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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A próxima crise financeira global? O alerta do FMI sobre a dívida e as lições de 2008

Vamos deixar isto escrito agora, porque depois da próxima crise não faltarão especialistas a explicar, com a segurança que só o passado permite, por que razão ninguém poderia tê-la previsto: há sinais cada vez mais sérios de que a próxima grande crise financeira está a formar-se. Não sabemos quando chega, nem onde começa, e quem apresentar uma data está provavelmente a vender previsões ao quilo. Mas há uma diferença entre adivinhar e olhar para aquilo que está diante de nós. E aquilo que está diante de nós começa a ficar pouco recomendável.

A dívida pública mundial chegou a quase 94% do PIB em 2025 e o FMI prevê no Fiscal Monitor que atinja 100% já em 2029. O problema, porém, não é apenas haver muita dívida. Os Estados vivem há décadas a refinanciá-la: quando uma obrigação vence, emitem outra e seguem caminho. Durante os anos de juros próximos de zero, este mecanismo era extraordinariamente confortável. Agora deixou de ser. Em 2026, grande parte do dinheiro que os governos da OCDE vão buscar aos mercados destina-se simplesmente a refinanciar dívida já existente, como detalha a OCDE no seu Sovereign Borrowing Outlook. E estão a fazê-lo a taxas muito superiores às que pagavam quando boa parte dessa dívida foi emitida. É aqui que a brincadeira muda de natureza.

Nos Estados Unidos, a taxa das obrigações a 10 anos ultrapassou recentemente os 4,75% e a de 30 anos chegou aos 5,327%, o nível mais elevado desde 2007, segundo dados de mercado recolhidos pela U.S. Department of the Treasury. No Reino Unido, a dívida a dez anos chegou este ano aos 5,13%, máximo desde 2008. No Japão, onde durante uma geração praticamente se esqueceu que a dívida pública pagava juros, a taxa a dez anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996, conforme registado pelo
Bank of Japan. Alemanha e França também estão a assistir a fortes subidas das taxas de longo prazo. Não estamos a falar da Grécia em 2011 ou de um qualquer país periférico a quem os mercados resolveram fechar a torneira. Estamos a falar dos mercados de dívida das maiores economias do mundo.

E isto interessa muito mais do que parece. Se um Estado tinha 100 mil milhões de euros de dívida financiada a 1% e passa progressivamente a refinanciá-la a 4% ou 5%, não precisa de pedir mais dinheiro para começar a ter um problema. Basta substituir dívida barata por dívida cara. A factura dos juros cresce, ocupa uma parcela maior das receitas e começa a disputar dinheiro com tudo o resto: saúde, educação, pensões, investimento público. É nesta altura que regressam palavras como “consolidação”, “ajustamento” e “responsabilidade”, geralmente pronunciadas por pessoas que nunca são objecto de nenhuma das três.

E há uma parte essencial desta equação que torna tudo isto bastante menos confortável: estas montanhas de dívida não estão a ser suportadas por economias a crescer 4% ou 5% ao ano. Estão a ser carregadas por algumas das maiores economias do mundo com crescimentos débeis ou praticamente estagnadas. O
Banco Mundial prevê no Global Economic Prospects apenas 2,5% de crescimento mundial em 2026. Na zona euro, o FMI aponta no World Economic Outlook para apenas 0,9%. Isto não é um pormenor: uma economia que cresce depressa consegue suportar uma dívida elevada com muito mais facilidade porque as receitas, os rendimentos e a própria base económica que sustenta essa dívida também crescem. Quando a economia quase não cresce e o Estado começa simultaneamente a refinanciar dívida a 4% ou 5%, o custo da dívida pode crescer muito mais depressa do que a economia que terá de a pagar. A partir daí, as soluções começam a ser aquelas velhas conhecidas que costumam aparecer com nomes tecnicamente tranquilizadores: mais impostos, menos despesa, inflação ou mais dívida.

E o mercado não está a pedir apenas dinheiro aos Estados. Governos e empresas deverão emitir este ano o equivalente a cerca de 25 biliões de euros em dívida. Ao mesmo tempo, a corrida à inteligência artificial está a exigir quantidades colossais de capital e algumas das maiores empresas tecnológicas começaram a financiar parte desse investimento através da emissão de obrigações. Há, portanto, cada vez mais dívida a disputar o mesmo dinheiro, justamente numa altura em que os investidores começaram a exigir melhor remuneração para o emprestar. A OCDE calcula que a dívida soberana em obrigações dos seus membros já atingiu o equivalente a cerca de 53 biliões de euros e que o peso da dívida dos governos centrais deverá chegar este ano a 85% do PIB, 39 pontos percentuais acima do nível de 2007.

Do outro lado temos mercados financeiros extraordinariamente valorizados. O estudo Global Balance Sheet, do McKinsey Global Institute, mostra que a riqueza das famílias aumentou o equivalente a cerca de 35 biliões de euros em 2025, atingindo aproximadamente 492 biliões de euros, mas apenas cerca de 20% desse aumento resultou de novo investimento líquido em activos reais. A maior parte veio da valorização dos activos e de outros ganhos financeiros. Não quer dizer que a riqueza seja imaginária. Quer dizer que uma parte enorme dela depende de casas, acções e outros activos continuarem a valer aquilo que os mercados decidiram que valem.

Mas há uma diferença importante em relação a 2008. Depois daquela crise, os bancos foram obrigados a reforçar capital, liquidez e financiamento mais estável. O risco, porém, não desapareceu por delicadeza. Uma parte considerável mudou simplesmente de sítio. Fundos de investimento, hedge funds, crédito privado e outros intermediários financeiros não bancários representam hoje o equivalente a cerca de 222 biliões de euros, 51% de todos os activos financeiros mundiais, e este sector cresceu ao dobro do ritmo da banca tradicional. O próprio Financial Stability Board (FSB) reconhece no seu Global Monitoring Report limitações sérias nos dados disponíveis sobre áreas como o crédito privado. E isto não significa que bancos e restante sistema financeiro vivam agora em apartamentos separados e tenham deixado de se falar. Pelo contrário. Os bancos financiam estes fundos, concedem-lhes linhas de crédito, fazem operações de repo, negoceiam derivados, fornecem alavancagem e serviços de margem e recebem deles financiamento. O Banco Central Europeu (BCE) no Financial Stability Review e o Comité de Basileia têm vindo precisamente a alertar para estas ligações e para a possibilidade de um choque nos mercados obrigar fundos alavancados a desfazer posições rapidamente, provocando vendas forçadas e transmitindo novamente as perdas à banca. O próprio BCE admite que existem falhas de informação que limitam a capacidade de perceber todas estas exposições.

É esta combinação que merece atenção: Estados muito mais endividados do que estavam antes de 2008, dívida antiga a ser refinanciada a juros bastante mais altos, necessidades recorde de financiamento, mercados financeiros muito valorizados e um sistema financeiro não bancário gigantesco, alavancado, profundamente ligado à banca e em partes importantes bastante menos transparente.

Separadamente, nenhuma destas coisas provoca necessariamente uma crise. O problema começa quando acontecem ao mesmo tempo e aparece um choque que obriga alguém a vender. Foi assim que funcionaram muitas das anteriores. Primeiro existe liquidez, crédito e valorização. Depois os preços sobem durante tempo suficiente para que a subida passe a ser considerada normal. A seguir vem a alavancagem, porque ganhar dinheiro com dinheiro emprestado parece uma ideia extraordinária enquanto os activos sobem. Finalmente aparece qualquer coisa que ninguém tinha colocado no modelo, os preços caem, alguém precisa de liquidez, começam as vendas forçadas e descobre-se que o sistema era muito mais interligado do que parecia.

Há ainda uma razão adicional para levar a próxima crise particularmente a sério. Em 2008, quando o sistema financeiro começou a cair, foram os Estados que apareceram para o segurar. Garantiram bancos, injectaram capital, aumentaram despesa, assumiram riscos privados e deixaram os bancos centrais baixar os juros para níveis próximos de zero. Na próxima grande crise, muitos desses Estados entrarão em campo já carregados com dívidas muito superiores às de 2008 e a pagar bastante mais para as financiar. A capacidade de salvar novamente o sistema sem apresentar depois a factura à economia real será, por isso, bastante menos confortável. O Banco de Pagamentos Internacionais (BIS) analisa no seu Annual Economic Report precisamente este paradoxo: os bancos estão hoje mais capitalizados e líquidos do que antes da grande crise financeira, mas as ligações entretanto criadas com o sector não bancário abriram novos canais indirectos através dos quais o risco soberano e financeiro pode regressar aos bancos. Em algumas economias, as exposições dos bancos à própria dívida soberana continuam também enormes relativamente ao seu capital.

É por isso que há razões para recear que a próxima grande crise possa ser mais difícil de conter do que a de 2008. Não apenas porque existe mais dívida, mas porque o sistema que terá de absorver o choque é maior, mais interligado e tem uma parcela muito superior dos seus activos fora da banca tradicional. Os fundos de investimento, por exemplo, passaram do equivalente a cerca de 18 biliões de euros em activos em 2008 para aproximadamente 45 biliões de euros em 2023. Mudámos algumas regras depois da última crise, reforçámos os bancos e deslocámos uma quantidade considerável de risco para outros lugares. O risco teve a gentileza de acompanhar a mudança.

Há anos que vamos escrevendo sobre isto. Não porque saibamos prever o futuro, mas porque ainda nos lembramos do passado. E se há uma coisa que a História financeira ensina é que as crises nunca parecem iminentes enquanto os mercados estão a subir. Quando finalmente parecem óbvias, já começaram.

Países europeus têm retirado ouro dos Estados Unidos. A Alemanha, que detém a segunda maior reserva de ouro do mundo, concluiu uma grande repatriação parcial em 2017 (tendo trazido ouro de Nova Iorque e Paris para Frankfurt), mas ainda mantém cerca de 37% (mais de 1.200 toneladas) nos cofres da Reserva Federal em Nova Iorque.  Embora existam debates políticos e apelos de economistas para retirar o restante devido a tensões transatlânticas e imprevisibilidade política, o governo alemão não avançou com uma retirada total recente.

A França concluiu a repatriação total das suas reservas que ainda estavam guardadas no estrangeiro. O banco central francês (Banque de France) finalizou a substituição e transferência das últimas 129 toneladas de ouro que mantinha nos cofres da Reserva Federal de Nova Iorque. Com este movimento estratégico de arbitragem e conformidade regulatória, a totalidade das cerca de 2437 toneladas de ouro que compõem o tesouro soberano francês encontra-se agora centralizada a cem metros de profundidade, no cofre subterrâneo conhecido como La Souterraine, localizado na sede do banco em Paris. A evolução histórica detalhada e os contornos políticos destas movimentações podem ser consultados no artigo sobre a Repatriação de Ouro na Wikipédia

Por sua vez, a Itália adota um modelo de custódia mista e mantém o seu stock intocável há décadas, resistindo a pressões de venda mesmo em períodos de crise. O país possui a terceira maior reserva mundial, com cerca de 2452 toneladas de ouro. Deste total, aproximadamente metade (cerca de 1100 toneladas) está guardada localmente nos cofres fortificados do Palazzo Koch, a sede institucional do Banca d'Italia em Roma. A outra metade da reserva italiana permanece dispersa no estrangeiro por razões logísticas e de liquidez de mercado, dividida maioritariamente entre a Reserva Federal de Nova Iorque, o Banco de Inglaterra em Londres e o próprio Bundesbank em Frankfurt. Mais pormenores sobre o enquadramento económico destas reservas estão disponíveis nas estatísticas atualizadas de mercado da Trading Economics

Finalmente, Portugal destaca-se internacionalmente pela elevada proporção de ouro face ao total das suas reservas financeiras globais. O país detém 383 toneladas de ouro e posiciona-se no topo dos países com maior quantidade de metal precioso por habitante. A gestão da custódia do ouro português pelo Banco de Portugal assenta historicamente numa forte componente externa para facilitar operações financeiras internacionais, embora uma parte relevante continue salvaguardada em território nacional, dividida entre os cofres da sede em Lisboa e o cofre-forte do Complexo do Carregado.

No dia 2 deste mês os Países Baixos transferiram 86 toneladas de ouro dos EUA e Canadá para o Reino Unido

Por isso deixamos o aviso agora. As dívidas são maiores, os custos de financiamento estão a aumentar, os mercados estão extraordinariamente valorizados e uma parte crescente do risco financeiro encontra-se em estruturas sobre as quais os próprios reguladores reconhecem não possuir toda a informação necessária. Não sabemos qual será o detonador nem quando alguém acenderá o fósforo. Mas já existe combustível suficiente para que não seja particularmente sensato discutir se há perigo de incêndio.

Mas não se preocupem demasiado. Enquanto isto se passa, haverá certamente um dérbi, uma polémica nas redes sociais, a final de um reality show ou qualquer assunto suficientemente importante para ocupar três dias de televisão.

Quando chegar a factura, então falamos de economia. Considerem-se avisados.
Baseado no texto de Rise Up Portugal, com alguns ajustes.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Entrevista. Clara E. Mattei: “A austeridade é muito eficaz a produzir individualismo, alienação, ódio aos mais pobres, vergonha de ser pobre”


No imaginário comum, o economista é uma figura formal, absorvida por cálculos, gráficos e fórmulas, entregue a um labor inevitavelmente chato. Contudo, uma nova geração de profissionais tem desafiado este estereótipo: são um sucesso nas redes sociais, participam em debates que mobilizam grandes audiências, publicam em várias línguas. Thomas Piketty, Mariana Mazzucato, Gabriel Zucman [recorda a entrevista] ou Kate Raworth são alguns exemplos desta constelação. Mas Clara E. Mattei talvez seja a estrela que melhor desmonta o cliché do economista enfadonho. Além da sua simpatia, é divertida. Parece movida a pilhas, tal é a energia e a vitalidade que irradia.

Esta entrevista devia ter acontecido horas antes da conferência organizada pelo FREE - Forum for Real Economic Emancipation [Fórum para a Emancipação Económica Real, em tradução livre] - organização que Clara fundou e à qual preside -, numa escola secundária em Bishop’s Stortford, no leste de Inglaterra, a 50 minutos de comboio do centro de Londres. Ia debater-se o impacto das guerras no custo de vida e as alternativas económicas e políticas à austeridade. Mas, à última hora, os planos mudaram. Mattei tinha uma reunião na London School of Economics and Political Science (universidade londrina especializada em ciências sociais), e só seria possível conversar durante a viagem entre a capital britânica e o local do evento.

Uma entrevista on the road, dentro de um táxi, no para-arranca do trânsito. Entre perguntas e respostas, apartes para a comitiva que seguia connosco, a economista ainda recebia ou fazia chamadas com a equipa de voluntários que a estava a ajudar: “Salvatore, temos de comprar comida para o lanche. Qualquer coisa: uns snacks, fruta, legumes crus, húmus, queijos… Sim, vão ao supermercado mais próximo. Deixem lá panfletos!”

Chegámos à escola quinze minutos antes do início do debate. Clara saiu do carro à pressa e desapareceu por momentos. Tinha ido acertar os últimos detalhes com a organização, mas pouco depois já estava de volta: “Ainda temos dez minutos para recrutar pessoas. Venham!” E lá foi ela, de passo apressado, distribuir mais uns folhetos promocionais a quem passava. Para usar um termo do país onde vive e dá aulas, é uma mulher cheia de stamina.

Clara Elisabetta Mattei é professora de Economia na Universidade de Tulsa, no Oklahoma, Estados Unidos da América, e tem licenciatura e mestrado em Filosofia, antes de se doutorar em Economia. O seu livro mais conhecido, A Ordem do Capital - Como os economistas inventaram a austeridade e abriram o caminho ao fascismo (ed. Temas e Debates, 2024), nasceu de uma investigação nos arquivos do Banco de Itália e do Banco de Inglaterra sobre o período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. Entre centenas de cartas, memorandos e textos técnicos, encontrou documentos, muitos deles traduzidos pela primeira vez e nunca antes divulgados, que sustentam a sua tese de que as políticas de austeridade do pós-guerra prepararam o terreno para a ascensão dos fascismos que conduziriam à Segunda Guerra Mundial.

Em janeiro, publicou Escape from Capitalism - Economics is Political, and Other Liberating Truths [ainda sem tradução em português], livro em que questiona a ideia de que a economia é uma ciência neutra e apolítica. Parte de conceitos como a austeridade, o desemprego ou a inflação para mostrar como são habitualmente mobilizados para preservar o status quo e apresentar o capitalismo como inevitável. É um manifesto contra a resignação: recusa tratar a pobreza e a desigualdade como acidentes, ou a ordem económica atual como algo natural ou eterno.

Clara acredita que essa ordem pode ser mudada. Uma convicção que lhe corre no sangue, como mostra a história dos seus tios-avós, Gianfranco e Teresa Mattei, duas figuras da resistência antifascista italiana a quem dedica os seus escritos. Gianfranco, químico e militante clandestino, suicidou-se em 1944, depois de ser preso e torturado, para não denunciar os companheiros. Teresa, conhecida como “Chicci”, foi eleita para a Assembleia Constituinte italiana, em 1946, e contribuiu para inscrever no artigo 3.º da Constituição uma ideia fundamental: não há igualdade efetiva enquanto obstáculos económicos e sociais continuarem a limitar a liberdade das pessoas.

Clara Mattei estará em Lisboa, a 15 de julho, na Lisbon Praxis Summer School 2026, organizada pelo Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa, sob o tema “Teorias Críticas do Fascismo”.

sábado, 4 de julho de 2026

A Filantropia enganadora e porque é importante taxar os bilionários

Durante anos venderam a ideia de que a luta de classes era uma invenção da esquerda. Conversa de comunistas. Teorias de ressabiados. Inveja de quem teve sucesso. Uma fantasia repetida sempre que alguém ousava falar de desigualdade ou da concentração da riqueza.
Depois aparece Warren Buffett. Sim, Warren Buffett. Esse conhecido marxista. Admirador de Che Guevara. Frequentador assíduo da Festa do Avante. Praticamente um bolchevique de Wall Street.
E diz isto:
De repente, a teoria da conspiração da esquerda passou a ser uma confissão de um dos homens mais ricos do planeta. Buffett não disse que a luta de classes existiu. Disse que existe. Não disse que a sua classe ganhou. Disse que está a ganhar. [New York Times, 2006]
Durante décadas, convenceram milhões de pessoas de que falar em luta de classes era coisa de comunistas, sindicalistas e ressabiados. Entretanto, a guerra continuou a ser travada. E, segundo um dos seus principais protagonistas, está a correr bastante bem para um dos lados.

"Regra Buffett" nunca chegou a ser implementada.
Apesar de ter tido uma enorme tração mediática e o apoio explícito do então presidente Barack Obama, a proposta falhou o seu caminho legislativo no Congresso dos Estados Unidos.

Em 2012, o projeto de lei (batizado formalmente como Paying a Fair Share Act) foi levado a votação no Senado norte-americano. Embora tenha conseguido uma maioria simples de votos a favor (51 contra 45), a proposta foi travada pela oposição do Partido Republicano através de uma manobra de bloqueio parlamentar (o chamado filibuster), que exigia uma maioria qualificada de 60 votos para que o debate e a votação final pudessem avançar.

Os opositores da medida argumentaram na altura que aumentar os impostos sobre os mais ricos equivalia a uma "guerra de classes" e que a introdução desta taxa iria prejudicar o investimento privado, travar a criação de emprego e desacelerar a economia.

Assim, o sistema fiscal norte-americano manteve-se estruturalmente idêntico no que toca à proteção dos rendimentos de capital. Até hoje, os ganhos derivados de investimentos financeiros e ações continuam a ser taxados a taxas significativamente mais baixas do que os salários do trabalho, permitindo que a assimetria denunciada por Warren Buffett continue a ser uma realidade.

O outro lado da Filantropia
A generosidade proclamada pelos super-ricos através de iniciativas como o The Giving Pledge costuma recolher aplausos unânimes, mas, quando se vira a moeda, a filantropia dos multimilionários revela uma face muito mais cinzenta e amplamente criticada por economistas e sociólogos. Longe de ser um ato puramente altruísta, a transferência de fortunas para fundações privadas funciona, em grande parte, como um mecanismo altamente eficaz de evasão ou otimização fiscal. Ao canalizarem o seu dinheiro para estas estruturas, os bilionários obtêm deduções de impostos massivas, o que significa que o Estado — e, por arrastamento, os cidadãos comuns — deixa de arrecadar receitas que poderiam ser aplicadas em serviços públicos essenciais, como o SNS, a escola pública ou as infraestruturas.

Além da questão financeira, há um profundo défice democrático neste modelo. Quando a riqueza é transferida para fundações geridas pelos próprios magnatas ou pelas suas famílias, o poder de decisão sobre o que é prioritário para a sociedade passa das mãos de governos eleitos para as mãos de elites privadas. São os multimilionários que passam a ditar, segundo as suas convicções pessoais ou interesses de mercado, se o dinheiro deve ir para a cura de uma doença específica, para a exploração espacial ou para reformas educativas que nem sempre são testadas ou validadas. Este fenómeno cria uma espécie de plutocracia disfarçada de caridade, onde o destino do bem-estar social fica sujeito aos caprichos de um punhado de indivíduos que não respondem perante nenhum eleitorado. Ler como os ricos se tornaram mesquinhos

Por fim, não se pode ignorar o tremendo ganho de reputação e a lavagem de imagem, muitas vezes apelidada de philanthro-washing. Muitas destas fortunas colossais foram erguidas com base em práticas laborais controversas, salários baixos, lóbis políticos para travar direitos sociais ou modelos de negócio que aceleraram a crise climática. Ao doarem uma percentagem vistosa do que acumularam, estes empresários conseguem desviar as atenções do escrutínio público e das críticas à forma como geraram a sua riqueza, transformando-se de predadores económicos em benfeitores da humanidade, enquanto mantêm intacto o sistema económico que perpetua as desigualdades que eles próprios dizem combater.

A forma mais democrática é exigir regulação e taxação dos bilionários. 
A exigência de uma maior taxação sobre os bilionários tem deixado de ser um debate puramente académico para se tornar uma pressão política concreta, movida pela necessidade de corrigir o que muitos consideram ser uma falha estrutural do capitalismo moderno. A estratégia para viabilizar esta mudança assenta, primordialmente, na cooperação internacional, dado que os super-ricos operam numa economia globalizada que lhes permite deslocar o património para jurisdições com tributação mais favorável. Projetos como a proposta de um imposto global sobre a riqueza, que visa estabelecer uma taxa mínima anual sobre as maiores fortunas, são fundamentais para evitar a concorrência fiscal entre Estados e impedir a existência de paraísos fiscais que servem de refúgio ao capital.
A nível nacional, a luta pela justiça fiscal passa por reformas legislativas que alterem a forma como a riqueza é tributada, centrando-se na taxação de mais-valias não realizadas - o património latente que cresce sem ser tributado enquanto não é vendido - e no encerramento de lacunas que permitem aos multimilionários viver através de empréstimos garantidos pelas suas próprias ações, escapando assim ao imposto sobre o rendimento das pessoas singulares. Paralelamente, o reforço dos impostos sobre heranças é defendido como uma medida essencial para prevenir a cristalização de dinastias financeiras que exercem um poder desproporcional sobre a democracia. 
Esta causa tem vindo a ganhar força através da pressão cívica, com movimentos de cidadãos e até de investidores consciencializados a sublinharem que a filantropia voluntária é um paliativo insuficiente perante a necessidade urgente de um sistema redistributivo robusto, transparente e democrático, que reponha o equilíbrio entre a acumulação de capital privado e o financiamento dos bens e serviços públicos que sustentam a coesão social.

Saber mais:

sábado, 27 de junho de 2026

Manifesto contra a Caquistocracia: O Teatro do Citizenwashing e a Merdificação do Futuro

O meu amigo Nuno Gomes há tempos alertou-nos para fazermos boicote aos produtos norte-americanos. Pois acrescento a META e a Starlink. Agora piorou muito mais. O Macarthismo tem novas roupagens. Há de facto um bias de ataque e diminuição/irrelevância dos valores socialistas. Esta notícia é apenas a amostra do que aí vem. Só tenho um título: merda! Governo de merda, ideias de merda e badamerda o FMI!
 
Vivemos num época de Citizenwahing (Impotência Cívica). O conceito não é novo. Citizenwahing refere-se a processos de "participação cidadã" que são puramente teatrais. O governo ou uma instituição abre canais de diálogo (como consultas públicas, assembleias ou orçamentos participativos), mas as decisões reais já foram tomadas nos bastidores. As primeiras menções estruturadas ao termo começaram a aparecer em artigos de ONGs e redes de ativismo, como o European Environmental Bureau (EEB) em julho de 2022. O termo foi cunhado por analogia direta ao greenwashing (quando empresas fingem ser sustentáveis). Nesse caso, governos usavam consultas públicas apressadas para aprovar projetos ambientais controversos, alegando que "os cidadãos foram ouvidos". No entanto, a oficialização e a projeção institucional do termo ocorreram no final de 2023. O grande marco foi o discurso da Ombudsman Europeia, Emily O'Reilly, durante um simpósio em Bruxelas explicitamente intitulado Unmasking Citizenwashing (Desmascarando o Citizenwashing). Na ocasião, ela alertou que painéis e assembleias de cidadãos organizados pela União Europeia corriam o risco de se tornarem apenas um exercício vazio de relações públicas se as recomendações reais das pessoas continuassem sendo ignoradas pelos governantes. O termo explodiu após a Conferência sobre o Futuro da Europa, quando muitos participantes perceberam que o seu tempo e energia foram usados apenas para legitimar decisões que já haviam sido tomadas de antemão, consolidando o citizenwashing como a palavra que define a modernização da impotência cívica.
 
Muito grave.
 
E mais grave é que os pobres votaram neste PSD/Chega/IL. A caquistocracia sobrevive porque consegue convencer as suas próprias vítimas a defendê-la, muitas vezes através do medo, discurso do ódio e da desinformação planeada.

Merda para isto tudo.
 
Para ficar triste e aborrecido e irritado com tanta desinformação ou saber que o Zuckerberg inspeciona os meus likes e atrair-me para publicidade que não quero. O gajo é a META, magot. Um estupor. Nem tenho wasap. Sabiam que META e ELON MUSK activamente detroiem o jornalismo que se deseja imparcial. Lembrem-se que Elon Musk está no Pentágono e no Congresso Americano via STARLINK. 

Isto é um assalto à tua/ nossa liberdade. Tempos de combate. Mas fora da esfera de merda. Daí o meu silêncio , mas activo no terreno.

Se me desejarem contactar, tenho o telemóvel, sem wasap, sem tik tok nem insta nem nada desta corja de malfeitores. Os próximos presidentes vão ser decididos por estes globocratas e por Xi Jinping. Farto do anarco-capitalismo. Farto da geopolítica financeira. Farto da caquistocracia. 
 
Resta o biorregionalismo e alter-globalização. O resto é merda! 

A IA também vai cair na merdificação e mais polarização. Fica aqui o registo.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

OVO - © 2012, Manel Cruz featuring Retimbrar, Sopa de Pedra, Renato Oliveira e Eduardo Silva


Da ideia antiga de fazer um concerto para pintainhos, em que estes eram o único público, e da ideia de assinalar o descontentamento social aquando da época do resgate financeiro a Portugal pela Troika, surgiu esta combinação. Eu tinha a música e a letra, como hino de contestação, e a hipótese de colocar 300 pintainhos a assistir à execução ao vivo da música. 
Os pintainhos ganharam este  significado metafórico do povo que apanha os grãos, e os músicos o de uma espécie de resistência secreta, que no vídeo oculta a identidade atrás de máscaras que fiz com materiais pobres e lixo. 
O áudio do videoclipe é do take original dessa atuação.

Letra
[verso 1]
Um é bom para fumar
Dois é bom para lamber
Três para dizer
Quatro é bom para falar
Cinco para ouvir
Seis para ir lá para trás
Sete eles sentem-se mais
Oito eles sabem que o são
Nove não cabem na cela
Dez rebentam com ela

[verso 2]
Vê se me deitas ouvidos
Enquanto o lume está brando
Não queremos a tua cabeça
Teus ouvidos e é tudo
O nosso povo aguenta
Mas eu não sei até quando

[verso 1]

[verso 3]
Ninguém tem a cara lavada
Todos brincamos na merda
Mas eu estou disposto a mudá-lo
Não estou disposto a comê-la

[verso 1]

Minha Análise
Este tema musical e a sua respetiva componente visual apresentam uma forte carga conceptual e etnográfica, típica dos projetos nos quais o músico português Manel Cruz, conhecido por projetos como Ornatos Violeta, Foge Foge Bandido e Pluto, se envolve. OVO é um tema originalmente concebido em 2012, reeditado nesta versão em parceria com vários nomes sonantes da música de matriz tradicional e experimental da cidade do Porto, como o Retimbrar, um coletivo portuense dedicado à exploração dos ritmos e da percussão tradicional portuguesa, como os bombos e as caixas, e o Sopa de Pedra, um grupo vocal dedicado ao canto polifónico a cappella que reinterpreta o cancioneiro popular com arranjos contemporâneos. A estes juntam-se os músicos Renato Oliveira e Eduardo Silva, que acrescentam densidade instrumental através de cordas e sopros.

A análise da letra e simbologia revela que esta assenta numa contagem progressiva e satírica do quotidiano social e das funções atribuídas a cada indivíduo numa célula ou sociedade. Cada número dita um comportamento pré-definido, visível em trechos como "Um é bom para fumar, dois é bom para lamber..." e "Nove não cabem na cela, dez rebentam com ela." A repetição do mantra final denota uma crítica à inércia e à resignação perante as dificuldades socioeconómicas, contrapondo a resiliência do povo com o limite das suas capacidades através da frase "O nosso povo aguenta, mas eu não sei até quando."

Em termos de videoclipe e estética visual, o vídeo decorre num pátio interior fechado, um típico ilhéu ou logradouro de um prédio antigo do Porto, filmado com perspetivas geométricas acentuadas que transmitem uma sensação de claustrofobia. Entre os elementos visuais chave destacam-se os intérpretes mascarados, com os músicos a surgirem vestidos com sacos de sarapilheira, máscaras de cartão, funis de plástico na cabeça e fatos pretos e cinzentos, uma escolha estética que remete tanto para rituais pagãos do solstício e do entrudo, como os caretos, como para uma desumanização e anonimato provocados pelo isolamento urbano. Outro elemento central são as galinhas e os pintainhos, mostrando o fundo do pátio repleto de aves que debicam o chão, cercadas por tijolos partidos e aparas de madeira, simbolizando um ambiente de capoeira onde todos os seres vivos estão enclausurados e à mercê de forças externas. Assiste-se ainda à chuva de notas, onde a meio da performance começam a cair notas falsas das janelas superiores que as aves pisam sem compreender o seu valor, funcionando esta imagem como uma alegoria explícita ao sistema monetário, à crise e à desvalorização da dignidade humana. Em resumo, a fusão da percussão estridente do Retimbrar com as harmonias vocais das Sopa de Pedra transforma OVO num manifesto cénico poderoso, misturando o folclore rural com a decadência e a contestação urbana.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

Clara Mattei: capitalism is not natural - it’s enforced


Nascida em 1988, Clara Mattei é mestre em Filosofia e doutorada em Economia. Foi membro da School of Social Sciences no Institute for Advanced Studies de Princeton entre 2018 e 2019. Autora de artigos premiados pela History of Economics Society e pela European Society for History of Economic Thought, publica também artigos não académicos em publicações como The Guardian, Jacobin, The Nation e Il Fatto Quotidiano. Atualmente é professora auxiliar do Departamento de Economia da New School for Social Research em Nova Iorque.
É mentora do projecto FREE - Forum for  Real Economic Emancipation

Site: Clara Mattei

Pensamento de Clara Mattei
Clara Mattei defende uma visão provocadora e profundamente crítica sobre a relação entre o capitalismo e a geopolítica, argumentando que a economia não é uma ciência neutra, mas sim uma ferramenta de poder. No centro do seu pensamento está o conceito de austeridade, que ela não define como uma resposta técnica a crises de dívida, mas como um projeto político deliberado para salvaguardar a ordem capitalista. Segundo a economista, sempre que o sistema se sente ameaçado por movimentos sociais ou exigências democráticas que reivindicam uma maior partilha da riqueza, as elites políticas e financeiras accionam mecanismos de austeridade - como o corte em serviços públicos, a precarização do trabalho e o aumento das taxas de juro - para disciplinar a classe trabalhadora e reafirmar a primazia do capital sobre a vida humana.

No plano da geopolítica, Mattei observa que esta lógica de austeridade é exportada e imposta globalmente através de instituições tecnocráticas que operam fora do controlo democrático. Ela analisa como o sistema internacional está desenhado para isolar as decisões económicas da vontade popular, criando uma espécie de "blindagem" que impede os Estados de adoptarem políticas alternativas. Para a autora, a geopolítica contemporânea é marcada por uma competição constante entre nações para atrair investimento, o que resulta numa pressão descendente sobre os direitos sociais e salários, transformando governos em gestores de um mercado global em vez de representantes dos seus cidadãos. Mattei vai ainda mais longe ao traçar paralelos históricos, demonstrando como, no pós-Primeira Guerra Mundial, economistas liberais e regimes autoritários colaboraram para impor a austeridade, revelando que o capitalismo, quando em crise, prefere muitas vezes a estabilidade de mercados "disciplinados" em detrimento da verdadeira democracia. Em suma, para Clara Mattei, a geopolítica do capital é uma estratégia de manutenção de classe que utiliza a escassez artificial e a insegurança económica como formas de controlo social permanente.

Mattei defende que o maior sucesso do capitalismo moderno é convencer as populações de que "não há alternativa" (o famoso TINA de Margaret Thatcher). Em termos geopolíticos, isso se traduz  num mundo onde os Estados competem para ver quem oferece o ambiente mais "amigável" ao mercado, resultando em uma "corrida para o fundo" em termos de direitos sociais e salários.


Baseando-se em material de arquivos recém-descoberto na Grã-Bretanha e em Itália, grande parte dele traduzido pela primeira vez, A Ordem do Capital faz um relato novo, lúcido e muito crítico, da promoção da austeridade - e do sistema económico moderno - enquanto alavanca do poder político contemporâneo.

Ao longo de mais de um século, os governos que enfrentavam crises financeiras recorreram a políticas económicas de austeridade - cortes nos salários, nas despesas fiscais e nos benefícios públicos - para garantirem a solvência. Ainda que estas políticas tenham sido bem-sucedidas no apaziguamento dos interesses estrangeiros, tiveram impactes devastadores nas condições sociais e económicas de países de todo o mundo. Atualmente, embora a política da austeridade continue a ser favorecida pelos Estados em dificuldades, uma questão importante permanece sem resposta: e se a solvência nunca foi o verdadeiro objetivo da austeridade?

Em A Ordem do Capital, a economista política Clara E. Mattei investiga as origens intelectuais da austeridade e revela as razões da sua existência: a proteção do capital - e, na realidade, do capitalismo - em épocas de agitação social.

«Uma história fascinante da ascensão das políticas de austeridade no mundo do pós-Primeira Guerra Mundial e do modo como facilitaram o caminho para o fascismo – juntamente com muitas das políticas económicas atuais. Uma leitura obrigatória, com lições cruciais para o futuro. História da economia política no seu melhor.»
Thomas Piketty, economista, autor de O Capital no Século XXI

«Este livro de Clara Mattei é um contributo importante para a construção de uma nova narrativa económica. Num momento em que a inflação está em alta e os governos se inclinam para, uma vez mais, pedirem aos cidadãos “que apertem o cinto” este livro é mais relevante do que nunca.»
Mariana Mazzucato, economista, autora de O Valor de Tudo

domingo, 1 de março de 2026

Europe: From the myth of denazification to suicidal Russophobia or The Triumph of the Kakistocracy


The European ruling class is in a terminal state. Elizabeth Kübler-Ross, the Swiss psychiatrist who dedicated herself to treating terminal patients, identified five stages of grief that we go through when we lose someone. The first stage of grief described by Kübler-Ross is denial. Faced with the loss of its prestige, influence, and economic power, and above all with the rise of China and the other BRICS countries, the European ruling class reacts exactly as predicted in this first stage of grief: with denial.

Very angry, confused and astonished by the profound transformations of the world, the European ruling class vehemently denies its own inevitable decline, its growing impotence and the definitive end of the colonial period, its glorious past.

This class, which in 2022 reacted euphorically to Russia’s special military operation in Ukraine, certain of a quick victory in which economic sanctions combined with NATO’s military might would lead to Russia’s defeat and the fall of Vladimir Putin, opening the door to the exploitation of Russia’s natural resources and its colonization by the West, now desperately denies that Ukraine and NATO’s entire arsenal have already been defeated, violently punishing those voices in Europe who dare to state the obvious, that this war is already lost. The mainstream European press, spokesperson for this dying class, without realizing its own ridiculousness, persists in spreading the most absurd lies about the Russian “threat,” about the “imminent collapse” of the Russian economy and its inevitable future, always future, defeat in Ukraine. Denying reality so emphatically does not change reality, it only makes the enormous and lamentable effort of denial even more pathetic. In its terminal state, the European ruling class has lost all shame and credibility, but it is still capable of causing a great deal of harm. To better combat it, then, it is important to remember a little of its history and denounce its most dangerous lies.

The European ruling class and the myth of denazification
The myth of denazification at the end of World War II is a fundamental pillar in the construction of the supposed “moral superiority” of the European ruling class, which is so important in legitimizing its control. This class presents itself as a proud defender of democracy and human rights, as a historical enemy of Nazism and all fascist movements.

The truth that this class tenaciously seeks to hide is that the reconstruction of European capitalism that allowed its own rise to power was carried out with the support and participation of Nazis and Nazi collaborators, especially in Germany.

At the end of World War II, Germany was divided into distinct occupation zones by the Allied armies—the US, the UK, France, and the USSR. However, as historian Mary Fulbrook wrote in her book A History of Germany 1918–2014, there was a huge difference in the treatment of Nazis and their collaborators between the Soviet occupation zone and the other zones:

“In the Soviet zone, given the primarily structural and socioeconomic interpretation of Nazism which prevailed, major efforts were devoted to the land reform which served to abolish the Junker class, the resources of certain Nazi industrialists were expropriated and there were reforms of industry and finance which had not merely reparations as their aim, The Soviets were concerned also to oust individual Nazis from important positions. They carried out purges not only in the political and administrative spheres, but also in the teaching profession and the judiciary.”

“Quite apart from their attempts to gain some sort of compensation for the enormous material and human losses imposed on them by German aggression, the Soviets implemented certain economic policies designed so to transform the socioeconomic structure of their zone that could never again, in the Soviet view, be the material basis for a Nazi capitalist militarism. They sought to eradicate the Junker class and the large capitalists in a stroke.”

Regarding the occupation by Western powers, Mary Fulbrook states:
“It is notable that, in contrast to the Soviet zone, there were no radical transformations in economic structure in the Western zones of occupation.”

“Denazification lurched along in curious ways in the Western zones. It was not quite clear whether the aim was to punish or to rehabilitate former Nazis; and whether the intention was to cleanse the political, administrative and economic spheres of their presence, or to cleanse former Nazis of the taint of Nazism in order to reinstate them in their former areas of expertise. In contrast to the Soviet zone, which effected a major restructuring of society, along with a replacement of the old elites by new personnel, as well as permitting individual rehabilitation, the Western zones tended towards rehabilitation rather than transformation.”

Also, according to Mary Fulbrook:

“Nevertheless, it can be argued that in more subtle, less immediately obvious ways, there was in fact a major socioeconomic reorientation taking place in the Western zones of Germany. In the immediate postwar period, many people thought the way was open for a socialist transformation of Germany. The Allies’ decision to suppress indigenous anti-fascist groups and support moderate and conservative political parties was paralleled in the sphere of economic policy. Indigenous demand, for example, for the socialization of mines, were peremptorily dealt with by the Americans. Socialization measures proposed by the Land governments of Hesse and North-Rhine-Westphalia were suppressed by the Americans and – under American pressure – the British respectively. Subtle pressures were exerted by the Americans to split communist and socialist trade unions, to isolate the former and moderate the latter.”

Finally:

“Former Nazis, both the committed and the conformists, were able to fit easily into Adenauer’s Germany. Although in the immediate postwar period about 53,000 civil servants had been dismissed for membership in the NSDAP, only 1,000 were excluded permanently from any future employment. Under the 1951 Reinstatement Act many were reemployed in the civil service and obtained full pension credits for their service in the Third Reich. By the early 1950s between 40 and 80 per cent of officials were former NSDAP members. Similarly, only a very few members of the judiciary were permanently disqualified. Former Nazis were even able to gain prominent positions in public life. Adenauer was quite prepared to include former Nazis in his cabinet, such as former SS-member Oberlaender as Minister for Refugees. Perhaps the most controversial of Adenauer’s appointments was that of Hans Globke, the author of the official commentary of the Nuremberg Race Laws of 1935, as Adenauer’s chief aide in his Chancellery. “

Regarding the courts responsible for prosecuting Nazis, Mary Fulbrook comments:

“The tribunals soon came to be likened to laundries. One entered wearing a brown shirt and left with a clean starched white shirt instead. Denazification had finally become, not the cleansing of German economy, administration and society of Nazis, but rather the cleansing and rehabilitation of individuals.”

David de Jong, a Dutch journalist who has investigated some particular cases of Nazi industrialists and bankers in Germany, published in 2022 the book Nazi Billionaires – The Dark History of Germany’s Wealthiest Dynasties, where he informs:

“By 1970, Friedrich Flick, August von Finck, Herbert Quandt and Rudolf-August Oetker made up West Germany’s top four wealthiest businessmen in descending order of fortune. All four were former members of the Nazi Party; one of them had been a volunteer Waffen-SS officer; they had all become billionaires.”

In his book, David de Jong devotes special attention to the use of forced labor of prisoners of war in factories in Germany and occupied countries. Mentioning Friedrich Flick, for example, the author writes:

“By 1943, those performing forced labor at Flick’s coal mines increasingly consisted of women and children deemed fit for work in the open-pit mines. Many were Russian teenagers from thirteen to fifteen. By the time Flick’s sixty-first birthday came around, his conglomerate had 120,000 to 140,000 workers. About half of them were forced or enslaved.”

And also:

“IG Farben, Siemens, Daimler-Benz, BMW, Krupp, and various companies controlled by Günther Quandt and Friedrich Flick were some of the largest private-industry users of forced and salve labor.”

“Slave labor collaborations between SS-run concentration camps and German companies included Auschwitz with I.G. Farben, Dachau with BMW, Sachsenhausen with Daimler-Benz, Ravensbrück with Siemens, and Neuengamme with Günther’s AFA, Porsche’s Volkswagen, and Dr. Oetker.”

Ferdinand Porsche, the famous designer and owner of the car factory that bears his name and also of Volkswagen, was a dedicated collaborator with the Nazi regime and a producer of weapons for the German army. Porsche used slave labor not only in Germany, but also at the Volkswagen factory in occupied France. According to de Jong, Porsche was acquitted by a court in Dijon, France, in 1948. And, according to de Jong, “not even mentioned in the trial” was the use of “thousands of French civilians and soldiers as forced laborers and slaves in the Volkswagen complex.”

In 1951, at the height of the Adenauer era, the Stille Hilfe (Silent Help) Association was founded in Germany. The German organization Zukunft braucht Erinnerung (The Future Needs Memory) (1) states on its website that Stille Hilfe is “an organization that was primarily dedicated to supporting Nazi murderers, but which, unfortunately, only became known to the public very late and in a rudimentary form. What was frightening about this aid organization, apart from its incomprehensible intentions, was the fact that certain people were involved in it or supported it. At least until 2011, the organization was still very active.”

Its founder, Princess Helene Elisabeth von Isenburg, devoted herself mainly to providing legal assistance to Nazi war criminals sentenced to death who were imprisoned in Landsberg Prison, under Allied control. She became known as the “Mother of the Landsbergers.” This association also provided financial assistance to Nazi criminals and their families.

It is also important to mention the Blue Division, a group formed by Spanish Francoist volunteers who joined the Nazi army in the fight against the Soviet Union. In 2015, several members of the Die Linke party in Germany questioned the German government (2) about the payment of around €100,000 per year in pensions that were still being made to these former Nazi combatants and their families by the German government, which the Die Linke party considered scandalous. (3)

The fact that an association with the objectives of Stille Hilfe could have been created in Germany in 1953 and that pensions to former Nazi combatants from a foreign country were still being paid in 2015 by the German government are two more striking pieces of evidence against the myth of denazification. Similar events occurred throughout Western Europe, where Nazis and their collaborators played an important role not only in the reconstruction of European capitalism but also in the repression of popular movements demanding revolutionary changes in social organization, such as the socialization of mines mentioned by historian Mary Fulbrook. It was this popular pressure that led to the creation of the welfare state in countries such as Germany, France, and England. It is important to remember that capitalism as an economic system emerged from the war completely discredited and had to be reimposed throughout Europe by the United States with the collaboration of the former European elites who had supported fascism in Italy and Nazism in Germany. With the end of World War II, the fascists, Nazis, and their collaborators had another function of the utmost importance: the fight against the USSR.

The many faces of Russophobia
Russophobia in both Europe and the US have a long history, dating back to the Russian Revolution of 1917. The Cold War period accentuated Russophobia, which became firmly established even in popular culture, where Soviets were always portrayed as caricatured villains in a wide variety of films and books. Paradoxically, it was after the dissolution of the USSR in 1991 that Russophobia took on new dimensions. The years of Boris Yeltsin’s presidency in Russia from 1991 to 1999 were a period of great euphoria in the West regarding its former adversary. The USSR had been defeated, and Russia’s immense natural resources were now available for privatization. According to IMF estimates, capital flight from Russia in the 1990s amounted to about $150 billion. The country was plunged into chaos and economic depression, and in the eyes of the West, Russia was very close to becoming a new Western colony. Upon succeeding Yeltsin in 1999, Vladimir Putin managed to reverse this process of political and economic decline, preventing the neo colonization of Russia, which the West has never forgiven. This is the origin of the demonization of Vladimir Putin, an important ingredient fueling current Russophobia. With the special military mission in Ukraine, Putin has once again thwarted the interests of the West. Through a proxy war in Ukraine, Western powers, with their economic blockades and NATO’s military might, hoped to destroy the Russian economy, overthrow Putin’s government, and put someone like Yeltsin in power in Russia.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Conselho Europeu chega a acordo para apoio de 90 mil milhões à Ucrânia



90 mil milhões para mais guerra. Uma loucura de dinheiro que vai sair do sangue dos cidadãos contribuintes europeus. O que se contará no final será mais destruição e morte de inocentes.

Este «postal de Natal» em forma de caricatura denuncia o pior de nós humanidade. Mais uma vez enfeitamos o presépio de hipocrisia e de malvadez como se fossem valores ou gestos humanizados e humanizantes.

Dizem-nos que não há dinheiro para a saúde, para a educação, para vencer a pobreza e a fome que ainda há neste mundo, mas na hora da verdade, como que por obra de um milagre, passa a haver dinheiro para armas, guerras e outras malvadezes de seres humanos contra seres humanos.

Eu deixei de gostar menos do natal não por aquilo que dele recebo, renovação da vida e da criação inteira, mas pelo que a rama que o Natal suscita de vazio quer em palavras quer em gestos para a ocasião só para ficar bem na imagem e no contexto folclórico que nos rodeia.

Eu queria ser otimista, mas a realidade não me permite, só apenas o sonho ideal do Natal me oferece alguma esperança.

Enfim, pensemos no quanto nos vai custar este valor astronómico que os líderes europeus «pariram» neste Natal, 90 mil milhões para armas e mais guerra.


segunda-feira, 24 de novembro de 2025

Enfrentamos uma emergência de desigualdade


Embora o texto esteja no FT , para assinantes, fui ler a OXFAM. Nesse artigo Lula, Ramaphosa e Sánchez apoiam a criação de um Painel Internacional sobre a Desigualdade. O termo «emergência da desigualdade» refere-se à crescente disparidade na distribuição de rendimentos e riqueza a nível global, que tem levado a uma maior instabilidade política e a uma diminuição da confiança nos sistemas democráticos. Relatórios recentes indicam que os 1% mais ricos capturaram uma parte significativa da riqueza, enquanto milhares de milhões enfrentam insegurança alimentar, destacando a necessidade urgente de agir para resolver estas questões. A OXFAM desafia este bullying geopolítico e tudo fez na cimeira de G20 em Joanesburgo para colocar na agenda o debate. Aconselho a leitura “G20 Extraordinary Committee of Independent Experts on Global Inequality”, pelo Professor Joseph Stiglitz.

Entre 2000 e 2024, o 1% mais rico captou 41% de toda a nova riqueza criada no mundo, refere o relatório. Ao mesmo tempo, uma em cada quatro pessoas no mundo, cerca de 2,3 mil milhões, enfrenta agora insegurança alimentar moderada ou grave, o que significa que salta refeições com regularidade. Esse número aumentou em 335 milhões desde 2019, acrescenta o relatório.

Recomenda-se no relatório a criação de um novo Painel Internacional sobre Desigualdade para aconselhar os governos sobre como enfrentar o problema, à semelhança do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, designado pela ONU, que apoia o desenvolvimento de políticas climáticas.

Economistas e especialistas em desigualdade, incluindo galardoados com o Nobel e antigos altos responsáveis do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, afirmam na carta dirigida aos líderes mundiais estar preocupados com o facto de “concentrações extremas de riqueza se traduzirem em concentrações de poder antidemocráticas, a corroer a confiança nas nossas sociedades e a polarizar a política”.

A África do Sul, que acolheu a cimeira do G20 a 22 e 23 de novembro, fez com que a desigualdade global fosse um dos temas centrais, apesar de o próprio país ser classificado pelo Banco Mundial como o mais desigual do mundo.

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

Trabalho precário - Portugal a caminho do Laos do Ocidente

Por Tiago Franco, 9 de Novembro
Enquanto as eleições do Benfica ocupavam boa parte do espaço mediático e das transmissões televisivas, mais de 100 000 trabalhadores saíram à rua para se manifestarem contra as alterações às leis laborais. Eu sou Benfiquista, daqueles que levam aquilo mesmo no osso, mas consigo perceber, acho eu, onde devem estar as prioridades de uma sociedade sob ataque.

Enquanto escrevo isto vejo um noticiário da CNN que abre com um direto, a partir de uma feira qualquer, onde a jornalista entrevista anónimos Benfiquistas a propósito do resultado de ontem. Às vezes acredito mesmo que temos o que merecemos.

As alterações ao código do trabalho, que foram passando entre burcas, futebol e imigrantes, serão, provavelmente, o momento que marcará a passagem de Montenegro pelo governo português e que, nos anos seguintes, ficará como a sua imagem de marca. Passos Coelho ficou colado, para a vida, à emigração dos professores. O Luís, da Spinumviva, ficará agarrado ao maior ataque aos trabalhadores desde Abril de 74. A propósito...algum dia teremos desenvolvimentos no caso dessa empresa extraordinária, que nunca teve conflitos laborais entre patrão e empregados?

O novo pacote laboral, para a minha geração pelo menos, deveria ser a primordial preocupação. Era este o debate que nos devia ocupar as horas televisivas. Era importante que os portugueses, que vivem do seu trabalho, percebessem o que está a ser alterado e de que forma isso os afecta.

O governo PSD-Chega vai conseguir ir para lá daquilo que seria o sonho molhado dos liberais em relação ao código do trabalho. Horários maiores, contratos mais precários e durante mais tempo. Facilitação do despedimento, maiores limitações às greves e ao trabalho sindical. Flexibilização de horários de trabalho nocturnos ou ao fim-de-semana. Possibilidade de fazer outsourcing (trabalho externo) para substituir trabalhadores despedidos (ou seja, incentivar mão de obra mais barata e precária).

Curiosamente...nem uma palavra sobre o aumento do salário mínimo. Em resumo, o novo código do trabalho far-nos-á mais pobres (se é que isso ainda é possível) e muito mais precários. Para quem não acompanha esta coisa dos sindicatos, pensem apenas nisto meus amigos...quando a CGTP e UGT dão a mão, é porque a coisa está mesmo preta.

Acho importante desmistificar aqui uma ou duas coisas que ouço, aqui e ali, dos liberais e radicais de direita, quando tentam defender estas medidas como um avanço em direção à Europa do norte. Meus amigos...há duas diferenças enormes, nisto do trabalho, entre Portugal e os países mais ricos a norte.
A primeira é o nível de formação da população e, como consequência disso, o tipo de trabalho desenvolvido.

Não é a mesma coisa flexibilizar as leis laborais num país cheio de indústrias ou hubs tecnológicos ou, noutro, que vive de serviços e turismo. A facilidade de encontrar novos empregos é muito maior no primeiro.

A segunda é que, ao contrário do que nos vendem, os sindicatos são fortíssimos nos países do norte e parceiros indispensáveis para a concertação social. Já para não falar da rede social de apoio. Portanto, os trabalhadores são protegidos e os sindicatos ouvidos.

Na minha área laboral é particularmente chocante perceber onde Portugal chegou nas últimas duas décadas. Deixámos de ser um país formador com potencial para passarmos a ser o hub da engenharia europeia do baixo custo. Já perdi a conta às multinacionais que vão para Portugal porque há "engenheiros bem formados, que falam inglês e trabalham 10h por dia por 1.000 e tal euros por mês". Este tipo de discussão é frequente e eu ouço-a envergonhado.

Aliás, é curioso, a propósito de um texto que aqui escrevi sobre deslocação de trabalho (meu) para o Vietname e, contas feitas, Portugal está em condições de competir com o custo do sudeste asiático. Algo absolutamente impensável em qualquer país da Europa civilizada.

O que Luís Montenegro e seus comparsas tentam é baixar, ainda mais, o nível já de si sofrível, deixando-nos à mercê dos baixos salários com a chantagem do despedimento ao virar da esquina. E mais do que isso, fazer com que a precariedade seja regra e o planeamento de uma vida familiar uma autêntica aventura.

Quem é que quer viver num país assim, pergunto. Quem é que fica, depois, surpreendido, que a imigração para Portugal se resuma a povos de países ainda mais miseráveis? Não é por demais óbvio que, em momento algum, o triunvirato PSD-Chega-Il poderá melhorar a qualidade de vida do português comum?

Aliás...qual é a diferença, nos dias de hoje, entre as políticas de Montenegro, Ventura ou Mariana Leitão?

É importante que compreendam o seguinte. Com a realidade do tecido empresarial português, a nossa formação e os empregos que a economia gera, este pacote laboral não nos leva para o norte europeu. Nem a Espanha chegamos, quanto mais ao norte.

Tudo o que podemos aspirar é continuar a formar gente que se vai embora, deixando para trás uma população envelhecida, pobre e com ódio ao vizinho do lado.

Esta é a grande luta que nos bateu à porta. Não são os tik-toks do Ventura, os paquistaneses da Uber ou a bola que foi ao poste. Temos que interromper, por uns tempos, a degustação de palha e focar no essencial.

Caso contrário, não nos poderemos queixar se, um dia, acordarmos no Laos do Oeste.

domingo, 7 de setembro de 2025

Chega: Sociologia de um destino


1. Santa Eulália
Nas eleições legislativas de Maio de 2025, na freguesia do Bonfim, no Porto, o Chega teve 1760 votos (12%) e em Arroios teve 1752 (11%). Estas são duas das freguesias do país onde a imigração tem sido apresentada como um problema grave, desencadeando conflitos, insegurança e medo. A votação está longe de exprimir a tão famosa «percepção». Em Monte Gordo, o Chega teve 912 votos (50%) e na freguesia de Odemira a sua votação alcançou os 876 votos (32%). Em contrapartida, na freguesia de Caia, São Pedro e Alcáçova (Elvas) o Chega teve 1215 votos (49%) e na freguesia de Santa Eulália, também em Elvas, teve 286 votos (52%). Entre os vários testemunhos recolhidos, uma notícia da Lusa sobre Elvas refere que há um descontentamento geral da população com as políticas seguidas nos últimos anos: falta de médicos, de transportes, de segurança, isto, claro, no contexto de uma população envelhecida. Numa primeira análise aos resultados das legislativas parece ser mais claro que o fio que une o eleitorado do Chega está longe de se circunscrever, simplesmente, à imigração, tratando-se de uma combinação mais complexa de factores, que têm a crise do Estado e do Estado social em pano de fundo.

2. Portugal rural
De forma genérica, penso que é possível dizer que o Chega não tem uma expressão urbana acentuada, mas tem uma expressão rural forte, sobretudo (mas não só) em zonas do país com uma população substancialmente idosa, onde a presença do Estado (social) entrou em forte contracção nos últimos anos. O Alentejo é, aliás, disso um exemplo maior. Falamos de zonas de estagnação ou depressão económica fruto de um modelo económico hipercentralizado que destruiu a escala social que sustentou e construiu estes lugares durante séculos. A imigração é apenas uma expressão, nem sempre a mais forte ou preponderante, de um sentimento generalizado de perda: do Estado, da economia, da sociedade. Lugares despovoados que foram tornados obsoletos ou reduzidos à condição de simples paragens técnicas ou lugares de «exploração intensiva» (olival, eucalipto) na cadeia logística da grande agricultura industrializada que corre em grande velocidade para os centros urbanos, desfigurando ainda mais estes territórios.

O processo de desenvolvimento de Portugal a seguir ao 25 de Abril assentou numa mudança radical, antropológica, poder-se-ia dizer, que implicou o abandono de todo um modelo económico baseado na agricultura. Enquanto os novos núcleos urbanos e as grandes periferias foram associados à possibilidade de conquista de melhores condições de vida, uma grande parte do interior permaneceu vinculado a uma ideia de «atraso» e «subdesenvolvimento» ligado a uma percepção negativa da «vida rural». A agricultura tornou-se uma coisa do passado, anacrónica, entregue aos mais velhos. O resultado, como se observou, é um grande desequilíbrio demográfico, social e económico entre o «litoral» e o «interior». O interior rural é uma imensa acumulação de ruínas, casas abandonadas, campos por cultivar, extensas manchas de florestas ardidas. Um território vazio e destruído que parece ter sido objecto de uma guerra sem quartel. Uma guerra desencadeada pelo próprio capitalismo contra as populações, os seus lugares e a sua vida.

Ora, o grande fracasso dos 50 anos de democracia foi claramente a regionalização: isto é, a não implementação de políticas locais e regionais capazes de se opor a esse movimento de acumulação e concentração  inerente ao capitalismo. Pelo contrário, acentuou-se uma dependência generalizada, política e económica, do território nacional relativamente a Lisboa e, sobretudo, com a crise de 2007-2013, uma retirada constante e progressiva do Estado, pondo em causa a subsistência de serviços públicos essenciais (centros de saúde, postos de correio, escolas e, até, agências bancárias) e deixando para trás políticas estratégicas de planeamento. As juntas de freguesia, por exemplo, são uma caricatura do poder público. Há lugares em que estão abertas ao público apenas uma ou duas vezes por semana.

3. Uma economia asocial
Uma grande parte da população destes territórios é, de facto, filha do Estado social e das suas promessas: eles são os órfãos da social-democracia. A sua ideologia não é a da CDU ou a do Bloco ou do Livre, nem da Iniciativa Liberal, o seu discurso não lhes diz nada, porque é nos valores da social-democracia que foram formados. E foi a social-democracia quem os traiu. (Essa é a grande ironia política: a sua incapacidade em reconhecer que são esses partidos, o Bloco, o Livre, a CDU, os últimos representantes daquilo que resta da social-democracia e da salvaguarda do seu estatuto.) O Chega é a representação dos revoltados do sistema: aqueles que foram formados a partir das suas promessas irrealizadas e dos seus mitos. O Chega é o inconsciente reprimido da social-democracia, o grande reservatório das promessas que ficaram por cumprir ao longo destes últimos cinquenta anos.

Muitos destes lugares vivem hoje uma espécie de economia asocial ou dessocializada: o dinheiro circula, reproduz-se, mas não constrói uma comunidade, aprofunda desigualdades, isola, desvincula. O modelo da «exploração intensiva», seja na agricultura ou no turismo compreende uma economia separada da realidade social em que existe. Os lucros da sua actividade estão mais pertos dos seus accionistas nas Ilhas Caimão do que da freguesia de Santa Eulália.

A  figura do imigrante é talvez aquela que melhor exprime e torna visível o paradigma desta economia asocial, e, por isso, ele é um bode expiatório. A animosidade relativamente a essa economia destrutiva, esse sentimento de despossessão e de perda que atravessa o Portugal Rural é transferido para o imigrante. Porque aquilo que essas pessoas vêem no imigrante (desenraizado, deslocalizado, empobrecido) é o seu próprio reflexo: também elas se tornaram imigrantes num lugar que se tornou, também para elas, irreconhecível e estranho. Claro que isto não significa desvalorizar a existência de um racismo estrutural, animado de preconceitos relativamente alguém que é identificado como «outro». Curiosamente, em Monte Gordo passa-se o contrário: o turista, maioritariamente branco, não incarna essa lógica, porque é ele quem, desde logo, detém uma posição de superioridade de capital, mas a economia revela-se da mesma forma, isto é, na sua total associalidade e separação.

O neoliberalismo ganhou a batalha da demonização da esquerda parlamentar, aquela que lançou as bases da social-democracia, que fez a constituição de Abril, e que, na verdade, foi sempre a única a saber o que é o capitalismo, como o gerir, como o reformar e como o administrar de forma a fazer dele um sistema social minimamente aceitável. Não é certamente ao liberalismo e aos mitos da «mão invisível» que devemos a consolidação do capitalismo enquanto tal, porque este, sim, nunca teve a capacidade de pensar o capitalismo para além da reprodução imediata e privada do lucro. É por isso que a social-democracia existiu nos termos em que existiu: porque foi a fórmula que tentou, pese embora todas as contradições, construir um equilibro entre a voracidade exploradora do capital e um mínimo de políticas redistribuidoras e sociais.

4. Covas do Barroso
Na freguesia de Covas do Barroso, a Aliança Democrática ganhou com 60% dos votos, o Chega teve apenas 6%. (Há um debate interessante a fazer sobre as diferenças entre norte e sul. Rapidamente, talvez se pudesse dizer que no norte a presença da direita é forte e continua a prevalecer, enquanto no Alentejo não havia um enraizamento forte de um partido de direita capaz de dar voz a esse descontentamento despolitizado das classes médias). No caso de Covas, a exploração das minas de lítio ameaça destruir o frágil, mas rico ecossistema desta freguesia. E a população tem-se mobilizado arduamente contra o gigantesco poder desta multinacional apoiada pelos dispositivos políticos e legais do Estado Português. Ao longo dos últimos anos PS e PSD têm desenvolvido políticas absolutamente contrárias aos interesses desta comunidade e, no entanto, esta acredita que o voto na AD é aquele que melhor defende os seus interesses e a sua existência.

É um caso de estudo, mas sintomático. Contra todas as evidências dos interesses reais do Estado e do governo neste processo, a população continua a depositar o seu voto na AD. A «propriedade», os «valores da cultura local», a «iniciativa individual», são princípios consagrados que caracterizam esta população. Valores construídos certamente nas últimas décadas, talvez com menos base histórica do que aquilo que se poderia imaginar, veja-se a longa história do comunitarismo rural desta zona.

São estes os valores de que a direita se reivindica, mas não são certamente os valores que pratica. Não é a esquerda que persegue valores abstractos universais, é a direita. A abstracção do princípio da propriedade privada, por exemplo, permite num mesmo conceito condensar a pequena propriedade e a grande propriedade, legitimando a concentração e o monopólio fundiário, legitimando políticas que a médio prazo pressupõe a destruição do pequeno proprietário e do seu território. Do mesmo modo, nada há de «conservador» culturalmente na direita: têm sido estes os mais dinâmicos a colocar em causa os valores e o património cultural. Até a ancestral troca de sementes foi proibida em nome do negócio milionário das patentes e das grandes multinacionais do agro-negócio. Assim, paralelamente, nada pode subsistir de iniciativa individual numa economia asocial, numa economia que deixou de ter qualquer vínculo com a comunidade em que se insere. O estado de abandono e degradação, o isolamento em que vive o interior, resulta do conjunto de políticas específicas que foram levadas a cabo, nas últimas décadas, pelo PSD e pelo PS. O Chega recolhe todos estes despojos para construir e levantar outros mitos. Mas o objectivo é sempre o mesmo, em nome dos grandes grupos económicos deixar que o capitalismo possa continuar a trilhar o seu caminho, continuar a isolar, individualizar e atomizar a sociedade, mobilizando o princípio da propriedade como «último bastião de segurança» num mundo cada vez mais inseguro, isto é, tornado cada vez mais inseguro por esses cujo objectivo é apenas a maximização do seu lucro e dos seus rendimentos, nem que seja à custa da destruição da própria sociedade.

5. Esquerda e neoliberalismo
Não há «lições» para dar à esquerda. Há uma prática que precisa de encontrar as suas instituições, os seus instrumentos, as formas de organização e de acção colectiva, capaz de produzir uma crítica partilhável do capitalismo e desencadear um verdadeiro antagonismo diante da auto-confiança ilimitada deste. A crença absoluta no «fim da história» e no triunfo da democracia liberal reduziu a política à sua dimensão puramente gestionária e tecnocrática, isto é: despolitizou e desideologizou a política. Para a classe média, a política reduz-se à gestão do orçamento de Estado. Ela não vê a política como ideologia, porque se situa a si mesmo fora da história e para lá da história. A classe média não tem uma consciência política de si, nem da sociedade, dos antagonismos e das contradições que a atravessam e a produzem no quadro do capitalismo.

A incapacidade de pensar um modo de vida e um modo de organização colectiva da sociedade para além do capitalismo é sintomático de um senso comum que interiorizou plenamente os valores e os princípios do mercado, e que, por isso mesmo, não está habilitado para pensar as crises e o processo de expropriação permanente que hoje tomou conta da sua vida. O domínio do discurso neoliberal e dos seus mitos é hoje total. O direito a ser rico é hoje um direito universal incontestável fruto do «trabalho» e do «mérito» que ninguém se atreve a contestar, quando, na verdade, ele assenta na exploração do trabalho, na extracção de renda e na distribuição de dividendos. Há toda uma visão idílica da política, produzida pela social-democracia para pacificar as massas, que foi aproveitada pelo neoliberalismo e que dissimula hoje a realidade de uma guerra civil em curso. Quantos mais ricos, mais pobres existem. A luta de classes, a luta entre aqueles que detém os meios de produção e os que vivem da venda da sua força de trabalho, não deixou de existir. Bem pelo contrário, as formas de extracção de mais-valia não estão, hoje, apenas no trabalho, tomaram conta de todos os aspectos da vida, da saúde à educação. A desigualdade é a fundação e o destino do capitalismo. É certo que o capitalismo «produz riqueza», mas aquilo que o caracteriza é o modo como ele dissimula, externaliza e adia os custos pesados dessa produção.

Este é talvez o facto mais relevante do presente: a vigência única e absoluta de um capitalismo que absorveu tudo e todos e que não parece precisar de legitimação ou de justificação, precisamente no momento histórico em que se torna evidente como os princípios da economia capitalista baseados no progresso infinito e na exploração infinita dos recursos naturais colocam em causa as condições vitais e básicas da nossa própria existência: do desaparecimento assustador da biodiversidade aos nano-plásticos que fazem já, hoje, parte da composição do nosso corpo. E, no entanto, é a própria catástrofe, sempre prestes a acontecer, que parece hoje animar um neoliberalismo encantado e inebriado com a rentabilidade económica da iminência do próprio fim. E é também enquanto catástrofe iminente que a extrema-direita contribui para a normalização do próprio sistema e das suas políticas neoliberais.