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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Agência de Proteção Ambiental elimina limitação às emissões de gases com efeito de estufa nas centrais elétricas dos EUA

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) norte-americana divulgou na segunda-feira que vai revogar as regras que limitam as emissões de gases com efeito de estufa, que causam o aquecimento global, provenientes de centrais elétricas alimentadas a carvão e gás natural.
A alteração à regra, inicialmente proposta no ano passado, representa uma mudança fundamental em relação aos esforços dos presidentes democratas Joe Biden e Barack Obama para combater as alterações climáticas e reduzir a poluição industrial.

Os grupos ambientalistas criticaram a medida, afirmando que vai prejudicar a saúde dos norte-americanos e degradar ainda mais o ambiente, noticiou a agência Associated Press (AP), que antecipou também batalhas judiciais após a entrada em vigor da nova regra.

A revogação da regra para as centrais elétricas da era Biden permitiria poupar mais de 300 mil milhões de dólares em custos para o setor e ajudar a libertar a energia norte-americana, de acordo com a EPA.

A mudança permitirá que as empresas de energia tomem as melhores decisões para os seus consumidores, em vez de serem forçadas a fechar centrais antigas ou ineficientes, sublinhou o administrador assistente da EPA, Aaron Szabo.

A proposta, que deverá ser oficializada no próximo ano, surge na sequência de uma ação anterior da EPA, realizada este ano, que revogou uma conclusão científica que há muito servia de base central para a atuação dos EUA na regulação das emissões de gases com efeito de estufa e no combate às alterações climáticas.

A medida de fevereiro eliminou todos os padrões de emissão de gases com efeito de estufa para automóveis e camiões.

O novo plano aplicaria uma lógica semelhante para uma reversão mais ampla das regulamentações climáticas dirigidas a fontes fixas, como as centrais elétricas.


As centrais termoelétricas alimentadas a carvão, gás e petróleo são responsáveis por cerca de um quarto de toda a poluição climática dos EUA, ficando apenas atrás do setor dos transportes.

A poluição proveniente destas centrais é uma das maiores fontes globais de poluição que altera o clima.

As normas visadas pela EPA sob a administração liderada por Donald Trump poderiam evitar cerca de 30 mil mortes e gerar uma poupança de 275 mil milhões de dólares por cada ano em que estivessem em vigor, segundo um estudo da AP realizado no ano passado, que incluiu avaliações anteriores da própria agência e várias outras pesquisas.

Enquanto a China consolida o domínio mundial nas tecnologias limpas do século XXI (baterias, painéis solares, veículos elétricos), os EUA arriscam-se a ficar para trás num mercado global de energia limpa estimado em biliões de dólares. 

Na Europa mantem o foco na sustentabilidade ambiental e regulação, assumindo custos económicos mais altos no curto prazo para liderar a transição ecológica.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Aumento da temperatura global vai atingir pelo menos 1,8°C, avisa ONU, e 'não há bons resultados'

  • Relatório aponta pico de aumento de temperatura no melhor cenário para os 1,8°C; outros sugerem mais de 2°C
  • Acima dos 1,5°C, os impactos climáticos e os riscos de pontos de rutura intensificam-se a cada fração de grau
  • Trajetória de 'ultrapassagem, pico e declínio' é a melhor opção restante para ajudar nações e comunidades vulneráveis a responder e a regressar a valores abaixo dos 1,5°C
Nairóbi, 2 de setembro de 2026 - O aumento da temperatura global está prestes a cruzar a barreira dos 1,5°C, provavelmente dentro dos próximos anos, elevando os riscos e impactos climáticos a níveis cada vez mais perigosos. Contudo, ainda é possível reduzir as temperaturas e alcançar as metas globais do Acordo de Paris, segundo um novo relatório do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA).

O relatório, Limiting Overshoot, identifica a trajetória de 'ultrapassagem, pico e declínio' como a melhor opção restante para minimizar a magnitude e a duração desta ultrapassagem, tentando regressar a valores inferiores a 1,5°C o mais depressa possível.

“O calor escaldante, os incêndios devastadores e as inundações mortais deste verão são um aviso do que nos espera. Temos de fazer com que a ultrapassagem acima dos 1,5 graus seja o menor e mais curta possível. Isso exige uma ultrapassagem de ambição”, afirmou o Secretário-Geral da ONU, António Guterres.

Esta trajetória minimizaria o pico de aumento da temperatura através de cortes imediatos e sustentados nas emissões de gases com efeito de estufa, incluindo o metano, a caminho do zero líquido (net-zero). Posteriormente, baixaria as temperaturas através de emissões líquidas negativas a longo prazo, com a Remoção de Dióxido de Carbono (CDR) devidamente governada - o processo de retirar carbono do ar e armazená-lo através de reflorestação ou outros meios - a assumir-se como parte essencial da solução.

Ao mesmo tempo, seguir este caminho envolveria ações de adaptação que reduzem a vulnerabilidade aos impactos atuais, esperados e inesperados das alterações climáticas nas sociedades, comunidades e economias - embora existam prováveis limites à adaptação e impactos irreversíveis, especialmente se os picos de temperatura não forem minimizados. O relatório reforça que tal trajetória reduziria riscos e impactos, tornaria a adaptação menos difícil e dispendiosa, e aumentaria as hipóteses de baixar as temperaturas.

“Não há bons resultados se permanecermos acima dos 1,5°C. Em todo o mundo, as ondas de calor extremo já provam que os impactos climáticos vão atingir-nos mais rápido, com mais força e durar mais tempo - custando mais vidas e causando perturbações mais profundas”, disse Inger Andersen, Diretora Executiva do PNUA. “Agora é o momento de duplicar os esforços na ação climática. Podemos - e devemos - entrar no caminho certo. Cortando emissões de gases com efeito de estufa, reforçando a resiliência e a adaptação, e garantindo que a ultrapassagem dos 1,5°C seja o mais reduzida e curta possível.”

Impactos devastadores
O cenário mais otimista prevê que o pico do aumento de temperatura atinja os 1,8°C acima dos níveis pré-industriais, superando a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C definida pelo Acordo de Paris. A maioria dos restantes cenários prevê picos ainda mais elevados.

Acima dos 1,5°C, os riscos e impactos intensificar-se-ão a cada fração extra de grau e a cada ano. Os impactos previstos incluem eventos meteorológicos extremos mais intensos, perda de ecossistemas e a submersão de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento e cidades costeiras de baixa altitude. Esperam-se danos graves na saúde humana, segurança alimentar, abastecimento de água, natureza, cidades, infraestruturas e economias.

O relatório avisa que a probabilidade de cruzar pontos de rutura irreversíveis aumenta com a magnitude e duração de temperaturas mais elevadas. Estes incluem a desestabilização de grandes calotas polares, a degradação da floresta amazónica e a perturbação da Circulação Meridional do Atlântico (o sistema de correntes que move água quente de superfície para norte e água fria profunda para sul, desempenhando um papel fundamental na regulação do clima). Alguns impactos podem surgir abruptamente, enquanto outros se acumularão ao longo do tempo.

Tendo em conta a dimensão dos riscos e os benefícios paralelos das intervenções climáticas - como a transição rápida dos combustíveis fósseis para as energias renováveis, melhorando a qualidade do ar e a saúde pública, reduzindo os custos de energia e aumentando o acesso à eletricidade -, o relatório apela a uma ação global, coletiva e acelerada para entrar na trajetória de ultrapassagem, pico e declínio. A rapidez e a força desta ação definirão a forma e a trajetória desse caminho.

Condições para o sucesso
Vontade política forte, multilateralismo, políticas eficazes, governação inclusiva e financiamento são condições essenciais para a ação - e a equidade e a justiça devem fundamentar todas as respostas. Os países com maior responsabilidade pelas alterações climáticas devem agir mais depressa e com maior ambição.

O relatório também conclui que a mitigação e a adaptação, que se reforçam mutuamente, têm de avançar juntas, mantendo-se responsivas a riscos emergentes. Intervenções que atinjam em simultâneo metas de mitigação e adaptação - como o arrefecimento baseado na natureza - devem ser priorizadas.

A adaptação implementada agora forma a base para os esforços futuros, mas tem de se tornar transformacional e capaz de responder a riscos não lineares e abruptos - incluindo aqueles que prejudicarão os esforços de mitigação.

O relatório enfatiza que o zero líquido é apenas um marco a caminho do líquido negativo, sendo a remoção de carbono (CDR) necessária além de - e não em substituição de - reduções sustentadas nas emissões. Contudo, a CDR só pode contribuir de forma credível para o regresso a valores abaixo de 1,5°C se o pico de aquecimento se mantiver bem abaixo dos 2°C e todas as emissões residuais forem reduzidas. Quadros de governação sólidos para a CDR serão críticos para permitir uma implementação responsável e gerir as implicações na integridade ambiental, equidade e escala.

Responder a um futuro alterado
Anos de inação significam que, mesmo que se assegure o regresso a valores inferiores a 1,5°C, perdas irreversíveis e condições permanentemente alteradas são certas. Muitas comunidades podem ser forçadas a relocalizar-se ou a mudar de meios de subsistência, enquanto as sociedades enfrentarão o desafio da readequação. Isto levanta questões de justiça, poder e legitimidade política, que exigirão novos acordos de governação inclusiva para resolver problemas complexos.

Este relatório é um lembrete de que a trajetória de ultrapassagem, pico e declínio é a próxima fronteira climática, mas que não pode ser deixada ao abandono para as próximas gerações resolverem. É necessária ação imediata para que tal caminho continue a ser possível.

domingo, 13 de setembro de 2026

Como fazer a ruptura pós-capitalista

Löwy: crise climática pede a ruptura do capitalismo
O grande erro dos movimentos ecológicos atuais é continuarem a agir como se estivéssemos em meados do século passado, acreditando que basta organizar marchas, erguer cartazes e divulgar relatórios científicos para despertar a consciência das pessoas. Essa abordagem ignora uma mudança profunda: a praça pública de outrora foi substituída por um ecossistema digital desenhado ao milímetro para manter a população num estado de anestesia e distração permanentes. Esperar por uma revolução ética de baixo para cima quando a sociedade passa o dia a consumir dopamina rápida em ecrãs hipervigilados é uma ilusão ingénua - e um luxo que o relógio climático não nos concede.

Como já tinha referido aqui e aqui, para que o Ecologismo e o Humanismo Activo deixem de ser uma carta de intenções morais e se tornem uma força política real, a estratégia tem de deixar de ser pedagógica e passar a ser infraestrutural. Se a consciência coletiva está bloqueada pela arquitetura do capitalismo de vigilância descrita por Shoshana Zuboff, o primeiro passo não é tentar convencer o indivíduo sedado, mas desmontar a engenharia do vício. Isso exige tratar o assalto ao tempo e à cognição analisado por Jonathan Crary ou Bernard Stiegler como uma ameaça direta à própria capacidade de organização política. Sem resgatar o tempo e a lucidez roubados pelas plataformas digitais, qualquer tentativa de mobilização dilui-se inevitavelmente no ruído algorítmico.

Ao mesmo tempo, perante a paralisia cultural do "realismo capitalista" teorizada por Mark Fisher - em que se tornou mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do sistema económico -, o movimento precisa de abandonar a mera protestação simbólica. Como defende o historiador Andreas Malm, a escassez de tempo exige uma transição para a ação direta de alta fricção, focada no desmantelamento tático e financeiro das infraestruturas fósseis. O foco deixa de ser agradar à opinião pública e passa a ser tornar a atividade poluidora economicamente inviável. Essa disrupção física deve ser acompanhada por aquilo a que Ivan Illich chamava "ferramentas de convivência": a criação de redes locais e analógicas de sobrevivência alimentar, energética e comunitária. É na junção entre o resgate da atenção, a paralisação do capital ecocida e a construção de resiliência no terreno que a ética ambiental encontra a sua tradução em poder político efetivo.

Os Autores e Teóricos Subjacentes a Esta Tese

  • Shoshana Zuboff (A Era do Capitalismo de Vigilância): Dá-lhe o argumento central sobre como as plataformas digitais não são meros meios de comunicação, mas indústrias de modificação comportamental que destroem a autonomia e a capacidade de organização coletiva.
  • Andreas Malm (Como Salvar um Planeta em Chamas / How to Blow Up a Pipeline): Fundamenta a crítica ao pacifismo estratégico tradicional. Malm defende que, perante a urgência, o movimento ecológico tem de ultrapassar os protestos simbólicos e adotar a sabotagem tática de infraestruturas fósseis (sem violência contra pessoas) para encarecer o capital poluidor.
  • Mark Fisher (Realismo Capitalista): Sustenta a tese da alienação e da paralisia: a ideia de que o sistema criou uma anestesia cultural onde é "mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo", transformando o sofrimento e a ansiedade em consumo passivo.
  • Ivan Illich (Tools for Conviviality): Alimenta a ideia da construção de "cidadelas analógicas" — a necessidade de criar tecnologias e redes de escala humana, locais e desvinculadas dos megassistemas industriais e digitais para devolver a autonomia às comunidades.
  • Cédric Durand ou Nick Srnicek (Capitalismo de Plataforma / Feudalismo Digital): Em vez de olhar para a psicologia do ecrã (como Han faz), estes autores explicam a arquitetura económica real de como as grandes plataformas extraem renda e capturam o comportamento humano.
  • Bernard Stiegler: Para uma crítica da tecnologia incomparavelmente mais rigorosa e profunda. Stiegler concilia a filosofia da técnica com a neurobiologia e a economia política, explicando como a tecnologia digital nos priva do "saber-fazer" e do "saber-viver", gerando uma proletarização da mente.
  • Bernard Stiegler (24/7: O Capitalismo Tardio e os Fins do Sono): Examina como o capitalismo do século XXI tenta eliminar as pausas humanas naturais (como o sono e a reflexão), transformando o tempo contínuo num mercado de consumo e vigilância.

sábado, 12 de setembro de 2026

O colapso dos sistemas naturais pode intensificar o aquecimento em 30 por cento, alerta novo estudo



À medida que o planeta aquece, a tundra está a descongelar, as zonas húmidas estão a fermentar e as florestas estão a ceder a incêndios florestais maiores e mais frequentes. o colapso destes sistemas naturais está a libertar volumes enormes de emissões, intensificando ainda mais o aquecimento provocado pela queima de combustíveis fósseis. de acordo com uma nova investigação, estes ciclos de retroalimentação (feedback loops) podem ampliar o aquecimento causado pela ação humana entre 20 e 30 por cento.

Mesmo que a humanidade alcance a neutralidade carbónica (emissões líquidas zero) no final deste século, as retroalimentações adicionariam mais 0,2 °C de aquecimento, segundo o estudo de modelação publicado esta semana na revista Environmental Research Letters. e se o mundo não conseguir atingir a neutralidade carbónica, e os países continuarem a produzir algumas emissões residuais até ao final deste século, o aquecimento adicional ficará mais próximo dos 0,4 °c.

O mundo está já 1,4 °C mais quente do que na era pré-industrial e as emissões de combustíveis fósseis continuam a crescer, colocando a Terra em rota para ultrapassar os 2,5 °C de aquecimento este século, dizem os cientistas - ultrapassando largamente as metas climáticas internacionais. no entanto, embora o aquecimento adicional proveniente dos ciclos de retroalimentação vá acelerar ainda mais o aumento das temperaturas, as emissões decorrentes do colapso dos sistemas naturais estão em grande parte ausentes dos modelos climáticos mais influentes, aqueles que orientam as negociações climáticas.

«Este multiplicador oculto está ausente dos modelos que orientam a política climática, pelo que esses modelos estão provavelmente a subestimar quanto aquecimento está para vir - e a sobrestimar quanto carbono ainda nos podemos dar ao luxo de emitir», disse o autor principal Sam Abernethy, investigador na Spark Climate Solutions, uma organização sem fins lucrativos sediada em São Francisco que visa identificar «pontos cegos» climáticos e contabilizá-los nas políticas. «para fechar essa lacuna, precisamos de compreender melhor estes processos e de os integrar nos modelos em que confiamos.»

Os desafios são enormes. os ciclos de retroalimentação são difíceis de modelar e escasseiam dados sobre emissões em locais de difícil acesso, como a Sibéria ou a Bacia do Congo. no entanto, como o Yale Environment 360 reportou recentemente, cientistas de todo o mundo estão a trabalhar para prever melhor as emissões dos sistemas naturais.

«Se não se estiver a incluir todas as emissões que vão para a atmosfera, fica-se de mãos atadas desde o início», disse Brian Buma, cientista climático no Environmental Defense Fund, ao e360. «as pessoas estão a reconhecer que, quanto mais tempo passarmos sem ter em conta estas emissões, maior será a lacuna.»

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segunda-feira, 29 de junho de 2026

E se o "Fascismo Eterno" de Umberto Eco, tivesse encontrado a ferramenta perfeita na Inteligência Artificial?

O custo da IA não é apenas ecológico; é cultural e político. Convoco os meus amigos à leitura desta minha reflexão profunda sobre o mundo que estamos a construir e a leitura que nos pode salvar do fascismo eterno.

𝐏𝐨𝐧𝐭𝐨 𝐩𝐫𝐞́𝐯𝐢𝐨
Atualmente, o grande desafio é o crescimento exponencial da Inteligência Artificial - um campo que nasceu em meados do século XX, mas que hoje atinge proporções sem precedentes. Os chips de IA, como os GPUs, consomem muito mais energia do que os servidores tradicionais. Este aumento súbito na procura de eletricidade está a pressionar as redes elétricas e, em algumas regiões, a obrigar ao prolongamento da atividade de centrais a gás ou carvão, dificultando as metas de descarbonização.

Para além da eletricidade, a corrida aos minerais raros para construir estes componentes tornou-se insuportável e insustentável. É neste cenário - um mundo polarizado, minado por fraudes e mergulhado numa nova era tecnológica quase imposta - que os algoritmos disparam em todas as direções, perpetuando vieses políticos e alimentando bolhas ideológicas para maximizar o lucro. É assim que o tecnofascismo e o carbofascismo se impõem numa era tecnológica quase imposta. A verdade é que não estamos preparados. Explico porquê no segundo texto.

𝐒𝐞𝐠𝐮𝐧𝐝𝐨 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐨 - 𝐀 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐞 𝐞𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐚 𝐨𝐛𝐫𝐚 𝐝𝐞 𝐔𝐦𝐛𝐞𝐫𝐭𝐨 𝐄𝐜𝐨 𝐞 𝐚 𝐞𝐫𝐚 𝐝𝐢𝐠𝐢𝐭𝐚𝐥: 𝐜𝐨𝐦𝐨 𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐞𝐟𝐞𝐧𝐝𝐞𝐫𝐦𝐨𝐬?

O Fascismo Eterno, obra em que Umberto Eco analisa as estruturas mentais e socioculturais do autoritarismo, ganha uma relevância alarmante quando confrontado com a atual e acelerada evolução da Inteligência Artificial. Embora o ensaio tenha sido escrito na década de 1990, muito antes da explosão dos modelos generativos e dos algoritmos avançados, as catorze características do Ur-Fascismo identificadas pelo filósofo italiano servem como um aviso severo sobre os impactos culturais e políticos da automação tecnológica no comportamento humano.

A primeira grande interseção reside no conceito de novilíngua. Eco alertava que o fascismo eterno recorre a um vocabulário empobrecido e a uma sintaxe elementar para limitar o raciocínio complexo e eliminar o pensamento crítico. Ao transferirmos a produção de textos, discursos e comunicações diárias para sistemas de IA, corremos o risco de padronizar a linguagem de forma global. Estes modelos tendem a gerar respostas estatisticamente previsíveis e polidas, o que pode esvaziar a riqueza linguística, a ironia e a profundidade do debate público, pavimentando o caminho para uma sociedade que aceita mais facilmente narrativas simplistas e polarizadas.

Além disso, o culto da ação pela ação e o consequente desprezo pela reflexão intelectual encontram um terreno fértil na busca cega pela produtividade algorítmica. A pressa em obter resultados imediatos através de prompts substitui muitas vezes o processo humano de pesquisa profunda, erro e ponderação. Quando o ato de pensar é delegado à máquina em nome da eficiência, a capacidade da sociedade para exercer a dúvida filosófica e a contestação - defesas vitais contra regimes autoritários - acaba por atrofiar.

Outro ponto crítico é a obsessão pelo complô e a criação de inimigos imaginários, dinâmicas que alimentam o ecossistema fascista. Atualmente, a Inteligência Artificial é utilizada para potenciar bolhas de radicalização através de algoritmos de recomendação baseados no envolvimento pela indignação e, ironicamente, maximizando o lucro dos plutocratas . A capacidade de gerar desinformação em massa, clones de voz e deepfakes de forma automatizada e barata permite que atores maliciosos criem conspirações personalizadas para diferentes franjas da população, fraturando o tecido social à escala industrial.

Por fim, o populismo qualitativo, onde o líder se assume como a encarnação da vontade de uma massa homogénea, ganha contornos de precisão cirúrgica com o uso de dados processados por IA. A análise automatizada do sentimento das redes sociais permite moldar discursos políticos que não convidam ao debate, mas que ecoam de forma artificial os medos e preconceitos do eleitorado. Assim, o maior perigo não reside numa revolta das máquinas contra a humanidade, mas sim na possibilidade de a IA ser utilizada para automatizar e perpetuar os hábitos mentais mais primitivos e intolerantes que Umberto Eco nos instou a combater.

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terça-feira, 26 de maio de 2026

Cenário climático RCP 8.5 - é assim que funciona a publicidade aos combustíveis fósseis hoje em dia

Fonte: Stefan Rahmstorf  (clique na imagem para ampliar)

Leu em algum lugar esta semana que a crise climática está a ser cancelada? Infelizmente, isso é mentira. A forma como esta mensagem chegou ao público alemão é um exemplo clássico de propaganda do século XXI.

Imagine que sofre de uma doença grave e progressiva que lhe causará dores e limitações cada vez maiores ao longo dos próximos anos e décadas. Os médicos prescreveram medicamentos. Agora, parecem estar a surtir efeito: a dor já não está a aumentar tão rapidamente como antes. Qual seria a sua reação? Deixaria de tomar a medicação o mais rapidamente possível?

Foi basicamente isso que a ex-ministra da Família, Kristina Schröder (CDU), exigiu esta semana. Num artigo para o jornal "Die Welt", pertencente ao grupo Springer, Schröder escreveu: "A Alemanha está a mergulhar cada vez mais na desindustrialização. O culpado é um cenário catastrófico climático que os cientistas já desmascararam como falso."

Isto está duplamente errado: um "cenário de horror climático" não é o culpado pela ampla absorção da indústria alemã pela China – o que precisamos é finalmente de uma política energética e climática coerente, afirmam tanto o Conselho de Peritos Económicos como o conselho independente de peritos em questões climáticas . Nem um "cenário de horror climático" foi "desmascarado como falso".

Infelizmente, isto não é absolutamente motivo para tranquilização.
Para se perceber como é que este absurdo artigo de opinião foi parar a um jornal alemão supostamente respeitável, é preciso recuar algumas semanas. No início de abril, um artigo assinado por dezenas de investigadores climáticos foi publicado numa revista científica , contendo uma notícia relativamente boa e uma notícia muito má. A notícia muito má é que a meta acordada em Paris por 195 países e pela União Europeia — limitar o aquecimento global a menos de 1,5 graus Celsius em comparação com os níveis pré-industriais — está, para já, fora de alcance. Os detalhes científicos são explicados, por exemplo, por Stefan Schmitt no jornal "Die Zeit " .

A notícia algo animadora é que é altamente improvável que a humanidade continue a utilizar o carvão para a geração de eletricidade a uma escala cada vez maior, principalmente porque as energias renováveis ​​estão a crescer muito rapidamente e a tornar-se cada vez mais baratas. O chamado cenário RCP8.5 , que pressupõe a escalada máxima da crise climática, tem sido considerado inverosímil pelos especialistas há anos . Um cenário de "baixa probabilidade e alto risco" já está descrito no relatório de avaliação de 2021 do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) .

Vai aquecer ainda mais rápido
Infelizmente, isto não é nada tranquilizador, e os especialistas concordam : ainda estamos a caminhar para um mundo que pode ser mais de três graus mais quente do que era há 200 anos. E já está mais quente do que em qualquer outro momento da história da humanidade. O Acordo de Paris sobre o Clima, como é sabido, estabelece uma meta flexível de 1,5 graus e uma meta rígida de 2 graus. E por uma boa razão: mesmo com um aumento de dois graus na temperatura, por exemplo, os corais de água quente do planeta provavelmente morrerão em todo o mundo. O que isto significa para os ecossistemas marinhos e, consequentemente, para o abastecimento alimentar de parcelas significativas da humanidade é sistematicamente ignorado por aqueles que dizem "não é assim tão mau". Para citar apenas um exemplo.

A publicação de Detlef Van Vuuren e dos seus colegas em "Geoscientific Model Development" está, por isso, longe de ser motivo de complacência; muito pelo contrário. Apenas confirma o que já era óbvio: os combustíveis fósseis são, sobretudo por razões económicas, um modelo de negócio (lentamente) em declínio . Isto significa que as emissões aumentarão a um ritmo mais lento. Mas a temperatura continuará a subir. De acordo com as descobertas atuais, até mais rápido do que antes .

Um grupo de reflexão financiado por combustíveis fósseis está a moldar a narrativa.
O que aconteceu após a publicação é um exemplo clássico de desinformação climática. Poucas semanas depois do artigo científico de Van Vuuren et al., Roger Pielke Jr., um notório negacionista das alterações climáticas (de segunda geração ) há anos, publicou um artigo no blog do American Enterprise Institute (AEI) intitulado "RCP8.5 is officially dead". O texto contém muitas afirmações aparentemente enganadoras e uma peculiaridade reveladora: Pielke Jr. escreve repetidamente que agora é provável que fique "mais frio" do que o previsto nos piores cenários (o adjetivo "mais frio" aparece cinco vezes no texto ). No entanto, definitivamente não ficará "mais frio", mas sim continuará a aquecer.

O que precisa de saber: O AEI é um daqueles think tanks neoliberais que há anos fomenta agressivamente o sentimento contra qualquer forma de proteção climática. De acordo com o site de investigação "Desmog", o AEI recebeu milhões de dólares em donativos ao longo dos anos dos suspeitos do costume na disseminação organizada de desinformação climática: de várias fundações do bilionário do petróleo americano Charles Koch, incluindo a Fundação de Caridade Charles G. Koch e o "Instituto Charles Koch", e, em grande medida, das instituições de caridade associadas aos Koch, "Donors Trust" e "Donors Capital Foundation". O AEI recebeu também donativos da ExxonMobil, da Shell, da organização de lobby "American Petroleum Institute" e assim por diante. Em síntese: o AEI é um pilar fundamental na rede de propaganda da indústria do petróleo e do gás.

Não houve absolutamente nada de "repentino" nisto.
A 11 de maio, um antigo colega, que também poderia ser descrito como um antigo jornalista científico, repercutiu a distorção da AEI no jornal "Die Welt". Este autor chamou recentemente a atenção sobretudo por uma decisão judicial e uma reprimenda do Conselho de Imprensa por reportagens agressivas, mas imprecisas, sobre "ONGs ambientalistas". O título do artigo afirmava que os cientistas climáticos estavam a "abandonar subitamente o seu cenário mais dramático". Como disse: não há absolutamente nada de "repentino" nisto. Nem aconteceu "secretamente", como alegaram vários órgãos de comunicação social de direita dos EUA , inspirados pelo presidente norte-americano. Mentiu no "TruthSocial", afirmando que o IPCC tinha "admitido" que "as suas próprias projecções" eram "FALSAS! FALSAS! FALSAS!"

terça-feira, 19 de maio de 2026

The American epoch of oil is collapsing. What comes next could be ugly

China is dominating the energy transition with astonishing result, while fossil fuel fascists in the US try to turn back the clock [Fonte]

“Farewell,” the flag-waving Chinese children chanted to Donald Trump as he strolled along the red carpet back to Air Force One at the end of his summit with Xi Jinping in Beijing.

The US leader claimed he was leaving with a cluster of “fantastic” trade deals to sell US oil, jets and soya beans to China. That has not been confirmed by his smiling host, but one thing was crystal clear from the two days of meetings: the global balance of power is shifting, from the declining petrostate in the west to the rising electrostate in the east.

Trump flew home to chaos – war with Iran, surging gas prices, spectacular unpopularity, friction with former allies and a 20th-century policy of “energy dominance” that seeks to turn back the clock, use tariffs and military threats to open markets, and enrich his supporters in the fossil fuel industry. The long dominant superpower increasingly appears a malignant force as it pushes the world towards ever greater turbulence.

Xi, meanwhile, presides over a country that has invested more than any other in renewable energy, which has helped to buffer its economy from the gas price shocks caused by the conflict in the Middle East, while opening up huge new export markets for solar panels, wind turbines, smart grids and electric vehicles. While the Chinese president’s Communist party still faces criticism for its suppression of dissent, its soft power deficit no longer seems so great when its main global rival is killing protesters at home and bombing schoolchildren overseas.

Why is this happening now? Tempting as it is to blame these global shifts on a single malignant narcissist in the White House, a more useful – and maybe even hopeful – analysis needs to take into account the tectonic changes that are shaking not just the foundations of politics, but the very nature of human power, as the world shifts from molecules to electrons.

History has proven that when the dominant form of energy changes, there is often a shift in the global pecking order. We are now in the midst of one such transition as the epoch of petrol, predominantly produced in the United States, Russia and Gulf states, starts to give way to an era of renewables, overwhelmingly manufactured in China. But the outcome remains contested, and the process could be ugly. The new energy order is winning the economic and technological battle – wind turbines and solar panels were already producing record-cheap electricity even before the Iran war pushed up the costs of gas and oil-fired power plants. But the old petro-interests still have political, military and financial might on their side, and they are using that to try to turn back the energy clock.

As a result, democracies across the planet are now threatened by what might be called fossil fuel fascism – an extremist political movement that breaks laws, spreads lies and threatens violence in an increasingly desperate attempt to maintain markets for oil, gas and coal that would otherwise be replaced by cheaper renewables.

Of course, there are multiple other, overlapping reasons for the war against Iran: its nuclear program, Trump’s need for a distraction from the Epstein files, and his willingness to adopt positions favourable to Israel’s Benjamin Netanyahu, Russia’s Vladimir Putin and Saudi Arabia’s crown prince, Mohammed bin Salman, to name a few.

But the wider context is that the Earth is becoming a more hostile environment for humanity. This is driving up tensions, exposing economic limits that have been ignored for centuries and redefining geopolitical realities.

Who is actually winning? In the short term, the biggest windfall from the Iran conflict has gone to companies, executives and shareholders in the US petroleum industry – a major source of campaign funding for Trump – that was struggling with low prices and a production glut at the start of the year, but is now enjoying a spectacular revenue surge while rival suppliers in the Gulf are choked by threats in the strait of Hormuz. Along with Russian and Saudi Arabian petro-companies, US energy suppliers look set to cash in for months to come, even as consumers pay more at the pumps.

At the same time, the war is forcing countries across the world to explore ways to increase their energy independence. In the next few years, that will happen by increasing domestic production of oil, gas and coal. By one reckoning, this has increased the likely 2030 output of fossil fuels by a fifth – an alarming setback for global efforts to reduce greenhouse gas emissions, and a victory for the petroleum industry and the far-right political groups it funds.

But that will not be the final reckoning of this war, which has reinforced the argument for both renewable energy and a concurrent shift in geopolitical alignments. With major oil and gas producers now led by ever more erratic and menacing authoritarian leaders, other countries are looking for alternative ways to generate power. Electric cars, for example, have never been more in demand.

The prime beneficiary is China, which suddenly appears a relative oasis of pragmatic, internationally minded diplomacy and energy independence. Beijing’s bet on renewable power and EVs over the past two decades is paying enormous dividends. Not only has this made it less reliant on fuel imports, it now has a wind, solar and battery export industry that looks set to dominate global markets for many decades to come.

Future historians may well see the Iran war as the moment the US unwittingly ceded leadership to China. If so, it would not be the first time that a change in the world’s energy matrix led to a reordering of the political hierarchy of nations. When humankind taps new power supplies, new empires rise and old ones fall. Realignments tend to be violent.

How empires fall
One of the cornerstones of geostrategic thinking since the start of the Industrial Revolution, 250 years ago, is that the country that controls energy supply controls the world. For most of the past century, that has centered on oil.

“Oil has meant mastery through the years,” wrote Daniel Yergin in his Pulitzer prize-winning book about the decisive role of energy in world politics, The Prize: The Epic Quest for Oil, Money, and Power. Yergin argues oil was a primary reason why Germany invaded the Soviet Union during the second world war, and motivated Japan to attack the US at Pearl Harbor. It was why the US launched Desert Storm to thwart Iraq’s seizure of Kuwait, which would have given Saddam Hussein control over the planet’s most abundant oil supplies. It explained former US president Barack Obama’s comment that energy was “priority number one” for his administration. Earlier this year, it was a primary justification by Trump and other US officials for invading Venezuela, which has the world’s biggest untapped reserves, and it is now a key factor in the war on Iran, which has the fourth highest supply.

Not for nothing has the old joke been revived that the “US is a very fortunate country because everywhere it goes to bring freedom it finds oil.”

But what is different today is the realisation that oil – once considered “black gold” – and other fossil fuels are now a toxic threat to the stability of the climate and the political world order. Now that cheaper, cleaner alternatives are available, the demand for these industrial fuels has to be artificially inflated, propped up by political lobbying, hefty subsidies, disinformation campaigns and military force.

The most spectacular example of an energy transition completely upturning the world order was in the mid-19th century, when the coal-powered gunships of the Royal Navy shredded the fragile coastal defences of southern China to impose a market for the British empire’s most lucrative and unethical commodity: opium. Up to that point, Beijing had been the capital of the world’s biggest economy for most of the previous 2,000 years but its historic advantage in manpower and culture was being lost to fossil-fuelled engines and the spirit-sapping drug trade. The Daoguang Emperor was so deeply in denial about the changes reshaping the world that his actions stirred rebellion among his own people. His forces were crushed by the superior firepower of an industrialised adversary, ushering in an era of western dominance that became known in China as the “century of humiliation”.

Britain’s empire also came to end – albeit it more limply – when its primary source of fuel – coal – was superseded by oil in the early-to-mid-20th century. Back then, the UK had no petroleum supplies of its own which meant it was at a disadvantage to the US. The power shift was confirmed in 1956 when Britain, France and Israel invaded Egypt to try to secure the Suez canal – a vital route for fossil fuels from the Middle East. The US refused to help this imperial adventure by the old world, thereby confirming Washington as the dominant superpower outside the Soviet bloc. Since then, it has steadily expanded its primacy in the age of oil.

That era – and that supremacy – are both now winding down, as the pendulum swings again, this time towards renewables and back to Asia. In the past decade, clean energy investment worldwide has risen tenfold to more than $2tn a year. Last year, it was more than double that of fossil fuels, and for the first time renewables overtook coal as the world’s top electricity source. “We have entered the age of clean energy,” the United Nations secretary-general, António Guterres, observed in February. “Those who lead this transition will lead the global economy of the future.”

There is only one contender for that title: China. It is impossible to understand what is happening in the US, Iran and Venezuela without looking there.

China looks to the future …
The government in Beijing has turned the greatest crisis facing humanity – climate breakdown – into an opportunity to finally lay to rest the “humiliation” of the opium war. For most of the past 30 years, it has been catching up with the west by copying its dirty, coal-driven model of industrialisation, which notoriously made it the world’s biggest carbon emitter. Now, though, it is leapfrogging its rivals on clean energy with astonishing results. For the past two years, China’s carbon emissions have been flat or falling, raising hopes of a historical turning point in the curve of global emissions.

Last year, the amount of wind and solar it had under construction was double the rest of the world combined, helping China to reach an installed capacity of 1,200GW six years ahead of the government’s schedule. Trump absurdly claimed he had not been able to find any wind turbines in China, though in reality the country now has more than the next 18 countries combined.

But the biggest success story is solar, which is now so cheap, abundant and efficient that its generation capacity in China has just overtaken coal for the first time. Meanwhile, petrol and diesel use is also falling because EVs account for more than half of car sales in China.

The country is also utterly dominant in supplying overseas markets with renewable technology. The top four wind turbine makers in the world are all Chinese. It is a similar story of majority market share for the manufacture and export of photovoltaic cells and EVs. China also controls supply of critical minerals, essential for batteries, AI datacentres and hi-tech military equipment.

Last year, more than 90% of the investment growth in China came in the renewables sector. Thanks to these trends, cleantech from China is affordable in many global south nations. The same is happening with battery technologies, which are spreading the market for electric cars to countries in Africa and South America.

China’s clean energy sector is now worth 15.4tn yuan ($2.2tn/£1.6tn), bigger than all but seven of the world’s economies. With every year that passes, this business becomes more important to the state, accounting for 11.4% of China’s gross domestic product last year, up from 7.3% in 2022.

To be sure China is simultaneously the world’s biggest investor in coal and far from a democracy in its domestic politics, but the scale of its renewable industry means Beijing has a growing stake in the success of global climate negotiations. Not just because it is good for the planet, but because it makes solid business sense.

The turbulence caused by the US-Israeli assault on Iran only strengthens its sales pitch.

… while the US goes backwards
While the rest of the world looks for an exit ramp off the exhaust-fumed highway on to a cleaner, electrified, 21st-century freeway, Trump has pulled a U-turn and is accelerating back towards 20th-century smoke stacks without so much as a glance in the rearview mirror.

On the same day he was sworn in for his second term in the White House, Trump signed an executive order withdrawing the US from the 2015 Paris Agreement, as he did in his first term.

But this time he has also announced that he will quit the entire UN Framework Convention on Climate Change, the Cop process that was put in place at the 1992 Earth Summit. In February his administration repealed the 2009 “endangerment finding”, the core US government determination that greenhouse gases threaten public health that has been the legal basis for almost all federal climate regulation over the past 17 years. Without it, power plants, factories and carmakers will have a freer pass to pollute the air and heat the atmosphere.
The US state has essentially been captured by a business group that puts its own interests above those of the nation

Trump has filled the Department of Energy and the Environmental Protection Agency with dozens of former oil industry employees. He has declared a “national energy emergency”, which was a cue for businesses to mine, drill and frack like never before. He has signed at least 20 more executive orders meant to incentivize fossil fuel extraction. And he has granted $18bn in new and expanded tax incentives for fracking, drilling and pumping.

His administration halted the closure of 17GW worth of power plants that use coal, the dirtiest and most polluting fuel, and ordered the US defense department to procure billions of dollars of coal power. Industry executives have shown gratitude with donations and a trophy for the “undisputed champion of beautiful clean coal” given to Trump by the CEO of the largest coal company in the US.

He also used the military – and the federal budget – to assist the petroleum industry by seizing control of Venezuela. (It is not a coincidence that Venezuela and Iran are both key partners to China.) Domination of this country will give the US more influence in setting global oil prices. But for whose benefit? Donald Trump said US companies would tap these fossil fuels and “start making money for the country”. In fact, most of the first billion dollars in revenue was initially stashed offshore in a bank account in Qatar.

After Trump ordered the bombing of Iran, he initially celebrated the spike in crude values: “When oil prices go up, we make a lot of money,” he said, though the “we” evidently did not include the majority of Americans suffering from higher gas costs.

Meanwhile, his government has accelerated the phaseout of tax credits for renewable projects, which has had a chilling effect on the sector with $22bn in clean energy projects cancelled and wind power investment down to its lowest level in a decade. “My goal is to not let any windmill be built. They’re losers,” Trump told oil executives in January.

By the end of last year, downsizing and more than 60 project cancellations began to shake investor confidence in US renewables.

Three dollars of clean energy investment were abandoned for every one dollar announced in 2025, according to an analysis by the E2 thinktank. The record number of factory closures and project reversals eliminated 38,031 clean energy manufacturing jobs – more than in the previous three years combined. Worst hit was the EV and battery sectors, which each accounted for more than $21bn in lost investment. This eroded the global competitiveness of US carmakers at the worst possible moment when EV sales had just started to overtake those of petrol vehicles.

Oil in command
The US state has essentially been captured by a business group that puts its own interests above those of the nation.

During the last presidential election, Trump invited 20 oil executives, including the heads of Chevron, Exxon and Occidental, to his club in Mar-a-Lago, Florida, saying he would scrap barriers to drilling, resume gas exports and reverse car pollution controls if they helped to bankroll his race for office. Mike Sommers, president and CEO of the American Petroleum Institute, said Trump’s legislative agenda “includes almost all of our priorities”.

Big oil poured a record $450m into the campaigns of Trump and Republicans in 2024, according to the watchdog group Climate Power. Then after Trump won, the industry gave another $19m to his inauguration fund. And even though Trump is forbidden by the constitution from running for a third term, fossil fuel money continues to pour into his Pac, including $25m from oil pipeline company Energy Transfer Partners and its CEO, Kelcy Warren.

And these are only the publicly disclosed funds. Nobody knows how much secretive “dark money” is flowing through other channels, though it has been revealed that Trump accepted a gift of a Boeing 747-8 luxury jetliner from the oil-rich Qatari royal family. The similarly wealthy Abu Dhabi royals bought a $500m stake in the Trump family’s cryptocurrency business.

The White House argues the focus on fossil fuels is necessary for national security and “energy dominance”. Increasing supply, it insists, will bring down costs, trim inflation and stimulate the economy.

Ten or more years ago, this might have been true. But today solar and wind prices have fallen below coal and ushered in what the International Energy Agency calls “the cheapest electricity in history”. The Trump administration is denying US consumers these benefits. Electricity prices in the US rose more quickly than inflation even before the Iran war. Meanwhile, the hidden costs of fossil fuels, such as pollution and respiratory diseases hurt national productivity and add to the burden on taxpayers.

In the long term, it is hard to imagine a more self-harming policy. Between 2021 and 2024, the renewable sector was generating jobs 50% faster than the rest of the labour market. This is high-value employment with long-term prospects compared with jobs in the oil and gas extraction industry, which are projected to decline by 6% over the coming decade.

Most disturbingly, all of this creates a perverse incentive for the US to use its economic, diplomatic and military power to stimulate the market for fossil fuels.
The championing of fossil fuels depends on a big lie – that the US and the planet can return to an era powered by climate-destabilising fuels

Last September, Chris Wright, the US energy secretary and a former fracking magnate, went on an arm-twisting tour to Brussels and Milan to press the EU to increase its purchases of US liquified natural gas (LNG). In February, Wright stepped up the pressure, claiming there was “a climate cult” in Europe, after EU leaders agreed to reduce their energy dependency on the US in response to Trump’s talk of seizing Greenland.

The threats did not stop there. Wright said the US would leave the International Energy Agency unless it abandoned its goal of net zero carbon emissions and stopped referring to “climate stuff” in its analyses of renewables, fossil fuels and carbon emissions.

This explains why huge sums of money are now being channelled from the US to support far-right groups in Europe, who are campaigning on anti-net zero platforms.

The championing of fossil fuels depends on a big lie – that the US and the planet can return to an era powered by climate-destabilising fuels. It’s a lie that relies on threatening or downsizing scientific academies, truth-seeking news media and unfiltered online debate.

The US president has repeatedly called the climate crisis a “hoax”, “scam” or “bullshit”, ushering in what has been called a period of “climate hushing” (or “green hushing”). Essentially, this is a campaign to stifle public debate so that people are less aware of the dangers posed by fossil fuels and the benefits of cheaper renewable alternatives. His administration has announced plans to close down or slash budgets for the world’s leading science institutions. Meanwhile the president’s billionaire backers are helping to choke the climate debate in the media. After Elon Musk bought Twitter, now X, scientists report the social media algorithm is suppressing their voices and encouraging misinformation about the climate. Earlier this year, the Washington Post, owned by Jeff Bezos, slashed the size of the paper’s award-winning climate reporting team.

The Trump administration’s obsession with fossil fuels will dwarf the economic and human toll of the Iran war. The world’s hottest 10 years ever recorded have all occurred in the past decade. Extreme weather is increasingly out of control, pushing up food prices, prompting migration and sparking conflict. Many scientists fear the planet is heating faster than expected, pushing oceans, the Amazon, coral reefs, the Arctic and Antarctic ever closer to the point of no return. And worse is to come, with an El Niño expected to supercharge global temperatures in the coming year.

Throughout the world, a huge majority of people want their governments to take stronger action on the climate crisis. So fossil ambitions run up against popular opinion, which means its proponents have to rely on force to maintain control – with more oppression at home and more war overseas, an ever more extreme and violent response to ever more extreme and destructive weather.

All of this makes China suddenly seem a more appealing and serious alternative. This was not previously the case. Beijing used to project the opposite of soft power. Its political system is repressive. It continues to lock up journalists, artists and dissidents. But today there is a narrowing gap in its human rights record compared with the US, while its energy policy is increasingly aimed at halting climate breakdown rather than making it worse.

China, of course, is also building up its military and investing in energy-sucking artificial intelligence – though at much lower levels than the US. This is not to say its intentions are any more benign. But think of it, from the perspective of Europe, Africa or Latin America: do you choose China, which is becoming a modern electrostate that engages in multilateral decision making, and can supply you with more energy autonomy? Or do you pick the US, which appears to be trying to turn the clock back to the 20th century when it comes to fossil fuel domination, and the 19th century when it comes to imperial gunship diplomacy?

Former allies of the US are lining up to visit Beijing and seek balancing relationships with China. Canada’s prime minister, Mark Carney; Britain’s Keir Starmer; Germany’s Friedrich Merz have made the journey in the past few months. Narendra Modi, the prime minister of longtime rival India, visited last year, as did the EU president Ursula von der Leyen. As he did with Trump, Xi has accommodated them from a position of more global authority than any Chinese leader has had since the opium war.

The fightback
You have to grasp at straws until your fingers bleed to find positives in the US government these days, but at least the Trump administration has clearly delineated the battle lines on the future of the planet.

On one side are the vast majority of the world’s people, all of nature, 99.9% of climate scientists and the fastest-growing, greatest-job-creating chunk of the global economy: the clean energy sector.

On the other is Trump and the primary producers and users of fossil fuels, who need enormous taxpayer subsidies to stay profitable and ever greater violence to quell public unease and global opposition. The latter controls the US state – including the military and ICE – and is allied with much of the money of Silicon Valley’s power-thirsty datacentre companies. (The US and its tech oligarchs may be hoping that AI can replace energy as the country’s source of global power – but China is keeping apace on that front, too.)

Will this fossil fuel fascism, that billionaire-backed campaign to crush a green transition by any means necessary, hold back the tide of clean energy autonomy? It cannot be ruled out. The closest thing the world has to a planetary spokesperson recently warned of the dark forces threatening the future of all life on Earth: “Some fossil fuel interests remain hellbent on slowing progress, spreading disinformation, pretending the transition is unrealistic or unaffordable,” Guterres, the UN secretary-general, said last month. “Let’s tell it like it is; the world’s addiction to fossil fuels is one of the greatest threats to global stability and prosperity.”

But the climate will not be bending to the will of even the best funded, most heavily militarised and artificially idealised US administration nor the King Canute at its centre.

Most people realise this. Much of Europe is resisting. China is defiant. India is moving fast on solar. Brazil is pushing a roadmap away from fossil fuels. Colombia just hosted the First International Conference on Transitioning Away from Fossil Fuels. Even in the US, people want their government to do more to prevent global heating.

The fightback is under way in the courts, at elections and on the streets. The most populous and fast-growing state economy of California already gets two-thirds of its electricity from renewables and has pledged to continue expanding wind and solar. Even Texas, the historic home of the US oil industry but also the centre of wind power, is bristling at Maga-led attempts to curtail renewables. Michigan is suing oil companies for delaying funds. Judges in Virginia, New York and New England, including a Trump appointee, have issued injunctions against government efforts to halt windfarm projects. The US president’s popularity has plummeted and polls suggest his party will lose heavily in the autumn midterms – if they are allowed to go ahead without Maga interference.

Despite the deep pockets of the backers of fossil fuel fascism, their resistance will be futile. The movement could become more deranged and violent in its efforts to turn back the clock, suppress dissent and thwart China’s rise. But ultimately, the planet will have the final say.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A nova Era dos Bárbaros - o crepúsculo dos gigantes de vidro


"O problema da humanidade é que temos emoções do paleolítico, instituições medievais e tecnologia divina." — E.O. Wilson

Retomando as recentes reflexões de Helena Freitas, depois de ler este livro e começando com a citação supra, cumpre-me fazer uma reflexão sobre esta era. Aqui vai.

O Crepúsculo dos Gigantes de Vidro
Se olharmos para o espelho da História, a nossa era assemelha-se a uma estranha forma de barbárie sofisticada. Não somos bárbaros no sentido clássico — aqueles que derrubavam portões de ferro —, mas sim bárbaros de luva branca e ecrã tátil, capazes de uma violência sistémica que a tecnologia apenas torna mais eficiente. Esta nova barbárie manifesta-se, acima de tudo, no desprezo pelo mundo vivo e na morte da empatia. Tratamos o planeta como um armazém de recursos infinitos e as pessoas como perfis a abater. Em Portugal, a ascensão de forças como o Chega, com canal televiso próprio no Youtube e o esgoto de propaganda de páginas como o "Sentinela Lusa", ou plataformas de maior alcance como o "Direita TV", perfis da rede X e influencers, assim como diversos grupos de inspiração eugenista e ultranacionalista no Telegram, são o sintoma local de um mal maior: a falência da comunicação. Nestes feudos digitais, a xenofobia e a segregação são vendidas como soluções para um "novo Portugal", enquanto, na verdade, apenas nos devolvem ao tribalismo mais obscuro e especulativo.

Esta rejeição da linguagem comum de proteção à vida ganha contornos de barbárie institucional quando observamos o abandono formal de tratados internacionais. Não se trata apenas de burocracia, mas de um desinvestimento na sobrevivência da espécie. O caso do Acordo de Paris é o mais emblemático deste recuo, com os Estados Unidos a formalizarem a sua retirada em 2026, colocando a maior economia do mundo fora do esforço global para limitar o aquecimento a 1,5°C, enquanto a Arábia Saudita, embora formalmente presente, é acusada de obstruir metas que impliquem o abandono dos combustíveis fósseis. Este padrão de excecionalismo é antigo e profundo: os EUA nunca ratificaram o Protocolo de Quioto nem a Convenção da Basileia sobre Resíduos Perigosos - continuando a ser um dos maiores exportadores de lixo plástico sem controlo estrito -, e permanecem como o único país do mundo que não ratificou a Convenção sobre a Diversidade Biológica.

Vemos, assim, o colapso de uma ordem que se pretendia racional. Quando potências com o maior poder biotecnológico e militar do planeta se recusam a vincular-se a regras de proteção de ecossistemas ou do Mar Alto, abrem caminho para um cenário de eugenia e exploração desenfreada. Quando a ciência é perseguida por conveniência política e os cidadãos são sacrificados a sangue-frio em nome de nacionalismos, o "Gigante de Vidro" da civilização começa a estilhaçar-se. Somos a primeira civilização com ferramentas de deuses e impulsos de paleolítico, onde o belicismo recorrente substitui a diplomacia. No final, esta barbárie não se faz pelo desconhecimento, mas pelo desprezo deliberado pela vida e pela palavra, deixando-nos isolados enquanto observamos a nossa própria humanidade estilhaçar-se através de um retângulo de vidro.

Referências Bibliográficas
1. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. (1944). Dialética do Esclarecimento.
Foco: A análise da "barbárie sofisticada" e como a racionalidade técnica pode levar ao retrocesso civilizacional.

2. ECO, Umberto. (2018). Contra o Fascismo.
Foco: A identificação do "Ur-Fascismo" e as raízes do nacionalismo e da intolerância que alimentam os "feudos digitais".

3. FREITAS, Helena. (2020). A Vida na Terra: Ecologia e Conservação.
Foco: A urgência da proteção da biodiversidade e a crítica ao desinvestimento institucional na sobrevivência da espécie.

4. HAN, Byung-Chul. (2022). Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia.
Foco: O impacto do "retângulo de vidro" na destruição da empatia e na fragmentação da comunicação pública.

5. HARARI, Yuval Noah. (2018). 21 Lições para o Século XXI.
Foco: O colapso das narrativas globais e os perigos da fusão entre biotecnologia e algoritmos (eugenia e controlo).

6. LATOUR, Bruno. (2017). Onde Aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno.
Foco: O abandono dos tratados climáticos pelas elites e a negação da realidade física do planeta.

7. MALM, Andreas. (2016). Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming.
Foco: A resistência de potências como a Arábia Saudita em abandonar os combustíveis fósseis por interesses económicos sistémicos.

8. SNYDER, Timothy. (2017). Sobre a Tirania: Vinte lições do século XX para o presente.
Foco: O aviso sobre a fragilidade das instituições modernas perante o avanço do autoritarismo e da propaganda.

8. WILSON, Edward O. (2012). A Conquista Social da Terra.
Foco: A origem do conflito entre os nossos impulsos paleolíticos (tribalismo) e a necessidade de cooperação global.

Poluição atmosférica responsável por 79 mil mortes anuais na Europa, revela estudo


Um trabalho relaciona a exposição a curto prazo a uma série de poluentes atmosféricos com aproximadamente 146.500 mortes prematuras por ano na Europa, sendo as partículas finas as mais nocivas, responsáveis por 79.000 mortes.

Publicada na revista 'Nature Health', a investigação do Instituto de Saúde Global de Barcelona (ISGlobal) e do Centro de Supercomputação de Barcelona (BSC) fornece a primeira estimativa à escala europeia da mortalidade a curto prazo atribuível aos efeitos combinados de múltiplos poluentes em 31 países, representando mais de 530 milhões de pessoas.

Embora o maior impacto na saúde seja causado pela exposição a longo prazo, a poluição atmosférica a curto prazo pode também desencadear respostas fisiológicas agudas, como inflamação sistémica, desequilíbrio e aumento da coagulação sanguínea, que elevam o risco de mortalidade, noticiou na quarta-feira a agência Efe.

O estudo analisou quase 89 milhões de mortes registadas entre 2003 e 2019 em 653 regiões europeias, combinando dados de estações de monitorização, satélites, uso do solo e variáveis meteorológicas, ajustados para os níveis regionais.

Ao contrário da maioria das investigações anteriores, que se centravam apenas nas cidades ou analisavam um único poluente, este estudo considera quatro poluentes em conjunto: material particulado fino, dióxido de azoto, ozono e material particulado de tamanho intermédio.

"Isto permite uma análise mais precisa de como a exposição a curto prazo afeta as pessoas de forma diferente, dependendo da idade, sexo e causa da morte", explicou Zhao-Yue Chen, investigador do ISGlobal e primeiro autor do estudo.

Analisadas individualmente, as partículas finas causam anualmente aproximadamente 79.000 mortes, seguidas pelo dióxido de azoto com 69.000, do ozono com 31.000 e partículas de tamanho intermédio com 29.000, embora estes números não sejam cumulativos, uma vez que os poluentes tendem a ocorrer em simultâneo e os seus efeitos sobrepõem-se.

As partículas finas são as mais nocivas porque, devido ao seu tamanho, penetram profundamente nos pulmões e podem entrar na corrente sanguínea, desencadeando inflamação.

As partículas maiores afetam principalmente o trato respiratório superior, enquanto o dióxido de azoto e o ozono irritam os pulmões e aumentam a vulnerabilidade a doenças respiratórias.

A poluição do ar não afeta todos da mesma forma: os homens jovens apresentaram maior vulnerabilidade do que as mulheres da mesma faixa etária, de acordo com o estudo, devido à maior exposição ocupacional, ao tráfego e ao tabagismo, bem como ao início mais precoce de doenças crónicas.

No entanto, o padrão altera-se com a idade, uma vez que a partir dos 85 anos, o maior risco é observado nas mulheres, que também apresentam riscos cardiovasculares mais elevados devido à exposição a partículas do que os homens.

“Os nossos resultados apoiam a utilização de modelos epidemiológicos ajustados por sexo, idade e comorbilidades para criar sistemas de alerta precoce especificamente direcionados para grupos vulneráveis”, concluiu Joan Ballester, investigador do ISGlobal e coordenador do estudo.