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terça-feira, 12 de maio de 2026

Relembrar a obra "À Espera dos Bárbaros" de John Maxwell Coetzee


A obra "À Espera dos Bárbaros", publicada em 1980 por J.M. Coetzee, constitui-se como uma densa alegoria sobre a natureza do poder, a erosão da moralidade e a construção artificial da inimizade. A narrativa centra-se na figura do Magistrado, um administrador colonial que vive numa pacata cidade fronteiriça de um Império sem nome, cuja rotina é estilhaçada pela chegada do Coronel Joll. Este oficial do "Terceiro Gabinete" encarna a face mais sombria da autoridade, instaurando um estado de exceção sob o pretexto de uma iminente invasão bárbara. Através da tortura e da paranoia, Joll transforma a convivência pacífica num cenário de terror, forçando o Magistrado a confrontar a sua própria cumplicidade no sistema que agora o horroriza.

Intelectualmente, o romance é um palimpsesto de referências que elevam a trama para além da crítica política imediata. A génese do título e do tema central reside no poema do grego Constantino Cavafy, que explora a ideia de que o Império necessita da figura do "bárbaro" para justificar a sua própria existência e coesão interna. Esta necessidade política de um inimigo externo é o motor que permite ao Estado exercer uma violência sem limites, um conceito que encontra eco nas teorias de Hannah Arendt sobre a "banalidade do mal". O Coronel Joll não é movido por um ódio pessoal, mas sim por uma eficiência burocrática e uma cegueira ética que Arendt identificou nos perpetradores dos maiores crimes do século XX.

A atmosfera de opressão e o absurdo da máquina estatal remetem invariavelmente para Franz Kafka. Tal como nas obras do autor checo, o Magistrado vê-se preso numa engrenagem que não consegue controlar nem compreender totalmente, onde a justiça é uma miragem e a punição precede muitas vezes o crime. Esta violência física, exercida sobre os corpos dos prisioneiros, estabelece um diálogo direto com as teses de Michel Foucault em Vigiar e Punir. Coetzee demonstra como o Império utiliza a tortura para inscrever o seu poder na carne, transformando o corpo humano num território de domínio absoluto onde a "verdade" é extraída através do sofrimento.

No centro da crise espiritual do protagonista está a sua relação com uma prisioneira bárbara, deixada cega e mutilada. Aqui, a narrativa mergulha na filosofia da alteridade de Emmanuel Levinas. O Magistrado tenta, através do cuidado e de uma obsessiva observação, compreender o sofrimento da rapariga, mas acaba por perceber que o "Outro" permanece radicalmente inacessível. A sua tentativa de redenção é, em si mesma, uma forma de apropriação, revelando que mesmo o desejo de bondade pode estar contaminado pela estrutura de poder colonial.

Escrito durante o auge do regime do Apartheid na África do Sul, o texto de Coetzee transcende o seu contexto histórico para se tornar uma meditação universal. Ao recusar localizações geográficas precisas, o autor sugere que a barbárie não habita fora das muralhas, nas planícies dos nómadas, mas sim no coração da civilização que se define pela exclusão e pela crueldade. O desfecho da obra, marcado por uma espera vazia e pela decadência do posto fronteiriço, sublinha a tese de que todos os impérios, ao alimentarem-se da destruição do outro, acabam por acelerar a sua própria e inevitável queda.

Ver o filme aqui

sexta-feira, 15 de maio de 2020

"As Vidas dos Animais" de John Coetzee

Publicada originalmente em 1999, a obra "A Vida dos Animais" (The Lives of Animals) afirma-se como um dos textos mais singulares e influentes de J.M. Coetzee, tendo surgido a partir das Tanner Lectures on Human Values que o autor proferiu na Universidade de Princeton entre 1997 e 1998. Em vez de seguir o formato de um ensaio académico tradicional, Coetzee optou pela estratégia da metaficção, criando a personagem Elizabeth Costello, uma romancista idosa que, ao ser convidada para dar uma palestra, utiliza esse espaço para proferir um discurso visceral e perturbador sobre o tratamento humano dado aos animais. Esta estrutura permite a Coetzee utilizar a literatura para testar os limites da razão, com Costello a argumentar que a filosofia ocidental padece de uma obsessão pela "razão" como único critério de valor, o que serve apenas para excluir os animais da esfera de consideração moral. Em alternativa, a personagem propõe a comiseração — a capacidade profunda de sentir o que o outro sente — como base ética. O ponto mais polémico desta análise surge na analogia do Holocausto, onde Costello compara os matadouros modernos ao extermínio nazi, sugerindo que a humanidade vive num estado de negação coletiva semelhante ao dos cidadãos que ignoravam a existência dos campos de concentração ao seu redor.

A obra promove um verdadeiro embate com a tradição filosófica ao incluir respostas reais de académicos, gerando um diálogo interdisciplinar de grande fôlego. Entre os intervenientes destaca-se Peter Singer, filósofo de ética utilitarista e autor de Libertação Animal, que responde através de um conto onde debate se a base para os direitos deve ser a razão ou a capacidade de sofrer, focando-se nos interesses, enquanto a visão de Costello se centra na experiência subjetiva. Embora não esteja diretamente presente no livro, o pensamento de Tom Regan também ressoa na narrativa ao defender que os animais são "sujeitos-de-uma-vida", possuindo um valor inerente que transcende a utilidade humana. Esta crítica estende-se às perspetivas da biologia e da etologia, com Costello a atacar a ciência que reduz os animais a objetos de estudo mecânicos. Sobre este ponto, o primatologista Frans de Waal contribui com um comentário argumentando que a moralidade e a empatia têm raízes evolutivas profundas e não são exclusivas da nossa espécie, ideia reforçada pela frequente citação de Jane Goodall, que desafia o antropocentrismo radical ao demonstrar que os animais possuem personalidades e emoções complexas.

No âmago da obra reside a tese da falha da linguagem humana, considerada insuficiente para capturar a essência da existência animal. Coetzee sugere que apenas através da imaginação poética, e não da lógica silogística, podemos aspirar a compreender o "ser" de um animal. Nesta jornada intelectual, surgem referências fundamentais como René Descartes, alvo central das críticas de Costello por ter definido os animais como "autómatos" desprovidos de consciência, e a filósofa moral Mary Midgley, que defendeu deveres mistos para com a comunidade biológica. A obra evoca ainda Jeremy Bentham, o precursor do utilitarismo que famosamente instigou a humanidade a perguntar não se os animais podem raciocinar ou falar, mas se podem sofrer. Em conclusão, "A Vida dos Animais" transcende o debate sobre o vegetarianismo para se tornar uma exploração profunda sobre a solidão da consciência humana e a nossa dificuldade em reconhecer a alteridade radical, obrigando o leitor a confrontar o "crime silencioso" que sustenta os pilares da nossa civilização.

Saber mais:
J.M. Coetzee and Elizabeth Costello: Landscapes and Animals

Mirror neurons and literature: Empathy and the sympathetic imagination in the Fiction of J.M. Coetzee

À Espera dos Bárbaros (2019)

À Espera dos Bárbaros (Waiting for the Barbarians) é um filme italiano de 2019 dirigido pelo colombiano Ciro Guerra em sua estreia com longas-metragens em idioma inglês. É baseado no livro À Espera dos Bárbaros de J. M. Coetzee.

Estreou no Festival de Cinema de Veneza em 6 de setembro de 2019.

Usufruindo da capacidade de tratar a fronteira entre as dimensões histórico-realista e dramático-cinematográfica, o diretor Ciro Guerra desprende-se da trama de redenção do homem bondoso e exercita reflexivamente com o espectador à espera pelos bárbaros que tanto os conquistadores buscavam punir. Dessa forma, não há obras redentoras no filme, e sim a reafirmação didática com a natureza, quiçá com a dimensão de desbravamento operístico do título, que o ser humano vê o reflexo imperfeito de si, nunca se salvando por suas boas ações, especialmente na pretensão de uma mediação incompreendida de cultura.

O protagonista interpretado por Mark Rylance (Jogador Nº 1, Ponte dos Espiões) é a simbologia clássica do gentleman, o homem cortês, britânico, com atitudes elogiáveis no falar singelo, na interação diversificada com o povo e no detalhismo com a escrita. Nessa sua cordialidade, impõe para si o papel de intermediador cultural, guardando e cuidando de materiais de escrita atribuídos aos “bárbaros” da região, enquanto serve como Magistrado, serviço de liderar um centro civilizatório conquistado e de papel político em meio a uma guerra. Essa descrição se torna relevante, tanto em imagem quanto em introdução, porque o diretor toma métodos didáticos na narrativa, buscando sempre centralizar distanciamentos geográficos e a ostentosa natureza da fotografia como sinônimos de dramatização. Conhecendo a personalidade pacífica do personagem central, permite-se o diretor teatralizar movimentos dos personagens e abrir planos na captação das imagens do filme, que pelo cenário vão questionar paulatinamente o bom porte de um representante dos conquistadores e de um homem de anseios próprios. O conflito é lento e da mesma forma é a compreensão de que também existe maldade naquele homem que parece não compreender a tortura.

Assim, o filme estabelece dinâmicas muito difíceis de harmonizar, com paralelismos de imagem em uma história já dividida didaticamente em estações de tempo, uma espécie de alívio cómico extremamente sutil que se exacerba em meio a momentos contemplativos de ações aparentemente redentoras do protagonista. A harmonia se dificulta porque são três maneiras de contar a história, que podem ser contraditórias ou óbvias. No entanto, há um esvaziamento do drama em falas e atuações, com um elenco de apoio com Johnny Depp e Robert Pattinson com trejeitos caricatos de vilania, permitindo o impacto da violência física dos conquistadores tornar-se as consequências reais da obra, não as ações bondosas do protagonista. Ou seja, para a coerência de quebrar a trama redentora de um oficial de fronteira diante dos seus superiores violentos, os paralelismos acompanham o protagonista em suas mudanças, de Mark Rylance ir do popular ao isolado na cidade de fronteira, enquanto a investigação dos superiores por bárbaros na cidade e arredores é a espera temporal incitada que de maneira didática as estações de tempo vão impactando exteriormente. 

Dessa maneira, o valor que Ciro Guerra dá à natureza e à compreensão geográfica sem necessidade descritiva, pertencente a um movimento realista, permite que a desestruturação do heroísmo das boas ações, e o questionamento delas, seja o próprio ato de fotografar o protagonista. Seu ato de sair dos muros da cidade em direção ao deserto, o cenário de livros e textos que pressionam o ator numa conversa com seu superior e sua submissão à entrada dos militares na cidade vão preparando a revelação de que o personagem central nunca foi bom, acochado em suas ações pela grandiosidade da natureza, pelo seu trabalho até o ponto de irresponsabilidade, e como tenta compreender os “bárbaros” pela própria lente de conquistador, embora mais pacífico. 

Mesmo que soe uma história repetitiva de desconstrução, ela se torna diferenciada pois assim como o detalhismo de ações do personagem em escrever, se movimentar ou falar, o diretor dá a percepção sonora do filme ao espectador também em detalhes, exatamente para que ao declarar a insatisfação com o protagonista, a exteriorização seja suficiente para a apreciação. Aí que as miniaturas de alívios cômicos no filme, e uma visão histórica do diretor em dar voz a personagens transeuntes na narrativa – como um soldado interpretado por Harry Melling (Dudley Dursley da franquia Harry Potter) que tenta descrever a vilania dos militares no uso de facas minúsculas para tortura, ou uma cozinheira interpretada por Greta Scacchi que, por ciúmes do protagonista, o questiona – viram uma denúncia à incapacidade de compreensão da tortura elaborada contra os bárbaros, ou o cuidado controverso do protagonista com uma garota do povo bárbaro. 

Os símbolos e o silêncio preservado nas imagens captadas do diretor vão tomando forma de afirmação do anseio do protagonista. Sua culpabilização não é apontada à vista, e sim no reflexo da sombra de um ser humano inapto em entender que ele estava no meio da guerra, não tomando um lado. Ele é engolido de qualquer forma, e nunca encontra um reflexo simbólico satisfatório, nem nos óculos de sol do Coronel, nem no olhar da garota torturada. Por isso não vemos Mark Rylance de maneira intimista. A imagem mais próxima dele é pelo reflexo simbólico dessas duas pessoas. O seu toque na face e no corpo da garota interpretada por Gana Bayarsaikhan é distante, é um ato de incompreensão, não de aproximação. 

A natureza narrativa do À Espera dos Bárbaros é a linguagem da espera, contraponto também às ações humanas, seja redentora (como a do protagonista), seja dos militares. Tudo se revela para eles, o medo, a falta de cavalos, a sombra reflexiva. Não sobra nada que revele um desbravamento ou alguma epopeia que o título poderia sugerir. É exatamente a pausa desse percurso que mostra com paralelismos a decaída de um vilão e uma constatação da incompetente mediação. O que sobra são os bárbaros, o deserto e os reais inocentes de uma guerra que não rende o homem, só evidencia a sua incapacidade de ser bom sozinho.

À Espera dos Bárbaros (Waiting for the Barbarians) – Itália | EUA – 2020
Direção: Ciro Guerra
Roteiro: J.M. Coetzee
Elenco: Mark Rylance , Johnny Depp , Robert Pattinson , Gana Bayarsaikhan , Greta Scacchi , David Dencik , Sam Reid , Harry Melling, Bill Milner.
Duração: 112 min.