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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Europa: milhões com quartos a mais agravam crise da habitação


A Europa enfrenta ao mesmo tempo um problema de espaços vazios e uma grave crise da habitação.

Apesar da falta de habitação a preços acessíveis em todo o bloco, uma em cada três pessoas na UE vive em casas com quartos a mais, segundo o Eurostat. Os números evidenciam o desfasamento entre a oferta de alojamento e as necessidades dos agregados familiares, bem como diferenças marcadas nos padrões de habitação na Europa.

Subocupação designa habitações maiores do que aquilo de que os moradores necessitam, geralmente por terem mais quartos do que o necessário. É o oposto de sobrelotação e está muitas vezes associada a pessoas mais velhas que continuam a viver na casa de família depois de os filhos saírem de casa.

Embora as condições habitacionais inadequadas continuem a ser um desafio em quase todos os países da UE, a dimensão da crise e as suas causas profundas variam de forma significativa, de acordo com o Conselho Europeu.

Quais são, então, os países com taxas mais elevadas de subocupação? 
No conjunto da UE, 33,4 % das pessoas vivem em habitações subocupadas, mas a percentagem varia entre 8,1 % na Roménia e 69,4 % em Chipre.

Europa de Leste regista as taxas mais baixas de subocupação
A subocupação é, em geral, muito menos comum na Europa de Leste e do Sudeste do que no resto do continente.

Após a Roménia (8,1 %), a proporção de pessoas que vivem em casas subocupadas mantém-se abaixo dos 15 % na Sérvia (8,2 %), Turquia (10,3 %), Letónia (10,5 %), Grécia (12,5 %) e Croácia (14,7 %).

A percentagem de pessoas que vivem em casas subocupadas é também relativamente baixa na Bulgária (15,8 %), Eslováquia (15,9 %), Macedónia do Norte (17 %), Polónia (17,9 %), Lituânia (18 %) e Itália (18,2 %).

Em conjunto, estes países formam o grupo com valores mais baixos na Europa, seguido da Estónia, Chéquia e Hungria, onde as taxas rondam os 27 %.

Onde a subocupação é mais frequente
Chipre regista a taxa de subocupação mais elevada da Europa, com 69,4 %, seguido da Irlanda (66 %) e de Malta (63,2 %). Importa notar que os três são países insulares.

A proporção de pessoas que vivem em casas com quartos a mais também supera 50 % nos Países Baixos (58,5 %), Bélgica (57 %), Espanha (54,3 %), Luxemburgo (52,2 %) e Noruega (51 %).

Entre os países nórdicos, a Finlândia (46,6 %) e a Dinamarca (42,4 %) situam-se igualmente muito acima da média da UE.

O quadro diverge claramente entre as quatro maiores economias da UE.
A Espanha tem uma das taxas de subocupação mais elevadas, de 54,3 %, contra apenas 18,2 % em Itália. A França situa-se nos 40,4 %, enquanto a Alemanha está praticamente em linha com a média da UE, com 33,3 %.

Sul da Europa mostra duas realidades habitacionais distintas
Embora a taxa seja bastante mais baixa em grande parte do sudeste e do leste da Europa, o próprio sul da Europa está dividido. Chipre, Malta e Espanha apresentam valores elevados, enquanto Itália, Grécia, Turquia e grande parte dos Balcãs registam taxas reduzidas. Isto sugere que a tendência não se explica por uma simples clivagem norte-sul.

Podem as políticas públicas reduzir a subocupação?
A Federação Europeia de Organizações Nacionais que Trabalham com Sem-abrigo (FEANTSA) sublinha que a questão essencial é saber se o parque habitacional, e em especial a nova oferta, responde à crescente procura de casas mais pequenas.

"Essas casas mais pequenas existem de facto e são acessíveis?", disse um porta-voz da FEANTSA à Euronews Business.

Ao referir-se à "bedroom tax", introduzida no Reino Unido em 2013, a organização afirmou que a medida foi ineficaz, porque muitas vezes não existiam casas com a dimensão adequada, o que levou a perdas de rendimento para agregados que pouco mais podiam fazer senão ficar onde estavam.

A organização defendeu que recuperar habitações devolutas para arrendamento acessível e habitação social poderá ser mais eficaz do que focar a subocupação.

"Penalizar a subocupação sem abordar as causas mais estruturais que conduzem à habitação inacessível, como o subinvestimento em verdadeira habitação social e a financeirização e especulação imobiliária, representa um erro de diagnóstico", afirmou o porta-voz.

O efeito da propriedade da habitação
Segundo o Eurostat, a proporção de pessoas que vivem em habitações subocupadas é de 14,2 % entre inquilinos, contra 40,5 % entre proprietários.

O professor Sebastian Kohl, da Universidade Livre de Berlim, afirmou que as diferenças entre países são fortemente condicionadas pelos enquadramentos institucionais, sobretudo pelas taxas de propriedade de habitação e pela composição demográfica.

"Estruturas institucionais como o regime de ocupação têm um papel decisivo. Nos nossos modelos, a propriedade da habitação é o fator isolado que melhor prevê a subocupação objetiva", disse à Euronews Business.

Quem tem maior probabilidade de viver numa casa subocupada?
Um estudo de Jonas Lage e colegas concluiu  que o tipo de agregado familiar está intimamente ligado à subocupação.

A maioria dos quartos subocupados encontra-se em agregados de uma ou duas pessoas. As taxas são também, em geral, mais elevadas nos agregados sem crianças.

Na UE, 41 % das habitações subocupadas situam-se em cidades, com cerca de 30 % em zonas rurais e outros 30 % em vilas e pequenas cidades.

Na maioria dos países, e em média na UE, os agregados com rendimentos mais elevados têm maior probabilidade de viver em casas subocupadas e representam uma fatia maior dos quartos subocupados.

O que conta como divisão depende do país
Kohl destaca também a dificuldade de harmonizar as medições, decorrente das diferentes definições nacionais do que é uma divisão.

Sublinha que Espanha, Irlanda e Finlândia contam explicitamente as cozinhas como divisões nos respetivos inquéritos.

Chama ainda a atenção para o forte desfasamento entre os indicadores objetivos e a perceção subjetiva das pessoas. Os investigadores verificaram que apenas duas em cada cinco pessoas consideravam a sua casa demasiado grande, embora fosse classificada como subocupada segundo os critérios oficiais.

domingo, 21 de setembro de 2025

Turismo Imersivo: Da Massificação à Experiência com Significado


Hoje, viajar tornou-se uma prática tão comum que se arrisca a uma certa banalização. Em 2023, os residentes da União Europeia com mais de 15 anos realizaram mais de 1,1 mil milhões de viagens turísticas com pelo menos uma noite de estadia. Isso equivale a uma média de 2,4 viagens por pessoa por ano (Eurostat, 2023). No outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, a maioria das famílias realiza uma média de três viagens por ano.

Apesar da dimensão impressionante destes números, esta massificação e repetição de itinerários semelhantes — praias, monumentos, capitais turísticas — faz com que muitas dessas viagens deixem de ser experiências marcantes ou transformadoras.

É neste contexto que surge com força uma tendência internacional: o turismo imersivo (immersive tourism), também referido como experiential travel ou curated travel. A sua proposta é clara: substituir a quantidade pela qualidade, levando o viajante a viver experiências autênticas e a criar ligações genuínas com as comunidades locais.

O que distingue o turismo imersivo?
Ao contrário do turismo de massas, o turismo imersivo privilegia pequenos grupos e experiências de proximidade, onde os visitantes deixam de ser meros observadores para se tornarem participantes ativos:

Aprendendo diretamente com artesãos locais em workshops práticos.
  1. Descobrindo saberes tradicionais, como a cestaria com plantas autóctones ou a produção de queijo de cabra numa pequena unidade artesanal
  2. Partilhando refeições com gastronomia regional preparada com produtos locais.
  3. Integrando-se em festividades comunitárias e tradições vivas.
  4. Explorando a natureza através de passeios guiados que revelam paisagens, histórias e biodiversidade.
Um estudo recente de Zhou & Wang (2024) sublinha que a qualidade destas experiências depende de dois fatores: o experiencescape físico (o ambiente, a temática, e as infraestruturas que envolvem a experiência) e o experiencescape interpessoal (proporcionado pela interação entre anfitriões e visitantes). Ambos os elementos, segundo os autores, potenciam emoções positivas, que aumentam a probabilidade de os viajantes recomendarem o destino ou regressarem no futuro.

Uma prática de Turismo Responsável
As viagens imersivas não são apenas gratificantes para os viajantes – representam também um avanço no movimento global pelo Turismo Responsável. Ao escolher este tipo de experiência:
  1. As economias locais beneficiam diretamente: artesãos, produtores, guias e pequenos negócios veem o seu trabalho valorizado e justamente compensado.
  2. O património cultural é preservado: os ofícios e práticas tradicionais ganham visibilidade e continuam a florescer.
  3. As comunidades são fortalecidas: receber viajantes aumenta o orgulho na identidade local e abre novas oportunidades.
  4. O ambiente é respeitado: o formato de pequenos grupos e as atividades de contacto com a natureza promovem práticas de baixo impacto.
Desta forma, o turismo imersivo gera benefícios mútuos. Os visitantes têm experiências autênticas – não encenadas - que se tornam o ponto alto da viagem: as histórias das pessoas que conheceram, os ofícios que experimentaram com as próprias mãos, as receitas que provaram e as tradições em que participaram. E, ao fazê-lo, cada viagem contribui para uma economia local mais forte e para a preservação do que torna cada lugar único.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Dia Mundial do Ambiente - relatório da Pordata


Portugal ocupa a 3.ª posição entre os países da UE27 com as mais baixas emissões de gases com efeito de estufa. Em 2023, o valor per capita foi o equivalente a 5 toneladas de CO2, colocando-nos no pódio da União Europeia a competir com os países mais evoluídos em políticas de proteção ambiental, revela um estudo da Pordata baseado nos últimos números oficiais (2023), publicado hoje, 5 de junho, no âmbito do Dia Mundial do Ambiente. De acordo com o relatório, para este esforço contribui também a significativa redução das emissões de CO2 pelos carros novos registados em Portugal, passando-se de 169g por km em 2000 para 90g por km em 2023. Uma tendência comum aos países da União Europeia, com especial destaque para o top 6, onde Portugal está incluído: não só apresentam os valores mais baixos como são os que mais reduziram emissões desde o ano 2000.   

O estudo, porém, não traz apenas boas notícias. Em 2022, Portugal emitiu 2,24 gramas de partículas finas por cada euro de riqueza gerada pela indústria. Ou seja, o total de partículas finas emitidas para a atmosfera não conseguiu ser compensado pela riqueza gerada pela indústrias, nomeadamente as que mais contribuem para esta disparidade: a química e a dos produtos químicos, e a do papel e a de produtos de papel.   

Igualmente muito preocupante: mais de metade do lixo ainda vai, hoje, para aterro. Os resíduos urbanos, que incluem o lixo produzido pelas famílias, pelo comércio, restauração, empresas e entidades públicas, tem vindo a aumentar ao longo dos últimos 20 anos. Em 2023, ascenderam a 5,6 milhões de toneladas, correspondendo esse valor a uma média diária de 1,4kg por habitante (mais do dobro do registado em 1995). Números que deixam Portugal na 8.ª posição da UE27 entre os países com maior valor per capita na produção de resíduos municipais, um ranking liderado por Luxemburgo, Bélgica e Chipre. O estudo é claro: Portugal é dos países que conduz para aterro uma maior proporção de resíduos (54%), estando, desde 2020, entre os 10 países onde esta percentagem é mais elevada.  
 
O valor das renováveis  
Além da proteção do ambiente, a PORDATA analisa e reúne um conjunto de indicadores em outras três grandes áreas: produção, consumo e dependência energética; temperatura do ar e pluviosidade; configuração e proteção do território, fornecendo dados que ajudam avaliar a viabilidade de o país atingir as metas definidas pela União Europeia no âmbito do Pacto Ecológico Europeu (PEE), com horizontes temporais ambiciosos para 2030 e 2050.  

“O país está no bom caminho no que a esforços diz respeito”, diz ao DN Luísa Loura. A diretora da Pordata destaca “a diminuição das emissões de CO2 provenientes dos carros e nas renováveis”.  

De facto, na área energética, verifica-se que o país tem registado uma evolução significativa: desde 1990, a produção nacional de energia mais do que duplicou, impulsionada pelas renováveis, responsáveis, em 2023, pela produção de 35% - 16 pontos percentuais acima do registado em 2004- da energia consumida. No entanto,  Portugal produz apenas um terço das suas necessidades – e, desse, mais de metade destina-se à exportação.  Em 2023, consumimos 22 milhões de TEP, quase o dobro dos valores de 1990, o que resulta na maior taxa de variação face a 1990 entre os países da União Europeia. Ainda assim, o consumo per capita português está abaixo do europeu.  

Estando a produzir mais, apesar de termos de importar a quase totalidade do que consumimos, a dependência energética de Portugal tem vindo a reduzir-se: o último dado disponível indica 67% (eram 85% no início do século). Ainda ficamos acima da média europeia, ao lado de Espanha, Alemanha e Itália que, apesar de serem grandes produtores de energia, têm uma dependência energética de mais de 60%.  Lideram a lista dos mais dependentes Malta, Chipre e Luxemburgo. No lado oposto estão Estónia, Suécia e Roménia.   
 
Aquecimento de 2ºC na temperatura média do ar   
Há um claro padrão de aquecimento desde os anos 2000, tanto na temperatura mínima como na máxima. O estudo avaliou os registos das temperaturas nas estações meteorológicas de Bragança, Castelo Branco, Lisboa, Beja e Funchal para concluir que, quando agregados em termos de médias, revelam um padrão comum de aquecimento a partir do início dos anos 2000 face a anos anteriores, uma conclusão válida para a temperatura máxima, média e mínima. A diferença face à década de sessenta aproxima-se dos 3ºC em Bragança, para a temperatura máxima, e supera os 2ºC no Funchal, para a temperatura média.  

No que diz respeito à pluviosidade, os registos do número de dias sem chuva nas mesmas estações meteorológicas, divulgados no relatório, revelam que Bragança tem, em média, mais dias de chuva por ano que as restantes estações (em cada 3 dias, 1 é de chuva) e que é no Funchal que menos chove (em cada 5 dias, só 1 é de chuva). Em Lisboa chove em 30% dos dias, um pouco menos do que em Bragança.  

Contrariamente ao que se passa com a temperatura, o padrão temporal da pluviosidade não apresenta sinais de tendência sistemática nos mais de sessenta anos em análise. Para qualquer das estações consideradas, os períodos mais e menos chuvosos vão alternando.  É o caso de Lisboa: choveu relativamente pouco entre 2000 e 2009, os anos sessenta e setenta foram mais chuvosos e, entre 2020 e 2024, o número de dias sem chuva esteve em linha com a média.  
 
Mais terreno para arbustos, menos para agricultura  
Olhando o território, Portugal é dos países com mais terreno ocupado por arbustos, e dos que têm menos terreno para produção agrícola. As áreas artificializadas (com casas, estradas e outras construções) representam apenas 6,4% da superfície do país, segundo a Pordata, citando dados do levantamento feito pelo Eurostat em 2018, os últimos dados disponíveis.   
A floresta ocupa quase 40% do território e as terras para cultivo não atingem a quinta parte. Em percentagem de área terrestre protegida, Portugal ocupa a 12.ª pior posição da UE27.  “Uma situação que é claramente contrastante com o mar”, comenta Luísa Loura, sublinhando a importância marítima, na história e na economia do país.   

No mar, seremos os primeiros  
 No mar, Portugal poderá tornar-se o país da UE com maior extensão de áreas marítimas protegidas. Este aumento é reflexo das novas áreas do Parque Natural Marinho do Recife do Algarve - Pedra do Valado (156 km2) e da Revisão do Parque Marinho dos Açores (adicionais 252355 km2). Em setembro de 2025, com a entrada em vigor do diploma, Portugal terá protegido cerca de 19% da sua área marítima.  Estão em causa cerca de 300 mil quilómetros quadrados.   

A qualidade das praias costeiras é outro ponto positivo: Nove em cada dez praias costeiras têm águas com qualidade excelente. Em 2023, Portugal ocupava, em 2023, o 9.º lugar entre os 22 países da União Europeia banhados pelo mar. Uma situação oposta da que se observa nas águas balneares interiores, onde a posição de Portugal é a 6.ª pior. Com apenas 67% das praias fluviais e lacustres com água de qualidade excelente, Portugal figura entre os 11 países da UE27 em que essa percentagem é inferior a 70%.  

quinta-feira, 29 de maio de 2025

Demography of Europe – 2025 edition

Discover interesting insights about how the population is developing, ageing and much more in this interactive publication.

The publication is divided into 4 sections: population structure, population change, population diversity and marital status.

Consulte o mapa interactivo aqui

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Medidas de adaptação às alterações climáticas reduziram mortes por calor em 2023



Um estudo de modelação publicado na revista Nature Medicine sugere que, em 2023, poderão ter ocorrido na Europa mais de 47 000 mortes relacionadas com o calor. No entanto, este total poderia ter sido até 80% superior na ausência de adaptações sociais do século atual ao aumento das temperaturas.

O ano de 2023 foi o mais quente de que há registo a nível mundial e o segundo mais quente na Europa. As vagas de calor representam ameaças para a saúde das populações de alto risco, e a consciencialização destas ameaças para a saúde levou à implementação de planos de prevenção do calor, que incluem estratégias de preparação e resposta e potenciais intervenções.

No entanto, a sua eficácia não é clara.

Elisa Gallo e colegas usaram registos de mortalidade que representam 96 milhões de contagens de mortes do Serviço Europeu de Estatística (Eurostat) para estimar a carga de mortalidade relacionada com o calor em 2023 em 35 países europeus.

Os autores sugerem que 47 312 mortes relacionadas com o calor podem ter ocorrido entre 29 de maio e 1 de outubro de 2023, que é a segunda maior carga de mortalidade desde 2015, superada apenas por 2022.

Eles estimam que o maior número de mortes relacionadas ao calor ocorreu no sul da Europa, incluindo Grécia, Bulgária, Itália, Chipre, Espanha e Portugal.

Além disso, os autores modelaram qual poderia ter sido o impacto da mortalidade relacionada com o calor em 2023 sem medidas de adaptação ao clima do presente século, tais como melhorias nos cuidados de saúde, proteção social e estilo de vida, progressos na saúde ocupacional e nas condições de construção, esforços de preparação, maior sensibilização para os riscos e estratégias mais eficazes de comunicação e alerta precoce.

Sugerem que a mortalidade relacionada com o calor em 2023 poderia ter sido 80% mais elevada na população em geral e, nas pessoas com 80 anos ou mais, poderia ter sido mais de 100% mais elevada, sem as atuais adaptações sociais.

Os autores concluem que os seus resultados realçam a importância das adaptações do século atual na prevenção de um maior número de mortes relacionadas com o calor em 2023.

No entanto, observam que devem ser implementadas estratégias mais eficazes destinadas a reduzir o peso da mortalidade dos futuros Verões mais quentes, juntamente com os esforços de mitigação dos governos para evitar atingir os limiares de temperatura.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Música do BioTerra: Beck - European Son


You killed your European son
You spit on those under twenty-one
But now your blue cars are gone
You better say so long
Hey hey hey, bye bye bye

You made your wallpapers green
You want to make love to the scene
Your European son is gone
You'd better say so long
Your clowns bid you goodbye

terça-feira, 11 de julho de 2023

O que se passa com a reciclagem em Portugal?


Números muito negros. Portugal é um dos países da UE que menos reciclam plástico, papel, vidro e outros resíduos embalados. Em 2021, Portugal reciclou 30% dos seus resíduos municipais, uma percentagem só superior à da Roménia, Malta, Chipre e Estónia. A Alemanha, no topo do ranking, reciclou 71%.

Dados: Pordata

segunda-feira, 5 de junho de 2023

Portugal diminuiu emissões de gases com efeito de estufa, mas falhou nos resíduos

Os dados da Pordata mostram também uma grande dependência da energia fóssil e que Portugal tem vindo a ter temperaturas cada vez mais altas.

Portugal é dos países da União Europeia (UE) que mais diminuiu as emissões de gases com efeito de estufa mas foi incapaz de lidar com os resíduos, estando neste caso muito abaixo da média europeia.

Os números fazem parte de um retrato estatístico da situação ambiental em Portugal, divulgado no Dia Mundial do Ambiente pela base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos, a Pordata, em colaboração com a Agência Portuguesa do Ambiente.

Se os dados mostram que desde 2005 Portugal reduziu 35% das emissões de gases com efeito de estufa (média da UE é 24%), mostram também uma grande dependência ainda da energia fóssil, e mostram que o país tem vindo a ter temperaturas cada vez mais altas, e que produz cada vez mais resíduos.

Energia e transportes produzem metade das emissões de gases em Portugal
A Pordata nota na análise que face a 2005, e apesar das oscilações, as emissões de GEE têm baixado na generalidade dos setores, em Portugal e na UE, com exceção da agricultura em Portugal, cujas emissões de GEE aumentaram 4,7%.

Na área da energia, apesar dos ganhos nas renováveis, a energia fóssil representa 65% do cabaz (repartição pelas diferentes fontes da energia aprovisionada), com 40,6% vinda do petróleo e 23,6% do gás natural, em 2021. Face a 2000 o peso do carvão baixou de 15% para menos de 1% e o petróleo caiu mais de 20 pontos percentuais, com crescimento do gás natural e das renováveis.

Positivo é o peso das energias renováveis na produção de energia elétrica. Em 2021 64,9% da produção vinha de fontes renováveis. Desde 2018, destaca o Pordata, mais de metade da produção elétrica tem como fonte as energias renováveis.

Economia portuguesa é das que mais recursos naturais consome
Segundo os dados da Pordata, em 2021, Portugal consumiu cerca de 174 milhões de toneladas de materiais (segundo o Eurostat, o INE indica 163,9 milhões), o equivalente a 16,9 toneladas por habitante, quando o valor da média europeia não vai além das 14,1 toneladas por habitante.

A Pordata explica que os minerais não metálicos, muito usados na construção, são os mais consumidos em Portugal, representando 63% do total em 2021.

"Em Portugal, o consumo interno de materiais aumentou 65% entre 1995 e 2008, ano em que atingiu o seu valor máximo com 242 milhões de toneladas. A trajetória posterior foi de forte redução durante o período da crise económica, tendo-se seguido uma quase estabilização em torno de 164 milhões de toneladas", explica a análise, a que a Lusa teve acesso.

De acordo com os números, no balanço entre crescimento económico e consumo de materiais, Portugal atingiu em 2013 uma melhoria de 23% na produtividade dos recursos (quociente entre o PIB e o Consumo Interno de Materiais), face a 1995.

Desde então, apesar de manter sempre a produtividade acima de 1995, nunca mais atingiu o mesmo valor. Em 2021 foi de 14%.

Na área dos resíduos os números mostram que em 2020 cada pessoa produziu em média 1,4 quilos de lixo por dia. Desde 1995 que a produção de resíduos "per capita" tem aumentado, um aumento que desde então foi de 46%, quando a média europeia não passou dos 12%.

Outro fator negativo é o da deposição de resíduos em aterro, metade dos resíduos portugueses tiveram esse destino em 2021, o dobro da média europeia (23%).

A Pordata nota que o ponto de partida de Portugal foi diferente, porque em 1995 cerca de 90% dos resíduos urbanos em Portugal iam para aterro, contra 65% da média europeia.

Um ponto de partida também diferente na reciclagem. No mesmo ano de 1995 Portugal reciclava 1% e a média europeia já era de 12%. Assim, em 2021, o principal destino dos resíduos urbanos na UE era a reciclagem (30%) mas em Portugal atingia-se apenas os 13%.

Hoje, Dia Mundial do Ambiente
O Dia Mundial do Ambiente celebra-se anualmente a 05 de junho desde 1974. Este ano, tendo como países anfitriões a Costa do Marfim e os Países Baixos, debate soluções para a poluição plástica.

Nos últimos 50 anos tem sido um pretexto para sensibilizar a população mundial para as questões ambientais.

Para assinalar a data, os desafios a emergência climática serão debatidos num debate na Central Tejo, em Lisboa, numa iniciativa das entidades gestoras de resíduos, Novo Verde e ERP Portugal, em parceria com a Fundação EDP.

O dia é também assinalado com outras iniciativas, quer em Lisboa quer em cidades como Guimarães ou Coimbra, Braga, Guarda ou Funchal, sobretudo com conferências.

A propósito da efeméride a empresa Prosegur apresenta uma lista do que considera os principais crimes ambientais, na qual inclui a pesca irregular, não declarada e não regulamentada, a posse e o comércio ilegal de espécies, a caça ilegal ou furtiva, a exploração ilegal e o tráfico de madeira, a extração ilegal de recursos minerais e a gestão ilegal de resíduos.

sábado, 1 de abril de 2023

UE: Portugal em último lugar na recolha de resíduos elétricos e eletrónicos


Portugal é o pior país da União Europeia no tratamento de Resíduos de Equipamentos Eléctricos e Electrónicos (REEE), ficando abaixo da média europeia (45%), segundo dados do Eurostat. Apenas 32% dos REEE foram recolhidos em 2020, muito abaixo da meta europeia de 65%.

Em 2020, os equipamentos colocados no mercado chegaram às 212 mil toneladas, e a recolha não ultrapassou as 59 mil toneladas.

Segundo a Zero, existe subfinanciamento do sistema de gestão dos REEE, porque são muito baixos os valores que as empresas que criam os equipamentos pagam às entidades gestoras dos REEE, quando os equipamentos se tornam resíduos.

A Zero defende que os equipamentos elétricos e eletrónicos deviam ter um sistema de depósito/retorno como as embalagens de bebidas de plástico e vidro, de forma a que as pessoas recebessem o valor do depósito pago inicialmente quando compram um novo equipamento e entregam o antigo.

As empresas quando entregam, por exemplo, um frigorifico novo, muitas vezes não recolhem o frigorífico velho, não cumprindo a lei. Muitas vezes a recolha dos frigoríficos, como se viu numa reportagem da SIC, é feito por transportadoras que os vendem a sucateiros.

O mercado paralelo da reciclagem, em Portugal, fica com muitos destes electrodomésticos em fim de vida. De acordo com um estudo da Eletrão, três em cada quatro equipamento elétricos e eletrónicos usados e colocados na via pública ou nos circuitos municipais vão parar ao mercado paralelo.

Uma solução para este problema é que ocorra inspeção junto dos retalhistas para acederem às informações relativamente aos equipamentos que foram vendidos e os que foram recolhidos.

sábado, 25 de março de 2023

Enquanto famílias sofrem, Banca alarga lucros e engrossa os bolsos

Os cinco maiores bancos a operar em Portugal tiveram lucros 2.583 milhões de euros em 2022, mais 1000 milhões de euros do que em 2021. Um contraste brutal face ao empobrecimento das famílias.


Termos como «comissões bancárias», «euribor» e «spread» têm sido aspectos com que as famílias estão confrontadas. Todos os dias o aumento do custo de vida tem sido debatido sem que isso seja acompanhado pela avaliação de quem ganha com tudo isto.

A realidade, no entanto, quando acompanhada pelos números poderá revelar quem tem ganho, e os números da Banca não fogem à regra. Segundo contas feitas pela Agência Lusa, os cinco maiores bancos que operam em Portugal obtiveram lucros agregados de 2.583 milhões de euros em 2022, mais 1.000 milhões de euros do que em 2021.

A Caixa Geral de Depósitos arrecadou lucros de 843 milhões de euros em 2022, mais 45% do que em 2021. O Santander Totta foi o segundo banco com melhores resultados positivos em 2022 de 606,7 milhões de euros, mais 90% do que no ano anterior e o melhor resultado da sua história. O Novo Banco triplicou os lucros e em 2022 esses ascenderam a 560,8 milhões de euros depois de em 2021 ter tido pela primeira vez resultados positivos, de 184,5 milhões de euros. Já o BCP subiram 50% para 207,5 milhões de euros e os do BPI cresceram 19% para 365 milhões de euros.

Enquanto os bancos lucram e distribuem dividendos, quem trabalha tem visto o seu salário perder cada vez mais valor real. A título de exemplo, o salário médio por trabalhador diminui 4,0% em termos reais em 2022. Esse mesmo ano viu a maior subida anual de preços de bens e serviços de consumo dos últimos 30 anos, reflectida numa inflação que se fixou nos 8,1%, já o Salário Mínimo Nacional em 2023 aumentou apenas 7,8%, fixando-se no 760 euros.

Bom bom é sermos pobres. Somos o 7.º país com menor PIB per capita da UE, muito longe da média europeia.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Portugal é dos países da UE com uma das taxas de circularidade mais baixas


Portugal apresentou uma taxa de utilização de materiais recicláveis de 2,3% em 2021, tendo ocupado o 24º lugar entre os 27 Estados-Membros da União Europeia. Em 2020, tinha registado uma percentagem de 2,5%.

Os Países-Baixos, com uma percentagem de 34%, registaram, no ano passado, a maior taxa de circularidade, tendo ocupado o primeiro lugar. A Bélgica ficou na segunda posição, com uma percentagem de 21%, e o terceiro lugar foi ocupado pela França, com uma percentagem de 20%. A Roménia ficou em último lugar (1%) e ficou atrás da Finlândia e da Irlanda, ambas com uma taxa de circularidade de 2%.

Para além disso, a taxa de circularidade registou algumas variações, de acordo com o tipo de material. O Eurostat revelou que, no ano passado, os minérios metálicos registaram uma taxa de 23%, a biomassa (20%), os materiais não metálicos (14%) e os materiais/transportadores de energia fóssil (3%).

A taxa de utilização de material circular registou, em 2021, uma percentagem de 11,7%, em 2020, de 11,8% e 12% foi a percentagem em 2019. A taxa de circularidade na União Europeia, pelo segundo ano consecutivo, apresenta um decréscimo.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Universidade de Coimbra coordena projeto que aposta na gestão agroecológica de infestantes e pragas

Fonte: Arc 2020

A Universidade de Coimbra (UC) está a coordenar um projeto internacional que aposta na gestão agroecológica de infestantes e pragas, e que foi contemplado com um financiamento de cinco milhões de euros para os próximos quatro anos.

O projeto internacional GOOD – coordenado pela professora catedrática do Departamento de Ciências da Vida (DCV) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) Helena Freitas – envolve mais de uma dezena de países europeus, tendo como principal ambição promover a transição agroecológica para a gestão de infestantes e pragas em toda a Europa.

“Ao implementar uma abordagem multidisciplinar, o ‘Agroecology for Weeds – GOOD’ pretende criar, implementar e avaliar práticas, sistemas e protocolos de Gestão Agroecológica de infestantes e demonstrar, em condições reais, como a adoção desta gestão pode reduzir fortemente o uso de herbicidas sintéticos, aumentar a sustentabilidade, produtividade e resiliência dos sistemas agrícolas, explicou a coordenadora do projeto.

Em comunicado, a UC vincou que os sistemas agrícolas da União Europeia (UE) enfrentam desafios crescentes de sustentabilidade e produtividade, devido ao impacto das alterações climáticas em toda a cadeia de valor agroalimentar, agravado pelos efeitos negativos da pandemia causada pela covid-19 e, mais recentemente, pelas instabilidades geopolíticas.

“Estes são dois fatores que ameaçam a estabilidade do setor agrícola e enfatizam a necessidade de mudança na perspetiva/agenda agrícola europeia”, apontou Helena Freitas.

Segundo a UC, as infestantes são um dos fatores mais importantes para determinar a produtividade, rendimento e sustentabilidade da produção agrícolas, o que faz com que “os agricultores dependam fortemente de herbicidas devido à sua alta eficácia contra estas ervas nocivas, e constituem a segunda categoria de pesticidas mais vendida na UE-27, representando, de acordo com o EUROSTAT, 35% de todas as vendas de pesticidas em 2020”.

Perante esta realidade e reconhecendo a necessidade de acelerar a transição para sistemas alimentares sustentáveis, seguros e saudáveis, bem como para enfrentar a ameaça da crise da biodiversidade, várias iniciativas políticas da UE, incluindo o EU Green Deal e sua Farm to Fork (F2F) e Estratégias de Biodiversidade, definiram como meta reduzir em 50% o uso de pesticidas sintéticos até 2030.

Estas iniciativas serão transpostas para os Planos Estratégicos dos Estados-Membros da Política Agrícola Comum (PAC) através dos eco-esquemas.

De acordo com a coordenadora do projeto, a nova proposta sobre o uso sustentável de pesticidas pretende que o foco seja direcionado “para a promoção de adoção de métodos alternativos de controle de infestantes”.

“Ao fazê-lo, está a estabelecer-se, pela primeira vez, uma forte iniciativa para atingir os ambiciosos objetivos da Comissão Europeia com metas juridicamente vinculativas para a redução de pesticidas na EU”, acrescentou.

Helena Freitas defendeu ainda que os aspetos socioeconómicos que envolvem a gestão de ervas daninhas – simultaneamente com o papel dos agricultores na tomada de decisão, a preocupação pública com o uso e a resistência a pesticidas, a segurança alimentar, as questões gerais de saúde humana e as regulamentações governamentais resultantes – “exigem a redução da dependência excessiva de herbicidas”.

Para tal, é necessário o desenvolvimento de “abordagens de sistemas alternativos usando estratégias preventivas, mecânicas, culturais e biológicas, combinadas com ferramentas de agricultura de precisão num contexto de gestão agroecológica de infestantes”.

O projeto internacional GOOD vai desenvolver uma Rede Agroecológica, que engloba um ecossistema de 16 Living Labs (LLs), com a intenção de melhorar a cocriação de conhecimento, a decisão dos agricultores – criação e aceitação do utilizador final de abordagens.

“Esta rede de gestão será tanto uma rede física de LLs, permitindo aos utilizadores e parceiros a partilha de conhecimentos e experiências, como uma rede digital de todos os atores relevantes em toda a cadeia de valor agroalimentar, criando ligações com outros projetos e redes que operam no campo da agroecologia e gestão de pragas”, informou.

Para a concretização deste objetivo final, o projeto propõe diversas soluções focadas no “uso de plantas de cobertura em todos os laboratórios e o aumento de sua capacidade competitiva contra infestantes por meio de inoculação com microrganismos benéficos, a combinação de plantas de cobertura com outros métodos de Gestão agroecológica e soluções digitais num esquema integrado para a redução da pressão de pragas e uso de herbicidas nos 16 LLs”.

Coordenado pelo Centro de Ecologia Funcional da FCTUC, o GOOD é um projeto Horizonte Europa e envolve, além de Portugal, países como França, Espanha, Itália, Grécia, Irlanda, Bélgica, Letónia, Países Baixos, Sérvia e Chipre.

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terça-feira, 22 de novembro de 2022

Limites planetários para resistência a antibióticos e pesticidas identificados (já em 2018)

Antibiotic and pesticide susceptibility and the Anthropocene operating space

Segundo a Rede Europeia de Vigilância da Resistência Antimicrobiana, Portugal é o quarto país da Europa com maior taxa de resistência bacteriana. Segundo os dados de 2015 em Portugal registaram-se 24 mil infeções que resultaram 1.158 mortes.
Portugal também é o quarto país da Europa com maior taxa de venda de pesticidas.
Portugal, em Outubro deste ano (2022) teve a segunda maior quebra nos preços na produção industrial na UE. Os preços na produção industrial continuam a subir no Velho Continente, tendo avançado 5% na área do euro e 4,9% na União Europeia (UE) em agosto, face ao mês anterior. Portugal é um dos três países que contraria a tendência, registando a segunda maior quebra nos preços em agosto, de acordo com os dados divulgados pelo Eurostat esta terça-feira. Se a comparação for feita com agosto do ano passado, os preços dispararam mais de 40%.[fonte: Eco].
Como parece ser do conhecimento geral os pesticidas com maior venda em Portugal são os herbicidas com glifosato. Julgo que relativamente a este facto, e apesar de toda a obscuridade das entidades competentes, não nos restará qualquer tipo de dúvida.
Este tipo de herbicidas possui comprovadamente actividade antimicrobiana, ou seja, são substâncias que matam as bactérias (vulgo antibióticos). Este efeito antimicrobiano é exercido sobre todo o tipo de bactérias: as bactérias presentes nos solos, mas também, sobre a população microbiana presente no tubo digestivo dos vários seres vivos.
A maioria das resistências a antimicrobianos têm início no meio externo aos hospitais, e, são posteriormente introduzidas em ambiente hospitalar através de vários factores como, o ar, a água, as pessoas, etc. onde encontram os indivíduos ideais para se manifestarem, infelizmente, os doentes com imunossupressão.
Com base nesta nota introdutória  surgiu pela primeira vez, em 2018, um artigo no “Journal Nature Sustainability” a alertar para a situação alarmante que se está a criar a nível planetário.
Segundo este artigo neste momento não existe uma estrutura capaz de monitorizar a assustadora ameaça planetária à saúde pública.
Esta investigação concluiu que as bactérias Gram-negativas, são um grupo de bactérias que inclui microrganismos patogénicos conhecidos, tais como: Salmonella, Klebsiella pneumoniae e E. coli,  algumas das estirpes de várias espécies já apresentam resistência a tudo ou à maioria dos antimicrobianos testados. 
Segundo o seu autor Peter Søgaard Jørgensen do Global Economic Dynamics e do Biosphere Programme da Royal Swedish Academy of Sciences, Stockholm Resilience Centre, da Universidade de Estocolmo:

“Parece que atravessamos o ponto de não-retorno para as bactérias Gram-negativas. Sem novas abordagens, no futuro ir para um hospital e não contrair uma infecção grave será cada vez mais uma questão de sorte. Para além disso, mais doentes terão o infortúnio de contrair infecções bacterianas não tratáveis ou difíceis de tratar. Este é um risco que deveria ser considerado de contingência para a sociedade humana".

Como seria de esperar uma das resistências bacterianas descobertas foi a resistência ao glifosato.

Mais adiante é referido o seguinte:

“Um benefício das culturas resistentes ao glifosato é que elas ajudam os agricultores a controlar ervas daninhas já resistentes a outros herbicidas”, diz Yves Carrière, autor do estudo da Universidade do Arizona. “Mas a evolução rápida e generalizada da resistência ao glifosato em muitas ervas daninhas às vezes deixou poucos herbicidas eficazes para o controle de ervas daninhas com resistência múltipla”.

sábado, 5 de novembro de 2022

Proteger os nossos oceanos e o meio ambiente da radiação sem fio 5G e sonar


Anti-5G
Tecnoecocídio: a destruição sistemática de nosso ecossistema pelo uso explorador da tecnologia.

Embora muitos tenham visto anúncios promovendo as rápidas capacidades sem fio do 5G conectando tudo e todos e prometendo que essas tecnologias inteligentes fornecerão um futuro de energia renovável, a pesquisa científica e os esforços de defesa ambiental mostram o oposto do que essas indústrias com fins lucrativos prometem – com centenas de cientistas , ativistas das mudanças climáticas e especialistas em saúde pública exigindo uma moratória na implantação dessas tecnologias.

Nossa missão é apoiar o movimento global para conter a expansão sem fio na Terra, nos céus e no oceano, porque representa uma ameaça imediata a toda a vida. É nossa esperança que conscientizemos o público sobre os danos do 5G, satélites e oceanos “inteligentes” e iniciemos um diálogo sobre opções de tecnologia mais sábias e equilibradas para um futuro mais seguro e afirmativo da vida.

Pró - 5G

O 5G pode vir a ter um impacto muito positivo no plano ambiental, socorrendo-se de outras áreas do conhecimento como sejam a Internet das Coisas (Internet of Things – IoT), Machine Learning, Inteligência Artificial e Big Data. A combinação com essas áreas permitirá, por exemplo, a análise e tratamento da informação em tempo real, a aprendizagem das máquinas e o desenvolvimento de equipamentos que vão gerar informação que, após processada, resultará em conhecimento útil para a tomada de decisões mais sustentáveis.

Primeiros passos
Em 2016 foi subscrito o Acordo de Paris, o primeiro acordo universal e juridicamente vinculativo sobre alterações climáticas, subscrito pela União Europeia.

No mesmo ano, o projeto SCAVENGE (sustainable celular network harvesting ambiental energy) foi lançado pela Comissão Europeia (CE), com o objetivo de definir designs, protocolos, arquiteturas e algoritmos sustentáveis para as redes móveis 5G. Em traços gerais, pretendia-se incentivar que estações de base, dispositivos móveis e sensores 5G pudessem vir a beneficiar de fontes de energia renovável.

Em 2018, a Comissão Europeia (CE) emitiu o comunicado Um Planeta Limpo para Todos – Estratégia a longo prazo da UE para uma economia próspera, moderna, competitiva e com impacto neutro no clima. Este comunicado inclui as sete principais componentes estratégicas da CE para alcançar a neutralidade climática, ou seja uma economia com zero emissões líquidas de gases com efeito de estufa, até 2050.

Em 2019, o comunicado da CE sobre o Pacto Ecológico Europeu contextualiza o 5G em termos do papel que poderá ter na neutralidade climática.

“A Comissão estudará medidas para garantir que as tecnologias digitais, como os sistemas de inteligência artificial, a tecnologia 5G, a computação em nuvem e de proximidade e a Internet das coisas, possam acelerar e maximizar o impacto das políticas que visem lidar com as alterações climáticas e proteger o ambiente”

Normas internacionais

A UIT inclui um grupo de trabalho para o tema do ambiente e da economia circular (grupo de trabalho 5 da ITU-T) que, entre outros, tem como objetivo estudar metodologias de avaliação dos efeitos das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) nas alterações climáticas e publicar diretrizes para a utilização das TIC de forma ecológica.

Este grupo reconhece que o 5G, em conjunto com a IoT, blockchain, cloud computing, realidade virtual e aumentada, entre outras tecnologias emergentes, são importantes na criação de soluções que permitam enfrentar alguns dos desafios globais como as alterações climáticas e tem vindo a desenvolver esforços para aprovar normas que permitam apoiar: soluções sustentáveis de alimentação de energia para o 5G; centros de dados energeticamente eficientes; e gestão inteligente de energia para as estações de base de telecomunicações.

Para além do trabalho desenvolvido ao nível das futuras normas supramencionadas, a UIT também publica documentos com os requisitos ambientais para a implementação do 5G e relatórios sobre o tema do ambiente e das alterações climáticas, entre os quais se destaca o relatório “Frontier technologies to protect the environment and tackle climate change“, realizado com a colaboração de outras entidades das Nações Unidas.

terça-feira, 11 de outubro de 2022

terça-feira, 20 de setembro de 2022

Portugal voltou a ser em 2021 o principal produtor europeu de bicicletas

Só uma fábrica (a RTE, em VNGaia) é responsável por cerca de metade da produção nacional. Essa unidade trabalha em exclusivo para um grande fabricante europeu


Portugal produziu 2,9 milhões de bicicletas em 2021, sendo assim o país da União Europeia (UE) que mais bicicletas produziu, segundo os dados divulgados esta segunda-feira pelo Eurostat.

No total a UE produziu 13,5 milhões de bicicletas no ano passado. A seguir a Portugal o maior produtor foi a Roménia (2,5 milhões de bicicletas) e o terceiro a Itália (1,9 milhões).

No que diz respeito ao comércio internacional de bicicletas, o bloco europeu exportou 921 milhões de euros em bicicletas (elétricas e não elétricas) para países fora do bloco, enquanto importou 1896 milhões de euros em bicicletas.

Por tipo de bicicleta, a UE exportou 1.487.700 bicicletas não elétricas, no valor de 433 milhões de euros, e importou 5.743.700, no valor de 1046 milhões de euros. Face a 2020, o número de bicicletas não elétricas exportadas aumentou 16% em 2021 e as importações aumentaram 17%.

Quanto às bicicletas elétricas, os 27 exportaram um total de 315.800, no valor de 488 milhões de euros e importaram 1.148.600, por 849 milhões de euros. O número de bicicletas exportadas subiu 15% e das importadas aumentou 37%.

No ano passado o Reino Unido e a Suíça foram os principais destinos das bicicletas não elétricas e elétricas europeias. Por outro lado, Taiwan foi o país do qual a UE importou mais bicicletas elétricas, enquanto o principal país que forneceu bicicletas não elétricas foi o Camboja.

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terça-feira, 19 de julho de 2022

"Outono de raiva". Milhões de trabalhadores europeus não têm dinheiro para pagar uma semana de férias


População que não pode pagar férias aumentou em mais da metade dos Estados-membros da União Europeia desde 2019 e a proporção de trabalhadores sem essa capacidade financeira cresceu em 11 países. Dados coincidem com o aumento dos lucros das empresas europeias, o que significa que executivos e acionistas acumularam mais dinheiro, em detrimento dos trabalhadores

Mais de 38 milhões de trabalhadores na Europa não podem pagar uma semana de férias apesar de terem um emprego a tempo inteiro, segundo um estudo da Confederação Europeia dos Sindicatos (CES).

“As férias não devem ser um luxo, pois são cruciais para garantir a saúde e o bem-estar dos trabalhadores”, disse a vice-secretária-geral da CES, Esther Lynch, num comunicado divulgado nesta segunda-feira.

De acordo com o estudo, a proporção da população que não pode pagar férias aumentou em mais da metade dos Estados-membros da União Europeia (UE) desde 2019 e a proporção de trabalhadores sem essa capacidade financeira cresceu em 11 países.

"A UE e os governos nacionais têm a responsabilidade de proteger a negociação coletiva como a melhor maneira de garantir que os trabalhadores possam aproveitar a vida em vez de simplesmente sobreviver", disse Lynch.

Os números são baseados numa análise de dados oficiais do Eurostat, o gabinete de estatísticas da UE, realizada pelo European Trade Union Institute, um centro de pesquisa independente da CES.

Os resultados indicam que a Roménia, com 47%, a Grécia, com 43,4%, a Lituânia, com 41%, e a Croácia, com 39,7%, eram os países com maior proporção de trabalhadores que não podiam pagar uma semana de férias em 2020.

Os países com maiores aumentos percentuais, entre 2019 e 2020, de trabalhadores que não puderam viajar de férias por uma semana foram a Lituânia, com um aumento de 12,4%, a Bulgária, com 4,8%, e a Grécia, com 2,1%.

No que respeita aos valores totais, devido à elevada população, estima-se que Itália, com oito milhões, Espanha, com 4,6 milhões, e França, com 4,1 milhões, tivessem o maior número total de colaboradores que não puderam usufruir de uma semana de férias em 2020.

A estes países seguiram-se a Roménia, com 3,9 milhões, e a Grécia, com 1,6 milhões de trabalhadores.

"Outono de raiva"

Segundo a CES, esses dados coincidiram com o aumento dos lucros das empresas europeias, o que significa que executivos e acionistas acumularam mais dinheiro, em detrimento dos trabalhadores europeus.

"O aumento da desigualdade nas férias mostra que a economia europeia não está a funcionar para os trabalhadores", acrescentou Lynch, no comunicado.

“Sem um aumento salarial justo, empresários e políticos irão voltar das suas próprias férias de verão para enfrentar um outono de raiva, seguido de um inverno de descontentamento”, alertou.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Cinco sinais de que uma recessão global pode estar a caminho

A extração de carvão representa vários perigos para os trabalhadores das minas. Para fazer face ao risco de libertação de gases tóxicos, indetetáveis pelos humanos, os mineiros levavam gaiolas com canários para os túneis onde trabalhavam. Assim que estes pássaros paravam de cantar (ou morriam), estava dado o sinal de alerta sobre a presença de monóxido de carbono ou metano, pelo que a mina tinha de ser evacuada.



A prática passou a ser recorrente no início do século passado nas minas britânicas. Na década de 80, felizmente, as empresas de extração de carvão recorreram a outros métodos menos bizarros para baixar o risco de vida dos seus trabalhadores. Mas a expressão perdura até hoje, sobretudo nos mercados financeiros, para ilustrar os primeiros sinais sobre algum perigo iminente.

Numa altura em que se intensificam os receios com a possibilidade de a economia global entrar em recessão, investidores, analistas e economistas tentam identificar os canários na mina de carvão (“canary in the coal mine”) que estão a dar o alerta sobre este cenário de contração na economia mundial.

A economia mundial vai entrar em recessão? Já este ano, ou só em 2023? Será acentuada e prolongada, ou temporária e suave? Numa altura em que os dados económicos que olham para o passado ainda não mostram esse cenário de recessão, os indicadores económicos avançados já sinalizam perigo no horizonte. E depois existem os sinais dos mercados, onde as expectativas dos investidores têm demonstrado, historicamente, serem mais certeiras a prever recessões dos que os economistas.

O ECO selecionou cinco destes sinais que estão a ser dados pelos mercados e indicadores avançados. Além destes, são vários os desenvolvimentos que estão a agravar o pessimismo sobre a evolução da economia global nos próximos meses. Os bancos centrais estão determinados na subida de juros para combater a escalada da inflação, mesmo que a economia trave de forma considerável; a Rússia continua a reduzir os fornecimentos de gás natural à Alemanha (e outros países europeus), sendo que se “fechar a torneira” por completo será inevitável uma recessão na maior economia europeia; a política de covid-zero está a condicionar fortemente a atividade económica na China, o que penaliza o comércio mundial e agrava os constrangimentos nas cadeias de abastecimento globais.

1 – Confiança em mínimos alimenta recessão

Os índices de confiança dos agentes económicos (consumidores, empresários e investidores) são dos melhores indicadores avançados, uma vez que olham para o futuro, sinalizando como vai evoluir o consumo das famílias, o investimento e contratações das empresas e as perspetivas para a evolução dos mercados financeiros. A evolução recente destes índices não augura nada de bom, estando na generalidade em queda acentuada e em alguns casos em mínimos de muito tempo. O que, historicamente, sinaliza uma travagem forte da economia, ou mesmo recessão.

Nos Estados Unidos existem vários índices para medir a confiança dos consumidores, sendo que o publicado pela Universidade de Michigan é dos mais relevantes. Em junho atingiu um mínimo histórico, com as famílias norte-americanas a mostrarem uma elevada preocupação com o aumento do custo de vida, reflexo da inflação estar em máximo de 40 anos acima dos 8%. O índice do Conference Board para avaliar as condições económicas está mais perto de máximos do que mínimos, mas já recua há três meses seguidos.

Sempre que este índice desceu durante quatro meses, a economia norte-americana já estava em recessão, pelo que a leitura que vai ser revelada este mês poderá ser mais um sinal preocupante. Um estudo de Danny Blanchflower, publicado pelo NBER (entidade responsável por decretar as recessões nos EUA), reforça os sinais negativos. Desde 1980, sempre que os índices da Universidade de Michigan e do Conference Board para medir as expectativas dos consumidores caem mais de 10 pontos, a economia entra em recessão. Os dois índices já desceram bem mais do que isso no atual ciclo.


Na Europa o cenário não é muito diferente, com a forte subida nos preços e a guerra na Ucrânia a pesarem de forma significativa na confiança dos agentes económicos. O índice da Comissão Europeia para medir a confiança dos consumidores aproximou-se em junho do mínimo histórico fixado nos primeiros meses da pandemia (abril de 2020). O índice da Sentix, que mede a confiança dos investidores na Zona Euro, recuou em julho para mínimos de maio de 2022, o que de acordo com o instituto torna “inevitável” uma recessão na região.

A subida acentuada dos preços de bens essenciais, com destaque para energia e alimentação, bem como a subida das taxas de juro que agravam as prestações dos empréstimos, estão a penalizar a confiança das famílias a nível global. O índice da OCDE para medir o sentimento dos consumidores já está a cair há 11 meses seguidos, situando-se atualmente já perto do mínimo histórico fixado na crise financeira de 2008, que foi marcada por uma poderosa recessão na economia global.

O grande problema da deterioração da confiança dos agentes económicos está no facto de exacerbarem os movimentos negativos da atividade económica, acabando por contribuir para que se concretizem as profecias de recessão. Os elevados níveis de pessimismo levam as famílias a adiar a aquisição de bens duradouros e retrair o consumo de bens correntes.

Entre os gestores, a quebra de confiança também é evidente, com muitos CEO a expressarem preocupação com o rumo da economia mundial. Vários líderes dos maiores bancos de Wall Street veem como certa uma recessão na maior economia do mundo e Elon Musk revelou recentemente ter um “super bad feeling” sobre a evolução da economia, tendo dado ordens para a Tesla reduzir a força de trabalho. Um bom exemplo de como as expectativas acabam por se concretizar devido ao sentimento dos agentes económicos.

2 – A queda preocupante do “Doutor Cobre”

O cobre é dos metais que tem a aplicação mais diversificada. É utilizado para fabricar produtos elétricos, eletrónicos, automóveis, sendo também uma matéria-prima essencial no setor da construção e na indústria em geral. É por causa desta abrangência que este metal é conhecido nos mercados como o “Doutor Cobre”, por ser capaz de antecipar a direção da economia global, merecendo por isso um grau de doutoramento.

Nos últimos 30 anos, sempre que o cobre entrou em “bear market” a economia não escapou a uma recessão. A diminuição da procura pressionava as cotações em baixa, sinalizando uma travagem numa série de setores que tornava inevitável uma recessão global. A evolução recente das cotações do cobre, também conhecido por metal vermelho, volta a gerar motivos de preocupação. O metal entrou em “bear market” no final de junho, sendo que atualmente já acumula uma queda de mais de 30% face ao máximo histórico de março, negociando em mínimos de 19 meses. Desde o início do ano, a matéria-prima já marca uma queda de 23%.

A desvalorização do cobre é a mais citada quando se procuram sinais para o rumo da economia, mas a tendência negativa está a afetar as “commodities” em geral, desde outros metais, a produtos agrícolas e até na energia. Uma evolução que mostra os receios com a procura de matérias-primas num contexto de travagem pronunciada da atividade económica global.

No segundo trimestre, os metais industriais sofreram a desvalorização mais acentuada desde a crise financeira de 2008, marcada por uma recessão profunda na economia global. O S&P GSCI Industrial Metals desce 29% desde o fim do primeiro trimestre, acumulando já uma queda superior a 16% em 2022. Além da desvalorização do cobre, também o alumínio e o zinco registam quedas acentuadas nos últimos meses.

Nas matérias-primas agrícolas a tendência descendente também é evidente nas últimas semanas, numa forte correção face aos máximos que foram registados após a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, que reduziram a oferta por parte destes países que estão entre os maiores produtores mundiais de cereais. O S&P GSCI Agriculture recua 19% desde o início do segundo trimestre e já acumula perdas este ano.

Até o petróleo, apesar dos fortes constrangimentos do lado da oferta, registou uma forte correção nas últimas sessões, levando o Brent em Londres a atingir um mínimo de abril abaixo dos 100 dólares por barril. O S&P GSCI Energy já está em terreno negativo desde o final de março (-2%), acumulando ainda assim uma subida de 36% em 2022.

O índice S&P GSCI, que agrupa o desempenho de todas as matérias-primas, desvalorizou 8% desde o início do segundo trimestre. Uma evolução que denota as preocupações com uma desaceleração agressiva da economia, mas que, por outro lado, também alivia as pressões inflacionistas. Reduz o fardo sobre o aumento do custo de vida das famílias e pode levar os bancos centrais abrandar o ritmo de subida de juros. E assim atenuar o ritmo descendente da economia.

3 – A curva invertida

O mercado de obrigações dos Estados Unidos é o maior do mundo, onde o volume de transações é o mais elevado, sendo geralmente o que guia os investidores na alocação de ativos. É para as yields dos títulos de dívida soberana norte-americanos que os investidores olham para encontrar pistas sobre o rumo da inflação, das taxas de juro da Reserva Federal e também da economia.

Regra geral, as obrigações valorizam (e as yields descem) quando os investidores antecipam períodos de crescimento económico fraco ou recessão. E desvalorizam quando a economia está robusta. O atual momento do ciclo económico e dos mercados pode não ser o melhor para encontrar sinais no mercado de obrigações. Muitos analistas defendem que está distorcido por anos de política monetária ultra expansionista, com compras massivas de ativos pelos bancos centrais. Outros alegam que não vivemos períodos normais que permitam uma interpretação igual à do passado, pois a inflação em máximos de 40 anos está a obrigar os bancos centrais a apertar a política monetária quando se avizinha um período de desaceleração da economia.

A Fed está a combater a subida da inflação com uma política de rápida subida de juros que, confia ao banco central, vai resultar numa aterragem suave da economia (e não numa recessão). Nesse sentido, a instituição liderada por Jerome Powell tem desvalorizado os sinais do mercado de obrigações (“treasuries”). É que a curva das taxas de juro dos títulos de dívida soberana dos EUA deu o sinal de recessão em março, de novo em junho e também nos últimos dias.

Em circunstâncias normais, os investidores exigem uma taxa de juro mais elevada consoante mais longa for a maturidade da obrigação. O mesmo acontece num empréstimo normal, pois quanto mais longo for o prazo, maior o risco de incumprimento. Se o investidor pede uma remuneração mais alta para emprestar num prazo a dois anos do que a 10 anos, é sinal que vê um maior perigo no curto prazo.

É o que está a acontecer nas “treasuries”, com a yield dos títulos a dois anos de novo acima da rendibilidade dos títulos a 10 anos. Neste caso o sinal de perigo é uma recessão. A curva também já inverteu noutras maturidades, sendo que este movimento tem sido acompanhado nas últimas sessões por um alívio das yields, o que reforça os sinais de pessimismo com a evolução da economia.

Desde 2019 que a curva de rendimentos das obrigações dos EUA não invertia. Em 2020 surgiu a recessão na economia norte-americana. É obvio que o mercado não antecipou a pandemia e os seus efeitos devastadores na atividade económica. Contudo, em todas as recessões na economia norte-americana desde 1995 a curva inverteu sempre nos seis a 24 meses anteriores. A conclusão consta de um estudo publicado pela Fed de San Francisco em 2018, que dá conta que só por uma vez a inversão da curva deu um falso alarme.

Um outro estudo, elaborado pela Commonwealth Financial Network e citado pela Reuters, indica que a curva inverteu 28 vezes desde 1900, sendo que em 22 vezes surgiu uma recessão pouco depois. As últimas seis recessões nos EUA iniciaram entre seis a 36 meses depois de uma inversão na curva das taxas de juro.


Tendo em conta estes dados, não admira que os momentos em que as yields dos títulos de curto prazo ficam acima dos de longo prazo sejam marcados por períodos de forte turbulência nos mercados. Ainda assim, os padrões nos mercados nem sempre se repetem e também é importante salientar que no mercado de obrigações europeu a curva está muito longe de se inverter. As obrigações soberanas da Alemanha negoceiam com uma yield em torno de 0,5%, bem distante da taxa de 1,3% dos títulos a 10 anos.

4 – A bolsa e a economia de mãos dadas

Depois das matérias-primas e das obrigações, também é importante olhar para as ações. Ainda que neste mercado os sinais sejam menos robustos para prever o rumo da economia. Desde logo porque, cada vez mais, as bolsas não são um bom espelho da atividade económica. Há inúmeros estudos que mostram a desconexão entre Wall Street e Main Street, ou seja, entre a evolução dos mercados e da economia real. Basta olhar para o peso que uma empresa como a Apple tem no índice S&P500 e a importância bem mais residual que tem na economia. Ou para a composição do índice PSI e perceber como está desfasada da realidade da economia portuguesa.

Dito isto, e focando análise na bolsa norte-americana, também as ações estão a mostrar um sinal de alerta para a economia norte-americana. Sendo evidente que nem sempre as bolsas e o PIB andam de mãos dadas, os dados históricos mostram que nos 14 “bear markets” do S&P500 desde a II Guerra Mundial, nove deles coincidiram com períodos de recessão na maior economia do mundo.

A eficácia do S&P50O está longe dos atributos do cobre ou das “treasuries” para prever recessões, mas é mais um sinal que não deve ser ignorado. O índice norte-americano entrou em “bear market” no mês passado e fechou o primeiro semestre com uma queda acumulada de 21%, o que representou o pior desempenho desde 1970. Com os alertas de recessão a intensificarem-se, o rumo dos mercados acionistas nas últimas sessões tem sido sobretudo dominado pelas preocupações com a forte travagem da economia.

Os analistas estimam que se a economia norte-americana confirmar uma recessão, fica aberto o caminho para quedas adicionais em Wall Street. Contudo, o S&P500 regista uma valorização média de 1% durante o período em que a economia norte-americana esteve em recessão (desde 1945). Um desempenho que valida a tese de desconexão entre as bolsas e a economia real e mostra que os mercados refletem sobretudo as expectativas para o próximo ciclo económico.

5 – Imobiliário (ainda) resiste

De todos os sinais analisados em detalhe neste artigo, este é o que mais dúvidas levanta, devido às indicações pouco consistentes de travagem forte. O imobiliário é, habitualmente, o setor que mais se assemelha ao canário na mina de carvão. Logo aos primeiros sinais de debilidade económica, as famílias compram menos casas, o que pressiona em baixa os preços e nova oferta no mercado.

Os preços das casas vendidas nos Estados Unidos atingiram em abril um novo recorde, mais de 20% acima do registado no mesmo mês do ano passado, o que representa o crescimento homólogo mais alto de sempre. Contudo, existem indicadores avançados que mostram uma tendência de inversão no “boom” que se vive naquele que é um dos mercados imobiliários mais dinâmicos do mundo.


Um relatório da Redfin dá conta que os preços a que as casas novas estão a ser colocadas à venda desceram 1,5% em junho e que está a aumentar a frequência de revisões em baixa dos preços por parte das agências imobiliárias. Esta tendência reflete a redução da procura, evidente nas pesquisas no Google, bem como na descida de pedidos de crédito à habitação (-24%), numa altura em que a taxa média nos contratos a 30 anos está acima dos 5% e em máximos de 2008. Além disso, as vendas de casas pendentes baixaram 13%, maior queda desde maio de 2020.

No Reino Unido, os preços das casas também estão em níveis recorde, mas é já evidente uma redução das vendas. No Canadá, um dos mercados mais aquecidos do mundo, os preços já estão a cair, refletindo uma descida acentuada nas vendas. Em Toronto as vendas desceram 41% em junho e os preços das casas baixaram pelo quarto mês.

A Bloomberg publicou recentemente uma análise sobre o mercado imobiliário, onde dava conta dos alertas de preocupação nos países onde os sinais de bolha são mais evidentes. Além dos EUA e Canadá, mencionava também a Nova Zelândia e Austrália, colocando Portugal no lote dos países europeus mais arriscados.


Os últimos dados do Eurostat mostram que os preços das casas na Zona Euro dispararam 9,8% no primeiro trimestre, no maior aumento homólogo desde 2005. Em Portugal os preços subiram 12,9%. Olhando somente para os preços a que as casas estão a ser vendidas, é impossível detetar sinais de recessão. Ainda assim, os analistas consideram ser inevitável um arrefecimento neste mercado a nível global, sobretudo devido ao impacto da subida das taxas de juro, que vão restringir o acesso de muitas famílias ao crédito para comprar casa. Sobretudo num contexto de aumento do custo de vida devido à escalada da inflação.

Vários sinais positivos

Os alertas de recessão por parte de economistas têm-se intensificado nas últimas semanas. Recorrendo a uma bateria de indicadores das mais diversas áreas, os bancos de investimento estão a atribuir probabilidades cada vez mais crescentes de recessão em diversas geografias e a nível global.


Ao mesmo tempo, muitos economistas continuam convictos que o mundo escapará a um movimento de contração, citando uma série de fatores. Os indicadores de consumo continuam saudáveis, sustentados pela situação financeira robusta das famílias, que acumularam poupanças recorde durante a pandemia. Uma almofada que é vista como fundamental para enfrentar o atual aumento do custo de vida, que pode ser mais ou menos duradouro.

Também as empresas (e sobretudo os bancos) registam uma situação financeira bem mais resiliente do que em recessões anteriores, como as que aconteceram na crise financeira (2008) e na crise de dívida (primeiros anos da década passada). Os PMI, que são um dos indicadores avançados preferidos dos investidores, estão a recuar a nível global, mas sem apontar para uma recessão.

O mercado de trabalho também é um relevante barómetro da saúde da economia e os indicadores mais recentes continuam a apontar para uma situação bastante favorável. A taxa de desemprego na Zona Euro atingiu um novo mínimo histórico em maio e os Estados Unidos continuam a criar centenas de milhares de postos de trabalho todos os meses. Em junho foram quase 400 mil, o que é pouco consistente com uma recessão iminente, embora vários economistas tenham encontrado sinais de debilidade no relatório publicado na sexta-feira, sobretudo na redução do número de trabalhadores.

Na visão dos otimistas há ainda espaço para a China. A segunda maior economia do mundo vive uma crise no imobiliário e a atividade travou fortemente na primeira metade do ano, devido à política de covid-zero, mas o país regista uma inflação contida e Pequim pretende acelerar os estímulos monetários e orçamentais. Uma política em contraciclo com o resto do mundo e que pode amortecer o abrandamento da economia global.

Nos Estados Unidos as recessões são decretadas oficialmente pelo National Bureau of Economic Research (NBER), muitas vezes um considerável tempo depois de já terem iniciado. Em termos gerais, está convencionado que uma economia está em recessão técnica quando o PIB regista uma contração em cadeia (contra o período anterior) durante dois trimestres consecutivos.

Alertas pouco convencionais

Além dos indicadores mais evidentes para procurar sinais de recessão, muitos economistas olham para formas nada convencionais de detetar os “canários da mina de carvão”.

Alan Greenspan, que liderou a Reserva Federal durante 19 anos, estava atento às vendas de roupa interior masculina, considerando que este era dos últimos bens que os homens deixavam de comprar em alturas de aperto financeiro.

O economista Andrew Lawrence criou o “skyscraper index”, que sugeria que a construção de um elevado número de arranha-céus era um prenúncio de recessão. Há ainda o “lipstick index”, cunhado pelo presidente da Estee Lauder, que notou uma subida considerável na venda de cosméticos (sobretudo batons) durante a recessão de 2000. Esta teoria tem por base a ideia de que, em tempos de menor rendimento disponível, as mulheres substituem as compras de artigos como malas e sapatos por bens mais baratos.

Mais fácil do que acompanhar as vendas de artigos como batons ou cuecas, o melhor é mesmo seguir de perto a evolução dos mercados e indicadores económicos avançados para perceber para onde caminha a economia mundial. Se todos continuarem a confluir no sentido negativo, é mais provável que venha aí uma recessão.