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sexta-feira, 17 de julho de 2026

O fenómeno do pára-brisas limpo: a dita "viagem confortável" que esconde uma catástrofe ecológica


Durante décadas, quem conduzia pelas estradas de Portugal conhecia um pequeno incómodo inevitável. Ao fim de algumas dezenas de quilómetros, sobretudo nas noites quentes de Primavera e Verão, o pára-brisas ficava coberto de insetos esmagados. Era preciso lavar o vidro, limpar os faróis, remover aquela película de pequenos corpos que se acumulava ao longo da viagem.

Hoje, muitos automobilistas já nem se lembram disso. As viagens fazem-se com os pára-brisas quase limpos.

O fenómeno tornou-se tão banal que poucos se interrogam sobre o seu significado. Afinal, quem haveria de lamentar a ausência de insetos esmagados? E, no entanto, o que a ciência designa formalmente por "fenómeno do pára-brisas" (windshield phenomenon) é, na verdade, um dos sinais mais inquietantes da transformação ecológica do nosso tempo.

O desaparecimento dos insetos não é uma curiosidade estatística nem uma preocupação romântica. Em Portugal, o alerta deixou de ser apenas uma suspeita visual para passar a ser um facto científico incontornável. A publicação do Livro Vermelho dos Invertebrados de Portugal Continental, que contou com forte liderança e coordenação científica nacional, revelou que mais de duas centenas de espécies de invertebrados terrestres e de água doce estão ativamente ameaçadas de extinção no nosso território.

Os insetos constituem uma parte fundamental da biomassa animal terrestre. São a base alimentar de inúmeras espécies de aves, morcegos, anfíbios, répteis, peixes e pequenos mamíferos. Quando os insetos desaparecem, toda a cadeia ecológica começa a vacilar. Uma andorinha não se alimenta de teorias económicas. Um morcego não vive de discursos políticos. Um papa-moscas não sobrevive de boas intenções. Todos dependem de insetos reais, capturados todos os dias, aos milhares. Quando esses insetos escasseiam, a fome instala-se, a reprodução diminui e as extinções locais sucedem-se em absoluto silêncio.

Ao mesmo tempo, tornam-se raros os insetos que desempenham funções vitais. Os polinizadores são o exemplo mais flagrante. Abelhas selvagens, abelhões, moscas-das-flores e borboletas garantem a reprodução de grande parte das plantas silvestres e cultivadas. Para tentar travar este colapso, Portugal aprovou o plano nacional [Polinizadores em Ação]. Desenvolvido em parceria com a comunidade científica da Universidade de Coimbra e o ICNF, este roteiro define mais de uma centena de medidas urgentes para recuperar os habitats destes animais, cientes de que, sem eles, não desaparecem apenas as flores - diminuem drasticamente as colheitas e a nossa própria segurança alimentar.

Mas talvez as histórias mais elucidativas sejam aquelas que envolvem criaturas aparentemente insignificantes. Tomemos as joaninhas.

Durante milhões de anos, as joaninhas foram aliadas silenciosas da agricultura, alimentando-se de afídios e cochonilhas de forma gratuita e altamente eficaz. Depois vieram os pesticidas químicos. Investigadores portugueses ligados ao cE3c (Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais) têm vindo a alertar para esta realidade, tendo inclusive participado em debates científicos de relevo nacional como o documentário O Apocalipse dos Insetos , focado precisamente no esforço urgente para travar esta extinção em massa provocada pelo ser humano. Ao inundarmos os campos com veneno, eliminámos os inimigos naturais das pragas. Sem as joaninhas, as cochonilhas encontraram caminho livre para se multiplicarem, restando ao ser humano a habitual e ingénua surpresa: “Como é possível haver tantas cochonilhas?

A história dos pirilampos é ainda mais poética e, por isso, mais dolorosa. Quem cresceu no campo recorda-se das noites de Verão iluminadas pelos seus lampejos verdes. Hoje, a poluição luminosa e a destruição de habitats afastaram-nos da nossa vista. Mas há um elo invisível e químico: as larvas dos pirilampos alimentam-se de caracóis e escaravelhos. Ao aplicarmos produtos químicos nos jardins e campos, quebramos estas cadeias tróficas.

Projetos nacionais de conservação ativa, como o inovador LIFE BEETLES nos Açores - que conta com a cooperação de investigadores do próprio cE3c -, provam que o caminho tem de ser inverso: focar no restauro dos habitats e na recuperação destas espécies outrora desvalorizadas.

Os ecossistemas não são coleções de espécies independentes. São redes complexas de interdependências construídas ao longo de milhões de anos de evolução. Quando retiramos um fio, outros começam a ceder.

Por tudo isto, o pára-brisas limpo de um automóvel é hoje uma imagem profundamente cinzenta. Não representa uma viagem mais confortável. Representa um silêncio biológico crescente. Um vazio que se instala lentamente nas noites de Verão, nos campos agrícolas e nas bermas das estradas.

Quando os últimos lampejos dos pirilampos se apagarem e as joaninhas sobreviverem apenas nas ilustrações dos livros infantis, talvez compreendamos finalmente que a verdadeira praga nunca foram os insetos. A verdadeira praga foi a nossa incapacidade de perceber que tudo está ligado.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Ecoansiedade pode mobilizar comportamentos pró-ambientais


Publicado no Journal of Risk Research, o artigo “Turning eco-anxiety into pro-environmental behaviour: risk perception as mediator” conta com a coautoria de Francisco Sampaio, docente da Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Porto, juntamente com Sílvia Luís, Ana Loureiro, Jerônimo C. Soro, Catarina Possidónio e Rui Gaspar. A investigação analisou de que modo a ecoansiedade se relaciona com comportamentos pró-ambientais, considerando o papel da perceção de risco ambiental. A ecoansiedade refere-se à ansiedade perante problemas ambientais como as alterações climáticas, a poluição ou a degradação ecológica.

Com base em três estudos complementares, os autores recorreram a uma abordagem exploratória de métodos mistos, a um estudo transversal e a um estudo experimental. No primeiro estudo, refletir sobre emoções e pensamentos associados a problemas ambientais esteve associado a uma maior alocação de donativos a ONG ambientais. No segundo, os resultados apoiaram a hipótese de que a perceção de risco ambiental medeia a relação entre ecoansiedade e comportamentos pró-ambientais autorreportados.

No estudo experimental, a equipa induziu diferentes níveis de ecoansiedade de estado e avaliou a sua relação com a perceção de risco e com a distribuição de donativos por diferentes tipos de ONG. As análises de mediação sequencial sugeriram que níveis mais elevados de ecoansiedade de estado se associaram a maior perceção de risco ambiental e, por essa via, a maior disponibilidade para atribuir donativos a ONG ambientais.

Em termos práticos, o artigo sublinha que a ecoansiedade não deve ser simplesmente patologizada, nem amplificada como estratégia de comunicação. Os resultados apontam antes para a importância de apoiar as pessoas que já experienciam ecoansiedade, promovendo reflexão informada, compreensão clara dos riscos e formas concretas de participação pró-ambiental.

O trabalho conclui que a ecoansiedade pode contribuir para a mobilização pró-ambiental quando acompanhada por uma avaliação reflexiva dos riscos ambientais. Ainda assim, os autores salientam que são necessários estudos longitudinais e novas experiências que manipulem simultaneamente ecoansiedade e perceção de risco para clarificar melhor as relações causais entre estes processos.

Fontes:

quinta-feira, 26 de março de 2026

Análise: como o capitalismo digital e o tecnofascismo estão a reproduzir antigas estruturas de dominação


Em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, o The Conversation Brasil publica uma série sobre os efeitos políticos, sociais e institucionais das redes digitais. Nesta edição, o investigador Vinício Carrilho Martinez, professor da UFSCar, analisa de que modo algoritmos, plataformas e a concentração de poder tecnológico reorganizam o espaço público, intensificam a polarização e abrem caminho para novas formas de autoritarismo. Para ele, o tecnofascismo é uma forma contemporânea de dominação em que a vigilância, o controlo e a indução de condutas passam a operar por meio de plataformas e algoritmos, sob a aparência de liberdade.

O momento global e, em especial, o brasileiro — num ano de eleições gerais no país —, não pode ser entendido apenas como um período de grande aceleração tecnológica, crise política conjuntural e geopolítica ou ainda como uma mutação do capitalismo. Há algo mais além do que a vista alcança: está em curso uma convergência entre o capitalismo digital, a reorganização das formas de controlo e a manutenção de estruturas históricas de dominação.

À escala mundial, as plataformas transformaram dados, atenção e comportamento em mercadoria e em instrumento de poder. No Brasil, este processo agrava-se porque encontra um terreno já marcado pelo racismo institucional, pelo patriarcalismo e pelo pensamento esclavagista. É desta articulação entre a hipermodernidade tecnológica e o passado que emerge a gramática do tecnofascismo.

Podemos considerar o capitalismo digital como uma atualização do próprio capitalismo. O centro da acumulação, porém, desloca-se da produção material para a produção de dados, da mercadoria física para a mercadoria informacional. O dado humano — ações, desejos, medos, rotinas, cliques, palavras digitadas — passa a ser o núcleo da valorização. O humano torna-se objeto de exploração total, já não apenas como força de trabalho, mas como fonte permanente de informação e vigilância.

A fórmula segundo a qual "o produto és tu" ajuda a descrever uma parte do problema, mas não o esgota. Mais do que mercadoria, o sujeito torna-se um trabalhador invisível deste sistema: produz circulação, gera envolvimento (engagement), alimenta plataformas, treina mecanismos, deixa rastos, sustenta cadeias inteiras de rentabilidade sem que essa produção apareça como trabalho. E sem qualquer remuneração.

Convém retomar o problema desde as suas bases. A neutralidade técnica, neste contexto, é uma ficção conveniente. A própria internet, de acordo com as suas origens, não nasceu isenta: surgiu como um projeto militar. A ARPANET (rede de computadores criada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos no final dos anos 1960) é considerada a precursora da internet. A Guerra Fria (1947–1991), a ideia de vantagem estratégica no campo das comunicações e da guerra futura mostram que a técnica emergiu articulada com as necessidades do poder.

Houve processos de democratização, sem dúvida, mas ainda insuficientes para apagar a base originária de controlo. Esta associação entre técnica e política é antiga. O nazismo já o tinha demonstrado com a rádio, convertida em instrumento de difusão ideológica e de concentração do discurso autorizado. Hoje, o dispositivo mudou; a lógica autoritária de exclusão da crítica e de centralização da palavra não desapareceu. Apenas mudou de roupa.

Controlo por adesão
A compreensão dos algoritmos contém essa visão. Eles não são, obviamente, uma abstração neutra. Os algoritmos não se organizam sozinhos, não se responsabilizam, não se corrigem sozinhos e tendem a reproduzir e a aprofundar o imaginário social sedimentado. É o caso da IA (inteligência artificial) que reproduz uma reunião empresarial composta por homens brancos, regista a participação de mulheres apenas de forma subordinada e não consegue inserir a presença de uma mulher negra.

Pois bem: isto não é um erro lateral do sistema, é estrutura, uma codificação da exclusão. O mesmo vale para o regime de visibilidade: um vídeo vindo de uma comunidade indígena, ainda marcada pela sua ancestralidade, não circula; ao passo que a misoginia convertida em espetáculo e a brutalização transformada em recurso mediático encontram ampla difusão. O algoritmo organiza o visível e o invisível. Define o que aparece e o que desaparece.

É justamente aí que o tecnofascismo se diferencia do fascismo histórico e, ao mesmo tempo, o prolonga. O fascismo clássico dependia da coerção visível, da violência direta, da censura, da polícia, do aparato estatal ostensivo. No tecnofascismo, a dominação é internalizada. Torna-se difusa, invisível e quotidiana. O sujeito acredita estar a agir livremente, mas está dentro de uma arquitetura de controlo projetada por algoritmos e sistemas automatizados.

O tecnofascismo não precisa de calar, porque a própria lógica digital já define o que é visível e o que desaparece. O controlo não é imposto de fora; dá-se de dentro, pela adesão ao sistema. É por isso que pode ser definido como o fascismo do algoritmo, o fascismo do like, o fascismo do controlo sedutor. Disfarça-se de liberdade, mas opera como vigilância permanente e como colonização da subjetividade.

O eterno retorno
No plano global, as grandes plataformas (big techs) constituem o núcleo duro deste processo. Não são apenas empresas; configuram-se como novos impérios. Controlam a infraestrutura da comunicação global, privatizam a esfera pública, transformam a comunicação humana em negócio. O capital digital extrai valor do tempo, da atenção e da emoção. Trata-se, em sentido rigoroso, de um capitalismo da vigilância e da extração psíquica. O que se compra e se vende não é apenas consumo, mas comportamento.

Estas corporações não apenas registam o que fazemos; orientam o que devemos desejar, amar, temer ou odiar. O que antes aparecia como um poder mais difuso, hoje apresenta-se de forma ostensiva, mediática, visível. O Estado-plataforma deixou de ser uma hipótese e tornou-se uma realidade dominante.

No Brasil, porém, este processo encontra uma formação histórica específica. Quando se fala em modernidade tardia, não se trata apenas de um atraso cronológico em relação às economias centrais. Trata-se de um passado que está sempre presente, que não se descola. Patriarcalismo, patrimonialismo, nepotismo, racismo institucional, pensamento esclavagista: tudo isto se recompõe e reaparece. Muda de roupa, mas retorna.

O caso da professora negra aprovada em primeiro lugar para uma vaga em linguística africana e atingida pela anulação do concurso mostra exatamente isso: o passado a reaparecer por via do próprio Estado. O racismo institucional não é um acidente. É permanência histórica. É uma das formas pelas quais o passado continua a bater à porta.

A mesma lógica vale para a exploração do trabalho análogo à escravatura. A formação social brasileira entra na hipermodernidade sem ter rompido com formas económicas e mentais pré-capitalistas. A "uberização" talvez seja o exemplo mais evidente da atualização tecnológica da escravização.

O trabalhador sem garantias, sem proteção, sem estabilidade, sem direitos, submete-se ao ritmo de trabalho que conseguir suportar, ao bel-prazer da empresa a cada chamada, a cada serviço, a cada fatia retirada do seu trabalho, sem a contrapartida correspondente. Vale para o motorista, para o estafeta (motoboy), para o trabalhador da cultura, para o professor submetido à plataformização do ensino. Passado e presente, no caso brasileiro, estão absolutamente juntos.

Um passado que permanece presente
É baseado nesta junção entre capitalismo digital, pensamento esclavagista, regime algorítmico de visibilidade e mobilização política reacionária que o tecnofascismo ganha uma forma histórica concreta. A misoginia, o racismo, a adultização, a proliferação neonazi, os discursos anticientíficos e antivax (vacinas) não circulam apenas porque existem produtores desses conteúdos, mas porque há uma economia política da atenção que os favorece.

O envolvimento (engagement) do algoritmo premeia o extremismo. A lógica das plataformas amplia os conteúdos que melhor mobilizam o medo, o ódio e a adesão. O tecnofascismo encontra aí a sua base social real. Se antes ainda se podia insistir na categoria da manipulação, hoje isso já não basta. O que se vê é identificação. O sujeito não apenas consome o discurso; ele reconhece-se, adere à sua gramática, incorpora e reproduz os seus valores.

Os efeitos destes fenómenos são mais intensos no Brasil não apenas porque a regulação é insuficiente, mas porque as condições estruturais são terrivelmente frágeis. A democracia está em processo de fortalecimento, com marcos históricos recentes e fundamentais, como a responsabilização de militares de alta patente por crimes contra a democracia.

Mas isso também evidencia que a disputa segue aberta. O terreno continua fértil para o tecnofascismo porque aquilo que ainda coloniza o Brasil não foi superado. A hipermodernidade não o dissolveu; apenas lhe forneceu novos meios, novas linguagens e novos dispositivos. Talvez por isso a melhor definição do nosso tempo seja mesmo a de realismo trágico. Não se trata de uma distopia futura. Trata-se da forma contemporânea de uma tragédia já instalada no presente.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Pete Hegseth - Trump’s Stupidest Cabinet Member



At a press briefing on Friday, Defense Secretary Pete Hegseth complained about a CNN report that the Trump administration had underestimated Iran’s ability to disrupt global oil traffic by closing the Strait of Hormuz.

“Patently ridiculous,” Hegseth told reporters, adding — even as the strait’s blockage was proving to be Iran’s most powerful leverage in the war — we “don’t need to worry about it.” He also denied that the U.S. bombed the school where some 175 children were killed. Hegseth added that, as to CNN, “the sooner David Ellison takes over that network, the better.”

These remarks are remarkably stupid, on several levels.

First, CNN got it absolutely right in reporting that Trump’s national security team had underestimated Iran’s ability to disrupt global oil traffic. CNN cited “multiple sources familiar with the matter.”

The New York Times published a similar story, reporting that in the lead-up to the U.S.-Israeli attack, “Trump downplayed the risks to the energy markets.”

Even The Wall Street Journal, hardly a New York Times or CNN clone, substantiated the story on Friday, reporting that Trump rejected warnings that Iran would likely retaliate by closing the strait because he believed Iran would capitulate before doing so, and he assumed that even if Iran tried to close it, the U.S. military could handle it.

Second, Hegseth’s comment that we “don’t need to worry about” the blockage of the strait is not only false but flippantly insulting to an American public that deserves to know what the Trump regime is planning to do about soaring prices at the gas pump, directly due to that blockage.

Third, even if Hegseth believes that David Ellison’s ownership of CNN will silence CNN’s critical coverage of Trump, it’s remarkably stupid of Hegseth to say it out loud. “The sooner David Ellison takes over CNN, the better” is an open admission that Trump backed Ellison’s bid to acquire Warner Bros. Discovery, CNN’s parent, to silence criticism.

That deal is still pending, so Hegseth’s admission is likely to fuel even more opposition to it. California’s attorney general has already suggested he’ll go to court to block it. Now other attorneys general, the ACLU, and Democrats in Congress may join the case as co-plaintiffs.

Hegseth’s admission also confirms CNN’s worst fears that Ellison will throttle criticism of Trump - a fear that’s already caused several leading lights to exit. As Variety put it, “Anderson, cooped. Jake, tapped. Erin, burnt. Kasie, hunted. Wolf, blitzed.”

Ellison has already proven himself an unreliable steward of journalistic independence at CBS News. One departing producer there explained in a farewell memo to colleagues that she could no longer work where stories are “evaluated not just on their journalistic merit, but on whether they conform to a shifting set of ideological expectations — a dynamic that pressures producers and reporters to self-censor or avoid challenging narratives that might trigger backlash or unfavorable headlines.”

Finally, Hegseth’s denial that the U.S. is responsible for the deaths of nearly 200 schoolchildren in Iran is belied by mounting evidence that the U.S. did bomb the school. Hegseth’s further insistence that the U.S. “never targets civilians” is refuted by the U.S. military’s killing of at least 157 people on 40 small boats in the Caribbean without evidence they were “narcoterrorists” rather than civilians.

And, friends, this was just one news conference.

Pete Hegseth’s job is so far over his head that he can’t even see it. He evidently believes it’s to cheerlead and defend Trump with bonkers claims like “We didn't start this war, but under President Trump we’re finishing it” and “America is winning decisively, devastatingly, and without mercy” and “we will show no quarter for our enemies.” (“No quarter” means kill everyone and take no prisoners, which is a war crime.)

In the days leading up to the U.S. attack on Iran, Hegseth spent his time criticizing “wokeness” at American universities, feuding with Anthropic over safeguards for AI, and, in the day before the war began, forcing Scouting America to abandon programs aimed at promoting diversity.

He dismisses war crimes, pooh-poohs the rules of engagement, and projects unequivocal belligerence at a time when the United States is rapidly losing whatever moral standing it had in the world.

Granted, it’s difficult to select one of Trump’s Cabinet members as the stupidest. But Pete Hegseth stands out for sheer boneheaded ignorance.

sábado, 14 de março de 2026

Now comes the heat

Iam (mostly) going to take a break from writing about the war for a day, because big though it is, it’s not quite the biggest thing happening on our planet. Or rather, its widespread destruction is taking place inside a larger context. Trump’s endless folly (first tariffs, now a desperately stupid war that has closed the Strait of Hormuz) has caused what everyone is beginning to understand is widespread economic damage. As the Times reported today, “this is the big one,” and “the fallout is rattling households and businesses in neighborhoods all over the globe.”

On a stable planet, though, the damage might be contained and repaired; someone as incompetent as Trump (who is now describing his war as a “short excursion” and insisting that the Strait is in “very good shape”) will eventually (please God) burn himself out. Our bigger problem, as we’re about to be reminded, is that the planet is the furthest thing from stable. The backdrop is about to become the foreground, and with that the drama will shift once more.

It’s already hot, all over the world and here in the United States. That’s been a little hidden these past months, because the country’s population and power center—the northeast corridor from Boston to DC—has had a cold winter; until the last few days of rapid-onset mud season it’s felt like an old-school winter in New England (with sublime skiing, which has kept me sane). And Minnesota, the source of much of the year’s news so far, was cold too, at least in bursts. But we’ve been the exception: in fact, it was the second-warmest winter on record in the continental U.S., and that’s because the West broke every possible record, usually by a mile.

Several cities can now claim winter 2025-26 as their warmest on record, including locations with over a century of data, like Salt Lake City (152 years of data), Tucson (130 years of data) and Rapid City, South Dakota (114 years of data).

Phoenix, Arizona, obliterated its previous record (a record that was only a year old, mind you) by almost 3 degrees, a pummeling of a record in the realm of three-month temperature data.

Albuquerque, New Mexico, clobbered its previous record warmest winter by 3 degrees, according to the Southeast Regional Climate Center. Helena, Montana, Las Vegas and Lubbock, Texas, were among the other cities record warm this winter.

I don’t want to brush by those numbers. Phoenix and Albuquerque have temperature records going back more than a century. If they were going to beat the old record for a three-month stretch, something that shouldn’t happen very often, it should be by a tenth of a degree. That’s how statistics work on a set that large—or it’s how they did work on a stable planet. Three degrees is insane. And if that’s insane, then what’s going to happen in the next week is truly bonkers. A giant heat dome is set to settle in over the Southwest, bringing new temperature records. As the Washington Post reported today, Palm Springs California is projected to reach 104 degrees on Monday; the old record for the date is 95 degrees. Again, that’s statistically bizarre in a way that makes my head hurt.

This record-breaking heat dome will contribute to worsening drought conditions across the Intermountain West.

In Utah, snowpack remains at record low levels according to Meyer. He said that it would take a foot of snow in Salt Lake City for the season to catch up with even the second-lowest seasonal snowfall total — and that a storm of that magnitude isn’t expected to come.

“The knockout punch comes in the form of Utah’s reservoirs, which are only at 40 percent of capacity right now,” Meyer said. “All this means we are likely going to see some very tangible water supply cuts and conservation efforts by the state this year.”

The weather forecast and climate outlook community in Utah was “filled with trepidation” because drought relief looked unlikely, added Meyer, stressing that much more meaningful impacts were possible for agricultural communities as water conservation efforts grow.

“Right now, every drop is going to count this year,” he said.

Across the region, New Mexico was also reporting its lowest snowpack on record and Colorado was in a similar situation.

Here’s how Daniel Swain and the good folks at Weather West described the heat dome that is forming as of this morning

In fact: the strongest mid-tropospheric ridge ever observed in the southwestern U.S. in March is expected to develop by Friday, and then will probably go on to break that new record (set this week) when it re-organizes into an even broader and stronger ridge next week.

In case you’re wondering, this heat is in no way confined to land. The oceans, which have soaked up most of the planet’s excess warmth, are crazily warm right now too.

Sea surface temperatures off the coast of Southern California have risen as much as five degrees above average for the time of year, causing a strong, Category 2 marine heat wave to develop.

These unusually warm waters will provide a boost to air temperatures near the coast, especially at night, preventing them from dropping off as much as they otherwise would.

“A strong to severe marine heatwave is ongoing off the coast of California,” wrote Colin McCarthy, a storm chaser affiliated with the University of California at Davis.

In early March, ocean temperatures reached the mid- to upper 60s at Scripps Pier in La Jolla, California.

“That’s the average ocean temperature for mid-June,” McCarthy said.

And here’s the kicker. All this is happening during a La Niña “cool phase” of the Pacific, something that will soon change. I alerted you exactly a month ago to the likelihood we were going to see an El Niño kick off sometime this summer; in the last few weeks the chances of that have grown stronger, and more to the point it looks like it could be an exceptionally strong “super” version of the warming current. The normally cautious-almost-to-a-fault climate scientist Zeke Hausfather came out with his new forecast this afternoon, and it was a doozy.

I’ve collected 11 different models that have been updated since the beginning of March. Each of these in turn features a number of ensemble members, so that we end up with 433 total ENSO forecasts…

These clearly show that a strong El Niño is indeed likely to develop later in the year. While I’d probably discount some of the higher values (much above 3C) as outliers here, the median and mean across all the models still gives an estimate around 2.5C, which would put it notably stronger than the 2023/2024 El Niño and close to if not matching what we saw back in 2015/2016.

So what does this mean for global temperatures this year and in 2027? All things being equal, the lag between peak El Niño conditions and the global surface temperature response would result in the largest impacts on 2027 temperatures (as El Niño events generally peak between November and January). It would still boost 2026, but probably not enough to set a new record this year.

However, I have to be a bit cautious here. Long time readers may remember my post in May 2023 where I deemed it unlikely that 2023 would set a new record (given this historical lag in global temperature response to El Niño) and argued that 2024 would instead. I was partially wrong – 2023 was weird, and the heat came much earlier than expected. We think the extended triple-dip La Niña event between 2020 and 2023 may have primed the system for more rapid heating, something absent this time around. But we don’t know for sure. Fool me once, and all that.

Either way, this means that 2027 looks increasingly likely to set a new record, perhaps by a sizable margin if we end up on the high end of the range of El Niño forecasts.

That Hausfather and the brasher Jim Hansen are in basic agreement here should terrify us. We’re going to see temperatures unlike any that humans have seen before, which means we’re going to see chaotic weather unlike humans have seen before. If you think this is some kind of lefty enviro fantasy, check out this source: “Due to the increasing concentration of greenhouse gases, the climate system cannot effectively exhaust the heat released in a major El Niño event before the next El Niño comes along and pushes the baseline upward again,” Defense Department meteorologist Eric Webb said.

Therefore, a super El Niño in 2026-27 would disperse more heat than other very strong events in 1982-83, 1997-98 and 2015-16.

And were not going to know what hit us, in several ways. The substack Future Earth Catalog published an interview today with veteran Florida weatherman John Morales which was the best account I’ve seen yet of what the Trump cuts to our scientific system mean in real time.

The cuts to NOAA and the National Weather Service have been devastating. If you look at the statistics of forecast accuracy for tropical cyclone tracks and intensities from the National Hurricane Center, they were off in 2025. And anecdotally, I’m not the only meteorologist who will tell you that day-to-day forecasting has become more challenging. The weather models are flip-flopping from one solution to the next.

Think about how many times TV meteorologists in the fall of 2025 had to show you two or three models with different solutions and say, “Well, this is what this model says, but yesterday it was saying something different.” That leads to more confusion among the public — and it makes our job of saving life and property more difficult.

We’ve been missing 15 to 20 percent of our weather balloon data. And those missing balloons are upstream — out West, in the Plains, in the Intermountain West, and especially in Alaska. That’s where our weather comes from. We’re no longer able to really know what’s going on out there. And nothing provides the detail weather balloons can: every 15 feet, all the way up to 100,000 feet.

So we may not know what’s coming, but we can guess it’s going to be bad. For instance, I noted before that the western snowpack is at record low levels. Even in California, which, due to a couple of record-level atmospheric rivers off the warm Pacific saw lots of midwinter snow, the early heat in the Sierras has already led to widespread melt. I do not think it’s fear-mongering to warn that fire may be a serious danger this season in the West.

And what’s happening in the U.S. will be paralleled in places around the planet as El Niño takes us up the escalator. A new study just found that rising temperatures are already taking many humans past the point where they can live with any kind of comfort. As Todd Woody reports, " the number of days where extreme heat makes it too dangerously hot to walk the dog, sweep the porch and engage in other ordinary pursuits has doubled around the world over the past 75 years, according to new research."

Scientists determined that on average, those 65 and older experience a month a year when heat prevents them from routine activities. Parts of Asia, Africa, Australia and North America are becoming unlivable for senior citizens, the researchers said. Younger adults also are losing time as climate-driven heat restricts their lives for 50 hours a year.

Overall, more than a third of the global population resides in regions where heat severely affects daily life, according to the peer-reviewed paper published Tuesday in the journal Environmental Research: Health.

But it may be getting too hot for some key physical systems too. It seems likely that this is the year the Colorado River system may finally have to deal with the fact that it simply can’t provide the water people have been counting on. A new study last week found clear signs that the Gulf Stream is beginning to drift northward, a “clear sign” that worries about the collapse of the Atlantic Meridional Overturning Current (AMOC) are no mere phantasm.

The findings indicate that the movement of the Gulf Stream could be a “canary in the coal mine” for the AMOC’s collapse. According to their analysis of satellite data, the Gulf Stream has already been nudged northwards from the coast near Cape Hatteras, North Carolina, since the early 1990s. This is likely to be the result of the AMOC dwindling and losing its grip.

We don’t know for sure how the Iran war will play out, nor the El Niño; at the moment, though, things look ominous. All I’m saying is, the next six months could be the ultimate in teachable moments, with rapidly rising prices for oil, and rapidly rising temperatures. And what do you know, we have a midterm exam coming up on November 3.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Viriato Soromenho-Marques: entre vegetarianos e canibais


O Presidente do governo espanhol tem estado debaixo de “fogo amigo” pela sua dupla tomada de posição. Primeiro: condenação da guerra ilegal dos EUA e Israel contra o Irão, iniciada com a particular vilania, confessada sem pudor por Trump, de usar negociações como uma cilada para encontrar o melhor momento para assassinar o líder do regime e o maior número possível de seus colaboradores. Segundo: Recusa de Madrid em autorizar o uso das bases espanholas para o transporte de material norte-americano para o teatro da guerra.

Pedro Sánchez resiste sozinho na União Europeia. Já tinha ficado isolado, em 25 de junho de 2025, quando a NATO decidiu aprovar a absurda proposta do presidente norte-americano de aumentar o orçamento militar de cada Estado-membro para 5% do PIB. No rebanho manso dos líderes dos 32 países da Aliança Atlântico, só Sánchez ergueu a voz para afirmar que esse esforço belicista iria causar danos irreparáveis nos investimentos públicos na saúde, educação e apoio social de todos os países que o aplicassem, prejudicando a qualidade de vida dos cidadãos. Será muito difícil que seja apenas Sánchez a pensar aquilo que é óbvio, mas a verdade é que foi ele o único que teve a coragem de dizer o que pensa sem temer represálias de Trump. Essa coragem revelou, claramente, a profunda cobardia em que assenta a obediência do “Ocidente alargado” por tudo o que Washington diga, faça, ou obrigue os “aliados” a dizer e a fazer.

Os fundamentos da posição de Sánchez, contra o apoio ao ataque ilegal de Washington e Telavive a Teerão, são explicitados pelo próprio da seguinte forma: “Não à violação do direito internacional. Não a aceitar que o mundo só pode resolver os seus problemas através de conflitos e bombas. E, finalmente, não a repetir os erros do passado. A posição do governo de Espanha é esta: Não à guerra”. Perante isso, numa reunião com o Chanceler alemão F. Merz, dia 3 de março na Casa Branca, Trump insultou Sánchez e ameaçou cortar relações comerciais com Espanha. Merz, talvez o vassalo mais obediente de Trump, deu razão ao magnata-presidente na crítica a Sánchez, e reiterou a concordância alemã com a operação militar de mudança de regime em Teerão, afirmando que “O Irão não deve ser protegido pela lei internacional”.

Em Portugal, Durão Barroso, entrevistado pela RTP, com um sorriso trocista de quem se sente herdeiro de Metternich ou de Kissinger, acusava Sánchez de ter cometido um “erro grave”, ofendendo o macho dominante do Ocidente. Com a sua experiência de ter hospedado nas Lajes, em vésperas de guerra, os chefes de governo que em março de 2003 iniciariam a destruição do Iraque, sob o pretexto de mentiras tão grosseiras como as usadas hoje por Trump para destruir o Irão, Durão Barroso sentenciou: “A Europa não pode ser o único vegetariano num mundo de carnívoros”. Quando os europeus começarem a pagar o imenso preço económico da guerra de Trump e Netanyahu, talvez uma dieta de batata e couves seja a única alternativa para muita gente.

Na verdade, o que está em causa é algo de bem mais terrível. O início desta guerra, mostrou para todos os líderes políticos do mundo, que a palavra dos EUA não vale nada. O Presidente da paz, que combatia o intervencionismo de Biden e aspirava ao Nobel, enganou os eleitores do seu país e o mundo inteiro. Em especial, Xi e Putin nunca mais darão crédito a quem mata os chefes de Estado dos países com quem está em negociações de paz. Se não formos capazes, como afirma Sánchez, de recusar o caminho da violência, assumindo a via da diplomacia e do respeito pelos outros, indivíduos ou Estados (como exige a Carta das Nações Unidas), acabaremos por mergulhar numa guerra generalizada, culminando na destruição da civilização humana sob o impacto das 12 000 armas nucleares à espera de entrar na história.

Os infelizes que sobreviverem entre os escombros da última das guerras, vegetarão num inferno, sem destino nem salvação. A escolha dos sobreviventes não será entre serem vegetarianos ou carnívoros, mas entre morrerem à míngua ou cederem ao horror do canibalismo… O Ocidente transformou-se num vácuo moral e num deserto de inteligência. Este Portugal de Montenegro e Rangel (herdeiros de Costa), limita-se a colocar um tapete vermelho a todos os caprichos de Washington. Fomos um império. Hoje somos uma estação de combustível no meio do Atlântico. Uma colónia periférica de um Ocidente que promete terminar num crepúsculo explosivo. Sánchez é o único líder que tem a coluna direita, com pés assentes no realismo da prudência, sem abdicar de princípios universais, onde todos se possam acolher. Infelizmente, nesta Europa, que perdeu o rumo e a alma, Sánchez parece ser a exceção que confirma a regra.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Mais umbigos que cabeças

This Incredible Map Tool Reveals Just How Much the Mercator Map Distorts the World [aqui]

Os provérbios são a nossa enciclopédia de bolso, e quando acordamos para o dia com as más notícias do dia anterior convém saber que "deus é grande e o mundo é pequeno". Tão pequeno que cabe num guardanapo. Era esse mesmo o significado que o latim atribuía à palavra mapa, sinónimo de toalha, lenço ou trapo. E era também mapa que chamavam ao pedaço de lona que, no silêncio expectante do circo, dava o sinal de largada para as corridas de bigas, também utilizadas como carros de guerra, como se aqueles cavalos fossem galopar pelos confins, a galgar fronteiras. Foi na superfície dessas telas que os romanos desenharam os limites do universo conhecido.

Os mapas retratam o melhor e o pior da nossa espécie: a curiosidade sôfrega e inquieta, a fome de descoberta, mas também vaidade agressiva e a sede de conquista e dominação. Os mapas fascinam porque contam histórias e revelam paixões. Mas são também os mapas que constroem nossa visão do mundo. As razões pelas quais o Norte nos aparece sempre virado para cima não são científicas, mas estratégicas e até ideológicas: o alto tem conotações positivas, enquanto o baixo é menosprezado. Associamos a pobreza aos países do Sul e a prosperidade aos países do Norte. A famosa imagem da Terra obtida pela Apollo 17, em 1972 -aquela bola azul, em forma de berlinde - foi rodada para efeitos de publicação, pois só sabemos ler o planeta posicionado dessa forma. No entanto, durante séculos o Leste costumava ocupar a posição superior, porque a luz vem do Oriente, lá onde nasce o dia.

Os mapas contam verdades, mas também algumas mentiras. São atlas das mentalidades, medos e ambições das sociedades que os inventaram. Todos sabemos que a terra é aquela bola redondinha, mas a projeção cartográfica mais utilizada ainda hoje, conhecida como Mercator, esconde distorções interessadas. Tão interesseiras como aquela que, em Tordesilhas, levou o nosso D. João II a reclamar como limites da expansão portuguesa as 360 léguas para lá de Cabo Verde. Foi esse desvio no meridiano do mapa do Tratado que permitiu a Portugal explorar as terras onde hoje se encontra o Brasil. Vistos daqui, os mapas-múndi que navegamos com a ponta dos dedos retratam um Ocidente enorme e central, sobredimensionado num hemisfério Norte que ocupa dois terços e relega o Sul a um minúsculo terço inferior. Não é essa, porém, a visão dos mapas que se estudam nas escolas orientais, onde a China e o Japão ocupam posição central, ou nas australianas onde os mapas retratam o nosso mundo de pernas para o ar.

Desde que se começámos a traçar geografias em guardanapos, tendemos a acreditar que somos e estamos no centro do mundo. Ao longo da história, muitos povos sofreram dessa miragem imprópria para habitantes de um planeta esférico. Segundo os gregos antigos, Zeus soltou duas águias nos confins do universo para saber onde ficava o centro da Terra. Inevitavelmente, as aves encontraram-se em Delfos, lugar marcado para a posteridade na pedra oval a que chamaram de "omphalus", ou seja, umbigo - da mesma forma que os chineses da época se julgavam o "império do meio". Ambos acreditavam ser o núcleo cartográfico do Universo e a única cultura civilizada, cada qual a julgar-se no epicentro de tudo. E talvez seja por isso que o mundo ainda tem mais umbigos do que cérebros. O delírio megalómano tem muitas vezes cinzelado geografias a golpes de invasão, guerra e dominação, em nome de purezas remotas e nações triunfantes. A história prova, porém, que pensamento e ciência resultam do cruzamento dos povos, em rotas de viagens, encontros e trocas. Na verdade, aprendemos sobre nós mesmos quando ousamos olhar outras paisagens e ouvir outras vozes. Só os outros nos dizem quem somos.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Obrigado, Bangladesh

"À saída de uma vila alentejana dou com um dos muitos cartazes que o Chega e o seu chefe, André Ventura, espalharam por Portugal inteiro: “O Alentejo não é o Bangladesh.” Pois não, não é: o Bangladesh não precisa de importar alentejanos para conseguir sustentar a sua agricultura, para fazer as sementeiras e as colheitas, para apanhar a azeitona e a amêndoa. Tivesse o Bangladesh uma barragem como a do Alqueva  - “Construam-me, porra!” (a tal que ia dar trabalho a todos os alentejanos e tornar prósperos os seus agricultores) - e hoje não haveria ninguém a trabalhar no regadio do Alqueva nem a tornar próspera a sua agricultura. Mas, felizmente para os alentejanos, os “violadores, assaltantes e bandidos” com que, segundo Ventura, o “socialismo” e os “partidos de esquerda” encheram o país nos últimos anos, vindos de África, do Bangladesh ou do Brasil, não se importam de fazer o trabalho duro nos campos que a maioria dos alentejanos já não quer fazer. E, mesmo dormindo em barracões ou contentores, ou em casas onde cabem 30 no lugar de três e pagando aos senhorios alentejanos por 30 e não por três, essa gente estranha que o socialismo importou continua a trabalhar, recebendo o ordenado mínimo e vivendo em condições de indignidade. Ou mesmo fazendo trabalho forçado e semiescravo nos campos alentejanos, vigiados e ameaçados por guardas da GNR, em regime de supranumerário e ao serviço de “empresários” agrícolas apoiados por dinheiros europeus e que, tal como André Ventura, vão à missa todos os domingos e são contra o acordo com o Mercosul, porque, dizem, os do Mercosul podem vender mais barato porque não têm as preocupações sociais deles. Obrigado, Bangladesh!

Numa praça de uma aldeia algarvia entro num café cujo interior está submergido por uma intensa vozea­ria, digna de um souk árabe. Mas não - sossega, Ventura -, não são árabes, são algarvias, e esta é a sua ocupação diária: tagarelar e jogar à raspadinha. O dia inteiro, porque não há nada de necessário para fazer que os imigrantes não façam: eles trabalham e os algarvios votam no Chega - ao que parece porque temem que eles venham substituí-los e com isso fazer submergir esta nossa exaltante civilização judaico-cristã. Na mesa em frente da minha estão três mulheres em desabrida gritaria, às quais se vem juntar também uma empregada da casa. E ali estaciona à conversa, até que alguém lhe grita do balcão: “Ó Mena, anda trabalhar que há clientes à espera!” Aí, a provável votante do Chega vira-se, furibunda: “Eles que esperem, não vês que estou na conversa? Era o que faltava!” Por um momento imagino a mesma cena protagonizada por um empregado ou empregada que fizesse parte do rol dos assaltantes, violadores ou bandidos de que fala Ventura - devia ser bonito! Porque o Algarve - que vive quase exclusivamente da prestação de serviços aos turistas - dá-se ao luxo de votar no partido que quer expulsar os que prestam esses serviços e sem os quais todo o Algarve colapsaria em dois tempos. Porque os africanos, brasileiros, asiáticos, essa ralé de assaltantes e violadores, além de servirem nos hotéis, nos restaurantes e nos campos de golfe, também estão na construção civil, ajudando a construir os hotéis, vivendas e aldea­mentos onde os turistas dormem, servidos pelos imigrantes. Obrigado, Bangladesh!

Em Lisboa vou a um lar da terceira idade - por razões pessoais e não em campanha eleitoral. Ali, onde uma sociedade sem tempo para os pais nem espaço para a velhice entrega os seus velhos a guardar, não há um só, uma só trabalhadora portuguesa: uma só! São todas africanas e, sobretudo, brasileiras - que, com o seu feitio de ternura inata, substituem-se aos filhos ausentes, tratando os utentes por “minha querida”, “meu amor”. Suponho que sem estes imigrantes os nossos pais e avós estariam abandonados em casa ou ao frio nos jardins públicos, servindo de cenário para as reportagens televisivas sobre os reformados. Obrigado, Bangladesh!

Aliás, apesar de todas as lamentações, se muitos portugueses ainda recebem pensões de reforma, e actualizadas anualmente acima do valor da inflação, devem-no às contribuições dos imigrantes que cá trabalham para a Segurança Social, permitindo inverter o que parecia vir a ser um caminho sem retrocesso em direcção à insustentabilidade financeira. Em Espanha, o Governo socialista acaba de avançar para a legalização extraordinária de meio milhão destes imigrantes, desde que não tenham antecedentes criminais; em Portugal, André Ventura pretende expulsá-los todos ou, não o conseguindo, obrigá-los a pagar contribuições e impostos durante cinco anos antes de poderem ter acesso a quaisquer benefícios: um esbulho cristão. Perdoa-lhes, Bangladesh!

Ainda em Lisboa, como tantos de nós tantas vezes para não ter de sair para almoçar, chamo a Uber Eats, e lá aparece um indiano, paquistanês ou bengali escorrendo água da chuva e sem tempo a perder para tirar o capacete. Imagino-o à noite, no seu barracão atulhado de outros “assaltantes” como ele, longe do seu país, da sua aldeia, da sua mulher, dos seus filhos, dos seus pais — como outrora os nossos emigrantes na Alemanha ou em França, cujos descendentes hoje votam à distância no Chega. Imagino-o na sua solidão diária, contando os dias e os anos até que uma lei desumana lhe permita o reagrupamento familiar, e sem que nenhum de nós, a quem eles tanto servem, se detenha a pensar como viverão estes homens na flor da idade e privados de tudo — estes “violadores”, como assegura o Dr. Ventura -, mas de cujas violações, assaltos e bandidagem não temos notícia. Obrigado, Bangladesh!

O Dr. André Ventura, licenciado em Direito e candidato à Presidência da República, também está em guerra contra o comportamento deste “jornalismo”, que, tal como “os partidos de esquerda” e o “socialismo que mata”, desvaloriza “tudo o que é violador, assaltante e bandido que entra em Portugal”. O Papa Francisco, um homem que os cristãos e os não cristãos respeitavam, disse em tempos que o que matava era “este capitalismo”, e não o socialismo. Mas é sabido que Ventura não gostava do Papa Francisco, achava-o nada menos do que “um anti-Cristo”. Bem vistas as coisas, Ventura não é cristão, é católico português, coisa bem diferente. “Este jornalismo”, de que Ventura não gosta, é aquele que revela os números e as verdades que contrariam as suas teses sobre os imigrantes: que são eles que respondem pelos lucros da Segurança Social e, graças a isso, a contenção do défice público; que são eles que asseguram uma taxa de natalidade positiva; que são eles que garantem a viabilidade económica da agricultura, da construção civil, do turismo, das pescas; que são eles que limpam as ruas das nossas cidades, que nos trazem comida ou remédios a casa, que tomam conta por nós dos nossos pais e avós, que constroem as pontes, as estradas, as vias férreas e as Expo com que o país se quer mostrar modernizado - e, ao contrário do que queria Ventura, a taxa de criminalidade entre os imigrantes é irrelevante. O que Ventura não suporta é que o jornalismo recorde isso aos portugueses, que vá ouvir os empresários que reclamam mais imigrantes e não menos, que desfaça a tese insultuosa de Ventura de que os imigrantes vivem de subsídios. O que não suporta é que o jornalismo demonstre que é ele que vive de mentiras, chegando ao ponto de inventar, em directo na RTP, uma “notícia do dia” sobre um cigano que teria entrado aos tiros numa escola, “disparando para o ar sobre as crianças” (?) - e que era absolutamente falsa, como tantas outras que ele e o seu partido divulgam sem sombra de pudor. E não gosta que o jornalismo conte que há elementos do Chega entre os grupúsculos neo­nazis de camisas pretas que querem derrubar a democracia - a que Ventura prefere chamar o “sistema”.

“Deus, pátria, família e trabalho”, eis o credo de André Ventura, “o candidato do povo” contra o sistema. Soa familiar e é familiar. Pobre povo se algum dia voltar a querer viver em ditadura, às mãos de quem quer pôr isto na ordem! Logo verá o chefe dizer-lhe que se ocupe da família e do trabalho, que de Deus e da pátria ocupa-se ele. E assim viveremos mais 50 anos felizes, como as nações sem história.

Minha análise
Janala (janela), chabi (chave), balti (balde), almari (armário), baranda (varanda) ou saban (sabão) são apenas alguns dos vocábulos semelhantes entre o português e o bengali. Foi no século XVI, em plena época dos Descobrimentos, que os portugueses chegaram ao território de Bengala, atracando no porto de Chittagong. Por ali permaneceram e deixaram vestígios, não só na língua, mas também na arquitetura e na culinária. Aliás, o primeiro homem a escrever uma gramática bengali foi frade agostinho Manoel de Assumpção, já no século XVII. A obra, intitulada ‘Vocabulario em idioma Bengalla e Portuguez”, foi publicada em 1743.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

A Senda da Altitude

Em tempos perigosos em que cobiça e desumanidade rimam com grosseira desmemória, os povos caminham para o abismo. A voracidade ultraliberal põe o nosso Mundo finito a ferro e fogo, ruína e saque. Nem as riquezas do fundo dos mares escapam agora aos novos ogres (os que chamam a essa rapina dos recursos vitais...«liberdade») ! Sempre a ânsia do lucro para poucos.
Nunca como hoje o sentido de leveza da vida residiu mais na busca da Altitude, individual e colectiva. A partilha, a fraternidade, o amor, a poesia, a arte, a busca de saberes, são o sal na estrada dos homens e mulheres sábios. 
Por isso de novo evoco a pintora Lourdes Castro (1930-2022), nome maior da arte portuguesa, a quem ouvi louvar a desprendida altitude que só se afirma no avançar do nosso caminhar na existência, sem egoísmo, acima de vãs vaidades, sempre na busca e partilhas de brisas essenciais: «Eu não gosto do nome 'velhice' e então inventei outra palavra, que é 'ALTitude' (do alemão 'alt', idade). Quando se entra em altitude é assim» ! 
Numa entrevista conduzida pelo jornalista João Pacheco (Expresso, 1-IX-2019), dizia a artista: «é bonito isto de as coisas na vida se irem transformando, irem gerando outras. Continua-se a respirar». Sim, é isso. Abraçar o Mundo de que fazemos parte ínfima, sentindo as suas misérias e os seus anseios. Com memória. Com utopia. Com altitude.

P.S. Um dos trabalhos da série Sombras Projectadas (Lourdes Castro com René Bértholo): os homens medem-se aos palmos na sua capacidade de solidariedade e leveza.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Aguiar-Branco ataca candidatos presidenciais



O presidente da Assembleia da República, José Pedro Aguiar-Branco, criticou os candidatos presidenciais, em especial Luís Marques Mendes. Num artigo publicado no semanário Expresso, Aguiar-Branco confessa-se impressionado com “a rapidez com que o debate tem resvalado para uma lógica de suspeição generalizada sobre os políticos”.

"O escrutínio é indispensável. A desconfiança permanente não”, alega.

“Lançam-se insinuações sobre o percurso pessoal e profissional dos adversários. Exigem-se exercícios de divulgação que em muito transcendem os deveres normais de transparência e prestação de contas. E incute-se, a tudo isto, a ideia de um julgamento ético em praça pública. Confundindo transparência com devassa, responsabilidade política com julgamento moral e escolha democrática com avaliação pública de caráter, obrigando os eleitores a serem juízes da probidade moral dos políticos”, acrescenta.

Aguiar-Branco escreve ainda que, durante a campanha, têm sido abordadas matérias que pertencem exclusivamente à competência do Parlamento, como é o caso de uma eventual revisão constitucional. “Este desvio tem consequências. Ao afastar temas estruturantes do seu enquadramento institucional, criam-se expectativas irrealistas nos cidadãos, confundem-se competên­cias entre órgãos de soberania e enfraquece-se a responsabilização democrática. Produz-se ruído, não clareza. Ausência de responsabilização, não prestação de contas”, considera.

A segunda figura do Estado dirige-se indiretamente a Marques Mendes, que sugeriu uma comissão de ética que decidiria "em situações de graves violações da ética política", ainda antes de ser candidato. “Reconheço que a proposta possa parecer apelativa à primeira vista. Enquanto presidente da Assembleia da República, considero-a inaceitável. Não apenas pelo contexto, mas sobretudo pelo princípio em causa”, considera.

Aguiar-Branco diz que “a democracia assenta num princípio claro: os representantes eleitos respondem politicamente perante os eleitores e juridicamente perante as autoridades competentes, nos termos da lei. Não respondem a instâncias informais, não eleitas e externas ao sistema constitucional”.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Podemos estar a viver uma “extinção silenciosa” de aranhas únicas em Portugal

A aranha Macrothele calpeiana é uma das espécies que tecem as suas teias em forma de túnel

Fonte e mais imagens: Wilder 
Os grandes incêndios dos últimos anos e a perda de habitats, aliados à falta de recursos para investigação, podem levar ao desaparecimento de muitas espécies de aranhas únicas em Portugal e no mundo, sem sequer darmos conta, afirma Sérgio Henriques.

O alerta foi lançado numa entrevista à Wilder dada por este cientista português, líder do grupo de especialistas em aranhas e escorpiões da União Internacional para a Conservação da Natureza e especialista da Sociedade Zoológica de Londres.

Sérgio Henriques salienta também a singularidade do território subterrâneo português: “Para quem alguma vez sonhou em visitar o centro da terra e encontrar uma ‘selva’ tropical perdida no tempo, esse local existe, e fica nas cavernas de Portugal.”

Wilder: Estão para já descritas 829 espécies de aranhas em Portugal Continental. Este número é muito diferente de outros países europeus?
Sérgio Henriques: Os números variam muito de país para país, tal como o conhecimento que cada país tem da sua fauna. Será muitíssimo raro que exista alguma espécie nativa de aranha em Inglaterra que ainda não esteja descrita cientificamente, mas acontece todos os anos em Portugal. E mais vezes aconteceria, se houvesse recursos para estudar estes animais.

Ainda assim, Portugal tem um número considerável de espécies para a área que ocupa, devido à sua localização geográfica e à diversidade de habitats. Estamos localizados numa região de elevada biodiversidade, o Mediterrâneo. Ponto de encontro entre dois gigantes, África e Europa, Portugal foi um refúgio para muitas espécies durante a última glaciação: temos animais que sobreviveram aos impactos desta época no nosso país, mas foram erradicados de outros países do Norte da Europa.

As nossas cavernas são o melhor exemplo disso. Nelas temos espécies relictas [de grupos que já ocorreram na superfície mas que estão hoje isoladas nestas cavernas], cujos parentes mais próximos estão na Costa do Marfim, por exemplo. Essas são espécies de aranhas que já terão ocorrido numa área bem mais extensa do que a que hoje ocupam, mas cujos descendentes apenas sobreviveram no calor e segurança das cavernas portuguesas, tendo sido erradicadas em todos os outros habitats próximos na superfície.

Para quem alguma vez sonhou em visitar o centro da terra e encontrar uma ‘selva’ tropical perdida no tempo, esse local existe, e fica nas cavernas de Portugal.

W: E é possível estimar quantas espécies de aranhas existem em Portugal, incluindo aquelas que ainda não foram descritas?
Sérgio Henriques: Tenho a certeza de que o número será muito maior do que é hoje, mas não é possível fazer uma estimativa fiável. O número de espécies de aranhas descritas em Portugal cresce todos os anos e não me parece que vá parar tão cedo. Mas sem apoio, estas descrições são esporádicas e estão sobretudo dependentes de amadores.

Alguns fazem trabalho de topo, mas temos outros sem grande mérito, que descrevem espécies que claramente não são diferentes das anteriormente descritas. Alguns trabalham em colaboração com cientistas portugueses e com as autoridades, mas outros vêm “passar férias” e recolhem espécies em áreas naturais sem permissão de colheita e traficam-nas para fora do país.

Além disso, desta forma algumas áreas mais turísticas acabam por ser bem mais estudadas, como a costa algarvia, mas sabemos menos acerca do Interior do país, apesar da sua enorme riqueza biológica e da proximidade a Espanha. Pelo que é impossível fazer previsões sobre a velocidade com que novas espécies serão descritas ou registadas pela primeira vez para Portugal, quantas serão realmente válidas, e quando é que essas descrições vão começar a abrandar por estarmos a chegar ao número real de espécies que temos.

W: Os grandes incêndios que aconteceram nestes últimos anos podem estar a colocar em perigo aranhas únicas no país e no mundo?
Sérgio Henriques: Muitas das espécies de aranhas portuguesas estão adaptadas a incêndios ocasionais de baixa intensidade; algumas até podem depender deles. No entanto, os incêndios recorrentes com temperaturas muito elevadas, que afectam uma área enorme, dão pouca capacidade a alguns destes animais de recuperar. Particularmente quando já resta muito pouco habitat e as únicas áreas que se salvaram são urbanas ou agrícolas.

Além disso, Portugal não é um país enorme. E por isso, quando uma espécie ocorre apenas aqui, nunca ocupa uma área grande e não tem muita capacidade para se mover e viver noutros lados. E espécies como essas têm uma forte ligação à terra, são muito dependentes do seu habitat especifico e da estabilidade desse habitat.

W: E exemplos concretos de espécies afectadas?
Sérgio Henriques: Uma das que temo ter sido afectada pelos incêndios recentes é a Nemesia berlandi. É apenas conhecida de Fagilde, no Centro do país, e não era vista há quase 100 anos. Até que encontrei duas tocas numa pequena floresta.

Ao contrário de outras aranhas buraqueiras, que constroem tocas verticais com uma tampa, a N. berlandi parece construir tocas horizontais, o que a coloca em maior risco de não sobreviver às temperaturas elevadas de um incêndio. Infelizmente, o local onde encontrei as duas tocas era a única zona natural naquela área, que é sobretudo urbana ou agrícola, e a pequena floresta ardeu recentemente. Temo que não restem muitos outros locais apropriados para esta espécie viver.

É possível que algumas aranhas desta espécie tenham consigo sobreviver, mas tal como tem acontecido nas ultimas décadas, não há recursos para estudar esses animais. Na verdade, podemos estar a viver uma extinção silenciosa em que muitas espécies únicas do nosso pais desaparecem sem que saibamos, ou desaparecem antes mesmo de sabermos que existiam aqui.

W: Há outras ameaças para a conservação das aranhas?
Sérgio Henriques: Existem várias ameaças que parecem afectar as aranhas e outros invertebrados. A perda de habitat é uma das maiores e em Portugal está por vezes relacionada com os incêndios. Mas também com a urbanização e com a indústria mineira. Esta afecta particularmente a nossa fauna cavernícola, que é exepcionalmente única!

Mas temos também a construção de barragens, que prejudica os rios e inunda largas áreas únicas e de importância natural. E o aquecimento global, que impacta por exemplo a subida do nível do mar e aumenta a perda de habitat dunar (já afectado muitas vezes por outras ameaças), mas também causa a subida das temperaturas em habitats de alta montanha.

É provável que existam várias outras ameaças importantes que não tivemos ainda oportunidade e recursos para medir, uma vez que os esforços têm sido dirigidos para espécies endémicas [espécies que ocorrem apenas em território nacional]. Mas para além da perda de habitat, o uso de pesticidas agrícolas e a captura ilegal para venda ou coleccionismo têm certamente impacto em algumas espécies de aranhas portuguesas.

W: Os cientistas envolvidos nos trabalhos da Lista Vermelha de Invertebrados, como é o teu caso, estão a avaliar qual é o risco de extinção de várias centenas de animais invertebrados em Portugal Continental. Quantas espécies de aranhas estão a ser avaliadas?
Sérgio Henriques: As espécies-alvo desta Lista Vermelha são as endémicas do nosso país, que totalizam 42 espécies de aranhas, porque tememos que possam estar particularmente ameaçadas devido à sua distribuição reduzida. Por apenas existirem no nosso pais, a avaliação feita a nível nacional, como acontece neste projecto, é na realidade uma avaliação global

Esta aranha, apesar de ser endémica da Peninsula Ibérica – e não apenas de Portugal – é a única espécie que actualmente tem protecção oficial, neste caso pela rede Natura 2000. Por esse motivo, havia interesse científico e legislativo em analisar o seu estado de conservação.

Pessoalmente acho que é um imperativo moral protegermos o que é nosso. Se não o fizermos, quem o fará por nós?

W: Na tua opinião, ainda há muito para descobrir sobre as aranhas em Portugal?
Sérgio Henriques: Existe de facto muito a fazer, e não é que não haja gente nova com muito interesse ou conhecimento para isso, mas nunca houve apoio. E temo que ainda vamos perder muito mais habitat, espécies únicas e cientistas competentes, antes de termos o apoio que seria preciso.

Neste momento, nenhum aracnólogo activo português reside em Portugal. Emigrámos todos e continuamos a trabalhar no estrangeiro. Enquanto Espanha, por exemplo, embora esteja longe de ser perfeito, apoia vários destes especialistas.

Há muito ainda a fazer, mas qualquer boa casa começa com boas fundações. E qualquer campo de conhecimento biológico, antes de produzir conhecimento preditivo, tem de ter as fundações do conhecimento descritivo. E estas seriam descobrir que espécies temos e saber onde estão. O que se traduz em termos basicamente alguém a ser apoiado para descrever as espécies do nosso país que nunca foram descritas pela ciência, e a executar trabalho de campo para saber onde e quando essas e outras espécies ocorrem.

Este tipo de informação pode parecer de pouco valor, ou de interesse secundário, mas é a base que nos permite saber quão ameaçadas estão as nossas espécies, como as podemos proteger e quais são os impactos das alterações climáticas, que por sua vez nos poderão ajudar a prevenir os impactos em nós mesmos e nos recursos de que dependemos.

Essa informação também nos vai ajudar a produzir mais e melhor produtos agrícolas (sem recursos a pesticidas) e a descobrir novas substâncias, medicamentos mais eficazes ou melhores métodos de tratamento, que podem salvar vidas humanas. Sem esta base, todo este potencial se perde. Como uma biblioteca que arde sem que alguém tenha tido oportunidade de a ler.

Descubra as espécies de aranhas que já foram identificadas na Wilder e outras histórias sobre estes invertebrados ainda tão pouco conhecidos em Portugal, aqui.

quinta-feira, 30 de outubro de 2025

O que a Grokipedia diz sobre Sánchez ou Feijóo? As diferenças entre a nova enciclopédia de Elon Musk e a Wikipédia tradicional


"Diga a verdade, toda a verdade e nada além da verdade." Sob esse lema, o bilionário Elon Musk anunciou o lançamento da Grokipedia , uma nova enciclopédia online gratuita com a qual espera desafiar a Wikipédia, que ele criticou em diversas ocasiões por ser, em sua opinião, excessivamente tendenciosa em relação à ideologia woke e aos princípios progressistas . Lançada esta semana com mais de 800 mil artigos (ainda muito longe dos mais de 7 milhões que a Wikipédia possui em inglês), a intenção de Musk é expandir seu acervo usando seu modelo de Inteligência Artificial (Grok) e, aos poucos, conquistar a adesão dos usuários.

Por ora, as diferenças e nuances ideológicas já são mais do que evidentes em alguns artigos, a começar por aquele que se refere ao próprio Musk. Segundo a Wikipédia, ele "apoia figuras, causas e partidos políticos de extrema-direita em todo o mundo", enquanto para a Grokipedia, ele "influenciou debates mais amplos sobre progresso tecnológico, declínio demográfico e vieses institucionais (...) em meio a críticas da media tradicional, que apresenta uma cobertura consistentemente de esquerda".

Essas inconsistências também são observadas em artigos que fazem referência a Donald Trump, Joe Biden e outras figuras públicas, como George Floyd , cuja morte nas mãos da polícia desencadeou uma onda de protestos antirracistas nos EUA . Sobre Floyd, a Wikipédia inicia seu artigo afirmando que ele "era um homem afro-americano que foi morto por um policial branco em Minneapolis" após ser preso "depois que um funcionário de uma loja suspeitou que Floyd estivesse usando uma nota falsa de 20 dólares". A introdução da Grokipedia é bem diferente: "Ele era um americano com uma longa ficha criminal que incluía condenações por roubo à mão armada, posse de drogas e furto no Texas, de 1997 a 2007".

Existem também diferenças nas definições do movimento feminista Me Too ou simplesmente na palavra "gênero" em referência ao sexo biológico de uma pessoa. De acordo com a Wikipédia, "género é o conjunto de aspectos sociais, psicológicos, culturais e comportamentais de ser homem (ou masculino), mulher (ou feminina) ou um terceiro género", e enfatiza que "embora o género frequentemente corresponda ao sexo biológico, uma pessoa transgénero pode se identificar com um género diferente do sexo que lhe foi atribuído ao nascer". A Grokipedia, por outro lado, afirma que "género se refere à classificação binária dos seres humanos como masculino ou feminino de acordo com seu sexo biológico, definido pelo tipo de gâmetas produzidos e pela anatomia reprodutiva associada". Afirma ainda que "evidências empíricas apoiam o sexo biológico como um binário estrito em humanos, com distúrbios do desenvolvimento sexual (condições intersexuais) afetando aproximadamente 0,018% dos nascimentos e representando anomalias de desenvolvimento, e não terceiros sexos viáveis".

Mas as diferenças entre a Grokipedia e a Wikipédia também são evidentes em artigos que se referem à Espanha , a começar pelo que menciona o primeiro-ministro, Pedro Sánchez. Aqui estão alguns exemplos (comparando a versão em inglês da Wikipédia, já que a Grokipedia está disponível apenas em inglês):

Pedro Sánchez
O artigo da Grokipedia enfatiza, em seus parágrafos iniciais, que sob sua liderança, a Espanha experimentou um "crescimento do PIB superior à média da zona do euro nos últimos anos", mas também cita sua "relutância em cumprir as metas de gastos com defesa da OTAN , o que diferencia a Espanha de seus aliados em termos de compromissos de segurança". Menciona ainda "as recentes investigações de corrupção envolvendo sua esposa" e que ele aceitou uma lei de anistia "para permanecer no poder".

A Wikipédia, por outro lado, não menciona as investigações judiciais sobre o círculo de Sánchez até depois dos primeiros 20 parágrafos e salienta que as acusações contra a sua esposa foram feitas pelos Manos Limpias, "um sindicato de extrema-direita".

Alberto Núñez Feijóo
No caso de Alberto Núñez Feijóo, a Wikipédia menciona, em seus parágrafos iniciais, a infame foto dele com o narcotraficante Marcial Dorado , "amplificada por adversários políticos durante a campanha de 2023", e indica posteriormente que o líder do PP "negou qualquer irregularidade, afirmando que os contatos foram casuais e anteriores à sua presidência, e que não havia acusações legais contra ele". A Wikipédia, que dedica cinco parágrafos a essa fotografia em sua versão em espanhol, mal a menciona em inglês, afirmando apenas que "em 2013, membros da oposição pediram sua renúncia após a publicação de fotografias de meados da década de 1990 nas quais ele aparecia com Marcial Dorado, que mais tarde foi condenado por narcotráfico".
Santiago Abascal

A Wikipédia o define como "um político espanhol que é presidente do Vox, um partido político de extrema-direita, desde 2014", enquanto a Grokipedia não menciona o Vox e afirma que ele o fundou "para defender a unidade constitucional espanhola, o controle rigoroso da imigração ilegal, a defesa das estruturas familiares tradicionais e o liberalismo econômico", além de mencionar que ele recebeu "duras críticas da grande mídia e de instituições de esquerda".

Arnaldo Otegi
"Na sua juventude, foi membro da ETA, uma organização armada separatista, e foi condenado. Participou ativamente nas negociações de paz malsucedidas em Loyola e Genebra em 2006, bem como nas negociações subsequentes que culminaram no cessar-fogo definitivo da ETA em 2011 e no seu desarmamento completo em 2017", afirma a Wikipédia no seu primeiro parágrafo. No entanto, as ligações do líder do EH Bildu à ETA são detalhadas muito mais extensivamente na Wikipédia: "Ele é um político separatista basco e antigo membro da ETA , o grupo armado nacionalista basco responsável por mais de 800 mortes na sua campanha pela independência de Espanha. Juntou-se à ETA na adolescência, durante a transição espanhola para a democracia na década de 1970, participou nas suas operações de comando e fugiu para França em 1977 para evitar a prisão, antes de ser encarcerado pelo seu envolvimento num rapto."

Franco
Ambas as enciclopédias online definem Franco como um ditador, embora a Grokipedia afirme que sua liderança "pôs fim à instabilidade política e à violência revolucionária da Segunda República Espanhola , que testemunhou greves generalizadas, incêndios de igrejas e assassinatos cometidos por milícias de esquerda".

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