Mostrar mensagens com a etiqueta Psicofilia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Psicofilia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 6 de junho de 2026

Pandora


Pandora

Oculta sob a asa inferior verde-musgo de bosques antigos,
Filha do romper da alva e do cardo aquecido pelo sol,
Que ama o primeiro calor do sol matinal, o néctar doce das flores roxas e a quietude silenciosa antes do voo,
Que suporta o frio diário da sombra matinal, esperando que a luz lhe desperte as asas,
Que deu ao mundo um contraste impressionante de brilhantismo oculto, provando que um exterior modesto pode guardar uma maravilha deslumbrante,
Que anseia manter os seus segredos guardados sob as asas dobradas, mas que inevitavelmente liberta o seu espírito vibrante no ar,
Que traz uma tempestade mítica da história a um campo simples, unindo o abismo entre os contos antigos e a natureza viva,
Residente dos vales banhados pelo sol, para sempre ancorada por um frágil fio de Esperança.

Saber mais sobre Pandora - Mitologia Grega:

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Mais do que beleza: o papel vital das borboletas nos ecossistemas


Para o observador casual, uma borboleta é um símbolo fugaz da graciosidade do verão. No entanto, para entomologistas e zoólogos, estes insetos frágeis são os "pesos-pesados" do mundo natural, funcionando como engrenagens vitais que mantêm ecossistemas inteiros em movimento. No século XVII, a pioneira entomologista Maria Sibylla Merian foi uma das primeiras cientistas a documentar a metamorfose das borboletas, provando, através das suas ilustrações detalhadas, que a vida destes insetos está intimamente ligada à existência de plantas hospedeiras específicas. Séculos mais tarde, o lendário zoólogo E.O. Wilson lembrou-nos, de forma célebre, que os invertebrados são "as pequenas coisas que governam o mundo". As borboletas são o testemunho perfeito desta verdade.


Embora pareçam delicadas, são polinizadoras de longo curso que mantêm a diversidade genética das plantas silvestres, as quais, por sua vez, estabilizam os nossos solos e purificam o nosso ar. Além disso, servem como uma âncora fundamental para a cadeia alimentar; enquanto lagartas, convertem a matéria vegetal em energia rica, fornecendo uma fonte de alimento indispensável para aves nidificantes, morcegos e pequenos mamíferos. Como são incrivelmente sensíveis à temperatura e à perda de habitat, os zoólogos também dependem delas como indicadores ecológicos — sensores climáticos vivos que funcionam como um sistema de alerta precoce quando um ambiente está em sofrimento. Como a grande bióloga Rachel Carson escreveu outrora: "Na natureza, nada existe sozinho." Em última análise, proteger as borboletas não é um mero ato de preservação da beleza estética; é a preservação necessária dos fios invisíveis e interligados que mantêm o nosso planeta vivo.

quarta-feira, 27 de maio de 2026

Viver de créditos de biodiversidade ou aprender a viver com o capital natural?


Fala-se cada vez mais de créditos de biodiversidade.

E ainda bem que se fala de biodiversidade, de financiamento da natureza e de novos instrumentos para valorizar aquilo que durante décadas foi tratado como gratuito, invisível ou inesgotável.

Mas há uma palavra que me inquieta: 𝗰𝗿𝗲́𝗱𝗶𝘁𝗼

Na economia, viver a crédito significa muitas vezes usar hoje valor que ainda não temos, empurrando para amanhã uma responsabilidade que não desaparece.

Na biodiversidade, o risco é parecido: convencermo-nos de que podemos degradar aqui, compensar ali, comprar mais tarde, certificar depois. Mas a natureza não é uma folha de cálculo tão obediente.

Um carvalhal maduro, uma linha de água funcional, um solo vivo, uma comunidade de polinizadores, um sapal, uma sebe antiga ou uma árvore urbana adulta não se recriam por transferência bancária. Não são apenas “unidades” substituíveis. 𝗦𝗮̃𝗼 𝘁𝗲𝗺𝗽𝗼 𝗮𝗰𝘂𝗺𝘂𝗹𝗮𝗱𝗼, 𝗿𝗲𝗹𝗮𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝗲𝗰𝗼𝗹𝗼́𝗴𝗶𝗰𝗮𝘀, 𝗺𝗲𝗺𝗼́𝗿𝗶𝗮 𝗱𝗼 𝘁𝗲𝗿𝗿𝗶𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼, 𝗰𝗮𝗽𝗶𝘁𝗮𝗹 𝘃𝗶𝘃𝗼.

Talvez por isso eu goste mais de outra metáfora financeira: não o crédito, mas a conta-poupança.

Gerir biodiversidade devia começar por aquilo que já temos. Conhecer o nosso património natural, medir o seu estado, evitar perdas, restaurar funções ecológicas, aumentar resiliência, reinvestir nos sistemas vivos que sustentam água, solo, alimento, conforto térmico, paisagem e bem-estar.

Ou seja: antes de perguntar “quantos créditos posso comprar?”, talvez devêssemos perguntar, que capital natural tenho, como o estou a gerir, que juros ecológicos me está a devolver e que dívida estou a deixar ao território?

Os créditos de biodiversidade podem vir a ter um papel, se forem rigorosos, transparentes, adicionais, auditáveis e não servirem para legitimar destruição. A própria Comissão Europeia tem vindo a enquadrá-los como instrumentos para mobilizar investimento privado em acções positivas para a natureza, e não como licença para degradar. 

Mas talvez a grande mudança cultural não esteja em criar mais um mercado.
Talvez esteja em perceber que a biodiversidade não é uma despesa ambiental: é património produtivo, infraestrutura natural e capital territorial.

E que, antes de viver a crédito, é melhor aprender a viver com o que temos.
Porque na natureza, ao contrário da banca, quando o capital se perde… nem sempre há refinanciamento possível.

Referências bibliográficas:
  1. Não é só biomassa: preservar a biodiversidade das florestas é urgente e essencial para sua manutenção e também para a resiliência climática
  2. O potencial dos créditos de biodiversidade
  3. Contributos para o estudo do Direito da protecção da biodiversidade
  4. Designing a biodiversity credit accounting framework for environmental investment and financing
  5. Relatório OCDE (2025) - Scaling Up Biodiversity‑ Positive Incentives
  6. Biodiversity credits: Concepts, principles, transactions and challenges
Livros
  1. Cristina Chaves et al (2023)- Economia do Ambiente - conceitos e desenvolvimentos
  2. Field, Barry C.; Field, Martha K (2002)- Environmental Economics – An Introduction , McGraw-Hill(3rd ed.)
  3. Georgescu-Roegen, N. (1971) - The Entropy Law e the Economic Process, Harvard Universidade Press.
  4. Georgescu-Roegen, N. (1977) - Matter matters too‘, in: Wilson, K. D. (ed.), Prospect for Growth: changing expectações for the future, Praeger, New York.
  5. Joan Martínez Alier (1999) - Introduccio A L'Economia Ecologica
  6. Karl Polanyi (1944) A Grande Transformação 
  7. Pearce, David W.; Turner, R. Kerry (1990)- Economics of Natural Resources and the Environment, Harvester Wheatsheaf

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Papel ecológico das traças ou borboletas nocturnas


As traças são estudadas através de uma combinação de trabalho de campo, análise laboratorial e monitorização a longo prazo, uma vez que a sua diversidade e sensibilidade às alterações ambientais fazem delas sujeitos ideais para a investigação ecológica. 

Um dos métodos mais utilizados é a captura por luz, em que as luzes ultravioleta ou de vapor de mercúrio atraem as traças noturnas para que os investigadores possam registar a presença, a abundância e os padrões sazonais das espécies. Técnicas complementares, como armadilhas com isco, levantamentos diurnos de traças diurnas e amostragem de larvas em plantas hospedeiras, ajudam a capturar espécies que não são atraídas pela luz e fornecem informações sobre as relações planta-inseto. 

A identificação é tradicionalmente baseada na morfologia, incluindo padrões de asas e estruturas genitais, mas é cada vez mais apoiada pelo código de barras de ADN, que permite a identificação precisa e a deteção de espécies crípticas. As coleções de museus e os registos históricos são essenciais para comparar os dados atuais com as distribuições e abundâncias passadas, permitindo aos investigadores detectar tendências a longo prazo.

Para além de simples inventários, as traças são estudadas para compreender a sua ecologia, incluindo a especialização nas plantas hospedeiras, os ciclos de vida, as capacidades de dispersão e as respostas a factores como as alterações climáticas, a intensificação do uso da terra, os pesticidas e a luz artificial durante a noite. 

A ciência cidadã tornou-se particularmente importante na investigação sobre traças, com os voluntários a contribuírem com grandes quantidades de dados de jardins e levantamentos locais, expandindo consideravelmente a escala espacial e temporal dos esforços de monitorização.

O estudo das traças é altamente relevante para a conservação da natureza, pois são excelentes bioindicadoras da saúde do ecossistema. Muitas espécies têm requisitos de habitat específicos e respondem rapidamente a perturbações ambientais, o que significa que as alterações nas comunidades de traças sinalizam frequentemente uma degradação ecológica mais ampla. 

Diminuições na abundância e diversidade de traças foram documentadas em muitas regiões e estão intimamente ligadas à perda de habitat, à intensificação agrícola, à poluição e às alterações climáticas. As traças desempenham também papéis funcionais importantes nos ecossistemas: são importantes polinizadoras noturnas de plantas silvestres e culturas agrícolas, e as suas lagartas constituem um recurso alimentar crucial para as aves, morcegos e outros animais. Como resultado, o declínio das traças pode propagar-se através das teias alimentares e perturbar o funcionamento do ecossistema.

Do ponto de vista da conservação, os dados sobre traças são utilizados para identificar habitats prioritários, avaliar a conectividade da paisagem, avaliar práticas de gestão e orientar a restauração de habitats. Uma vez que as traças respondem de forma mensurável às alterações na estrutura da vegetação, na diversidade de plantas e nos regimes de luz, são particularmente úteis para avaliar a eficácia das ações de conservação. Desta forma, o estudo das traças não só ajuda a proteger um grupo diversificado e muitas vezes negligenciado de insectos, como também apoia a conservação da biodiversidade em geral e a resiliência a longo prazo dos ecossistemas.

Referências Bibliográficas

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O ano em revista: as espécies que deram sinais de esperança em 2025


Fique a conhecer os animais e plantas eleitos neste ano que está a terminar, por investigadores e conservacionistas que trabalham com a biodiversidade em Portugal.

1. Abutre-preto (Aegypius monachus)


Com uma envergadura de asa que pode chegar aos três metros, este que é o maior abutre da Europa deu este ano sinais de expansão e de consolidação das colónias existentes em Portugal, refere Samuel Infante, membro da Plataforma de Defesa do Tejo Internacional. De facto, nas contas do projeto LIFE Aegypius Return, que trabalha para a conservação desta espécie, em 2025 contaram-se 119 a 126 casais em território português, um forte contraste com os 40 pares contabilizados em 2022.

Hoje conhecem-se cinco núcleos reprodutores: no Tejo Internacional, “que continua a ser a área de maior concentração da população da espécie”, no Baixo Alentejo (Herdade da Contenda), na Reserva Natural da Malcata, no Douro Internacional e ainda na Vidigueira/Portel (Alentejo). A descoberta desta última colónia, em julho de 2024, “veio dar esperança de que a espécie possa recuperar em pleno”, acrescenta Samuel Infante. Ainda assim, o futuro é ainda frágil: apenas metade dos casais com ovos no ninho conseguiram assegurar descendência, este ano, afetados entre outras ameaças pelos fogos do último verão.

2. Cagarra (Calonectris borealis)

Apesar das pressões que se fazem sentir sobre estas e outras aves marinhas, como é o caso das capturas acidentais em artes de pesca, a maior colónia mundial de cagarras, na Selvagem Grande, arquipélago da Madeira, continua a crescer, nota Joana Andrade. A coordenadora de conservação marinha da SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves chama a atenção para um estudo científico publicado em janeiro passado, que analisou os resultados de contagens feitas entre 2009 e 2023 naquela ilha, e concluiu que ali nidificam atualmente cerca de 38.830 casais – um número que surpreendeu a equipa de investigadores.

Para o crescimento desta colónia contribuem várias medidas, como a aplicação de um regime de proteção estrita na Reserva Natural das Ilhas Selvagens (que inclui ainda a Selvagem Pequena, o Ilhéu de Fora e outros ilhéus adjacentes) e a erradicação total de coelhos e murganhos na Selvagem Grande.

3. Gaivota-de-audouin (Ichthyaetus audouinii)


A gaivota-de-audouin (Ichthyaetus audouinii) é outra das espécies que transmitiu um sinal de esperança ao longo de 2025, notam Joana Andrade, da SPEA, e Gonçalo Elias, ornitólogo e coordenador do portal Aves de Portugal. Esta ave marinha começou a nidificar em território nacional apenas no início do século XXI mas teve um crescimento surpreendente, empurrada por alterações que afetaram estas gaivotas junto ao Mediterrâneo.

Hoje, conta com uma população reprodutora de cerca de 7000 casais no Algarve, incluindo a maior colónia mundial da espécie, na ilha da Barreta, e uma colónia mais recente na ilha da Culatra, ambas na Ria Formosa. Gonçalo Elias considera que o projecto LIFE Ilhas Barreira (2019-2024) deu “um importante contributo para melhorar as condições de reprodução da gaivota-de-audouin no nosso país”. “Embora esteja classificada como Vulnerável a nível mundial, o recente aumento populacional permite ter esperança de que possa deixar de ser considerada ameaçada num futuro próximo”, conclui.

4. Insectos polinizadores


“O ano de 2025 foi um ano muito especial para o futuro da conservação dos insetos polinizadores em Portugal e deu-me um grande entusiasmo pelo que virá nos próximos anos”, afirma Hugo Gaspar, que se dedica à investigação nesta área. Em causa está um grupo grande com mais de 1000 espécies em Portugal, a maioria das quais abelhas selvagens, moscas-das-flores e borboletas diurnas, descreve. O investigador no FLOWer lab, grupo de investigação ligado à Universidade de Coimbra, lembra que se deram “passos importantes” neste último ano “para que possamos ter mais certezas e resultados” no que respeita à conservação destes insetos.

Em primeiro lugar, a publicação do Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores, com um conjunto de medidas para melhorar o estado de conservação deste grupo em Portugal. Em segundo, foi também em 2025 que a União Europeia formalizou o compromisso de implementação do esquema de monitorização dos polinizadores, em linha com o Plano de Ação. Por fim, concluiu-se o projeto ARCADE, que melhorou o conhecimento e o estado das coleções de referência para o estudo dos polinizadores em Portugal. “Em conjunto, estas e outras ações trouxeram este ano muita esperança para este grupo de organismos, e os próximos anos assim o vão confirmar”, acredita Hugo Gaspar.

5. Lince-ibérico (Lynx pardinus)

O lince-ibérico, que nos últimos anos tem sido alvo de vários projetos de conservação que juntam Portugal e Espanha, é outra espécie que deu provas de esperança no ano que termina agora, apontam Samuel Infante, da Plataforma de Defesa do Tejo Internacional, e Francisco Álvares, cientista do CIBIO (Universidade do Porto), especializado em mamíferos.

O esforço de conservação desta espécie outrora à beira da extinção conseguiu o número de linces na Península Ibérica aumentasse para 2401 animais, foi anunciado em maio. Em novembro, foi anunciado um recorde de nascimentos nos centros de reprodução de Portugal e Espanha.

“É uma espécie icónica que foi considerada extinta em Portugal há pouco mais de duas décadas e actualmente apresenta uma população de mais de 300 indivíduos”, nota Francisco Álvares, lembrando que todavia este felino enfrenta ainda várias “ameaças sérias”. Desde logo, exemplifica, uma reduzida diversidade genética (com consequências na resistência a patologias), limitada disponibilidade de alimento (face à raridade do coelho-bravo) e mortalidade por causas humanas (por exemplo, atropelamentos e perseguição directa).

O investigador do CIBIO refere ainda outras espécies que também recuperaram em Portugal, “de forma extraordinária”, as suas populações nestes últimos anos. Exemplos? O corço, a cabra-montês, a águia-imperial e o abutre-preto. “Mas também estas espécies, enfrentam várias ameaças, muitas delas semelhantes às do lince-ibérico, por isso estes ‘sinais de esperança’ poderão ser atenuados se não houver esforços para a sua conservação efectiva”, alerta.

6. Saramugo (Anaecypris hispanica)


Este pequeno peixe de rios portugueses, em risco de extinção, surpreendeu recentemente os investigadores, lembra Filipe Ribeiro, cientista do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Em 2025, um novo estudo conseguiu obter um conhecimento mais exato sobre a distribuição do saramugo. “Durante quase duas décadas, pensou-se que em cinco das 10 populações existentes em Portugal a espécie estaria localmente extinta, uma vez que ao longo deste tempo nunca foram capturados exemplares de saramugo”, explica Filipe Ribeiro. “Porém, através de um estudo baseado em DNA ambiental, realizado em 2023 e publicado em 2025, conseguimos detectar este peixe em todas as 10 populações portuguesas.”

Ainda assim, esses resultados não querem dizer que a situação do saramugo esteja melhor, ressalva o investigador, mas sim que “poderemos alocar esforços de monitorização, que entretanto tinha sido abandonada, e medidas de conservação, às populações que anteriormente tinham sido consideradas como perdidas”.

Para já, explica, são necessárias novas medidas para garantir um futuro ao saramugo, a longo prazo. “Deu-nos algum alento saber que a espécie ainda está nestes locais, porém é necessária uma monitorização dedicada e mais intensiva nestas populações, bem como medidas de melhoria de habitat e remoção de invasoras para a preservação desta espécie endémica da Península Ibérica.”

7. Tartaranhão-caçador (Circus pygargus)


“O aumento registado este ano no sucesso reprodutor do tartaranhão-caçador é bastante positivo, tendo em conta que, segundo os dados do primeiro censo da espécie realizado em Portugal em 2022-2023, esta ave se encontrava no limiar da extinção e, em Espanha, a situação também é bastante crítica”, refere Joaquim Teodósio, da organização não governamental de ambiente Palombar – Conservação da Natureza e do Património Rural e coordenador do projeto LIFE SOS Pygargus. Este ano, dos 251 ninhos desta espécie migradora que foram alvo de medidas de proteção, na Península Ibérica, 77% conseguiram assegurar pelo menos um juvenil voador. Ao mesmo tempo, atingiram-se 1,98 juvenis por casal nidificante, acima do limiar de viabilidade desta espécie.

8. Planta carnívora Utricularia subulata


A redescoberta da Utricularia subulata, uma planta carnívora que não era observada em Portugal desde 1967, é uma notícia esperançosa deste ano que passou, sublinha Sergio Chozas, ligado à Sociedade Portuguesa de Botânica. “De facto esta notícia dá nos esperanças de que algumas das espécies que foram dadas como extintas podem, de facto, andar ainda por aí, e também nos fazem lembrar da importância de continuarmos a fazer estudos e levantamentos da nossa flora”, sublinha este botânico, que é também investigador na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Hinos de Pólen

Hinos de Pólen

"No coração do mundo, onde o vento aprende a falar,
erguem-se antigos guardiões em dança silenciosa:
abelhas douradas, aves de fogo e canto,
morcegos tecelões da noite,
borboletas que carregam o arco-íris nas asas.

Cada um, um verso vivo na respiração da Terra.

Abelhas — monjas do néctar —
trabalham com a precisão de quem sabe
que cada flor aberta é um pacto ancestral.
O seu zumbido é sutra e oração,
um lembrete de que o futuro se molda
no gesto minúsculo de tocar um estame.

As aves, mensageiras do céu,
bordam caminhos entre pétalas e horizontes,
levando consigo a memória dos ventos antigos.
No seu voo reside a ética de cuidado,
pois cada semente que dispersam
é promessa de continuidade.

Morcegos, arquitetos da noite,
pairam onde a luz não chega,
polinizando sombras com fidelidade cega,
recordando-nos de que até o invisível
sustenta a casa comum.

E as borboletas, frágeis na aparência,
mas titânicas na missão,
tocam o mundo com a suavidade
de quem compreende a delicadeza
da teia que nos une.

Todos eles, em co-evolução profunda,
esculpiram com as plantas um pacto milenar:
dar e receber, florir e nutrir,
reinventar a vida a cada estação.

Que saibamos aprender com estes mestres:
que a ética ambiental não é lei escrita,
mas um modo de respirar com o planeta;
que a ecologia profunda não é teoria,
mas pertença — radical e humilde —
ao grande tecido de relações
que nos sustém e ultrapassa.

Honremos os polinizadores,
tecelões de mundos,
pois neles a Terra encontra voz
e o futuro encontra raiz."

João Soares, 02.12.2025

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Riscos crescentes ameaçam a sobrevivência dos polinizadores selvagens europeus


Mais de 40% das borboletas exclusivas da região europeia e não encontradas em mais nenhum lugar do mundo estão agora ameaçadas ou perto de o ser.
🐝Quase 100 espécies adicionais de abelhas selvagens na Europa foram classificadas como ameaçadas.
🐝🔴A espécie de abelha mineira Simpanurgus phyllopodus, a única espécie deste género na Europa e exclusiva do continente, está agora classificada como Criticamente em Perigo.
🦋O número de espécies ameaçadas de borboletas europeias aumentou 76% na última década.
🦋🔴Uma espécie, a borboleta-branca-grande-da-madeira (Pieris wollastoni), que estava restrita à ilha portuguesa da Madeira, está agora oficialmente classificada como Extinta.

A agricultura intensiva, a poluição e o aumento das temperaturas representam as principais ameaças.

Andalusian Anomalous Blue - Polyommatus violetae (Miguel Munguira); Arctic Blue - Argiades aquilo (Nils Ryrholm); Frejya's Fritillary - Boloria freija (Nils Ryrholm); La Palma Grayling - Hipparchia tilosi (Yeray Monasterio); Nevada Blue - Polyommatus golgus (Miguel Munguira); Zulich's Blue Agriades zullichi (Miguel Munguira)

Saber mais:

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Dia Mundial da Alimentação: Quercus exige medidas do Governo para proteger os insetos polinizadores

Rainha: Bombus terrestris  Planta :Tilia cordata

Em vésperas de se celebrar mais um Dia Mundial da Alimentação, assinalado a 16 de outubro, a Quercus vem relembrar e sensibilizar para a relação direta entre o declínio dos insetos polinizadores e a segurança alimentar de uma população mundial em crescimento.

Nos últimos anos, são muitas as ameaças que têm conduzido ao declínio das populações de abelhas e de outros insetos polinizadores. Na Europa, cerca de um terço da população de abelhas e borboletas está em risco de desaparecer. Muitos são os estudos e relatórios que apresentam os fatores de declínio destes insetos, como a utilização crescente de pesticidas e fertilizantes sintéticos associados à agricultura intensiva e super-intensiva, doenças e parasitas diversos, interferência de espécies invasoras como a vespa velutina, também conhecida como vespa asiática, e as alterações climáticas.

Porém, sabe-se hoje que 75% das culturas agrícolas mundiais dependem, total ou parcialmente, dos insetos polinizadores para a produção de alimento. A polinização é um serviço dos ecossistemas vital para a natureza, para a agricultura e para o bem-estar humano. O papel essencial dos polinizadores foi, de resto, amplamente reconhecido pelas entidades governamentais após a Convenção para a Diversidade Biológica (CBD) ter estabelecido a Iniciativa Internacional de Polinizadores (IPI), apoiada e coordenada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Na Europa, a Estratégia «do Prado ao Prato» representa um elemento fundamental do Pacto Ecológico Europeu e funciona em concertação com a Estratégia de Biodiversidade da União Europeia (UE) para 2030. Tornar os alimentos da Europa mais saudáveis e sustentáveis é o objetivo da UE, que fixa como principais metas reduzir a utilização de pesticidas em 50 % e reforçar a área de agricultura biológica em 25%, até 2030.

Todavia, a excessiva utilização de pesticidas, em particular do glifosato, compromete irremediavelmente o cumprimento destas metas. O glifosato é um herbicida tóxico bastante nefasto para as abelhas, o principal inseto polinizador do qual dependem muitas culturas agrícolas. Os dados disponíveis são preocupantes, não apenas porque confirmam que em Portugal se mantém o uso generalizado e excessivo de pesticidas (com a consequente contaminação dos solos agrícolas, da água e dos alimentos), mas também porque trazem a nu a total ausência de políticas e de medidas para inverter este estado de coisas.


Para tal, é essencial implementar medidas concretas e eficazes tais como restringir o uso intensivo de pesticidas e fertilizantes sintéticos na agricultura; fomentar a criação de refúgios para os insetos polinizadores, como corredores silvestres e hortas comunitárias; ou promover a manutenção dos prados floridos e da vegetação espontânea em geral. Medidas que poderiam e deveriam incluir também, e desde já, o fim da atribuição de subsídios agroambientais que continuam a permitir a utilização de pesticidas na agricultura.

Campanha SOS Polinizadores tem reforçado sensibilização
Sabe-se, hoje, que a segurança alimentar do Planeta depende diretamente da implementação de medidas urgentes de proteção dos insetos polinizadores. Através da campanha SOS Polinizadores (com vários materiais disponíveis ), a Quercus e a Jerónimo Martins têm vindo a acompanhar a temática do declínio dos insetos polinizadores e a desenvolver várias ações de sensibilização, reforçando sinergias com autarquias locais através de ações concretas que incentivem uma alimentação segura e uma agricultura mais sustentável, bem como a criação de mais espaços amigos dos polinizadores, como hortas e corredores silvestres nas cidades e nas escolas.

É fundamental aumentar a consciencialização da sociedade sobre a importância e a problemática do declínio dos polinizadores. Mais ainda, tendo em conta que, segundo relatórios da Comissão Europeia, Portugal não possui ainda um plano ou estratégia nacional ou local para a proteção de polinizadores selvagens, um passo essencial para ajudar a estabelecer metas uniformes para todo o país e servir de orientação para as entidades públicas e privadas responsáveis pela gestão dos espaços verdes em cada cidade.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Café e cacau em risco? Alterações climáticas e agricultura insustentável causam perda de polinizadores vitais para essas culturas



As culturas tropicais, como o café e o cacau, bem como a melancia e a manga, podem estar em risco de graves perdas de produtividade devido à perda dos insetos polinizadores, como abelhas, borboletas, sirfídeos e tantos outros, de que essas espécies vegetais dependem para se reproduzirem.

O alerta é lançado por um grupo de investigadores do Brasil e do Reino Unido que, num artigo publicado esta semana na revista ‘Science Advances’, sugerem que nas regiões da África subsariana, nas zonas norte da América do Sul e no sudeste asiático os riscos são maiores e a tendência, que classificam como “preocupante”, deverá agravar-se a um ritmo mais acelerado do que noutras partes do planeta.

Por isso, avisam: “Simplesmente devido à perda de polinizadores, as alterações climáticas e a agricultura podem ser um risco para o bem-estar humano”. Isto, porque os insetos encontram na degradação ambiental e em práticas insustentáveis e nocivas de exploração do solo as maiores ameaças à sua sobrevivência.

A investigação suportou-se em dados recolhidos de mais de 2600 locais e abrangendo quase 3100 espécies de insetos polinizadores e, escrevem os autores, “mostramos que a combinação interativa da agricultura e alterações climáticas está associada a grandes reduções” desses animais, quer em termos de abundância, quer em termos de diversidade de espécies.

Para percebermos a dimensão da ameaça, os cientistas recordam-nos que cerca de 75% das culturas vegetais que os humanos consomem “dependem, de alguma forma, da polinização por animais”.

Embora os maiores riscos possam estar concentrados em algumas regiões, os impactos podem espalhar-se por todo o mundo, estendendo-se globalmente “através do comércio de colheitas dependentes de polinização”, salienta Joseh Millard, do Centro de Ciências da Vida do Museu de História Natural de Londres e investigador da University College London.

Explicam os investigadores que o café, o cacau, as mangas e as melancias, todas altamente dependentes de insetos polinizadores, “são vitais tanto para as economias locais como para o comércio global e a sua redução poem causar o aumento da insegurança dos rendimentos para milhões de pequenos agricultores” nas regiões mais afetadas.

“À medida que os insetos diminuem, por não serem capazes de tolerar a interação dos efeitos das alterações climáticas e o uso do solo, o mesmo acontecerá às culturas que dependem deles como polinizadores”, acautela Millard.

“Os nossos estudos destacam a necessidade urgente de se agir globalmente para mitigar as alterações climáticas, a par de esforços para desacelerar as mudanças no uso dos solos e para proteger habitats naturais para evitar prejudicar os insetos polinizadores”, refere.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

A Força dos Polinizadores



A polinização é um serviço dos ecossistemas (SE) vital para a natureza, a agricultura e o bem-estar humano, e é na grande maioria dos casos levada a cabo por animais, desde abelhas e borboletas a morcegos, roedores e répteis.


Os polinizadores assumem assim um papel vital na manutenção das populações de plantas silvestres, que por sua vez albergam muitos outros organismos, e no fornecimento de alimento, com cerca de 75% das nossas culturas a beneficiar de serviços de polinização.  


No entanto, as pressões globais representam atualmente uma ameaça aos polinizadores, e consequentemente à produção agrícola sustentável e à conservação da biodiversidade. 


As alterações no uso do solo causam fragmentação, perda e simplificação de habitat e conduzem a uma redução contínua de reservatórios naturais de biodiversidade funcional, quebrando interações mutualísticas e ameaçando a persistência das populações de polinizadores e plantas silvestres, bem como o funcionamento dos ecossistemas. 


O papel essencial dos polinizadores foi reconhecido pelas entidades políticas quando a Convenção para a Diversidade Biológica (CBD) estabelece a Iniciativa Internacional de Polinizadores (IPI), apoiada e coordenada pela FAO, para proteger os polinizadores selvagens e domesticados, e promover o uso sustentável dos serviços de polinização.  


No entanto, temos ainda um longo percurso a percorrer para salvaguardar a conservação deste grupo vital de organismos. É assim crucial, valorizar o seu papel, desenvolver planos de avaliação e monitorização, desenvolver ferramentas de apoio à decisão e implementar práticas amigas dos polinizadores, assim como aumentar a consciencialização para a importância dos polinizadores.

 

Oradora Sílvia Castro


domingo, 15 de junho de 2008