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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A abertura na copa das árvores

Céu Tecido
Um campo de ondulações de espuma cinzenta e suave
estende-se amplamente pela atmosfera,
onde o ar e a humidade tecem um lar temporário,
mantendo perto a luz e a sombra.

Correntes invisíveis curvam-se e erguem-se,
arrefecendo o vapor em formas silenciosas,
um presente subtil, flutuante e vivo
antes da chegada das tempestades.

Nenhuma parte está separada do chão,
nenhuma gota existe fora do todo;
em cada sopro flutuante encontra-se
o ritmo de uma única alma.

João Soares, 28.08.2026

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Birds Are Indie - Black (or the art of letting go)

Melhor som aqui
A canção "Black (or the art of letting go)", integrada no álbum On a Tempo (2020), aborda a vulnerabilidade emocional, o luto e a libertação do passado. O significado da composição gira em torno da aceitação da dor como parte inevitável da condição humana - o "preto" (black) surge não apenas como ausência de luz ou luto, mas como a metáfora do espaço em branco necessário para a transformação interior. O tema reflete sobre a arte de desapegar e "deixar ir" (letting go) memórias, expetativas e pesos emocionais para abrir caminho ao recomeço.

Esta narrativa visual ganha corpo no videoclipe da canção, onde a linguagem estética minimalista serve de espelho para o estado de espírito do tema. O significado do videoclipe reside na representação simbólica do isolamento e da catarse: através do jogo de luzes e sombras, movimentos contidos e ambientes despojados, encena-se o processo interno de libertação, onde as personagens enfrentam a escuridão interior para finalmente alcançarem a serenidade do desapego.

No plano conceptual, a canção carrega fortes influências literárias e filosóficas ligadas ao existencialismo e ao estoicismo. O subtítulo "the art of letting go" dialoga diretamente com correntes filosóficas estoicas - que defendem a aceitação da impermanência e daquilo que não podemos controlar -, assim como com a tradição literária do romantismo e do simbolismo, em que o luto e a melancolia não são encarados como fins destrutivos, mas como catalisadores para a contemplação e o amadurecimento do eu.

sábado, 4 de julho de 2026

Mocho-galego - O Teorema Plumado da Terra


"Sobre o osso lascado de um carvalho antigo,
Onde o mar verde do prado se espraia lento,
Vejam a precisão do instante: a tensão
Que se liberta no arranque do Mocho.
A elegância pura do gatilho de penas,
Onde o corpo, ainda atado à casca,
Já desenha, com a asa que se abre,
A mestria terna do primeiro voo.

As suas órbitas são duas luas de enxofre,
Faróis de febre líquida que dissecam a luz:
Eles decifram o dia. Rastreiam a curva lenta do vento
Sobre as cristas das giestas, caçando
A deriva da poeira, o milimétrico passo de um rato.

É um relógio de carne, um engenho de penas
Forjado por eras de ensaios e golpes certeiros
Para ser o nervo vigilante de todo o ecossistema.
O padrão do seu dorso - mapa de castanhos e cremes -
Funde-se na casca, devora a própria casca,
Uma engrenagem viva da complexa teia que o sustenta.

As garras, tensas como pinças de precisão,
Cravam-se na madeira em declínio, a sua única âncora
Contra a maré ascendente da mudança invisível.
É o freio biológico que governa a matéria - dos escaravelhos,
Das aranhas tecelãs, dos roedores -, a chave de abóbada
Que sustenta o teto vivo deste mundo verde.

A sua postura é um manifesto de equilíbrio frágil.
Se o carvalho tombar, se o prado vivo for asfalto,
Se o silêncio for quebrado por um ruído mais bruto,
Estes lumes de âmbar irão desvanecer. E com a sua partida,
Uma biblioteca inteira de voo e visão será rasgada.

Pois quem medirá o tremor na erva
Quando o vigia silencioso desaparecer?
Ele é o pulso selvagem da memória da paisagem,
Que agora plana, nessa linha onde a terra e o céu se fundem,
Por um mundo que temos mesmo de defender.

João Soares, 04.07.2027

domingo, 14 de junho de 2026

A Garça de Camurça e Oiro

Papa-ratos (Ardeola ralloides)

Silenciosa, orgulhosa e belamente vestida,
Uma vigia solitária à beira da vala escondida,
Saudando os ventos suaves do arrozal e a luz pálida da manhã,
Sobressaltada pelo passo repentino ou pela sombra de um estranho que passa,
Procurando apenas a poula silenciosa e um ramo isolado para pousar,
Adornada com as suas penas domingueiras de um fino camurça e oiro,
Uma habitante fundida  onde as águas mansas se cruzam com o céu,
Um espírito do caniçal plantado na terra.

João Soares, 14.06.206

quinta-feira, 9 de abril de 2026

The Unbroken Thread


Tentilhão-comum (Fringilla coelebs) @ José Morgado Martins

"The bird is not on the branch, but of it
A momentary flowering of the wood,
A pulse of warm blood singing the sky’s own blue.

She does not stand apart to name the world;
She is the world’s own throat,
Translating the deep, silent sap of the cherry tree
Into a language of air and light.

There is no "I" that watches and no "it" that sings,
Only the single, shimmering web of being
Where the frost of the bark and the heat of the heart
Are one slow-burning fire.

To hear her is to feel the weight of centuries
Of starlight and soil rising through those tiny claws,
A testimony that we are not masters of this place,
But plain members of its magnificent, grieving,
And wildly living body.

When she opens her beak, the universe exhales—
Not for us, but because the song is the only way
For the earth to know the depth of its own belonging."

João Soares, 09.04.2026


sexta-feira, 20 de março de 2026

The Common Root, The Open Field


The sun is a golden carpenter, planed and raw,
Not a thought of God, just the heat upon the stone.
I see with eyes that have forgotten how to name,
Stripping the silk from the corn, the myth from the bone.
I am the keeper of flocks that are only the passing wind,
Content to let the river be water, and the air be thinned.

And so the valley breathes a deep, fern-scented sigh,
Where ancient hemlocks haunt the mist-drenched floor.
There is a poetry in the granite’s edge, the eagle’s cry,
The rhythmic pulse of the river’s wild and hidden roar.
I see the silver birch’s bark, a lily in the gloom,
And the vast, tangled geometry of the mountain’s room.

Yet, look closer—there is a circuit made of sun, 
Where silent cells weave the carbon from the air. 
The plant is not a thing, but a process, a run
A thinking heart that finds the cosmic everywhere.
The earth is a living being, dreaming in the dark,
Waiting for the human soul to strike the inner spark.

I walk the lanes where a poet lost his mind to find his soul,
Naming every nested bird and the trembling of the rye.
The fences steal the common, but they cannot take the whole
Of the vast, unlettered music of the open summer sky.
The badger in the brake, the lady-smock in the dew—
Simple things are the only things that are ever truly true.

And when the world begins to fray, when the shadows grow too long,
A steady hand reaches out and leads me through the grief.
To love the world is to mourn it, a fierce and ancient song,
Finding the "Great Turning" in the falling of a leaf.
We are the web itself, the pulse of the ancient deep,
Awakening from the long, industrial, lonely sleep.

Finally, there is the white silence of a master’s hand,
Where the word is a body, bare and salt-washed by the sea.
A solar clarity that understands the shifting sand,
And the brief, bright miracle of what it means to be.
Just the earth. Just the light. Just this breath we share—
The common root of everything, blossoming in the air.

terça-feira, 3 de março de 2026

The First Morning

The First Morning
"The world is old and breathing here,
In mossy lungs and silvered river.
No clock has dared to etch a line
Upon this cathedral of leaves and water.

To stand amidst this hallowed wild
Is to feel the earth find her stolen child;
The noise of the age begins to cease
In the ancient ache of a perfect peace. "

João Soares - 03.03.2026

sábado, 14 de fevereiro de 2026

The Veins of the Earth


"It is not "water" that moves here,
but the mountain’s cold blood
seeking the lowest prayer.

The white rush of the stream
is the only clock that matters,
carving a dialogue between stone and gravity
long before we learned to speak.

Look at the moss—
those emerald lungs clinging to the bark.
The tree does not own the moss,
nor does the moss steal from the tree;
they are a single, breathing yes
to the dampness of the world.

We stand on the ridge,
clinging to our names and our borders,
while the ivy bridges the gap
between the root and the sky.

Under the floor of copper leaves,
the mycelium whispers in the dark,
proving that to be alone is an illusion
we invented to feel important.

The forest does not look at you.

It invites you to be quiet enough
to hear your own heart beating
in sync with the falling water,
until you can no longer tell
where the wood ends
and you begin. "

João Soares, 14.02.2026

domingo, 14 de dezembro de 2025

Onde a Terra respira

"A Montanha não pensa em mim,
e por isso ensina-me tudo.
Está ali,
antes do meu nome
e depois do meu cansaço.
Não argumenta,
não explica,
não promete salvação.
É pedra respirando devagar,
um tempo tão vasto
que o tempo deixa de ser pressa.
Aprendo com ela a não querer mais
do que estar.
Um órgão antigo
desta grande vida que se regula sozinha,
que se cura sem pedir licença,
que mantém o equilíbrio
mesmo quando a esquecemos.
Quando me torno vento entre os seus picos
sou menor —
e isso é um alívio.
A Montanha não é símbolo.
É presença.
E ao aceitá-la assim, inteira,
aprendo a pertencer
à Terra viva."
Joao Soares -14.12.2025

domingo, 16 de novembro de 2025

Miguel Real - A Morte de Portugal

Um livro muito interessante e peculiar e actual. Já é de 2007. Mas recuperei a leitura e identifico-me com este ensaio. Este pequeno ensaio diligencia desenhar os quatro complexos culturais por que Portugal se foi concebendo a si próprio ao longo de 800 anos de História: ora um país gerado exemplarmente no mais remoto dos tempos e contra as mais difíceis circunstâncias (Viriato); ora um país que, durante e após os Descobrimentos, se vê a si próprio como nação superior às demais, sintetizada na majestática arquitectónica do Quinto Império de padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva; ora um país que, fracassado o sonho grandiloquente do Império, se lastima e se penitencia, considerando-se nação inferior, passível de máxima humilhação (Marquês de Pombal); ora, finalmente, país mesquinho, venenoso e bárbaro, permanentemente ansioso de purificação ortodoxa, no qual cada corrente política e intelectual tem sobrevivido da canibalização das correntes adversárias, negando-as e humilhando-as. Por efeito do ambiente educacional e social, cada português percorre na sua vida, recorrente e ciclicamente, estas quatro figurações da sua história e da sua cultura.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Obra sobre 800 anos de homossexualidade em Portugal “preenche lacuna” na historiografia


A “História da Homossexualidade em Portugal”, que é apresentada na próxima quarta-feira, em Lisboa, é inédita e “preenche uma lacuna no mercado editorial”, defende o seu autor, o investigador Victor Correia.

“Trata-se de uma investigação que até hoje não foi realizada”, afirma o autor no prefácio da obra,  reconhecendo a existência de livros sobre o tema, mas relativos ao período da ditadura do Estado Novo (1933-1974), e “alguns artigos sobre temas específicos da homossexualidade” publicados em jornais e revistas.

A obra abarca 800 anos de história, desde o século XIII ao século XX, reúne documentação, cita exemplos com base em bibliografia e, como aponta o autor, vem preencher “uma lacuna” nas edições historiográficas existentes, sobre outras temáticas sociais, como judaísmo, medicina, movimento operário e conflitos sociais, ensino, igreja, história militar, etc.

Com esta obra, pretende o autor “tornar visível o que ficou escondido, ignorado, esquecido, posto de parte, na historiografia portuguesa, apesar da homossexualidade também fazer parte da História de Portugal”.

Victor Correia realça que “os ‘gays’, as lésbicas, os bissexuais e os praticantes de relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo geralmente não aparecem nos livros de História”.

Sobre o seu livro, diz que teve em atenção, “não apenas do ponto de vista da personalidade intrínseca da pessoa” que pratica a homossexualidade, “mas a homossexualidade enquanto prática”, e argumenta: “A pessoa pode não ser homossexual e praticar a homossexualidade”.

Os livros de História e o ensino nas salas de aula explicam “enredos amorosos e sexuais de grandes personagens históricas”, “mas só quando eram heterossexuais”, no caso de relacionamentos homossexuais “pouco se sabe ou pouco se fala”, afirma Victor Correia.

O autor assume que não é historiador – o seu doutoramento foi em Filosofia Política e o pós-doutoramento em Ética -, mas isso não retira crédito à sua fundamentada investigação. Victor Correia, aliás, salienta que “este livro não é ‘A’ História da Homossexualidade em Portugal, mas sim ‘Uma’ História da Homossexualidade em Portugal”.

O “objetivo deste livro não é fazer um estudo exaustivo e pormenorizado sobre a homossexualidade”, mas apresenta “uma visão muito abrangente e está dividido por várias épocas e assuntos”; é uma “obra de divulgação”, “não pretende ser um ensaio à descrição dos factos”.

Victor Correia apresenta uma vasta documentação, desde textos literários a documentos do Tribunal da Inquisição, legislação civil e correspondência.

Entre a documentação anexada encontra-se o poema “Sobre o que eu quis, que muito gostaria”, de Estêvão da Guarda (1280-1362), que aborda as relações sexuais entre Álvaro Rodrigues com “um rapaz mouro” que tinha “ao seu dispor”, e as cartas do príncipe regente João, futuro rei João VI, ao seu camareiro e guarda-roupa, do qual se despede escrevendo: “Amo quanto muito te estima”.

Estes anexos documentais constituem a segunda parte do livro. A primeira parte é uma “abordagem da homossexualidade através dos séculos”, com base na bibliografia, “dando vários exemplos, explicando e procurando ver causas dos problemas abordados.”

Victor Correia é doutorado em Filosofia Política e Jurídica pela Universidade da Sorbonne, em Paris, e pós-doutorado em Ética e Filosofia Política, pela Universidade Nova de Lisboa.

Entre as suas obras publicadas, encontram-se “Textos de Fernando Pessoa sobre a Arte” (2022) e “A homossexualidade de Fernando Pessoa” (2023).

A obra “História da Homossexualidade em Portugal”, de Victor Correia, publicada pela Âncora Editores, é apresentada na próxima quarta-feira, às 18:00, por Helder Bértolo e Fabíola Neto Cardoso, no Espaço Cultural Cinema Europa, em Campo de Ourique, em Lisboa.

A sessão contará com um momento musical pelo coro LGBT (Lésbicas, Gay, Bissexuais e Transgénero) Alarido.

sábado, 24 de maio de 2025

Portugal apaga o português na Expo 2025 Osaka: uma vergonha diplomática, um acto de ignorância desmedida


Fonte: Página Um
Na Exposição Universal de Osaka, em pleno 2025, sobre a qual hoje escrevi para falar dos gastos, fiquei estupefacto com uma constatação: o pavilhão de Portugal optou por apresentar-se ao mundo sem uma única mensagem em português. Nas projecções que “recebem” os visitantes, apenas se lêem mensagens em japonês e em inglês. Presumo que a palavra Portugal apareça como Portugal porque assim se escreve em inglês.

Esta aberração num projecto de quase 26 milhões de euros — que é o que custará aos cofres públicos a presença portuguesa em Osaka — não se trata de um lapso trivial. Trata-se de uma vergonha. Uma vergonha diplomática. Uma vergonha cultural. E, sobretudo, um acto de ignorância desmedida da Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal (AICEP) sobre a própria História de Portugal — precisamente no Japão, um país onde o português foi, durante décadas, a língua da diplomacia, da fé, do comércio e da ciência.

Ricardo Arroja e as “alminhas” da AICEP podem não saber da riqueza histórica entre Japão e Portugal, nem sempre pacífica quando mundos se contactam pela primeira vez. Mas, se tiveram mais de 13 milhões de euros para montar um edifício com 10 mil cordas, talvez por meia dúzia de patacas (não as de Macau, que isso é China) pudessem contratar um historiador.

Se tiveram 200 mil euros para contratar a Ernst & Young para lhes fazer a contabilidade, poderiam ter contratado a decência para lhes explicar que, quando se promove Portugal, só se promove com a língua portuguesa, porque, como escreveu bem Fernando Pessoa (ou Bernardo Soares), “minha pátria é a língua portuguesa”.

Num país que se envergonha pelo que faz no presente, parece agora querer vilipendiar o passado. Quer apagar da História Universal que o primeiro grande contacto da Europa com o Japão moderno foi feito por intermédio dos portugueses. Em 1543, três navegadores — António da Mota, António Peixoto e Francisco Zeimoto — ancoraram nas ilhas nipónicas, dando início a uma relação de trocas e fascínio mútuo que marcaria profundamente ambos os povos.

Fernão Mendes Pinto, na sua Peregrinação, misto de verdade e ficção, reclama para si um lugar nesse feito inaugural, descrevendo com minúcia a sua chegada ao Japão, o assombro dos locais perante as armas de fogo portuguesas e o espanto recíproco perante os costumes e a cultura. É dele um dos primeiros retratos europeus do Japão — colorido, cheio de admiração e revelador de um encontro entre civilizações.

Na sua narrativa, refere a entrega de espingardas a um senhor feudal japonês e o impacto profundo que esse gesto teve, ao ponto de modificar para sempre o modo como os japoneses concebiam a guerra. Mais do que uma crónica de aventuras, a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto é um testemunho vivo da presença portuguesa no Japão do século XVI. E é, também, um monumento literário que dá voz à nossa língua nas lonjuras do Oriente.

Recorde-se ainda que Francisco Xavier, missionário jesuíta português, foi um dos primeiros evangelizadores do arquipélago. A cidade de Nagasáqui foi doada aos jesuítas portugueses. A primeira gramática da língua japonesa foi redigida por um português. A imprensa de tipos móveis foi introduzida por missionários portugueses. A língua portuguesa foi, até ao século XVII, o veículo oficial da comunicação dos japoneses com o mundo. Que país mais poderá reivindicar tal feito no Japão?

E como poderemos honrar, com esta postura, esse insigne vulto que foi Wenceslau de Moraes, que nos deixou um legado sobre o Japão em tantos escritos? Logo ele que, por lamentável ironia, até foi cônsul em Osaka…

E, no entanto, o Portugal de 2025 apresenta-se no Japão ignorando a sua própria língua — como se o português fosse um fardo do passado, um acessório irrelevante, uma relíquia a esconder. Como se a língua de Camões e de António Vieira, de Eça e de Pessoa, não merecesse aparecer agora num dos países que primeiro a escutaram no Extremo Oriente. Este apagamento não é casual. É sintoma de um Estado que já não se entende como Nação, que prefere o inglês da conveniência ao português da identidade.

Numa era em que o multiculturalismo é brandido como bandeira, Portugal é dos poucos países que insiste em esconder a sua Cultura para parecer moderno. Mas não há modernidade possível sem memória. E não há presença internacional digna quando se abdica da própria língua — sobretudo quando essa língua é um dos maiores legados da presença portuguesa no Japão.

O pavilhão português em Osaka já não é apenas um edifício; é uma metáfora da forma como o Estado português se vê a si mesmo: envergonhado da História, ignorante do seu papel no Mundo, submisso aos ditames de uma comunicação global onde tudo se quer nivelado, uniformizado, sem raízes.

Não sou dado a sentimentalismos patrioteiros nem a arroubos diplomáticos, e muito menos me comovem cortejos de bandeiras ou salamaleques culturais. A minha pátria — como bem disse Pessoa — continuará a ser a língua portuguesa. Não me indigno demasiado com quem tropeça no português por ignorância — isso tem cura. Mas o que já me enoja é a opção consciente de apagamento da língua que nos define, como se se varresse Camões para debaixo de um tapete institucional ou se riscasse Pessoa das vitrinas da História.

Com a indiferença burocrática dos que não percebem que se pode vender um país em silêncio, bastando para isso omitir-lhe a fala, a AICEP não cometeu apenas um deslize administrativo — trata-se de um acto simbólico de rendição cultural. E a rendição, quando feita sem disparar um só alfabeto, é ainda mais vergonhosa — porque já nem é traição: é desistência.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

O Luar quando Bate na Relva


O luar quando bate na relva
Não sei que cousa me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas.

E de como Nossa Senhora vestida de mendiga
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas ...
Se eu já não posso crer que isso é verdade,
Para que bate o luar na relva?

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XIX"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 25 de abril de 2024

April 25, 1974 - April 25, 2024


Celebration of the 50th anniversary of the Carnation Revolution. The defining moment. The birth of Portuguese democracy
.
✍ "Neither pleasure, nor glory, nor power: freedom, just freedom." - Bernardo Soares

🎨 Marta Nunes

sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Sobre a Literatura


Ler um livro não é só passar um tempo lúdico e prazeroso. Se é verdade que muitas vezes, como diz Pessoa, acabo de viver outra vida dentro de minha vida, a literatura vai mais além. A literatura, os romances, os livros modificam-nos mesmo. As escolhas que tomámos, dão-nos um novo olhar, mais tolerância, mais abertura de mundos, novas e intrigantes personalidades, que nos agitam, confrontam os nosso preconceitos. A literatura (a boa literatura) ajuda-nos a amar mais!

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Alberto Caeiro - Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto

Pato real- Parque da Cidade do Porto

"Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!"

Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa in “O Guardador de Rebanhos”. 7-5-1914

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Fernando Pessoa - Tenho tanto sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

18-9-1933
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942

domingo, 12 de novembro de 2023

Atlântico


XII. Prece

Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa - Mar Português - Segunda de Três Partes da obra

sábado, 28 de outubro de 2023

Uma rara entrevista de Fernando Pessoa

Fernando Pessoa, por António Faria

O escritor Fernando Pessoa expõe-nos as suas ideias sobre os vários aspectos da arte e da literatura portuguesa.

Entrevistar Fernando Pessoa não é fácil. Só é fácil entrevistar os que não pensam, os que não se importam de jogar palavras, ao acaso, atirando-as impudicamente ao vento.
Fernando Pessoa, quer como Fernando Pessoa, quer como Álvaro de Campos – o engenheiro alucinado que comporta o seu segundo eu, e que aparece em toda a parte, enchendo a voz de louvores e raios para a Vida – raios partam a Vida e quem lá ande! -é sempre um voluptuoso do raciocínio, um amante da inteligência, podemos dizer: um criador duma nova Razão. Paradoxal? Sem dúvida. Mas há tantas maneiras de ser paradoxal!

A entrevista que se segue, toda escrita por Fernando Pessoa – nem podia deixar de ser, visto Fernando Pessoa possuir uma sintaxe própria para a lógica própria dos seus pensamentos, misto de seriedade e de ironia, vai decerto prender o espírito dos leitores…

Atenção! Fernando Pessoa vai responder às perguntas que lhe fizemos:

– Que pensa da nossa crise? Dos seus aspectos – político, moral e intelectual?
– A nossa crise provém, essencialmente, do excesso de civilização dos incivilizáveis. Esta frase, como todas que envolvem uma contradição, não envolve contradição nenhuma. Eu explico.

Todo povo se compõe de uma aristocracia e de ele mesmo. Como o povo é um, esta aristocracia e este ele mesmo têm uma substância idêntica; manifestam-se, porém, diferentemente A aristocracia manifesta-se como indivíduos, incluindo alguns indivíduos amadores; o povo revela-se como todo ele um indivíduo só. Só colectivamente é que o povo não é colectivo.

O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo. Ora ser tudo num indivíduo é ser tudo; ser tudo numa colectividade é cada um dos indivíduos não ser nada. Quando a atmosfera da civilização é cosmopolita, como na Renascença, o português pode ser português, pode portanto ser indivíduo, pode portanto ter aristocracia. Quando a atmosfera da civilização não é cosmopolita – como no tempo entre o fim da Renascença e o princípio, em que estamos, de uma Renascença nova – o português deixa de poder respirar individualmente. Passa a ser só portugueses. Passa a não poder ter aristocracia. Passa a não passar. (Garanto-lhe que estas frases têm uma matemática íntima.)

Ora um povo sem aristocracia não pode ser civilizado. A civilização, porém, não perdoa. Por isso esse povo civiliza-se com o que pode arranjar, que é o seu conjunto. E como o seu conjunto é individualmente nada, passa a ser tradicionalista e a imitar o estrangeiro, que são as duas maneiras de não ser nada. É claro que o português, com a sua tendência para ser tudo, forçosamente havia de ser nada de todas as maneiras possíveis. Foi neste vácuo de si próprio que o português abusou de civilizar-se. Está nisto, como lhe disse, a essência da nossa crise.

As nossas crises particulares procedem desta crise geral. A nossa crise política é o sermos governados por uma maioria que não há. A nossa crise moral é que desde 1580 – fim da Renascença em nós e de nós na Renascença – deixou de haver indivíduos em Portugal para haver só portugueses. Por isso mesmo acabaram os portugueses nessa ocasião. Foi então que começou o português à antiga portuguesa, que é mais moderno que o português, e é o resultado de estarem interrompidos os portugueses. A nossa crise intelectual é simplesmente o não termos consciência disto.

Respondi, creio, à sua pergunta. Se V. reparar bem para o que lhe disse, verá que tem um sentido. Qual, não me compete a mim dizer.

– Que pensa dos nossos escritores do momento, prosadores poetas e dramaturgos?
– Citar é ser injusto. Enumerar é esquecer. Não quero esquecer ninguém de quem me não lembre. Confio ao silêncio a injustiça. A ânsia de ser completo leva ao desespero de o não poder ser. Não citarei ninguém. Julgue-se citado, quem se julgue com direito a sê-lo. Resolvo assim todos. Lavo as mãos, como Pilatos; lavo-as, porém, inutilmente, porque é sempre inutilmente que se faz um gesto simplificador. Que sei eu do presente, salvo que ele é já o futuro? Quem são os meus contemporâneos? Só o futuro o poderá dizer. Coexiste comigo muita gente que vive comigo apenas porque dura comigo. Esses são apenas os meus conterrâneos no tempo; e eu não quero ser bairrista em matéria de imortalidade. Na dúvida, repito, não citarei ninguém.

– Estaremos em face de uma renascença espiritual?
– Estamos tão desnacionalizados que devemos estar renascendo. Para os outros povos, na sua totalidade eles próprios, o desnacionalizar-se é o perder-se. Para nós, que não somos nacionais, o desnacionalizar-se é o encontrar-se. Apesar dos grandes obstáculos à nossa regeneração – todas as doutrinas de regeneração – estamos no início de tornar a começar a existir. Chegámos ao ponto em que colectivamente estamos fartos de tudo e individualmente fartos de estar fartos. Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no bom caminho. Os sinais do nosso ressurgimento próximo estão patentes para os que não vêem o visível. São o caminho-de-ferro de Antero a Pascoaes e a nova linha que está quase construída. Falo em termos de vida metálica porque a época renasce nestes termos. O símbolo, porém, nasceu antes dos engenheiros.

Nada há a esperar, é certo, das classes dirigentes, porque não são dirigentes; e ainda menos da proletariagem, porque ser inferior não é uma superioridade. Com razão lhes chamei eu, a estes, subgente, num artigo da antiga Águia – da Águia que voava. Só a burguesia, que é a ausência da classe social, pode criar o futuro. Só de uma classe que não há pode nascer uma classe que não há ainda. Seja como for, avancemos confiadamente. Todos os caminhos vão dar à ponte quando o rio não tem nenhuma.

– O que se deve entender por arte portuguesa? Concorda com este termo? Há arte verdadeiramente portuguesa?
– Por arte portuguesa deve entender-se uma arte de Portugal que nada tenha de português, por nem sequer imitar o estrangeiro. Ser português, no sentido decente da palavra, é ser europeu sem a má-criação de nacionalidade. Arte portuguesa será aquela em que a Europa – entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro – se mire e se reconheça sem se lembrar do espelho. Só duas nações – a Grécia passada e Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras. Chamo a sua atenção para o facto, mais importante que geográfico, de que Lisboa e Atenas estão quase na mesma latitude.

– O regionalismo na literatura e na pintura?
– O regionalismo é uma degeneração gordurosa do nacionalismo, e o nacionalismo também. E como o nacionalismo é antiportuguês (sendo bom, cá no Sul, só para os povos latinos e ibéricos), o regionalismo em Portugal é uma doença do que não há. Amar a nossa terra não é gostar do nosso quintal. E isto de quintal também tem interpretações. O meu quintal em Lisboa está ao mesmo tempo em Lisboa, em Portugal e na Europa. O bom regionalismo é amá-lo por ele estar na Europa. Mas quando chego a este regionalismo, sou já português, e já não penso no meu quintal. (O facto de o meu quintal ser inteiramente metafórico não diminui a verdade de tudo isto: Deus, e o próprio universo, são metáforas também.)

– Teriam existido em toda a nossa história literária períodos de criação?
– O nosso único período de criação foi dedicado a criar um mundo. Não tivemos tempo para pensar nisso. O próprio Camões não foi mais que o que esqueceu fazer. Os Lusíadas é grande, mas nunca se escreveu a valer. Literariamente, o passado de Portugal está no futuro. O Infante, Albuquerque e os outros semideuses da nossa glória esperam ainda o seu cantor. Este poderá não falar deles; basta que os valha em seu canto, e falará deles. Camões estava muito perto para poder sonhá-los. Nas faldas do Himalaia o Himalaia é só as faldas do Himalaia. É na distância, ou na memória, ou na imaginação que o Himalaia é da sua altura, ou talvez um pouco mais alto. Há só um período de criação na nossa história literária: não chegou ainda.

– Continuará sendo o lirismo a nossa feição literária predominante?
– Há duas feições literárias -a épica e a dramática. O lirismo é a incapacidade comovida de ter qualquer delas. O que é ser lírico? É cantar as emoções que se têm. Ora cantar as emoções que se têm faz-se até sem cantar. O que custa é cantar as emoções que se não têm. Sentir profundamente o que se não sente é a flâmula de almirante da inspiração. O poeta dramático faz isto directamente; o poeta épico fá-lo indirectamente, sentindo o conjunto da obra mais que as partes dela, isto é, sentindo exactamente aquele elemento da obra de que não pode haver emoção nenhuma pessoal, porque é abstracto e por isso impessoal. Fomos esboçadamente épicos. Seremos inviolavelmente dramáticos. Fomos líricos quando não fomos nada. O lirismo só continuará sendo a nossa feição predominante se não formos capazes de ter feição predominante.

– O que calcula que seja o futuro da raça portuguesa?
-O Quinto Império. O futuro de Portugal —que não calculo mas sei —está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas do Bandarra, e também nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeismo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade.

13-10-1923
Ultimatum e Páginas de Sociologia Política . Fernando Pessoa. (Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão. Introdução e organização de Joel Serrão.) Lisboa: Ática, 1980. – 3.
1ª publicação. in Revista Portuguesa, nº 23-24. Lisboa: 13-10-1923.
Fonte: Arquivo Pessoa

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Da sensibilidade

Minha arte digital

"O essencial é sentir directa e simplesmente. Eu sinto directa e simplesmente. Sinto o complexo, o anormal e o artificial? É o meu modo de sentir. Logo que eu os sinta espontaneamente, estou no meu lugar, no lugar que a Natureza, criando-me assim, me impôs. Cumpro o meu dever." ~ Álvaro de Campos