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domingo, 19 de julho de 2026
Moonspell - The Great Wolf In The Sky (feat. Alicia Nuhro)
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domingo, 28 de junho de 2026
Esther Abrami - Transmission
A avó de Esther, Françoise Abrami era uma violinista muito talentosa, mas, seguindo os costumes rígidos da sua época, abandonou totalmente a prática e a perspectiva de uma carreira musical assim que casou.
A ligação entre as duas começou muito cedo: quando Esther tinha apenas três anos, a avó Françoise deu-lhe o seu próprio violino, que conservava com todo o carinho. Embora Esther só tenha começado a estudar o instrumento a sério por volta dos dez anos, o impacto de ter recebido aquele objeto tão cheio de história moldou o seu destino.
Como a própria Esther partilhou ao lançar a música: "Ela nunca imaginaria que a sua única neta pegaria, um dia, no instrumento que ela própria tinha deixado para trás. Esta peça é a minha forma de continuar a história dela, enquanto conto a minha."
Infelizmente, a avó Françoise já faleceu, mas a sua memória e o seu sonho continuam bem vivos a cada nota de "Transmission".
Biografia de Ilse Weber
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segunda-feira, 15 de junho de 2026
Marianne Faithfull - Song for Nico
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domingo, 31 de maio de 2026
Slowdive - Alife
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sábado, 30 de maio de 2026
O adeus a Edgar Morin. 104 a resistir, pensador global, herdeiro do iluminismo
Edgar Morin, um dos últimos mestres do pensamento da cultura contemporânea, sociólogo, filósofo, antropólogo e epistemólogo, morreu a pouco mais de um mês de em 8 de julho chegar aos 105 anos de vida (n.1921, em Paris).
Morin, sempre luminoso e generoso (veio muitas vezes a Portugal, arranjava sempre tempo para quem queria conversar com ele), é um dos últimos herdeiros do Iluminismo. Com mais de 100 livros publicados, continuou até ao fim da longa vida a intervir e a a posicionar-se em muitos dos debates dos nosso tempo (sobre ecologia, sempre sobre a educação, também questões sensíveis como as caricaturas de Maomé ou a política de colonização israelita, de que era muito crítico). Edgar Morin também ousou imaginar o futuro e interrogar as incertezas do tempo pela frente. Ele gostava de repetir que, do ponto de vista da evolução do pensamento, “ainda estamos na pré-história.”
Ao pensarmos em Edgar Morin pensamos sempre em humanismo. Admirado pelo espírito corajoso e livre, fez da dúvida e da autocrítica ferramentas indispensáveis para a reflexão orientada para enfrentar e entender as metamorfoses e a complexidade do mundo contemporâneo.
Em toda a vida foi um e resistente aos esquematismos ideológicos e aos guetos disciplinares, combateu as arrogâncias, aliou o gosto pela reflexão à relevância da observação, com abordagem interdisciplinar orientada para a concretização da ecologia de ideias que, a par da centralidade da ética, considerava indispensável para chegarmos a uma sociedade mais justa. Para Morin, o trabalho intelectual só faz sentido se resultar em propostas políticas realistas e exequíveis. E, nesta perspetiva, embora consciente dos muitos riscos que o planeta enfrenta, acreditava que os períodos de crise como o tempo de agora são, ainda assim, ricos em potencial, desde que “a civilização ocidental renuncie à obstinada busca de uma ideia de progresso baseada exclusivamente na fé cega no poder da tecnologia e da economia".
Nascido em Paris numa família judaica sefardita, Edgar Nahoum participou ativamente na resistência anti-nazi no início da década de 1940, adotando então pela primeira vez o pseudónimo Morin, que manteria durante toda a sua vida. Após a guerra, frequentou regularmente os meios intelectuais, foi próximo de Marguerite Duras.
Logo a seguir ao final da II Grande Guerra, Morin, oficial da Resistência francesa, foi mobilizado para a Alemanha ocupada. Tinha 24 anos, publicou L’an zéro de l’Allemagne (1946), em que corajosamente propõs a superação do rancor, com aposta na reconciliação franco-alemã. Foi o primeiro título de uma notável bibliografia que, no final da sua vida, contaria com mais de 100 livros. La Méthode, monumental e fundamental obra sociológica e filosófica, foi publicada em seis tomos, ao longo de 17 anos, de 1977 a 2004.
Em Autocritique (1959),Morin relata como foi expulso do Partido Comunista Francês (PCF), de que fora figura de relevo, e reconhece a “cegueira inicial em relação ao estalinismo” que viria a criticar veementemente. Tornou-se também um dos fundadores do comité de intelectuais contra a Guerra da Argélia.
No tempo final de vida, Morin lastimou recorrentemente o estado sombrio do mundo. Quis intervir ativamente em censura à invasão russa da Ucrânia. Publicou um último ensaio, De guerre en guerre: de 1940 à l’Ukraine (De guerra em guerra: de 1940 à Ucrania). Assentou então: “Estamos a assistir à escalada da desumanidade e ao colapso da humanidade, à escalada do pensamento simplista e ao colapso da complexidade. E, acima de tudo, à escalada para uma guerra mundial que representa o mergulho da humanidade no abismo.”
No livro de memórias, Les souvenirs viennent à ma rencontre (As Lembranças vêm ao meu encontro), publicado em 2019, quando tinha 97 anos, prenunciou o fim que chegou neste final de 2026 “Eu também partirei para a terra onde cresce a flor de laranjeira.”
Morin resistiu sempre. Contra o populismo, contra o totalitarismo, contra o nacionalismo, contra a violência, contra as ofensas ao ambiente, contra a desigualdade, contra o ódio, contra a estupidez, contra tudo o que divide e separa. Nunca desistiu, nunca se rendeu.
Morin argumentou ferozmente contra o «reducionismo» — o hábito de dividir os problemas em caixas isoladas e unidisciplinares. Em vez disso, acreditava que os maiores desafios do mundo estão fundamentalmente interligados.
Conceitos-chave que deixa como legado
O trabalho de Morin deu-nos lentes totalmente novas para olhar para as crises modernas:
- A Policrise: um termo que co-pioneou para descrever como as crises ambientais, económicas, sociais e políticas não acontecem de forma isolada. Pelo contrário, alimentam-se e amplificam-se mutuamente de forma dinâmica.
- O Princípio hologramático: a ideia de que, tal como num holograma, a parte está no todo, mas o todo também está embutido na parte (por exemplo, um indivíduo carrega em si toda a cultura da sua sociedade).
- Religação (Reliance): a capacidade humana de construir e sustentar laços significativos, que ele defendeu como a nossa ferramenta máxima de solidariedade num mundo profundamente fragmentado.
«Enquanto for possuído pelas forças da vida, o espetro da morte recua.» — Edgar Morin
Era, como em França gostam de classificar, um maître à penser. O presidente Macron foi certeiro no primeiro comentário ao fim da vida de Edgar Morin: “era o Humanismo feito pessoa.”
Saber mais:
- Texto de Leonídio Paulo Ferreira
- Edgar Morin, sociologue du temps présent et agitateur d’idées (Le Monde)
- Edgar Morin, entretien avec le théoricien de la pensée complexe - C Ce Soir du 24 juin 2021 (entrevista)
- Surnommé "le penseur planétaire", le philosophe et sociologue Edgard Morin est mort à l'âge de 104 ans ( grande reportagem)
quarta-feira, 13 de maio de 2026
LADANIVA - Here's to you Ararat
Neste vídeo, destaco os melismas de Jaklin Baghdasaryan. São, aliás, a grande "assinatura" vocal dela e o que torna o som dos LADANIVA tão autêntico.
- Ornamentação arménia: Jaklin utiliza muitos elementos do canto tradicional arménio e do Médio Oriente. Esses melismas não são apenas "enfeites"; eles carregam a carga emocional da música. Ela consegue passar por várias notas numa única sílaba com uma precisão cirúrgica.
- Agilidade e fluidez: o que impressiona na voz dela é a rapidez. Ela faz as transições entre notas (os chamados runs) de forma muito fluida, quase como se fosse um instrumento de sopro (como o duduk ou a flauta).
- Controlo de sopro: para fazer melismas tão longos e detalhados sem perder a afinação, é preciso um controlo de diafragma muito forte, algo que ela claramente refinou durante a sua formação académica no jazz e na música do mundo.
- Microtonalidade: em "Here's to you Ararat" nota-se que Jaklin brinca com intervalos que nem sempre existem na escala ocidental padrão, o que dá aquele toque exótico e hipnotizante.
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sábado, 9 de maio de 2026
Nick Drake - Pink Moon
quinta-feira, 7 de maio de 2026
The Geometry of Peace: A Tribute to Susumu Yokota (1960-2015)
To listen to "Cherry Blossom" is to witness a digital sunrise over an ancient forest. It is not merely a song, but a living ecosystem of sound that bridges the gap between the pulse of the machine and the rhythm of the of the heart.
An Ecological Resonance
This track breathes. It captures the essence of ecological interconnectedness, where the repetitive, hypnotic loops mimic the cycles of the seasons. It suggests that our technology is not an enemy of nature, but a mirror of it—a "botanic electronica" where every synthesizer swell feels like a petal unfurling in slow motion. It reminds us that we are not separate from the Earth; we are the Earth processing beauty through frequency and light.
The Human Tapestry
In its ethereal textures, there is a profound human connection. Yokota weaves an invisible thread of silk that connects every listener across time and space. To be moved by this music is to participate in a collective meditation. It strips away the ego, leaving only a shared sense of wonder. It is a universal language that speaks of our common fragility and our capacity for grace.
An Act of Active Pacifism
Above all, this music is a manifesto of active pacifism. In a world defined by noise, aggression, and the sharpness of conflict, choosing to dwell in this sonic landscape is a radical act of resistance.
It is a unilateral disarmament of the soul.
It replaces the "iron and fire" of modern discord with a "transparency of spirit."
By refusing to be loud or violent, it achieves a strength that no weapon possesses.
To carry this melody within you is to walk through the world with an open heart, proving that softness is not weakness, but the ultimate form of resilience. It is a quiet revolution that begins in the ear and ends in a more peaceful way of being.
Yokota was at the forefront of Japan's electronic music scene as it blossomed in the early '90s. His vast and exceptional body of work found him fans from far beyond the realms of the dance community, with Bjork, Phillip Glass, and Radiohead's Thom Yorke just a few names from his long list of admirers. His music found homes on revered labels such as Harthouse, Sublime Records, Reel Musiq, Leaf, and his own Skintone imprint, and his music saw him invited to perform DJ sets at the world's best-loved dance venues. He was the first Japanese artist to play at Berlin's Love Parade, and – alongside Ken Ishii – represented Asia magnificently during dance music's halcyon days through the late '90s and early '00s. His sound veered from techno to acid, ambient to house, breaks to drum & bass, and he recorded under innumerable aliases – including Stevia, Ebi, Prism, Ringo, Yin & Yan, Anima Mundi.
Though he died tragically in 2015, his incredible back catalogue continues to shine brightly, and it's of little surprise that labels are opting to re-issue the best of his music. Earlier in 2021, UK label Cosmic Soup presented a collection of house and techno sounds Yokota recorded under the secret alias 246, and now it's the turn of his ambient-leaning 'Symbol' to enjoy another jaunt under the spotlight. Previously released on British imprint Lo-Recordings, the blissfully horizontal album is formed around a core of samples borrowed from classical music – manipulated and repurposed alongside Yokota's masterful programming.
Borrowing passages and snippets from classical masters including Debussy, Tchaikovsky, and Ravel, he expertly lifts the emotion behind the original music while uniquely reimagine the music. From the soothing strings of opening track 'Long Long Silk Bridge' to the mesmerising chants of 'Symbol', the album overflows with imagination and spellbinding beauty. Yokota was a true master of electronic music composition, and 'Symbol' is among his most playfully seductive albums. Penetrable but profound, its re-issue represents a wonderful opportunity for new audiences to marvel at his studio prowess.
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quarta-feira, 6 de maio de 2026
O legado ambiental de Ted Turner
Ted Turner é frequentemente recordado como o magnata da comunicação que fundou a CNN, mas o seu impacto mais duradouro reside na escala colossal da sua filantropia e conservação ambiental. Ele não se limitou a doar dinheiro; transformou a forma como os grandes detentores de capital (bilionários) encaram a responsabilidade ecológica, integrando a preservação da natureza na gestão de grandes ativos.
Um dos pilares centrais do seu legado foi a histórica promessa, em 1997, de doar mil milhões de dólares para criar a Fundação das Nações Unidas. Esta iniciativa foi pioneira ao direcionar recursos privados para causas globais, com um foco acentuado na mitigação das alterações climáticas, na promoção de energias limpas e na proteção da biodiversidade, forçando a filantropia internacional a pensar de forma sistémica e transfronteiriça.
No terreno, Turner utilizou a sua vasta propriedade de terras — chegou a ser o maior latifundiário privado dos Estados Unidos — para implementar o que designou como "capitalismo sustentável". O exemplo mais emblemático deste esforço é a recuperação do bisão americano. Através das suas herdades, Turner geriu o maior rebanho privado do mundo, retirando a espécie do limiar da extinção e restaurando o equilíbrio ecológico das Grandes Planícies. Através do Turner Endangered Species Fund, financiou também a reintrodução de predadores e espécies nativas, provando que a exploração económica da terra pode coexistir com a conservação rigorosa.
Além da ação direta, Turner compreendeu o poder da narrativa. Ao co-criar a série de animação Capitão Planeta, educou uma geração sobre a importância da ecologia. Utilizou ainda o seu império mediático para dar palco a documentários e debates ambientais numa época em que o tema era ignorado pelo grande público. Para Ted Turner, a proteção do meio ambiente sempre esteve ligada à segurança global, levando-o a investir também no desarmamento nuclear como forma de prevenir o desastre ecológico definitivo. O seu legado é o de um visionário que transformou a figura do empresário na de um guardião do ecossistema.
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quinta-feira, 23 de abril de 2026
Morreu Desmond Morris, o zoólogo que confiou o seu conhecimento à Universidade do Porto
| The Trap, 2020 |
Ficou conhecido pelos seus estudos inovadores sobre o comportamento humano e animal, mas foi também um destacado comunicador, autor de dezenas de livros e ainda pintor surrealista. Era, sobretudo, um “fascinado pelo mundo”, movido pela “alegria de observar o que nos rodeia”. A mesma “missão” que, em 2014, confiou à Universidade do Porto quando doou ao Museu de História Natural e da Ciência (MHNC-UP) o seu vasto arquivo científico. Desmond Morris morreu, no passado dia 19 de abril, aos 98 anos.
Natural do Wiltshire, onde nasceu em 1928, Desmond Morris desde cedo adotou os animais e a arte como as suas grandes paixões. O estudo dos animais levou-o a formar-se na Universidade de Birmingham, em 1951, e a prosseguir um doutoramento (e pós-doutoramento) em Oxford. Em 1956, aceitou o cargo de diretor da unidade televisiva e de filmagens do Jardim Zoológico de Londres e, em 1959, assumiu o lugar de curador de mamíferos.
Em 1967, deixou o Zoo para se tornar diretor do Institute of Contemporary Arts. Nesse mesmo ano, publica The Naked Ape (O Macaco Nu), obra precursora da etologia humana (na qual propôs uma leitura inovadora do ser humano à luz da biologia evolutiva) e com o qual viria a ganhar notoriedade internacional.
Em 1968, mudou-se para Malta, onde nasceu o filho Jason. Regressou a Oxford em 1974 e aí permaneceu até 2019, altura em que, na sequência da morte da mulher, Ramona, se mudou para a Irlanda, para ficar junto da família e dedicar-se ativamente à escrita e à pintura.
Autor de dezenas de artigos científicos, Morris escreveu 80 livros e foi traduzido para 43 línguas ao longo de seis décadas de uma carreira multifacetada, que cruzou ciência, comunicação e artes visuais. Entre 1956 e 1998, apresentou mais de 700 programas televisivos. Pintou também mais de 3.400 quadros e apresentou mais de 60 exposições individuais.
“Compete-nos continuar a cuidar deste tesouro”
Em 2014, Desmond Morris surpreendeu o mundo quando decidiu doar ao Museu de História Natural e da Ciência da U.Porto (MHNC-UP) o seu arquivo científico, composto por todos os seus livros publicados, respetivas traduções, registos e notas de investigação, correspondência, coleções de revistas científicas, artigos científicos, coleções de fotografias e negativos, gravações vídeo e áudio e artefactos vários. Em troca, uma promessa feita meses antes pelo então Diretor do MHNC-UP, Nuno Ferrand de Almeida: “Se nos deixarem ficar com o seu arquivo, não vamos apenas guardá-lo, vamos utilizá-lo, analisá-lo. Teremos investigadores a trabalhar nele”.
Aquando da doação, ficou também estabelecida a preferência para que a sua editora em Portugal fosse a Arte e Ciência, título do primeiro projeto editorial do MHNC-UP, lançado em 2018. Desde essa data, foram publicados os livros A Tribo do Futebol (com prefácio de José Mourinho) e a reedição de O Macaco Nu , com uma nova tradução de Carla Morais Pires e prefácio de Jorge Rocha, e, com a mesma tradutora, O Macaco Criativo e Observar.
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quinta-feira, 2 de abril de 2026
Armando Alves (1935-2026), um dos criadores do design moderno em Portugal
Armando Alves, um dos integrantes do famoso Grupo Os Quatro Vintes, a partir do qual se dedicou a renovar e a modernizar o design gráfico português, morreu esta terça-feira no Porto, cidade onde fez praticamente toda a sua carreira, deixando um notável legado como docente e praticante das artes gráficas. A notícia foi avançada por Miguel Carvalhais, director da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto (FBAUP), instituição onde Armando Alves se formou e onde leccionou durante anos.
Nascido em Estremoz, em 1935, Armando José Ruivo Alves iniciou a sua formação artística na Escola de Artes Decorativas António Arroio e prosseguiu estudos de Pintura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP), onde concluiu o curso em 1962 com a classificação máxima de vinte valores.
Após a licenciatura, integrou o corpo docente da ESBAP como Professor Assistente, sendo pioneiro na introdução do ensino das Artes Gráficas. Em 1963, foi um dos fundadores da Cooperativa Árvore, estrutura fundamental na promoção das artes plásticas em Portugal.
Bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, viajou por vários países europeus nos anos 60, iniciando então a sua atividade expositiva individual. Em 1968, juntamente com Ângelo de Sousa, José Rodrigues e Jorge Pinheiro, fundou o grupo Os Quatro Vintes, que expôs em cidades como Porto, Lisboa e Paris até ao final da década de 1970.
A partir de 1973, dedicou-se integralmente às Artes Gráficas, área em que se afirmou como pioneiro e referência nacional. No seu atelier, situado na Rua Brito Capelo, desenvolveu uma vasta produção que incluiu direção gráfica de obras literárias, cartazes culturais e publicitários, bem como materiais para eventos diversos.
Armando Alves esteve também ligado ao Lugar do Desenho - Fundação Júlio Resende, desde a sua criação em 1993, participando em exposições internacionais entre 1997 e 1999, nomeadamente no Brasil, Chile, Cabo Verde e Moçambique.
Enquanto ilustrador, artista gráfico, desenhador e pintor - com uma evolução do neorrealismo para o abstracionismo - desempenhou ainda funções como consultor artístico e curador. A sua obra integra coleções de várias instituições, como a Câmara Municipal de Matosinhos e o Museu Nacional Soares dos Reis.
Ao longo da sua carreira, foi distinguido com diversos prémios e reconhecimentos, destacando-se a condecoração com o grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, atribuída pelo então Presidente da República Aníbal Cavaco Silva, nas comemorações do 10 de Junho de 2006, realizadas na Alfândega do Porto.
sábado, 7 de março de 2026
Shelleyan Orphan - Burst
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quinta-feira, 5 de março de 2026
Faleceu António Lobo Antunes
Morreu António Lobo Antunes (1942-2026): "Já estou coberto de glória, mas isso não interessa nada, queria era fazer livros bons"
António Lobo Antunes - o Escritor maior e grande contador de histórias
“Eu não quero nem que me compreendam, nem que me discutam, quero que apanhem os livros como quem apanha uma febre.”
Figura maior da literatura portuguesa tinha 83 anos. Entre crónicas e romances, deixa-nos uma vasta obra, com mais de 40 livros escritos entre 1979 e 2024. Venceu o Prémio Camões em 2007.
Especializou-sem em Psiquiatria na Faculdade de Medicina em Lisboa. Em 1970, foi mobilizado para o serviço militar, período que foi central na sua obra, começando pelos primeiros livros, “Memória de Elefante”, “Os Cus de Judas” e “Conhecimento do Inferno”.
A sua obra foi traduzida em várias línguas, e o escritor foi, durante décadas, apontado como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.
António Lobo Antunes e actividade Política
António Lobo Antunes manteve, ao longo da sua vida, uma relação complexa e frequentemente crítica com a política, caracterizando-se por uma postura de independência e um ceticismo profundo em relação às instituições partidárias. Embora tenha tido momentos de aproximação, como quando integrou as listas da Aliança Povo Unido (APU) nas legislativas de 1980, o escritor rapidamente se afastou, justificando que a sua natureza individualista e rebelde era incompatível com a disciplina de qualquer partido. Mais tarde, em 1985, manifestou um apoio público à candidatura presidencial de Maria de Lourdes Pintasilgo, movido por uma convicção íntima nos seus valores. Em anos posteriores, chegou a admitir que, na falta de alternativas, o seu voto tenderia para o Partido Socialista, embora notasse com nostalgia que a força política já não era a mesma dos tempos de Mário Soares.
Para Lobo Antunes, a política era vista através de uma lente quase irracional; ele defendia que as opções políticas eram tão afetivas como as escolhas de clubes de futebol, argumentando que as ideologias tradicionais se estavam a dissolver em fórmulas caducas. Esta visão era acompanhada por uma indisfarçável antipatia pela classe política, moldada em grande parte pelo trauma da Guerra Colonial. O autor nunca perdoou os líderes que enviavam homens para o combate sem nunca terem vivido o horror da guerra. No plano social, as suas posições foram igualmente marcantes: causou polémica ao defender o Iberismo — a ideia de que Portugal e Espanha deveriam ser um só país — e utilizou frequentemente a sua voz para denunciar a pobreza, a desigualdade social e o abandono da classe média, que considerava serem as verdadeiras raízes da violência na sociedade.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
A verdadeira história da canção "Heroes" de Bowie e a interpretação de KinGeorg and Apoptygma Berzerk - Helter (David Bowie cover)
Para escutar os 3 temas do álbum aqui
A canção Heroes foi escrita a dois, David Bowie e Brian Eno e originalmente cantada por David Bowie.
"Heroes": O Triunfo do efémero e a resistência do instante
A canção foi escrita em 1977, durante o período em que Bowie vivia em Berlim Ocidental, imerso no que viria a ser conhecido como a sua “trilogia de Berlim” — Low, Heroes e Lodger — ao lado de Brian Eno e do produtor Tony Visconti. A cidade não era apenas o cenário: era o conceito. Dividida por um muro, carregada de tensão política, ideológica e emocional, Berlim oferecia a Bowie algo que ele procurava naquele momento da vida: distância do caos de Los Angeles, onde o vício em cocaína e o isolamento criativo quase o destruíram, e uma paisagem urbana que refletia a sua própria fragmentação interna.
O beijo sob o olhar da Stasi
A história por trás da canção é conhecida, mas nunca banal. Bowie escreveu “Heroes” inspirado num episódio real: ao observar pela janela do estúdio Hansa, localizado a poucos metros do Muro de Berlim, viu Tony Visconti a beijar uma mulher junto à barreira que separava o Leste do Oeste. A mulher era Antonia Maass, corista do álbum e, à época, envolvida com Visconti, apesar de ambos terem outros relacionamentos. O gesto, simples e arriscado, transformou-se no núcleo emocional da música. Não se tratava de amantes a desafiar apenas uma circunstância pessoal, mas de um ato de intimidade num dos espaços mais vigiados e simbólicos do planeta.
Engenharia de som como dramaturgia
Musicalmente, “Heroes” também nasce de uma experiência. Brian Eno construiu a paisagem sonora com sintetizadores e tratamentos electrónicos que expandiam a ambição do rock para além da sua forma tradicional. Visconti criou um sistema de microfones posicionados a diferentes distâncias da voz de Bowie, que se abriam progressivamente à medida que ele cantava mais alto, captando não apenas a performance, mas a própria arquitetura do estúdio.
O resultado é uma interpretação que cresce em intensidade, como se a canção literalmente ganhasse espaço físico à medida que Bowie se aproxima do clímax. É a técnica ao serviço da emoção.
A recusa do heroísmo grandioso
A letra, por sua vez, é deliberadamente simples. “We can be heroes, just for one day.” Não há promessa de eternidade, glória ou redenção total. Há apenas um instante. Um dia. Um gesto. Bowie nunca romantiza a vitória definitiva; ele oferece resistência temporária. E é exatamente essa recusa do heroísmo grandioso que torna a música tão poderosa. Num mundo de muros — físicos, políticos, afetivos —, ser herói por um dia já é um ato de coragem.
Do insucesso ao estatuto de Hino
Quando lançada, “Heroes” não foi um sucesso imediato nas tabelas de vendas. Alcançou posições modestas no Reino Unido e passou quase despercebida nos Estados Unidos. A crítica, entretanto, reconheceu desde cedo a sua singularidade, e a música começou a construir a sua reputação não pelo consumo rápido, mas pela sedimentação cultural. Com o tempo, tornou-se uma das faixas mais emblemáticas da carreira de Bowie, ao lado de “Space Oddity”, “Life on Mars?”, “Let’s Dance” e “Changes” — o quinteto que hoje define o coração do seu legado.
Em 6 de junho de 1987, Bowie tocou "Heroes" no Reichstag, em Berlim Ocidental, o que foi considerado um catalisador para a queda do Muro.
Porquê agora?
Nada disto, porém, explica sozinho por que motivo “Heroes” ressoa tanto agora. Talvez porque vivamos novamente num mundo de muros, não apenas geopolíticos, mas simbólicos: polarização, guerras culturais, ansiedade coletiva, isolamento tecnológico. . Talvez porque, em tempos de exaustão moral, a ideia de um heroísmo possível, ainda que breve, soe mais honesta do que qualquer promessa de redenção total. “Heroes” não diz que o amor vence tudo. Diz que ele pode, por um instante, desafiar o impossível. E isso, para quem vive em 2026, não é pouco.
Um legado em datas
Após a morte de Bowie, em janeiro de 2016, o governo alemão agradeceu o músico por "ajudar a derrubar o Muro", acrescentando que "você está entre os Heróis"
Em 8 de janeiro de 2026, “Heroes” completou 49 anos desde o seu lançamento. Dois dias depois, a 10 de janeiro, assinalaram-se dez anos da morte de David Bowie. A coincidência de datas não é apenas cronológica; é simbólica. Bowie construiu uma carreira inteira baseada na transformação e na coragem de se reinventar.
Hoje, a canção é mais do que um clássico; é a prova de que, num tempo em que ser herói parece exigir façanhas impossíveis, às vezes tudo o que temos é um dia. Um gesto. Um beijo à beira de um muro. E, ainda assim, isso basta para mudar tudo.
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
Adiado o Doutoramento Honoris Causa de Rosa Mota
A cerimónia de atribuição do Doutoramento Honoris Causa da Universidade do Porto a Rosa Mota, que estava agendada para dia 19 de fevereiro, foi adiada para “data a anunciar oportunamente” por decisão da homenageada, na sequência do “difícil e doloroso contexto que o nosso País atravessa na sequência das recentes tempestades”.
“Vivemos um momento que exige a mobilização plena de todas as instituições públicas e privadas, bem como dos seus representantes, num esforço de todos no auxílio às populações afetadas. (…) Não me sentiria bem, que uma iniciativa que me envolve, por muito honrosa e simbólica que seja, pudesse de alguma forma desfocar ou desviar atenções daquilo que é hoje verdadeiramente urgente”, lê-se no comunicado assinado pela atleta.
Na mesma nota, Rota Mota agradece “profundamente à Universidade do Porto, e em particular à Faculdade de Desporto, a compreensão, a sensibilidade e a solidariedade demonstradas, bem como a enorme honra que me foi concedida”.
O comunicado termina referindo que “a cerimónia será realizada em data a anunciar oportunamente, quando o País reunir condições para, com serenidade, podermos celebrar tão importante momento”.
Recorde-se que a atribuição do Doutoramento Honoris Causa à primeira campeã olímpica portuguesa estava prevista para as 11h00 da próxima quinta-feira, dia 19 de fevereiro. A decorrer na Faculdade de Desporto da U.Porto (FADEUP), a cerimónia contaria com a participação do Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e do Presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, na qualidade de padrinho de Rosa Mota.
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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Morreu Serafim Riem (1954-2026), um dos primeiros ambientalistas em Portugal
Veterano do movimento ambientalista, Serafim Riem morreu no Porto, aos 72 anos. Co-fundador da Quercus e do FAPAS e actual dirigente da Íris, “manteve um compromisso firme e generoso” com a natureza.
O ambientalista Serafim Riem, descrito como um veterano da luta em defesa da natureza, morreu quarta‑feira no Porto, aos 72 anos, confirmou ao Azul a direcção nacional da Íris — Associação Nacional de Ambiente, da qual fazia parte. Figura marcante do movimento associativo português, foi fundador e dirigente do Grupo Ecológico Terra Viva, esteve no Núcleo Português de Estudo e Protecção da Vida Selvagem e co-fundou as associações Quercus e FAPAS.
“O seu amor pela causa ambiental levou-o muito cedo a uma intervenção activa e consequente. Foi um dos primeiros ambientalistas em Portugal, esteve na origem de vários movimentos e nunca deixou de estar disponível para as causas que deram sentido à sua vida”, recorda a bióloga Helena Freitas, professora catedrática da Universidade de Coimbra, de quem Serafim Riem era amigo.
A bióloga recorda com emoção a viagem que fez, há dois anos, com Serafim Riem e a mulher, Mila, ao Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique. “A Mila era tudo para o Serafim, e o Serafim era tudo para a Mila — um amor profundo, cúmplice, indissociável.”
Combate aos eucaliptais
Economista de formação, Riem consolidou, ao longo de mais de várias décadas, um percurso singular na defesa das florestas e da biodiversidade. Viveu sempre no Porto, cidade onde estudou e se afirmou como uma das vozes mais combativas do ambientalismo.
“O seu trabalho em prol da conservação da natureza confunde-se com a própria vida. Economista por imposição familiar, o Serafim gostava mesmo era de árvores, pássaros, animais. A natureza, a que ele dedicou toda uma existência, corria-lhe no sangue”, recorda Marta Leandro, membro do Conselho do Gabinete Europeu de Ambiente (EEB, na sigla em inglês).
Foi um dos fundadores da Quercus — Associação Nacional de Conservação da Natureza em 1985. Os anos 1980 ficariam marcados pela contestação pública à expansão das monoculturas de eucalipto. “Não são florestas, são monoculturas”, afirmou ao Azul em 2023. Numa entrevista ao Jornal de Notícias, há 20 anos, era descrito como “o ecologista que afrontou o lóbi das celuloses, fundou associações e denunciou as autarquias que faziam podas destrutivas às árvores dos seus jardins”.
“Sem exagero, o Serafim estava sempre no terreno, a plantar, a denunciar, a exigir a defesa dos valores naturais, a apoiar comunidades locais — o arranque de eucaliptos em Veiga do Lila, Valpaços, uma revolta popular que ele ajudou a organizar contra forças da GNR montadas a cavalo, em Março de 1989, ficará nos anais da história do ambiente em Portugal. Tal como ele”, acrescenta Marta Leandro, numa declaração ao Azul por escrito.
Amor por aves selvagens
A década de noventa trouxe a cisão com a Quercus que daria origem ao FAPAS – Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, associação onde intensificou o trabalho ligado à conservação de aves selvagens, à instalação de ninhos artificiais e à criação de pequenos bosques educativos, iniciativas que marcaram a intervenção ambiental no Norte do país.
Licenciou‑se em Economia pela Universidade do Porto e completou um mestrado em Gestão e Conservação da Fauna Selvagem Euro-mediterrânica na Universidade de León, em Espanha. A Agência Ecclesia refere que, mais tarde, frequentou ainda uma pós‑graduação em Arboricultura Urbana no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa.
O seu trabalho foi distinguido com o título de membro honorário da Ordem do Infante D. Henrique (1992) e o prémio Global 500 das Nações Unidas (1992).
Em 2014, recebeu o Prémio Internacional Terras Sem Sombra, atribuído pela Diocese de Beja, distinção que sublinhava o contributo continuado para a salvaguarda da natureza e da biodiversidade.
“Generoso” e “incontornável”
Integrava actualmente a direcção nacional da Íris – Associação Nacional de Ambiente, entidade da qual também foi fundador. A sua trajectória, atravessada por confrontos políticos, divergências internas no associativismo e décadas de voluntariado, deixou a imagem de um activista que fez da intervenção ambiental uma forma de cidadania.
“A palavra incontornável deve ser usada parcimoniosamente, mas aplica-se a Serafim Riem no caso do ambientalismo em Portugal”, afirma Raul Cerveira Lima, astrofísico e professor na Escola Superior de Saúde do Instituto Politécnico do Porto.
O investigador na área da poluição luminosa foi um dos amantes da natureza que bateu à porta de Serafim Riem, ainda nos tempos de estudante universitário, “animado pelas intervenções que vira nos jornais em defesa do Parque Nacional da Peneda-Gerês por parte do FAPAS”.
“Recebeu-me sempre com amizade, que perdurou. Por sua iniciativa, recentemente apalavráramos uma reunião, “em breve”, para incluir a poluição luminosa na agenda da protecção ambiental em Portugal. Além da muito triste perda para a família, os amigos, a natureza, dia e noite, todos ficamos agora mais pobres. Tentar dar seguimento ao seu incessante trabalho de protecção da Natureza não será tarefa fácil, mas devemos-lhe isso”, afirma Raul Cerveira Lima.
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domingo, 1 de fevereiro de 2026
Nick Cave And The Bad Seeds - All Tomorrow's Parties
sábado, 31 de janeiro de 2026
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sábado, 24 de janeiro de 2026
JP Simões & Norberto Lobo - Canção da Paciência
Muitos sóis e luas irão nascer
Tenho muitos anos para sofrer
A cobiça é fraca, melhor dizer
Mais ondas na praia, rebentar
Já não tem sentido ter ou não ter
Vivo com o meu ódio, a mendigar
Tenho muitos anos para sofrer
Mais do que uma vida, para andar
Beba o fel amargo, até morrer
Já não tenho pena sei esperar
A cobiça é fraca, melhor dizer
A vida não presta, para sonhar
Minha luz dos olhos que eu vi nascer
Num dia tão breve a clarear
As águas do rio, são de correr
Cada vez mais perto, sem parar
Sou como o morcego, vejo sem ver
Sou como o sossego, sei esperar
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