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sexta-feira, 6 de março de 2026

Europol alerta para aumento do risco de terrorismo na UE


A Europol avisou esta sexta-feira, 6 de março, que o nível de ameaça terrorista e de extremismo violento no território da UE é atualmente considerado elevado, devido à guerra no Médio Oriente, e advertiu que o risco de ciberataques também deverá aumentar.

Numa resposta por escrito enviada à Lusa, uma porta-voz da Europol indica que a guerra no Médio Oriente “tem repercussões imediatas no crime grave e organizado e no terrorismo na União Europeia (UE)”.

“O nível de ameaça terrorista e de extremismo violento no território da UE é considerado elevado. Tal pode manifestar-se através da radicalização interna por parte de indivíduos isolados ou de pequenas células auto-organizadas”, refere a porta-voz da Agência da UE para a Cooperação Policial.

A Europol adverte que “a rápida disseminação ‘online’ de conteúdos polarizadores pode acelerar os processos de radicalização a curto prazo” entre membros de diásporas que residem atualmente em solo europeu.

“Os grupos aliados (‘proxies’) do Irão também podem envolver-se em atividades desestabilizadoras na UE”, afirma a Europol, referindo-se designadamente ao chamado “Eixo da Resistência do Irão”, composto por grupos como o Hezbollah, Hamas ou os Huthis, ou a “redes criminosas que atuam sob a direção das instituições de segurança iranianas”.

“As suas operações podem incluir ataques terroristas, campanhas de intimidação e financiamento do terrorismo, bem como ciberataques, desinformação ou esquemas de fraude ‘online’”, afirma a agência.

Além da ameaça de terrorismo, a Europol refere também que “o risco de ciberataques direcionados a infraestruturas e empresas ocidentais também pode aumentar caso o conflito se mantenha”.

“Redes criminosas e terroristas vão aproveitar o contexto de informação mais intenso para desenvolver fraudes e desinformação com recurso à inteligência artificial. Os alvos mais prováveis na UE incluem localizações ligadas ao conflito, como instalações diplomáticas, alvos vulneráveis ou infraestruturas públicas ou críticas”, indica.

A agência refere, contudo, que até ao momento “não há impacto direto num aumento do tráfico de imigrantes”.

Esta terça-feira, em conferência de imprensa em Bruxelas, o comissário europeu para a Administração Interna, Magnus Brunner, foi questionado sobre como é que a UE tenciona responder a um eventual aumento das ameaças terroristas no continente, tendo respondido que a primeira prioridade da Comissão Europeia é garantir a segurança dos seus cidadãos.

“Estamos a fazer várias coisas, como garantir controlos fronteiriços robustos, que foram reforçados recentemente com o nosso sistema de informação Schengen, uma base de dados comum da UE na qual os Estados-membros podem criar alertar para casos relacionados com terrorismo”, referiu.

O comissário europeu indicou ainda que o novo sistema de entrada e saída da UE, que está a ser gradualmente implementado desde outubro, prevendo-se que esteja totalmente operacional em abril, também está a dar resultados.

“Já nos permitiu deter 500 pessoas consideradas como uma ameaça à União Europeia. Por isso, acho que estamos no caminho certo, mas, claro, manter-se vigilante é sempre importante”, referiu. [Fonte]

domingo, 26 de outubro de 2025

Ecologia, Democracia Participativa e Cultura: antídotos contra o extremismo



Sim, existe extrema-esquerda violenta na Europa, com grupos anarquistas e de esquerda radical envolvidos em ataques (principalmente sabotagem, incêndio) em vários países.

Na história recente da Europa, a maioria dos grupos terroristas, da Irlanda à Espanha, da Alemanha à Itália foram todos de extrema-esquerda. E continua viva e activa. Pelo que também têm de ser combatida com a mesma força e veemência que a extrema-direita.

Muitos ataques atribuídos à extrema-esquerda não visam necessariamente vítimas humanas ou grandes danos, mas sim alvos simbólicos (infraestruturas, empresas) — o que dificulta comparações directas com terrorismo de outra natureza. Dizem-se anti-capitalistas, anti-globalização, anti- indústria fóssil.

Os dados mais robustos sobre “crimes de ideologia” (fora da classificação de terrorismo) são menos sistematicamente agregados a nível europeu para extrema-esquerda.

No entanto, em termos de terrorismo global ou ataques massivos, nem sempre esses grupos têm a mesma escala de operação que outras ameaças extremistas (como jihadistas).

As instituições europeias (como a RAN, Europol e o Conselho da Europa) já reconhecem esse risco e trabalham para monitorá-lo e combatê-lo.

Existiram muitos grupos de extrema-esquerda radical também na América do Sul. Contudo foram extintos e alguns formaram partido democrático, como o Movimento de Participação Popular ( MPP ), que é um partido político de esquerda uruguaio , fundado por ex-guerrilheiros do Movimento de Libertação Nacional-Tupamaros . O MPP faz parte da Frente Ampla , seu líder é Yamandú Orsi e, antes de sua morte, José Mujica . O MPP hoje em dia concorre às eleições com o nome Espacio 609.

Porém e centrando em Portugal, a extrema-esquerda terrorista não existe. A violência política mais grave (bombas, atentados) foi, na verdade, de origem de extrema-direita, como as FP-25 (Forças Populares 25 de Abril) nos anos 1980 — embora estas misturassem retórica de esquerda revolucionária com práticas paramilitares, e sejam frequentemente classificadas como um grupo terrorista de matriz “nacional-revolucionária”. 

Hoje, a extrema-esquerda portuguesa manifesta-se de forma pacífica e democrática, através de partidos como: Bloco de Esquerda (BE) Partido Comunista Português (PCP). Ambos participam no sistema parlamentar e rejeitam a luta armada.

Recuando aos anos quentes do PREC falemos do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP) essa sim foi uma organização terrorista de extrema-direita portuguesa ativa, cujos membros ainda estão vivos: José Miguel Júdice e Diogo Velez Mouta Pacheco de Amorim (actual vice-presidente da Assembleia da República e guru do Chega). Em 1962 Diogo Amorim centra a sua actividade política na teorização e combate em prol do integracionismo, insurgindo-se contra a política de autonomia, então protagonizada pelo ministro do Ultramar, Adriano Moreira. Distancia-se também da perspectiva adoptada por Cunha Leal. Em 1971 é um dos ferozes críticos da política assumida por Marcelo Caetano no plano das autonomias ultramarinas. A obra nesse ano editada, “Na Hora da Verdade”, ia-lhe valendo nova passagem pela prisão: em Conselho de Ministros, o então Ministro do Ultramar Silva Cunha, propôs a sua prisão. Os restantes ministros apoiaram. Opôs-se o ministro César Moreira Baptista por considerar que isso teria efeitos contraproducentes. Marcelo Caetano decidiu a favor de Moreira Batista. Fernando Amorim não desistiu e fundou o PND, populista de direita, eurocéptico e extremamente conservador.

O livro de Miguel Carvalho já em sexta edição "Quando Portugal ardeu" aborda as relações de parte da direita tradicional com o MDLP, Plano Maria da Fonte e quejandos.

Portanto, o balanço geral é que a extrema-direita é tão preocupante neste momento como a extrema-esquerda. Há os dois populismos, claro.

O avanço da extrema-direita é um sintoma de crises profundas — sociais, ecológicas e culturais. Quando as pessoas se sentem inseguras, isoladas ou sem futuro, crescem o medo e a desconfiança. É nesse terreno que o extremismo floresce.

A ecologia e a democracia oferecem caminhos opostos: cultivam empatia, interdependência e responsabilidade partilhada. Educar para o pensamento crítico, reforçar a solidariedade local e comunicar com clareza são formas de resistência cívica. Contra narrativas de extrema-direita e extrema-esquerda.

Proteger a Terra e cuidar das pessoas são faces da mesma luta. Só uma sociedade justa, informada e ambientalmente consciente poderá travar o ódio e reconstruir a confiança.

O Contexto actual
A extrema-direita em ascensão na América do Norte, na Europa, Rússia, China, em Israel e mais além encontra muito do seu apelo em histórias sobre o que está para vir. Os desejos nativistas de proteger o Ocidente do declínio cultural e da "substituição" demográfica, embora ostensivamente retrógrados, encontram a sua urgência na ansiedade de que em breve será demasiado tarde para mudar de rumo, misturada com a esperança de um confronto político. Para os verdadeiros crentes, o futuro é uma fonte de colapso iminente, que aguçará identidades, hierarquias e limites, algo para o qual se deve acelerar. A nova direita identitária de hoje está menos preocupada com o brilho caloroso do passado imaginado do que com as novas possibilidades que se reservam "no rescaldo do caos", como descreveu o activista francês da nova direita Guillaume Faye.

A direita radical e terrorista já existe. O terrorismo de direita moderno apareceu pela primeira vez na Europa Ocidental na década de 1980 após a dissolução da União Soviética. Os terroristas de direita pretendem derrubar governos e substituí-los por governos nacionalistas ou de orientação fascista. O núcleo desse movimento inclui skinheads neofascistas, hooligans de extrema-direita, e jovens simpatizantes que acreditam que o Estado deve se livrar de elementos estrangeiros para proteger os cidadãos ditos "legítimos". Senão travarmos a tempo, a cegueira destes novos extremistas de direita vai ser um luta armada para impôr o seu propósito fascista. 

O terrorismo de direita é terrorismo motivado por uma variedade de ideologias e crenças de extrema-direita, pós-apocalíptica (só a tecnologia supra-nacionalista "salvará" a humanidade) como já referi anteriormente em conluio com a os extremistas de direitas mais tradicionais como o anticomunismo, neofascismo, neonazismo, racismo, xenofobia, homofobia, transfobia, contra a "islamização" em curso e uma oposição clara à imigração. Esse tipo de terrorismo tem sido esporádico, com pouca ou nenhuma cooperação internacional. 

Contudo, em ambos movimentos o conceito de seita existe. Uma espécie de clã, de um primitivismo atroz, quase teológico. Que abala todos os nossos valores de humanismo, de ajuda mútua, valores democráticos e extinção da mesma. Realmente esta corja, com intentos irracionais e antidemocráticos, vai chegar o apelo à força, ao armamentismo. Esta mensagem está ganhar terreno desde inícios de Janeiro deste ano por fulanos como Elon Musk (o homem mais rico do mundo), que já chegou a dizer que empatia ameaça a civilização. Ele está errado. Ele é essa ameaça.

A confluência dos extremistas de direita tecno-futurista com o extremismo de direita mais tradicional são uma ameaça contemporânea mas evitável. Porém é urgente o seu combate e desejamos que voltem para as cavernas e ao seu silenciamento/cancelamento antes que seja demasiado tarde.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

Islão e marxismo


Por que estamos debatendo esse tópico hoje?
Porque o problema é muito atual e urgente. Ela foi trazida à tona pelos nossos inimigos de classe, que desde 2003 têm trabalhado com todo o seu arsenal para manipular as sociedades do Oriente Médio usando a questão religiosa como aríete. No entanto, na minha opinião, o conceito de islamismo como ideologia de luta contra o poder central sempre esteve latente nas sociedades islâmicas, mas foi vinculado ao socialismo no final da década de 1970, com a ascensão do movimento de libertação nacional nos "3As" da Ásia, América Latina e África, culminando em Bandung com predominância do "discurso socialista".

Seguiu-se uma nova fase, que chamarei (inspirado na caverna de Ali Babá em As Mil e Uma Noites) de "Abre-te, Sésamo!" Naquela época, a "abertura econômica" do mercado havia minado o setor público, a indústria pesada e a soberania alimentar ao derrotar a reforma agrária... e, assim, entrar no infernal ciclo McNamara da dupla dívida-pobreza. Nesse exato momento, teve início o retorno pós-moderno à predominância do "discurso religioso". O fato de que hoje os EUA e Israel designam a resistência libanesa, neste caso o Hezbollah, como um inimigo estratégico a ser derrotado em primeiro lugar, e que a maior parte de sua política externa é direcionada contra o eixo Síria, Irão e a resistência libanesa, mostra que nós, como marxistas, estamos atrasados ​​na análise dos atuais movimentos de resistência que lutam com armas no Líbano, Palestina, Iraque e Iémen, contra o imperialismo americano em primeiro lugar, contra seus lacaios e contra o estado colonial israelita do apartheid e as monarquias petrolíferas no Golfo.
Mencionarei brevemente o exemplo do Hezbollah, que é a vanguarda desses movimentos de resistência.
A questão que nós, marxistas, enfrentamos é como avaliar esses movimentos de resistência anti-imperialista e que atitude devemos adotar com base nessa análise.
Notemos aqui que não se trata apenas de analisar as teologias da libertação islâmicas, mas também de avaliar as experiências que até agora permaneceram fora de nossos debates, mesmo dentro da esquerda árabe, que tem atitudes perplexas sobre o assunto, decorrentes, em parte, da influência de ideias iluministas antirreligiosas na esfera dos intelectuais de esquerda.

O marxismo e a dimensão cultural
Partimos da premissa de que o marxismo não tratou da dimensão cultural por razões que exigem uma análise separada das correntes de pensamento da época e da dinâmica do movimento social; Mas nem Marx (contra uma leitura dogmática de sua obra) nem os marxistas antidogmáticos afirmam que ideias, religiões e crenças não têm influência no curso da história. Esta é uma das teses fundamentais defendidas por Maxime Rodinson, que reivindica uma filiação marxista ao islamismo, referindo-se a Karl Marx, que proclamou num texto famoso que "Não é a consciência dos homens que determina seu ser; é, ao contrário, seu ser social que determina sua consciência " (Prefácio à Contribuição para a Crítica da Economia Política, Éditions Sociales, Paris, 1947). Em outras palavras, são as condições materiais em que os seres humanos vivem e produzem que determinam sua maneira de pensar (e agir). Rodinson aponta que "aqueles que debatem se o islamismo foi favorável ou desfavorável ao capitalismo compartilham 'a mesma suposição implícita', 'de que os homens de uma época e de uma região, que as sociedades obedecem estritamente a uma doutrina anterior, constituída fora deles, seguem seus preceitos, impregnam seu espírito, sem uma transformação essencial, sem adaptá-lo às suas condições de vida e às formas de pensamento implicitamente sugeridas por elas'". (Maxime Rodinson: Islam and Capitalism; edição de 2014. University Press)

Rodinson analisa em detalhes não apenas a relação entre islamismo e capitalismo, mas também entre socialismo e islamismo.
A natureza anticolonial é suficiente para analisar o impacto de certos movimentos da teologia da libertação, incluindo os movimentos de resistência da obediência islâmica, na dinâmica da história e da luta de classes, ou é necessário que esta última tenha um programa socioeconômico favorável à distribuição da riqueza, como muitos partidos comunistas afirmam? A
questão parece crucial hoje, considerando quão remotas parecem as perspectivas de uma revolução anticapitalista e que o islamismo radical tem os movimentos anticoloniais como seu principal objetivo. Trago aqui o exemplo da batalha assassina travada pelo Daesh, Al-Nusra, os wahabitas e a Irmandade Muçulmana contra o Hezbollah, que ainda não desapareceu. Por trás de todos eles está o apoio financeiro e logístico de uma aliança tripartite: o Ocidente imperialista, Israel e as monarquias petrolíferas. Em outras palavras, a luta anticolonial e anti-imperialista é independente da questão ideológica intrínseca à luta de classes? Esta é a essência do nosso debate aqui.
Aqueles que investigaram essas questões, especialmente aqueles no Terceiro Mundo, viram a necessidade de levantar outra questão já formulada no século XIX pelo tártaro bolchevique Sultão Galiev, à qual retornaremos mais tarde.

A questão é a seguinte: O marxismo era eurocêntrico?
Em 1961, em "Os Condenados da Terra", Frantz Fanon escreveu: "As análises marxistas devem sempre ser ligeiramente relaxadas sempre que o problema colonial for abordado ."
Essa ideia é um excelente ponto de partida para reexaminar a problemática pós-colonial dentro da estrutura do que o historiador indiano Dipesh Chakrabarty chamou de " provincialização da Europa ". Por um lado, há uma concepção segundo a qual a provincialização é sinónimo de particularização, e portanto de relativização, do " pensamento europeu eurocêntrico ", e em particular do pensamento marxista.

Há, por outro lado, uma concepção de " provincialização como distensão " que enfatiza a necessidade de uma extensão e uma mudança nos limites da teoria marxista para além da Europa como condição para a possibilidade de uma universalização autêntica.
Assim, uma das questões que importa esclarecer é a da nacionalização do marxismo , cuja identificação habitual com uma questão "simples" de "adaptação do marxismo às condições singulares" não restitui complexidade, na medida em que, como demonstrou Gramsci , essa "nacionalização" implica processos reais de adaptação teórica e prática. O exemplo mais famoso continua sendo a "sinização do marxismo" empreendida por Mao Zedong . De fato, como escreve Arif Dirlik – que também é um crítico incansável dos estudos pós-coloniais – “um dos maiores pontos fortes de Mao como líder foi sua capacidade de traduzir o marxismo para uma língua chinesa”.

Sultão Galiev ou o Comunismo Nacional
Nesse contexto, ao analisar a trajetória do bolchevique tártaro Mirsaid Sultan Galiev, é interessante mencionar uma experiência pouco conhecida: a do "comunismo nacional muçulmano", tal como se desenvolveu na Rússia Soviética e, depois, na URSS, de 1917 até o final da década de 1920.

1 – Como o próprio nome sugere, é um comunismo muçulmano que levanta, mais do que nunca, a questão da relação entre, de um lado, os movimentos de emancipação europeus ou de “origem branca” e, de outro, o islamismo e os grupos que o compõem no que diz respeito às suas reivindicações políticas;

2- Estamos diante de um movimento de emancipação anti-imperialista que se desenvolveu vinculado a um processo revolucionário no próprio coração do império (russo), situação histórica cujo precedente mais ilustre é a conexão entre as revoluções francesa e haitiana no final dos séculos XVIII e XIX;
Durante este período, o sultão Galiev lançou as bases teóricas e ideológicas do comunismo nacional muçulmano, que podem ser divididas em três pontos:

- O primeiro diz respeito às relações de classe e, correspondentemente, à relação entre revolução social e revolução nacional. Reiterando a oposição leninista entre nações opressoras e oprimidas, ele clama pela "vingança dos oprimidos contra os opressores" e declara que "todos os povos muçulmanos colonizados são povos proletários".

-O segundo ponto diz respeito à relação entre a revolução socialista e o islamismo . Embora o Sultão Galiev defenda a ideia de que “como todas as outras religiões do mundo”, o Islã está “condenado a desaparecer”, ele, no entanto, enfatiza que “de todas as ‘grandes religiões’ do mundo, o Islã é a mais jovem e, portanto, a mais sólida e a mais forte em termos da influência que exerce”, e que a lei islâmica (Sharia) apresenta prescrições verdadeiramente “positivas” e progressivas: “educação obrigatória”, “a obrigação de negociar e trabalhar”, “a ausência de propriedade privada de terras, águas e florestas”, etc. – prescrições que, como o Sultão Galiev sugere, sem dizê-lo explicitamente, poderiam ser incorporadas e sustentar uma futura sociedade comunista.

- Em terceiro lugar, para Galiev, a singularidade do islamismo reside, por outro lado, no fato de que "durante o último século, todo o mundo muçulmano foi explorado pelo imperialismo da Europa Ocidental". O islamismo foi e continua sendo uma "religião oprimida e defensiva", uma opressão que gerou um profundo "senso de solidariedade" aliado a um forte desejo de emancipação. Para o Sultão Galiev, não há incompatibilidade entre a revolução socialista e o islamismo: não se deve trabalhar pela destruição do islamismo, mas sim por sua desespiritualização, sua "marxistização".

-A última abordagem diz respeito à exportação da Revolução Bolchevique ou, nas palavras do próprio Sultão Galiev, à canalização da "energia revolucionária" nascida na Rússia para além de suas fronteiras. Para o sultão Galiev, o "foco revolucionário" europeu já foi extinto, enquanto o Oriente constitui "um material muito rico e muito 'inflamável'". Nessa perspectiva, a revolução anticolonial se torna a condição para a possibilidade da revolução europeia e mundial, e não o contrário: "Privado do Oriente e isolado da Índia, Afeganistão, Pérsia e outras colônias asiáticas e africanas, o imperialismo ocidental perecerá e morrerá de morte natural".

Lénin: Os Povos do Oriente e a Questão Nacional
Um clichê persistente afirma que, encurralado pelas derrotas da revolução na Europa depois de 1917, Lenin se voltou para o Oriente e abandonou a ideia sagrada do "berço (europeu) da revolução mundial" por despeito.

Para Matthieu Renault, que se interessou profundamente por essa questão, essa percepção é infundada. Embora seja verdade que o pensamento de Lenin sobre os limites da revolução manifestasse uma afinidade singular com aqueles que afirmam intransigentemente a necessidade de uma "revolução colonial", ele estava, na verdade, apostando nas nações oprimidas, nos camponeses pobres, na ruptura das relações coloniais, como condição para a sinergia com a revolução socialista.

O interesse de Lenin pelas lutas de libertação nacional remonta aos seus primeiros escritos sobre o desenvolvimento do capitalismo na Rússia, marcados, como ele corretamente apontou, por  LR James — e não é coincidência que tenha sido um teórico marxista não europeu, neste caso caribenho, quem apontou isso — pela imperativa e progressiva descentralização revolucionária, de uma tradução do marxismo para um contexto diferente daquele da Europa Ocidental, sem ser radicalmente estranho a ele.

É o itinerário dessa descentralização que deve ser explorado através de duas fontes: a primeira se refere às reflexões de Lenin, antes de 1917, sobre a questão da autodeterminação nacional e as lutas pela independência , e a segunda, a maneira como, depois de 1917, ele tentou responder à demanda de descolonização do Império Russo a partir do caso das colônias muçulmanas na Ásia Central.

Lutas de libertação nacional, ou a revolução impura
Em julho de 1903, na véspera do Segundo Congresso do Partido Trabalhista Social-Democrata Russo (SDPWR), Lenin publicou um artigo no Iskra, "A Questão Nacional em Nosso Programa", que tratava da defesa do direito das nações à autodeterminação, o direito à separação política dentro de um Estado, não confundir com o (suposto) direito à autonomia nacional-cultural dentro de um Estado, ao qual Lenin se opunha veementemente. O "Direito das Nações à Autodeterminação" é uma crítica poderosa ao eurocentrismo que rege a abordagem da questão nacional por Rosa Luxemburgo e seus seguidores.

Para Lenin, "afirmar que o imperialismo agora exerce seu domínio sobre o mundo inteiro, transgredindo todos os limites territoriais estabelecidos" não deveria levar a uma negação, mas sim a uma insistência na urgência do problema das " fronteiras estatais estabelecidas com base na opressão nacional".

Se Lénin nunca questiona o papel de vanguarda do "proletariado avançado", ele não nega, dialeticamente, que as guerras nacionais e periféricas têm o poder de introduzir germes de contágio revolucionário no próprio coração das potências imperialistas: " A dialética da história faz com que as pequenas nações... desempenhem o papel de um dos fermentos, um dos bacilos, que favorece a entrada da força verdadeiramente capaz de lutar contra o imperialismo, a saber: o proletariado socialista . »

Lénin e os muçulmanos da Rússia
Em 20 de novembro de 1917, um dia após os bolcheviques tomarem o poder, Lenin apelou a "todos os trabalhadores muçulmanos da Rússia e do Oriente" para se juntarem a eles na revolução em andamento:

Muçulmanos da Rússia, tártaros do Volga e da Crimeia, quirguizes e sartanos da Sibéria e do Turquestão, turcos e tártaros da Transcaucásia, chechenos e montanheses do Cáucaso! Todos vocês cujas mesquitas e casas de oração foram destruídas, cujas crenças e costumes foram pisoteados pelos czares e opressores da Rússia! A partir de agora, suas crenças e costumes, suas instituições nacionais e culturais são livres e invioláveis. Organize sua vida nacional livremente e sem obstáculos! É seu direito. Saibam que seus direitos, como os de todos os povos da Rússia, são protegidos pelo poder da Revolução, pelos Sovietes de Deputados Operários, Soldados e Camponeses.

Se as relações entre o poder soviético e as populações muçulmanas do Império Russo, durante e depois da revolução, mostraram-se muito mais tumultuadas do que sugere esse apelo por uma união livre (revolucionária), elas expressam o profundo desejo de Lenin por uma ruptura radical com as políticas de opressão das minorias nacionais e religiosas que marcaram toda a história do czarismo. O símbolo inaugural desse desejo é a restituição, ordenada por ele, do Alcorão de Othman, uma das cópias mais antigas do texto sagrado, aos muçulmanos da Rússia.

Lenin desempenhou então um papel importante nos processos mais ou menos tempestuosos de criação das primeiras repúblicas soviéticas muçulmanas, particularmente na crise de Bakhkire de 1919-1920, mas estava particularmente interessado no caso do Turquestão Russo (Ásia Central), conquistado na segunda metade do século XIX pelos exércitos czaristas e submetido à exploração colonial no sentido mais estrito. Ali vemos o desenvolvimento de monoculturas (particularmente de algodão), a divisão espacial entre as cidades-vilas dos nativos, de um lado, e os colonos, do outro — cujo número aumentou consideravelmente após a conclusão, em 1906, da linha ferroviária que ligava Moscou a Tashkand — e também uma oposição frontal entre eles — os ocupantes russos, ucranianos, alemães (étnicos) e judeus, nacionalmente divididos no resto da Rússia, aparecendo aqui, acima de tudo, unidos, como brancos contra os muçulmanos. Lênin gradualmente percebeu que, mais do que em qualquer outro lugar, era no Turquestão que o desafio de descolonizar o Império Russo deveria ser enfrentado.

Em 22 de abril de 1918, Lenin e Stalin enviaram uma mensagem de saudação "Ao Congresso dos Sovietes do Território do Turquestão em Tashkand", assegurando-lhe o apoio do Conselho Geral.

Na visão de Lenin, o processo revolucionário na Ásia Central deveria servir como modelo, fonte de inspiração e "importância" para os movimentos de libertação nacional em nível internacional, especialmente no Oriente muçulmano. É um laboratório para a combinação indispensável da revolução socialista e das lutas anticoloniais. Não se trata apenas da derrubada do poder burguês existente, mas também da destruição definitiva de todos os vestígios do legado deixado pelas práticas colonialistas.

Estes são elementos teóricos que devem permitir-nos analisar um movimento de luta armada anticolonial com obediência islâmica: o Hezbollah, como anunciei no início.

Hezbollah: A Última Resistência Armada
O Hezbollah nasceu em 1982 após a ocupação israelense do Líbano. Seus membros são muçulmanos xiitas que vivem no sul do Líbano e em Bekaa, regiões do Líbano que fornecem a grande maioria da força de trabalho na indústria agrícola e no terceiro setor. Os xiitas do Líbano são predominantemente de origem proletária ou camponesa. A revolução islâmica iraniana liderada pelo aiatolá Khomeini contra o Xá do Irã, o fantoche do imperialismo e membro da OTAN, serviria de trampolim para os militantes xiitas, que até então eram marginalizados e desorganizados em sindicatos.

Vale lembrar que essa mesma população constituía a base dos militantes da esquerda libanesa. Infelizmente, este último não tinha um verdadeiro programa de luta armada contra o ocupante. Em 1982, durante a invasão colonial israelense do Líbano e a saída forçada do braço armado da resistência palestina liderada por Yasser Arafat para a Tunísia, exigida pelos Estados Unidos e Israel, enquanto militantes de esquerda libaneses jogavam suas armas nas ruas para escapar de represálias, militantes do Hezbollah coletavam essas armas em preparação para a luta.

O Hezbollah se apresentou desde o início como um movimento de libertação nacional e não como um partido religioso, embora seu discurso seja inspirado na história do movimento xiita, particularmente na revolta de Hussein que surgiu contra o califa omíada com base em três diretrizes principais:

1- A posse da terra;

2- A gestão das finanças e dos impostos sobre o comércio;

3- A distribuição justa da riqueza.

O xiismo é contra a propriedade privada e a favor da gestão financeira coletiva que permite uma distribuição justa da riqueza a todos os muçulmanos, independentemente da classe. Para os omíadas, ceder terras aos insurgentes era contrário ao desenvolvimento da sociedade e do comércio. Hussein e seus homens foram horrivelmente massacrados em Karbala, Iraque, em um confronto heróico porque o equilíbrio de poder não estava a seu favor no Iraque: desde aquele evento, a Batalha de Karbala entrou na mitologia de todos os xiitas. Quando Nasrallah anuncia firmemente em seus discursos que "não deporemos nossas armas mesmo que todos os imperialistas se reúnam contra nós", ele evoca nas mentes de seus combatentes e da população que protege a resistência o exemplo do mártir Hussein.

A carta de fundação do Hezbollah contém trechos das demandas de Al-Imam Hussein por justiça social e proteção dos "desfavorecidos". Mas o Hezbollah se radicalizou na prática, adaptando seus princípios às necessidades da época. Encontramos, assim, um relaxamento do conceito religioso (entre as cartas de 1985 e 2009). A carta final reorienta os objetivos e a visão do Hezbollah para "o papel das mulheres na sociedade, a independência do judiciário, a defesa do multicomunismo, a luta contra a corrupção, a descentralização e a preservação de todas as liberdades públicas".

Hoje, é praticamente o único movimento de resistência armada anti-imperialista de larga escala em escala internacional, operando em condições difíceis, marcadas pela mobilização total dos serviços de inteligência para desarmar ou mesmo pôr fim a essa resistência.

Esse movimento de resistência conseguiu reunir em torno de si organizações marxistas, incluindo a FPLP, que colaboram estreitamente com eles. Para o povo palestino, o Hezbollah é o verdadeiro portador da esperança de sua libertação do domínio colonial. Os discursos de Nassrallah são acompanhados nas bases dos militantes do Hamas, Jihad e Fatah.

O Hezbollah está ciente de que um movimento revolucionário não pode se limitar a um único país, daí a necessidade de agir para enfrentar o imperialismo em todas as frentes. É por isso que enviou tropas para lutar contra o exército mercenário do Daesh e da Al Nusra, treinado e financiado pela CIA e pelas monarquias petrolíferas do Golfo.

Em 2006 e 2009, o Hezbollah organizou dois fóruns internacionais para pedir uma convergência de causas entre as lutas armadas anticoloniais no Líbano, Palestina e Iraque e a luta dos povos da América Latina contra o capitalismo e a hegemonia dos EUA, lutas contra o sistema capitalista que ele chama em seu jargão de "a fonte do mal". Mais de 400 delegações estavam presentes.

O Hezbollah não conseguiu reagir a tempo durante os grandes protestos de 2019 por razões de segurança. Ele permaneceu cético em relação à mistura de revolta social genuína e à presença ativa de ONGs pagas por embaixadas, especialmente as americanas, para expulsar o Hezbollah do governo: isso gerou muito debate entre os apoiadores da resistência.

A resistência atua no campo social por meio de hospitais, escolas e orfanatos. No início de 2006, de acordo com um relatório do IRIN, o movimento estava financiando quatro hospitais, doze clínicas, doze escolas, dois centros de equipamentos agrícolas e programas sociais e ambientais, fornecendo serviços gratuitos ou de baixo custo para algumas das regiões mais desfavorecidas do país. Uma de suas instituições, a Jihad al-Bina, desempenhou um papel importante na reconstrução do Sul e dos bairros xiitas de Beirute.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

O que se sabe sobre explosões de bombas no Irão que mataram 95 pessoas


Pelo menos 95 pessoas morreram após a explosão de duas bombas perto do túmulo do general iraniano Qasem Soleimani nesta quarta-feira (03/01) — quando a morte dele por um ataque de drones conduzido pelos Estados Unidos completou quatro anos.

Inicialmente, o número relatado oficialmente de mortes foi de 103. Posteriormente, no entanto, o ministro da Saúde do Irão retificou a informação, dizendo que alguns dos nomes haviam sido contados mais de uma vez.

As explosões atingiram uma procissão perto da mesquita Saheb al-Zaman, na cidade de Kerman, no sul do país. Soleimani nasceu na região.

Segundo dados citados pela emissora estatal Irib e atribuídos ao departamento local de serviços de emergência, outras 141 ficaram feridas nas explosões. Alguns dos feridos estão em estado crítico.

O vice-governador de Kerman afirmou que se trata de um "ataque terrorista".

Não está claro quem está por trás das explosões e não houve reivindicações imediatas de autoria por nenhum grupo.

Entretanto, nos últimos anos, separatistas árabes, o Estado Islâmico (EI) e outros grupos jihadistas sunitas reivindicaram a autoria de ataques mortais contra forças de segurança e santuários xiitas no Irão.

Depois do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, Soleimani era visto como a figura mais poderosa do Irão. Ele foi morto pelas forças americanas no vizinho Iraque, em 2020.

Homenagem ao quarto ano da morte de Soleimani em Teerão

Imagens transmitidas pela TV estatal mostraram que centenas de pessoas estavam reunidas na periferia leste de Kerman quando ocorreram as duas explosões.

A media iraniana informou que a primeira explosão ocorreu às 14h50 no horário local (8h20 em Brasília), a cerca de 700 m do cemitério do Jardim dos Mártires, ao redor da mesquita Saheb al-Zaman.

A segunda teria ocorrido cerca de 15 minutos depois, a cerca de 1 km do cemitério.

'Vimos pessoas caindo'
A agência de notícias Tasnim, afiliada à Guarda Revolucionária do Irão, citou fontes que afirmaram que "dois sacos contendo bombas" foram aparentemente detonados "por controle remoto".

"Estávamos caminhando em direção ao cemitério quando de repente um carro parou atrás de nós e uma lata de lixo contendo uma bomba explodiu", afirmou uma testemunha citada pela agência Isna

"Só ouvimos o som da explosão e vimos pessoas caindo."
O Crescente Vermelho, organização de socorro, disse que entre os mortos está pelo menos um paramédico que foi enviado ao local da primeira explosão e foi atingido pela segunda.

Imagens parecem mostrar que o túmulo de Soleimani não foi danificado.

Como comandante do braço de operações externas da Guarda Revolucionária, a Força Quds, ele arquitetou a política iraniana em toda a região.

Ele foi responsável pelas missões clandestinas da Força Quds e pelo fornecimento de verbas, orientação, armas, inteligência e apoio logístico a governos aliados e grupos armados, incluindo o Hamas e o Hezbollah.

O então presidente dos EUA, Donald Trump, que ordenou o assassinato em 2020, descreveu Soleimani como "o terrorista número um em qualquer lugar do mundo".

Reacções
A União Europeia declarou o ataque um "ato de terror", condenando-o. "Este ato de terror causou um número chocante de mortes e feridos civis. Os nossos pensamentos agora estão com as vítimas e as suas famílias. Os autores devem ser responsabilizados", lê-se num comunicado citado pela agência Al Jazeera.

Aliás, a mesma agência cita também o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, que ofereceu as suas condolências às famílias das vítimas, "mártires da mesma causa, da mesma batalha que estava a ser travada pelo comandante Qassem Soleimani". A ele juntou-se o ayatollah Ali Khamenei, líder supremo da Revolução Islâmica, que prometeu "uma resposta dura", em comunicado.

À lista de entidades que condenaram o ataque juntou-se, também, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, esperando que "Deus tenha misericórdia sobre aqueles que perderam as suas vidas nos ataques", numa mensagem no X (antigo Twitter), e o presidente russo, Vladimir Putin, que disse que "o homicídio de pessoas pacíficas que visitavam o cemitério é chocante pela sua crueldade e cinismo", citado pela Al Jazeera.

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Leila Ghanem - O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista

Fonte: Coordenação dos Núcleos Comunistas

Nesta entrevista com a antropóloga e dirigente comunista libanesa Leila Ghanem há muita informação esclarecedora. Sobre o significado da operação de 7 de Outubro. Sobre o Hamas e sobre o Eixo da Resistência. Sobre as atrocidades anteriores e actuais cometidas pelo Estado sionista, no desempenho da missão que lhe foi atribuída pelo imperialismo ocidental: a de ser a cabeça de ponte para controlar rotas marítimas estratégicas, recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio sobre esta área de enorme importância. À custa do martírio do povo palestiniano e dos povos da região.

1. Porque é que a operação militar do Hamas de 7 de Outubro abalou o Médio Oriente e até o mundo? Qual é o impacto histórico deste acontecimento nos movimentos de resistência do Médio Oriente?
Não há dúvida de que para o povo palestiniano, e mesmo para o povo árabe, o “dilúvio de Al-Aqsa” de 7 de Outubro foi uma operação militar de proporções míticas; em qualquer caso, sem precedentes desde a ocupação da Palestina em 1948, uma espécie de epopeia lendária aos olhos dos povos árabes. Alguns escritores remontam a Homero para evocar a imagem da Ilíada, uma lenda heroica “em que os fracos conseguem derrotar o seu colonizador numa inimaginável relação de forças”. Em apenas duas horas a maior potência do Médio Oriente, o quinto maior exército do mundo, sofreu uma derrota esmagadora às mãos de uma modesta unidade de comandos apelidada de “Distância Zero” (para sublinhar o confronto do corpo contra o tanque), composta por uma centena de homens modestamente armados mas dotados de uma coragem heroica. Vinte colonatos libertadas, bases militares ocupadas - uma das quais abrigava o quartel-general do Tsahal no sul -, um observatório militar de alta tecnologia encarregado de vigiar a fronteira, a unidade de investigação 545 e a unidade de informações 414 foram neutralizadas e dois generais capturados. A lenda sionista-ocidental da invencibilidade do Estado sionista foi destruída. Numa questão de horas, Gaza transformou-se em Hanói. E recordamos a célebre frase do general Giap durante a sua visita a Argel, em Dezembro de 1970: “Os colonialistas são maus alunos de História”.

Para o escritor e activista palestiniano Saif Dana, o exemplo que mais se aproxima desta vitória militar, apesar do desequilíbrio na relação de forças entre colonizados e colonizadores, é a “Revolução Haitiana”, que foi e continua a ser um símbolo importante para as pessoas de cor de todo o mundo. Armados de coragem e da “vontade de emancipação”, os haitianos, liderados por Dessalines, lançaram-se numa batalha decisiva contra os colonos franceses, que tinham acabado de receber reforços sob o comando do general Rochambeau. Esta batalha parecia estrategicamente impossível, mas após quatro ataques heroicos dirigidos pelo líder negro Cabuat, os franceses foram finalmente forçados a capitular em 18 de Novembro de 1803, no Forte Vertières, embora os haitianos tenham sofrido uma perda considerável de vidas. As guarnições francesas renderam-se uma a uma, o que permitiu à antiga colónia proclamar a sua independência em 1 de Janeiro de 1804. A partir de então, passou a chamar-se Haiti. Esta lendária batalha ficou registada nos anais da história. Mais tarde, inspirou revoltas de escravos noutros locais, como a rebelião de Aponte em Cuba, em 1812, ou a conspiração de Denmark Vesey na Carolina do Sul, em 1822. Esta vitória teve também uma influência decisiva em Simón Bolívar e outros líderes de movimentos independentistas na América Latina, embora se tivesse de esperar até 1834 para abolir a escravatura.

O que aconteceu a 7 de Outubro na Palestina é tão lendário como a batalha do Haiti e ficará para sempre nos anais da história, tal como as batalhas de Hittin, El Kadissiya, etc., no tempo de Saladino.

Imaginem o terramoto que abalou todo o sistema do Império Ocidental perante a súbita derrota da sua mão direita, na qual tinha investido milhares de milhões de dólares durante quase um século. A mesma potência a quem o Império tinha confiado o papel de ser a cabeça de ponte imperial para controlar as rotas marítimas estratégicas, os recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio desestabilizando os inimigos do Império, introduzindo relações de classe em benefício dos opressores…. Israel estava no centro deste sistema capitalista que tinha de manter os países do Sul dependentes dele; para isso, o povo palestiniano tinha de se converter num cenário precursor, um modelo a seguir… Para o conseguir, era necessário despossuí-lo, desumanizá-lo, mantê-lo sob bloqueio, massacrar os seus líderes históricos… Isto exigia um estatuto específico para os seus fantoches e protecção política, institucional, financeira e mediática…

O alarme imediato que abalou todos os dirigentes do mundo capitalista no dia 8 de Outubro, que acorreram em massa a Telavive, é a prova irrefutável do investimento do mundo ocidental neste Estado constituído à margem da lei, à margem de todos os direitos e normas humanas. Direitos e normas criados pelo próprio Ocidente.

O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista. E, a partir de agora, haverá um antes e um depois desse 7 de Outubro.

2. O Hamas é uma organização terrorista?
Comecemos por dizer que, para além dos EUA e da UE, nenhum outro país do mundo acusa o Hamas de terrorismo.

Se olharmos para a história, o termo “terrorista” nem sempre teve um carácter pejorativo. Os revolucionários usaram o “terror” contra os seus inimigos de classe. Foi durante a Revolução Francesa que o termo “terrorista” foi utilizado pela primeira vez, por Gracchus Babeuf, quando falou dos “patriotas terroristas do segundo ano da República”. Para o marxismo, o Terror não era em absoluto um fim político, mas uma ferramenta, o instrumento de uma política, e deve ser julgado em relação aos objectivos dessa política. Isto levanta duas questões diferentes: 1ª, a questão da legitimidade dos fins políticos. 2ª A adequação dos meios. Condenar o Terror como um “sistema” metafísico esconde um interesse em deslegitimar os objectivos políticos que ele se propôs.

Tomemos o exemplo da Comuna de Paris, ponto culminante da guerra civil francesa. Após a sua derrota, foram rotulados, para citar apenas Le Figaro, o órgão da reacção de Versalhes, como “terroristas do Hôtel de Ville”[da Câmara Municipal] ou “terroristas do 18 de Março” ou “a Comuna terrorista”.

O Terror foi defendido ou combatido em função dos objectivos que as diferentes classes sociais e facções políticas procuravam atingir, e que cada uma considerava legítimos.

Numa carta à sua mãe, Friedrich Engels explicava-lhe: “Dos poucos reféns que foram fuzilados à maneira prussiana, dos poucos palácios queimados à maneira prussiana, fala-se muito, porque tudo o resto é mentira; mas dos 40.000 homens, mulheres e crianças que os Versalheses massacraram com metralhadoras depois de terem sido desarmados, ninguém fala”.

Poder-se-ia pensar que esta descrição de Engels se refere aos acontecimentos em Gaza. Poder-se-ia pensar que ele está a descrever a forma como os meios de comunicação ocidentais avaliaram desproporcionadamente (e continuam a fazê-lo) o impacto do ataque do Hamas em 7 de Outubro e o genocídio que se seguiu com a retaliação sangrenta do exército Tsahal - o exército de Israel - apoiado pelas forças Delta dos EUA e pelos seus três porta-aviões no Mediterrâneo. Aqueles que falaram da Hiroshima de Gaza não estão longe do número das 70 000 vítimas que caíram no Japão em Agosto de 1945. Em Gaza, o número de civis mortos sobe para 50 000.

Os Estados imperialistas-coloniais têm denunciado habitualmente o terrorismo das lutas dos povos sob o seu domínio e tratado os seus combatentes como terroristas. Recordemos, uma vez mais, que várias organizações terroristas, colocadas no pelourinho ao longo da história, se tornaram interlocutores legítimos; foi o caso do Viet Cong, do Exército Republicano Irlandês (IRA), da Frente Argelina de Libertação Nacional, do Congresso Nacional Africano (CNA) e de muitas outras organizações que foram elas próprias qualificadas de “terroristas”, como a OLP e a FPLP na Palestina.

Este termo tinha e tem por objectivo despolitizar a sua luta, apresentá-la como um confronto entre o Bem e o Mal.

De cada vez que os palestinianos se revoltam, o Ocidente - tão rápido a glorificar a resistência dos ucranianos - invoca o terrorismo. Fê-lo durante a primeira Intifada, em 1987, e a segunda, em 2000, durante as acções armadas na Cisjordânia ou as mobilizações por Jerusalém, durante os confrontos em torno de Gaza, cercada desde 2007 e vítima de seis guerras em 17 anos.

Falta falar da questão da legitimidade de Israel para se defender e desarmar o Hamas. Alguns meios de comunicação sionistas chegam ao ponto de invocar Thomas Hobbes e a sua percepção daquilo a que chama a posse pelas classes dominantes do “monopólio da força física legítima”. Ignoram que essa legitimidade não pode ser aplicada a um Estado de colonos, legitimidade impugnada antes de mais pelos palestinianos, pelos povos dos países vizinhos atacados (libaneses, sírios, iraquianos, iemenitas, iranianos…) e por todos aqueles que o consideram um Estado de colonos. Antes da farsa do “Acordo de paz” de Oslo, a maioria dos países do mundo não reconhecia Israel. A sua legitimidade baseia-se simplesmente numa decisão da ONU, enquanto Israel tem rejeitado sistematicamente todas as decisões relativas ao povo palestiniano (resoluções 242, 323, 194, direito de regresso dos palestinianos ao seu país).

segunda-feira, 28 de agosto de 2023

França irá proibir uso da abaya em escolas


O governo da França irá proibir que as alunas de escolas do país usem a abaya, túnica comum em países do Norte da África e árabes, anunciou neste domingo o ministro da Educação francês, Gabriel Attal.

“Não será mais possível usar abaya na escola”, declarou Attal em entrevista ao canal de TV TF1, na qual considerou que a vestimenta vai de encontro às normas estritas de laicidade no ensino francês.

A abaya cobre o corpo e deixa de fora rosto, mãos e pés. Seu uso por adolescentes gerou polémica na França, sobretudo devido a críticas da direita.

“Quando o aluno entra numa sala de aula, não se deve poder identificar a sua religião ao olhar para ele”, disse o ministro.

Há relatos sobre o aumento do uso de "abayas" nos estabelecimentos de ensino, bem como das tensões dentro da escola sobre a questão entre professores e pais. O debate intensificou-se desde que um refugiado checheno radicalizado decapitou o professor Samuel Paty, que tinha mostrado aos alunos caricaturas do profeta Maomé, perto da escola num subúrbio de Paris, em 2020.

O deputado Éric Ciotti, presidente do partido de oposição Republicanos (direita), saudou a decisão, enquanto a deputada de esquerda Clémentine Autain a considerou inconstitucional e criticou “a política da vestimenta”.

Embora o Conselho Francês do Culto Muçulmano (CFCM) considere que a peça não representa um símbolo islâmico, o Ministério da Educação francês divulgou, no ano passado, uma circular autorizando as escolas a proibir a abaya, bem como bandanas e saias muito longas.

“As instruções não estavam claras, agora estão, e nós as saudamos”, disse à AFP Bruno Bobkiewicz, secretário-geral do sindicato que representa os diretores de instituições de ensino.

Em 2004, a França proibiu em escolas e institutos qualquer símbolo religioso ostensivo, como o véu islâmico e quipá.

domingo, 25 de junho de 2023

“Tenho muita dificuldade em ver um país muçulmano exemplar nos direitos humanos” – xeque Munir


O imã da Mesquita Central de Lisboa, xeque David Munir, admitiu hoje à agência Lusa que tem “muita dificuldade” em ver um país islâmico exemplar, sobretudo no domínio dos direitos humanos, afinal, um dos pilares do Islão.
“Na teoria, o regime islâmico é baseado na tolerância, na misericórdia e na igualdade. […] Mas a questão que se coloca é que, no Islão, à partida, para dizer a verdade, eu tenho muita dificuldade de ver um país Islâmico exemplar. Em tudo. Nos direitos humanos e, acima de tudo, em valorizar o próximo”, afirmou o xeque Munir.
Numa entrevista à agência Lusa, o imã, que sábado foi um dos oradores de uma conferência subordinada ao tema “A Reforma no Islão”, organizada pela Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), Observatório do Mundo Islâmico (OMI) e Centro Cultural Colinas do Cruzeiro (CCCC), frisou, porém, que o regime islâmico tem consagrado os direitos de igualdade, liberdade de expressão, liberdade de crença e tolerância.
“Cabe ao califa, que já não existe, ao emir, implementar. Tem de estar disposto a ouvir várias opiniões (…) na assembleia de pessoas, dos sábios ou dos mais entendidos ou dos líderes, os que têm a liberdade de dar a sua opinião”, explicou.
David Munir deu como exemplo o caso da democracia, quando, em eleições, um partido ganha eleições democraticamente com maioria absoluta, que lhe permite “fazer e desfazer”, sem dar hipóteses às restantes forças políticas representadas no Parlamento.
“Nos países islâmicos, temos militares e temos ditadores e temos pessoas que querem o poder e que não o querem deixar. Quando há uma pequena abertura para a possibilidade de haver um governo civil, há sempre golpes de Estado. Este é o mundo islâmico atual, em que a democracia não entra. Isto é assim, mesmo que a pessoa queira [mudar], não dura muito”, argumentou.
Para o xeque Munir, atualmente no Islão qualquer pessoa que levante a voz contra o regime, passa a ser considerado não islâmico, situação que lamenta.
"As opiniões das pessoas são válidas até a pessoa conseguir provar que não vai contra os princípios básicos do Islão. Mas, do outro lado, o que acontece nos dias de hoje, em termos gerais, qualquer pessoa que dê uma opinião diferente da do líder ou do partido que está no poder, não tem hipótese”, defendeu.
“Se for um país um pouco mais pacífico, tudo bem, tem o seu espaço, mas há pessoas que passam por represálias, põem a sua vida em risco, não se pode dizer nada, não se pode falar nada. Isto não tem nada a ver com o Islão”, acrescentou, admitindo que foi assim que surgiram movimentos extremistas, como o grupo Estado Islâmico, os Talibã ou o Al Shabbab.
“A falta de conhecimento, o querer o poder a todo custo, alguma influência também do Ocidente para criar uma certa instabilidade, enfim, se misturarmos tudo isto, temos uma boa refeição. No mundo Islâmico, ou em alguns países islâmicos, quando alguém sofre política, social e economicamente, quando se perde tudo, não tem razão de viver, então vai-se criando psicologicamente uma certa raiva, um certo ódio contra aqueles que estão no poder. Do outro lado, vem um grupo que usa o Islão e diz que vai manter a justiça ou igualdade. Dão alguma esperança à pessoa que perdeu quase tudo e esta acaba por se alinhar com alguma esperança. Mas depois, também acaba por ver que também não são diferentes dos outros”, explicou.
No entanto, na opinião de Munir, quem mais sofre com os grupos terroristas islâmicos “são os próprios muçulmanos”.
“A vida é sagrada para todos nós. Mas como há muçulmanos que não compactuam com a ideia deles e com a filosofia deles, passaram a ser inimigos também", afirma.
"Temos, infelizmente, vários grupos, vários 'lobos solitários' à solta e, quando um grupo é detido, desfeito, cada um faz aquilo que puder, na medida do possível, para manter a política, a filosofia, a ideia, a ideologia do grupo, e muitas vezes vai tentando influenciar o outro”, afirmou o imã da Mesquita Central de Lisboa.
“A falta de conhecimento faz com que as pessoas adiram sem saber porquê. E quando começam a estudar, quando começam a ler, abrem a mente e descobrem que, afinal, não é bem assim. E, ao abrirem a mente, quando começam a confrontar o líder, ou os líderes, são postos do lado”, justificou.
Questionado pela Lusa sobre quais os países muçulmanos que convivem num regime democrático, o xeque Munir admitiu ter “alguma dificuldade em responder”, uma vez que, apesar de já ter vivido em muitos países, não residiu em nenhum Estado muçulmano, pois sempre morou em Portugal, “no Ocidente”.
“O que eu sei sobre os países islâmicos é aquilo que sabemos das notícias. No entanto, os países que eu visitei, que não foram poucos, foram muitos, na prática não notei aquilo que eu gostava de notar. A justiça, a igualdade, a parte económica e social. Temos pessoas muito, muito ricas ou temos os muito, muito, muito pobres. Um dos pilares do Islão é a caridade obrigatória, 12,5%. Se todos dessem, iríamos melhorar muito a situação dos mais carenciados. Mas os ricos querem ficar mais ricos e os pobres vão ficar mais pobres. Esta desigualdade é social, mas também é islâmica”, explicou.
Admitindo que há ainda muito a fazer para pacificar o Islão no seu todo, o xeque Munir lembrou que “os grupinhos, grupos, líderes e congregações” que querem impor o radicalismo porque a leitura que fazem do Islão é muito limitada, não estão abertos a dialogar com os outros, mesmo sendo muçulmanos.
“Isso obriga a que o processo avance lentamente. Nalguns casos deram-se passos à frente e depois para trás e isso é um bocado complicado”, concluiu.

Sheik David Munir foi professor de Língua árabe no Instituto Oriental da Universidade Nova de Lisboa, na Universidade Independente e na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

É ainda membro do Conselho Consultivo Internacional da Fundação Paz e Democracia Monsenhor Martinho da Costa Lopes.

Tem como obras publicadas: “Deus que nunca o foi” (1987), “Ensinamentos Elementares do Islão” (1988) e “Da Ciência e Filosofia à Religião” (1996).

quarta-feira, 7 de junho de 2023

ONU apresenta avanços no trabalho para alcançar justiça para as vítimas do Daesh


Procurar justiça para todos os iraquianos afetados pelas atrocidades cometidas pelos membros do Estado Islâmico do Iraque e do Levante, conhecido como Daesh, é o trabalho de Christian Ritscher.

Nesta quarta-feira, ele falou aos membros do Conselho de Segurança sobre o último relatório divulgado pela equipa que chefia, criada há cinco anos a pedido do Iraque.

Investigações
Segundo Christian Ritscher, a Equipa de Investigação da ONU para a Responsabilização por Crimes Cometidos pelo Daesh (UNITAD) continua a trabalhar para promover a responsabilização por crimes internacionais e apoiar o julgamento dos autores desses delitos em todo o mundo.

Ele também explicou a ação da equipa com as comunidades afetadas por crimes e sobreviventes dos ataques, bem como anciãos tribais e clérigos.

Ritscher também abordou o progresso das investigações para avaliar uma série de questões, incluindo o desenvolvimento e uso de armas químicas pelo Daesh, crimes contra crianças e muçulmanos sunitas, bem como ataques a cristãos além de investigações contínuas sobre atentados a yazidis e xiitas.

Crimes internacionais
O representante da ONU afirma que a cooperação com as autoridades iraquianas foi essencial para o trabalho, acrescentando que três pilares devem ser implementados para garantir que o sucesso seja alcançado: "tribunais competentes, provas aceitáveis e quadro jurídico adequado".

Para alcançar este objetivo, a Equipa de Investigação está empenhada em apoiar o processo liderado pelo Iraque “para estabelecer um quadro legal que permita que os crimes do Daesh sejam autuados como crimes internacionais perante os tribunais nacionais”.

Ritscher adiciona que a medida deve enquadrar a brutalidade dos ataques como crimes internacionais e não apenas como organização terrorista.

Longo trabalho
O chefe da investigação destacou que a cooperação com a Justiça iraquiana inclui o reforço da capacidade dos magistrados do país, trabalho contínuo e conjunto na construção de casos, além de um projeto de digitalização.

Até o momento, 8 milhões de páginas de documentos relacionados com o Estado Islâmico em posse das autoridades iraquianas e das autoridades da região do Curdistão foram digitalizados.

Ritscher elogiou o sucesso alcançado até agora, mas também alertou que o trabalho está longe de terminar: "O que queremos ver são julgamentos justos perante tribunais especializados no Iraque, com a participação ativa de vítimas e sobreviventes".

Ele acrescentou que a equipa está atualmente a trabalhar para fornecer apoio para investigações e julgamentos a 17 jurisdições de diferentes países.

quarta-feira, 17 de maio de 2023

O selo da Jornada Mundial da Juventude- estética Estado Novo e demonstra a côr política do Vaticano


Claro que tinha que ser o negro a ajoelhar-se e a subjugar-se perante a Igreja colonizadora! Não gosto deste selo.
E andamos a debater e ver o sofrimento e vozes dos casos Mamadou Ba e Katar Moreira, que já foram apelidados de tudo e tratados como objectos . Os jovens dos bairros da Jamaica, etc. Juro, estamos numa época muito sui generis. O neofascista e advogado Mário Machado, que tem "skinhead" tatuado no peito, e agora a impôr o balofo "respeitinho" através dos tribunais. O Paulo Portas e os colégios privados. As armas, tudo me causa impressão e repulsa.
O monumento dos Descobrimentos é salazarista. Não descobrimos o Brasil. Já lá viviam os povos indígenas, escolarizados pela Igreja Católica e escravizados. 
As cores do selo é o utilizado pela Mocidade Portuguesa.
Nada é feito ao acaso. A data de emissão é próxima do dia famigerado do Golpe Militar de 1926, que elegeu Salazar. Com este selo o Vaticano revela a Instituição que é: de direita e extrema-direita. 
A Igreja lucrou milhões durante o fascismo e ia adorar voltarmos a isso.
21 séculos depois mesmo com a internet, o Vaticano regride e sedia-se em Roma, com toda a pujança dos primeiros Papas católicos. Depois não nos queixemos da fatwa, terrorismo islâmico em solo europeu, a guerra Rússia-Ucrânica, o sefarditismo, etc.
É um selo italiano, e é preciso ver que é feito no momento em que a Itália tem governo próximo do fascismo.
A Igreja Católica fez muitas crueldades na História, nomeadamente:
  1. A Inquisição e a perseguição aos judeus. 
  2. A evangelização dos povos indígenas do Canadá e da  América do Sul, a evangelização em África. 
  3. A proximidade e conluio com os ditadores da extrema-direita no Brasil, Argentina e Chile. 

segunda-feira, 10 de abril de 2023

Música do BioTerra: El Lebrijano com a orquestra Andaluz de Tânger - Dame la libertad


Dame la libertad del agua de los mares.
Dame la libertad de la tormenta.
Dame la libertad de la tierra misma.
Dame la libertad del aire.
Dame la libertad de los pájaros de las marismas,
vagadores de las sendas nunca vistas.

De noche mi corazón conmigo mismo pelea,
si esto no es morir de amor, que venga Dios y lo vea.
Al moro me fui a buscarte y en tu casa me metí
y ahora que estamos juntitos, a ver quién me aparta a mí.

Unos le rezan a Dios y otros le rezan a Alá
y otros se quedan callaos que es su forma de rezar.
A ver si llega la hora, a ver si tú te das cuenta
que lo que ya se ha perdío, ni se busca ni se encuentra.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Sahel tornou-se "uma bomba" que pode explodir e causar problemas graves à Europa

O representante do ACNUR no Mali considerou hoje que o Sahel tornou-se "uma bomba" que pode explodir e causar problemas graves à Europa, se não lhe for dada a ajuda e atenção que requer.



"O Sahel (sub-região africana que se estende da Mauritânia à Etiópia) é uma bomba relógio, com mais de dois milhões de pessoas deslocadas internamente e com muitas das suas regiões sob o controlo de grupos islâmicos" extremistas, disse Mohamed Askia Touré, do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

Além do avanço dos grupos extremistas islâmicos, nestes países, especialmente no Mali - epicentro do Sahel -, outras máfias relacionadas com o tráfico humano ou grupos de mercenários, como o Grupo Wagner russo, estão a instalar-se na região, afirmou Askia Touré.

"Neste contexto, se não houver ajuda do exterior às autoridades locais, como as do Mali, os cidadãos fugirão" e serão "tentados a emigrar para a Europa", sublinhou.

"Milhares de pessoas são forçadas a partir porque não há alternativas, e vão para norte; a tentação de ir para a Europa é muito grande", e é por isso que a Europa tem de ajudar a estabilizar o Mali e o resto do Sahel, para não ter de enfrentar situações mais graves, acrescentou.

“Sessenta por cento do território do Mali", explicou o responsável, "não está nas mãos do Governo, e nestas regiões, nesta terra de ninguém, não há escolas, hospitais, nem assistência de qualquer tipo. O importante é ajudar as autoridades legítimas a proporcionarem proteção e segurança à população.

Askia Touré, ele próprio nascido na Mauritânia, sublinhou por outro lado a importância da saída do Mali da missão militar enviada pela União Europeia, que permitiu aos grupos extremistas islâmicos e outros controlarem mais território.

Depois da partida dos europeus, "a missão da ONU no Mali (MINUSMA) e o exército maliano deixaram de ter a capacidade de garantir a segurança dos cidadãos". A consequência é "mais refugiados e mais pessoas deslocadas", num ciclo do qual não há saída, disse.

Na opinião do responsável do ACNUR, primeiro a pandemia e depois a guerra na Ucrânia fizeram com que o Mali "ficasse de fora dos holofotes" da preocupação dos países ocidentais.

Isto é "realmente lamentável", considerou, "porque, em termos de crises políticas, económicas, de direitos humanos, de refugiados e de deslocados, a situação no país só piorou".

Askia Touré recordou que a ajuda à Ucrânia desde o início da guerra em fevereiro é dez vezes superior à que foi dada pela Europa a toda a África nos últimos anos, pelo que apelou a uma "maior empatia" em relação ao Sahel.

Segundo o ACNUR, existem mais de 181.000 requerentes de asilo malianos em todo o mundo, e cerca de 84.000 regressaram ao país, de acordo com fontes governamentais. O país acolheu também cerca de 56.000 refugiados oriundos do estrangeiro.

Askia Touré explicou que o Mali está entre os cinco países do mundo que mais contribuem para encher os barcos que tentam atravessar o Atlântico ou o Mediterrâneo nas rotas migratórias para Espanha.

O responsável reunir-se-á nos próximos dias em Madrid com funcionários dos ministérios espanhóis do Interior, Negócios Estrangeiros e Imigração, com os quais o ACNUR espera estabelecer novos laços de cooperação que ajudem a estabilizar o país africano.

Saber mais:

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Averróis - Um muçulmano erudito, contemporâneo de D. Afonso Henriques


Bem perto de nós, nascido em Córdova, então território muçulmano, viveu o grande filósofo de origem árabe, Abu al-Walid Muhammad Ibn Ahmad Ibn Munhammad Ibn Ruchd (1126-1198), mais conhecido por Averróis (distorção latina do seu cognome árabe). A Andaluzia era, então, um dos mais notáveis centros de sabedoria da humanidade, e aí teve lugar um movimento intelectual notável que acabou por ser aniquilado pela reconquista cristã. Nesse tempo, fizemos o mesmo que hoje fazem os radicais islâmicos. 
Muitos dos textos dos filósofos gregos salvos das bibliotecas de então, foram ali traduzidos. Durante a última metade da Idade Média, mais de quatro séculos, o árabe foi a língua dominante na filosofia e na ciência embrionária europeias.
A intensa defesa que fez do pensamento científico e da sua independência relativamente aos dogmas da Igreja, deram sustentáculo ao avanço, tantas vezes difícil, levado a cabo, primeiro, por naturalistas e, mais tarde, por geólogos. Ao afirmar que, “com excepção do sobrenatural, o pensamento se deve sujeitar à força da razão”, este muçulmano ibérico deve ser considerado um precursor do pensamento científico e, neste sentido, a sua influência foi grande e decisiva na evolução da ciência, em geral. Seguidor do aristotelismo, que soube fundir com uma parcela de platonismo, Averróis afirmava que, a par da verdade óbvia do dia-a-dia, observável e aceite pelo povo, e da verdade mística da fé defendida e propalada pelos teólogos, há a verdade científica, fruto da razão, podendo estar em desacordo umas com as outras. Num tempo em que a teologia dominava sobre a filosofia natural (ciências da natureza), as suas ideias alastraram entre a comunidade de estudiosos cristãos da Universidade de Paris, criando uma corrente de pensamento científico puro e independente das crenças religiosas, oposto à envelhecida tese de Santo Agostinho (354-430), segundo a qual havia uma única verdade, a dos santos evangelhos. Para Averróis, uma dada afirmação pode ser teologicamente verdadeira e filosoficamente (cientificamente) falsa e vice-versa.
Este, que foi o mais afamado pensador islâmico da Idade Média, viveu muito à frente do seu tempo, abrindo o caminho para o Renascimento e influenciando, significativamente, a filosofia europeia. Intelectual de grande ecletismo, Averróis foi médico, astrónomo, jurista e teólogo. Estudioso do direito canónico muçulmano, foi um dos maiores conhecedores e comentadores do pensamento de Aristóteles, tendo ficado conhecido na história da filosofia pelo cognome de “O Comentador”.
Durante parte da sua vida, Averróis contou com a protecção dos califas locais, até que foi desterrado por Abu Yusuf Ya'qub al-Mansur que, na mesma linha das hierarquias do catolicismo, considerou as suas opiniões desrespeitadoras e em desacordo com o Corão. Muito da sua obra acabou também por ser condenada pela Igreja Católica.

domingo, 25 de setembro de 2022

A morte de Mahsa Amini gera uma onda de protestos no Irão


O nome dela é Mahsa Amini. Tinha 22 anos e foi espancada pela polícia iraniana, por uso “indevido” do véu islâmico. Morreu no hospital, em decorrência da surra, na sexta-feira, 16 de setembro.

Essa morte gerou protestos e mais repressão policial. Há relatos de mulheres impedidas de entrar em edifícios estatais ou em bancos por não cumprirem o código de vestuário islâmico.

Mulheres iranianas são obrigadas a cobrir os cabelos e a usar roupas largas para esconder o corpo. No Brasil, são consideradas culpadas de violação se usam saias curtas ou decotes fartos. Em África são obrigadas a usar colares mutilantes como forma de controlar sua castidade. Em mais de 40 países da África e da Ásia têm o clitóris mutilado para que não sintam prazer. Na Índia são mortas ao nascer porque nasceram mulheres.

13 de setembro. Mahsa Amini visitava Teerão, Irão, com a família quando foi presa pelo uso "inapropriado" do véu islãmico, hijab, tendo assim incumprido as regras e desrespeitado o código de vestuário da República do Irão. Neste país, as mulheres são obrigadas a tapar o cabelo e pescoço com o hijab quando estão em público. Entre muitas outras proibições, está também o uso de saias e calças justas ou roupa com cores vivas. A jovem foi levada para o Centro de Detenção de Vozara - onde acabou por desmaiar - para aprender o código de vestuário, afirma a CNN. Foi transportada para o hospital e acabou por morrer, passados três dias em coma. A BBC aponta para a existência de registos de que os agentes atingiram Amini com um bastão e forçaram a sua cabeça contra um veículo oficial, repetidamente e de forma brusca. Já a polícia do Teerão afirma que "não houve nenhum contacto físico" entre os oficiais e Mahsa Amini.

Este acontecimento lançou uma onda de manifestações pelo país fora, em cidades como Teerão, Rasht, Ispahan e no sul do Irão. Muitas mulheres não estão a usar os seus hijabs em público e a queimá-los, enquanto gritam "Morte ao ditador!", referindo-se ao líder supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei.

Mulheres a protestar contra o uso do 'hijab'
Mulheres a protestar contra o uso do 'hijab'Foto: Getty Images
Os protestos estendem-se até às redes sociais, onde existem cada vez mais vídeos de mulheres iranianas a cortar o próprio cabelo, como aqui mostramos

No último dia 20, as autoridades afirmaram que os seus carros foram queimados pelos protestantes e que os agentes de autoridade foram atingidos com pedras. De forma a retaliar, a polícia usou gás lacrimogéneo para afastar multidões. A BBC avança que já foram mortas 9 pessoas que se encontravam nas manifestações, por estarem a quebrar as regras do hijab.
Polícia retalia contra os manifestantes em Teerão
Polícia retalia contra os manifestantes em TeerãoFoto: Getty Images
As Nações Unidas já condenaram este ataque e as autoridades pelas suas atitudes violentas para com os manifestantes.

O grupo não governamental Iran Human Rights, com sede em Oslo, afirmou que pelo menos 31 civis tinham sido mortos em seis noites de violência.

O Tesouro dos EUA também impôs sanções a Mohammad Rostami Cheshmeh Gachi, o chefe da polícia de moralidade, Haj Ahmad Mirzaei, o chefe da divisão de Teerão da polícia de moralidade, e cinco outros altos funcionários de segurança envolvidos nas repressões dos manifestantes.

O jornal afirmou que Rostami tinha anunciado no início deste ano que as mulheres seriam punidas por se recusarem a usar um hijab.

"O governo iraniano precisa de acabar com a sua perseguição sistémica às mulheres e permitir o protesto pacífico", disse o Secretário de Estado norte-americano Antony Blinken, "os Estados Unidos continuarão a manifestar o nosso apoio aos direitos humanos no Irão e a pedir contas àqueles que os violam".

As sanções do Tesouro visam congelar quaisquer bens que os designados possam ter sob jurisdição dos EUA e proibir qualquer indivíduo ou empresa americana - incluindo bancos internacionais com operações nos EUA - de fazer negócios com eles, limitando efetivamente o seu acesso a redes financeiras globais.