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domingo, 14 de janeiro de 2024

Quando os pobres votam na direita


«O historiador Thomas Frank tem, na edição dos seus livros em francês, duas obras traduzidas com títulos provocadores. Uma sobre a razão por que os pobres votariam na direita e a outra sobre os motivos por que os ricos passaram a votar à esquerda. Nestes textos, muito baseados na situação dos EUA, relata-se o abandono das classes populares por parte dos partidos da esquerda moderada em troca de agendas menos ligadas aos direitos sociais e mais conectadas com os direitos individuais e as múltiplas agendas identitárias.

Num estudo coordenado por Thomas Piketty sobre a relação entre as desigualdades sociais e os resultados eleitorais em 50 países “democráticos” (Clivagens Políticas e Desigualdades Sociais) verifica-se que há em muitos países desenvolvidos uma evolução: antigamente, as classes trabalhadoras tendiam a votar à esquerda e os patrões, ricos e licenciados à direita. Hoje, verifica-se que os licenciados votam à esquerda e que parte das classes trabalhadoras já não vota, ou não o faz à esquerda. Isso coincidiria com várias circunstâncias: o abandono por parte da esquerda do terreno popular e da defesa das classes trabalhadoras e a passagem de reivindicações “materiais” para “pós-materiais”, enquanto se multiplicam novas lutas de caráter identitário que tornam invisível o conflito de classes. Como alguém dizia, “a classe social não foi morta, ela foi enterrada viva”.

Obviamente que é necessário fazer uma política que tenha em conta as identidades, mas isso não significa reduzir a política a uma soma de identidades cada vez mais próxima da individualidade.

Este processo de individualização e perda de referentes coletivos tem a ver com uma alteração da realidade económica e social: a desindustrialização do mundo desenvolvido, a criação de empregos por plataformas, em que dezenas de milhares de pessoas, a fazer a mesma coisa, parecem todas isoladas, em que todos têm laços cada vez menos estáveis, em que há uma certa liquidificação da sociedade.

Mas tudo isto também foi fruto de uma vitória ideológica. Num célebre artigo em 1939, Friedrich Hayek defende que se deveria entregar a condução da política monetária a uma organização supranacional. Propõe a criação de instituições supranacionais como forma de, na prática, retirar ao controlo democrático o funcionamento da economia.

Na altura, esta vontade era amplamente minoritária mesmo no seio da social-democracia e da direita moderada, em que o pensamento keynesiano era dominante. Mas até aos anos 70 os pensadores neoliberais e as classes proprietárias, interessadas em reduzir a força dos sindicatos e dos trabalhadores na distribuição do rendimento, construíram uma nova hegemonia. Como afirmava um dos seus defensores mais conhecidos, Milton Friedman, fizeram com que o politicamente impossível se tornasse o politicamente inevitável.

Este processo de dissociação total entre economia e democracia, através da globalização e da integração europeia, da democracia e da economia, provocou, desde o final dos anos 70, um lento apodrecer das instituições democráticas e uma ideia de impotência da democracia para resolver os problemas das pessoas. Independentemente de em quem votem, as decisões económicas são sempre as mesmas e servem, preferencialmente, determinadas elites políticas e económicas.

Perante este vazio, numa sociedade cada vez mais deslaçada em que impera o isolamento e a insegurança em relação ao futuro - as novas gerações vão viver pior do que as anteriores -, o populismo de extrema-direita veio tentar ocupar o vazio através de um redesenhar do território da política.

De um lado, teríamos as supostas elites, todas confundidas e misturadas, políticos e intelectuais, os imigrantes e as pessoas que não são “da nossa cultura e raça”, e, do outro lado, o povo de bem.

Este mapa da política deixa de lado, naturalmente, as diferenças entre patrões e trabalhadores. Nega a existência de uma luta de classes e substitui-a por uma suposta guerra de civilizações. Aquele que trabalha e é roubado por uma economia que enriquece bilionários não olha para eles e concentra o seu ódio no imigrante que trabalha por metade do preço. Como se essas situações não fossem ditadas pelo capitalismo financeiro globalizado. André Ventura faz esse movimento de prestidigitação, retirando da vista os empresários milionários que dão dinheiro ao Chega, fazendo ainda um ajuste de contas histórico. Quer fazer-nos crer que a culpa da nossa situação de miséria está na democracia, e não na economia. Ao mesmo tempo, faz uma lavagem do fascismo e do colonialismo, como se eles não tivessem sido uma das razões, a par da política neoliberal, do nosso atraso e da falta de condições de vida em que se encontra a maioria das pessoas que vivem em Portugal. Para dizer claramente, não foi quem combateu a ditadura e o colonialismo que traiu as pessoas que vivem em Portugal, foi quem defende esse regime fascista que tem as culpas do sofrimento, miséria e falta de liberdade em que viveram gerações.

O Chega é o braço armado dos ricos, que lhe pagam, a fingir que quer apoiar quem trabalha. Tudo isso disfarçado com discursos sobre segurança, ideologia de género, falsa teoria da substituição dos portugueses pelos imigrantes e o alegado combate à corrupção, que deixaria os maiores corruptos a salvo.

Para impedir o crescimento da extrema-direita é preciso sair de um conflito em que a extrema-direita fala às entranhas das pessoas, enquanto do outro lado só há uma esquerda moderada que fala com o Excel.

O drama é que populismos e fundamentalismos têm sido contestados por bons motivos mas com más respostas. Como escrevia William Butler Yeats n’O Segundo Advento, “aos melhores falta convicção e aos piores sobeja apaixonada intensidade”. Talvez fosse melhor desenterrar a luta de classes e reivindicar a parte intensa de um conflito social com coordenadas verdadeiras.»

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Bitcoins, sonho de consumo dos anarco-capitalistas


Fonte: Doug Henwood, 2017

O guru do marketing Robert Prechter, grande psicólogo dos mercados financeiros embora seja seguidor devotado de Ayn Rand e acredite na peça de ficção denominada teoria Elliott Wave, alegou certa vez que num grande mercado especulativo há algo denominado “ponto de reconhecimento”, quando o público embarca. Isso significa que está ficando tarde e já é hora de os profissionais pensarem em cair fora (embora a mania possa continuar bem depois do envolvimento das pessoas comuns).

Parece que estamos nesse ponto com a Bitcoin, cujo preço teve, nos últimos anos, uma trajetória semelhante à de grandes manias da história, como o frenesim do bulbo de tulipa holandês, dos anos 1630, a bolha do Mar do Sul dos anos 1710 e as orgias do mercado de ações norte-americano nos anos 1920 e 1990.

O que acontece? Antes de entrar nos detalhes, é preciso lembrar que dinheiro, em geral, não é um tema simples. A maioria das pessoas tem um bom entendimento de como o ouro, que é um tipo específico de dinheiro, é garimpado, processado e formatado em lingotes e moedas. Um pouco menos óbvia é a razão por que tem um status monetário diferente, digamos, ao da platina. Mas é raro, puro, facilmente divisível, e muito apreciado ao longo dos tempos.

O dinheiro de papel é mais complexo. De 1900 até 1971, o dólar norte-americano era lastreado pelo ouro, o que significa que seu valor era legalmente definido por um certo peso do metal. Isso acabou em 1971, quando o presidente Richard Nixon chocou o mundo ao romper a relação com o ouro e permitir que seu valor fosse determinado pela negociação nos mercados de câmbio.

O Bitcoin, contudo, é um animal completamente diferente. É a primeira e mais famosa de uma família grande e crescente de coisas denominadas “criptomoedas”. A família inclui o Ethereum, o Ripple, o Dash e o Monero – mas o Bitcoin é de longe o maior. O valor total dos Bitcoins existentes hoje é de 261 biliões de dólares. Isso é um terço a mais que o valor total das ações do Citigroup, e pouco menos que o valor das ações da Wells Fargo, bancos reais com milhões de clientes, que produzem dinheiro de verdade.

A origem do Bitcoin está num texto de 2008 escrito por alguém com o pseudónimo de Satoshi Nakamoto. Bem a propósito, a despeito das muitas tentativas, ninguém conseguiu saber quem ele é.

A definição semioficial de criptomoeda é “uma moeda digital produzida pessoa-a-pessoa, descentralizada, cuja implementação baseia-se nos princípios da criptografia para validar as transações e geração da própria moeda.” (Embora seja um tijolo denso de prosa, é preciso fazer justiça para os criptoides lembrando que também não seria fácil definir o dólar de forma sucinta.)

Tudo isso significa que o Bitcoin e as outras são moedas eletrónicas – pura entrada de dados em registros eletrônicos – criadas e transferidas por uma rede de computadores sem que ninguém seja responsável por isso. O papel da criptografia não é simplesmente garantir a segurança da transação, mas também gerar novas unidades da moeda. Novas unidades de criptomoeda são “garimpadas” por computadores ao resolver complicados (e descabidos) algoritmos matemáticos, que uma vez solucionados possibilitam o nascimento de uma unidade da moeda – com assinatura digital garantindo autenticidade e unicidade –, então anunciado ao resto do sistema.

Cada Bitcoin inclui um Blockchain, registo digital anónimo do histórico de transação dessa unidade. O criador ganha o valor da nova moeda quando ela entra no sistema. Você pode comprar ou vender Bitcoins online, e há alguns poucos caixas eletrónicos para Bitcoins espalhados pelo mundo.

A garimpagem requer quantidades enormes de potência computacional. Segundo algumas estimativas, a potência usada pela Bitcoin pode já ser igual à de 3 milhões de famílias dos EUA, e superar o consumo individual de 159 países. A massa dessa garimpagem acontece na China, onde a maior parte da eletricidade é gerada pelo carvão, um negócio sujo. Espera-se que o número total de Bitcoins em circulação chegue a 21 milhões; já estamos por volta de 17 milhões. À medida em que o limite vai sendo alcançado, os algoritmos de criação das moedas ficam mais difíceis de resolver — e mais carbono é gerado. Mesmo as coisas aparentemente mais imateriais têm com frequência profundas raízes materiais.

Vale enfatizar que os algoritmos usados para gerar Bitcoins não têm sentido. Não servem a nada útil. Para alguns adeptos, isso é uma coisa boa, porque estar ligadas a um propósito útil poderia conferir valor intrínseco à moeda; é melhor deixar seu valor flutuar livremente, limitado apenas pela imaginação humana.

É essa a tecnologia do Bitcoin. E o que dizer dela como dinheiro? A clássica definição dos economistas sobre o dinheiro é que ele é uma reserva de valor, uma unidade de medida e um meio de troca. Você vai à loja e vê uma lata de tomates que custa 3 dólares, os quais serão registados pela loja como receita quando a lata for vendida. Você saca 3 dólares do bolso ou do seu cartão de débito. Extrai o valor provisionado (dinheiro na mão ou no banco) e usa-o como meio de troca.

O dólar norte-americano tem valor porque todo mundo nos EUA (e além) considera a moeda bem-sucedida ao preencher estes três requisitos como dinheiro. O dólar é valorizado pelos bens e serviços que pode comprar.

Já o Bitcoin tem sérios problemas em todos esses aspectos. Recentemente, numa única semana, o valor da Bitcoin variou entre 15 mil e 21 mil dólares aproximadamente. Um ano atrás, seu valor era de pouco mais de 800 dólares. Não é, portanto, uma reserva de valor muito confiável. (Está cotado em US$15.625 agora. Mas espere um minuto e ele vai mudar. Aqui, uma cotação ao vivo.)

Quase ninguém aceita Bitcoins, nem empresas mantêm nele sua contabilidade; ele fracassa tanto como unidade de valor quanto como medida de troca. E sua curta história – os primeiros Bitcoins foram cunhadas em 2009 – tem sido turbulenta. Houve vários roubos, fraudes e hackeamentos, que seus partidários consideram dores de crescimento. Mas sem instituição reguladora, sem depósito de segurança e sem banco central, esse tipo de incidente é inevitável. Introduza, porém, esquemas de regulação e seguroança e a Bitcoin perderá todo o seu anarco-charme.

O ouro é como o Bitcoin, por ser uma forma não estatal de dinheiro — razão pela qual é amado pelos ultra-liberais [libertarians, em inglês], mas tem se saído muito melhor como reserva de valor. O preço do ouro varia bem menos que um por cento ao dia – mas seu preço é ainda mais volátil que o do dólar norte-americano. É uma reserva de valor semiconfiável.

Já nos outros requisitos o ouro não é muito melhor que o Bitcoin: não dá pra comprar muita coisa com ele, e quase nada tem seu preço ou é contabilizado em ouro.

A despeito disso, o ouro retém um enorme apelo fantasmático – um tipo “objetivo” de medida de valor, determinada pelo mercado, distante da intervenção dos Estados. Keynes considerou o ouro parte do “aparato do conservadorismo”. Era um velho conservadorismo, o dos rentistas que amavam a austeridade, porque ela preservava o valor de seus ativos. O Bitcoin serve a um propósito totémico semelhante para os ciberliberais de hoje — que o amam não somente pelo fato de ser dinheiro não-estatal, mas também por seu poder de “desestabilizar”. O Bitcoin é parte do aparato do anarco-capitalismo.

O universo político do Bitcoin tem face principalmente ultra-liberal, mas inclui uma esquerda. Um texto escrito há alguns anos por Denis “Jaromil” Roio — um hacker, artista e estudante de graduação — utiliza citações de Michael Hardt, Antonio Negri, Giorgio Agamben e Christian Marazzi para dar ao Bitcoin um giro revolucionário, vendo-o de forma criativa como caminho para “a multidão [construir] seu corpo além da linguagem”. Jaromil não explica como a transformação do instrumento monetário poderá mudar o caráter da produção ou o modo como a renda é distribuída.

Há algo a ser dito sobre o anonimato do Bitcoin – embora deva-se perguntar quão impenetrável é seu véu para a NSA — Agência de Segurança Nacional dos EUA. Por agora, é um meio semisseguro para comprar armas e drogas.

Mas além do anonimato, é difícil enxergar quais os problemas que a Bitcoin resolve. A transição para o dinheiro de papel foi uma resposta à crise do sistema baseado no ouro. Não há valor prático no Bitcoin – de novo, além do anonimato – mas ele carrega bagagem política.

Deixando de lado seus empreendedores e especuladores, que querem apenas enriquecer, a visão política do Bitcoin é de um mundo descentralizado e sem Estados, com sistemas monetários em competição.

Dinheiro competitivo, que acaba com o monopólio do Estado na área, é há muito o sonho da direita. Num texto de 1976, Friedrich Hayek argumentava a favor de permitir a circulação de várias moedas dentro de cada país; a competição levaria ao uso da moeda mais sólida – isto é, a mais adequada às políticas de “austeridade”. Seria uma forma de controlar as tentativas governamentais de inflar as possibilidades de resolver problemas.

Isso significaria ausência de estímulo fiscal ou monetário em crises económicas – deixem a seleção natural agir, simplesmente. As criptomoedas seriam um passo a mais em direção à ideia de moedas competitivas, que poderiam desafiar o próprio monopólio de emissão do Estado. (Na verdade, tínhamos moedas competindo no século XIX; diversos tipos de pequenos bancos emitiam notas que frequentemente acabavam perdendo valor.) Claro, não há inflação; mas o dinheiro governamental provou ser muito mais estável do que suas alternativas — sejam elas ouro ou Bitcoin. Nenhum correntista perdeu um centavo na crise financeira de 2008; não se pode dizer o mesmo sobre os Bitcoins, em sua curta existência. Mas os ultra-liberais – e há muitos deles na tecnologia e nas finanças, as mães do Bitcoin – estão preocupam-se obsessivamente com a inflação; do mesmo modo que os titãs dos fundos de investimento consideram o fim de suas isenções fiscais como uma repetição da Alemanha nazi.

De modo que, embora o Bitcoin falhe como dinheiro, ele adquiriu uma vida intensa como ativo especulativo. Ao contrário da maioria dos ativos especulativos convencionais, porém,o seu valor é completamente imaterial. As ações são, em última instância, direitos sobre os lucros das empresas; e os títulos públicos asseguram um fluxo futuro de pagamentos de juros. Não se pode dizer o mesmo dos bitcoins. Seu único valor é aquilo que alguém vai pagar por eles hoje à tarde ou talvez amanhã. E agora estão sendo negociados no mercado futuro, o que leva a especulação a uma quarta ou quinta dimensão.

E que onda especulativa!. Todoo mundo quer participar do movimento. Imitadores do Bitcoin surgem todos os dias. Há pouco, especuladores garfaram mais de 700 milhões de dólares para uma empresa, a Block One, com uma criptomoeda que não existe realmente e, segundo seus patrocinadores, não tem objetivo. A empresa não divulgou quase nenhuma informação sobre si, e quase nada é conhecido sobre seus fundadores. Alguns dias depois, bem cedo, a empresa Long Island Ice Tea, que vende bebidas não alcoólicas, mudou seu nome para Long Blockchain, e imediatamente o preço de suas ações mais que dobraram. A empresa não tem acordo com nenhum promotor de criptomoeda, nem está prospectando isso. O truque foi a mera troca de nome.

É tudo uma loucura, mas o meu palpite é que este tipo de bolha não causará grande dano econômico, quando estourar. Para isso, ela teria de ser financiada por bancos, que estariam em risco de falência quando as coisas ruíssem. Não é o que parece estar acontecendo. Haverá, contudo, quem perca a camisa.

O que é mais sério, essa bolha mostra que algumas pessoas têm muito dinheiro. Nossas sociedades têm dinheiro mais que suficiente para especular, mas não para suprir as necessidades humanas.

domingo, 27 de dezembro de 2020

The Marketisation of Truth



In the last few years, our relationship to information has appeared to rapidly deteriorate. This was perhaps indicated best by Kellyanne Conway’s now-infamous declaration in January 2017 that the White House had been offering ‘alternative facts’. But this baffling exchange with NBC anchor Chuck Todd did not inaugurate a new era of informational flexibility in the way it appeared to, so much as confirm a problem that had been quietly building for decades.

The previous year had already seen the troublesome phrases “fake news” and “post-truth” enter our language, whilst Brexit campaigns promoted lies such as the “£350 million claim” that Britain’s (gross) contributions to the European Union could and would simply be reinvested in the country’s strained National Health Service. The pandemic that has since exposed such underinvestment in that service has also been accompanied by an ‘infodemic’ of its own, including barefaced lies from government alongside outlandish conspiracy theories about vaccination and 5G. But whilst Brexit and COVID have both been watershed moments for the ‘normalisation of disinformation’ within British political discourse, the factors that made this normalisation possible have a much longer history.

A number of different theories have been peddled as to why the seeming optionality of verifiable truth has become such a common and seemingly acceptable phenomenon across vast swathes of the political map. From blaming scholars of post-modernism for flooding the world with uncertainty, to suggesting social media technologies are driving a regression in our individual capacity to determine fact from fiction, these theories focused on identifying and pathologising things that were apparently unique about our present moment. Yet these theories represent shallow analyses at best, and disingenuous scapegoating at worst.

Towards an age of suspicion
Rather than Facebook or left-wing philosophers, the primary driver of this development has been suspicion, the corollary of morally untethered free markets, think tanks and public relations. One of the more obvious, if gradual changes that has led Britain and much of the world to this point is that as political-economic power has evolved over the past century it has transitioned from the coercive, violent forms it once assumed to the manipulation of culture and ideas. In effect, we have become accustomed to the idea that even the most innocuous mass communication could potentially be politically skewed. In the last few decades especially, this suspicion and incredulity has been quietly fed by the very deliberate workings of neoliberalism and its architects.

It is quite well known that, in 1947, a group of economists met in the Swiss resort of Mont Pèlerin to discuss a discredited economic model that saw free markets as the best protection against the return of the authoritarianism of European fascism and Soviet power. Only slightly less well known is the fact that in 1955, commercial chicken farmer and former air force pilot Antony Fisher had visited the organiser of Mont Pèlerin and father of neoliberalism, Friedrich Hayek at his office in London at the LSE to ask his advice about how to promote free-markets.

Hayek’s response was instructive: “forget politics. Politicians just follow prevailing opinions. If you want to change events, you must change ideas.” Two years later, the Institute of Economic Affairs was born, and in the following years, Fisher would go on to found numerous other free-market organisations and anti-regulation pressure groups. In the 1980s, Hayek took the time to write to Fisher, to congratulate him on how successful he had been in this ideas-first strategy. More recently, the IEA was shown to be sending an oil and tobacco-funded magazine to all A-level business studies pupils in the UK.

These developments are at least a conceptual guide with which to piece together not only the steady degradation of any notion of “truth” we have witnessed in the neoliberal west in recent decades, but the systematic malnourishment of our democracies and the destruction of our environment. How? Most importantly, this devastating combination of free-market primacy and culturally-led political-economic dogma, often pushed by small, well-financed private institutions, paved the way for a slow but steady marketisation of culture itself; an attack on all ethics, values and ideas that could not be economised and traded within a market-like framework of exchange, ownership, and accumulation. The free-market economist Milton Friedman once claimed that nobody had more influence on Margaret Thatcher than Antony Fisher. Above all, this was a transition from a political world to an economic one in which moral or scientific considerations such as democracy or the environment were unhelpful inhibitions.

The marketisation of everything
Once ethical and political considerations have withered into mere spectacle, useful only for their role in providing a means for social media giants to harvest human attention by giving us something to argue about on Twitter, instead of facing our post-democratic predicament, we reach a very dangerous condition. Wendy Brown calls it “conceptual unmooring”; Mark Fisher called it an elimination of “the very category of value in the ethical sense”; Durkheim described something similar, if in an earlier era, with his concept of anomie. We are effectively left with no anchor and nothing to hold on to.

The marketisation of everything normalised the very real possibility that behind every communication, every representation, every action within any public sphere, was an undisclosed agenda of private gain. Thatcher’s individualism, an exaggerated, twisted variation on Hayek’s grand theme, was a world of dog-eat-dog. Thanks to Richard Dawkins, selfishness was as natural as breathing, and the more emboldened one could become in their own greed, the more they would be suspicious of everybody else’s.

Most pernicious of all however, was the combination in itself: once there were no anchors, and abundant lies; nothing shared and everything traded for a profit; only commodity and spectacle, and nothing real except money, there could be no shared truth. And so we come to our predicament: No truth—that is, until the oceans inundate our cities, and fascism’s incoherent, empty promises to the terrified suburban middle classes are fully institutionalised. By then it may be too late.

quinta-feira, 2 de julho de 2020

The Neoliberal Looting of America

Não foi só a América que foi saqueada pelo neoliberalismo: o artigo pode ser generalizado a quase todo o mundo desenvolvido. Poucos ideólogos terão feito tanto mal ao mundo como Friedrich Hayek.


“It’s hard to separate what’s good for the United States and what’s good for Bank of America,” said its former chief executive, Ken Lewis, in 2009. That was hardly true at the time, but the current crisis has revealed that the health of the finance industry and stock market are completely disconnected from the actual financial health of the American people. As inequality, unemployment and evictions climb, the Dow Jones surges right alongside them — one line compounding suffering, the other compounding returns for investors.

One reason is that an ideological coup quietly transformed our society over the last 50 years, raising the fortunes of the financial economy — and its agents like private equity firms — at the expense of the real economy experienced by most Americans.

The roots of this intellectual takeover can be traced to a backlash against socialism in Cold War Europe. Austrian School economist Friedrich A. Hayek was perhaps the most influential leader of that movement, decrying governments who chased “the mirage of social justice.” Only free markets can allocate resources fairly and reward individuals based on what they deserve, reasoned Hayek. The ideology — known as neoliberalism — was especially potent because it disguised itself as a neutral statement of economics rather than just another theory. Only unfettered markets, the theory argued, could ensure justice and freedom because only the profit motive could dispassionately pick winners and losers based on their contribution to the economy.

Neoliberalism leapt from economics departments into American politics in the 1960s, where it fused with conservative anti-communist ideas and then quickly spread throughout universities, law schools, legislatures and courts. By the 1980s, neoliberalism was triumphant in policy, leading to tax cuts, deregulation and privatization of public functions including schools, pensions and infrastructure. The governing logic held that corporations could do just about everything better than the government could. The result, as President Ronald Reagan said, was to unleash “the magic of the marketplace.”

The magic of the market did in fact turn everything into gold — for wealthy investors. Neoliberalism led to deregulation in every sector, a winner-take-all, debt-fueled market and a growing cultural acceptance of purely profit-driven corporate managers. These conditions were a perfect breeding ground for the private equity industry, then known as “leveraged buyout” firms. Such firms took advantage of the new market for high-yield debt (better known as junk bonds) to buy and break up American conglomerates, capturing unprecedented wealth in fewer hands. The private equity industry embodies the neoliberal movement’s values, while exposing its inherent logic.

Private equity firms use money provided by institutional investors like pension funds and university endowments to take over and restructure companies or industries. Private equity touches practically every sector, from housing to health care to retail. In pursuit of maximum returns, such firms have squeezed businesses for every last drop of profit, cutting jobs, pensions and salaries where possible. The debt-laden buyouts privatize gains when they work, and socialize losses when they don’t, driving previously healthy firms to bankruptcy and leaving many others permanently hobbled. The list of private equity’s victims has grown even longer in the past year, adding J.Crew, Toys ‘R’ Us, Hertz and more.

In the last decade, private equity management has led to approximately 1.3 million job losses due to retail bankruptcies and liquidation. Beyond the companies directly controlled by private equity, the threat of being the next takeover target has most likely led other companies to pre-emptively cut wages and jobs to avoid being the weakest prey. Amid the outbreak of street protests in June, a satirical headline in The Onion put it best: “Protesters Criticized For Looting Businesses Without Forming Private Equity Firm First.” Yet the private equity takeover is not technically looting because it has been made perfectly legal, and even encouraged, by policymakers.

According to industry experts, 2019 was one of the most successful years for private equity to date, with $919 billion in funds raised. The private equity executives themselves can also garner tremendous riches. Their standard fee structure involves collecting around 2 percent of the investor money they manage annually, and then 20 percent of any profits above an agreed-upon level. This lucrative arrangement also lets them tap into the very favorable “carried interest” tax loophole, allowing them to pay much lower capital gains tax rates on their earnings, rather than normal income taxes like most people.

An examination of the recent history of private equity disproves the neoliberal myth that profit incentives produce the best outcomes for society. The passage of time has debunked another such myth: that deregulating industries would generate more vibrant competition and benefit consumers. Unregulated market competition actually led to market consolidation instead. Would-be monopolies squeezed competitors, accrued political power, lobbied for even more deregulation and ultimately drove out any rivals, leading inexorably to entrenched political power. Instead of a thriving market of small-firm competition, free market ideology led to a few big winners dominating the rest.

Take the banking sector. For most of American history, banks were considered a public privilege with duties to promote the “best interest of the community.” If a bank wanted to merge or grow or offer new services, the regulators often denied the request either because a community could lose a bank branch or because the new product was too risky. During the neoliberal revolution of the 1980s and ’90s, Congress and bank regulators loosened the rules, allowing a handful of megabanks to swallow up thousands of small banks.

Today, five banks control nearly half of all bank assets. Fees paid by low-income Americans have increased, services have been curtailed and many low-income communities have lost their only bank. When federally subsidized banks left low-income communities, vulture-like fringe lenders — payday, title, tax-refund lenders — filled the void. As it turns out, private equity firms are invested in some of the largest payday lenders in the country.

Faith in market magic was so entrenched that even the 2008 financial crisis did not fully expose the myth: We witnessed the federal government pick up all the risks that markets could not manage and Congress and the Federal Reserve save the banking sector ostensibly on behalf of the people. Neoliberal deregulation was premised on the theory that the invisible hand of the market would discipline risky banks without the need for government oversight. Even a former Fed chairman, Alan Greenspan, the most committed free market fundamentalist of the era, admitted in the understatement of the century, that “I made a mistake.”

We can start fixing the big flaws propagated over the last half century by taxing the largest fortunes, breaking up large banks and imposing market rules that prohibit the predatory behaviors of private equity firms.

Public markets can take over the places that private markets have failed to adequately serve. Federal or state agencies can provide essential services like banking, health care, internet access, transportation and housing at cost through a public option. Historically, road maintenance, mail delivery, police and other services are not left to the market, but provided directly by the government. Private markets can still compete, but basic services are guaranteed to everyone.

And we can move beyond the myths of neoliberalism that have led us here. We can have competitive and prosperous markets, but our focus should be on ensuring human dignity, thriving families and healthy communities. When those are in conflict, we should choose flourishing communities over profits.

Mehrsa Baradaran (@MehrsaBaradaran) is a professor of law at the University of California, Irvine, and author of “The Color of Money: Black Banks and the Racial Wealth Gap.”

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