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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Crise de memória RAM? A China está a adorar!


Como já disse várias vezes, a crise de memória RAM não é inocente. As 3 grandes fabricantes sofreram com excesso de stock durante algum tempo (o que resultou em margens mais curtas), e como tal, decidiram cortar na produção. Também decidiram cancelar planos para o desenvolvimento de novas linhas de produção. Tudo isso resultou na “crise” que agora se vive.

Mas, essa estratégia pode muito bem vir a resultar em algo extremamente curioso. As 3 grandes fabricantes (Samsung, Micron e SK Hynix), estão agora a ver um quarto concorrente a crescer de forma… Avassaladora. Dentro em breve, vamos ver um Big 4 e não um Big 3.

Pois é! O mundo não vive só de crises.
CXMT cresce 716% num ano e a China avança sem travões para esmagar o cartel da memória!

Quem pensava que as sanções dos Estados Unidos e as restrições de tecnologia iam matar a indústria de semicondutores na China pode começar a comer o pequeno-almoço, visto que está prestes a começar um novo dia.

A gigante chinesa de memórias CXMT não só sobreviveu, como se transformou na fabricante de DRAM com o crescimento mais rápido do planeta no segundo trimestre de 2026. De facto, os dados da Counterpoint Research mostram um disparo de receitas verdadeiramente de loucos: uns inacreditáveis 716% de aumento em comparação com o ano passado. É a China a mostrar que não precisa de pedir licença ao Ocidente para fazer chips de topo.

Assim, enquanto a Samsung tenta segurar a liderança do mercado com 39% de quota e a SK Hynix e a Micron andam à pancada pelo segundo lugar, a CXMT corre por fora e já ameaça entrar no clube.

Até a Apple quer estes chips!
Não vamos ser anjinhos e dizer que a China anda a vender chips mais baratos. Toda a gente gosta de dinheiro, e os chineses não são diferentes. De facto, os chips de memória da CXMT ainda não estão ao nível das outras 3 grandes fabricantes.

Mas, não estão muito longe, e apesar de caros, têm uma grande vantagem… Há stock!

E talvez mais importante que isto, a fabricante anda a aproveitar a onda para investir muito (e bem) no futuro. Afinal, ao contrário da SMIC, que ainda luta para ultrapassar certas barreiras na produção de processadores, a CXMT já está a produzir memórias de última geração e a fazer progressos sérios nos chips LPDDR6.

O motor deste crescimento avassalador assentou numa procura interna brutal na China e numa expansão agressiva das suas fábricas, financiada após a entrada na bolsa no início do ano. Aliás, a empresa já está a construir uma nova megafábrica em Pequim para produzir ainda mais.

E a ironia da história atinge o auge aqui! Até a própria Apple está a tentar fechar contratos com a CXMT para garantir o fornecimento de chips de memória para os seus equipamentos. Numa altura em que a crise da memória para a Inteligência Artificial encareceu tudo e forçou os americanos a subirem os preços dos seus produtos, Tim Cook bate à porta de Pequim a pedir socorro para não ficar sem stock.

A questão já não é “se”, é “quando”
A memória RAM e o armazenamento de alta velocidade são a espinha dorsal de tudo o que mexe na tecnologia moderna, desde os aceleradores de IA até ao smartphone que trazemos no bolso. Durante anos, Samsung, SK Hynix e Micron geriram o mercado quase a seu bel-prazer, ditando preços e volumes de produção.

A chegada da CXMT com apoio estatal, capacidade fabril massiva e preços competitivos vai virar o jogo ao contrário.

Curioso não é?

segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Bem-vindo a 2030": por que razão não terá nada (e não será feliz)


“Bem-vindo a 2030. Eu sou dono de nada, não tenho privacidade e a vida nunca foi melhor”. Esta frase aparentemente contraditória é o título de um artigo publicado pelo Fórum Económico Mundial em 2016, da autoria de Ida Auken, uma parlamentar da Dinamarca.
A ideia dela nunca foi fazer uma profecia, mas sim especular sobre um futuro dominado pela economia circular - e ali descreve uma realidade em que ficou tão fácil, rápido e barato simplesmente alugar e usar imediatamente qualquer coisa, que já nem faz sentido ser proprietário de algo. Na teoria detalhada no texto, este verdadeiro ecossistema de acesso contínuo permitiria a todos ter o que quisessem quando desejassem, tudo isso com energia limpa, zero desperdício e muito mais tempo livre.
Ainda faltam alguns anos para chegarmos a 2030, mas na prática o que este caminho tem vindo a gerar é uma dependência crescente e escassez artificial.

Nos últimos 10 anos, pode dizer-se que a imaginação de Ida Auken conseguiu antecipar uma dinâmica real, mas errou redondamente no diagnóstico humano e económico. A nossa realidade está a caminhar na direção de não sermos donos de coisa nenhuma e não termos privacidade, mas tanto as causas como as consequências desta situação não têm o mesmo tom cor-de-rosa de otimismo da previsão.

O ciclo da "Merdificação": do encanto da Netflix à morte dos suportes físicos
Um bom exemplo de como e por que razão as coisas descarrilaram é o mercado do entretenimento, especificamente o de filmes e séries. A plataforma de streaming da Netflix mostrava em 2016 quão bom poderia ser abdicar de querer ser dono das coisas. Em vez de gastar rios de dinheiro a construir coleções de DVDs e a subscrever canais e mais canais de TV por cabo, bastava pagar uma mensalidade mais barata do que uma pizza e tinha-se acesso imediato e irrestrito a um catálogo de filmes e séries que continha praticamente tudo o que se poderia querer ver.

Não é por acaso que a Netflix fez o sucesso que fez e cresceu ao ponto de, durante muitos anos, ter impacto até na pirataria. O problema é que a forma como o mercado internacional funciona impede que algo assim continue por muito tempo, uma vez que a situação da Netflix em 2016 só era possível por uma combinação de subsídio vindo de capital de risco, o que era viabilizado apenas por políticas de juros baixos, e por licenças baratas que só existiam porque os estúdios tradicionais ainda não sabiam fixar o preço da distribuição digital de conteúdos. Era uma questão de tempo até que alguns fatores mudassem a situação.

Por um lado, outras empresas percebem o potencial do novo mercado e passam a competir por um espaço próprio nele; como algumas dessas empresas são as produtoras dos conteúdos que estavam disponíveis na Netflix, faz-lhes mais sentido retirar as suas produções de lá e colocá-las nos seus próprios serviços, pulverizando o acesso. Por outro lado, a própria Netflix, até então inquestionavelmente dominante no espaço do streaming, passa a ter de investir cada vez mais na caríssima produção de conteúdos próprios enquanto, simultaneamente, vê o crescimento do número de utilizadores desacelerar com a chegada de concorrentes de peso.

Para os acionistas, não existe a opção de aceitar que o valor das suas ações não vá aumentar o máximo possível para manter a qualidade e a relação custo-benefício da plataforma para o público. Assim, com a aquisição de novos utilizadores em queda, a solução é espremer lucros daqueles que já existem. Por isso, os preços aumentam, surgem planos com anúncios e os novos conteúdos de qualidade são substituídos cada vez mais por produções pasteurizadas, com fórmulas repetitivas e uso de IA no que for possível para tornar o processo mais ágil e barato.

Este processo, popularmente conhecido como “enshittification” (ou “merdificação”, em tradução livre), não é exclusivo da Netflix e já foi observado numa quantidade enorme de mercados, plataformas e produtos.

Ilusão da licença digital
Um exemplo mais recente foi o anúncio da Sony sobre o seu plano para encerrar de vez a fabricação de suportes físicos para os seus jogos. Com o fim dos discos, agora vai ser tudo digital através da loja oficial da PlayStation – esqueça a possibilidade de revender jogos que já terminou ou emprestar jogos facilmente aos seus amigos. Se por algum motivo algum título que comprou for retirado da loja e não o tiver descarregado, adeus, sem hipótese de o recuperar.

Caso a sua conta seja pirateada e a Sony decida que não quer ajudar a recuperá-la por iniciativa própria, terá de ser você a lutar na Justiça para tentar forçar a gigante corporativa a fazer o mínimo. E antes que alguém me acuse de terrorismo psicológico, aconteceu exatamente isso a um utilizador brasileiro identificado pela gamertag Ordo_Liberal: a conta Xbox dele foi invadida mesmo com a autenticação de dois fatores ativada e a Microsoft recusou-se a recuperá-la, argumentando que, como ele apenas tinha acesso a uma licença dos jogos, teria de comprar tudo novamente numa conta nova. O jogador teve de derrotar uma verdadeira equipa de advogados da empresa para conseguir forçar a recuperação da conta original com a biblioteca completa.

Caberiam mais uma série de exemplos aqui, desde a Uber e Lyft até ao motor de busca do Google, às recomendações (e fabrico) de produtos da Amazon e até aos smartglasses da Meta, mas cada um destes casos tem contextos socioeconómicos ligeiramente diferentes por trás da merdificação. Ainda assim, já dá para ter uma ideia de quão universal é a presença desta regra informal quando falamos de produtos e serviços, não é?

Hoje, esta dinâmica de subscrição forçada já avança sobre os eletrónicos físicos: desde smartphones de última geração alugados até construtoras automóveis que exigem mensalidades para libertar funções de hardware que já estão instaladas no seu próprio carro. E isto vale também para setores de produtos fora da área que costumamos associar mais à tecnologia.

Crise das memórias: IA devora o hardware do consumidor
Ao mesmo tempo que esta triste realidade do mundo corporativo já nos empurrava para o modelo de subscrições infinitas, a chegada da IA generativa e dos robôs não só acelerou este comboio para a velocidade máxima, como também cortou todos os travões da locomotiva. Estes sistemas ameaçam de forma não muito velada o trabalho de absolutamente toda a gente, eliminando a fonte de rendimento de grande parte da população mundial e concentrando ainda mais a riqueza nas mãos de poucos.

A IA não está a libertar o ser humano do trabalho braçal para que este produza mais arte, cultura e entretenimento enquanto aproveita melhor a vida. Está a precarizar o trabalho intelectual, a roubar trabalho autoral sem permissão nem distribuição de receita, e a usar mão de obra sub-remunerada em países mais pobres para treinar os robôs que vão ocupar os seus postos de trabalho no futuro.

A falta de regulamentação e o comportamento das Big Techs de “agir primeiro, pedir desculpa depois” já se transformou em vários processos de direitos de autor movidos por consórcios de artistas e órgãos de comunicação social contra as gigantes da IA. Nos escritórios, a transição é imposta à força: profissionais de criação e programadores enfrentam metas de produtividade absurdas sob a justificativa de que a IA deve acelerar o processo - ignorando a perda de qualidade e o aumento de erros no produto final.

Ao mesmo tempo, os centros de dados que vão permitir que as capacidades das IAs aumentem cada vez mais exigem expansão e atualização constantes. Isto deu origem a uma competição desequilibrada por semicondutores, especialmente no que diz respeito à memória RAM, e os três grandes fornecedores de memória que basicamente dominam quase toda a produção global escolheram, logicamente, vender às Big Techs dispostas a pagar o preço que for preciso, em vez de venderem a quem produz dispositivos para o consumidor final. O ritmo é tão intenso que mais de 70% da produção de memória de alta velocidade é consumida hoje justamente pelo mercado da inteligência artificial, deixando o mercado de eletrónicos de consumo a disputar as migalhas a preços inflacionados.

Os componentes tornaram-se tão escassos que até gigantes dos dispositivos de consumo direto, como a Apple e a Samsung, estão a ter de aumentar os preços dos seus produtos para manter parte das suas margens de lucro.

Com margens ainda menores, fabricantes de escala global, mas um pouco mais pequenas, sofrem agravamentos mais significativos – isto quando não são forçadas a adiar lançamentos e a revelar novidades com preços que há dois anos seriam considerados delirantes, como a nova Steam Machine a partir de 1050 $. As consolas de jogos, que tradicionalmente deveriam ir ficando mais baratas com o tempo, passam por aumentos grandes e consecutivos mesmo 6 anos após o lançamento.

Quando é que a crise acaba?
A pior parte é que não dá para dizer que esta seja uma crise passageira. As empresas de memória estão a lucrar como nunca. Segundo analistas, a receita operacional da Micron só em 2026 deverá ficar entre os 90 e os 100 mil milhões de dólares, o que é mais do que a soma de todo o lucro acumulado pela empresa nos 35 anos anteriores.

A situação é muito parecida na Samsung e na SK Hynix, que compõem o resto do trio que domina 90% do mercado de DRAM e também a totalidade da produção de memórias HBM, as mais rápidas e desejadas. Por isso, é óbvio que não têm qualquer motivação para mudar a situação, ainda para mais considerando que, antes da explosão da IA, estas mesmas fabricantes sofriam para fechar o balanço financeiro no verde, já que tinham de ceder às pressões das grandes empresas de eletrónicos e vender a sua produção com descontos agressivos.

Ao ritmo atual, a previsão é que a parte mais dolorosa desta crise dure no mínimo até 2028, com escassez e subida de preços a continuarem pelo menos até meados de 2030; mesmo depois disso, é improvável que os preços voltem ao “normal” de antigamente – deverão apenas parar de aumentar tanto e tão rapidamente. E mesmo isto pode ser otimismo, com o CEO da SK Hynix, uma das três grandes fabricantes de memória, a avisar que 2027 vai ser o pior ano de todos nesta crise e que a procura deverá continuar maior do que a oferta mesmo depois de 2030.

Também não adianta torcer pelo “rebentamento da bolha da IA”, uma vez que o nível de investimento associado às gigantes do setor é hoje tão grande que isso provavelmente afundaria o mundo numa depressão económica de níveis catastróficos.

A escolha forçada: por que razão não terá nada?
Com a combinação desta provável concentração de rendimento acelerada pela IA e pelos robôs, somada aos aumentos de preços de todo o tipo de produtos devido à crise das memórias, um futuro em que não seremos donos de nada parece-me cada vez mais inevitável. Não por causa de uma realidade utópica em que os produtos como serviço são melhores e mais baratos – a merdificação encarregar-se-á de eliminar o que surgir nesse sentido –, mas sim porque, em breve, a maioria de nós já não terá o poder de compra necessário para possuir algo próprio.

E aí, o que resta para todos nós, os 99% de não-milionários, é escolher entre três opções bastante difíceis: ou aceitamos a crescente realidade em que tudo é um serviço por subscrição e nos submetemos aos caprichos das Big Techs, ou desistimos de tudo e acabamos cada vez mais marginalizados e desatualizados, ou então apertamos os cintos para resistir por conta própria enquanto exigimos a políticos e entidades reguladoras legislações que, para ser sincero, provavelmente virão tarde demais.

Se, como eu, acha a terceira opção mais interessante, então a forma de resistir é estudar. Como utilizar sistemas abertos como as diferentes distribuições de Linux? Como fazer jailbreak em dispositivos como smartphones para estender o seu suporte de hardware por mais tempo? Como montar um servidor próprio (NAS) usando o que tiver de máquinas velhas em casa para armazenar os seus ficheiros e centralizar os seus conteúdos multimédia sem depender de nuvens pagas? Como reaproveitar tablets e portáteis antigos para dar uma nova vida a equipamentos que iriam para o lixo? Estes conhecimentos não vão mudar o contexto macroeconómico que nos trouxe até aqui, mas são o único escudo real para o ajudar a continuar no controlo da sua própria vida digital, na medida do possível.

Ler mais:
  1. Sophia Harris (2015) - Netflix helps reform hard-core movie pirates, but at a cost
  2. Mauritaz Wagner (2020) - The effect of Netflix on movie piracy and its impact on the movie industry
  3. Sarah Frick, et al (2023) - Pirate and chill: The effect of netflix on illegal streaming
  4. "Ilegal por Conceção" e Tóxica para o Planeta: A Amnistia Internacional Desmascara a IA

sábado, 11 de julho de 2026

A Apple processa a OpenAI por apropriação indevida de informações confidenciais

A gigante norte-americana Apple interpôs na sexta-feira uma ação judicial contra a OpenAI, acusando vários dos seus ex-funcionários de terem transmitido informações confidenciais à start-up californiana, após terem sido recrutados por esta.

A ação judicial marca uma escalada das tensões entre as duas empresas, que se tinham associado em 2024 para integrar o ChatGPT, a interface de inteligência artificial (IA) da OpenAI, nos produtos da Apple.

Mas quando a Apple apresentou a sua assistente de voz reformulada, a Siri, no mês passado, a sua componente de IA era baseada no modelo Gemini AI da Google, em vez do ChatGPT.

Desde então, a relação entre as duas empresas deteriorou-se significativamente.

O documento judicial, apresentado num tribunal federal de San Jose (Califórnia), alega uma "estratégia" da OpenAI "para extrair informações confidenciais" provenientes da Apple.

Num comunicado, um porta-voz da OpenAI afirmou que a empresa "não está interessada em informações confidenciais de outras empresas", ao mesmo tempo que indicou que ainda está a analisar as acusações que lhe são feitas.

Para além da OpenAI, são especificamente visados pelo processo dois antigos quadros da Apple, entre os quais Tang Tan, cofundador da start-up io Products com Jony Ive, antigo responsável pelo design dos produtos da marca da maçã.

A io Products foi adquirida pela OpenAI em maio de 2025 por 6,5 mil milhões de dólares, um passo importante na diversificação da criadora do ChatGPT, que prevê lançar, até 2027, uma gama de dispositivos centrados na IA.

Segundo a Apple, Tang Tan levou consigo documentos internos quando saiu da empresa em 2024.

Agora responsável pelos produtos físicos na OpenAI, estaria a procurar ativamente obter dados adicionais junto de funcionários da Apple que se candidatam a um cargo na empresa líder em IA, de acordo com o documento judicial.

Outro ex-funcionário da Apple, Chang Liu, é acusado de ter guardado dispositivos internos depois de ter deixado a empresa em 2026 e de ter continuado a aceder à rede informática interna.

"Na medida em que mais de 400 ex-funcionários da Apple trabalham atualmente na OpenAI, não é surpreendente que alguns tenham conhecimento de informações confidenciais e protegidas", reconhece o gigante da eletrónica de consumo.

"Mas a OpenAI decidiu explorar essas informações", afirma, porém, o criador do iPhone.

A Apple classificou estas descobertas, e agora acusações, como "a ponta do iceberg", afirmando ter apenas uma visão limitada do que se passa na OpenAI.

Para a empresa, estas supostas manobras inscrevem-se no desenvolvimento, por parte da OpenAI, de dispositivos físicos, domínio em que o laboratório de IA não tinha qualquer experiência prévia.

A Apple pede ao tribunal que proíba a OpenAI de explorar informações confidenciais provenientes dos seus colaboradores, antigos ou atuais, bem como que lhe seja concedida uma indemnização por danos, sem fixar o montante.

Esta ação judicial ameaça colocar algumas "pedras no caminho" da OpenAI, num momento em que a empresa se prepara para uma entrada na bolsa muito aguardada.

Para a empresa, avaliada em cerca de 852 mil milhões de dólares, a diversificação no setor dos dispositivos de consumo é considerada um importante motor de crescimento.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

‘Indefensible’: Meta unleashes on Anthony Albanese’s journalism levy


Tech behemoth Meta has lashed the Albanese government’s plans to impose a new tax on its Australian revenue to fund journalism, describing it as an “indefensible” regime that will make media companies dependent on government handouts.

In a blog post published overnight, Meta, which owns Facebook, Instagram, WhatsApp and Quest virtual reality products, unleashed its response to the News Bargaining Incentive, a new law attempting to strongarm three of the world’s biggest tech companies – Meta, Google and TikTok – into striking deals funding media outlets.

‘Foreign extortion’
The plan has triggered an angry response from US business lobby groups, which have warned that it falls foul of Australia’s free-trade obligations with the US. The White House described it as “foreign extortion” but, so far, has not stepped in to impose any retaliatory trade measures.

The major Australian media companies, meanwhile, took the rare step of sharing a joint statement in April, warning that without compensation, “journalism becomes unsustainable”. On Wednesday, News Corp Australia chief Michael Miller rejected the notion that the incentive was a tax.

“The government only built this path because Meta refused to sit down at the negotiating table, and again they are flipping the script rather than adhering to Australia’s proposed laws,” he said.

Nine Entertainment chief executive Matt Stanton said it was disingenuous to suggest that following Australian law was blocking investment.

“This initiative would be completely unnecessary if these companies simply adhered to existing Australian law, came to the bargaining table and reached deals for the fair use of our commercial property,” he said.

On Tuesday evening, Albanese backed the importance of the news incentive during a speech at a Parliament House function celebrating 195 years of The Sydney Morning Herald, according to several people who attended the event.

Meta has been a fierce critic of the policy since the beginning, but its rhetoric has escalated as the law comes closer to being introduced. The government wants to legislate the incentive this winter. Meta wrote in its Australian blog that the incentive is a “discriminatory tax built on a false premise”, and said it could remove news from its platforms entirely – as it did in Canada in response to a similar law – and people would use its platforms more.

Its harshest criticism is reserved for the levy being imposed on “consolidated revenue attributed to Australia” – a broad definition that captures its sales of Quest devices and, potentially, Google’s smartphones and other tech products.

“It is broader than digital services taxes, as it is applied on the widest possible revenue base and with no credible connection to news,” Meta wrote.

“The case for extracting revenue from social media services – where publishers voluntarily share news – is not supported by the evidence. Extending that logic to VR headsets and smart glasses is indefensible.”

Meta said it rewarded legacy business models instead of innovation and insulated news publishers from competition. “This is not a plan to save journalism. It is a tax on innovation dressed up as media policy,” it concluded.

“We are vehemently opposed to this legislation. It is discriminatory, economically incoherent, and will not deliver the sustainable news sector that Australian journalists and audiences deserve.”

Google has continued to honour and re-sign its pre-existing commercial deals with Australian media companies, but there are grave fears it would decimate journalist roles if it followed Meta in pulling out.

The policy is playing an active role in the minds of investors. On Tuesday, Macquarie reduced its valuation for Nine from $1.15 to $1.05 a share, ahead of its current price of 92¢, noting the incentive policy could add “an incremental $20 million in annual revenues on high margin”.

Nine owns the Nine Network, streaming platform Stan, out-of-home firm QMS Media and publications including The Australian Financial Review, The Sydney Morning Herald and The Age.

Free TV, the group representing Nine, Southern Cross Media (which owns Network Seven) and Network Ten, has argued in its own submission to Treasury that the scheme is too narrow and should be expanded to include Microsoft and Apple.

It has also called for “robust powers” to be granted to the Tax Commissioner to demand that each tech platform report its Australian revenue. Google and Facebook do not report the full revenue they derive from Australians due to complex resale agreements or because they act as “agents” for low-tax jurisdictions like Singapore or Ireland. The two companies transferred more than $11 billion abroad in 2025.

“Free TV is concerned that there is insufficient power granted to the Taxation Commissioner to investigate whether a platform may exclude Australian-generated gross revenues from its calculations of this amount,” the group wrote.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Jovens portugueses apresentam pior saúde mental que adultos acima dos 55 anos


A saúde mental dos portugueses é pior entre os jovens adultos face à população acima dos 55 anos, apesar dos laços familiares fortes e hábitos alimentares saudáveis, fatores socioculturais habitualmente associados a essa diferença geracional.

É assim em todos os 84 países analisados no relatório Global Mind Health (Saúde Mental Global) 2025 e Portugal não é exceção: os níveis de saúde mental dos jovens são tendencialmente mais baixos em comparação com as faixas etárias mais velhas.

O relatório, da organização Sapien Labs, mede a saúde mental das populações com acesso à Internet e na edição mais recente, divulgada esta quinta-feira, apresenta dados de perto de um milhão de pessoas em 84 países, incluindo Portugal.

À semelhança da tendência global, também os jovens portugueses, entre os 18 e 34 anos, experienciam mais desafios de saúde mental clinicamente significativos, quando comparados com a faixa etária acima dos 55 anos.

Ligeiramente acima da média global de 36 (numa escala de -100 a 200), o quociente de saúde mental médio dos jovens portugueses aproxima-se de 40.

Portugal surge em 46.º lugar
No 'ranking' dos 84 países participantes, Portugal surge assim em 46.º lugar, melhor posicionado do que a população portuguesa acima dos 55 anos de idade que, ainda assim, apresenta melhores níveis de saúde mental do que os jovens.

Com perto de 90 pontos no quociente de saúde mental, os portugueses nesta faixa etária conseguem, de acordo com a escala, ser plenamente produtivos, 70% do tempo, em todos os aspetos da vida.

No contexto global, as diferenças geracionais são tendencialmente maiores nos países mais ricos e, pelo contrário, menos acentuadas nos países da África subsaariana.

A influência dos alimentos ultraprocessados
Os autores apontam quatro aspetos socioculturais que explicam os níveis de saúde mental mais baixos entre os jovens, mas nem todos explicam os dados referentes a Portugal, desde logo no que respeita aos hábitos alimentares.

De acordo com estudos citados no relatório, o consumo de alimentos ultraprocessados -- "cujo consumo está a aumentar entre as gerações mais jovens" - contribui entre 15 a 30% para o agravamento da saúde mental e está associado ao aumento da depressão e diminuição do controlo emocional e cognitivo.

Os jovens portugueses, no entanto, destacam-se por serem dos que menos consomem este tipo de alimentos, ainda que o façam mais do que os adultos acima dos 55 anos.

Portugal é um dos 25 países em que os jovens da "geração Z", entre os 18 e 24 anos, começaram a utilizar 'smartphone' mais cedo, entre os 12 e os 13 anos, sendo que o acesso precoce a 'smartphones' está associado ao aumento de ideação suicida, agressão e outros problemas na vida adulta.

Outro dos aspetos em que Portugal surge destacado diz respeito aos laços familiares fortes, associados a sintomas depressivos "significativamente mais baixos".

Em 18.º lugar no 'ranking', Portugal é dos países em que a percentagem de jovens adultos com laços familiares fortes é mais próxima da registada entre os adultos acima dos 55 anos, a par de Itália, França, Bélgica.

Quanto à espiritualidade, outro dos aspetos socioculturais analisados e associado a "vários benefícios de saúde mental", a percentagem é ligeiramente mais elevada entre os mais jovens, uma tendência que se verifica, ainda que em maior proporção, sobretudo em países da África subsariana e Israel.

domingo, 28 de dezembro de 2025

Maioria dos portugueses guarda os telemóveis antigos. Perdem dinheiro e prejudicam o ambiente


A União Europeia enfrenta um desafio crescente: centenas de milhões de telemóveis antigos permanecem esquecidos em gavetas, sem qualquer uso, representando um enorme desperdício económico e ambiental. De acordo com a Swappie, especializada na venda de telefones recondicionados, o valor acumulado destes dispositivos inativos poderá ultrapassar os 140 mil milhões de euros, como escreveu a AWAY no ano passado.

Estima-se que cerca de 700 milhões de smartphones estejam atualmente fora de uso nos lares europeus, segundo dados da Comissão Europeia. Considerando um valor médio de 200 euros por equipamento, o impacto económico deste fenómeno é significativo. A preocupação, no entanto, vai além da vertente financeira. Cada telemóvel contém matérias-primas valiosas, como ouro, cobre, cobalto e estanho, que podem ser recuperadas e reutilizadas, reduzindo a necessidade de extração de novos recursos naturais.

Em Portugal, acumular telemóveis é prática comum
A realidade portuguesa não foge a este cenário. Um estudo realizado pela KANTAR, em parceria com a Swappie, indica que 77% dos consumidores em Portugal guardam os seus telemóveis antigos, muitas vezes sem qualquer plano de reutilização. Ainda assim, a maioria destes equipamentos poderia ser recondicionada ou reaproveitada, contribuindo para a economia circular e para a diminuição do lixo eletrónico.

Um problema que se agrava depois do Natal
A época natalícia tende a acentuar este problema. Todos os anos, milhões de novos smartphones são comprados e oferecidos, empurrando os modelos mais antigos para o esquecimento. Apesar disso, menos de 5% dos telemóveis na União Europeia são recolhidos para reciclagem ou recondicionamento, o que revela uma baixa consciência sobre o impacto real deste comportamento.

A boa notícia é que vender um telemóvel usado é hoje um processo simples. Empresas especializadas, como a Swappie, disponibilizam avaliações rápidas, processos de venda descomplicados e pagamentos céleres, incentivando os consumidores a dar uma nova vida a dispositivos que já não utilizam.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Já existem esquemas para pagamentos com o smartphone!


Há algumas semanas atrás, dissemos para priorizaes pagamentos com o smartphone ou relógio, de forma a evitar a grande maioria dos esquemas que andam por aí. Mas… O problema é não é só a tecnologia que evolui. Os scammers também aprendem novas técnicas.

Dito tudo isto, está na hora de falar do NGate: o esquema no Android que permite levantar dinheiro no multibanco sem te roubarem o cartão.

Portanto, se achas que para alguém te esvaziar a conta bancária precisa de te roubar o cartão ou saber o PIN, convém leres isto com atenção. Há um esquema a circular chamado NGate que usa o teu próprio smartphone Android para dar a volta ao sistema… e o pior é que muita gente nem percebe como foi enganada.

Ou seja, aqui não há skimmers, nem cartões clonados à antiga. Há engenharia social, aplicações falsas e NFC. Uma combinação perigosa.

O que é afinal o esquema NGate?
NGate é o nome dado a um tipo de burla que explora o NFC do teu telemóvel. Sim, a mesma tecnologia que usas para pagar com um toque.

Assim, o esquema começa quase sempre da mesma forma. Recebes uma SMS ou email a fingir que vem do teu banco. A mensagem fala de um problema urgente, uma falha de segurança ou uma operação suspeita. Tudo pensado para te meter alguma pressão em cima.

Na mensagem vem um link para instalares uma aplicação. Não está na Play Store. Esse é logo o primeiro grande sinal de alerta.

A aplicação parece legítima, tem logótipos, linguagem cuidada e até “verificações de segurança”. Mas, claro, foi criada pelos burlões.

Como é que passam do telemóvel para o multibanco?
Depois de instalares a app, o esquema continua.

Recebes uma chamada de alguém a dizer que é do banco. Às vezes até há um SMS adicional para “confirmar identidade”, de forma a tudo para parecer real. A seguir, a app pede-te algo crítico. Que encostes o cartão bancário ao telemóvel e introduzas o PIN. Tal e qual como num pagamento contactless.

O que está a acontecer na verdade é isto. A app lê os dados do cartão via NFC e envia-os em tempo real para o burlão, que está perto de um multibanco. Em segundos, conseguem levantar dinheiro como se tivessem o teu cartão físico.

Em suma, tu ficas em casa. Eles ficam com o dinheiro.
Não é um esquema super perigoso, e de facto, pagar com o telemóvel continua a ser a forma superior de fazer as coisas. Mas… É preciso ter os olhos bem abertos!
Não parece uma burla clássica. Porque não te pedem dados num site estranho. Não te pedem transferências diretas. Usam processos que já conheces e em que confias.

Além disso, como o levantamento é feito com os teus próprios dados e PIN, a deteção e a recuperação do dinheiro tornam-se muito mais difíceis.

Mas, como sempre, a regra de ouro continua a ser a mesma de sempre. O banco nunca te pede para instalares aplicações fora da Play Store. Nunca. Nem te pede dados por mensagem ou telefonema.

Liga tu para o banco usando o número oficial do site ou da app. Nunca uses contactos que vêm na mensagem. Nunca encostes o cartão ao telemóvel a pedido de uma aplicação ou de alguém ao telefone. Isso simplesmente não faz parte de nenhum processo legítimo.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Terras raras em Portugal desejadas na Europa


As últimas descobertas de terras raras em Portugal foram no Alentejo - em zonas como Monforte-Tinoca, Assumar, Crato-Arronches e Penedo Gordo - e no Nordeste Transmontano, em Moncorvo.

Segundo o Jornal de Notícias, os minerais portugueses estão a 'abrir o apetite' europeu. No entanto, o geólogo Luís Martins, ouvido pelo Jornal de Notícias, diz que "o levantamento é ainda muito preliminar" e o país ainda está "muito longe de uma possível exploração" dos recursos, essenciais para a indústria automóvel, aeroespacial ou de telemóveis.

O contexto geopolítico, com a União Europeia a tentar reduzir a dependência em relação à China, pode ser uma oportunidade para Portugal se afirmar como um fornecedor europeu. "Estamos à beira de uma nova revolução com estes recursos", acredita o geólogo.

Seja areia para a produção de betão, lítio para baterias ou terras raras para motores eléctricos: a procura de matérias-primas está a crescer. No entanto, os dados sobre o impacte da indústria extractiva são escassos, como demonstra uma análise publicada na revista Nature. De acordo com os autores, devia haver mais pesquisa sobre os impactes e os riscos, uma vez que a extração de matérias-primas está a aumentar e, consequentemente, a afetar também novas áreas.

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sábado, 13 de dezembro de 2025

Desligar ou reiniciar o smartphone? FBI explica qual a opção de maior segurança


Muito de nós sempre ouviu dizer que se deve desligar o telemóvel ou o smartphone pelo menos uma vez por semana ou, pelo menos, reiniciar o aparelho. A razão mudou ao longo dos anos mas, essencialmente, a operação promete melhorar a performance, ao eliminar processos de fundo desnecessários, limpar a memória RAM, evitar o sobreaquecimento, ou resolver bugs ou outros problemas momentâneos.

Contudo, cada vez mais se fala numa outra razão, ligada à cibersegurança, um tema tão importante nos dias de hoje. Aqui as opiniões também divergem. Desligar ou reiniciar o smartphone? O FBI e a NSA têm a resposta.

FBI e NSA explicam a melhor opção para a cibersegurança do teu smartphone
Ambas as agências são conhecidas por, entre outros elementos, serem peritas na coleção de informação digital, sendo capazes de alcançar qualquer pessoa e levantando questões sobre o acesso que determinadas entidades devem ter ao cidadão comum. No entanto, o positivo disto, é que são assim as melhores fontes de esclarecimento quanto a este assunto.

Durante anos, tanto o FBI quanto a NSA aconselhavam os utilizadores de telemovel ou smarthphone a desligar os aparelhos completamente pelo menos duas vezes por semana ou, pelo menos, reiniciar. Ambos os concelhos são válidos mas... não se aplicam propriamente aos modelos mais recentes.

Infelizmente, a verdade é que os atacantes estão cada vez mais sofisticados, e muito malware ou spyware consegue sobreviver ao desligar do smartphone. Assim, apesar de não ser completamente inútil, não é bem uma forma infalível de te manteres seguro. Então, qual a solução?

Outros conselhos de ciberseguranca para Android e iOS
Da mesma forma que os cibercriminosos e as empresas de smartphone estão constantemente a sofisticar os seus serviços, também a tua forma de encarar a cibersegurança tem de mudar. Já não estamos nos anos 90 ou 2000. No entanto, não desesperes. As soluções são fáceis de memorizar e é provável que já estejas a adotar algumas.

Por exemplo, é fundamental manteres o teu smartphone atualizado. Tanto a Android como a Apple lançam regularmente atualizações para os seus sistemas operativos, e nem todos são "apenas" bugs que foram corrigidos. Estes updates trazem muitas vezes otimizações no que toca à cibersegurança.

Quanto aos emails, nunca abras links diretamente das mensagens! A Netflix vai cancelar a tua subscrição? Vai ao site da plataforma, abre o teu perfil, e verifica se tens lá um aviso. Tens uma conta de internet para pagar? Vai ao site da operadora. Existe sempre uma forma de confirmares a informação sem teres de clicar em links. E sim, podes e deves confirmar sempre o endereço que enviou a mensagem mas até estes estão cada vez mais sofisticados, como mostrou o mais recente ataque da "Microsoft".

No aparelho em si, deves optar pela biometria ou reconhecimento facial como opção de desbloquear o smartphone ou tablet - até mesmo portáteis. Isto requer a tua presença física, tornando quase impossível o acesso não autorizado. De igual modo, quando crias uma conta em qualquer site, ativa a verificação em dois passos e escolhe passwords fortes e aleatórias - podes e deves usar um gestor de passwords.

Confessa, quantos destes passos de cibersegurança já aplicas no teu dia a dia? Lembra-te que um ataque pode colocar a tua informação pessoal em risco, incluindo cartões de crédito, acessos ao banco, e outros dados sensíveis.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Europa: de que forma os professores utilizam a IA na sala de aula e que país a usa mais?

A inteligência artificial (IA) está a tornar-se parte da vida quotidiana. As ferramentas e oportunidades oferecidas pelas principais empresas de IA cresceram rapidamente nos últimos anos. A educação não é exceção. Autoridades, professores ou académicos revelam como os alunos utilizam ferramentas como o ChatGPT para fazer os trabalhos de casa, incluindo ensaios. Ao mesmo tempo, a IA também oferece um apoio valioso aos professores.

Até que ponto os professores estão a utilizar a IA na Europa? Quais são os países mais avançados? E em que áreas os professores mais recorrem à IA?

Segundo o Teaching and Learning International Survey (TALIS) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o uso de IA por professores variou significativamente na Europa em 2024.

Entre 32 países, a percentagem de professores do ensino básico que utilizam a IA varia entre 14% em França e 52% na Albânia em 2024. A média na União Europeia (UE-22) é de 32%, enquanto na OCDE (27 países) é de 36%.

No inquérito, o uso de IA inclui fazer previsões, sugerir decisões ou criar texto. Abrange a utilização da IA no ensino ou para facilitar a aprendizagem dos alunos nos 12 meses anteriores ao inquérito.

Não se verificam padrões regionais fortes, embora, em geral, os países da Europa Ocidental tendam a ter uma menor utilização da IA pelos professores em comparação com os Balcãs Ocidentais e a Europa Oriental.

Além da Albânia, a percentagem de professores que utilizaram IA pelo menos uma vez atingiu dois em cada cinco ou mais em oito países/economias. As suas percentagens foram Malta (46), Chéquia (46), Roménia (46), Polónia (45), Kosovo (43), Macedónia do Norte (42), Noruega (40) e a região flamenga da Bélgica (40).

Os países com menor utilização da IA nas escolas foram a Bulgária (22%), Hungria (23%), a região francófona da Bélgica (23%), Turquia (24%), Itália (25%), Finlândia (27%), Montenegro (28%) e Eslováquia (29%).

Por que razão varia tanto a utilização de IA?
Um porta-voz da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) referiu que os governos adotaram posições políticas diferentes em relação à IA na educação, o que pode influenciar a consciencialização dos professores e o uso da IA na Europa.

"Alguns países foram mais proativos na implementação de estratégias nacionais de IA, que incluem o setor da educação, enquanto outros adotaram uma postura de cautela quanto à IA e ao uso de IA generativa nas salas de aula, estabelecendo regras mais rígidas dependendo da idade dos alunos", disse o porta-voz à Euronews Next.

Ruochen Li, gestor sénior de projetos na OCDE, observou que "as infraestruturas, as restrições tecnológicas, como as firewalls, as atitudes sociais em relação à utilização da tecnologia nas escolas e as políticas que podem incentivar ou desencorajar os professores a utilizar a IA" podem explicar as disparidades entre os países.

"Observamos uma relação forte, ao nível dos países, entre a quantidade de formação oferecida sobre o uso de IA e a sua utilização", disse à Euronews Next.

Ben Hertz e Antoine Bilgin, responsáveis pedagógicos e de investigação na European Schoolnet, salientaram que as grandes diferenças no uso de IA refletem o enquadramento político e a cultura educativa de cada país, com alguns a adotarem uma postura nacional de maior cautela.

"O acesso a apoio prático, como formação e infraestrutura, é também um acelerador crítico. Os dados do TALIS confirmam que, em sistemas com maior utilização de IA, os professores têm maior probabilidade de ter recebido formação profissional sobre o tema", explicaram Hertz e Bilgin à Euronews Next.

Por exemplo, França começou este ano a disponibilizar formação nacional em IA nas escolas públicas, o que ocorreu após a recolha dos dados do TALIS.

"Cautela, regras pouco claras e infraestrutura limitada são fatores que provavelmente explicam uma adoção mais lenta, sobretudo numa área nova e controversa como a IA", acrescentaram.

Motivos possíveis para estas diferenças incluem a existência e qualidade da formação, a carga de trabalho, a escassez de professores, a motivação pessoal e a curiosidade, segundo Martina Di Ridolfo, coordenadora de políticas no Comité Sindical Europeu de Educação (ETUCE).

Para que usam os professores a IA?
Entre os professores que usaram a IA, em média na União Europeia (UE-22), quase dois terços (65%) afirmam que a utilizam para aprender e resumir um tópico de forma eficiente, e 64% recorrem à IA para dar forma a planos de aula ou atividades. Estas duas percentagens mais altas indicam que a IA é usada sobretudo na preparação dos próprios professores.

Outros fins e respetivas percentagens:
  1. Ajudar alunos a praticar novas competências em cenários reais (49%)
  2. Apoiar alunos com necessidades educativas especiais (40%)
  3. Ajustar automaticamente a dificuldade dos materiais segundo as necessidades de aprendizagem dos alunos (39%)
  4. Gerar texto para feedback aos alunos ou comunicações com pais/encarregados de educação (31%)
  5. Analisar dados sobre participação ou desempenho dos alunos (29%)
  6. Avaliar ou classificar trabalhos dos alunos (26%)
Os resultados sugerem que os usos diretos em sala de aula ou voltados para os alunos são menos comuns. Os professores recorrem sobretudo à IA para a sua própria preparação, enquanto para as tarefas de avaliação são menos usadas. Hertz e Bilgin sugerem que muitos professores provavelmente utilizarão a IA sobretudo "nos bastidores", agora e num futuro próximo.

Ruochen, da OCDE, referiu que a IA pode apoiar os professores no trabalho administrativo, libertando tempo e energia para outras tarefas mais relacionadas com o ensino direto.

Que futuro para a IA nas escolas?
Os especialistas concordam que o uso de IA na educação está a crescer de forma constante e continuará a expandir-se. Alertam também que a utilização responsável, diretrizes claras e a consciência das possíveis desvantagens devem fazer parte desse progresso.

Hertz e Bilgin, da European Schoolnet, notaram que, com o tempo, os sistemas de IA poderão interagir mais diretamente com os alunos, por exemplo, propondo atividades personalizadas ou fornecendo feedback em tempo real.

"Mas os professores devem manter-se como o principal interlocutor entre o aluno e a tecnologia, para preservar a sua autonomia, supervisão ética e função de cuidado", disseram.

A UNESCO sublinha o papel central dos professores à medida que o uso de IA na educação se expande.

"As ferramentas de IA devem complementar, não substituir, os professores, e o seu uso deve alinhar-se com padrões éticos e objetivos educativos, preservando a autonomia e privacidade de professores e alunos", afirmou a porta-voz da UNESCO.

Antecipando um crescimento do uso da IA entre professores e alunos, sobretudo com ferramentas generativas, Di Ridolfo salientou outra preocupação: "Face à grave escassez de professores que enfrentamos na Europa, vemos riscos concretos de desqualificação e perda de competências na profissão", disse à Euronews Next.

Chamou ainda a atenção para uma limitação do inquérito da OCDE: os dados nada dizem sobre a frequência desse uso. Não indicam se os professores recorreram à IA regularmente ou se apenas a testaram algumas vezes.

domingo, 23 de novembro de 2025

O truque da chamada automática que desliga logo é perigoso


Todos nós já passámos por isto: o telemóvel toca duas ou três vezes, vês um número estranho e, quando atendes, a chamada cai. Se devolveres a chamada, ninguém atende ou ouve-se uma gravação esquisita. Parece só spam chato mas, em muitos casos, é muito mais do que isso. Assim cuidado com o truque da chamada automática.

O truque da chamada automática que desliga logo é perigoso
O primeiro passo é quase sempre automatizado. Sistemas de robocall fazem milhares de chamadas por dia, tocam dois ou três toques e desligam. Se atendes, o sistema marca o número como “válido” e “pessoa responde”. Se ainda por cima devolves a chamada, ganhas um selo de “alvo quente”: a partir daí, aumentam as hipóteses de receberes SMS fraudulentos, tentativas de vishing (chamadas em que alguém se faz passar por banco, seguradora, operador) ou mais chamadas de números suspeitos.

No esquema clássico, quando devolves a chamada, estás a ligar para um número com custo muito acima do normal. Ficas na linha a ouvir música de espera, gravações ou um “atendedor automático” que nunca mais passa a chamada. Cada minuto é dinheiro a sair da tua conta e parte dessa receita vai parar ao bolso dos burlões.

O que deves fazer, então, com estas chamadas que desligam logo?
A regra mais segura é simples: não devolver chamadas de números que não conheces, sobretudo se forem internacionais ou com prefixos estranhos. Se for importante, quem ligou volta a tentar, deixa mensagem de voz ou envia SMS identificando-se.

Se começares a receber muitas chamadas deste tipo, há mais alguns passos úteis:
  1. Bloquear os números diretamente no telemóvel.
  2. Ativar filtros anti-spam do teu operador, se existirem.
  3. Reportar à ANACOM, Portal da Queixa  ou linhas de cibercrime, se identificares padrão de burla.
A tentação de “só ver quem é” pode sair cara. Num mundo em que já precisamos de desconfiar de links, anexos e SMS duvidosos, as chamadas que desligam logo passaram a ser mais um aviso: alguém lá fora está a testar a tua curiosidade — e o saldo da tua conta.

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Ensaio - Contra a boçalidade, polarização, ódio, desinformação e reforço positivo nos jovens


Bom dia, amigos. Um dia de resistência. Uma greve geral!                            
Lembrei-me deste tema que se tronou um ícone da música gótica nos anos 80 e é muito actual.
Há músicas que falam de paisagens interiores — desertos de emoção, mares contidos, ventos que nos atravessam sem deixar rasto. “No Time to Cry”, dos Sisters of Mercy, é uma dessas paisagens sonoras: fria à superfície, mas pulsante por dentro.
Lançada em 1985, é uma confissão disfarçada de resistência. O narrador ergue-se entre ruínas afectivas e declara: “não há tempo para chorar”. Não por falta de sentimento, mas porque a dor já se tornou parte do caminho.
A voz grave de Andrew Eldritch ecoa como um mantra urbano — o cântico de uma humanidade que aprendeu a conter o pranto para sobreviver num mundo acelerado e distraído.
"I've got no time to cry" — sugere que o narrador tenta fugir das emoções, mantendo-se ocupado ou emocionalmente desligado.

Acontecimentos recentes daquele jovem de 14 anos que matou a mãe, ou ainda a filha que esfaqueou o pai. Chocou o País. Já foram ditas muitas opiniões. Na minha opinião a falta de barreiras na educação nos anos iniciais leva a que filhos pensem que podem tudo, que têm direito a tudo sem perceberem que têm igualmente deveres. Incapacidade de aceitarem o "não" às suas vontades, leva a comportamentos destes. Porém há que dizer sempre aos filhos que tal como a natureza, também o ser humano alterna entre ciclos de retraimento e renascimento. Há que dizer aos filhos o Não com convicção, para lhes fornecer ferramentas de integração social.  Há épocas em que o inverno domina a alma, e o gelo emocional é a única defesa possível. Nessa altura cabe à família a escuta e dizer-lhes sempre acreditar no Amor, porque na Natureza também há que sobreviver e as espécies, mesmo nesse silêncio, progridem e reinventam-se. Adaptam-se e avançam com novas estratégias.   

Claro que hoje em dia a tarefa dos pais é muito mais desafiante.. As redes sociais criam dependência, espalham violência, das mais variadas formas. A extrema direita está a alimentar o lado mais fraco que todos temos, está-se a banalizar o ódio, afectando a saúde mental de pais e filhos. Estas situações curam-se com pedagogia, da presença, dos bons exemplos, na família, amigos e até em comunidades. A comunicação social podia e devia ajudar. Porém o que se vê é explorar a violência até ao infinito (Correio da Manhã, p.ex.), dar palco à extrema-direita,  que alimentam o tal lado mau da humanidade. A média perdeu todo o seu sentido pedagógico: não fornece exemplos de altruísmo, de educação ambiental.  E também não podemos esquecer o espectáculo de boçalidade que ocorre com cada vez maior frequência e maior intensidade na AR. Porém, chegar a casa e conversar. Sem net, sem  TV. Ouvir os filhos, netos. 

Aos pais, avós e jovens, estou sempre a dizer: confiem, inspirem-se, leiam mais, adiram a alguma associação ambiental e ou de solidariedade. E façam actividades comuns junto da Natureza. Não adiem o Amor universal.

"No Time to Cry” é, assim, um espelho do nosso tempo: uma elegia à contenção, um hino à resistência emocional e, quem sabe, um lembrete de que até o mais frio dos corações espera pela primavera. É um processo individual e de escuta. E isso faz-se com activismo pró-activo, afectos, cooperação e gregarismo 🌿

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Larry Ellison prevê um estado de vigilância dominado pela Inteligência Artificial

George Orwell’s 1984 warned of a future where Big Brother watches every move. Today, modern technology is making that vision a reality, and Oracle founder Larry Ellison—the world’s first-richest person— sees a growing opportunity for his company to help authorities analyze real-time data from millions of surveillance cameras.

“Citizens will be on their best behavior, because we’re constantly recording and reporting everything that is going on,” Ellison said in an hour-long Q&A during Oracle’s Financial Analyst Meeting last week.

Fortune reached out to Oracle for clarification, but officials did not respond.

The world Ellison described sounds eerily similar to China’s social credit system, which controls citizens’ behavior through a network of cameras using some of the world’s most advanced facial recognition software to surveil their populace.

Nevertheless, his prediction may already be here in a sense.

Nowadays, it’s commonplace for Americans to whip out their smartphone and film their fellow citizens before uploading it to social media.

Some confrontations can go viral, with outraged users often attempting to doxx individuals and even coordinate a pressure campaign to get them fired.

This risk may not even be confined to those caught acting poorly in public.

Elon Musk, for example, is being sued by Jewish student Ben Brody for defamation after claiming on social media he was, in fact, a neo-Nazi (Musk’s attempt to have the case dismissed for reasons of constitutionally protected free speech was overruled by a court in May).

In Ellison’s view, citizens and state security organs like the police monitoring their every move will, however, be on an equal playing field.

He expects law enforcement officers will also be subject to constant surveillance.

“Every police officer is going to be supervised at all times, and if there’s a problem, AI will report that problem,” he said, in comments cited by Tech Crunch.

Whether this kind of 24-7 surveillance of everyone and everything means law enforcement will automatically be on their best behavior is, however, debatable.

George Floyd’s murderer was convicted largely because the former Minneapolis police officer Derek Chauvin was filmed in broad daylight for more than nine minutes as he slowly choked the man to death.

While the footage was shot close enough to Chauvin to suggest he was aware he was being filmed, he may not have known.

That isn’t true, though, for Miami-Dade officer Danny Torres, who was suspended from duty after footage from his own colleagues’ bodycams showed he used unnecessary and excessive force when arresting NFL football player Tyreek Hill for speeding.

sábado, 27 de setembro de 2025

Há uma nova fraude a preocupar os portugueses


Uma nova fraude por SMS está a circular em Portugal, utilizando indevidamente a identidade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e da linha SNS 24. Os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) emitiram esta semana um alerta, denunciando uma tentativa de fraude com o objetivo de recolher dados bancários dos utentes.

Qual é a fraude sobre o SNS?
De acordo com a informação divulgada pela SPMS, a mensagem fraudulenta informa o destinatário sobre alegados "valores em dívida" ao SNS. O conteúdo do SMS exige o pagamento do montante em causa no prazo de cinco dias, criando um sentido de urgência que visa pressionar a vítima a agir sem verificar a veracidade da informação.

Além disso, a mensagem inclui um link que direciona para uma página falsa, com aparência semelhante à de portais oficiais. Nesse site fraudulento, são solicitados dados pessoais e bancários, bem como instruções para pagamento por multibanco. A SPMS esclarece que esta comunicação é completamente falsa e que nenhum serviço do SNS utiliza mensagens escritas para notificar utentes sobre dívidas ou para recolher informações sensíveis.

Como funciona o SNS 24?
Em comunicado, os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde reforçam que nem o SNS nem a linha SNS 24 recorrem ao envio de SMS para cobrança de valores em atraso. As entidades oficiais de saúde não pedem dados pessoais ou bancários através deste meio de comunicação.

Assim, qualquer mensagem que contenha pedidos de pagamento ou solicitação de dados confidenciais deve ser considerada suspeita. O comportamento recomendado pelas autoridades é claro: não responder, não clicar em links e apagar a mensagem de imediato.

Aumenta o número de burlas digitais em Portugal
Da mesma forma, nos últimos meses, tem-se verificado um aumento significativo no número de fraudes digitais em território nacional. Os esquemas mais comuns incluem o envio de mensagens com conteúdos alarmantes, muitas vezes associados a instituições públicas ou entidades de confiança, como o SNS.

Com efeito, estas fraudes aproveitam-se da credibilidade das instituições portuguesas para manipular os utentes e obter informações financeiras. Para combater este tipo de crime, é fundamental adotar uma postura de vigilância constante e reportar qualquer tentativa suspeita às autoridades competentes.
Autoridades fazem apelo à vigilância

A SPMS, em conjunto com outras entidades públicas, reforça o apelo para que os cidadãos mantenham uma atitude preventiva face a este tipo de ameaças. Em caso de dúvida, o contacto com os canais oficiais do SNS ou com a Polícia Judiciária permite esclarecer a veracidade da mensagem.

A partilha de dados bancários deve ser feita apenas em plataformas seguras e com entidades verificadas. Ao mesmo tempo, é essencial não divulgar qualquer informação pessoal a remetentes desconhecidos.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Terras de Barroso é notícia em França

A Serra do Barroso, no extremo norte de Portugal, é única na sua história, património, paisagens e biodiversidade. É um dos oito territórios europeus atualmente classificados como Património Mundial da Agricultura pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura [Fonte].

Infelizmente, o seu subsolo é considerado rico em lítio, um elemento essencial no fabrico de baterias para telefones e veículos elétricos. Vendo isto como uma oportunidade económica, o governo português deu luz verde ao seu desenvolvimento. Os habitantes locais lutam contra o projeto, mas sem grande esperança. Uma crónica de um desastre ecológico anunciado. 

A base e a elevação
Do topo de um forte que data da Segunda Idade do Ferro, a estátua de pedra de um poderoso guerreiro gaélico, descoberta na região, contempla milhares de anos e uma paisagem de cortar a respiração moldada pela pura paciência do tempo: a do Barroso, uma região de média montanha que se estende pelos concelhos de Boticas e Montalegre, no distrito de Vila Real (região histórica de Trás-os-Montes). Os caminhantes que se aventuram até aqui não estão imunes ao encontro com uma alcateia de lobos ibéricos, numerosos na região e uivantes durante a noite. Mais abaixo, é o gado Barrosã, com a sua pelagem fulva e os seus chifres longos e curvos, cuja herança genética está enraizada nas profundezas do tempo, que domina esta obra-prima.

Em Agosto último, ambientalistas de todo o mundo reuniram-se ali, precisamente na aldeia de Covas do Barroso, no quintal de uma antiga quinta convertida em ecomuseu (um grande número na região ). A sua luta local: a mina de lítio que ameaça desfigurar a área, mais precisamente a exploração de pegmatitos contendo lítio para a produção de concentrado de espodumena, um mineral utilizado no fabrico de lítio para baterias. Segundo um relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos, publicado em 2023, Portugal detém as maiores reservas de lítio da Europa e a oitava maior do mundo. O seu Primeiro-Ministro, António Costa, tem afirmado repetidamente que o país está sentado sobre um tesouro.

"A realidade é que ele não sabe mais do que eu e tu, porque estes são recursos deduzidos", interrompe Carlos Leal Gomes, professor da Universidade do Minho e especialista na matéria. "Quinto, sexto, oitavo lugar, para já não temos absolutamente nada. Só saberemos esta classificação quando começarmos a produzir." O grupo britânico Savannah Resources Plc [Fonte], que obteve a concessão para a operação, apresentava, no entanto, números muito precisos antes do Verão: uma produção de 25.000 toneladas, o equivalente à quantidade de material necessária para fabricar baterias para aproximadamente 500.000 veículos por ano. Mas, mais uma vez, Carlos Leal Gomes modera o entusiasmo que prevalece em Lisboa: "Nesta fase, estes são apenas números indicativos, sabendo que neste campo estão comprovadas muito poucas estimativas." Além disso, os minérios de Barroso não são dos melhores em termos de qualidade. Exigirão muito trabalho para serem exploráveis."

O projeto Barroso Lithium envolve perfurações até 1.700 metros de profundidade numa área de 593 hectares e a criação de uma cratera a céu aberto com 800 metros de diâmetro, a menos de 200 metros das povoações mais próximas! Este é o pior método de extração existente, equivalente ao do gás de xisto, com a sua série de danos colaterais. A extraordinária floresta de pinheiros, que conseguiu o milagre de se regenerar após grandes incêndios há alguns anos, será novamente sacrificada, mas deliberadamente desta vez. Tínhamos lido muito sobre o assunto antes de o virmos visitar in loco, mas quando descobrimos o local, foi o suficiente para nos fazer chorar.

No bar da aldeia, o apropriadamente chamado "O Nosso Café", podíamos sentir os clientes um pouco relutantes em conversar. Não sabemos muito, não acompanhamos de perto e somos sempre encaminhados para outra pessoa. "As pessoas não entendem por que, com o objetivo louvável de reduzir a poluição, vamos destruir florestas, "rios, todo um ambiente e, em última análise, as suas vidas", resume Nelson Gomes, presidente da associação Unidos pela Defesa de Covas do Barroso. "Já estamos a assistir ao colapso climático com os nossos próprios olhos e, para o contrariar, vamos agravá-lo aqui. É uma aberração."

A comunidade intermunicipal do Alto Tâmega, da qual Barroso faz parte, é o ponto de encontro do norte de Portugal. A água está em todo o lado, em abundância, tanto que se pode ouvi-la cantar continuamente o seu fado. O Posto de Turismo fez dela a sua imagem de marca: "O território da água e 
bem-estar." Mas a evisceração da montanha, claro, perturbará este belo e intemporal equilíbrio. "A extracção interferirá inevitavelmente com a irrigação das nossas terras, o que acabará por condenar a produção", lamenta Aida, outra voz de protesto. "No entanto, esta natureza é a nossa única riqueza, a nossa mãe nutritiva." Acima de tudo, são necessários entre 41.000 e 1,9 milhões de litros de água para produzir uma tonelada de lítio.

Então, José promete alguma alegria à cidade distante: "Para além da interrupção do sistema de rega e das projecções de poeiras, todo este lítio terá de ser lavado antes de ser enviado. E é a água daqui que recebem no Porto, em Braga ou em Guimarães." Os promotores do projeto diriam que se trata apenas de fantasias sem base científica, enquanto realizaram estudos muito sérios. Mas os habitantes mais antigos da região recordam que a exploração de volframite, um mineral que contém tungsténio, um metal muito útil para o fabrico de armas, durante a Segunda Guerra Mundial quase condenou a tribo Barrosa.

Portugal é já o maior produtor de lítio da Europa, com 900 toneladas por ano [Fonte]. Este número continua, no entanto, a ser muito modesto em comparação com as 55.000 toneladas da Austrália (46,3% da produção mundial) ou as 26.000 toneladas do Chile (23,9%). Mas as suas reservas estão estimadas — ainda condicionalmente — em 60.000 toneladas. Assim, decidiu-se minerar em seis locais do interior do país, onde tinham sido identificados jazigos. O que salvou Portugal até então? O custo de extracção, duas a três vezes superior na Europa do que no Chile, por exemplo. Mas os avanços tendem a diminuir este fosso e, à medida que se começou a sentir uma certa inquietação quanto a uma possível futura escassez global, a decisão foi rapidamente tomada.

A Savannah Resources já está em casa em Portugal (o seu site está agora disponível em inglês e em português), onde criou uma agência dedicada de relações com os media. De facto, o grupo britânico está a beneficiar de uma impressionante campanha de portas abertas na imprensa portuguesa, onde, através de artigos que fazem lembrar publieditoriais, todos os bons motivos para a próxima operação são reafirmados sobre as suas condições. Boas pessoas, estejam descansadas, o nosso projeto é sustentável e obedece às técnicas mais virtuosas.

Para garantir o seu sucesso, a empresa, claro, cumpriu uma série de requisitos: a promessa de indemnizações às comunidades afetadas, a construção de uma nova estrada para o transporte de lítio para limitar os incómodos aos residentes locais, a proibição de captação de água do Rio Covas, mecanismos de compensação, etc. A Savannah chega mesmo a gabar-se da potencial renaturalização do local após o esgotamento da mina (falamos de uma duração de exploração em dezassete anos).

Com a autorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que deu a sua aprovação esta primavera, a Savannah Resources pretende iniciar as escavações até 2026.

"Mas fomos tão enganados desde o início, com argumentos falaciosos, que já não acreditámos neles", diz João, que regressa à sua aldeia natal todos os verões. "Na verdade, só fomos informados depois do lançamento do projeto." E, como sabem, é difícil protestar em Portugal. Recentemente, activistas tentaram erguer um bloqueio na estrada nacional que atravessa o norte do país de leste a oeste, mas em menos de uma hora foram removidos sem cerimónias pelas autoridades. Assim, o protesto limita-se modestamente a inscrições ou faixas com os dizeres: Não à mina, sim à vida  ou, mais simplesmente, "Não à Mina".

Porque a vida tem sentido na região do Barroso, onde os habitantes sempre respeitaram todos os seres vivos. Sentimo-lo em Sofia, cuja família possui uma quinta perto de Chaves, a cerca de vinte quilómetros. De longe, uma genuína admiração por eles: "A vida deles foi difícil durante muito tempo. Muito difícil. Estavam completamente isolados do resto do país. A eletricidade só chegou lá em 1966. Assim, foram organizados em comunidades para a gestão dos recursos." Tal isolamento que, no Concílio de Trento, em 1542, foi pedida uma isenção para permitir que os padres do Barroso se casassem! Tal não aconteceu, mas as aldeias mais remotas, como Vilarinho Seco, não mudaram nada no seu modo de vida, que alguns comparariam, sem dúvida, ao dos Amish.

Na década de 1980, o fotógrafo Gérard Fourel imortalizou esta "terra dos últimos homens", que fala por si. Quarenta anos depois, os seus habitantes ainda lá vivem com os seus animais e cozem pão no forno comunitário, que se assemelha a uma ágora. E os baldios, terras comunais geridas colectivamente, são ainda numerosos na zona. É esta obra-prima da humanidade que a UNESCO mencionou "a forma tradicional de trabalhar a terra, cuidar dos animais e a entreajuda entre os seus habitantes", que David Archer, ex-CEO da Savannah Resources, descreveu em 2021 no Diário de Noticias como uma região moribunda em processo de desertificação, apresentando a sua mina como "a" solução para inverter a tendência e revitalizá-la, prometendo "a procura imobiliária (sic) e a realocação de serviços públicos"[Desde 18 de setembro de 2023 que o português Emanuel Proença é o novo CEO da Savannah Resources Plc ]. Comparada com a carrinha de compras que abastece Covas de Barroso, a perspectiva roça o grotesco. Como sempre acontece com um projecto deste tipo, fala-se na criação de 600 postos de trabalho, mas isso dificilmente afectará a população local, uma vez que a dita mina "inteligente" será parcialmente gerida remotamente.

André, natural de Montalegre, Toulouse, que regressa todos os verões para fazer caminhadas com a filha, faz a triste observação de que "mesmo aqui, onde pensávamos estar em segurança, estamos presos à política do dinheiro". O neoliberalismo europeu tem as suas garras sobre Barroso, e agora será difícil para ele libertar-se. Com a autorização da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que deu o seu aval na primavera, a Savannah Resources pretende iniciar a escavação até 2026. A estrada de trinta quilómetros para transportar o lítio até à autoestrada, no entanto, ainda não está concluída até lá. João vê nisso "talvez uma forma de atrasar o prazo, porque muitos municípios têm de ser atravessados ​​e um certo número de proprietários está recalcitrante". 

Mas mantém-se pessimista: "As pessoas não têm muitas ilusões: o projecto vai avançar porque já foi investido muito dinheiro." No início de setembro, a APA chegou mesmo a dar o seu aval a um segundo projeto, em nome da "importância estratégica do lítio para os objetivos de neutralidade carbónica e a transição energética", este em Montalegre: a construção de uma unidade de refinação do metal extraído pela empresa portuguesa Lusorecursos. Montalegre, "750 anos de história" e "uma ideia de natureza", como gosta de se apresentar. Parte do território do concelho estende-se até à Reserva da Biosfera da Peneda-Gerês.

As associações de defesa de Barroso, no entanto, sustentam que a luta ainda não terminou e prometem recorrer à justiça, se necessário. Desde o verão que António Costa tem aparecido em grandes outdoors de 15x10 cm, a três quartos de distância, a abraçar idosos que imaginamos vulneráveis. "Governar a pensar nas pessoas", diz o lema Quem sabe por que razão os apoiantes de Barroso não se sentem preocupados.