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quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Nuno Castanheira - Estar em casa no mundo como esforço ético e político



Não há outra Terra. Não há um fora. Não há cálculo cujo resultado dê certo em uma equação na qual uma economia com demandas ilimitadas se valha de recursos limitados, em um planeta finito. Por isso, é preciso repensar o significado de “estar em casa no mundo”, propõe o filósofo português Nuno Castanheira nesta entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

“Estar em casa no mundo significa fazer do mundo um lugar apropriado para habitação. A palavra-chave é 'fazer', ou seja, compreender esse 'estar em casa no mundo' como uma prática constante, um esforço ético e político que exige uma ação concertada e responsável”. E acrescenta: “As catástrofes climáticas, enquanto parte da crise ecológica, devem ser vistas como um sintoma da nossa condição de cada vez mais extrema alienação, um grito por parte da Terra e dos seus sistemas que se transformou numa espécie de último resquício daquele estranhamento que é condição da própria liberdade e que agora se encontra sob ameaça existencial, não só em termos políticos, mas até, poderíamos dizer, ontológicos”.

Discutindo o significado do Antropoceno, Castanheira observa que este sua tese fundamental reside no “fato de os impactos da atividade da humanidade sobre a Terra e os seus diversos sistemas serem de tal modo significativos – em particular nos últimos três séculos – que atingiram uma dimensão geológica, ou seja, conseguiram alterar o comportamento do sistema-Terra de tal modo que se estendem para um futuro imprevisível, possivelmente na ordem dos milhares de anos”.

Por isso, pesquisadores sustentam que saímos da época geológica do Holoceno para outra, do Antropoceno, quando “a humanidade deixaria de ser considerada apenas mais um agente entre outros, cujos impactos eram mais ou menos reversíveis no quadro dos processos terrestres, passando a ser considerada uma força geológica poderosa, determinante e consequente para os processos do sistema-Terra”. Por estarmos frente a condições absolutamente novas, o pensador propõe que retomemos o “espírito revolucionário, reafirmando uma vida comunitária baseada na liberdade e na pluralidade de perspectivas e de possibilidades que se adicionam, ao invés da monocultura política e econômica em que temos vivido, administrados e dominados por um regime com elementos totalitários, alienante, reificante e niilista”.

Confira a entrevista.

IHU – Como podemos compreender o que é o Antropoceno, suas raízes e seus desdobramentos?
Nuno Castanheira – O Antropoceno (anthropos – humano; ceno – recente, novo) é a proposta de uma nova época geológica, apresentada num curto texto publicado na Global Change Newsletter, em 2000, por dois cientistas – o holandês Paul J. Crutzen (1) (químico ambiental) e o estadunidense Eugene Stoermer (2) (ecólogo) –, a qual sucederia ao Holoceno, a época geológica atual, caracterizada, entre outras coisas, pela estabilidade climática, por temperaturas amenas, pelo recuo glacial, e pela expansão humana pela Terra. No fundo, o Holoceno designa a época caracterizada pelas condições básicas favoráveis à vida na Terra, tal como nós a conhecemos, com início há cerca de 11.600 anos.

O Antropoceno, por seu turno, tem como tese fundamental o fato de os impactos da atividade da humanidade sobre a Terra e os seus diversos sistemas serem de tal modo significativos – em particular nos últimos três séculos – que atingiram uma dimensão geológica, ou seja, conseguiram alterar o comportamento do sistema-Terra de tal modo que se estendem para um futuro imprevisível, possivelmente na ordem dos milhares de anos. Assim, segundo os referidos cientistas, tais mudanças, resultantes da atividade humana, teriam ocasionado a transição de uma época geológica, o Holoceno, para uma nova época geológica, o Antropoceno, na qual a humanidade deixaria de ser considerada apenas mais um agente entre outros, cujos impactos eram mais ou menos reversíveis no quadro dos processos terrestres, passando a ser considerada uma força geológica poderosa, determinante e consequente para os processos do sistema-Terra.

Antes de prosseguir, é preciso lembrar que esta proposta foi avaliada pelo Grupo de Trabalho Antropoceno, constituído pela Comissão Internacional de Estratigrafia, da União Internacional de Ciências Geológicas, sobre a qual recai a responsabilidade de validar eventuais alterações à escala de tempo geológico. Em 2024, a recomendação do GT Antropoceno foi no sentido de recusar a proposta de formalização do Antropoceno como época geológica.

Não obstante a relevância científica desta decisão e os inevitáveis debates que dela resultarão no contexto das ciências naturais, penso que ela não torna o conceito de Antropoceno menos importante como eixo de análise da crise ecológica e climática que vivemos. De fato, o conceito de Antropoceno revelou-se decisivo para reavivar e trazer para o debate público, quer nas universidades, quer na sociedade em geral, duas questões fundamentais e interligadas para a compreensão do significado e das implicações da crise ecológica contemporânea, a saber:

a. Será ainda possível sustentar a separação estrita, claramente aprofundada pelo dualismo e pela tecnociência característicos da Modernidade ocidental, entre sociedade e natureza, que se tornou globalmente hegemônica nos seus diferentes aspectos e abordagens – científicos, epistemológicos, éticos, políticos, econômicos, ontológicos, entre outros?

b. A que anthropos – ser humano – nos referimos quando falamos de Antropoceno e da humanidade como força geológica, responsável pela atual crise ecológica? Quais os seus pressupostos, implicações e possíveis consequências?

Na cultura ocidental, e mais marcadamente na sua manifestação moderna – tecnocientífica, matematizada, capitalista e dualista –, a separação entre natureza e sociedade foi considerada evidente por si mesma. Em tempos pré-modernos, a natureza era vista, no Ocidente, como cíclica e imutável, como uma ordem cósmica sempiterna que servia de cenário mais ou menos indiferente às comunidades humanas e às suas atividades. Em tempos modernos, a natureza tornou-se uma reserva sempre disponível e sempre abundante de material para propósitos humanos, sem finalidades próprias e desprovida de valor intrínseco. Num e no outro caso, a natureza é ética e politicamente indiferente, o Outro relativamente às sociedades humanas e às relações humanas.

Relação entre sociedade e natureza
A crise ecológica mostra-nos que a separação entre natureza e sociedade não pode ser mais tomada como evidente, tendo-se tornado, bem pelo contrário, um campo de acesa disputa ética e política. De fato, se a atividade humana se mostra cada vez mais capaz de transformar irreversivelmente a natureza e os seus processos, então a natureza foi “trazida” para a sociedade, tornou-se uma entidade ético-política e, nesse sentido, uma entidade cujas reivindicações – direta ou indiretamente consideradas – tomaram um lugar central nas disputas políticas contemporâneas.

No nosso tempo, e devido à atividade humana, os processos que decorrem entre sociedade e natureza mostram uma tal codependência que uma distinção clara entre ambas parece quase impossível de ser obtida. Longe de ser algo negativo, esse reabrir da questão acerca da relação entre sociedade e natureza é extremamente positivo, pois o reequacionar da relação pode ajudar-nos não só a compreender e, quem sabe, a resolver a crise ecológica, mas também a reavaliar a nós próprios enquanto comunidade ética e política com responsabilidades mais alargadas. E essa é uma questão que a proposta do Antropoceno ajudou a trazer a um público mais vasto.

É certo que o conceito de Antropoceno não inaugurou as reflexões críticas a respeito do dualismo sociedade/natureza e suas implicações, reflexões que estavam já presentes na área da filosofia em geral, em particular ao longo da segunda metade do século XX. Nesse período, estabeleceram-se ou ampliaram-se áreas acadêmicas como a bioética, a fenomenologia e a ética ambiental, ou perspectivas políticas como o ecofeminismo e o ecossocialismo, entre muitas outras, com nomes como Hans Jonas (3), Aldo Leopold (4), Arne Naess (5), Val Plumwood, Vandana Shiva (6), só para citar alguns, que contribuíram decisivamente não só para a crítica do dualismo, mas também para a crítica de pressupostos estruturantes da sociedade atual, exigindo a sua superação e a integração de perspectivas alternativas àquela que é, ainda hoje, a hegemônica. Não obstante, a proposta do Antropoceno como época geológica veio não só dar nova vida a esse debate no âmbito da filosofia e das ciências humanas, alargando os seus horizontes, mas também tornar mais explícito esse debate no campo das ciências naturais e do público em geral.

Universalidade abstrata da humanidade
Isto conduz-nos à segunda questão que referi antes, a questão relativa ao anthropos que constitui o Antropoceno. São conhecidas e muito variadas as críticas que o conceito de Antropoceno tem recebido ao longo dos quase 25 anos da sua existência, algumas delas que me parecem bastante justas. Uma das mais relevantes parece ser a sua contribuição para a propagação de um dos preconceitos fundadores da Modernidade ocidental, um preconceito que teve e continua a ter consequências desastrosas: a referência à humanidade como se se tratasse de um todo abstrato, politicamente neutro, indiferenciado, universal. Tal preconceito exclui ou apaga o fato de a comunidade humana ser plural nas suas manifestações políticas, históricas, culturais, éticas, econômicas, tecnológicas, nas suas formas de vida. Assim, também as responsabilidades da pluralidade constituinte da comunidade humana perante a crise ecológica são igualmente plurais e desiguais, não podendo ser tratadas como relativas a um todo homogêneo.

A pretensa universalidade abstrata da humanidade omite alguns elementos significativos. Talvez o mais relevante desses elementos seja a sua fundação numa imagem eurocêntrica, racista, classista e patriarcal do humano (masculina, branca, burguesa, etc.). O conceito de Antropoceno é acrítico relativamente a essa perspectiva despolitizada da humanidade moderna, críticas que estão espalhadas na literatura filosófica e política pelo menos desde a segunda metade do século XX até hoje. Tais críticas assinalam, em minha opinião, acertadamente o contributo significativo dessa despolitização e naturalização de uma certa imagem do humano para a legitimação e a justificação da afirmação da superioridade da cultura ocidental relativamente a outras culturas, o que conduziu à dominação colonial e imperialista, à exploração, ao racismo e, nos casos mais extremos, à escravização e mesmo ao extermínio.

Se juntarmos as mulheres e a própria natureza a essas exclusões e subalternizações constitutivas da humanidade abstrata moderna, facilmente anteveremos os riscos presentes numa adoção acrítica do conceito de Antropoceno. Certamente sem essa intenção e deixada tal como está, a humanidade referida no conceito de Antropoceno pode contribuir não só para apagar esse histórico de dominação, exploração e exclusão, mas também reproduzir os seus efeitos de forma surda e indireta, nomeadamente colocando no mesmo patamar de responsabilidades relativamente às consequências da atividade humana, por exemplo, os países do Norte Global e os países do Sul Global ou, para dar outro exemplo, o capitalismo – o modo de produção hegemônico – e formas mais tradicionais e sustentáveis de organização social e econômica. Foi no quadro dessas e de outras críticas que surgiram noções alternativas como capitaloceno, necroceno, chthuluceno, só para mencionar algumas, cujos contornos não cabe apresentar aqui, mas que contribuíram significativamente para o aprofundamento do debate sobre a proposta de uma nova época geológica e sobre as origens da crise ecológica que a subjaz.

Relevância conceitual
Uma das consequências da renovação do debate em torno da relação entre natureza e sociedade ou natureza e humanidade foi e continua a ser a necessidade de recolocar a questão: “quem é (o) humano? Quem somos nós?”, que eu já havia mencionado antes. E essa é uma questão em aberto cujo caráter político é inegável. A politização da natureza trouxe consigo a necessidade de desnaturalizar uma concepção abstrata de humanidade feita de preconceitos e exclusões (de gênero, raciais, étnicas, da natureza etc.), colocando-nos em face, nesta sociedade globalizada, da comunidade que hegemonicamente somos e, possivelmente – sublinho aqui o possivelmente –, abrindo algum espaço para um debate sério, profundo, informado e matizado sobre a comunidade que podemos, queremos, e devemos ser.

Como é óbvio, e como referi antes, não foi a proposta do Antropoceno como nova era geológica que originou tudo isto. Mas tem funcionado como um eixo de debate e disputa intelectual e política que não se esgotou ainda, não obstante a decisão da União Internacional de Ciências Geológicas. E isso mostra, em minha opinião, a continuada relevância do conceito.

IHU – Qual é a aproximação entre o Antropoceno e a noção arendtiana de ação na natureza (acting into nature)?
Nuno Castanheira – Esta seria uma resposta que exigiria uma incursão nos escritos de Hannah Arendt e algum aprofundamento não só dos seus conceitos principais, mas também um desenvolvimento interpretativo de algumas das suas teses, em particular da metodologia fenomenológica que preside às suas análises. Isso é algo que não é possível realizar neste contexto, pelo que indicarei apenas alguns dos seus elementos. Também é necessário sublinhar que, embora se trate de uma aproximação, não é mais do que isso, como espero ser capaz de mostrar seguidamente, pois as teses de Arendt (6) contêm possibilidades que nos permitem lidar com todas as críticas dirigidas ao conceito de Antropoceno e ir muito além dele.

No livro A Condição Humana, de 1958, Hannah Arendt afirma que o ser humano começou a agir na natureza, querendo com isto dizer que a ação humana, apoiada na experimentação e na tecnologia, viu alargadas de tal modo as suas capacidades que começou a desencadear processos naturais sem precedentes, imprevisíveis e irreversíveis na Terra. Traduzido em termos do conceito do Antropoceno, poderíamos dizer que a humanidade se transformou numa força geológica cuja atividade e respectivos efeitos se projetam para um futuro indeterminado.

Mas a aproximação possível da ação na natureza apontada por Arendt e o Antropoceno fica-se por aí, por diversas razões. Em primeiro lugar, embora possa parecer que Arendt subscreve o conceito abstrato de humanidade implícito no conceito de Antropoceno, a verdade é que a sua concepção de comunidade humana é, desde logo, política, plural e existencialmente concreta, e nunca deixa de o ser (não há o Homem, mas homens, diz a autora). Arendt toma o conceito abstrato de humanidade ocidental como um fato, mas não para o subscrever ou para o reproduzir acriticamente. Pelo contrário, Arendt assume-o como um fato, constituído histórica e politicamente, que nos serve de condição e com o qual temos necessariamente de lidar, dada a sua hegemonia global. Em conformidade, a pensadora procede à sua desconstrução crítica por intermédio de uma genealogia que mostra não só as suas origens e os seus limites, mas também o conjunto de exclusões sobre os quais assenta, desnaturalizando-as, apontando o caráter eminentemente político do seu processo de constituição e, assim, os fundamentos e as possibilidades da sua destituição.

Em segundo lugar, para Arendt, a pluralidade é uma condição existencial do ser humano e da liberdade humana, liberdade que ela equipara à ação, a capacidade de começar de novo, de iniciar processos sem precedentes. A comunidade humana deve ser compreendida como o espaço aberto pelo encontro paradoxal de entes singulares, únicos, livres e irrepetíveis. Como esse espaço de encontro – esse mundo – se constitui por intermédio de atos discursivos pelos quais cada um de nós aparece a outros, tudo aquilo que é descoberto no mundo é já atravessado de perspectivas, de interpretações, de significados. Cada um só é livre na medida em que a sua perspectiva ou interpretação pressupõe implicitamente a pluralidade de perspectivas ou interpretações que funda o mundo como lugar de encontro, como espaço de liberdade. Ser livre é, para cada ser humano e implicitamente, uma exigência de abertura aos outros, de deixar que sejam livres, uma reivindicação de reconhecimento de uma liberdade compartilhada, efetiva ou possível.

Assim, a noção de ser humano em que Arendt baseia as suas teses assenta numa condição de pluralidade existencialmente concreta e vivida de entidades livres, não numa abstração. Além disso, ela recusa, como contradição performativa que nega a própria liberdade, qualquer pretensão de uma perspectiva abstraída dessa condição de pluralidade existencial a impor-se sobre as outras. Dito de outro modo, qualquer tentativa de despolitizar a comunidade humana plural, naturalizando-a numa humanidade abstrata, homogênea, indiferenciada, corresponde a um ato de dominação sobre e exclusão de outros cujo resultado é a alienação do mundo e, por último, um atentado contra a integridade e dignidade próprias e alheias enquanto entidade livre.

Imprevisibilidade da ação humana
Em terceiro lugar, a tese de Arendt acerca da liberdade como sendo manifestada e articulada nos atos discursivos, num contexto existencialmente plural, implica que tudo aquilo que se dá, é descoberto, ou é encontrado nesse contexto – no mundo – é atravessado de interpretação, incluindo a natureza. Assim, a natureza é descoberta no interior do mundo, isto é, ela não é criada pelo ser humano, mas dá-se, deixa-se ver nas mais diversas interpretações ou narrativas. Ao tentarmos substituir essa espontaneidade de doação da natureza pela sua “produção” através da dominação pelo experimento e pela tecnologia, isto é, de a forçarmos a aparecer em função das imposições tecnocientíficas, homogeneizantes, excludentes e antropocêntricas da humanidade moderna, alienamo-nos das nossas próprias condições mundanas e terrestres e passamos a estar envolvidos num processo ensimesmado, autorreferencial, monocultural, protagonizado por uma interpretação abstrata que tudo quer dominar. Mas isso é apenas uma ilusão, pois o caráter imprevisível da ação humana não é aniquilado e as suas consequências deixam-se ver, mais cedo ou mais tarde.

Assim, podemos dizer que a crise ecológica – essa aparente incapacidade de estarmos em casa no mundo e na Terra, de estarmos deles alienados – é uma das consequências imprevisíveis desse processo de fechamento da humanidade de matriz ocidental sobre si mesma, de negação performativa da sua própria liberdade, um processo que, devido à sua implementação globalmente hegemônica, não só produz e reproduz um conjunto de exclusões, mas põe em risco as condições básicas de vida na Terra.

Abertura de horizontes
Por último, também é fácil de ver que, compreendendo a natureza como dada no interior de um mundo humano fundado na pluralidade de interpretações, a tese de Arendt a respeito da constituição fundamentalmente política da comunidade humana abre espaço para a constante atualização através da inclusão de perspectivas tão diferentes como aquelas que foram e são alvo dos processos de exclusão da humanidade moderna: as mulheres, os grupos racializados ou perseguidos em razão da etnia, as cosmovisões dos Povos Originários, os historicamente e politicamente desfavorecidos etc.

Resumindo, a noção arendtiana de ação na natureza, embora tenha como ponto de partida, tal como o conceito de Antropoceno, o equívoco moderno relativo à nossa capacidade de “produção” da natureza, não descansa nele, abrindo os horizontes da nossa compreensão da política e de quem somos, queremos e devemos ser enquanto comunidade de potenciais habitantes da Terra.

IHU – Qual é o nexo geral entre a crise ecológica e a alienação das diferentes sociedades? Nesse sentido, qual é a colaboração de Marcuse (8) para pensarmos essa relação?
Nuno Castanheira – Alguns dos aspectos dessa alienação já foram mencionados anteriormente, mas tentarei explicitá-los um pouco melhor. Inspirado por Arendt, costumo usar uma definição de trabalho de “crise ecológica” como o índice de uma experiência de crise multidimensional envolvendo a ética, a política, a economia, o direito, o conhecimento, das instituições, do ambiente, do clima, da natureza, normativa etc. No fundo, trata-se da experiência de uma crise generalizada e indefinida, com manifestações nos mais diversos quadrantes da vida humana. Trata-se de uma aparente incapacidade de estarmos em casa, de habitarmos de forma equilibrada, não destruidora e mais ou menos estável, um mundo que nós mesmos criamos e que está enraizado na Terra como sua condição mais essencial.

Como referi antes quando falei sobre a alienação do mundo e da Terra, a alienação refere algum tipo de relação entre termos que copertencem, mas que se encontram problemática e mesmo patologicamente separados. A crise ecológica é, no meu entender, a manifestação contemporânea dessa patologia social na sua forma globalizada. Mais concretamente, a crise ecológica é a manifestação de uma recusa patológica da dependência do ser humano (de matriz ocidental) relativamente a condições dadas – sejam essas condições a presença de outros, a natureza, ou a Terra como oferecendo as condições básicas para a vida tal como a conhecemos, a humana incluída. Como procurei explicar antes, reconhecer-se como entidade condicionada, dependente de algo que não foi criado pelo ser humano ou mesmo por coisas humanamente criadas, não significa perda de liberdade, mas justamente o contrário: é o reconhecimento da pluralidade que funda a nossa liberdade e que se constitui como vínculo não só entre humanos e o mundo humano, mas também com a própria Terra como condição de todas as condições.

Não posso entrar aqui em muitos pormenores, mas essa alienação marca particularmente a sociedade de matriz ocidental, encontrando a sua expressão patologicamente mais significativa no capitalismo compreendido não só como forma econômica, mas como modo de produção, organização e reprodução de vida que se tornou autorreferencial, se autonomizou e se transformou num sujeito totalizante e desvinculado da vida humana concreta. Basta vermos o modo como somos governados pelos “estados de espírito” do mercado para termos noção da sua transformação num sujeito autônomo, com aparente vida própria, para o qual as restantes vidas são meras funções reificadas da sua subsistência.

De fato, o capitalismo relaciona-se com a Terra e com tudo o que nela encontra – incluindo pessoas – como recursos inesgotáveis de matéria-prima para o processo de produção de riqueza, isto é, de sustentação de si mesmo, tratando todos os limites ou condições como barreiras a serem ultrapassadas. Ou seja, trata-se de um processo de assimilação de tudo aquilo que é outro, ocasionando a sua exclusão ou mesmo destruição, consumindo-o. E isso é, como já vimos, altamente problemático, pois a pluralidade e alteridade são condições constitutivas de tudo o que existe, incluindo o humano, e o seu reconhecimento é uma exigência que deve acompanhar toda a atividade humana.
Alienação sistematicamente produzida

Uma das múltiplas manifestações dessa alteridade que escapa ao controle, à assimilação e à dominação total é a “natureza”, esse Outro que não criamos, que nem sabemos bem o que é, que é objeto de interpretações divergentes, mas do qual inevitavelmente dependemos, seja qual for a interpretação que tenhamos dele. Assim, o sucesso total na dominação da “natureza” só se obtém por via da sua destruição total, resultando paradoxalmente na destruição do próprio ser humano.

Há um óbvio niilismo em tudo isto, um processo patológico de destruição que se revela absurdo e que, no entanto, está bem presente nas disputas sociais e políticas contemporâneas. Por exemplo, todos os acordos políticos estabelecendo metas para redução da temperatura global, em face da ameaça existencial posta pelas mudanças climáticas, são imediatamente acompanhados por racionalizações que adiam ou mesmo cancelam medidas significativas de combate ou mitigação em nome das demandas da economia e do mercado, não obstante as suas consequências desastrosas. Olhar para este processo como resultado exclusivo da mera ganância de uns poucos – o que também é – é não atender ao fato de operar contra todo e qualquer interesse na própria sobrevivência, é menosprezar o seu caráter patologicamente niilista e autonomizado.

Tal como Arendt, Herbert Marcuse assinalou que todos partimos de condições dadas ou de pré-condições e que isso não é necessariamente problemático, constituindo o ponto de partida de qualquer processo crítico e emancipatório. O problema não é tanto uma certa dose de alienação (que é um fato da existência humana, o fato de sermos condicionados por uma situação que não criamos e que nos é estranha), mas aquilo a que ele chama, numa tradução livre, “excesso de alienação”, a alienação sistematicamente produzida e imposta pelos processos autônomos de preservação de si da sociedade existente, visando manter o status quo à custa da repressão, da desumanização, da exploração, e da destruição sistemáticas. É contra essa que devemos dirigir os nossos esforços críticos e a nossa ação coletiva.

IHU – O poder público que assiste inativo ou com adesão subdimensionada e insuficiente às catástrofes climáticas como a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul é o mesmo que é responsável pelo bem-estar das comunidades que o elegeram. Qual é a sua percepção sobre o papel dos entes públicos sobre outras formas de condução da relação ser humano/meio ambiente?
Nuno Castanheira – Bom, parece-me evidente que o poder público contemporâneo – internacional, nacional, estadual etc. – parte dos pressupostos da perspectiva hegemônica, isto é, da perspectiva de humanidade moderna e abstrata que referi antes, pois é ela que serve de base não só às democracias representativas e às suas instituições, mas à própria ordem internacional e suas normas de alcance global também.

Antes de prosseguir, eu desejo esclarecer uma coisa: quando me refiro criticamente à modernidade ocidental, não pretendo dizer que tudo o que saiu dela é ruim e que deve ser descartada sem reservas. As coisas são mais complexas: somos entidades finitas, quer em tempo de vida, quer em conhecimento, e isso implica que são raras as coisas em que estamos envolvidos que não sejam, pelo menos potencialmente, entrelaçamentos do bom e do mau. Assim, a tarefa é tentar não jogar o bebê fora com a água do banho, o que nem sempre é fácil e raramente se obtém sem esforço significativo.

Dito isto, parece-me que a racionalidade econômica, de matriz capitalista, e todas as suas ramificações constituem a interpretação hegemônica daquilo a que podemos chamar, na falta de melhor termo, de interesse comum, seja ou não válida essa pretensão (não me parece que seja). O problema é que essa racionalidade há muito assumiu contornos ideológicos, em sentido arendtiano: ela desvinculou-se das condições concretas e, em face das dificuldades que tem em dar conta do mundo concreto, alienou-se dele, começou não só a criar um “mundo” próprio – para o qual serve de explicação total, dado que não tem de lidar com os fatos –, mas também a destruir tudo aquilo que lhe resiste.

Se considerarmos o significado mais geral da palavra “responsabilidade” – responder a, responder por, prometer –, facilmente verificaremos que o seu comportamento é, genericamente falando, irresponsável: não responde à sua situação concreta; não responde por si nem por quem representa; e não promete, isto é, não é capaz de oferecer garantias não só de que a sua atividade reconhece e respeita as condições do mundo atual, mas também que é limitada pela possibilidade de existência de um mundo futuro.
Responsabilização do poder público

Essa parece ser a lógica que preside a boa parte da ação dos protagonistas do poder público, à sua compreensão do papel das instituições públicas, e dos desejos e necessidades das populações que representam. Não falo aqui de intenções perversas, de defesa encapotada de interesses privados, de corrupção e afins. Essa seria uma outra conversa, não menos importante e certamente relacionada, mas que escapa ao âmbito daquilo que aqui nos interessa. Falo, isso sim, de uma lógica que colonizou as nossas mentes e que comanda a nossa ação, em particular, as mentes e a ação de quem nos governa. Mais: historicamente, essa lógica é reforçada pelo recurso a uma qualquer força sobre-humana – leis da história, leis da natureza etc. –, perante a qual se afirma a nossa impotência, procurando assim legitimar a irresponsabilidade e a desculpabilização dos agentes morais e políticos. No caso das enchentes, as mudanças climáticas e os eventos extremos assumiram esse papel de força sobre-humana que está na base de todos os processos de desresponsabilização e desculpabilização. As mudanças climáticas são de tal ordem, diz-se, que pouco ou nada podemos fazer.

Sabemos que essa não é toda a verdade. Relativamente ao município de Porto Alegre, foram várias as manifestações de cientistas, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, sublinhando a necessidade de atender ao sistema de retenção de águas. Possivelmente em consequência dessas denúncias, foi noticiado recentemente que está em curso uma ação do Ministério Público do Rio Grande do Sul contra a Prefeitura da cidade por incumprimento do dever de proteção da população, nomeadamente por falta de ações de vigilância, monitoramento e manutenção do Sistema de Proteção contra Cheias. Desconhece-se ainda o desfecho desse processo, mas ele mostra que o problema é bem mais complexo, muitas vezes relacionado com a secundarização de opções de investimento que não dão lucro, que não geram mais-valia, que não correspondem à lógica totalizante do capital.

Assim, é importante que o poder público seja colocado no banco dos réus e que os seus protagonistas sejam forçados pela justiça humana a responder pelas suas ações ou omissões, pelas suas escolhas e decisões. Mais do que um mero revanchismo, esse tipo de processos visa colocar a ação humana no poderoso lugar que ela descobriu como seu, exigindo dos agentes a responsabilidade correspondente. Visa também reivindicar, por parte dos poderes públicos, um exercício de autocrítica, de análise dos seus pontos cegos, dos seus pressupostos, que faça uso do melhor conhecimento disponível, que se distancie da lógica economicista alienada e alienante que preside às suas decisões.

Apelo à responsabilidade
É fundamental, também, que a população esteja atenta, que seja mais exigente e que participe na gestão da coisa pública, que se reúna em espaços além das redes sociais e das suas interações alienadas e reificadas, que se organize e debata as suas visões divergentes de modo aberto, informado e respeitador das diferenças. É importante compreendermos que, embora seja verdade que lidamos com uma crise ecológica, esta não deve ser vista apenas como uma força onipotente contra a qual nada podemos fazer. Ela tem origem na ação humana sobre a Terra e os seus sistemas, orientada por uma perspectiva hegemônica que tem de ser chamada à responsabilidade.

Se não podemos alterar o fato de a crise ecológica estar aí e de se ter tornado condição da nossa existência, podemos e temos de assumir a nossa responsabilidade coletiva e lidar com ela, não encontrar desculpas ou subterfúgios para escapar a esse enfrentamento. E o apelo à responsabilidade, que serve para todos nós, serve mais ainda para os poderes públicos, que têm nas suas mãos capacidades legislativas, poderes de licenciamento, de gestão territorial etc., para os quais têm de encontrar referenciais de orientação alternativos àqueles que nos conduziram à atual situação. Ou seja, têm responsabilidades acrescidas, embora não exclusivas, na atualização e renovação do significado de quem somos, quem queremos ser, e quem devemos ser enquanto comunidade política.

IHU – Ainda podemos nos sentir “em casa no mundo” frente às catástrofes climáticas que têm se proliferado nos últimos anos? Que alternativas nos ajudam a delinear outras formas de vida?
Nuno Castanheira – Penso que sim, mas teremos de reconsiderar o que significa “estar em casa no mundo”. Estar em casa no mundo significa fazer do mundo um lugar apropriado para habitação. A palavra-chave é “fazer”, ou seja, compreender esse “estar em casa no mundo” como uma prática constante, um esforço ético e político que exige uma ação concertada e responsável.

Esse desafio estava presente, de forma talvez agora excessivamente esquecida e certamente mais limitada, nas origens gregas da própria palavra “ética”, que nos remetia para um lugar de abrigo, um espaço a que se está acostumado, que nos é familiar, habitual, sentidos que foram internalizados em certas disposições habituais ou naquilo que chamamos caráter. A ética e a política concretizam-se, neste sentido, numa disposição prática constante e estável que procura conferir sentido não só ao nosso entorno, tornando-o uma “casa” apropriada para habitação, mas também constituir quem nós somos, o nosso caráter. Temos, então, essa experiência inter-relacionada e indissociável de um agente que se constitui em relação com outros e com o mundo, tentando fazer dele a sua casa. Nesse sentido, a crise ecológica reflete uma crise ética e política, uma crise dos modos de habitar, das nossas práticas hegemônicas costumeiras, dos nossos comportamentos e das normas que os determinam e estimulam.

Mas, para podermos dispor-nos a constituir e a habitar o mundo, não podemos estar de tal modo assimilados às suas normas e determinações que nos dissolvemos nele e nos tornamos idênticos a ele. Para Arendt, os seres humanos são estranhos num mundo com o qual têm de se reconciliar, o qual têm de constituir num lar, tarefa que se revela sempre inacabada, sempre por fazer e como a fazer. Para isso, é necessário que essa experiência de estranheza – de uma certa alienação sentida por quem é uma espécie de recém-chegado ao mundo – não seja eliminada, administrada ou domesticada pelas imposições do mundo existente. Para Marcuse, tal como para Arendt, esse é um dos riscos da sociedade contemporânea, um risco escondido pelas suas promessas de libertação através da tecnologia, que tomam cada vez mais o lugar de uma libertação por via política.

Em O Homem Unidimensional, Marcuse escreve que a promessa da civilização tecnológica e industrial é uma promessa de libertação das energias individuais para um reino de liberdade e autonomia, alcançado por via da organização centralizada do aparelho produtivo no sentido da satisfação das necessidades vitais. No entanto, aquilo que prometia ser a condição de possibilidade de autonomia humana, promovido pela racionalidade tecnológica, revelou algumas tendências totalitárias, no sentido de uma coordenação técnica e econômica que cria, administra e satisfaz necessidades ao serviço não da libertação das pessoas, mas da sua autopreservação enquanto sistema.

Hoje, mais do que nunca, esta tendência parece estar presente na sociedade, com a emergência da governamentalidade algorítmica e a sua capacidade de se dirigir aos indivíduos e suas aparentes “necessidades” específicas, colonizando a espontaneidade dos seus desejos e aspirações e neutralizando qualquer tipo de emergência de oposição ao sistema. Ou seja, estamos perdendo gradualmente, mas de forma cada vez mais acelerada, a capacidade de experienciarmos algum tipo de estranheza em relação ao mundo, esse sentimento de alienação relativamente a pré-condicionamentos que nos foram impostos, sentimento que é constitutivo da experiência humana e condição de toda a libertação, compreendida como uma atualização das condições individuais e coletivas de vida e de coexistência.

Numa sociedade de produção e consumo como aquela em que vivemos, o processo de produção e satisfação de necessidades da sociedade existente não só se acelerou, como está cada vez mais autônomo e apostado na gratificação instantânea, momento em que as “dores e penas” do trabalho, como lhes chama Arendt – do processo de satisfação de necessidades – serão substituídas pelo deleite no consumo, pelo trabalho plenamente identificado com o lazer. Esse será o momento em que todos nos transformamos em objetos de administração total por parte de uma racionalidade econômica e tecnológica que aprendeu a neutralizar toda e qualquer consciência de sujeição e de dominação. É também o momento em que passamos da experiência fundamental de um certo estranhamento ou alienação relativamente a uma situação social, econômica e política preexistente que se impõe a nós para uma alienação total relativamente ao mundo, à Terra e seus limites básicos, e a nós próprios, de caráter destrutivo. Em suma, de uma total incapacidade de estar em casa no mundo e na Terra.

Não há outra Terra
Até aqui, o modo predominante de lidar com a crise ecológica tem sido a sua sujeição às leis e necessidades do mercado e do sistema capitalista tecnologicamente administrado, que tende ao escapismo, à desculpabilização e à destruição niilistas sempre que as suas exigências não são correspondidas. Não podemos contentar-nos com isso. As catástrofes climáticas, enquanto parte da crise ecológica, devem ser vistas como um sintoma da nossa condição de cada vez mais extrema alienação, um grito por parte da Terra e dos seus sistemas que se transformou numa espécie de último resquício daquele estranhamento que é condição da própria liberdade e que agora se encontra sob ameaça existencial, não só em termos políticos, mas até, poderíamos dizer, ontológicos.

Sermos ou não capazes de estar em casa no mundo vai depender da nossa resposta a essa reivindicação que nos chega da Terra e que dá conta da nossa própria alienação. A insistência no sistema e na lógica que esteve na origem da crise ecológica produz uma resposta irresponsável e niilista, como já referi, sustentada por uma complacência relativamente aos condicionamentos existentes e em mecanismos gastos e destrutivos, em vez de no esforço prático – ético e político – de transformação e atualização ética, política, econômica das nossas condições de vida, em face a uma situação sem precedentes.

Correndo o risco da simplificação excessiva, estar em casa no mundo e na Terra não é diferente de habitar a nossa própria casa (para quem tem a felicidade de ter uma): se formos complacentes, se deixarmos de cuidar dela diariamente, de a limpar e atender às suas necessidades estruturais, ela vai-se degradando e, eventualmente, desaba nas nossas cabeças. É certo que há quem possa dar-se ao luxo de pura e simplesmente trocar de casa, deixando os escombros do consumo irresponsável atrás de si para que os que vierem depois. A grande diferença no que respeita à Terra é que não há outra. Essa não deveria ser a única razão para assumirmos perante ela uma atitude responsável e fazermos o esforço de nos libertarmos das garras de um modo de habitação alienante e que, em última análise, nos vai deixar desalojados. No entanto, se apenas o interesse próprio for motivação suficiente, que façamos pelo menos o esforço de o identificar, em vez de nos entregarmos aos automatismos reconfortantes e alienados da gratificação instantânea, produzidos por um sistema aparentemente apostado na nossa destruição individual e coletiva.

Retomar o espírito revolucionário
Os caminhos alternativos estão por construir, não há respostas prontas, ainda menos para uma situação sem precedentes. A primeira coisa é romper com a perspectiva dominante, disputar a sua hegemonia. Para isso, temos bastantes recursos, propostas e experiências: temos a via ecossocialista, a via ecofeminista, a escuta e o trabalho com os Povos Originários, suas experiências, cosmovisões e formas de vida, as experiências comunais, o conhecimento ecológico e cada vez mais integrado dos sistemas naturais e seus diferentes habitantes, as diferentes reflexões sobre e experiências históricas das fundações da ética e da política, os diversos modos de conceber as relações econômicas e as suas finalidades, e por aí afora. Nenhuma delas será a resposta definitiva, mas todas elas certamente contribuirão com elementos para encontrarmos um novo caminho, uma nova experiência de vida em comunidade.

Temos, acima de tudo, a possibilidade de revolucionar as nossas formas de viver e de pensar, de conceber o nosso espaço de coexistência e, para tudo isso, não faltam recursos, falta apenas vontade, esforço e coragem política para aceitar a pluralidade como condição básica de vida na Terra, agir politicamente a partir dela sem cair em relativismos ou nas fórmulas velhas e gastas que nos conduziram à atual situação. Arendt diz que o tesouro escondido das revoluções são as comunas, os conselhos revolucionários, lugares de emergência da liberdade no encontro da pluralidade de agentes livres e suas diferentes perspectivas sobre o mundo, as quais, através do debate, se põem em questão, experimentando os seus limites, se educam mutuamente, renovando e alargando o seu potencial coletivo para lidarem com o inesperado, com o absolutamente novo. Estamos diante de condições absolutamente novas, talvez seja necessário retomar esse espírito revolucionário, reafirmando uma vida comunitária baseada na liberdade e na pluralidade de perspectivas e de possibilidades que se adicionam, em vez da monocultura política e econômica em que temos vivido, administrados e dominados por um regime com elementos totalitários, alienante, reificante e niilista.

IHU – Qual é a contribuição da Filosofia para pensarmos um outro paradigma civilizacional que problematize o Antropoceno?
Nuno Castanheira – Responderei de forma muito breve a esta questão. Infelizmente, temos testemunhado que a filosofia está sob ataque proveniente de diversos quadrantes: de forças reacionárias que temem a sua capacidade crítica e o seu poder de inspirar a mudança política e procuram substituí-la por receituários já prontos de comportamento e pensamento; de forças menos conspícuas, mas talvez mais perigosas, que procuram submetê-la aos ditames da racionalidade economicista e tecnológica e da sua pulsão produtivista, neutralizando o seu caráter subversivo e transformando-a em mera forma de legitimação e justificação da perspectiva hegemônica. Seja qual for a via seguida, o único resultado visível é a manutenção da sujeição individual e coletiva ao status quo.

No que me diz respeito, a filosofia – e a atividade de pensar, genericamente falando – pode e deve contribuir não esquecendo a sua vocação ético-política original, a saber, ser uma prática crítica do que se apresenta como evidente e indiscutível, mostrando as suas contradições e limites, abrindo novos horizontes não por meio do fornecimento de respostas prontas, mas através da destruição dos preconceitos que impedem o aparecimento do novo, ao mesmo tempo que excluem ou invisibilizam perspectivas e formas alternativas de compreender a nossa situação existencial.

Nesse sentido, a filosofia não pode esquecer o seu passado, mas também não pode ficar prisioneira dele. Tem, consequentemente, de tudo fazer para o preservar, não apenas no sentido de registrar a sua própria história, mas também no sentido de fazer com que esta não seja percebida apenas como letra morta, incapaz de falar aos vivos. Essa relação com o seu passado tem de responder às reivindicações e condições do presente, pois só assim a filosofia será capaz de integrar novos contributos, perspectivas e problemas, de mostrar a sua relevância e de se atualizar, projetando-se um futuro de possibilidades sempre renovadas e abertas ao imprevisível que é o traço constitutivo da condição de crise ecológica, cujas consequências, dispersas num tempo de dimensões geológicas, são impossíveis de predizer.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Nico - Evening of Light

Filme Original (1969)


[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 1]
A true story wants to be mine
A true story wants to be mine
The story is telling a true lie
The story is telling a true lie
Mandolins are ringing to his viol singing
Mandolins are ringing to his viol singing

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 2]
Dungeons sink in to a slumber till the end of time
Dungeons sink in to a slumber till the end of time
Petrel sings, the doorbells pound into the unlit end of time
Petrel sings, the doorbells pound into the unlit end of time

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 3]
In the morning of my winter
When my eyes are still asleep
In the morning of my winter
When my eyes are still asleep
A dragonfly lady in a coat of snow
I'll send to kiss your heart for me
A dragonfly lady in a coat of snow
I'll send to kiss your heart for me

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

[Verse 4]
The children are jumping in the evening of light
The children are jumping in the evening of light
The peasants' hands are heavy in the evening of light
The peasants' hands are heavy in the evening of light

[Chorus]
Midnight winds are landing at the end of time
Midnight winds are landing at the end of time

Significado da Canção

Promo video for Nico’s “Evening of Light” directed by François De Menil in 1969, but probably finished much later. There was a tantalizingly brief clip of this in the Nico: Icon documentary. Not the album version of the song appearing on The Marble Index, this alternate take was released as part of The Frozen Borderline: 1968–1970 compilation in 2007.

The story is told in Richard Witts’ (fantastic) Nico biography, Nico: The Life and Lies of an Icon, that De Menil, heir to the Schlumberger Limited oil-equipment fortune via his mother’s family, who knew Nico via Warhol associate Fred Hughes, had become besotted by the Teutonic ice queen and proposed making a film with her.

At this time Nico was having a brief affair with a 21-year-old Iggy Pop, who she had met through John Cale, then producing the first Stooges album in New York. (Iggy once revealed to a French interviewer that Nico taught him how to “eat pussy.”). Nico told De Menil that he had to follow them to Ann Arbor, Michigan if he wanted to do it. De Menil obliged, shooting the film behind the house where the band lived.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Livro- O Princípio da Responsabilidade, de Hans Jonas


Ciência e a Ética da Responsabilidade
A Ética da Responsabilidade apresentada por Hans Jonas difere das éticas tradicionais de filósofos que o antecederam, como Aristóteles e Kant. A ética de Hans Jonas vai além da moralidade de valores sociais ou da Política. Filósofos como Nicolau Maquiavel, Nicolau Copérnico, Galileu Galilei e René Descartes eram antropocentristas: o universo era avaliado de acordo com sua relação com o ser humano. Isto é, o homem era colocado em primeiro plano.

A obra de Hans Jonas, O Princípio Responsabilidade, publicada em 1979, aborda os problemas sociais e éticos criados pelos avanços tecnológicos. Hans Jonas demonstra a necessidade de haver uma nova ética para lidar com o alcance sem precedentes do poder tecnológico. Jonas trata de uma ética que impõe limites ao processo tecnológico, especialmente à luz do perigo iminente que novas tecnologias possam causar.

Antes do advento do mundo moderno, a responsabilidade pela integridade e continuidade da vida na terra não recaía sobre o ser humano: a natureza cuidava de si mesma. O homem não possuía a capacidade de alterar de forma significativa o meio em que vivia e, assim, impactar futuras gerações. Contudo, a relação do ser humano com a natureza e o mundo mudou drasticamente. Com o desenvolvimento da tecnologia, a natureza se tornou vulnerável: passou a ser destruída pela humanidade. À medida que ocorrem inovações tecnológicas, formas mais poderosas de tecnologia são desenvolvidas. A tecnologia vem estendendo o alcance do poder humano muito além da capacidade humana de prever as consequências dos avanços tecnológicos. Jonas aborda as grandes transformações causadas pela tecnologia: o perigo nuclear, a destruição do planeta, o consumo desenfreado de recursos naturais e a Engenharia Genética. Para Jonas, as relações entre conhecimento humano, poder tecnológico, responsabilidade e ética são complicadas e fundamentais. Na visão do filósofo, o mundo precisa que os seres humanos tomem conta dele - um fato sem precedentes na história. Os seres humanos precisam trabalhar para garantir o bem-estar de futuras gerações.

Hans Jonas desenvolveu a Ética da Responsabilidade ao pensar em consequências futuras. O filósofo atribuiu ao ser humano a responsabilidade pela manutenção da natureza e pela garantia do bem-estar e da existência de futuras gerações.

Em O Princípio Responsabilidade, Jonas enfatiza que a sobrevivência da humanidade depende de esforços para cuidar do planeta e, assim, assegurar seu futuro. Na visão de Jonas, a origem da crise do meio ambiente é o desenvolvimento científico e tecnológico desenfreado, desprovido de uma conduta ética estruturada para servir como guia. Segundo o filósofo, recai sobre o ser humano a responsabilidade ilimitada de preservar a vida na terra. Essa responsabilidade é total e contínua.

O que significa responsabilidade ilimitada? Exemplificando: pais são responsáveis por seus filhos de forma limitada e temporária: a responsabilidade dos pais em relação aos filhos geralmente termina quando estes se tornam adultos. Contudo, de acordo com Jonas, a responsabilidade do homem em relação à natureza é ilimitada, pois nunca cessa. O avanço da tecnologia precisa ser condicionado para garantir a continuidade da vida no planeta.

Hans Jonas formulou o novo princípio de moralidade: “Age de tal forma que os efeitos de tuas ações sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica sobre a terra".

Segundo o princípio de responsabilidade de Jonas, não se pode sacrificar o futuro pelo presente: se a humanidade se preocupar apenas com o presente, o futuro pode deixar de existir. A ética proposta por Hans Jonas inclui a responsabilidade por futuras gerações. Esse tipo de responsabilidade não pode ser uma relação recíproca, pois é direcionada às gerações futuras. É uma responsabilidade por pessoas que ainda não nasceram, inclusive por seres humanos que habitarão a terra após todos que hoje estão vivos já terem morrido. Portanto, trata-se de uma responsabilidade que não pode ser reciprocada.

Jonas não vê com bons olhos a Tecnociência: o filósofo critica uma ciência que seja desumanizada. Jones discute a Bioética e os deveres que o ser humano tem consigo, com o meio ambiente e com a posteridade. O filósofo defende a necessidade de uma ciência com ética. Em O Princípio Responsabilidade, Jonas aponta para a ampliação da enorme distância entre a enorme capacidade tecnológica do ser humano e a diminuição da sensibilidade moral humana.

Saber mais:

domingo, 9 de setembro de 2018

Uma ética com futuro dentro

Evocando Aldo Leopold, 70 anos após a sua morte


Há 70 anos, mais precisamente no dia 21 de Abril de 1948, ao ajudar os seus vizinhos a combater um incêndio na pradaria, morria de ataque cardíaco o engenheiro silvicultor Aldo Leopold (nascido a 11 de Janeiro de 1887, no estado norte-americano do Iowa). Apesar de a sua obra especializada nos temas da política florestal e da gestão de recursos cinegéticos ser de uma dimensão e qualidade consideráveis - mais de 350 artigos -, não foi esse o fator preponderante para transformar Aldo Leopold, com segurança, na segunda figura mais influente, ao lado de Rachel Carson (1907-1964), dos autores norte-americanos que no século XX ajudaram a pensar a crise ambiental, que, cada vez mais, será a magna questio do século XXI.

O que nós devemos a Leopold é a reflexão fundamentada sobre a urgência de uma radical mudança do olhar sobre as relações entre a humanidade e o ambiente. Retomando a inspiração de duas grandes figuras do pensamento norte-americano do século XIX, R. W. Emerson (1803-1882) e H. D. Thoreau (1817-1862), Leopold oferece aos seus leitores uma visão subtil e delicada da frágil teia dos equilíbrios naturais, criticando, de uma forma pedagógica e sem arrogância moral ou científica, o modo desastrado e destruidor de que se revestem muitas das intervenções humanas sobre os ecossistemas, em nome de um duvidoso e acrítico conceito de "progresso".

O essencial da herança teórica de Leopold está presente em duas obras, Round River e a Sand County Almanac. Nesta última - traduzida para português por José C. C. Marques, Porto Edições Sempre-em-Pé, 2007 - está contida a proposta filosófica mais profunda deste engenheiro dos bosques, capaz de ver mais fundo do que a esmagadora maioria dos filósofos profissionais do seu tempo: uma "ética da terra" (land ethic).

Na ética da terra de Leopold está incluído quase tudo o que ainda hoje estamos a aprender quando queremos transformar o conceito de "desenvolvimento sustentável" em algo mais do que num emblema retórico: o respeito pelos valores intrínsecos (e não meramente instrumentais) dos ecossistemas; a capacidade de apreciação do sagrado e sublime que se manifesta na natureza; a urgência de uma economia ecológica, que não desconte os custos ambientais e seja capaz de dar um valor ao "capital natural", promovendo sensatas políticas compatíveis com a conservação das espécies, recursos e paisagens. Mas sobretudo Leopold recorda-nos que o grande sentido da palavra ética é o de comunidade, de partilha, de simbiose entre os membros que a constituem.

Ora, a humanidade tem historicamente traçado uma fronteira entre si e as outras criaturas, como se os seres humanos pudessem subsistir sem o concurso das forças e ciclos naturais, de que dependemos como a parte depende do todo. A ética da terra faz um apelo ao alargamento da comunidade ética a todas as criaturas e seus lugares de habitação. No universo cultural de raízes europeias, e rumando na mesma direção teórico-prática, merece destaque a obra do filósofo Hans Jonas (1903-1993). Em 1979, no seu livro Das Prinzip Verantwortung (O Princípio da Responsabilidade), ele demonstrou que a luta pela defesa do ambiente constituía o novo imperativo ético e o horizonte ecuménico que deveria unir a humanidade inteira. Paz na terra e com a terra, entre os homens e todas as criaturas.

Esse é o desafio e a tarefa da humanidade, se quisermos que a civilização humana sobreviva para além deste século.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Ética e Ecologia: perspectivas para uma discussão na actualidade



Por Gil A. Baptista Ferreira; Universidade da Beira Interior

Introdução
É ponto de partida para esta reflexão a emergência, na actualidade mediática, de uma ideologia ecológica, cujos principais pressupostos e tópicos radicam num pensar ético da contemporaneidade. Se já Paul Valéry dizia que o futuro não é o que era, o sentido deste enunciado, correctamente apropriado nos dias de hoje (nomeadamente pela publicidade), orienta em grande medida o pensamento da actualidade. Não podemos pois, ao pensar a cultura contemporânea que os media expressam, deixar de reconhecer plena actualidade ao ponto de vista de Valéry, num tempo em que a racionalidade de raiz iluminista parece viver o estado terminal, ou pelo menos se encontra a braços com transformações notórias.
Será numa linha paralela com a reavaliação dos projectos e impasses da Modernidade, assim como do estatuto do humanismo na contemporaneidade, que serão pensados os princípios éticos de uma ideologia ecológica. A nossa analise partirá de uma concepção ética recente, a que Hans Jonas (1903-1993) expõe no seu Princípio da Responsabilidade,(1) onde prescreve uma ética para a idade da técnica. Nela, como veremos, os mundos animal, vegetal e mineral, a biosfera ou a estratosfera passam a fazer já parte da esfera da responsabilidade, fundamentando uma disciplina como a ecologia, para onde convergiremos especialmente esta análise.
Contudo, ponto consequente nesta reflexão é um outro aspecto que imediatamente reclama alguma pertinência: até onde se pode alargar a esfera dos direitos com que a ecologia se identifica? E quem é o sujeito desses direitos? É esta a problemática que Luc Ferry aborda principalmente n’ A Nova ordem Ecológica(2), e que, de algum modo, concentra o que consideramos ser um interessante contendor de alguma da actual discussão científica sobre esta questão.
 
Tempos de optimismo
São pois inevitáveis como ponto de partida as reflexões éticas de Hans Jonas. Na sequência do choque causado pelas primeiras bombas nucleares, no final da II Guerra Mundial, desencadeou-se a ideia de que o abuso do nosso domínio sobre a natureza conduz à destruição daquilo que durante séculos fomos aprendendo a dominar. O sentimento do possível apocalipse gradual, decorrente do perigo crescente dos riscos do progresso técnico, levou este alemão de origem judaica a pensar quais as possibilidades de redefinir as condições de um pronunciamento ético.
A nossa era (tecnológica por excelência) assistiu a uma mudança qualitativa da natureza da acção humana. As éticas tradicionais, racionalistas e iluministas, formulavam normas para a acção humana, e por isso tinham uma base antropológica; isto é, assentavam numa prévia definição da natureza do agente humano. Antes do imperativo "tu deves" vinha sempre a premissa "tu és". A condição humana, deste modo determinada pela natureza do homem e pela natureza das coisas, era um dado intemporal e constante. E assim era a razão, que desde o Iluminismo se vinha afastando da fé, que se predispunha a estruturar a vida humana. Sobretudo com Kant, a verdadeira moral só a seria se originada na plena autonomia da vontade e do entendimento. Vivia-se então um período civilizacional e cultural de autoconfiança humana, em que o âmbito da acção do homem - e logo da sua responsabilidade - se encontrava bem definido, dentro dos limites da racionalidade do Homem.
Tudo o que tivesse a ver com o mundo não-humano, com o chamado reino da techne, era então eticamente neutro. O significado ético pertencia ao trato directo do homem com o homem, incluindo consigo próprio; e por isso podemos considerar tais éticas como antropocêntricas. Assim sendo, também a entidade homem era considerada constante em essência, e não objecto passível de ser remodelado pela techne. Por último, acrescente-se ainda que todas as acções eticamente julgáveis se encontravam na proximidade do sujeito, tanto física como temporalmente. O horizonte ético era composto por contemporâneos e o futuro confinava-se à duração previsível da vida do indivíduo.
Deste modo, podemos considerar as éticas tradicionais como orientadas para o aqui e agora, para o que os homens faziam nas situações recorrentes e típicas da vida do quotidiano. A conduta decente tinha regras e critérios imediatos para cada situação precisa; tudo o que fosse a longo prazo era deixado ao acaso, sem ser alvo de atenção especial. Acrescente-se que a intuição do valor intrínseco do agir não exigia necessariamente um conhecimento superior ao do senso comum. (3) Não era, para agir eticamente, necessário o conhecimento do especialista ou do sábio, mas antes um conhecimento disponível e evidente para todos.
Era essa uma ética que vinha definida desde os gregos - como ética da techne – e que se resumia à imutabilidade da ordem cósmica, pano de fundo originário da acção humana. Quedava-se no muito bem conhecido interior dos muros da polis, e pressupunha uma correspondente permanência e inalterabilidade da natureza humana. O bem ou mal de cada acção é aqui globalmente decidido no contexto em que é produzido, e a sua qualidade emana como um fulgor, visível a quantos o testemunhem. Assim, ninguém era responsável pelos efeitos posteriores involuntários de um acto bem intencionado e desempenhado. De modo que consideramos exemplar, Jonas diz dessa época como «o braço curto do poder humano não exigia um longo braço de conhecimento preditivo».(4)
 
O fim dos grandes discursos
Este período, contudo, a breve trecho foi sendo abalado. Com efeito, em meados do século XIX, pelo contributo (entre outros) de Marx, do darwinismo, de Nietzsche e depois Freud, assistiu-se ao começo de um certo declínio da tal discursividade de emancipação, que constituía o ponto fulcral do projecto iluminista. (5) Algumas circunstâncias históricas agudizaram o sentimento de precariedade das tradicionais hierarquias de valores; marcadas pelas transformações técnicas, novos elementos alteravam estilos de vida e concepções da realidade, anunciando o advento de uma profunda instabilidade axiológica.
Os ideais típicos, tradicionais, entre os quais surgia o progresso, a liberdade e a verdade, ideais fundados na razão optimista, foram sendo sujeitos a um desgaste progressivo, que terá atingido uma quase total erosão já no nosso século. As duas últimas guerras mundiais, mormente a segunda, com manifestações de selvático irracionalismo, contribuíram para se instalar a desilusão, geradora de um discurso de crise, incerteza e negatividade absoluta.
Também Hans Jonas considera que tudo então mudou decisivamente. A técnica moderna introduziu alterações de tão diferentes escala, objectos e consequências na nossa cultura que o quadro da ética anterior não pode já ser suficiente. Acompanhando o fim da proximidade e da contemporaneidade, as acções da era da técnica moderna, reunidas num conjunto magnânimo, são agora um conjunto novo, irreversível e cumulativo. Esbateu-se, por exemplo, a fronteira entre cidade e floresta: o homem age indiferentemente hoje numa ou noutra. A moderna intervenção tecnológica do homem alterou a biosfera, e alterou-a na sua anterior qualidade de pano de fundo seguro e perene condição de possibilidade da própria acção humana.
Em suma: o agente que agora age fá-lo em condições diversas do agente da ética anterior. E é assim que, se as antigas prescrições da ética antiga relativas ao comportamento com o semelhante em cada momento e situação são ainda válidas, o mesmo agente, agora num domínio de acção colectiva, detém já poderes desmedidos em que acção e efeito não são o que antes eram.
Por outro lado, a techne anterior aparecia como um meio instrumental ao serviço da realização dos fins humanos. Era «um tributo à necessidade»(6). Um meio como forma finita para satisfazer uma necessidade bem próxima e definida. Passamos contudo agora a uma técnica como meio ambiente que condiciona o próprio agir. «Um ímpeto infinito da espécie»,(7) sendo a técnica a verdadeira vocação do homem, num processo permanente e autotranscendente.
Vimos deste modo como ao longo deste século (que se apontava capacitado para realizar os apelos da Modernidade) se assistiu todavia à desorientação vital, fruto da ausência de um horizonte axiológico estável. Neste contexto, em que se tende a destruir o que resta da crença iluminista num progresso moral da Humanidade, verificamos como, também em acordo com o italiano Vattimo, o projecto iluminista está (apenas, considera este) ofendido pelas novas condições de vida forjadas pela civilização industrial e pelas megaestruturas da técnica, que acentuam as marcas de irracionalidade, massificação e acritismo evidentes na vida quotidiana contemporânea. (8)
Deste modo, o que importa é apontado noutro momento por Karl-Otto Apel: é «assumir uma responsabilidade moral face às consequências directas e indirectas da prática humana na época da planetarização da técnica industrial»(9). E, segundo Jonas, deste nosso agir com efeitos (desconhecidos, muitas vezes) a longo prazo advém então a urgência de uma «nova espécie de humildade», causa «do excesso do nosso poder de agir face ao nosso poder de prever e ao nosso poder de avaliar e ajuizar». Jonas conclui cautelosamente: «a ignorância das implicações últimas torna-se ela própria numa razão para que se faça uso de comedimento responsável – à falta da própria sabedoria».(10)
 
Fundamentos para uma ecologia
Na linha de pensamento que temos vindo a seguir e a propósito das alterações que a técnica moderna introduziu na acção humana, Hans Jonas propõe os fundamentos da chamada ideologia ecológica. Face à extrema vulnerabilidade da natureza à intervenção tecnológica do homem – insuspeitada antes de ter começado a revelar-se nos danos entretanto causados e ao choque que tal descoberta provocou, Jonas trouxe pois ao debate o conceito e a base da ciência que é a ecologia. E, o próprio facto de tal considerarmos, altera desde logo a própria concepção que temos de nós próprios como interventores causais na complexidade da vida. Vem mostrar que efectivamente a acção humana mudou, acrescentando ainda um objecto completamente diferente ao universo por que somos responsáveis - em virtude do nosso poder -: a biosfera do planeta.
Segundo Jonas, «varridas» a proximidade e a contemporaneidade com a respectiva contenção e sequências causa-efeito, surge agora um processo desconhecido em termos causais, e irreversível, que nos impõe novos deveres. E é assim que Jonas não receia, n’ O Princípio de Responsabilidade, advogar contra a tirania «utópica» da tecnociência com um não menos ditatorial conselho de sábios, o qual vigiaria em permanência todos cientistas que se arrogam conhecimento suficiente para decidir acerca do destino. Em nome da responsabilidade, coextensiva ao poder que temos sobre o que fica sob o nosso alcance (biosfera incluída), é requerida agora uma nova humildade – na falta do conhecimento sábio, que se faça então uso do comedimento.
Pretende-se com esta posição ser fiel a uma racionalidade vigilante, esforçadamente atenta às consequências das suas próprias convicções e logo empenhada num permanente sentido de responsabilidade crítica – uma posição, como vimos, presente também em Max Weber, e que na actualidade se revela pois, entre outros, em movimentos de orientação ecologista. A questão é de superior e ameaçadora pertinência, alerta Jonas: «em primeiro lugar, a Natureza foi neutralizada em termos de valor, em seguida é o próprio homem(11)». Como consequência, cabe agora à ética arrogar-se como tutela do crescimento técnico e do desenvolvimento científico, estabelecendo os seus inabaláveis limites. Deve a ética actual reflectir as aspirações do ser humano contemporâneo, mas opondo algumas resistências às transformações que consentem a degradação da sua liberdade. É esta a base do novo imperativo que Jonas propõe: deves agir «de tal maneira que os efeitos da tua acção sejam compatíveis com a preservação da vida humana autêntica»:(12)
De algum modo no mesmo sentido, afirma também Gianni Vattimo que «a técnica aparece como a causa de um processo generalizado de desumanização, que implica também o obscurecimento dos ideais humanistas da cultura, em proveito de uma formação do homem centralizada nas ciências e nas aptidões produtivas racionalmente dirigidas(13)». Partindo desta convicção, considera ainda a necessidade de um pensar forte e enérgico, e não um «pensiero debole», um pensar fraco. Urge uma intervenção ética apta a criticar dogmas dominantes, que construa o lugar de uma nova «poiesis existencial», isto é, de uma construção de novas formas de convivência humana mediante um «esforço de lucidez, que separe, sem equívoco, a liberdade da alienação»,(14) nas palavras de Georges Bastide. E nisto consistirá, em síntese, esta vocação ética proposta para a contemporaneidade.
 
A "deep ecology" e o abismo ecológico
Foi nesta linha que o francês Luc Ferry, atento pensador dos projectos e impasses da modernidade e também do estatuto do humanismo na contemporaneidade, definiu a nova ordem ecológica. Na obra com este mesmo nome atrás citada, Ferry expõe num primeiro momento os tópicos de uma certa ideologia ecológica para discutir depois, de forma cerrada, os seus principais pressupostos.
O questionamento que Ferry coloca é o seguinte: surgiu recentemente, segundo uma designação consagrada, um conceito de ecologia «profunda» que defende a plena integração dos mundos animal, vegetal e mineral na esfera do direito. Esta concepção encontrou na Europa partidários de destaque - o já referido Hans Jonas entre eles – e surge com especial fulgor sobretudo com Michel Serres e com o seu Le Contrat Naturel (1990), com o que havia recebido o prémio Medicis. Ora a questão que condensa a problemática que Ferry expôs na obra antes referida é a seguinte: «até onde» se pode alargar a esfera dos direitos com que a ecologia se identifica? E «quem é» o sujeito desses direitos?
Mas vejamos, é pois pelo confronto com a perspectiva de Michel Serres que surge a controvérsia entre Ferry e tal concepção, por Serres designada como «ecologia profunda». É que em acordo com esta nova temática ecológica, acusa Ferry que se pretende que o contracto social, a base da democracia ocidental, ceda «lugar a um "contracto natural", em cujo âmbito o universo inteiro se tornaria sujeito de direito: já não é o homem, considerado como centro do mundo, que se deve, prioritariamente, proteger de si próprio, mas sim o cosmos enquanto tal que deve ser defendido contra os homens».(15)
O que Ferry procura sobretudo mostrar é que, com uma ordem ecológica regulada pelas ambições de uma «deep ecology» se desenvolvem outros pressupostos que convém destacar (urgentemente!): é que há nela uma crítica radical e violenta em relação a toda a tradição ocidental, num anti-humanismo imposto pelo valor da natureza, tudo em eficaz combinação com uma cega hostilidade à técnica. Ou seja, Ferry dá conta de como a atenção às consequências directas e indirectas da técnica pode ceder espaço a um fundamentalismo romântico contra a mesma técnica.
Com Serres e a «deep ecology», afirma Ferry, desenhara-se um novo ideal que na sua composição misturara elementos de ordem utópica com outros procedentes da mais cândida nostalgia por uma certa forma de ser «antimoderno», em permanente atrito com a contemporaneidade. Por outras palavras, «o ideal da ecologia profunda seria um mundo onde as épocas perdidas e os horizontes longínquos teriam precedência sobre o presente. Não é pois por acaso que ela hesita entre os motivos românticos da revolução conservadora e os "progressistas" da revolução anticapitalista (16)
Para a presente reflexão, o trabalho de Ferry tem como aspecto de especial interesse algumas das interrogações de fundo que coloca. E nomeadamente a primeira: saber como é que a natureza pode ser um sujeito de direito uma vez que, manifestamente, ela não é um agente capaz da reciprocidade que sempre exige a ordem jurídica. O fundamentalismo ecológico passa ao lado do (incontornável) facto de que «é sempre para os homens que o direito existe, é para eles que a árvore ou a baleia se podem tornar objectos de uma forma de respeito, reconhecida pelas legislações, não o inverso».(17)
Ferry acusa ainda o recurso no debate actual a algum vitalismo exagerado e generalizado, que torna depois possível ou plausível afirmações como a de que «a biosfera dá vida tanto ao vírus da sida como ao bebé foca, à peste e à cólera como à floresta e ao ribeiro. Mas a questão que de imediato ocorre também é igualmente clara e evidente: «poderá, com seriedade, dizer-se que o HIV é sujeito de direito ao mesmo título que o homem (18)
 
Conclusão
Uma ideia ocorre como óbvia, desde já: com A Nova Ordem Ecológica questionamos alguns dos principais tópicos e pressupostos da ideologia ecológica. O balanço de tal questionamento será sempre, decerto, positivo: cremos que pela colocação destas questões convergiremos para uma permanente avaliação crítica, a única que poderá proteger e defender a humanidade de novos abismos que, pelas mãos de ortodoxias insólitas, se poderão encontrar cada vez mais próximos.
Verificamos, sem dúvida, que a contemporaneidade significa um desafio à ética. Não só porque damos conta da extinção de alguns ideais morais da Modernidade, mas também porque se levanta agora a questão de saber (com o natural cepticismo) qual a situação e o valor da ética em dias de inegável perfil tecno-científico. Tudo se resume à seguinte questão: o que pode a ética num mundo onde o avanço implacável do niilismo se opõe à legitimação dos ideais morais dos «grands récits» de legitimação ? Se a formulação do problema é complexa, tentativas de solução não se afiguram fáceis. O desafio tende a persistir: se, por um lado, assumir a incerteza é uma desesperada mas lúcida atitude, por outro lado há que atentar nos movimentos de cariz contra-cultura, conservadores e de formas cada vez mais totalitárias, ostentadores de uma hostilidade cega à técnica misturada com intensificado e neurótico medo.