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domingo, 23 de agosto de 2026

Resíduos de painéis solares podem chegar a 402 milhões de toneladas até 2060


A rápida expansão da energia solar está a criar um novo desafio ambiental: o destino dos painéis fotovoltaicos quando chegam ao fim da sua vida útil. Um estudo internacional publicado na revista Nature estima que o volume global de resíduos de painéis solares poderá atingir entre 297 e 402 milhões de toneladas até 2060.

A investigação, que envolve investigadores da China, Austrália e Suécia, incluindo Jian Zuo, professor da Adelaide University, alerta, contudo, que esta crescente quantidade de resíduos pode transformar-se numa oportunidade económica. Segundo os autores, a reciclagem adequada dos painéis fotovoltaicos poderá gerar benefícios económicos acumulados de centenas de milhares de milhões de dólares até 2060, podendo atingir valores próximos de um bilião de dólares.

“A energia solar é essencial para a transição para um sistema energético de baixo carbono, mas não podemos ignorar o que acontece aos painéis solares no final da sua vida útil”, afirma Jian Zuo. Para o investigador, é necessário começar desde já a planear a reciclagem, de forma a transformar o fluxo crescente de resíduos numa fonte de materiais, em vez de num problema ambiental.

Os painéis solares contêm materiais com valor económico, como silício, prata, cobre e telúrio. Incluem também metais como chumbo e cádmio, que podem representar riscos ambientais caso os equipamentos sejam eliminados de forma inadequada.

Para avaliar as diferentes possibilidades, os investigadores desenvolveram um modelo integrado que analisou 1708 cenários de reciclagem em 32 regiões do mundo, considerando tecnologias disponíveis, preços dos materiais, comércio internacional e políticas de subsídios.

Os resultados indicam que a combinação de tecnologias de reciclagem adaptadas a cada região com o recurso a instalações de reciclagem externas poderá proporcionar os maiores benefícios económicos e ambientais. Esta abordagem permitiria reduzir custos e emissões, sobretudo através do encaminhamento dos resíduos para países com tecnologias de reciclagem mais avançadas e economicamente competitivas.

A solução levanta, contudo, uma questão de equidade. A concentração da reciclagem nas regiões com maior capacidade tecnológica poderá fazer com que os benefícios económicos fiquem igualmente concentrados, deixando países de menores rendimentos com uma parcela reduzida dos ganhos.

“A via de reciclagem mais barata ou eficiente a nível global não é necessariamente a mais justa”, alerta o investigador, defendendo que as políticas de reciclagem devem ter em conta não apenas a eficiência económica, mas também a distribuição dos benefícios e dos impactos ambientais.

O estudo aponta para a possibilidade de recorrer a subsídios decrescentes, que seriam reduzidos progressivamente à medida que a reciclagem se tornasse economicamente viável. Segundo os investigadores, este modelo poderia melhorar a distribuição dos benefícios entre regiões e exigir menos investimento do que a manutenção de subsídios permanentes.

O valor dos materiais recuperados será também determinante. Uma subida dos preços de matérias-primas como a prata, o alumínio e o silício poderá aumentar a rentabilidade da reciclagem, enquanto a evolução tecnológica deverá contribuir para reduzir os custos dos processos.

Para os investigadores, a cooperação internacional será essencial para preparar o setor para o aumento dos resíduos fotovoltaicos. “Precisamos de encarar os painéis solares como parte de uma economia circular, e não como um produto descartável”, defende Jian Zuo.

A conclusão surge num momento em que a indústria fotovoltaica ainda tem oportunidade de criar capacidade de reciclagem antes de o volume de equipamentos em fim de vida atingir o seu pico. Para os autores, antecipar esse investimento será fundamental para evitar que a transição para a energia solar crie um novo problema de resíduos à escala global e para garantir que os materiais dos painéis possam voltar ao ciclo produtivo.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Europa: estamos preparados para o fim de vida de 1 milhão de baterias?


Mais de um milhão de baterias de veículos elétricos (VE) poderão atingir o fim da vida útil até 2030, tornando-se num dos “fluxos de resíduos com crescimento mais rápido” a nível mundial.

As vendas globais de VE dispararam nos últimos anos, ultrapassaram os 20 milhões de unidades e já representam cerca de 25 por cento de todos os carros novos vendidos no mundo. O boom dos VE foi também impulsionado pela guerra contra o Irão, que continua a fazer disparar os preços do petróleo e do gás.

Na verdade, mais de 1,24 milhões de carros totalmente elétricos foram vendidos na Europa no primeiro semestre de 2026, o que representa um aumento de 33,7 por cento face ao mesmo período do ano passado.

Veículos elétricos são mais ecológicos do que carros a gasolina?
Os VE começam frequentemente com uma “dívida de carbono” mais elevada do que os carros a gasolina e a gasóleo, porque exigem muito mais energia para serem fabricados.

Muito disso deve-se à produção das baterias, que necessita de enormes quantidades de eletricidade para gerar o calor requerido durante a fabricação. Embora essa eletricidade possa ser produzida a partir de renováveis, muitos países continuam a depender da queima de combustíveis fósseis poluentes.

Minerais como lítio, cobalto e níquel, necessários nas baterias de VE, levantam também preocupações ambientais e sociais.

Um relatório de 2023 da Amnistia Internacional concluiu que a exploração de minerais críticos deu origem a uma série de violações de direitos humanos, incluindo despejos forçados e agressões físicas.

Embora a mineração moderna continue a ser controversa, a investigação mostra que os benefícios ambientais dos VE superam o impacto da sua produção intensiva em energia.

Um relatório de 2020 da organização Transport & Environment (T&E) concluiu que os VE têm melhor desempenho do que os carros a gasóleo e a gasolina em todos os cenários, mesmo em redes elétricas intensivas em carbono, como a da Polónia, onde são cerca de 30 por cento mais limpos do que os carros convencionais.

No melhor cenário, em que um VE é alimentado por eletricidade limpa e a bateria é produzida com eletricidade limpa, os veículos elétricos já são cerca de cinco vezes mais limpos do que os equivalentes convencionais.

“Fundamentalmente, os dados mostram que os VE alimentados com a eletricidade média amortizam a sua ‘dívida de carbono’ decorrente da produção da bateria ao fim de pouco mais de um ano e poupam mais de 27 toneladas de CO₂ ao longo da sua vida útil, em comparação com um equivalente convencional”, lê-se no relatório.

“Os VE que fazem quilometragens elevadas (por exemplo, veículos partilhados, táxis ou serviços tipo Uber) poupam até 77 toneladas ao longo da sua vida útil (em comparação com veículos a gasóleo).”

Resíduos de baterias de VE tornam-se preocupação crescente
Grande parte dos VE é alimentada por baterias de iões de lítio (LIB), do mesmo tipo que se encontra em muitos equipamentos eletrónicos do dia a dia, como smartphones, computadores portáteis e consolas de jogos.

Mas, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), o número de baterias de iões de lítio e similares que chegam ao fim da vida útil deverá aumentar acentuadamente a partir de meados da década de 2030. É nessa altura que a bateria já não consegue armazenar ou fornecer energia de forma eficaz, porque se degradou ao longo do tempo.

Isso significa que cerca de 1,2 milhões de baterias de VE poderão tornar-se resíduos nos próximos quatro anos. Em 2040, prevê-se que esse número chegue aos 14 milhões.

Em simultâneo, a procura de baterias de iões de lítio está a aumentar, o que intensifica a pressão para extrair minerais críticos e aumenta o risco de uma futura escassez de lítio.

Embora as baterias de VE possam ser recicladas, fazê-lo é notoriamente difícil e dispendioso. Antes de uma bateria poder sequer iniciar o processo de reciclagem, tem de passar por uma fase de preparação demorada, que implica a descarga, desmontagem e separação dos seus componentes.

Existem também riscos de segurança associados às reações químicas usadas na reciclagem das baterias, que podem libertar substâncias tóxicas como o ácido fluorídrico. Estes compostos representam riscos graves para a saúde e segurança dos trabalhadores e podem mesmo danificar os equipamentos das unidades de reciclagem.

Por isso, especialistas defendem uma “expansão significativa” das infraestruturas de reciclagem, capaz de gerir os volumes de resíduos futuros e recuperar, em segurança, os materiais valiosos necessários à produção de novas baterias.

“Os VE são uma parte essencial da transição para uma economia de baixo carbono, mas o seu sucesso a longo prazo depende da forma como gerimos, de forma eficaz, o fluxo de resíduos associado, reforçando ao mesmo tempo o abastecimento de minerais críticos”, afirma James Skifmore, da consultora ambiental Valpak.

“Ampliar a capacidade e a eficiência das infraestruturas circulares será fundamental para recuperar materiais valiosos, reforçar as cadeias de abastecimento, reduzir a dependência da extração de recursos virgens e maximizar a sustentabilidade a longo prazo da transição para os VE.”

Em toda a Europa, empresas estão a correr para alcançar precisamente isso.

Podem as baterias de VE ser recicladas de forma mais eficiente?
O projeto ReLiB, liderado pela Universidade de Birmingham, no Reino Unido, está a desenvolver tecnologias de reciclagem que, afirma, irão colocar o país na “linha da frente” da investigação e desenvolvimento.

Os investigadores pretendem desenvolver e ampliar tecnologias que elevem as taxas de recuperação de materiais das baterias recicladas de cerca de 50 para 90 por cento, apostando em processos de desmontagem e separação mais rápidos e eficientes.

A União Europeia financiou também um projeto de quatro anos, coordenado pelo Centro Tecnológico LEITAT, em Espanha, que visa substituir a desmontagem manual e lenta por sistemas semiautomatizados capazes de desmantelar as baterias em segurança, recuperando cerca de 95 por cento dos componentes.

O projeto BATRAW, financiado pela UE, irá igualmente trabalhar na atribuição de uma segunda vida às baterias, já que algumas baterias de VE podem deixar de ter capacidade suficiente para alimentar um carro, mas continuar aptas para funções de armazenamento de energia menos exigentes, em vez de serem imediatamente recicladas.

O projeto está a desenvolver formas mais seguras de transportar baterias antigas e a explorar como as novas baterias podem ser concebidas para serem mais fáceis de reparar e reciclar.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

O Atolamento das Vaidades


Ontem, Donald Trump declarou que a guerra com o Irão está a correr “melhor do que qualquer um esperava”. Está a delirar, é claro. E os seus delírios são a razão pela qual o preço do petróleo voltou a cerca de 100 dólares por barril e - como explicarei em breve  - o preço real é muito superior a isso.

A guerra gratuita de Trump contra o Irão transformou-se num atoleiro notável - notável porque a única coisa que mantém a guerra em curso é a vaidade de Trump. Perdeu efectivamente a guerra nos primeiros tempos, quando se tornou evidente que o regime de linha dura do Irão tinha sobrevivido ao ataque inicial e que os militares norte-americanos não conseguiam manter o Estreito de Ormuz aberto. Mas Trump é psicologicamente incapaz de admitir o fracasso. Assim, a guerra continua, enfraquecendo os Estados Unidos a cada dia, enquanto ele procura alguma forma de transformar a sua derrota abjeta numa vitória.

E as declarações de que as consequências económicas da guerra foram contidas parecem agora perigosamente prematuras.

É verdade que, durante o primeiro fecho do Estreito, os preços do petróleo não subiram tanto como muitos analistas - incluindo eu próprio, em certa medida - esperavam. Parte do petróleo do Golfo Pérsico chegou aos mercados contornando o Estreito de Ormuz, principalmente através do oleoduto saudita para o Mar Vermelho. A China reduziu drasticamente as suas importações de petróleo. E o mundo compensou uma parte substancial da escassez de oferta reduzindo os seus stocks.

O segundo encerramento de Ormuz pode ser pior, por vários motivos. Os aliados houthis do Irão estão agora a atacar navios no Mar Vermelho, ameaçando esta válvula de segurança. Além disso, os stocks estão agora muito mais baixos do que quando o conflito começou e não podem servir de reserva daqui para a frente.

Talvez o mais importante a perceber sobre a situação actual, no entanto, é que o petróleo é mais caro do que parece.

Ninguém queima petróleo bruto. O petróleo precisa de ser refinado para se transformar em combustíveis utilizáveis, principalmente gasolina e gasóleo. E há uma escassez global de capacidade de refinação. Isto reflecte em parte a guerra no Irão, mas também a campanha surpreendentemente eficaz da Ucrânia contra a infra-estrutura energética de Vladimir Putin.

Esta escassez de capacidade de refinação ajudou a manter os preços do crude baixos - porquê comprar crude se não se pode refiná-lo? Mais importante, porém, significa que os preços dos produtos petrolíferos para os consumidores finais são muito mais elevados do que seria de esperar, tendo em conta o preço do petróleo bruto. O gráfico no início deste post mostra o preço do gasóleo no mercado grossista, que mesmo durante o cessar-fogo falhado estava muito acima do seu nível pré-guerra e está agora próximo do seu pico anterior.

O spread geral - a diferença de preço entre um barril de crude e o preço dos produtos refinados a partir desse barril - explodiu, de cerca de 25 dólares por barril antes da guerra para mais de 65 dólares agora:

Do ponto de vista dos consumidores finais, isto equivale a um aumento de 40 dólares por barril no preço do crude. Na prática, o mundo está a lidar com o equivalente a 140 dólares pelo petróleo, embora o preço anunciado ronde "apenas" os 100 dólares.

Prenuncia uma catástrofe económica? Não, ainda não. Mas não é um bom sinal.

A desaceleração da inflação no mês passado parece agora temporária. Com os preços da energia a subirem novamente - para não falar do impacto inflacionista da nova ronda tarifária de Trump, imposta sob a desculpa absurda de que as nações não estão a fazer o suficiente para acabar com o trabalho forçado - as taxas de juro vão quase certamente subir, intensificando a pressão sobre as famílias e as empresas. As taxas de longo prazo, refletindo os futuros aumentos esperados da Fed, são já demasiado elevadas:

Ainda assim, as coisas podiam ser piores. E podem estar prestes a piorar. O Wall Street Journal refere que Trump está em "modo de vingança" e que as forças armadas dos EUA estão a enviar tropas para o Médio Oriente.

E se Trump insistir no fracasso, intensificando drasticamente a sua guerra desastrosa, os impactos económicos, para não falar dos humanos, serão muito mais graves.

terça-feira, 23 de junho de 2026

António Guterres exige "toda a verdade" sobre o custo climático da IA

O secretário-geral da ONU avisou que o mundo precisa de agir com "muito mais urgência" para limitar o aquecimento global. O secretário-geral da ONU, António Guterres, instou os líderes do setor da Inteligência Artificial a “dizerem toda a verdade” sobre o impacto ambiental dos centros de dados, apontando o dedo aos combustíveis fósseis.

“Chega de custos escondidos. Chega de impor este fardo aos mais vulneráveis. É tempo de dizer toda a verdade. Se a IA quer contribuir para a construção de um futuro melhor, precisa de ser honesta sobre o seu custo atual”, disse António Guterres esta terça-feira, durante o seu discurso na Semana de Ação Climática de Londres, um evento anual realizado na capital britânica.

O secretário-geral da ONU anunciou o lançamento da Iniciativa de Transparência Ambiental da IA, que exigirá que os gigantes globais da inteligência artificial calculem e divulguem a pegada ambiental das suas atividades — em termos de carbono, água e uso da terra, por exemplo. As empresas ficam comprometidas, então, a abastecer essas atividades com energia renovável até ao final da década.

“As comunidades desconhecem muitas vezes o impacto ambiental da infraestrutura que está a ser desenvolvida à sua volta”, sublinhou Guterres, reconhecendo que a IA é “exigente em termos de terra, água e energia”, embora possa contribuir para “acelerar as soluções climáticas”.

Os centros de dados - os repositórios de servidores que alimentam a IA e outros serviços digitais - consomem energia de forma extremamente intensiva e atingiram a marca dos 448 terawatts/hora (TWh) de eletricidade em 2025. A consultoria Gartner estima um aumento de 26%, elevando o consumo para 565 TWh e a potência para 132 GW em 2026. As projeções da Agência Internacional da Energia (AIE) apontam para um consumo que pode variar entre 945 TWh e 1.050 TWh até 20230.

Guterres pede “mais urgência”
Numa altura em que a Europa enfrenta uma vaga de calor e vários países, como o Reino Unido, França e Itália, batem recordes de calor, o secretário-geral da ONU alerta que é preciso agir “com muito mais urgência”.

“Devemos agir com muito mais urgência para limitar rigorosamente a extensão e a duração de qualquer ultrapassagem de 1,5°C”, disse Guterres, referindo-se ao limite de aquecimento estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015, em comparação com os níveis pré-industriais.

Para além da proposta relativa ao setor tecnológico, o secretário-geral da ONU lançou também um “apelo global à ação sobre o metano”, o segundo maior contribuinte para as alterações climáticas a seguir ao dióxido de carbono (CO2), com o objetivo de alcançar “emissões próximas de zero em toda a cadeia de valor”.

Para isso, Guterres propõe uma série de metas relacionadas com as fugas de metano na indústria do petróleo e gás e com a queima, que consiste na queima do gás natural emitido durante a extração de petróleo sem o seu aproveitamento.

Guterres defende também a redução das emissões do setor agrícola e dos aterros sanitários.
"Exorto a indústria dos combustíveis fósseis a assumir a responsabilidade e a fazer o que já deveria ter sido feito há muito tempo", disse António Guterres, sublinhando que "só em 2025, foram queimados cerca de 167 mil milhões de metros cúbicos de gás, o equivalente ao consumo anual de África".

"Não podemos continuar a depender de um sistema baseado em combustíveis fósseis que alimenta tanto a crise climática como a crise energética", declarou o secretário no discurso durante a conferência em Londres.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Projeção máxima de aquecimento global cai 1 ºC por causa das renováveis


As projeções mais pessimistas para a subida da temperatura até ao fim do século foram revistas em baixa, à medida que as medidas de mitigação começam a dar frutos

A queda acentuada do custo da energia solar e eólica tornou um futuro altamente dependente de combustíveis fósseis cada vez mais improvável e as políticas climáticas estão a ajudar a reduzir as emissões, que já ficam abaixo das antigas projeções de pior caso

Alguns dos principais cientistas do clima do mundo consideram agora que o aumento de 4,5 °C até 2100, anteriormente projetado, deixou de ser plausível e reduziram o limite superior do seu cenário mais pessimista de aquecimento global para 3,5 °C acima dos níveis pré-industriais

Os novos modelos resultam do Scenario Model Intercomparison Project (ScenarioMIP), que elaborou projeções climáticas com base em cenários alternativos de futuras emissões e alterações no uso do solo. Liderado por um comité internacional de cientistas de topo, as suas conclusões serão integradas em futuras avaliações do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) da ONU

Ainda assim, as projeções mais pessimistas ficam muito longe do limite máximo de 2 °C acordado pelos países no Acordo de Paris de 2015 e continuariam a provocar consequências desastrosas para o planeta.

Como foram modeladas as temperaturas futuras mais extremas?
Os cientistas simularam vários cenários para projetar o melhor e o pior caso de aquecimento global até ao ano 2100.

Foram considerados fatores como a futura população mundial, o consumo de energia, as fontes de energia, o investimento na adaptação e mitigação das alterações climáticas, as políticas climáticas e a colaboração entre países.

Os cenários mais pessimistas imaginam um mundo em que as políticas climáticas e os esforços de mitigação são enfraquecidos ou invertidos, e em que o uso de combustíveis fósseis aumenta, a par de tecnologias e estilos de vida muito intensivos em recursos e energia.

Um uso intensivo de combustíveis fósseis ultrapassaria as reservas atuais, o que significaria recorrer a depósitos ainda por descobrir, cuja extração se tornaria viável graças a futuras tecnologias.

Os modelos assumem também o fim da queda, que já dura há uma década, nos custos das energias renováveis, possivelmente porque os minerais necessários para painéis solares, turbinas eólicas e baterias de veículos elétricos se tornam escassos ou ficam presos em disputas comerciais.

A falta de cooperação na resposta às preocupações ambientais globais, incluindo progressos insuficientes em tecnologias de baixas emissões, poderá agravar a situação.

Um forte crescimento económico e a concorrência regional, o ressurgimento do nacionalismo, receios quanto à competitividade e à segurança e conflitos regionais podem levar os países a dar prioridade a questões internas ou regionais face à mitigação das alterações climáticas. Segundo o estudo, isto poderia conduzir ao colapso das políticas climáticas internacionais e nacionais.

Os modelos de pior caso projetam que o consequente pico de emissões provoque alterações irreversíveis nos componentes mais lentos do sistema terrestre, como o oceano profundo ou as calotes e geleiras, que regulam o clima global.

Embora este cenário seja improvável, os seus impactos seriam catastróficos.

Ao longo deste ano serão realizadas novas simulações com Modelos do Sistema Terrestre, que incluirão também os efeitos das retroações do ciclo do carbono, e os seus resultados poderão alterar as projeções.

Quais são os cenários alternativos?
O relatório modela igualmente cenários progressivamente mais moderados, que vão de emissões elevadas até meados do século seguidas de reduções rápidas, a políticas climáticas reforçadas que levam o mundo a atingir a neutralidade carbónica o mais depressa possível, limitando aquilo que o estudo designa como a agora “inevitável” ultrapassagem da meta preferencial de 1,5 °C do Acordo de Paris. Os modelos prolongam-se até ao ano 2500.

Se as políticas climáticas atuais continuarem inalteradas, estimativas preliminares apontam para uma subida da temperatura de cerca de 2,5 °C. Se as medidas de mitigação forem adiadas mas o mundo conseguir alcançar a neutralidade carbónica até ao fim do século, os modelos indicam que a subida da temperatura poderá atingir 2 °C.

Mesmo cenários de baixas emissões podem bloquear alterações catastróficas do nível do mar e dos mantos de gelo que são irreversíveis à escala de tempo humana. Uma ultrapassagem temporária dos 1,5 °C, mesmo que revertida, pode também causar danos duradouros em ecossistemas vitais, como recifes de coral e florestas tropicais.

Desenvolvidos em meados da década de 2010, os cenários anteriores utilizavam dados reais de emissões até 2015. Os novos modelos estendem esse período até 2023 e descrevem melhor a forma como os sistemas da Terra respondem ao aquecimento – por exemplo, quanto CO2 os oceanos e as florestas absorvem à medida que as temperaturas sobem.

sábado, 2 de maio de 2026

Novo ouro negro: há uma corrida para reciclar baterias de carros elétricos

A transição global para a mobilidade elétrica está a acontecer a um ritmo alucinante nas estradas de todo o mundo. Efetivamente, mais de um em cada quatro automóveis vendidos a nível global durante o ano de 2025 já foi totalmente elétrico, dependendo inteiramente de baterias de iões de lítio para funcionar. Por isso, surge agora um problema de proporções titânicas no horizonte. O que vamos fazer quando todos estes acumuladores de energia chegarem ao fim da sua vida útil? De facto, a pressão gigantesca sobre o acesso a minerais críticos obrigou a indústria mundial a focar-se agressivamente na tecnologia de reciclagem. É por isso que há uma corrida para reciclar baterias de carros elétricos.

Reciclar baterias de carros elétricos: o novo ouro negro
Em primeiro lugar precisas de ter a real noção dos números esmagadores que o mercado automóvel vai enfrentar muito em breve. As estimativas mais recentes apontam que cerca de 1,2 milhões de baterias de veículos elétricos vão atingir o limite das suas capacidades já em 2030, um número que vai explodir para uns assustadores 14 milhões até ao ano de 2040.

Neste sentido, um estudo revelador publicado em conjunto pela Organização Europeia de Patentes e pela Agência Internacional de Energia mostra que o mercado entrou em modo de sobrevivência. Como resultado, a inovação para a circularidade e reciclagem disparou de forma incrível. Os registos de novas tecnologias nesta área apresentaram um crescimento anual espantoso de 42% entre 2017 e 2023. Adicionalmente, este valor esmaga completamente a média de crescimento da inovação tecnológica geral, provando que descobrir formas de reaproveitar o lítio e o cobalto é a prioridade máxima das grandes indústrias.

O domínio absoluto da Ásia na tecnologia de ponta
Além disso, esta autêntica corrida ao ouro tecnológico não está a ser disputada de forma equilibrada no mapa global. A Ásia assumiu uma liderança verdadeiramente avassaladora neste setor crítico, representando atualmente 63% de todas as inovações internacionais registadas no último ano avaliado.

Por outro lado, o panorama asiático também sofreu reviravoltas internas impressionantes. Se até 2019 o mercado era totalmente dominado por gigantes japoneses e coreanos como a Toyota e a LG, o cenário mudou drasticamente. Desta forma, a empresa chinesa Brunp assumiu a liderança incontestável, impulsionando a quota global da China de uns meros 5% em 2013 para uns formidáveis 29% na atualidade.

A estratégia europeia de sobrevivência
Paralelamente, a Europa tenta encontrar o seu próprio espaço nesta guerra de patentes, representando cerca de 20% das inovações globais. Ao invés de se focar puramente no fabrico, o mercado europeu está a especializar-se fortemente na tecnologia de recolha complexa e na transformação química exata necessária para extrair as preciosas matérias-primas de baterias mortas e injetá-las em unidades novas.

Consequentemente, os especialistas máximos das agências europeias de patentes e de energia defendem acerrimamente que a competitividade futura do nosso continente depende da criação de um sistema circular robusto. A ideia central é que apenas com legislação favorável e inovação focada será possível aliviar a pressão brutal sobre as cadeias de abastecimento internacionais. Também reduzir o perigoso impacto ambiental da extração mineira tradicional.

Entretanto para apoiar este ecossistema vital, as plataformas digitais europeias já começaram a mapear ativamente o terreno. Ferramentas avançadas de rastreio tecnológico monitorizam agora de perto o trabalho brilhante de quase seis dezenas de startups. Também de universidades europeias que lutam diariamente nos laboratórios. Portanto, se a Europa quiser manter os seus carros a circular no futuro sem depender inteiramente de fornecedores externos, a única saída possível é dominar a arte de reciclar o passado. São sem dúvida tempos interessantes para quem está a apostar em reciclar baterias de carros elétricos.

Mais informações
  1. Acesso ao relatório completo: “Circularidade das baterias: tendências de inovação para uma futura fonte de materiais críticos
  2. O Estado da Inovação em Energia 2026 da AIE
  3. Plataforma de energia limpa da OEP inclui agora a circularidade das baterias
  4. Deep Tech Finder (DTF) da OEP
  5. Observatório de Patentes e Tecnologia da OEP
  6. Versão beta da cartografia de armazenamento de energia
  7. Pplware/SAPO - Baterias Usadas e Fábricas de Reciclagem: Detalhes sobre a nova megafábrica de reciclagem na Europa e o conceito de Schwarzmasse || Black Mass || Massa Negra
  8. AZoCleantech - Tecnologias de Reciclagem em 2026: Um guia técnico sobre os métodos de hidrometalurgia e reciclagem direta que estão a dominar o mercado este ano.
  9. GlobeNewswire - Mercado de Reciclagem 2026-2032: Relatório sobre o crescimento exponencial deste mercado, previsto para atingir biliões de dólares nos próximos anos.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

RCP8.5 Is Officially Dead

The international committee responsible for the official scenarios that feed into climate modeling that are the basis for most projective climate research and the assessments of the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) has just published the next generation of climate scenarios.

Big news: The new framework has eliminated the most extreme scenarios that have dominated climate research over much of the past several decades — specifically, RCP8.5, SSP5-8.5, and SSP3-7.0. This is an absolutely huge development in climate science which will have lasting impacts across research and policy.

The future is not what it used to be.

Today’s post commends the researchers who have brought climate scenarios more in line with current understandings, but also raises some significant continuing issues with the scenarios.

Let’s get started . . .

The new scenarios come from the Coupled Model Intercomparison Project (CMIP) — a project of the World Climate Research Programme (WCRP), co-sponsored by the World Meteorological Organization, the International Science Council, and UNESCO’s Intergovernmental Oceanographic Commission.

Under CMIP, now in its seventh iteration, sits another little-known committee with responsibility for developing the scenarios necessary for earth system models to project future climate.1 That committee — called ScenarioMIP — just published the new scenario framework that will underpin the IPCC’s Seventh Assessment Report (AR7) and much of the research that it will draw upon.

In a paper released earlier this month, Van Vuuren et al. (VVetal26) introduce a new set of seven scenarios. The authors write of the obsolete high end emissions scenarios (emphasis added):

“For the 21st century, this range will be smaller than assessed before: on the high-end of the range, the CMIP6 high emission levels (quantified by SSP5-8.5) have become implausible, based on trends in the costs of renewables, the emergence of climate policy and recent emission trends.”

Read that again — The high end scenarios are Implausible.2

I disagree that the implausibility of the high-end scenarios resulted from the falling costs of renewables or the emergence of climate policy, but that is a debate for another day.

What matters today is that the group with official responsibility for developing climate scenarios for the IPCC and broader research community has now admitted that the scenarios that have dominated climate research, assessment, and policy during the past two cycles of the IPCC assessment process are implausible: They describe impossible futures.

Tens of thousands of research papers have been — and continue to be — published using these scenarios, a similar number of media headlines have amplified their findings, and governments and international organization have built these implausible scenarios into policy and regulation.

We now know that all of this is built on a foundation of sand.

What changed
The new CMIP7 ScenarioMIP framework offers seven scenarios spanning a range from “VERY LOW” through “HIGH.” The current naming convention drops the radiative-forcing target labels of the SSP era — there is no “8.5” scenario, and no “7.0” scenario, but as I’ll show below, each scenario has a radiative forcing level in 2100.

I ran the available new scenarios (HIGH, MEDIUM, LOW, and VERY LOW) through the FaIR calibrated and constrained ensemble that Sanderson and Smith (2025) used to characterize the CMIP7 set (FaIR v. 2.2.0 as described in their README file). I then ran each of the five tier-1 SSPs through the same emulator with identical parameters to ensure that the results are apples-to-apples. The full methodology, data, and code is in the appendix to this post.

The headline results follow.
CO₂ emissions: fossil fuels and industry, 2000–2100

The chart above shows fossil-fuel and industry CO₂ emissions for four CMIP7 scenarios alongside the five tier-1 SSPs and the two main reference scenarios from the 2025 IEA World Energy Outlook.

Note the massive gap between the new HIGH and SSP5-8.5. The new HIGH reaches 71 Gt CO₂/yr in 2100 — far below SSP5-8.5 at 128 Gt in 2100. Nothing in the CMIP7 set comes close to SSP5-8.5. The new HIGH also sits below SSP3-7.0 by about 9% in terms of cumulative emissions to 2100. Note also the gap between MEDIUM (solid yellow) and SSP2-4.5 (dashed yellow), which I’ll return to below.

Both of the most recent IEA near term scenarios — which run to 2050 — fall below MEDIUM and SSP2-4.5.

The table below compares the CMIP7 scenarios to their closest AR6 analogues, showing that the overall range has constricted. The higher scenarios have come down and the lower scenarios have come up — except VERY LOW, which moved down.
2100 effective radiative forcing and end-of-century temperature
The table below lists AR6 and CMIP7 scenarios from highest to lowest 2100 radiative forcing. The middle column shows the average global temperature change from an 1850-1900 baseline, under the climate emulator used by CMIP7. The right column shows the average temperature change for the SSPs as projected by the IPCC AR6.
Interestingly, the projected 2080-2100 temperatures of the SSPs decreased from their AR6 values based solely on recent updates to the FaIR climate emulator.3 These changes resulted primarily from the updating of emissions trajectories from 2014 (used in AR6) to 2023 (used by CMIP7). The more moderate emissions trajectories resulted in lower projected end-of-century temperature increases.

The new CMIP7 HIGH is 0.9°C cooler than SSP5-8.5 in apples-to-apples terms (and 1.4°C cooler versus IPCC AR6), and 0.2°C cooler than SSP3-7.0 (-0.6°C against IPCC AR6).

The implausibility of upper-end legacy scenarios is now official.
CMIP7 avoided repeating the past with SSP3-7.0

Last April I argued here at THB that the climate science community was on the brink of repeating the RCP8.5 mistake with SSP3-7.0 — which assumed a 2100 global population approaching 13 billion, well above any contemporary demographic projection and a five-fold expansion of global coal use. Neither assumption survives current understandings of demographics or energy systems.

I don’t know if anyone in CMIP or ScenarioMIP reads THB4 — if not they should! — but regardless, they wisely chose not to adopt SSP3-7.0 as the new HIGH scenario.

The new HIGH scenario sits at 6.7 W/m² in 2100 — below the SSP3 baseline 7.0 W/m² — with 9 percent less cumulative fossil CO₂ through 2100. As I’ll discuss below, this is progress; it is partial but real.

But the new HIGH still sits well above the plausibility range that we identified in Pielke, Burgess, and Ritchie (2022). We found that of the >1,000 scenarios in the AR5 database, the plausible subset centered on a median of ~3.4 W/m² in 2100, with an upper end near 6 W/m². The new HIGH scenario is well above that upper end.

The authors of Van Vuuren et al. partially acknowledge that the new HIGH scenario is exploratory — a thought experiment, not a projection:

“Clearly, this scenario is not a “business-as-usual” scenario nor the no-policy reference scenario for the other scenarios. The scenario is intended to explore the upper end of GHG emissions resulting from deep political, technological, and structural deviation from current trends.”

Note that first sentence — It means that any future research that compares the HIGH scenario to lower scenarios in order to characterize the effects of climate policy will be fundamentally flawed. The HIGH scenario is not a projective scenario, but a “what if?” exercise.

Unfortunately, Van Vuuren et al. then engage in some unsupported speculation about the plausibility of the HIGH scenario in the real world:

“The are various reasons why such a scenario could emerge. For instance, a rollback of climate policies could result from a lack of public support for the energy transition. This could be related to, for instance, local opposition to building new wind farms or concerns about impacts on fossil industries related to jobs and national energy security. Also, the rapid cost decrease in renewable energy of the past decade could be discontinued, possibly as a result of regional scarcity and limited tradability in materials for solar and wind technologies and EV batteries . . .”

As discussed below, the new population assumptions of the updated SSP3 are ridiculous, and by themselves render the HIGH scenario implausible. The lack of any systematic effort to evaluate plausibility of scenarios remains a fundamental weakness of the scenario development process.
The new scenarios are SSPs in new clothing

The new CMIP7 framework does not start from a fresh socioeconomic foundation. Van Vuuren et al. explain:

“In practice, the IAM [Integrated Assessment Modeling] teams have based their current scenarios on various SSPs, as it was generally deemed pragmatic as these come with already available, suitably rich quantifications and were implemented by the participating modelling teams within the given timeline.”

The CMIP7 scenarios rely on the same narrative architecture as the IPCC AR6 SSPs. The table below shows how the SSP storylines map onto the new scenarios — Confusion is sure to result, as the old SSPs are not the new SSPs.
The new HIGH inherits the SSP3 storyline directly — the same SSP3 whose enormous 2100 population rendered it implausible when used in the IPCC AR6. Remarkably, the IIASA 2024 update to the SSPs did not bring the population projections down. Instead, it increased them, as you can see in the table below.
The 2024 demographic update (KC et al. 2024, IIASA Working Paper WP-24-003, also referred to as WIC2023) revises SSP 2100 populations upward: SSP3 jumps from 12.6 to 14.5 billion. SSP4 increases from 9.3 to 13.3 billion — an eye-popping 43% increase.

The SSP population update assumes that child mortality declines faster than WIC2013 anticipated, fertility declines slower in sub-Saharan Africa, and Africa’s 2020 base-year population was already 76 million higher than WIC2013 had projected. Africa’s 2100 population alone is now 3.55 billion, up from 2.62 billion in the AR6-era projection — a 35% upward revision.

This puts the CMIP7 HIGH scenario in a strange position: The cumulative fossil CO₂ from energy and industry in CMIP7 HIGH (4,629 Gt 2020-2100) is lower than SSP3-7.0 (5,074 Gt), but it has a 2100 population that is 15 percent larger. That means that the implied per-capita emissions trajectory in the new HIGH has a steeper decline.

How much of the new HIGH scenario’s warming is due to its incredible population projection?

I performed a simple sensitivity analysis:Take HIGH as published: 4,629 Gt cumulative fossil CO₂ over 2020-2100, producing about 3.0°C of 2081-2100 warming.
That means per-capita emissions intensity average about 5.2 tonnes of CO₂ per person per year using 11-billion as the mean population across the century.
Hold that per-capita intensity constant and replace the SSP3 population trajectory with the SSP1/SSP5 population trajectory — peaking at 8.5 billion in 2050, declining to 7.4 billion by 2100, averaging about 8 billion.

Under these assumptions, under HIGH, cumulative fossil CO₂ falls to roughly 3,330 Gt, a 1,300 Gt reduction. The IPCC AR6 central TCRE estimate (0.45°C per 1,000 Gt CO₂) gives about 0.6°C less warming. The HIGH scenario with SSP1/SSP5 population thus would deliver about 2.4°C of 2081-2100 warming — slightly cooler than the new MEDIUM at 2.5°C.

Under this simple method, about 0.6°C of the HIGH scenario’s projected warming traces to the population assumption alone. The HIGH scenario may be much less about carbon and much more about assumed human fecundity.

This is a sensitivity analysis, not a coherent scenario — combining SSP3’s per-capita intensity with the SSP1/SSP5 demographic profile is internally inconsistent. But it suggests that the demographic contribution to the HIGH scenario’s warming is significant.
The plausibility vacuum remains

The deeper problem with the SSP/RCP architecture, as Justin Ritchie has documented at length, is that physical climate modeling became decoupled from the underlying IAM socio-economic scenarios.

Under the RCPs, scenario creators identified concentration pathways and the underlying socio-economic assumptions were expected to be filled in later. Whether the underlying assumptions actually described a coherent picture of the world was never systematically assessed.

Ritchie called this a plausibility vacuum — a situation where any combination of climate model inputs could be used without any assessment of the real-world plausibility of the assumptions.

To be fair, the new CMIP7 framework does address some earlier shortfalls. The new design specifies emission-driven runs as the default, which allows for carbon-cycle feedbacks. The harmonization of emissions to observed 2023 data is an improvement — CMIP6 harmonized to 2014, and that harmonization had become well out-of-date by the time AR6 came out.

However, the plausibility vacuum problem remains. Van Vuuren et al. do not evaluate scenario plausibility against observed energy trends, against IEA projections, or against the body of literature critiquing the SSP set.

The 2023 ScenarioMIP workshop report — which kicked off the process of developing these new scenarios — recognized the plausibility problem and committed to addressing it. Van Vuuren et al. does not deliver on that commitment.

ScenarioMIP produces a better scenario set than those of AR6, but the improvement comes from incorporating more recent emissions data and accepting the undeniable collapse of SSP5-8.5’s credibility — not from any methodological reform of how scenario plausibility is assessed.
The MEDIUM scenario is not “current policy”

The walk-back at the high end is the most important change in the new framework. The story in the middle is more complicated.

Van Vuuren et al. describe the MEDIUM scenario as one that “shows the consequences of the current policy situation (as of 2025) and trends continuing over the century.” They specify that MEDIUM includes only policies “actually officially being implemented” — no NDC pledges, no net-zero announcements, unless backed by explicit policy. The framing implies that MEDIUM tracks where the world is actually headed under current policies.

That framing is not consistent with other approaches to defining a current policy trajectory. The CMIP7 MEDIUM scenario produces fossil-fuel CO₂ emissions that rise from about 38 Gt CO₂/yr today to 41 Gt by 2050 — that part compares well to the scenarios (CPS and STEPS) of IEA’s World Energy Outlook 2025, released last November.

However, it is post-2050 where the new MEDIUM scenario diverges from other current-policy projections, with its emissions slowly rising through the second half of the century.
In contrast, STEPS — the IEA’s standard reference for where current and announced policies actually take us — falls below 30 Gt by 2050 and produces about 2.5°C of 2100 warming.

The CMIP7 MEDIUM is more accurately characterized as a “policy stagnation” scenario rather than a “current policy” scenario. Cumulative fossil CO₂ emissions through the end of the century come in 18% higher than SSP2-4.5 — the AR6-era middle-of-the-road scenario — even though the MEDIUM 2081–2100 mean temperature is slightly cooler (explained below).

The figure below shows what happens once SSP2-4.5 and MEDIUM are anchored to the same observed 2020 baseline. The original SSP2-4.5 (black) sits roughly 0.6°C above CMIP7 MEDIUM (red) at 2020 — not because the 21st century plays out differently, but because the SSP framework’s historical emissions are harmonized to 2014 while CMIP7’s are harmonized to 2023. That head start propagates through the entire 21st century trajectory.
Running SSP2-4.5 post-2020 emissions through the CMIP7 FaIR emulator with CMIP7’s updated historical baseline (dashed blue), the picture inverts: SSP2-4.5 produces a 2081-2100 mean of 2.44°C against CMIP7 MEDIUM 2.56°C. On an apples-to-apples comparison, the new MEDIUM results in about 0.12-0.20°C more warming than SSP2-4.5 — due to its 520 Gt larger cumulative CO₂ budget over the century.

This connects to the larger argument in Pielke, Burgess, and Ritchie (2022): observed CO₂ emissions from 2005 through 2020 tracked closer to the SSP 3.4 W/m² range than to SSP2-4.5. Today, the gap has widened, not closed. IEA STEPS now has emissions falling to under 30 Gt by 2050 — a trajectory consistent with the SSP 3.4 forcing range. The center of the new CMIP7 scenario set sits well above that range.

The new framework compressed the high end. Good.

The middle did not move far enough. The new MEDIUM might be considered a worst-case scenario rather than a current policy scenario. Interestingly, that would mean that there is no real current-policy scenario in the new CMIP7 scenarios, which would be something like a SSP2-3.4 scenario with updated demographics.

Perhaps, if projected demographic changes continue to trend lower, CMIP7 LOW will come to represent something akin to a current policy trajectory.
Why this matters: these scenarios live in policy

The now-implausible upper-end scenarios — RCP8.5, SSP5-8.5, and SSP3-7.0 — are not just academic constructs used in esoteric research. They are embedded in the policies and regulations of most of the world’s largest economies, found across the world’s most important multilateral institutions, and used in the climate stress tests that govern hundreds of billions of dollars in bank capital.

The table below provides just a few examples.

National climate impact assessments in the United States, United Kingdom, Germany, Canada, Australia, Japan, and the Netherlands all use RCP8.5 or SSP5-8.5 as a reference scenario. The Network for Greening the Financial System framework, used by more than 140 central banks, has utilized a “Hot House World” scenario calibrated to RCP8.5 physical risk into the bank stress tests run by the European Central Bank, the Bank of England, the Reserve Bank of New Zealand, the Banque de France, and the US Federal Reserve. The World Bank’s Climate Change Knowledge Portal, which provides the climate diagnostics that feed into the Country Climate and Development Reports for more than 100 client countries, defaults to SSP5-8.5 and SSP3-7.0.

The abandonment of the high-end legacy scenarios by CMIP7 will need to propagate through this entire infrastructure. The policy machinery built on RCP8.5 and the other implausible scenarios is systemic.
What this means

The new CMIP7 ScenarioMIP framework represents a real course correction, but with more work to do. SSP5-8.5 is gone. SSP3-7.0 has a successor that is less extreme but arguably remains implausible. The middle of the set is more pessimistic than trajectories of current and announced policies. The plausibility vacuum at the heart of the architecture has yet to be addressed.

All this means that users of climate models and model output based on legacy scenarios will now face decisions about if and how they’d like to realign with the latest scientific understandings versus continuing to rely on outdated research.

Furthermore, there are no doubt many — hundreds if not thousands — of studies in the publication pipeline that depend upon the upper end scenarios. Editors and reviewers should ensure that they are properly characterized as exploratory and are not intended to be interpreted as projective.

We’ve known since 2017 that upper end climate scenarios are fatally flawed. Nine years later, that understanding has now become officially recognized. That is good news.

We can debate whether nine years is short or long for the overturning of scientific understandings with massive economic and policy implications. But today, that overturning is undeniable.

Science is self-correcting. What matters now is what happens next.

sábado, 4 de abril de 2026

Miranda Sarmento quer taxar lucros extraordinários das empresas


Numa carta conjunta enviada este sábado à Comissão Europeia, o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, defende a aplicação de uma taxa sobre os lucros extraordinários que as empresas de energia estão a ter com o conflito no Médio Oriente, também conhecidos como “lucros caídos do céu” (windfall profits).

De acordo com a Reuters, a carta é assinada pelos ministros das Finanças de Portugal, Itália, Espanha e Áustria e defende que “dadas as atuais distorções de mercado e restrições fiscais, a Comissão Europeia deve desenvolver rapidamente um instrumento de contribuição semelhante para toda a União Europeia, com uma base jurídica sólida.”

A guerra no Médio Oriente tem provocado um aumento significativo dos preços do petróleo e do gás e o grupo de responsáveis pela pasta das Finanças nos seus respetivos países considera que uma taxa “enviaria uma mensagem clara de que aqueles que lucram com as consequências da guerra devem fazer a sua parte para aliviar o fardo sobre o público em geral”.

A carta dirigida ao comissário europeu para o Clima, Wopke Hoekstra, não traz mais detalhes sobre a taxa que consideram ter de ser aplicada. Em setembro de 2022, para responder à crise energética que se seguiu à invasão da Ucrânia pela Rússia, a União Europeia chegou a acordo sobre um novo pacote de emergência que incluiu um imposto de 33% sobre os lucros excessivos das empresas de energia, uma contribuição que os líderes europeus queriam usar para financiar medidas para as famílias mais vulneráveis atingidas pela crise.

O regulamento europeu cingia-se, na altura, ao setor energético, mas o Governo português, então liderado pelo socialista António Costa, acabou por estender a contribuição temporária também à grande distribuição alimentar. Costa referiu-se a esta medida como um “esforço de solidariedade adicional”, fazendo c0m que os “eventuais lucros excedentários possam ser canalizados para apoiar a população mais desfavorecida”.

terça-feira, 24 de março de 2026

Agência Internacional de Energia recomenda teletrabalho e transportes públicos para aliviar pressão dos preços do petróleo devido a interrupções no fornecimento no Médio Oriente


Medidas surgem como resposta à maior interrupção de abastecimento na história do mercado global de petróleo e abrangem transporte rodoviário, viagens aéreas, cozinha e indústria. AIE destaca que governos podem liderar pelo exemplo.

Trabalhar a partir de casa sempre que possível, reduzir a velocidade em autoestradas e recorrer aos transportes públicos são três das dez medidas que a Agência Internacional de Energia (AIE) recomenda para aliviar a pressão dos preços do petróleo sobre os consumidores.

Num relatório publicado nesta sexta-feira, a autoridade mundial recomenda ainda evitar viagens aéreas sempre que existam alternativas e recorrer à eletricidade em substituição do gás na cozinha.

As medidas surgem como resposta às perturbações nos mercados petrolíferos causadas pela guerra no Médio Oriente. O conflito desencadeou a maior interrupção de abastecimento na história do mercado global de petróleo, com o tráfego através do Estreito de Ormuz, que normalmente transporta cerca de 20% do consumo global de petróleo, reduzido a níveis mínimos, segundo a AIE.

Cerca de 20 milhões de barris por dia de petróleo bruto e produtos petrolíferos transitam habitualmente por este estreito. A perda destes fluxos apertou significativamente os mercados, fazendo subir os preços do petróleo bruto acima dos 100 dólares por barril e provocando aumentos ainda mais acentuados em produtos refinados como o gasóleo, o combustível de aviação e o gás de petróleo liquefeito (GPL).
Para estabilizar os mercados energéticos globais, os países membros da AIE acordaram, a 11 de março, libertar 400 milhões de barris de petróleo das reservas de emergência, a maior libertação de stocks na história da Agência. Porém, a autoridade refere que atuar do lado da oferta não é suficiente para compensar a dimensão da perturbação. “Atuar sobre a procura é uma ferramenta crítica e imediata para reduzir a pressão sobre os consumidores, melhorando a acessibilidade e apoiando a segurança energética”, defende a AIE.

As medidas do lado da procura disponíveis para governos, empresas e famílias abrangem o transporte rodoviário, as viagens aéreas, a cozinha e a indústria.

“A guerra no Médio Oriente está a criar uma grande crise energética, incluindo a maior interrupção de abastecimento na história do mercado global de petróleo. Na ausência de uma resolução rápida, os impactos nos mercados energéticos e nas economias tenderão a agravar-se cada vez mais”, afirmou o Diretor Executivo da AIE, Fatih Birol.

As recomendações do lado da procura agora apresentadas “baseiam-se em décadas de experiência da AIE nesta área e destaca medidas que já provaram funcionar na prática em diferentes contextos. Acredito que será útil para governos em todo o mundo, tanto em economias avançadas como em desenvolvimento, nestes tempos desafiantes”, assinala Fatih Birol.

A AIE refere ainda que os governos podem liderar pelo exemplo através de medidas no setor público, ações regulamentares e incentivos direcionados, assegurando simultaneamente que o apoio aos consumidores é bem calendarizado e dirigido a quem mais precisa.

Ações imediatas para reduzir a procura
1 – Trabalhar a partir de casa sempre que possível
Reduz o consumo de petróleo nas deslocações, sobretudo em funções compatíveis com o trabalho remoto.

2 – Reduzir os limites de velocidade em autoestradas em pelo menos 10 km/h
Velocidades mais baixas reduzem o consumo de combustível em automóveis, carrinhas e camiões.

3 – Incentivar o uso de transportes públicos
A mudança do carro particular para autocarros e comboios pode reduzir rapidamente a procura de petróleo.

4 – Alternar o acesso de carros particulares às estradas nas grandes cidades em dias diferentes
Sistemas de rotação de matrículas podem reduzir o congestionamento e a condução intensiva em combustível.

5 – Aumentar a partilha de automóveis e adotar práticas de condução eficiente
Maior ocupação dos veículos e condução ecológica reduzem rapidamente o consumo.

6 – Condução eficiente para veículos comerciais rodoviários e distribuição de mercadorias
Melhores práticas de condução, manutenção e otimização de cargas reduzem o consumo de gasóleo.

7 – Desviar a utilização de GPL do transporte
Transferir veículos bi-combustível para gasolina pode preservar o GPL para a cozinha e outras necessidades essenciais.

8 – Evitar viagens aéreas sempre que existam alternativas
Reduzir viagens de negócios pode aliviar rapidamente a pressão sobre o combustível de aviação.

9 – Sempre que possível, recorrer a outras soluções modernas de cozinha
Incentivar o uso de eletricidade e outras opções modernas pode reduzir a dependência do GPL.

10 – Tirar partido da flexibilidade nas matérias-primas petroquímicas e implementar medidas de eficiência e manutenção de curto prazo
A indústria pode ajudar a libertar GPL para usos essenciais, ao mesmo tempo que reduz o consumo de petróleo através de melhorias operacionais rápidas.

terça-feira, 10 de março de 2026

Data centers — a contradição energética da transição digital

Portugal tornou-se, nos últimos anos, um destino apetecível para a instalação de data centers. A localização geográfica, a ligação a cabos submarinos transatlânticos, o clima temperado e os custos energéticos competitivos colocaram o país no mapa dos grandes operadores tecnológicos. Os números são expressivos: estima-se que o setor passe de um contributo de 160 milhões de euros para o PIB em 2024 para mais de 3,7 mil milhões em 2031, com um consumo energético previsto de 8,5 TWh por ano, segundo o estudo Market Outlook Data Centers Portugal 2025, da Portugal DC. Esta semana, a Digital Realty, empresa norte-americana com um valor de mercado superior a 62 mil milhões de dólares, anunciou a sua entrada em Portugal com entrada em operação prevista para 2027. O sinal de que esta vaga está a chegar é inequívoco.

O discurso que acompanha esta expansão é, regra geral, o mesmo: compromissos de carbono zero, garantias de origem renovável, PPAs de energia limpa assinados e relatórios de sustentabilidade elaborados com detalhe. A imagem projetada é a de uma indústria verde, digital e consciente. E essa imagem não é totalmente falsa grandes operadores tecnológicos investem genuinamente em energia renovável. No entanto, o problema é que esse investimento tem um ponto cego de dimensão considerável, e esse ponto cego chama-se continuidade de fornecimento.

Um data center de grande escala consome entre 50 e 500 MW de forma ininterrupta, 24 horas por dia, 365 dias por ano, maioritariamente para refrigeração dos equipamentos. Esta exigência de continuidade torna-o estruturalmente incompatível com a variabilidade das fontes renováveis. Um parque solar produz durante algumas horas por dia. Um parque eólico produz quando o vento sopra. Um data center não para. Nunca. Isso significa que a infraestrutura de rede pública tem de garantir capacidade de fornecimento em qualquer momento, dimensionada para o pico de consumo com redundância absoluta, isto independentemente de quantos PPAs o operador tenha assinado. Os acordos de compra de energia renovável não dispensam o reforço das redes de transporte e distribuição. E esse reforço implica infraestrutura adicional, mais cabos, mais subestações, mais capacidade de geração de reserva. Parte desta capacidade de reserva é ainda hoje assegurada por fontes convencionais. Este é o verdadeiro desafio de planeamento que o crescimento dos data centers coloca à REN e à E-Redes, e é um desafio que raramente aparece nas páginas de sustentabilidade dos operadores.

A questão não é, portanto, se os data centers usam energia renovável. Muitos usam, ou compram certificados que o atestam. A questão é se a renovável que financiam é adicionada ao sistema, ou se apenas é contabilizada em relatórios enquanto o consumo real aumenta a pressão sobre uma rede que ainda depende parcialmente de combustíveis fósseis para garantir segurança de abastecimento. Há uma diferença enorme entre um PPA assinado algures na Península Ibérica e um parque solar ou eólico novo, construído em Portugal, a alimentar diretamente a carga de um data center. Só o segundo representa uma âncora verde real. O primeiro é, em grande medida, declaratória.

Faria sentido que a E-Redes condicionasse a aprovação de novos pedidos de ligação de grande consumo à apresentação de um plano concreto de instalação de capacidade renovável dedicada. Não para bloquear o crescimento do setor, mas para garantir que esse crescimento tem uma correspondência real no sistema energético e não apenas nos relatórios anuais. Existem precedentes. Nos Estados Unidos, a Federal Energy Regulatory Commission introduziu o conceito de “Bring Your Own Generation” (BYOG), que levou os grandes hyperscalers a assumir o compromisso formal de trazerem a sua própria capacidade de geração. Na Irlanda, foi mais longe ainda: os novos data centers têm de garantir que uma parte significativa da energia consumida provém de renovável nova, desenvolvida no país. O data center deixa de ser apenas um consumidor e passa a ser parte da solução para a transição energética.

Existem duas consequências desta equação energética que merecem atenção redobrada da comunidade ambiental, precisamente porque surgem envoltas em argumentos aparentemente razoáveis.

A primeira é o regresso silencioso do debate nuclear. A tendência já é observável nos EUA, onde a Microsoft reativou a central de Three Mile Island encerrada em 2019, através de um contrato de 20 anos exclusivamente para alimentar os seus data centers. Google e Amazon seguiram com investimentos em reatores modulares de nova geração. A necessidade de geração despachável, energia que se liga e desliga conforme a procura, ao contrário do solar e do eólico (é um dos argumentos centrais que os defensores do nuclear têm utilizado para reabrir a discussão em Portugal). Os data centers são, neste contexto, o catalisador perfeito: uma carga enorme, contínua e previsível, que justificaria a estabilidade de base que o nuclear promete oferecer. O argumento tem uma lógica técnica própria, e seria desonesto ignorá-la por completo. Mas é também um argumento que merece escrutínio ambiental sério, sobre a possibilidade, se quer, de algum município aceitar na sua zona uma central nuclear, sobre custos reais, prazos de construção, gestão de resíduos e o que representa face a um sistema renovável bem desenhado com armazenamento. O que não pode acontecer é que a procura dos data centers se torne, por omissão regulatória, o pretexto para decisões energéticas estruturais que o país não debateu adequadamente.

A segunda é a pressão crescente sobre o território para instalar renovável em grande escala. Alimentar um único data center de 200 MW de forma contínua exigiria cerca de 400 ha de painéis solares. A resposta ao modelo BYOG e às exigências de fontes renováveis próprias tende a traduzir-se em projetos de grande dimensão, com decisões de localização condicionadas pela escala dos contratos e não necessariamente pela melhor integração territorial disponível. Em Portugal, onde o licenciamento de grandes infraestruturas energéticas já enfrenta contestação crescente, esta pressão adicional sobre o território é uma variável que os próprios promotores de data centers raramente incorporam nas suas projeções. A procura dos data centers não cria apenas um desafio para a rede elétrica, cria também uma pressão sobre o pipeline de projetos renováveis que o país terá de gerir com critério.

A digitalização da economia é um processo irreversível e, em muitos aspetos, positivo para a descarbonização de outros setores. Mas não é, por si mesma, sinónimo de sustentabilidade energética. Os data centers que chegam a Portugal trazem capital, emprego qualificado e capacidade computacional. Trazem também uma pegada energética considerável que o sistema elétrico nacional terá de suportar. A questão não é se os queremos cá. É se vamos exigir que a sua presença contribua genuinamente para a transição energética ou se nos contentamos com a narrativa verde enquanto a conta ambiental fica, silenciosamente, por pagar.

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