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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Estudo científico revela que as cidades europeias podem produzir quase 30% das hortícolas que necessitam


O estudo recentemente publicado na revista Sustainable Cities and Society analisou 840 cidades europeias e concluiu que os espaços urbanos poderão produzir milhões de toneladas de hortícolas por ano.

Coberturas planas, quintais, terrenos abandonados, faixas verdes pouco utilizadas e outros espaços urbanos poderiam contribuir para alimentar cerca de 190 milhões de pessoas, chegando em alguns cenários a cobrir perto de 30% das necessidades de hortícolas frescos dessas cidades.

O mais interessante é que os investigadores não basearam as suas conclusões em tecnologias futuristas, agricultura vertical muito dispendiosa ou sistemas altamente industrializados.

Pelo contrário, o estudo focou-se sobretudo em soluções relativamente simples, acessíveis e de baixa tecnologia, baseadas em hortas no solo ao ar livre, em telhados planos e em terrenos baldios, muito próximas daquilo que muitos agricultores urbanos já fazem há décadas.

Na verdade, as cidades sempre produziram alimento. Durante séculos, Lisboa, Porto, Coimbra, Braga ou Évora viveram rodeadas de hortas, vinhas, olivais, pomares e pequenos campos agrícolas integrados no tecido urbano e periurbano.

O século XX alterou profundamente essa relação. Impermeabilizámos solos férteis, enterrámos linhas de água, destruímos quintas históricas e afastámos progressivamente a produção alimentar dos centros urbanos. Hoje começamos finalmente a compreender a fragilidade estrutural deste modelo.

As alterações climáticas, os eventos extremos, as crises energéticas e a inflação alimentar estão a obrigar cidades e governos a repensar a segurança alimentar. A agricultura urbana deixa assim de ser apenas uma ferramenta educativa ou recreativa. Passa a ser uma estratégia de resiliência territorial.

Depois de mais de vinte anos ligado à agricultura regenerativa urbana, continuo profundamente convencido de que uma cidade capaz de produzir parte do que come é uma cidade mais saudável, mais justa e mais resiliente.

Este estudo vem apenas confirmar aquilo que muitos agricultores urbanos conhecem há décadas. Por baixo do betão continua a existir território fértil, e dentro das cidades continua a existir uma profunda necessidade humana de cultivar alimento.

Já em 2013, um relatório da UNCTAD afirmava que o modelo de agricultura industrial era insustentável e que os modelos agroecológicos locais/ regionais diminuiriam a desigualdade entre Norte Global e Sul Global, entregando às populações de países ditos menos desenvolvidos ferramentas e educação para poderem obter os seus próprios alimentos.

Mais info:

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Não queremos patentes das sementes e exigimos regulação das NTG´s

A UE está prestes a realizar a votação final sobre novas regras que desregulamentariam a maioria das culturas geneticamente modificadas desenvolvidas através de Novas Técnicas Genómicas (NGTs), prevista para 19 de maio. A proposta eliminaria a rotulagem, a rastreabilidade e a avaliação de riscos para a maioria destes produtos, levantando preocupações quanto à transparência, aos polinizadores e aos agricultores. O cenário atual confirma as minhas preocupações: o acordo provisório alcançado entre o Conselho e o Parlamento não inclui a proibição de patentes que o Parlamento tinha inicialmente exigido. Em vez disso, propõe apenas medidas de "transparência", o que na prática permite que grandes multinacionais continuem a patentear características genéticas de plantas, ameaçando a autonomia dos agricultores e a biodiversidade.
Portanto e por tudo isto e pela salvaguarda da nossa soberania alimentar e em defesa da agricultura biológica nacional - pondo em causa a Estratégia Nacional para a Agricultura Biológica (ENAB 2027) - temos que agir!

𝐀 𝐬𝐨𝐜𝐢𝐞𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐜𝐢𝐯𝐢𝐥 𝐞𝐬𝐭𝐚́ 𝐚 𝐦𝐨𝐛𝐢𝐥𝐢𝐳𝐚𝐫-𝐬𝐞 𝐚𝐭𝐫𝐚𝐯𝐞́𝐬 𝐝𝐞𝐬𝐭𝐚 𝐜𝐚𝐦𝐩𝐚𝐧𝐡𝐚.
𝐉𝐚́ 𝐪𝐮𝐚𝐬𝐞 𝟗𝟓.𝟎𝟎𝟎 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐞𝐧𝐯𝐢𝐚𝐫𝐚𝐦 𝐞𝐦𝐚𝐢𝐥𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐨𝐬 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨𝐬 𝐞𝐮𝐫𝐨𝐝𝐞𝐩𝐮𝐭𝐚𝐝𝐨𝐬.

Não brinquemos com a nossa alimentação nem mantenhamos os consumidores na ignorância – a rotulagem nas embalagens deve ser garantida ao longo de toda a cadeia de valor. Se estes novos produtos geneticamente modificados são tão promissores como a indústria de sementes afirma, então por que razão não devem ser rotulados em conformidade?
𝐄́ 𝐭𝐞𝐦𝐩𝐨 𝐝𝐞 𝐫𝐞𝐬𝐩𝐨𝐧𝐬𝐚𝐛𝐢𝐥𝐢𝐳𝐚𝐫 𝐨𝐬 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨𝐬 𝐝𝐞𝐩𝐮𝐭𝐚𝐝𝐨𝐬 𝐩𝐞𝐥𝐚𝐬 𝐬𝐮𝐚𝐬 𝐝𝐞𝐜𝐢𝐬𝐨̃𝐞𝐬; 𝐞𝐥𝐞𝐬 𝐝𝐞𝐯𝐞𝐦 𝐝𝐞𝐟𝐞𝐧𝐝𝐞𝐫 𝐨 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨 𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐨𝐥𝐡𝐚 𝐞 𝐩𝐫𝐨𝐭𝐞𝐠𝐞𝐫 𝐚 𝐚𝐠𝐫𝐢𝐜𝐮𝐥𝐭𝐮𝐫𝐚 𝐥𝐢𝐯𝐫𝐞 𝐝𝐞 𝐎𝐆𝐌.

𝐀𝐣𝐮𝐝𝐞-𝐧𝐨𝐬 𝐚 𝐩𝐫𝐞𝐬𝐞𝐫𝐯𝐚𝐫 𝐨 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐨 𝐝𝐢𝐫𝐞𝐢𝐭𝐨 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐨𝐥𝐡𝐚 𝐞 𝐚 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐚 𝐬𝐨𝐛𝐞𝐫𝐚𝐧𝐢𝐚 𝐚𝐥𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐫! 



O Contexto
A desregulamentação das NGTs irá comprometer as normas de segurança alimentar e o direito de escolha dos consumidores, sendo também provável que conduza a uma maior concentração no setor das sementes através do patenteamento de culturas alimentares.

Um artigo do Corporate Europe Observatory e da GMWatch mostra que os grupos de pressão da indústria tentam acalmar as preocupações sobre o impacto das culturas patenteadas com argumentos superficiais e enganosos. Uma sondagem recente revela que a maioria dos cidadãos da UE se opõe às patentes sobre plantas e animais.

Documentos de lóbi obtidos junto da Comissão Europeia revelam que: 
(1) os grupos de pressão da indústria Euroseeds e CropLife Europe, que representam multinacionais biotecnológicas como a Bayer e a Syngenta, minimizam os problemas associados às patentes e propõem «soluções» inadequadas, e 
(2) o grupo de pressão agrícola Copa-Cogeca emitiu um forte aviso contra as patentes, mas posteriormente silenciou-se sobre o assunto. Outros grupos agrícolas, como a Deutsche Bauern Verband e a ECVC, continuam a manifestar abertamente as suas objeções às patentes.

sábado, 14 de março de 2026

Soberania alimentar e autossuficiência em crise no Reino-Unido


O primeiro Relatório de Segurança Alimentar do Reino Unido, de dezembro de 2021, constatou que o país era 54% autossuficiente em termos alimentares. Outros países ricos, como os EUA, a França e a Austrália, são todos autossuficientes em termos alimentares, o que significa que produzem alimentos suficientes para alimentar as suas populações sem necessidade de importações.

O Reino Unido é um dos países menos autossuficientes em termos alimentares na Europa. A Holanda, por exemplo, que é densamente povoada, tem 80% de autossuficiência, e a Espanha, 75%.

“Não estamos a pensar nisso adequadamente. Estamos a fugir do problema”, disse Lang, falando na conferência da União Nacional dos Agricultores em Birmingham.

“A ideia de que os outros nos podem alimentar está enraizada no sistema estatal britânico e, de facto, na própria natureza do capitalismo agroalimentar na Grã-Bretanha. Outros países são mais sábios. Outros países estão a armazenar alimentos”, disse. “Os outros países têm muito mais flexibilidade nos seus sistemas do que nós. O que glorificamos como eficiência agora é a vulnerabilidade.”

Outros países possuem reservas de emergência para casos de guerra, contaminação alimentar ou choques climáticos. A Suíça ainda possui reservas suficientes para alimentar toda a sua população durante três meses e está a aumentá-las para um ano. A recomendação do governo do Reino Unido para as famílias é que mantenham nos seus armários alimentos suficientes para três dias.

Agora um novo relatório revela algo preocupante do Reino Unido, onde um painel de peritos concluiu que uma guerra, um choque climático ou uma combinação de ambos poderia desencadear uma verdadeira crise alimentar nas Ilhas Britânicas.

Notícia completa no Guardian

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Rutura climática pode reduzir capacidade de terras para pastagem em 50% até 2100


Entre um terço e 50% das terras que têm hoje condições favoráveis para pastagens vão perder essa capacidade até 2100, devido ao aumento da temperatura, concluiu um estudo do Instituto de investigação de Potsdam sobre as alterações climáticas (PIK).

Esta atividade consiste em criar animais, como vacas, cabras e ovelhas, em espaços naturais, pradarias, na sua maioria, que cobrem cerca de um terço da superfície terrestre.

Até agora, estes sistemas agrícolas têm prosperado dentro de intervalos de temperatura (entre 3ºC negativos e 29°C), de precipitação (entre 50 e 2627 milímetros por ano), de humidade (de 39% a 67%) e velocidade do vento (entre um metro e seis metros por segundo).

É o que o estudo, publicado hoje na revista PNAS, chama “um espaço climático seguro”.

Mas, com a rutura climática global, estes parâmetros podem mudar e inutilizar um espaço de pastagem.

“As alterações climáticas vão reduzir os espaços onde a pastagem pode prosperar, comprometendo práticas agrícolas que existem desde há séculos”, disse Maximilian Kotz, co-autor do estudo e investigador do PIK e do Barcelona Supercomputing Center.

Segundo o cenário analisado, o estudo estima que entre 100 milhões a 400 milhões de pastores e criadores de gado podem ser afetados, bem como até 1,6 milhões de animais. O estudo estima que entre 51% e 81% das populações residem em países com fraco rendimento.

“É importante sublinhar que numerosas mudanças vão ser sentidas em países que já sofrem fome, instabilidade económica e política e níveis muito elevados de desigualdade de género”, realçou o autor principal, Chaohui Li, investigador do PIK na altura da realização do estudo e hoje no Barcelona Supercomputing Center.

A África é particularmente vulnerável e pode perder de 16% a 65% das suas pradarias, segundo a gravidade do cenário considerado.

As temperaturas no continente africano já se situam no limite do “espaço climático seguro”.

Estas conclusões, que em certos casos preveem o desaparecimento puro e simples de algumas pastagens, colocam em questão “a eficácia das estratégias de adaptação (…), como as mudanças de espécies ou a migração de rebanhos”, disse Prajal Pradhan, investigador do PIK e professor na Universidade de Groningue.

“Reduzir as emissões, através do afastamento rápido os combustíveis fósseis é a melhor estratégia de que dispomos para minimizar estes estragos potencialmente existenciais para a criação de gado”, concluiu Chaohui Li.

Segundo a agência da ONU para a alimentação e a agricultura, 26% da superfície terrestre e 70% da superfície agrícola estão cobertos de pradarias, que contribuem para a subsistência de mais de 800 milhões de pessoas

terça-feira, 27 de maio de 2025

Colónia japonesa cria 'florestas de comida' no Pará e vira referência contra desmatamento


A equipe da BBC News Brasil visitou Tomé-Açu, no interior do Pará, para contar a história da comunidade japonesa que se instalou naquele pedaço da Amazônia e desenvolveu um método que tem revolucionado a produção agrícola na região.   

As primeiras levas de japoneses chegaram em 1929, quando o Japão vivia uma grave crise. As famílias receberam lotes cobertos por floresta, onde construíram casas e cultivaram plantações. 

Anos depois, o grupo foi alvo de uma série de restrições do governo brasileiro por causa da Segunda Guerra Mundial, período em que os mais velhos dizem ter vivido numa espécie de "campo de concentração". 

Com o fim da guerra, a colônia viveu um ciclo de prosperidade nos anos 1960, até que uma praga arrasou as plantações e forçou os agricultores a buscar alternativas. 

Foi então que, observando comunidades ribeirinhas locais e resgatando técnicas ancestrais japonesas, eles desenvolveram um método que privilegia a diversidade de espécies e produz alimentos o ano todo, ajudando a regenerar áreas desmatadas nas últimas décadas.  

Hoje as agroflorestas mantidas pelas famílias nipo-brasileiras atraem vários pesquisadores e agricultores interessados em replicá-las em outras partes do Brasil e do mundo. 

domingo, 18 de maio de 2025

Carolyn Steel - Desafios da Sitopia para alimentação nas grandes cidades hoje


E se o caminho para transformar o planeta e torná-lo sustentável dependesse de algo tão cotidiano e de primeira necessidade como a comida? Este é o argumento defendido pela arquiteta, professora e escritora britânica Carolyn Steel, em seu livro Sitopía (Capitán Swing, 2022).

Sitopia é um termo inventado por Steel a partir das palavras gregas sitos (alimento) e topos (lugar), e significa, literalmente, lugar de alimentos. Com isso, pretendia dar um nome à nossa sociedade, um mundo conformado pela comida.

Steel reflete sobre como a forma como nos alimentamos moldou nossas cidades. Conforme os mercados tradicionais vão desaparecendo e o valor que atribuímos à comida é cada vez menor, também vamos perdendo a coesão social, a saúde e até a nossa própria identidade cultural. Por dependermos de alimentos cada vez mais baratos e produzidos de modo intensivo, entramos em um modo de vida menos sustentável. Ainda temos tempo para mudar?

A entrevista é de Mariángeles García, publicada por Yorokobu, 22-03-2023. A tradução é do Cepat.
Eis a entrevista.

A filosofia está muito presente em seu livro. O fato desta disciplina estar desaparecendo dos planos de estudo (ao menos na Espanha) nos torna, como cidadãos, mais vulneráveis a ideologias que nos desumanizam?
Sim! De fato, acredito que estamos perdendo a capacidade de pensar por nós mesmos e de nos fazer grandes perguntas, o que realmente me preocupa. Penso que a internet criou uma espécie de supermercado das ideias, no qual as pessoas vão às compras até encontrar conceitos pré-fabricados que as atraem. Então, elas os adotam por atacado, como se tivessem sido pensados por elas próprias.

Isto me preocupa muito, porque essas ideias, muitas vezes, tornam-se ideologias irremovíveis. Também nos expõe a acreditar em teorias da conspiração e a ser incapazes de examinar o que realmente pensamos desde a base e, portanto, de estabelecer um debate fundamentado. Como vimos com a recente invação ao Capitólio dos Estados Unidos e agora ao Congresso brasileiro, este fenômeno ameaça a própria democracia.

Qual é a relação entre filosofia e alimentação, e como isso afeta nossa cultura alimentar?
Bem, existem poucos atos tão significativos como o de comer: levanta questões muito profundas como o que é a vida, o que significa compartilhar com justiça, qual é a nossa relação com a natureza e como é uma boa vida.

Por exemplo, só pelo fato de comer, nós nos autorizamos a considerar nossa vida mais importante do que a de, por exemplo, um frango ou uma batata. Mais do que isso, penso que ver o mundo pelo prisma da comida pode nos ajudar a nos tornarmos filósofos, o que significa que pode nos habilitar a fazer grandes e importantes perguntas. E isso, conforme eu dizia antes, é extremamente importante. De fato, se eu tivesse que redesenhar o plano de estudos, colocaria a alimentação e a filosofia entre as disciplinas mais importantes.

Por isso, inventei a palavra sitopia, porque vivemos em um mundo moldado pela comida. Sendo assim, pensar a partir dela pode nos ajudar a olhar ao nosso redor, questionar nosso lugar no mundo e voltar a nos fazer essas grandes perguntas.

O urbanismo das cidades costumava gravitar em torno de seus mercados: eram os centros de reuniões sociais e quase políticas. Como o urbanismo mudou, desde que a nossa alimentação piorou?
O mercado era o centro da cidade pré-industrial, não só fisicamente, mas social, econômica, simbólica e politicamente. Antes que a industrialização destruísse a o vínculo geográfico entre os alimentos e as cidades, os mercados eram os únicos lugares onde as pessoas podiam comprar alimentos frescos, então, todos recorriam a eles, não só para comprar comida, mas para uma socialização, para saber das últimas notícias e tagarelar.

Basta ler as descrições da ágora ateniense, os relatos de Zola sobre Les Halles, em Paris, e os de Samuel Pepys sobre Covent Garden para perceber como esses espaços públicos eram vibrantes. De fato, os supermercados foram projetados especificamente para eliminar os encontros sociais que outrora caracterizavam os mercados, o que significa uma grande perda.

O que essas mudanças implicam?
Como arquiteta, tenho muito interesse na importância da esfera pública, ou seja, a presença de um espaço aberto, inclusivo e heterogêneo no qual se é livre para atuar e se encontrar face a face com seus concidadãos. De fato, isso está diretamente relacionado ao debate anterior, sobre como as pessoas estão perdendo a capacidade de debater e pensar por si mesmas, porque grande parte dessa atividade agora é realizada on-line. E isto está longe de ser um verdadeiro espaço público, já que, como sabemos, é muito manipulado.

As implicações são enormes, uma vez que limitam nossa experiência do outro e nossas oportunidades de sentir o que temos em comum (apesar de nossas diferenças). E, por sua vez, ameaça nosso compromisso político e, de fato, nossa capacidade de participar como cidadãos em uma democracia que funcione.

Qual é a primeira coisa que você faz quando viaja para uma nova cidade? 
No meu caso, e penso que no de muitos de nós, é procurar pela comida local e tradicional, seja em mercados, comércios locais, cafés e restaurantes. É de longe a maneira mais rápida (e prazerosa!) de entender o que faz um lugar funcionar, como as pessoas se relacionam, como são a paisagem e a cultura local.

Uma cidade como Barcelona, por exemplo, que protege e investe em seus mercados e promulga leis para protegê-los do desenvolvimento dos supermercados, seria uma dessas cidades. E, claro, muitas cidades do sul permanecem organizadas de forma espetacular em torno de suas culturas alimentares tradicionais, porque a marcha inexorável do McDonald's et al ainda não as alcançou.

Penso que a mensagem mais poderosa que podemos enviar a esses lugares é que, a todo custo, se apeguem a suas culturas alimentares locais: uma vez perdidas, é muito difícil recuperá-las (como qualquer pessoa no Reino Unido pode dizer!) e delas depende, em grande medida, a coesão social e política de um povo.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

Vandana Shiva - False Claims Of The Green Revolution


Vandana Shiva partilha o seu conhecimento sobre a Revolução Verde, um conjunto de práticas e políticas agrícolas transformadoras e dependentes de produtos químicos que prometiam proporcionar segurança alimentar às populações de todo o mundo. Mas será que cumpriu essas promessas? E como é que os seus resultados se comparam aos da agricultura biológica?

Real Organic Project Virtual Symposium 2024

quinta-feira, 13 de julho de 2023

Insegurança alimentar afecta 1 em cada 3 brasileiros, diz ONU


Quadro atinge 70,3 milhões no país, segundo dados de 2020 a 2022 – destes, 21,1 milhões passam fome por não ter o que comer todos os dias, número que entre 2014 e 2016 era de 4 milhões.

O número de brasileiros que passam por alguma privação alimentar bateu os 70,3 milhões, o que significa que uma em cada três pessoas ou passou aperto em casa para comer apropriadamente (50,2 milhões) ou, no pior cenário, chegou a ficar de fato sem ter o que comer por um ou mais dias (21,1 milhões) – o Brasil tem 203 milhões de habitantes, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os dados, que dizem respeito ao período de 2020 a 2022, constam do relatório "O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo”, feito por cinco agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e divulgado nesta quarta-feira (12).


A proporção de brasileiros sem dinheiro para bancar uma alimentação saudável também saltou: de 19,6% em 2017 para 22,4% em 2021.

Já a fome, definida no relatório como subalimentação crónica – quando há falta persistente ou de longo prazo de uma alimentação de qualidade necessária ao bem-estar –, assola 10,1 milhões, mas registou queda em relação ao período de 2014 a 2016, tanto em números absolutos (12,1 milhões) quanto em relação ao total da população (de 6,5% para 4,7%).

A metodologia da ONU é diferente da adotada em estudo da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) que apontou 33 milhões de brasileiros passavam fome em 2022 – pesquisa que incluiu visitas domiciliares aos entrevistados.

Situação no mundo
Segundo o relatório da ONU, o número de pessoas passando fome ao redor do globo cresceu em 122 milhões desde 2019 e totaliza, hoje, 735 milhões.

A piora é atribuída à pandemia, mas também a eventos climáticos extremos e conflitos violentos como a Guerra na Ucrânia. O cenário faz parecer mais distante a meta da organização de acabar com a fome até 2030, também porque previsões dão conta de que esse número ainda deve se manter num patamar de 600 milhões até o final desta década.

O pior quadro é na África, com uma a cada cinco pessoas passam fome, mais que o dobro da média global.

Outro problema, a insegurança alimentar afeta 2,3 biliões, o equivalente a 29,6% da população mundial, sendo 900 milhões em situação de privação grave de comida.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a insegurança alimentar moderada ocorre quando as pessoas enfrentam incertezas sobre a sua capacidade de obter alimentos e são forçadas a reduzir a qualidade e/ou quantidade de alimentos por falta de dinheiro ou outros recursos, mudando suas dietas. Já a insegurança alimentar grave ocorre quando falta comida e as pessoas sentem fome – situação que, no caso mais extremo, pode perdurar por um ou mais dias.

quinta-feira, 23 de março de 2023

É possível boicotar supermercados? Eles tentam todos os dias, mas não é fácil

Enquanto conversam sobre música e futebol, João Mendes faz as compras da semana ao Sr. José, do Pomar Coutinho. Começou a visitar com mais frequência o pequeno supermercado local, no centro da Trofa, há seis anos, quando decidiu evitar ao máximo entrar em grandes cadeias de supermercados.


Reportagem Público
O copywriter freelancer de 38 anos virou as costas quando se apercebeu que “os legumes e a fruta que comprava nas grandes superfícies duravam pouquíssimo tempo” em comparação com os produtos que chegavam de familiares e amigos que tinham hortas. Pouco depois, reparou que no minimercado da sua rua os preços estavam muito abaixo do que via no hipermercado onde costumava comprar. Produto a produto, foi fazendo comparações e reparou que lhe compensava mais comprar no pequeno comércio.

João não é único a trocar as grandes superfícies, empurrado pelo que classifica de “preços e lucros excessivos”. Outros apontam como razões a preocupação com a sustentabilidade ambiental ou com a sobrevivência dos negócios locais. E há quem questione se um boicote generalizado, mesmo sabendo o quão difícil é mudar rotinas e encontrar alternativas equiparáveis, ajudaria a baixar os preços galopantes e a passar uma mensagem de descontentamento perante irregularidades detectadas pela ASAE e denunciadas por consumidores.

“Existe sempre um produto que me obriga a voltar”

Hoje, 90% das compras de João são feitas entre o Pomar de José Coutinho, o mercado semanal da Trofa e um talho que fica a dois minutos de casa. No entanto, por vezes, ainda se vê obrigado a ir comprar aos grandes: “Existe sempre um produto mais complexo que me obriga a ir a uma grande superfície como um creme, umas bolachas que o meu filho quer muito, uma garrafa de vinho e pouco mais.”

Quando começou a comprar mais regularmente no minimercado da sua rua, João Mendes decidiu comparar o preço de vários produtos com os praticados numa grande cadeia de hipermercados de um grupo nacional.

A primeira diferença que encontrou foi no café. A mesma caixa de quarenta cápsulas era 2,39 euros mais barata no minimercado. Mas rápido percebeu que gastava menos em muitos outros produtos. Em alguns casos, como o do gel de banho, o preço caiu para metade (menos 119%, calculou).

Ana Machado, 35 anos, gerente de um estúdio de fotografia no Porto, já há algumas semanas que evita por princípio fazer compras em grandes superfícies. Costumava visitar o supermercado três vezes por semana, agora vai duas a três por mês: “Neste momento, incomoda-me gastar dinheiro num supermercado. Do ponto de vista ideológico também já não se aceita. Não se justifica.”

A preocupação em ser mais sustentável também levou Stefanie Silva a reduzir as idas aos supermercados. Sendo vegetariana, a enfermeira de Viseu diz que não compra quase nenhuma da comida que consome em grandes superfícies. Porém, não vive sozinha. Normalmente, recorre a hipermercados para comprar comida para os animais, “alimentos processados” e outros que a granel sejam mais difíceis de encontrar.

A viver longe do centro da cidade, reconhece que nem sempre é fácil fazer as compras em locais mais sustentáveis. ​“Procurando ser sustentável a todos os níveis, tenho de me organizar quando me desloco ao centro da cidade para fazer tudo aquilo que preciso. Organizar muito bem, não só as compras mas também a deslocação”, diz.

Há mais de 30 anos que os alimentos não eram tão caros

Rosa Silva, trabalhadora independente de 55 anos, costumava fazer as compras sempre no mesmo hipermercado. No final de 2022, quando a subida dos preços se tornou “um abuso”, procurou alternativas. Agora, opta por mercados locais (onde, diz, a especulação também existe) e mercearias.

“Eu sou muito básica nas compras, não me estico muito. São sempre as mesmas coisas há anos e sou fiel às mesmas marcas. Portanto, há aqui um referencial muito claro quando as coisas aumentam de uma forma absurda”, conta. A título de exemplo, refere o caso da manteiga dos Açores, que costumava usar: “Passou de 1,69 euros para 2,30.”

Nos mercados, os preços nem sempre são mais baixos. Rosa Silva, costuma dirigir-se ao mercado de São João da Madeira e já percebeu que os preços flutuam ao longo do dia. Com o contacto certo, porém, pode-se poupar: “Sei que os preços são mais caros durante o dia. Mas já encontrei, ao ir às sete da manhã, a pessoa certa que tem produtos muito mais baratos, bons e frescos.”

Desde que começou a comprar mais fora de supermercados, Ana Machado já reparou que gasta menos: “Este mês nem gastei o plafond todo do cartão de alimentação.”

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Milho de gema de vidro


Glass Gem Corn é uma variedade de milho que é conhecido pelas suas cores únicas e vibrantes, que vão desde vermelhos profundos a roxos brilhantes e azuis. É um milho de gema de vidro, o que significa que tem uma camada exterior dura e é usado principalmente para fins decorativos ou ornamentais.
Foi criado por um agricultor de Oklahoma chamado Carl Barnes que fazia parte da comunidade nativa americana. Barnes era conhecido por preservar e cultivar sementes da sua herança, e criou a Glass Gem polinizando várias estirpes de milho.

Em termos de benefícios, o milho de gema de vidro é muitas vezes cultivado pelas suas qualidades estéticas, mas como qualquer variedade de milho, é também uma fonte de nutrição e pode ser usado para diversos fins, como farinha ou fonte de alimento para o gado. Além disso, a conservação e o cultivo de variedades de milho ajuda a manter a diversidade genética, o que pode ser importante para a segurança alimentar face a desafios como as doenças e as alterações climáticas.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Direitos Rurais: A Ressignificação dos Direitos Humanos nos Movimentos Camponeses Contemporâneos

Peasants Rights Explained: An illustrated version of the UN Declaration (UNDROP)

Por Irina Velicu
As preocupações com as mudanças climáticas e as transformações sustentáveis da agricultura e dos sistemas alimentares levam a que a pequena agricultura e os meios de vida rurais sejam vistos como ativos ecológicos globais. Ainda assim, as pessoas que vivem nas áreas rurais são algumas das mais marginalizadas e empobrecidas, afetadas por secas, inundações e incêndios. Enquanto a biodiversidade de sementes é crucial para a sustentabilidade dos sistemas alimentares futuros e para a adaptação às mudanças climáticas, acontece, por exemplo, que a antiga prática de reutilizar sementes está cada vez mais condenada. O trabalho e o conhecimento dos camponeses permanecem sem reconhecimento, enquanto os seus esforços para produzir grãos e sementes são considerados fracos ou ineficientes.

Há ativistas académicos crescentemente preocupados com os trabalhadores rurais e os camponeses do mundo, dada a sua condição precária. Os movimentos que defendem a soberania alimentar defendem também o seu autogoverno para se protegerem tanto das políticas neoliberais quanto do agronegócio.

A recente Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses e Outras Pessoas que Trabalham em Áreas Rurais (UNDROP 2018) representa um sucesso importante dos movimentos agroalimentares e dos seus esforços para institucionalizar novos direitos rurais, de acordo com o paradigma “subversivo” da “forma camponesa” e reconhece aos camponeses direitos coletivos à terra, à alimentação, às sementes e a outros recursos naturais. Tais inovações alteraram a arquitetura internacional de direitos humanos ao transformar e alargar o enquadramento convencional dos mesmos, criando novos direitos para os camponeses, os trabalhadores rurais e a natureza e descrevendo na literatura a soberania alimentar como uma maneira de descolonizar o sistema de direitos humanos.

Reivindicar a soberania sobre os alimentos, as sementes ou a terra é um movimento político-democrático, no qual os camponeses são tidos em conta pelo papel que exercem no processo de esfriamento do planeta, na reversão do desemprego urbano, na migração ou na luta contra a fome, levando a uma reavaliação do campo na construção da resiliência do ecossistema. Nesse paradigma, os agricultores já não são vistos como historicamente anacrónicos, mas como um novo fundamento contemporâneo da civilização. Ao mesmo tempo que a “forma camponesa” tem estado sob escrutínio crítico – dada a crescente mercantilização dos alimentos – há um reconhecimento cada vez maior do valor da soberania alimentar no processo de transformação do movimento social contemporâneo, o que coloca os camponeses no centro da política agroalimentar como potencial alternativa ontológica ao regime alimentar capitalista. Evitar o drama do otimismo e do desapontamento na busca pela justiça também é uma forma de trabalhar com os limites e fragilidades das novas subjetividades em formação e as inevitáveis tensões e contradições entre as suas linhas divisórias.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Webinar do projecto Proteína Verde - Plantar a Alimentação do Futuro


Assiste ao vídeo para descobrir mais sobre o impacto da alimentação, associada à indústria da pecuária intensiva, nos domínios ambiental, ecológica e social, da pegada ecológica em Portugal, dos benefícios nutricionais das leguminosas, de um possível cenário de transição para proteína vegetal, da política agrícola em Portugal e na Europa, entre outros temas.


5 Organizações apelam ao Governo português pela mudança urgente no sistema alimentar

Após o lançamento do primeiro relatório “Proteína Verde: Plantar a Alimentação do Futuro”, em julho deste ano, o movimento Proteína Verde apresenta agora uma segunda publicação, desta vez especialmente dirigida aos decisores políticos: o Plano Nacional de Incentivo à Produção e Consumo de Proteínas Vegetais, disponível aqui, no site da iniciativa.

Este documento, que resulta de uma colaboração entre Associação Vegetariana Portuguesa (AVP), associação ambiental ZERO, Greenpeace, GEOTA e Associação Portuguesa de Educação Ambiental (ASPEA), argumenta a favor da implementação de 15 medidas políticas pela transição alimentar sustentável e ecológica, essencialmente assente em proteína de base vegetal.

“A urgência em combater a ineficiência do sistema alimentar é de tal ordem que estas organizações uniram forças para mostrar que é preciso alterar o rumo do que produzimos e do que comemos, como forma de evitar o suicídio ambiental e climático, mas também económico”, refere Joana Oliveira, que integra a Associação Vegetariana Portuguesa e a equipa de coordenação e desenvolvimento da iniciativa Proteína Verde.

“Numa época de grandes instabilidades sociais e ambientais, e em que todos os esforços de reequilíbrio são imperativos, a ASPEA (Associação Portuguesa de Educação Ambiental) apoia fortemente iniciativas como esta, que atuam tanto ao nível da saúde humana, como ao nível da saúde planetária. É uma proposta que pretende contribuir para a mitigação de vários problemas ambientais, como as alterações climáticas, e em que todos podem contribuir.”, afirma Anabela Pereira, gestora de projetos da ASPEA.



No Plano Nacional de Incentivo à Produção e Consumo de Proteínas Vegetais, os atores políticos são desafiados a criar condições que permitam a mudança positiva na produção e no consumo alimentares em Portugal, propondo-se 15 soluções concretas que aumentam a abrangência do compromisso climático português para incluir o sistema alimentar, “considerando-se o enorme ónus ambiental que este representa, particularmente em Portugal e no que diz respeito à pecuária intensiva”, defende Nuno Alvim, presidente da Associação Vegetariana Portuguesa.

“Dentro dos grandes contribuintes para a problemática, surge a agricultura intensiva e em particular o sector pecuário intensivo, que representa um impacto particularmente negativo no sistema climático, nos ecossistemas, na manutenção da biodiversidade e na saúde humana”, afirma Pedro Ribeiro, gestor de ação política no projeto Proteína Verde.

“É tempo de alterarmos hábitos e consumos para uma vida mais saudável e mais em harmonia com o planeta. As mudanças na alimentação devem ter por base uma dieta adequada, com base em leguminosas e legumes, que é mais saudável e económica, e que fornece as proteínas necessárias à nossa alimentação, para além da sua produção ser mais sustentável do que a produção de proteínas animais”.Patrícia Tavares, da Comissão Executiva do GEOTA.



Uma mudança geral na alimentação em direção a um maior consumo de proteínas vegetais terá um efeito considerável na mitigação das alterações climáticas, podendo atingir-se uma redução, no limite, de 8 mil milhões de toneladas de CO2 (equivalente), por ano, até 2050.

15 recomendações políticas para a transição alimentar

Entre as 15 recomendações enunciadas, as organizações propõem a criação de mecanismos que incentivem a conversão dos terrenos atualmente destinados à pecuária intensiva em unidades agrícolas de produção de base vegetal, a capacitação formativa para disponibilização de refeições de base vegetal no setor da restauração pública, a ampliação do apoio associado ao cultivo de leguminosas e a consideração dos impactos ambientais que decorrem da agropecuária nos apoios públicos concedidos.

Registo de visita à Assembleia da República, a 12 de outubro, no âmbito de uma reunião com o Partido Socialista para abordar o Plano Nacional de Incentivo à Produção e Consumo de Proteínas Vegetais e o projeto Proteína Verde.

O projeto Proteína Verde apresenta, igualmente, as suas 15 propostas de atuação em Petição Pública, que foi divulgada no passado dia 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, e está disponível para subscrição aqui.

Segundo este plano nacional conjunto de várias ONGs, existe a necessidade de melhorar a atual estratégia climática do Governo, recomendando-se o direcionamento dos mecanismos específicos do Fundo Ambiental para um maior desenvolvimento de políticas que envolvam a sustentabilidade do setor alimentar (a alimentação é o que mais pesa na pegada ecológica dos portugueses) e, deste modo, coloquem Portugal mais próximo da meta de neutralidade carbónica até 2050.

Petição - Por uma transição alimentar sustentável e ecológica, assente na proteína vegetal

Assinar a petição aqui

Por uma transição alimentar sustentável e ecológica, assente na proteína vegetal

Para: Exmo. Sr. Presidente da Assembleia da República

As alterações climáticas e a sustentabilidade dos ecossistemas, face a um sistema planetário com limites físicos e biológicos, representam o problema mais grave e mais premente que se colocou à espécie humana nos últimos três quartos de século.
Propõem-se que as seguintes 15 recomendações políticas integrem um "Pacote de Medidas pela Transição do Sistema Alimentar”, que pode incluir todas ou parte destas medidas:

- Ampliar o apoio associado ao cultivo de leguminosas;
- Introdução das leguminosas nas práticas elegíveis para as medidas agroambientais e ecorregimes;
- Estabelecimento de conjunto de medidas no plano da bioeconomia, direcionadas para o melhoramento das leguminosas;
- Consideração das externalidades ambientais que decorrem da agropecuária, nos apoios concedidos;
- Criação de esquemas de apoio à Investigação e Inovação (I&I);
- Programa de apoio a pequenas e médias empresas que desenvolvem atividade de transformação de leguminosas;
- Rotulagem da pegada ecológica para produtos alimentares;
- Criação de mecanismos que incentivem a conversão dos terrenos atualmente destinados à pecuária em unidades agrícolas de produção de base vegetal;
- Capacitação formativa para disponibilização de refeições de base vegetal no setor da restauração pública;
- Alívio fiscal para frutas, vegetais e leguminosas, com respetiva redução na taxa de IVA e anulação por completo no caso destes serem produzidos em modo biológico;
- Atualização das diretrizes alimentares nacionais oficiais com consequente criação de campanhas sobre os benefícios do consumo de leguminosas;
- Capacitação dos agricultores para as boas práticas do cultivo de proteína vegetal;
- Criação de programas específicos para cultivo de leguminosas direcionados para jovens agricultores;
- Criação de mecanismos prioritários de aquisição de terras para produção de proteína vegetal;
- Criação de uma “Estratégia Nacional para a Proteína Verde”, como abordagem integradora de um pacote de medidas em prol da “proteína verde”, que visa assegurar a autossuficiência de proteaginosas e a soberania alimentar.

Hoje compreendemos através das mais recentes investigações e dados disponíveis, que as escolhas que temos feito na nossa alimentação, fortemente assente na proteína de origem animal, não têm sido das mais adequadas para fazer face aos desafios que as alterações climáticas nos têm colocado, entre os quais: perda da biodiversidade, menor garantia da disponibilidade de alimentos, doenças ligadas ao consumo e comportamentos alimentares. Todos estes indicadores nos forçam a confrontar a verdade: o problema é real.

Apesar de ser um fenómeno muito complexo e de causa multivectorial, aquilo que os mais recentes dados da Ciência e os dados de vários painéis de especialistas nos dizem, tais como os do IPCC e da FAO, é que embora o problema tenha mais do que uma solução, uma delas passa obrigatoriamente pela transição para um sistema alimentar alicerçado nas fontes proteicas de origem vegetal, como é o caso das leguminosas, já inerentes à gastronomia portuguesa.

Globalmente, a produção de alimentos é responsável por cerca de um quarto da emissão de gases de efeito estufa do mundo. Em Portugal, o consumo de alimentos representa pelo menos 32% da pegada ecológica dos portugueses (mais que os transportes, que contribuem com 18%), pelo que as nossas escolhas alimentares têm um impacto significativo no combate às alterações climáticas.

Os impactos na saúde dos cidadãos, provocados pela alimentação corrente dos portugueses, também necessita de uma atenção profunda por parte dos poderes políticos.

De acordo com inquérito nacional alimentar, publicado em 2017, mais de metade dos portugueses não come frutas e hortícolas suficientes ao nível do recomendado pela OMS. Por outro lado, consome-se carne e laticínios muito acima do recomendado, tal como é enunciado pelo Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física (IAN-AF-2015-2016). Tendo em conta os respetivos hábitos alimentares nacionais, não é de estranhar que mais de 50% da população portuguesa tenha excesso de peso (INE 2019), ou que evidencie outros problemas associados a uma alimentação em que a proteína animal é consumida em excesso, tal como a diabetes ou cancro colorrectal.

Assim, para uma maior sustentabilidade ambiental do sistema alimentar e para melhorar a saúde dos portugueses, os peritos sugerem uma alimentação fortemente centrada em alimentos de origem vegetal, em linha com a transição global para um cenário que aqui propomos e focado na proteína vegetal.

O projeto Proteína Verde e os proponentes desta petição propõem, com base na pesquisa apresentada no relatório “Proteína Verde: Plantar a alimentação do futuro”, 15 recomendações aos atores políticos (grupos parlamentares e Governo), que podem ser a chave para a resolução de uma boa parte dos problemas apresentados pelas alterações climáticas e relacionados com a saúde pública dos portugueses.

As 15 recomendações políticas que aqui se propõem podem ser consultadas em detalhe no Plano Nacional de Incentivo à Produção e Consumo de Proteínas Vegetais e pretendem uma transição alimentar sustentável e ecológica, assente na proteína vegetal.

Para além da contribuição para a resolução dos problemas acima descritos, a transição para um regime alimentar baseado predominantemente no consumo de proteína vegetal colocaria Portugal na vanguarda das políticas de sustentabilidade ecológica da União Europeia e a par de outros países, como a Dinamarca, a Holanda, a Áustria e a França, num esforço conjunto para atingir os objetivos de neutralidade carbónica e sustentabilidade a serem concretizados até 2050.

Se motivos não faltam, ficará Portugal para trás nesta transição alimentar necessária?

Deste modo, os proponentes desta petição vêm incentivar os cidadãos a assinarem esta nossa proposta e, por consequência, os senhores deputados da Assembleia da República a debater este conjunto de medidas, o "Pacote de Medidas pela Transição do Sistema Alimentar”, constituído por todas ou parte das 15 medidas acima indicadas. Para que Portugal se direcione para a sustentabilidade ambiental do seu sistema alimentar, tornando-o mais resiliente e de impacto positivo para a economia e saúde pública.

Com os melhores cumprimentos,


As organizações/entidades proponentes:

AVP - Associação Vegetariana Portuguesa
ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável
GEOTA - Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente
ASPEA - Associação Portuguesa de Educação Ambiental

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Oxfam desafia líderes mundiais a tributar os “super-ricos” para reduzir desigualdades até 2030


As empresas alimentares que obtêm grandes lucros com o aumento da inflação devem pagar mais impostos para ajudar a reduzir a desigualdade global, disse o grupo de combate à pobreza Oxfam na segunda-feira, quando a reunião anual do Fórum Económico Mundial (WEF) começa na estação de esqui suíça de Davos.

Essa é uma das ideias de um relatório, Survival of the Richest  da Oxfam International, que há uma década procura destacar a desigualdade no WEF. O relatório, que visa provocar discussões em painéis com líderes corporativos e governamentais esta semana, disse que o mundo tem sido assolado por crises simultâneas, incluindo a mudança climática, o aumento do custo de vida, a guerra da Rússia na Ucrânia e a pandemia de Covid-19, mas os mais ricos do mundo ficaram mais ricos e os lucros corporativos estão aumentando. 

Nos últimos dois anos, os 1% super-ricos do mundo ganharam quase duas vezes mais riqueza do que os 99% restantes juntos, disse a Oxfam na segunda-feira. Enquanto isso, pelo menos 1,7 bilião de trabalhadores vivem em países onde a inflação supera o aumento dos salários. Para combater esses problemas, a Oxfam pediu um aumento dos impostos para os ricos através de uma combinação de medidas que incluem impostos únicos "solidários" e o aumento das alíquotas mínimas para os mais ricos. O grupo observou que a alícota real de imposto do bilionário e CEO da Tesla, Elon Musk, de 2014 a 2018 foi um pouco mais de 3%.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Alterações climáticas vão acelerar crises humanitárias em 2023, estudo


As alterações climáticas vão acelerar as crises humanitárias em todo o mundo em 2023, aumentando os problemas criados por conflitos armados e crises económicas, de acordo com um estudo da ONG International Rescue Committee (IRC).

A agência, com sede em Nova York e liderada pelo ex-político britânico David Miliband, sinalizou que o número de pessoas em necessidade humanitária disparou na última década, chegando aos 339,2 milhões contra os 81 milhões vistos em 2014.

A mudança climática está entre os principais fatores que aceleram as emergências humanitárias, observou o IRC, apesar do fato de que os 20 países na sua lista de emergência - como Haiti e Afeganistão - contribuem com apenas 2% das emissões globais de CO2.

"2022 mostrou que o papel das alterações climáticas na aceleração da crise humanitária global é inegável", observou o relatório.

Ele apontou para períodos recordes de chuvas, que "trouxe insegurança alimentar catastrófica para a Somália e Etiópia", e matou milhares no Paquistão.

O IRC também sinalizou a necessidade de “investir proativamente na prevenção e mitigação das alterações climáticas”.

Enquanto isso, a insegurança alimentar já é comum devido ao crescente conflito, bem como a crise económica provocada pela invasão russa da Ucrânia e pela pandemia de coronavírus, afirmou.

Além disso, a lacuna entre as necessidades humanitárias e o seu financiamento aumentou para um déficit global de US$ 27 biliões em novembro de 2022.

"Os doadores não estão respondendo proporcionalmente", diz o relatório. “O resultado é que as comunidades afetadas pela crise não conseguem acessar aos serviços de que precisam para sobreviver, se recuperar e reconstruir”.

O estudo - intitulado "Emergency Watchlist 2023" - também destacou que o número de pessoas forçadas a fugir de suas casas aumentou para mais de 100 milhões hoje, ante 60 milhões em 2014, com a Venezuela entre os mais significativos aumentos.

Ler mais:

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Organizações pedem ao Governo o fim dos óleos de palma e de soja nos biocombustíveis em Portugal


Mais de 30 organizações ambientalistas e cívicas que representam povos indígenas e a sociedade civil do Brasil, Indonésia e Europa instam o Governo a abandonar a importação e o uso de óleos de palma e de soja nos biocombustíveis consumidos em Portugal.

Numa carta aberta endereçada ao Primeiro-ministro António Costa, ao ministro do Ambiente e Ação Climática, Duarte Cordeiro, e ao Secretário de Estado da Energia, João Galamba, as organizações “apelam ao Governo da República Portuguesa que aceite a proposta do Parlamento Europeu no sentido de eliminar no curto prazo os biocombustíveis produzidos a partir de óleos de soja e de palma, defendendo esta posição nas próximas negociações do trílogo sobre a Diretiva das Energias Renováveis da UE (RED, sigla em Inglês)”, salientam em comunicado.

Os signatários consideram que vivemos “um momento decisivo para a Europa, para o Brasil e para a Indonésia” e que o mundo tem o seu alcance “uma oportunidade histórica para garantir que as políticas Fit for 55 contribuam realmente para mitigar a crise climática, para proteger a biodiversidade e para garantir os direitos dos povos indígenas, incentivando o uso de energias limpas, tanto na Europa como no resto do mundo”.

As 33 organizações destacam o “uso da soja e da palma para a produção de biocombustíveis” é a causa de “inúmeros” problemas, entre eles o aumento da procura por produtos derivados da soja e da palma que “levaria à conversão de ecossistemas naturais ricos em carbono, como é o caso das florestas tropicais e das turfeiras, em solos agrícolas”, e que “algumas das áreas do mundo com maior biodiversidade biológica serão substituídas por plantações monoculturais”.

Avisam também que “o aumento da procura por terra para a produção de soja e palma no Brasil e na Indonésia provoca conflitos territoriais graves com os povos indígenas e outras comunidades locais, cujas terras são invadidas pelas plantações em expansão”. E esses confrontos “impedem a gestão sustentável das florestas tropicais e outras zonas e levam à violência contra os nossos defensores do ambiente e à violação dos direitos humanos, assim como à destruição dos nossos meios de subsistência”.

Por fim, explicam que quanto maior for a procura pela soja e pela palma para integrarem os biocombustíveis, maior serão também os preços dos óleos alimentares vegetais e a sua escassez nos mercados mundiais. Por isso, “acreditamos firmemente que os solos agrícolas devem ser utilizados para a produção de alimentos e não para produzir combustíveis que são queimados nos nossos veículos”, argumentam as organizações, acrescentando que “numa situação em que a escassez de alimentos pode ser uma realidade global, é fundamental ter isto em consideração”.

As organizações que assinam a carta aberta ao Governo português defendem que a certificação dos produtos de soja e de palma não é a solução, que só poderá passar pela eliminação, “o mais rapidamente possível”, de biocombustíveis feitos a partir desses produtos vegetais.

E dizem que é fundamental “eliminar a soja e a palma dos nossos combustíveis de forma simultânea”, pois se apenas “abandonarmos o óleo de palma, o mais provável é que venha a ser substituído por soja na produção de biocombustíveis, deslocando assim os problemas de um local para o outro, sem os resolver”.

Assim, pedem aos três governantes “para estarem à altura das circunstâncias ao adotarem o abandono imediato e simultâneo da soja e da palma nos biocombustíveis da Europa, como proposto pelo Parlamento Europeu, para que as políticas sobre as energias renováveis contribuam para um futuro sustentável, ao invés de expor os nossos países e povos a um aumento da desflorestação e à violação dos nossos direitos básicos”.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Lídia Jorge: “É preciso estar com quem vive de migalhas”


Em entrevista no podcast “A Beleza das Pequenas Coisas“, a escritora Lídia Jorge, também membro do Conselho de Estado, comenta as crescentes notícias sobre a crise e a pobreza.
Ouça o episódio completo: aqui

Página Oficial

Biografia

sábado, 10 de setembro de 2022

The secret tactics Monsanto used to protect Roundup, its star


As táticas secretas usadas pela gigante química global Monsanto, para proteger seu negócio de biliões de dólares e seu produto estrela, o herbicida Roundup.

"A Monsanto se engajou numa campanha sistemática e deliberada para atacar qualquer ciência que diga que seu produto não é seguro e para atacar qualquer cientista que tenha coragem de dizer alguma coisa." Advogado

Quando foi lançado há quatro décadas, o Roundup foi aclamado como um produto milagroso, um herbicida revolucionário que transformaria a agricultura e manteria os jardineiros felizes também. E veio com a promessa de que era seguro.

“A ampla publicidade afirma que a Monsanto estava avançando naqueles dias (era) que de alguma forma seu produto Roundup era totalmente seguro, biodegradável, seguro para animais de estimação e crianças e menos perigoso que o sal de mesa”. Ex-Procurador-Geral de NY

Agora, um processo judicial histórico nos EUA ganhou as manchetes em todo o mundo, com um júri declarando que o Roundup foi um fator substancial para causar o câncer terminal de um guardião da escola e que a empresa não havia alertado sobre o risco representado pelo produto.

"Eles têm uma cultura corporativa que tem apenas interesse em manter a capacidade deles de vender este produto." Advogado

O caso revelou o quanto a empresa tem ido, ao longo de décadas, para evitar o escrutínio e silenciar seus críticos.

"Gostaria de vê-los admitir que perceberam que não era seguro." Ex-agricultor e litigante.

Em entrevistas com os principais atores dessa saga corporativa, a repórter Stephanie March encontrou uma comunidade científica polarizada enquanto a empresa continua defendendo firmemente suas ações e seu produto.

"Obviamente, a ciência não ressoou com esse júri. Queremos entender por que, porque precisamos fazer um trabalho melhor explicando a ciência para que as pessoas entendam que os produtos à base de glifosato são seguros." Vice-presidente da Monsanto

A Four Corners traça a campanha de influência da empresa desde os EUA até a Austrália, onde o Roundup é usado em quintas e hortas domésticas em todo o país.

"Se há um problema com um produto, quero saber porque o uso." Agricultor

Saber mais sobre Monsanto Papers:
US Right To Know
Corporate Europe Observatory