a COVID-19, com análises de especialistas, o episódio utiliza recursos visuais dinâmicos e infográficos para dissecar esta questão urgente e oferecer soluções.

Saber mais:
E-Livro: Neil Postman (1985) - Amusing Ourselves to Death

Estudo do MIT (2018):  On Twitter, false news travels faster than true stories

Dave Hallmon (2025) - What Huxley, Orwell, and Postman teach us about today’s media culture and consumption

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Estudo: percepção e preocupação global da crise climática

Fica surpreendido com a nova investigação do Forest Stewardship Council (FSC) que mostra uma diminuição do número de pessoas que dizem ter medo das alterações climáticas, mesmo com o aumento da gravidade e da frequência dos desastres causados ​​pelo clima? Eu não.

Grande parte do que está a impulsionar isto é a tempestade perfeita de desinformação, polarização e manipulação que enfrentamos hoje. À medida que a transição para a energia limpa se acelera, os interesses particulares intensificam a disseminação de mentiras e medo para a atrasar e, como resultado, a desinformação sobre as soluções climáticas alastra. Leia mais sobre este assunto no Yale Environment 360 aqui.
Ao mesmo tempo, os algoritmos das redes sociais — muitos dos quais são agora optimizados deliberadamente para amplificar a indignação e a desinformação — estão a reduzir activamente o peso da informação factual, a dar força aos trolls, sobrecarregados por bots, e a fragmentar o nosso sentido de realidade partilhada. Ver a sua análise aqui 
Não é de admirar que as pessoas se sintam exaustas e confusas sobre o que é verdade, o que importa ou o que podem fazer.

Mas há mais do que isso. Observei esta mesma tendência decrescente no Canadá após a nossa devastadora e recorde época de incêndios florestais de 2023 e tenho vindo a aprofundar o assunto desde então. Descobri que, quando o medo não é acompanhado por um sentido de eficácia — a crença de que o que fazemos é importante —, os nossos mecanismos de defesa entram em acção. Desligamo-nos, ou até mesmo zombamos daquilo que nos assusta.

"Não há nada que eu possa fazer quanto a isso, então porque é que me deveria importar?"

Isto não é apatia. É a dissociação — uma forma de autoproteção. Mas quando se espalha, torna-nos ainda mais vulneráveis ​​ao que já mencionei: a crescente onda de desinformação, polarização e manipulação algorítmica, deliberadamente concebida para amplificar a confusão e atrasar a transição para a energia limpa.
Então, qual é o antídoto? 
(1) as outras pessoas se preocupam e
(2) as nossas ações importam: há esperança.

Penso nisto como ligar a nossa mente – o que sabemos – ao nosso coração – porque nos preocupamos, como as alterações climáticas afetam as pessoas, os lugares e as coisas que amamos – às nossas mãos, o que podemos fazer. Porque quando sentimos que podemos fazer a diferença, voltamos a envolver-nos.

Leia o estudo aqui.
Saiba mais sobre o conceito cabeça-coração-mãos aqui:

E diga-me nos comentários: identifica-se com isso? Por quê?

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

O Chega e o Ódio - "Ódio é muitas vezes demasiada importância ao que é somente desprezível"


Já li o livro excelente de Miguel Carvalho- "𝐏𝐨𝐫 𝐃𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐝𝐨 𝐂𝐡𝐞𝐠𝐚 -𝐀 𝐟𝐚𝐜𝐞 𝐨𝐜𝐮𝐥𝐭𝐚 𝐝𝐚 𝐞𝐱𝐭𝐫𝐞𝐦𝐚-𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐚 𝐞𝐦 𝐏𝐨𝐫𝐭𝐮𝐠𝐚𝐥".
A narrativa inflamada, os epítetos boçais, a opacidade das contas (afinal cai o pano de "Limpar Portugal" e financiamento deste "partido" (corrupto, quando acabamos de ler o livro) é também racista, fascista e xenófobo.
Outro aspecto que André Ventura e sua comandita proclamam é o candidato “do povo” contra as “elites. Nada mais falso. É alimentado por uma elite económica nacional e internacional que depois, caso chegue ao poder, vai cobrar e os portugueses ficam mais pobres e haverá austeridade.

Em junho de 2020 a Revista Visão já havia publicado extensa matéria sobre um banquete na luxuosa Quinta do Barruncho, nos arredores de Lisboa. O centro das atenções era André Ventura, que recém havia lançado o Chega (2019). Entre os convidados estava João Maria Bravo, dono da Sodarca, empresa com contratos milionários de fornecimento de armas às forças de segurança e ao exército.

Outro grande empresário presente era Miguel Félix da Costa, cuja família representou durante 75 anos a marca de lubrificantes Castrol em Portugal, atual homem forte da Slil, uma sociedade gestora de participações nas áreas do imobiliário e turismo, e que conta ainda com interesses na agricultura e na criação de cavalos. A eles se juntou Humberto Pedrosa, dono do grupo Barraqueiro, então administrador acionista da TAP, e João Pedro Gomes, do grande escritório de advogados BSGG.

Também comensal da Quinta do Barruncho foi Francisco Cruz Martins, que administra as imobiliárias Mocaja e Xaroco, ambas pertencentes à Breteuil Strategies, sediada no Chipre, um dos mais importantes paraísos fiscais europeus. O nome do advogado foi amplamente citado no escândalo dos “Papéis do Panamá”, por causa das ligações a sociedades offshore.

𝗤𝘂𝗲𝗺 𝗽𝗮𝗴𝗮 𝗼 𝗯𝗮𝗻𝗾𝘂𝗲𝘁𝗲 𝗲𝘀𝗰𝗼𝗹𝗵𝗲 𝗼 𝗽𝗿𝗮𝘁𝗼
Além deles, outros 70 grandes empresários de diversos ramos económicos portugueses, como representantes do antigo Grupo Espírito Santo. Carlos Barbot, dono do império empresarial das Tintas Barbot, e Paulo Mirpuri, ex-dono da falida operadora de aviação Air Luxor, CEO da Mirpuri Investments e da Hi-Fly, também estiveram nos almoços do Chega.
Entre os doadores do Chega já foram detectados membros da família Champalimaud, que figuram como maiores acionistas da CTT (Correios e banco) e do hotel de luxo The Oitavos, em Cascais, onde o partido organiza encontros com financiadores, dentre outros ramos de negócios.
O episódio recente da CNN foi mais um acto de vitimização, próprio dos ditadores. Recordo que André Ventura num debate para as Legislativas de 2024 disse "𝗘𝘂 𝗶𝗻𝘁𝗲𝗿𝗿𝗼𝗺𝗽𝗼 𝘀𝗲𝗺𝗽𝗿𝗲 𝗾𝘂𝗲 𝗾𝘂𝗶𝘀𝗲𝗿”. Lembram-se? Um total de 1.661 interrupções e cerca de 30% das interrupções foram feitas pelo líder do Chega.

𝗢 𝗴𝗿𝘂𝗽𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗹𝗮𝗺𝗲𝗻𝘁𝗮𝗿 𝗱𝗼 𝗖𝗵𝗲𝗴𝗮 𝗱𝗶𝘀𝘀𝗲𝗺𝗶𝗻𝗮 𝗺𝗲𝗻𝘁𝗶𝗿𝗮𝘀
Obriga frequentemente ao uso de fact-checking. Agora aprimoraram-se na deepfake recorrendo à Inteligência Artificial.
A camada principal do Chega é polarizar a nossa sociedade e instrumentalizar e promover o ódio e a intolerância.
Já dizia Camilo Castelo Branco, um grande escritor e por vezes muito esquecido entre nós, tal como p.ex. Aquilino Ribeiro escreveu o seguinte - "Ó𝐝𝐢𝐨 é 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐚𝐬 𝐯𝐞𝐳𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐦𝐚𝐬𝐢𝐚𝐝𝐚 𝐢𝐦𝐩𝐨𝐫𝐭â𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐚𝐨 𝐪𝐮𝐞 é 𝐬𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐝𝐞𝐬𝐩𝐫𝐞𝐳í𝐯𝐞𝐥"  (Trecho retirado do seu romance "A Neta do Arcediago")
"Somente desprezível" significa que algo ou alguém é digno de desprezo e nada mais. Refere-se a algo ou alguém que não merece consideração, que é vil, abjeto ou sem valor, não apresentando qualquer outra qualidade.
Que merece ser desprezado: A expressão destaca a falta de valor e a indignidade.
Que não merece respeito: Implica que a pessoa ou coisa em questão é de baixo caráter, abjeta ou sórdida.
Sem outras qualidades: Sugere que, além de desprezível, não há nada de positivo a ser dito sobre o assunto.
Uma situação e efeito do ódio é a nível psicológico e de abalos de valores pessoais e colectivos. Ver estudo académico "Why we hate". 
Porém o aspecto perigoso do ódio é quando ele está na política, num partido, num agregado social. O ódio deriva de uma mentalidade “nós contra eles”, ao mesmo tempo que é um método simplificado para a difícil tarefa de gerir a diferença.

𝐏𝐨𝐥𝐚𝐫𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐧ã𝐨 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐚𝐥𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫 𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐟𝐥𝐢𝐭𝐨 𝐠𝐫𝐚𝐭𝐮𝐢𝐭𝐨 — 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐚 𝐭𝐨𝐦𝐚𝐫 𝐩𝐨𝐬𝐢çã𝐨.
A política não se esgota no consenso, pelo que também é confronto quando o que está em jogo a dignidade de vidas inteiras. Polarizar não é rejeitar o diálogo, mas sim recusar a normalização da violência arbitrária. É traçar uma linha ética, mas não moralista, que diga que daqui não se ultrapassa. 

Afinal, existem momentos em que a empatia exige a tomada de posições e a capacidade de ouvir o outro cede lugar à resistência.

Contudo, o exercício da empatia não se restringe apenas aos opositores de opinião. Dentro dos nossos próprios espaços políticos, deve imperar a capacidade de ouvir o outro e de respeitar a sua humanidade, independentemente das diferenças. Na luta por um mundo mais justo, a empatia deve ser o alicerce de todas as nossas relações, não apenas com aqueles que pensam de forma diferente, mas também dentro dos espaços que ocupamos.

Em conclusão, é preciso mais do que nunca, resgatar a política como exercício de cuidado, como espaço de construção comum. Porque sem empatia, sem estratégia de educação ambiental e relações de proximidade a política perde o seu sentido.