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terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Webinar - Indicadores Biológicos do Solo: Métodos de Amostragem


A Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural (DGADR) e a Parceria Portuguesa para o Solo promovem, no próximo dia 12 de dezembro, um webinar dedicado aos indicadores biológicos do solo e aos respetivos métodos de amostragem, dirigido a técnicos envolvidos no aconselhamento agrícola

A ação de capacitação, realizada em formato webinar, tem como principal objetivo apresentar os métodos utilizados na recolha e análise de indicadores biológicos que permitem avaliar a saúde do solo, reforçando a importância de protocolos padronizados e boas práticas durante o processo de amostragem.

A sessão será conduzida por Ruth Pereira, investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e do centro GreenUPorto – Centro de Investigação em Produção Agroalimentar Sustentável. A oradora abordará princípios e exemplos de aplicação de técnicas como o ensaio de bait-lamina, atividades enzimáticas, respiração do solo, diversidade da fauna edáfica e outros indicadores utilizados na monitorização funcional do microbioma.

A formação destina-se a técnicos com formação superior em ciências agrárias, especialmente aqueles que actuam no aconselhamento agrícola nas áreas relacionadas com o Plano de Fertilização.

sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Valpaços foi distinguida como Cidade Biológica Europeia de 2025


O galardão reconhece o compromisso da cidade transmontana com práticas sustentáveis, a promoção de produtos locais e a integração da produção biológica na estratégia de desenvolvimento regional. O município português, com mais de 14 500 habitantes, é líder nacional em agricultura biológica e em sustentabilidade integrada, contando com 516 produtores biológicos certificados, o maior número em Portugal. A educação para a sustentabilidade, as medidas ambientais e a inovação estão no centro da sua estratégia, apoiadas por uma liderança política empenhada, pela cooperação interinstitucional e por políticas inclusivas. Os “tesouros biológicos” de Valpaços incluem produtos DOP e IGP premiados, como vinho, azeite, amêndoas, castanhas e mel.

O Comissário Europeu para a Agricultura e a Alimentação, Christophe Hansen, declarou: «Os vencedores dos Prémios Europeus da Produção Biológica são exemplos brilhantes do que o movimento biológico na Europa pode alcançar: combinam os mais elevados padrões ambientais com resiliência económica e envolvimento social. O seu trabalho demonstra que a agricultura biológica não só produz de uma forma sustentável, como também constrói comunidades e molda o futuro. Hoje celebramos as suas conquistas e homenageamos a força e o potencial de todo o setor biológico na Europa.»

Na cerimónia, o Comissário Hansen proferiu o discurso de abertura, seguido de uma mesa-redonda com representantes das instituições europeias, do organismo representativo dos agricultores COPA-COGECA e dos premiados.

Na sua quarta edição, os Prémios Europeus da Produção Biológica foram lançados em 2022 como um compromisso no âmbito do Plano de Ação para o Desenvolvimento da Produção Biológica, com o objetivo de reforçar o consumo de produtos biológicos. Na nova proposta relativa à Política Agrícola Comum, a União Europeia continuará a assegurar um forte apoio político à agricultura biológica, garantindo que o setor possa continuar a crescer e prosperar.

Mais informações sobre todos os vencedores de 2025 estão disponíveis nesta página

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Solos que defendem: a importância da vida subterrânea na resiliência do montado


Quando se avalia a vitalidade de uma árvore, é natural começar pela observação da copa. A morfologia da ramagem, a coloração da folha, a densidade do rebentamento e a presença de necroses periféricas são sinais úteis de diagnóstico. No entanto, limitar a leitura à parte aérea é negligenciar aquilo que sustenta a árvore em permanência: o solo. Não como substrato físico, mas como sistema vivo. Um sistema onde coabitam milhares de organismos por grama, estruturados em cadeias tróficas subterrâneas que regulam a disponibilidade de água, a dinâmica nutricional, a estabilidade radicular e, num sentido mais profundo, a capacidade de resposta do ecossistema face ao stresse.
Falar em solo vivo implica reconhecer a sua função como interface biofísico entre a planta e o território. Implica também admitir que a saúde da árvore é inseparável da complexidade da microbiota edáfica que a rodeia.
Quando essa complexidade se degrada, por disrupção da estrutura física, mineralização excessiva da matéria orgânica, acidificação não compensada ou colapso da diversidade microbiana, o solo deixa de atuar como mediador ecológico e passa a funcionar como meio permissivo. É nesse contexto que as árvores se tornam vulneráveis ao avanço de agentes patogénicos radiculares e à instalação de pragas oportunistas. Não por causa da sua genética ou da idade, mas por perda de simbiose e de capacidade simbiótica.
A literatura científica designa por solos supressores aqueles que, pela ação combinada de fungos antagonistas, bactérias benéficas, nemátodes predadores, complexidade porosa e equilíbrio bioquímico, limitam ou inibem a expressão de organismos fitopatogénicos. Esta capacidade de supressão biológica não se refere a um efeito pontual, mas a uma propriedade emergente de um sistema que mantém relações de antagonismo funcional no plano microbiano. Microrganismos como Trichoderma spp., Gliocladium, Bacillus subtilis, Pseudomonas fluorescens, entre outros, competem com agentes como Phytophthora cinnamomi, Armillaria mellea ou Fusarium oxysporum por espaço, nutrientes e acessos à zona rizosférica. A sua presença ativa desencadeia mecanismos de resistência sistémica induzida na planta hospedeira, que se traduzem em maior resiliência aos fatores bióticos de pressão.
Nos montados do sul do país, onde predomina a azinheira e o sobreiro, os sistemas radiculares estabelecem simbioses ectomicorrízicas com fungos do género Tuber, Boletus, Scleroderma, entre outros. Estas associações expandem a área de absorção radicular, reforçam a tolerância hídrica, facilitam a disponibilização de macro e micronutrientes e ativam defesas endógenas contra agentes de apodrecimento e necrose radicular. A sua ausência, observada em muitos solos compactados ou sujeitos a práticas disruptivas de mobilização e aplicação excessiva de químicos de síntese, precede frequentemente os surtos de declínio e a colonização lenhosa por insectos xilófagos como Cerambyx cerdo, Platypus cylindrus ou os vectores de Biscogniauxia mediterranea.
A questão, portanto, não é apenas se o solo é fértil, mas se é funcionalmente simbiótico e defensivo. E isso exige outro tipo de leitura em campo. O cheiro húmico, a friabilidade da camada superior, a atividade de fauna edáfica (como colêmbolos, formigas estruturantes, minhocas), a presença de pastagens perenes com efeitos alelopáticos, a ausência de escorrência superficial e a presença de micorrizas aderentes às radículas finas são sinais que indicam um solo com capacidade suprimente. Em contrapartida, a crosta superficial após precipitação, a compactação à pressão manual, a ausência de macrofauna, a mineralização visível sem humificação e a presença crónica de árvores cloróticas, apontam para um ecossistema edáfico em perda de função.
Recuperar essa função não é uma questão de adubação. É um processo de regeneração sistémica. Começa pela compostagem localizada, pela inoculação direcionada de fungos simbióticos, pelo estabelecimento de coberturas vegetais biodiversas que respeitem as fases fenológicas da azinheira, pela eliminação de mobilizações e pela ativação dos ciclos de carbono a partir de matéria vegetal in situ. Ao fim de dois a três ciclos, é possível observar um reforço da rebentação vegetativa, um aumento da densidade foliar e, sobretudo, a redução da frequência e da intensidade dos surtos de pragas e doenças. Não por ausência de risco externo, mas por reconstituição da barreira subterrânea. A médio prazo, este tipo de abordagem reduz custos com fitossanidade, diminui a dependência de inputs externos e contribui diretamente para a recuperação produtiva dos povoamentos em declínio.
O solo pode não ser visível, mas é o elemento estrutural da resiliência. Um montado com solo vivo não é um sistema fechado. É um sistema adaptativo, capaz de modular as pressões a que está sujeito sem entrar em colapso. A árvore, nesse contexto, deixa de ser uma unidade isolada e passa a ser parte de um organismo mais vasto e interdependente. É esse organismo que importa restaurar.

Ricardo Dinis

Diretor de Projeto e Investigação nas Florestas de Iroko

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

No Outono também há muita biodiversidade - Leave Leaves Alone

Em Portugal há ainda muita gente que acha que as folhas das árvores são "lixo"!!!... Leiam...e "deixem as folhas em paz"!


Deixe as folhas mortas no seu quintal.

Não varra as folhas caídas que cobrem o relvado. Nem use bombas para remoção das folhas.

Os ambientalistas dizem que é melhor deixar isso como está. A camada foliar é como um miniecossistema que é útil para os insetos, abrigo de muitos anfíbios, alimento para as aves e pequenos mamíferos , tartarugas e cágados. A camada foliar é portanto muito importante para o solo e a saúde geral do seu jardim.

No entanto, alguns especialistas em paisagismo dizem que certos quintais precisam de ancinho. Se for esse caso, ou se preferir o visual bem cuidado, é incentivado a usar as folhas para compostagem.

As folhas em decomposição enriquecem o solo, agregando nutrientes e matéria orgânica. Você também pode pensar desta forma: deixar as folhas em nossas propriedades significa menos coleta e descarte em nossas cidades, reduzindo custos e emissões de carbono dos camiões de recolha.

A cobertura morta das folhas tem muitas vantagens: 
  • Reduz o ruído e os gases de efeito estufa. 
  • Também melhora a saúde do seu quintal. 
  • O material das folhas trituradas cria um composto valioso, que enriquece a camada superficial do solo. 
  • A cobertura morta de folhas também limita a propagação de poeira e contaminantes no ar e economiza tempo e dinheiro.
Os benefícios de aplicar cobertura morta nas folhas do quintal são numerosos e comprovados cientificamente:
  1. O manto de folhas mortas é mais silencioso e limpo do que soprar folhas;
  2. A cobertura morta reduz a necessidade de fertilizantes e evita a poluição da água, reduzindo a lixiviação de fósforo e fertilizantes;
  3. O manto de folhas reduz o risco de segurança de folhas empilhadas ou ensacadas nas margens das estradas e poupa o dinheiro do contribuinte para a recolha municipal de folhas;
  4. As folhas mortas melhoram a estrutura do solo, retenção de água e percolação;
  5. O mulching incentiva as raízes a penetrar mais profundamente, melhorando a saúde da relva;
  6. O mulch torna o relvado mais resistente a eventos climáticos como secas e inundações.
Porém queria chamar a atenção para as tartarugas e os cágados.

Em Portugal não existem tartarugas terrestres nativas. No passado, a tartaruga-do-Mediterrâneo existia por toda a Península Ibérica. Em Portugal, aliás, existem vários registos fósseis com alguns milhares de anos em Peniche, Sesimbra, Bombarral, Tomar e no Algarve. Talvez a tartaruga-mediterrânea seja mais adaptada ao clima presente da Península, mas com o tempo, talvez a tartaruga-moura, habituada a um clima mais árido, seja a mais indicada; talvez possam até viver lado a lado. Ambas precisam de um habitat de mosaicos, entre zonas abertas e zonas fechadas com floresta e arbustos. Em Espanha, há centros de reprodução de tartarugas e programas de reintrodução em várias zonas. Pode a tartaruga terrestre regressar a Portugal? Claro que sim. Haja equipas, investigadores, porque habitats temos, apesar de muita fragmentação, monoculturas, mato, etc.

Desde logo, para que esse regresso seja uma realidade, é necessário avançar com um programa de reintrodução, identificar áreas protegidas, encontrar animais para libertar e soltar as tartarugas em novas áreas. Esta expansão para novas áreas pode ainda ajudar a tartaruga terrestre a adaptar-se aos efeitos das alterações climáticas.

Em Portugal existem várias zonas com potencial para a tartaruga terrestre: as serras do Algarve, o Vale do Guadiana, os montados do Alentejo, a Costa Vicentina, os pinhais de Melides e do Meco, a Arrábida e Estuário do Sado, as serras de Aire e Candeeiros e de São Mamede, o Tejo e o Douro Internacional, a Serra da Malcata e o Planalto do Côa até Trás-os-Montes.

Quanto às tartarugas de água doce em Portugal temos o Cágado-mediterrâneo (Mauremys leprosa) e o Cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis).

Estas duas espécies partilham inúmeras vezes o mesmo habitat, sendo que o Cágado-de-carapaça-estriada é o mais raro e menos abundante, encontrando-se em risco de extinção no nosso país. A tardia maturidade sexual das fêmeas associada a baixas taxas de fecundidade e a uma mortalidade infantil elevada implicam uma taxa de crescimento populacional muito baixa, colocando a espécie numa situação particularmente frágil e vulnerável perante eventuais impactes negativos.

Além da introdução de espécies invasoras, estas espécies são frequentemente capturadas ilegalmente para animais de estimação, fabrico de objectos ornamentais e alimentação. Os cágados são também alvo de perseguição por parte dos pescadores motivados pela crença popular de que estes se alimentam de peixes dulciaquícolas. Estas capturas ilegais são responsáveis por elevadas taxas de mortalidade que põem em causa a dinâmica das populações de cágados. Também as mortes acidentais causadas pelas redes e outras artes de pesca representam uma significativa ameaça.

Saber mais:

sábado, 13 de maio de 2023

Abandone a sua pá, esqueça o fertilizante, ouça as ervas daninhas: o guia para uma jardinagem descontraída


Ansioso para colocar os seus canteiros de flores ou hortas em forma, agora que a primavera finalmente chegou? Não tão rápido! A vida é muito mais fácil quando você trabalha com a natureza e não contra ela

Depois de quase 30 anos de jardinagem, vários deles em boas instituições, como a Royal Horticultural Society e Kew Gardens, percebi que muito do que me ensinaram, se não está errado, também não está exatamente certo. Todo aquele esforço trabalhoso – capinar, fertilizar, cavar, cuidar e podar, selecionar e conformar – não está funcionando. Não pelas plantas, pelo solo ou pela comunidade ao seu redor, o que inclui você e eu. Culturas indígenas em todos os lugares basearam suas práticas em observar e honrar a ecologia, enquanto nós, no “mundo desenvolvido”, escrevemos nossas regras. Nossa tentativa de controlar a natureza tem perpetuado relações precárias com todos os seres do jardim, transformando tudo em uma espécie de batalha, ou regimes sem fim, seja ceifando, capinando, regando ou atacando algum bicho. É muito trabalho e hoje em dia muito mais do que estou preparado para fazer. Agora a primavera está finalmente se desenrolando, esta estação de crescimento, talvez, em vez de trabalhar em nossos jardins, todos pudéssemos relaxar um pouco, passar mais tempo olhando e ouvindo, esperando em vez de reagir, estando no jardim tanto quanto jardinando ativamente. Aqui está como é feito.

Deite fora a sua pá
Se você estiver minimamente interessado em jardinagem, já deve ter ouvido falar de “no dig”, no qual você evita sua pá e pega numa enxada. Em vez de revirar o solo, uma estrutura que levou centenas de milhões de anos para ser construída e, portanto, pensou muito sobre qual caminho deveria ser, você capina levemente ou “faz cócegas” no solo para remover quaisquer ervas daninhas indesejadas e deixa suas multidões de micróbios, fungos e insetos intactos, exatamente onde eles querem estar. Micróbios felizes tornam as raízes das plantas felizes, mais capazes de absorver nutrientes, combater pragas e doenças e resistir à seca. Conforme você continuar fazendo isso, haverá menos ervas daninhas para remover.

Todo solo tem seu banco de sementes de ervas daninhas: diz o ditado que uma semente de um ano são sete anos de ervas daninhas, mas na verdade são décadas para várias delas. Eles estão lá não para incomodá-lo, mas para agir como um colete salva-vidas para o solo. O solo exposto e livre de ervas daninhas é muito facilmente danificado ou erodido pelo clima: o sol o queima, o vento assola, a chuva o abate, compactando-o ou se vier um dilúvio, causando escoamento. Mais uma vez, aqueles vários milhões de anos de evolução não eram um sistema parado, mas avançando para um ponto de auto-resiliência. A grande maioria das sementes de ervas daninhas precisa de luz para germinar. Quanto mais você perturba o solo, abrindo-o, cavando coisas, mais luz você deixa entrar e mais o solo tem que correr para se proteger. Ele libera seu banco de sementes de ervas daninhas como uma camada protetora para manter o sistema unido.

Facilitar a remoção de ervas daninhas
Falando em ervas daninhas, é hora de abandonarmos a palavra completamente. Até mesmo a própria exposição de flores de Chelsea já está a redefinir  as ervas daninhas como “plantas heroicas”. Talvez possamos falar deles como pessoas comuns ou anciãos (eles existem há muito mais tempo do que nós), porque cada erva daninha no seu jardim está a tentar lhe dizer algo muito importante.

Quanto mais um tipo domina, mais alto é o sermão. Os dentes-de-leão estão dizendo que seu solo é um pouco compacto, com poucos nutrientes superficiais, principalmente cálcio e potássio; as urtigas dizem que há muito azoto na superfície (não tão bom quanto parece). Uma enxurrada de ervas daninhas anuais – erva-do-mato comum, morugem e agrião-menor – dizem que o seu solo é dominado por bactérias, enquanto cardos, docas, alcanetes verdes e confrei são outro sinal de que a superfície está com poucos nutrientes e apenas aqueles com raízes longas para minar a camada do subsolo pode prosperar. As silvas tendem a proliferar onde há excesso de azoto, mas a terra foi deixada em paz para que elas possam se desenvolver melhor. Há alguma evidência, porém, de que elas têm um papel potencial na regeneração natural de mudas de árvores: os cervos não vão pastar no meio de um matagal e, numa floresta, isso significa que as mudas de árvores não serão mordiscadas, enquanto os fungos micorrízicos vão explorar a rede da floresta para aumentar as mudas com crescimento suficiente para compensá-lo e sair do matagal.

Uma vez que você comece a estudar a ecologia de qualquer coisa que chamamos levianamente de erva daninha, você descobrirá que é fundamental na reciclagem de nutrientes, fornecendo alimento na forma de néctar e pólen para todos os tipos de insetos, em todos os tipos de clima. E não apenas para polinizadores, mas também para coisas como minadores de folhas que se transformam em micro-mariposas e moscas que se transformam em comida para bocas famintas saindo do ninho, que se transformam em comida para aves de rapina voando alto. "Eu sei", eu ouço você chorar. Claro que sim, mas aposto que você ainda sai capinando quando não precisa.

Muitas dessas pessoas comuns chegam para ajudar o solo. Se você diminuir a remoção de ervas daninhas (você ainda terá que intervir algumas vezes) e, em vez disso, prestar atenção ao solo, muitas das pessoas comuns rapidamente se tornarão pessoas ocasionais. Os anuais são um sinal de que o solo se tornou dominado por bactérias, tendo evoluído de planícies aluviais a prados e campos, e prosperando na companhia de bactérias. Eles não prosperam nos solos dominados por fungos das florestas. Os fungos prosperam em solo rico em carbono porque é isso que eles comem.

Se você tiver muitas ervas daninhas anuais, adicione mais carbono ao seu solo na forma de composto caseiro volumoso, papelão (pode ser triturado, pode ser colocado como uma folha, pode ser adicionado à sua compostagem doméstica) ou folhas marrons (você nem precisa fazer molde de folha). Você não precisa cavar - as minhocas irão incorporar tudo no solo. Ou seja, se você desistiu de sua pá porque uma das maiores ameaças às minhocas é nosso hábito de arar e cavar, em parte porque se você for cortado ao meio, não volta a crescer e porque os túneis de minhocas têm sua própria bela arquitetura que suporta o solo, mas não se eles desabaram.

Abrace a podridão e a morte
'Se uma coisa prolifera em um sistema natural, outra coisa virá para aproveitar esta oportunidade.' 

Então, deitamos fora a pá, consideravelmente afrouxada na capina; agora é hora de abrir mão da arrumação. Todos nós fazemos isso, removemos uma folha amarelada ou mordiscada, varremos as folhas gastas e pegamos gravetos, podamos os mortos e moribundos. Em parte porque a ideia era que todo esse material abrigasse lesmas, outras pragas e doenças. Pode, mas a praga de uma alma é o jantar de outra. É verdade que as lesmas adoram uma pilha de folhas húmidas e levemente apodrecidas, mas também os escaravelhos que as caçam.

Esta história se repete continuamente: se uma coisa prolifera num sistema natural, outra coisa, às vezes muitas coisas, virá para aproveitar essa oportunidade, para restaurar o equilíbrio. Um jardim que consegue encontrar esse equilíbrio não tem problemas com pragas ou doenças – tem seres, que vivem e morrem, às vezes prosperando, mas raramente à custa de todo o sistema. Esse acto de equilíbrio leva tempo, vários anos ou mais, mas eu prometo a você: até as lesmas se acalmam. Apodrecimento, doenças, pragas são apenas o sistema de reciclagem da Terra. Não é um grande ato de fé confiar no tempo. As plantas existem há muito mais tempo do que jardinagem, com muito tempo para trabalhar nas nuances da reciprocidade.

Pare de perseguir o crescimento rápido
Desde a II Guerra Mundial, temos adorado falsamente o azoto e o fósforo como reis no jogo dos fertilizantes. Os fertilizantes sintéticos, uma ressaca muito ruim da fabricação de bombas, nos levaram a acreditar que poderíamos manipular o sistema. Usá-los significava que os agricultores podiam transformar cada pedacinho de solo num campo, pelo menos por um tempo, e isso se refletiu na maneira como jardinávamos.

Há um debate muito mais amplo sobre o uso excessivo de fertilizantes , em particular o azoto, na agricultura, mas isso está fora de nosso controle. O jardim não é.

Não há necessidade de produtos químicos manufaturados de qualquer tipo aqui. Em primeiro lugar, todos os solos diferem, mas os fertilizantes sintéticos, particularmente os vendidos a jardineiros, adoptam uma abordagem de tamanho único. Independentemente de onde você esteja, você aplica a mesma quantidade de alimento vegetal. Estes fertilizantes sintéticos não ficam in situ; eles fogem. E há evidências de que, com o tempo, eles podem esgotar o carbono armazenado dos solos , reduzindo a fertilidade, mesmo que a matéria orgânica ainda seja adicionada. Em resumo, se você compra fertilizantes, está pagando por ganhos de curto prazo. O composto caseiro é gratuito e vai construir o seu solo, ajudando a armazenar carbono e a alimentar as suas plantas. Mesmo se você fizer isso muito mal.

Composto in situ

Chega de trabalho pesado... deixe o seu solo fazer o trabalho pesado 

Se você deseja uma abordagem ainda mais despreocupada, pode fazer a maior parte da compostagem sem espalhar coisas. Não limpe as suas colheitas gastas, deixe os caules e as folhas da abóbora, derrube os pés velhos de tomate e feijão e deixe tudo na terra. Você pode cobri-lo para acelerar as coisas - os jardineiros tendem a usar plástico preto por conveniência, mas o papelão é abundante, gratuito e fácil o suficiente para um pequeno jardim. Coberto ou não, permite que os resíduos da colheita voltem direto para o lugar de onde vieram. Se você quiser plantar de volta no espaço que acabou de colher ou limpar, tente cortar, aparar, triturar ou cortar manualmente as colheitas usadas e plantar diretamente nelas. É mais rápido, evita carregar coisas para a pilha de compostagem e vice-versa e cria um solo maravilhoso e friável. Toda aquela noção de capinar e ajuntar o solo para fazer uma boa lavoura para crescer? Acontece que é melhor feito pelo sistema do solo do que pelo seu suor.

Não estou sugerindo que devamos desistir do composto. Ainda é a melhor maneira de lidar com a matéria orgânica doméstica, seja restos de comida, papel e papelão, pêlos de animais, etc. Os métodos de solo podem levá-lo a um solo mais rico com menos esforço e menos custo. E se você trouxer composto, nunca, nunca use turfa. Estamos a destruir preciosos habitats de turfa que precisamos para armazenamento de carbono, água limpa e gestão de enchentes. Os seres vivos que vivem em turfeiras não querem viver em mais nenhum outro lugar, então não vamos destruir a sua casa pelas idiotices da jardinagem.

Incentive a promiscuidade das plantas
Finalmente, vamos abraçar o diverso, o ligeiramente diferente, o variável em nossas flores e alimentos. Durante milénios, selecionamos e cultivamos plantas para que elas nos beneficiem – esta é a nossa história de origem. Mas, por muito tempo, esse foi um processo descontraído de deixar os polinizadores trabalharem, guardando sementes, crescendo e percebendo o que funcionava melhor nas condições em que você estava. É conhecido, tecnicamente, como criando um landrace, uma cultivar antiga que é variável, muitas vezes contendo muitos alelos (formas de genes) que não estão presentes nas cultivares modernas altamente cultivadas. A Jardinagem Landrace é o oposto: semelhante a uma orgia de plantas, você permite que todas as suas variedades de cenoura, ou o que quer que esteja cultivando, se polinizem entre si para criar uma população reprodutora diversificada. É uma estratégia de sobrevivência que diversifica o pool genético, tornando-o melhor preparado para o futuro do que é algo altamente criado.

'Não sabemos para onde estamos indo, mas é melhor irmos preparados com um amplo pool genético.' 

O resultado é uma beterraba ou um feijão ou uma flor que não é uniforme; à medida que os diferentes alelos desempenham sua expressão, uma raça varia em cor, tamanho, textura e até sabor. Qualquer um pode se tornar um jardineiro Land Race . É uma experiência divertida de mais de cinco anos que exige muito pouco esforço e o recompensará com vegetais e flores que funcionam inteiramente para o seu sistema de cultivo e solo. Não quer passar o verão todo regando excessivamente (posso lembrar como o verão passado foi quente)? Crie uma folha verde que não precise dela. Tem solo pobre? Crie uma batata que adora. Quer um tomate com gosto de alguma coisa, mas não se importa com uma geada tardia? É tudo possível.

Semeie todas as variedades nomeadas que tenham as características que deseja, cultive-as e, com a ajuda das abelhas, promova a promiscuidade e deixe-as fazer a polinização cruzada. Selecione e salve sementes apenas daquelas que se dão bem em seu solo. Comece novamente na próxima primavera, semeando a sua semente salva. Até a metade pode não sobreviver, mas você terá muitas sementes, então não importa. Deixe os polinizadores nas novas plantas, selecione as sementes daquelas que estão funcionando e continue. Em algumas temporadas, você pode ter alho totalmente adaptado ao seu solo – pode levar mais alguns anos para encontrar aquela abóbora ou tomate perfeito.

Não sabemos para onde estamos indo no que diz respeito ao nosso futuro neste planeta, mas podemos ir preparados com um amplo pool genético, em relação às nossas plantas populares comuns e as suas comunidades, maravilhados com os nossos insetos, fascinados pelos nossos amigos fungos, com os nossos solos e as nossas energias reabastecidas. E como qualquer grupo de amizade, isso é feito melhor saindo, relaxando e aproveitando a companhia um do outro.

Em tudo isso, não estou defendendo a desistência da jardinagem, mas mudando a perspectiva do que precisa ser feito. Se o dente-de-leão, as azedas ou as amoras não estiverem no caminho que esperava, deixe-as. Se a planta cair numa orgia de pulgões, deixe-a para algum outro ser do jardim limpá-la. Deixe as plantas morrerem no lugar, aprenda a observar e observar antes de fazer qualquer movimento. Você verá que a natureza está muito mais disposta a ajudar do que a causar problemas.

Para saber mais:

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Agrofloresta de sucessão: o futuro da agricultura sustentável está nas árvores?

São cada vez mais evidentes os efeitos das alterações climáticas, mas também as consequências da ação humana na natureza. Cenários como o aumento das temperaturas, secas severas e prolongadas ou a degradação dos solos têm-nos alertado para a necessidade de uma mudança de paradigma na agricultura convencional. Neste cenário, um “novo” tipo de agricultura, que está ainda a dar os primeiros passos no Mediterrâneo, reintroduz as árvores como elemento-chave para a sustentabilidade do processo e ecossistema.

Na Horta da Malhadinha, situada em Mértola, podemos encontrar um conjunto de plantas diversas. Todas elas cumprem uma determinada função, explica o agricultor António Coelho. Ali, desde 2019, está a ser implementado um sistema de agricultura regenerativa, a que se chama sintrópica ou agrofloresta de sucessão.

“Esta tipologia de agricultura trabalha muito em sucessão, na sucessão natural das espécies, mas também em estratificação”, refere. A estratificação indica a quantidade de luz que uma determinada planta necessita, e ela é caracterizada em função da luz que necessita. “Temos aqui plantas de estrato baixo, estrato médio, estrato alto e estrato emergente”, continua. “Normalmente, todas as que cumprem essa função de estrato emergente são plantas, a que também podemos chamar plantas cooperantes, que só servem basicamente para ser podadas e que vão, de alguma forma, criando toda essa dinâmica de nutrição do solo e de composição.”

Um choupo ou um eucalipto, por exemplo, são aqui plantas emergentes, nota o agricultor. “Servem para serem podadas constantemente e, através dessa dinâmica, não só nos providenciam matéria vegetal para cobrir o solo, mas também um conjunto de dinâmicas relacionadas com as próprias raízes das plantas, que vão libertando açúcares, à medida que elas se vão decompondo”, clarifica António. Aqui, nutrir o solo significa nutrir as plantas das quais nos alimentamos. Há várias árvores plantadas em fila. Entre elas, estão hortícolas e frutícolas.

A agricultura sintrópica é uma reaprendizagem da forma de fazer agricultura com a floresta. “Durante demasiado tempo, durante séculos, milénios, a agricultura acabou por ser compartimentada, deixando a floresta fora do sistema”, diz Pedro Nogueira, arquiteto paisagista. “Havia uma complementaridade, mas não uma integração da agricultura e da floresta. E a agricultura sintrópica revê essa separação e propõe esse tema muito mais integrado.”

Na Horta da Malhadinha, há uma promoção de uma grande biodiversidade de espécies e não há preconceito em relação às espécies a serem usadas. “Acima de tudo, queremos promover a biodiversidade e, dentro dessa biodiversidade, potencialmente, todas as espécies poderão fazer parte e, a partir daí, a forma como vamos assumindo as características diferenciais das várias plantas, ou nas suas funções produtivas, ou nas suas funções mais regeneradoras (...). Esse é o grande motor de fertilidade do sistema.”

Para Pedro Mendes Moreira, professor da Escola Superior Agrária de Coimbra, “as árvores têm de entrar no nosso sistema [agricultura].” Contudo, este é um sistema com mais variáveis. “Por isso é bem mais difícil de controlar e exige um conhecimento mais abrangente por parte dos agricultores”, considera. “A questão do número de espécies, a questão do clima, da luz”, enumera. “Se tenho uma monocultura, tenho de escolher a variedade mais adequada ao local. Em muitos casos, tenho uma receita que tenho de cumprir, especialmente em agricultura convencional, que foi uma forma de nivelar os problemas do local para o local.”

Praticar agricultura, imitando a natureza

O sistema agroflorestal de sucessão, também conhecido como agricultura sintrópica, foi desenvolvido pelo suíço Ernst Götsch, inspirado na forma como as florestas se desenvolvem.

A plantação é feita de forma sincronizada com espécies agrícolas (hortícolas e frutíferas) e espécies florestais. A plantação em alta densidade e diversidade só é possível graças à utilização de espécies de ciclo de vida curto, médio e longo, ocupando todos os estratos de uma floresta (rasteiro, baixo, médio, alto e emergente). Respeitando estes princípios, otimiza-se o aproveitamento da luz do sol, dos recursos hídricos e garantem-se plantações agrícolas mais produtivas.

Trata-se de regenerar pelo uso, uma vez que a criação de áreas agrícolas altamente produtivas – e que tendem à independência de insumos (fertilizantes e pesticidas) e irrigação – tem, como consequência, aquilo a que se chamam serviços do ecossistema, como a formação de solo, a regulação do microclima ou o favorecimento do ciclo da água. Ou seja, o plantio agrícola é concomitante à regeneração de ecossistemas.

“É um sistema muito complexo de gestão. É por isso que muitas vezes nem todas as pessoas o seguem”, afirma Pedro Mendes Moreira. “Primeiro temos de saber quais as plantas que lidam melhor umas com as outras. Depois, como é que podemos intervir nas plantas que estão presentes no sistema, para nos serem úteis e serem úteis ao próprio sistema. Basta lembrar a utilização de algumas plantas: umas são para a produção, mas outras podem ser, por exemplo, simplesmente para a biomassa. E nós vamos integrar essa biomassa no solo. E porque é que integrámos essa biomassa no solo? Porque se tivermos, por exemplo, estilha (material que é triturado dessas plantas que são produzidas), muitas vezes, só para a obtenção de biomassa, estamos a dar oportunidade para que os microrganismos se possam desenvolver, a que a captação da água seja mais fácil e, portanto, consigamos aumentar a matéria orgânica do solo.”

As árvores, diz perentoriamente, “devem ser uma parte da equação.” Mas é necessário também intervir no seu manuseamento. “É preciso ter controlo dessas árvores porque rapidamente elas tomam conta do sistema.”

Trabalhar a fertilidade dos sistemas

Como explica Pedro Nogueira, na agricultura sintrópica há uma grande preocupação com os mecanismos de fertilidade do sistema, que, segundo ele, têm sido cada vez mais “dissociados daquilo que é o alimento”. A regeneração ou a retroalimentação do sistema é essencial.

“Aquilo que mais se vê noutros modelos agrícolas é a devastação de um determinado local para inclusão de uma determinada espécie. E estes sistemas funcionam exatamente ao contrário. É ter essa base daquilo que queremos produzir”, diz António. “No nosso caso, são hortícolas e frutícolas. Mas há outras formas de o fazer. E, percebendo isso, percebemos também que outras espécies poderíamos incluir neste sistema, que nos permitissem manter a nossa atividade agrícola, mas melhorando substancialmente o local onde trabalhamos”, continua. Na sua opinião, essa retroalimentação do solo é uma das grandes mudanças em comparação com outros tipos de agricultura mesmo até o modelo de agricultura biológica “dito convencional”, que “emita um pouco o que são as outras agriculturas convencionais”. “Tendencialmente continuam a ser sistemas monoculturais. Tendencialmente continuam a não produzir para esse alimento de solo e continuam a ser sistemas eminentemente extrativistas”, acrescenta Pedro Nogueira.

A Horta da Malhadinha tem certificação biológica já desde 2008. Mas, garante António, praticar agricultura de sucessão são “sete passos acima”, no que à sustentabilidade diz respeito. “É tentar perceber como é que conseguimos ter uma atividade agrícola, de horticultura e de fruticultura, mas conciliando também esta parte florestal, não só porque ela vem regenerar tudo o que é más práticas e vem dar uma hipótese de recuperação dos solos através das técnicas utilizadas, mas também porque faz com que consigamos ter uma atividade que consiga suportar todo este investimento que vamos fazendo.”

Plantar água no sistema

A presença das árvores no sistema é fundamental na manutenção da água. Isso acontece devido à transpiração. “Sem florestas, não temos água, e é isso que também fazemos através de sistemas agroflorestais”, explica Pedro Nogueira.

Se noutros tipos de agricultura, se pensa na gestão hídrica, através da irrigação e da diminuição da dotação pelo tipo de irrigação proposta, aqui a preocupação é outra. “Tendencialmente ou crescentemente, fomos vendo as florestas como sítios de monoculturas, como sítios muito simplificados, não só na biodiversidade presente, mas também na composição, na arquitetura do próprio sítio”, analisa o arquiteto paisagista. “Além de serem espaços muito biodiversos, são espaços estratificados. Há plantas com necessidades luminosas muito distintas, precisam de muita luz, média e pouca luz, com alturas distintas, e todas elas a transpirar, a promover essa humidade relativa. Isto é água no sistema, isto é plantar água”, continua. “Quando temos esse sistema biodiverso estratificado, existe uma tendência do próprio sistema que faz com que a água desça ao nível do solo, quase um vórtex no próprio sistema, onde todos os estratos estão a produzir água e todos eles fazem com que a água desça ao nível do solo. Quando tens monoculturas, quando tens esses povoamentos florestais, onde há a transpiração a nível da copa, mas nada existe abaixo da copa, então essa água tendencialmente perde-se do sistema.”O cumulativo de árvores a transpirar no sistema permite assim que estes sejam também sistemas mais amenos e frescos.

Para Marina Nobre, cofundadora da associação Reflorestar Portugal, as árvores ainda não são utilizadas como poderiam ser na agricultura. “Existem políticas públicas que são arcaicas, e existem práticas que são subsidiadas e que não têm uma visão, tanto a nível urbano, como a nível do campo, de utilização do potencial das árvores.” Segundo a mesma, ainda é “muito retrógrado” aquilo que se verifica em Portugal ao nível de políticas públicas. “Tínhamos um arquiteto paisagista, que era o Ribeiro Telles – que morreu, creio que há dois anos –, que já há mais de 30 anos falava sobre questões agrossilvopastoris, de uma paisagem em mosaico, que os incêndios podem ser previsíveis... inclusive, ele previu estas enchentes que existiram agora em Lisboa, Algés, etc. Portanto, a informação existe”, sublinha.

“Depois existe uma máquina, capital, interesses e forças que são muitas vezes maiores do que a razão. E existem também muitos preconceitos e conceitos arcaicos dentro da própria ecologia”, completa. “Na página da Reflorestar, temos várias postagens polémicas, em relação às espécies que utilizamos, em relação ao método de plantação, porque as pessoas acham que é tudo muito perto... Mas trabalhar com a informação do sistema ou tentar replicar a forma como a natureza funciona, não vai junto com os métodos a que as pessoas geralmente estão habituadas e isso causa um bocado de estranheza.”

Desde 2018, a Reflorestar Portugal – criada após os incêndios em Pedrógão Grande – tem-se dedicado a melhorar a colaboração entre quem atua sobre as florestas e comunidades em Portugal e a disseminar os princípios da permacultura, da sintropia e as técnicas agroflorestais e métodos colaborativos. Entre várias outras iniciativas, realizaram uma série de cursos sobre agrofloresta de sucessão. “Os sistemas de produção alimentar da forma como são a nível do grande mercado mundial, de produção de alimentos, ou de produção de madeira, não tem como se manter a longo prazo. Porque um mesmo hectare, ano após ano, explorado em monocultura e com o cocktail de químicos e fertilizantes, não é economicamente viável”, reforça Marina. “Por isso é que a maior parte dos governos acaba por entrar com grandes subsídios, para que a agricultura consiga pagar as suas contas, mas não é sustentável em termos da terra. A terra acaba por deixar de produzir. Portanto, ou morre toda a gente sem comida, ou tem que se mudar a forma como as coisas são feitas.” Mais otimista, acrescenta: “E felizmente, existem muitos cientistas, engenheiros, agrónomos, florestais, biólogos, muitas pessoas, de várias áreas da ciência que já se dedicaram a estudar a viabilidade deste tipo de práticas, viabilidade económica, viabilidade ecológica, o restauro dos solos a nível da fixação de carbono, o restauro do ciclo da água e os resultados são realmente incríveis. Por isso, é uma questão de bom senso.”

Uma solução aplicável à larga escala?

Para António Coelho, este não é um tipo de agricultura que seja só para complementar. “Estamos a falar de um tipo de agricultura que, no Mediterrâneo, ainda é pequenino. É um sistema que está a dar os primeiros passos. Mas se recorreremos à origem, de onde vem esta tipologia de agricultura, vemos também que temos sistemas altamente produtivos e com alta capacidade de regeneração dos ecossistemas como um todo.” Na sua opinião, a ciência terá um papel fundamental na perceção de qual é a influência direta que existem nos ecossistemas e na viabilidade desta prática.

Segundo Pedro Mendes Moreira, é preciso estudar e investigar, para verificar se é ou não possível aplicar esta tipologia em grande escala. “Como é que podemos fornecer ao agricultor alguns modelos que possam ser mais exequíveis?”, coloca. Em causa está o custo da mão de obra para a poda das árvores, ou a mecanização numa prática agrícola onde os alimentos e plantas são plantados muito próximos. “Há questões que se prendem realmente com a mecanização. Há outros que se prendem com a simplificação dos sistemas. Apesar de falarmos na questão da biodiversidade, que é importantíssima, muitas vezes, a utilização de muitas espécies, em simultâneo, não significa que não possamos ter as infraestruturas ecológicas, ao lado do nosso campo de sintrópica, mas precisamos de simplificar para tornar possível a que mecanização funcione mais facilmente.

Fonte: Gerador

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Darwin e as minhocas. Solo e Húmus

Caricature of Charles Darwin’s theory of evolution from 1882.
The image was published in a Punch almanac after Darwin released
 "The Formation of Vegetable Mould through the Action of Worms"

Darwin e as minhocas.
Solo e Húmus.
Revisitando a História da Ciência.
Se todas as crianças tivessem oportunidade de seguir os seus instintos naturais, estudar, aperfeiçoar e pôr os seus talentos pessoais e verdadeira vocação ao serviço da Humanidade, talvez o mundo fosse um lugar melhor. Não haveria depressão e todos se poderiam complementar nas sociedades e comunidades do planeta. 
Num mundo ideal todos saberíamos o propósito da nossa existência e poderíamos ser felizes fazendo e trabalhando naquilo que gostamos e sabemos fazer melhor.
Este exemplo é claro um caso extremo, mas que se repete nos dias de hoje:
"Charles Darwin (1809–1882) was fascinated by earthworm behaviour. He tested their intelligence, food preferences and sensitivity to noise, light and sound.
His father remarked, “You care for nothing but shooting, dogs, and rat-catching and you will be a disgrace to yourself and all your family.”
Não só o pequeno Charles não foi "a desgraça da família", como revolucionou a Ciência, o pensamento das Ciências da Terra, da Vida e da Saúde (Medicina, Psicologia, etc). Introduziu o conceito do ancestral comum de todos os seres vivos na "Árvore da Vida" e propôs um mecanismo para explicar a transformação das espécies ao longo da História da Vida na Terra = Evolução Biológica. Note-se que Evolução em Biologia nada tem a ver com ideias de "aperfeiçoamento" ou "melhoramento" das espécies, mas sim com a sua Adaptação às mudanças no habitat, e com a capacidade de sobrevivência das populações, de modo a poderem deixar descendência fértil e viável num planeta em permanente mudança. 
Com Darwin começámos a perder a ilusão de sermos deuses na Terra.
É pena que só a comunidade científica, e outros grupos com ética, humildade e conhecimento, compreendam o verdadeiro papel de responsabilidade acrescida que temos relativamente à vida das restantes espécies, a diversidade biológica, ou biodiversidade, da qual dependemos para sobreviver e ter o conforto que hoje temos nas nossas casas.

Artigo: Charles Darwin and earthworms

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Livro- Manual de Agricultura Biológica


Nos últimos anos, a procura por alimentos de origem biológica disparou e são muitos os que optam por cultivá-los, seja para consumo próprio em pequenos quintais ou mesmo nas varandas, seja mudando de vida e trocando o ritmo alucinante das cidades pelo campo e pela natureza. Mas para quem nunca mexeu na terra, por onde começar? O que devo cultivar? E como garantir uma horta 100% biológica, sem recorrer aos químicos prejudiciais para o nosso corpo e para o meio ambiente? Como assegurar uma produção sustentável de uma forma biológica, respeitando a natureza? Como eliminar as pragas sem recorrer a pesticidas de síntese química? E quem já cultiva, mas quer tornar a sua produção mais saudável e mais alinhada com os tempos que vivemos? Foi a pensar nestas perguntas que surgiu este "Manual de Agricultura Biológica — Crie uma Horta Saudável e Cultive os Seus Próprios Alimentos", da autoria de três destacados elementos da AGROBIO - Associação Portuguesa de Agricultura Biológica. Neste livro prático, repleto de quadros, ilustrações e esquemas elucidativos, e quer seja um iniciante ou já possua experiência, poderá aprender a melhor maneira de organizar e cuidar de uma horta biológica, para poder ter sempre hortícolas saudáveis e amigos do ambiente.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Das pedras, agrofloresta!

Em Busca da Fertilidade Perdida


Para a compreensão dos desafios associados aos sistemas de cultivo ‘tradicionais’, importa assumir a dinâmica estabelecida entre a fertilidade e a restituição de nutrientes no solo ao longo do tempo histórico.

Na análise da paisagem rural portuguesa - num arco temporal que nos leva de final de século XIX até meados do século XX - fica claro que Portugal passará de um país com metade do seu território ainda inculto, para um país em plena expansão agrícola, onde a área cultivada atingiu um recorde histórico, nunca antes alcançado e nunca mais repetido (do Carmo, 2018). Num país pressionado pelo aumento da população e pela necessidade crescente de alimentos, esta expansão será assegurada pelo progressivo abandono de um modelo agro-silvo-pastoril, para um modelo assente na expansão exclusiva das culturas de cereal, daí resultando o agravamento dos processos erosivos e o esgotamento dos solos.

Contudo, muito antes do arco temporal descrito, esta realidade era já manifesta, como nos dá conta o excerto da exposição do magistrado territorial Gervásio de Almeida Pais à rainha D. Maria II (em 1789) sobre o estado da agricultura em Mértola:

" (...) o fundamento mais sólido para a geral felicidade consiste na agricultura, e esta no meu distrito se acha em total decadência (...). Persuadido este povo de que a agricultura só consiste na lavoura das terras e na criação dos gados, tem posto em total desprezo a dos arvoredos, sem advertir que estes ramos se ajudam um aos outros, conservando entre si uma mútua e recíproca dependência; de forma que desprezando um deles, será coisa impraticável conseguir o aumento e perfeição dos outros. Essa verdade vejo eu aqui verificada com prejuízo de todo este Povo, na grande mortandade dos seus gados, em cuja criação mais se interessa, ocasionada umas vezes por falta de pastagens, porque os campos despidos de arvoredos e expostos aos ardores do Sol se tornam mais áridos e secos, e na falta de humidade e frescura da terra não podem conservar-se as ervagens e fenos necessários para o sustento dos mesmos gados; os quais, outras vezes, morrem repassados já dos frios, e já dos calores, na falta de arvoredos em que possam abrigar-se. Mas, apesar de tão sensíveis e frequentes exemplos, tem continuado o mal sem se examinar a sua origem e causas de que procede (...)"(Sousa et al., 2016).

Daqui resulta que o frágil equilíbrio da transferência de nutrientes é secular, estando intimamente relacionada com a gestão de biomassa no sistema. Dito de outro modo,

“a floresta sempre ocultou “no lenho ou no solo algo que a agricultura sempre necessitou: nutrientes”(Aguiar & Azevedo, 2011). 

Podemos assim assumir que se a agricultura foi o principal motor da desarborização do território, foi também a causa fundamental da perda de fertilidade do mesmo.

A partir de meados do século XX, esta agricultura ‘tradicional’, assente num equilíbrio instável ao longo de séculos, verá ainda a sua sustentabilidade agravada pela alteração radical na gestão do uso do solo, na substituição do fornecimento de azoto orgânico pelo uso de fertilizantes químicos, e do trabalho humano e animal pela mecanização agrícola. 

Se o novo modelo permitiu uma ‘libertação de espaço’ pela progressiva concentração e intensificação da produção, contribuiu também para a desarticulação dos territórios com os modos de gestão orgânica de base local e regional, agravando a degradação dos solos, e pondo em causa a sua fertilidade permanente. 

No abandono de um metabolismo agroecológico ancestral, passar-se-á a um modelo químico-mecânico assente no consumo crescente de energia fóssil (Santos, 2013), com presença dominante até aos nossos dias.

É por isso fundamental promover uma agricultura capaz de coexistir com a regeneração do ecossistema em que se integra. Uma agricultura que seja diversa e perene, que promova a construção do solo em vez da sua exploração, que contribua para o incremento da biodiversidade, da regulação dos ciclos de água, da manutenção da massa florestal e da gestão do fogo.

Uma agricultura que construa comunidade, na promoção de um consumo sazonal e de proximidade, na celebração de vínculos entre produtores e consumidores, e que valorize a comida enquanto bem essencial.

Uma agroecologia, onde o Homem volte a ser chamado a participar na promoção dos ciclos de vida no planeta. 

Referências bibliográficas:

Aguiar, C., & Azevedo, J. (2011). A floresta e a restituição da fertilidade do solo nos sistemas de agricultura orgânicos tradicionais do NE de Portugal no inicio do século XX. In J. P. Tereso (Ed.), Florestas do Norte de Portugal: História, Ecologia e Desafios de Gestão. Porto: InBio.

do Carmo, M. C. (2018). Solo e agricultura no século XX Português: um problema ambiental, histórico e epistemológico. Universidade de Lisboa, Lisboa.

Santos, J. L. (2013). Agricultura e Ambiente: o papel da tecnologia e das políticas públicas. In J. L. Santos (Ed.), O Futuro da Alimentação: Ambiente, Saúde e Economia. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Sousa, F. d., Cosme, J., Almeida, F. d., Lopes, J. d. C., Nazareth, M., & Rocha, R. (2016). Alentejo: população e economia em finais de Setecentos. CEPESE - Centro de Estudos da População, Economia e Sociedade, 148-150. 

Fotografia de Artur Pastor . Série "Portugal Rural" . Alentejo, década de 1940

Fonte: Centro de Agroecologia de Mértola

terça-feira, 14 de junho de 2022

Documentário: Agricultura de Carbono


What is Carbon Farming?

If applied on a large scale, carbon farming could mean that the food system can actually produce more to feed the planet, while causing less pollution and boosting the Earth’s ability to remove emissions from the atmosphere. That’s why many governments are now promoting it as part of their climate action plans.

The EU, for example, has included carbon farming within its European Green Deal and Farm to Fork strategy. Within the plan, the European Commission will launch initiatives to help land managers and farmers shift towards these climate-friendly farming practices, as well as a regulatory framework to properly monitor and track how much carbon is being stored in carbon farms.

Australia has also promoted carbon farming through its Carbon Farming Initiative, a voluntary offsetting scheme that allows farmers to earn carbon credits by storing carbon and reducing emissions on land. These credits can then be sold to other businesses or individuals who wish to offset their own emissions, providing a financial incentive for the agricultural sector to move towards more sustainable practices.

But it is not the solution

Now, scientists are clear that while carbon farming is a good thing for the planet, it cannot be seen as the solution to fight climate change. Rather, it must be seen as one of the many measures that the world must use to bring down its emissions.

There’s a danger to promoting carbon farming through carbon credits, for example, with large companies often using these offsetting credits as a way to achieve “net-zero” without actually having to slash emissions from their own operations. It’s a warning that environmental NGOs like Greenpeace have made, with the organisation’s executive director Jennifer Morgan stating that there is “no time left for offsets” in a recent conference.

Greenpeace and other environmental NGOs have been critical of the disproportionate focus on offsetting programs, saying that these plans often assume that the impact of offsetting can be realised immediately, when in reality, it could take many years for the soil to be replenished to its full carbon storage potential.

Mais dois documentários:

Gabe Brown - The five principles of soil health are:

  1. Limited disturbance. Limit mechanical, chemical, and physical disturbance of soil. Tillage destroys soil structure.It is constantly tearing apart the “house” that nature builds to protect the living organisms in the soil that create natural soil fertility. Soil structure includes aggregates and pore spaces (openings that allow water to infiltrate the soil). The result of tillage is soil erosion, the wasting of a precious natural resource. Synthetic fertilizers, herbicides, pesticides, and fungicides all have negative impacts on life in the soil as well.
  2. Armor. Keep soil covered at all times. This is a critical step toward rebuilding soil health. Bare soil is an anomaly—nature always works to cover soil. Providing a natural “coat of armor” protects soil from wind and water erosion while providing food and habitat for macro- and microorganisms. It will also prevent moisture evaporation and germination of weed seeds.
  3. Diversity. Strive for diversity of both plant and animal species. Where in nature does one find monocultures? Only where humans have put them! When I look out over a stretch of native prairie, one of the first things I notice is the incredible diversity. Grasses, forbs, legumes, and shrubs all live and thrive in harmony with each other. Think of what each of these species has to offer. Some have shallow roots, some deep, some fibrous, some tap. Some are high-carbon, some are low-carbon, some are legumes. Each of them plays a role in maintaining soil health. Diversity enhances ecosystem function.
  4. Living roots. Maintain a living root in soil as long as possible throughout the year. Take a walk in the spring and you will see green plants poking their way through the last of the snow. Follow the same path in late fall or early winter and you will still see green, growing plants, which is a sign of living roots. Those living roots are feeding soil biology by providing its basic food source: carbon. This biology, in turn, fuels the nutrient cycle that feeds plants. Where I live in central North Dakota, we typically get our last spring frost around mid-May and our first fall frost around mid-September. I used to think those 120 days were my whole growing season. How wrong I was. We now plant fall-seeded biennials that continue growing into early winter and break dormancy earlier in the spring, thus feeding soil organisms at a time when the cropland used to lie idle.
  5. Integrated animals. Nature does not function without animals. It is that simple. Integrating livestock onto an operation provides many benefits. The major benefit is that the grazing of plants stimulates the plants to pump more carbon into the soil. This drives nutrient cycling by feeding biology. Of course, it also has a major, positive impact on climate change by cycling more carbon out of the atmosphere and putting it into the soil. And if you want a healthy, functioning ecosystem on your farm or ranch, you must provide a home and habitat for not only farm animals but also pollinators, predator insects, earthworms, and all of the microbiology that drive ecosystem function.

Ler mais:

domingo, 20 de março de 2022

"O senhor Dona Alice" por Ana Primavesi


O senhor Dona Alice
"O túnel era escuro mas bastante cômodo. Era arrematado com uma massa viscosa que tornava as paredes duras e estáveis. De vez em quando forquilhava para dar acesso a uma gruta espaçosa, cujo chão e paredes eram revestidas caprichosamente com pedrinhas.

Aqui morava Dona Alice, uma minhoca da nobre tribo dos Enchytraideos. Tinha trazido as pedrinhas, uma por uma da superfície para arrematar seus quartos, onde descansava e dormia. Agora mesmo, estava repousando numa de suas salas lendo o noticiário das minhocas. Achou um absurdo que estavam importando minhocas da família das Eisenia para criação de rãs. Era uma família vagabunda, que vivia quase que exclusivamente de esterco de gado, crescia rápido e praticamente não cavava túneis e casas. Mas finalmente, recebia o que merecia. Era criada somente para ser jogada como comida à rãs que as devoravam.

Dona Alice sentiu um arrepio porque era um sistema bastante cruel. Outra notícia dizia que um professor da tribo dos Octaclátios virá para dar uma palestra sobre a melhor maneira de misturar a terra com húmus. Mas Dona Alice achou que não iria adiantar muito porque nesta região tropical, o húmus era raro, e o que se tinha para comer eram folhas frescas ou semi-decompostas. Leu ainda, que a maior população de minhocas vivia no Alto do Araguaia na Amazônia, onde se supunha que não existissem minhocas.

Fechou o jornal e foi à sua despensa para beliscar uma folha que estava sendo preparada pelas bactérias. Estava quase no ponto para ser comida. Passou por um de seus depósitos de lixo e olhou com curiosidade as bactérias e fungos, especialmente os actinomicetos que brigavam pelos restos. E de repente lhe veio a pergunta: será que são tão pobres que não têm coisa melhor para comer do que meu lixo, ou ela era tão fina que jogava tanta coisa boa fora?

Comeu uns fios de fungos sem pedir licença e seguiu seu caminho. Inspecionou os quartos onde iria depositar os casulos com seus ovos. Aqui estariam protegidos e os filhotes poderiam viver um bom tempinho dentro do casulo, consumindo o líquido nutritivo que tinha colocado com muito cuidado. Aqui, ninguém iria incomodá-los e poderiam sobreviver bem à primeira fase de sua vida. Depois viria a luta pela sobrevivência.

Hoje, não estava de bom humor. Tinha brigado com seu companheiro o Senhor Eisino, porque tinha dito para ele que nas próximas semanas ela seria o dono da casa. “Como?” perguntou ele, “Sem mais nem menos você quer que troquemos?” “Naturalmente,” disse Dona Alice, “A partir de hoje eu sou o Senhor Alicio e você é a Dona Eisina. Acho muito justo que troquemos. Por que somente eu devo fazer os ninhos e produzir os casulos, se você também pode?”

E quando uma raiz de Cambará entrou para perguntar se poderia usar seu túnel, em busca de água, lá em baixo, no lago subterrâneo, e ainda não sabia da troca chamando-a de Dona Alice, esta berrava irritada: “Nada de Dona Alice. Sou o Senhor Alicio! Está bem!” “Desculpe,” gaguejava a raiz, “Não sabia que tinham trocado novamente.” “É algo confuso seu status. Nunca sei se devo dizer Dona Alice ou Senhor Alicio.” A minhoca olhava desconfiada para a raiz, não sabendo se era gracejo ou se falava sério. Mas quando viu que era toda sincera, alisou suas cerdinhas que sempre eriçava quando estava brava, desenrolou seu corpo em todo seu tamanho para mostrar seu cinto novo e disse algo conciliador: “Diga simplesmente senhor Dona Alice, aí se evita confusão.”

A raiz riu baixinho, com cuidado para que o senhor Dona Alice não a visse nem ouvisse, e seguiu seu caminho em direção à água.

Eisino, agora Eisina, foi à superfície para pegar algumas folhas e ventilar sua raiva. Ontem ainda era o maridinho e hoje devia ser esposa. Mas depois consolou-se que a vida das minhocas era assim mesmo. Ia colher algumas folhas semi decompostas porque eram mais gostosas. E caso não encontrasse nada, arrastaria também uma plantinha nova para sua casa. Depois resolveu fazer outro túnel para não encontrar mais com Alicio naquele dia. Empurrava a terra com força.

“Nossa!"- gritou uma vespinha que estava prestes a depositar um ovo numa larvinha e que foi varrida por este terremoto, enquanto a larvinha aproveitava para fugir. “Que maneira grosseira, onde se viu empurrar a casa dos outros?” Eisina não disse nada mas andava igual a um caterpiller, derrubando tudo que estava em seu caminho. Mas depois a terra ficou dura e seca e resistia à sua cavação. Já se arrependia um pouco de sua teimosia, mas como verdadeira minhoca não desistia facilmente. Molhava a terra com água de sua reserva que sempre carregava junto e depois, sem maiores dificuldades, a engolia, porque não tinha onde depositá-la. Usava sua própria barriga como carreta. Depois, quando saída da terra despejava tudo na superfície, agora misturada com húmus e cálcio de sua glândula especial e formando pequenos cones. Tinha certeza que a chuva não iria destruí-las e a entrada de água estaria garantida. Sem umidade nem minhoca nem planta consegue viver.

A região onde estava era nova e ainda não existiam folhas semi decompostas. Assim mesmo, carregou algumas folhas para sua despensa, que ainda não estava revestida, e respingou um líquido por cima das folhas para atrair bactérias, que deveriam começar a digeri-las. Bactérias trabalham bastante rápido e logo iriam dar uma comida especial. Enquanto isso, comeu alguns fios de fungos e caçou algumas larvinhas de saltadores ou colêmbolos e até de nematoides.

Os nematoides velhos que estavam por perto olhavam-na com ódio. Mas nesse dia, Eisina estava nervosa e não suportou esta sem-vergonhice dos nematoides, esses verminhos brancos e sem forma alguma que pareciam simplesmente uns fios. Avançou contra eles e espirrou um jato de líquido por cima deles que os fez dissolver em forma de espuma. “Estes não vão me provocar mais” pensou satisfeito. Mas agora estava com fome e furtivamente, entrou no túnel comum dela e de Alicio e comeu com gosto uma folha preparada por bactérias. Uma raiz de grama-batatais entrou, virou-se e disse: “Como está gostoso aqui: fresquinho e úmido. Lá fora tem um calorão horrível.” E para agradar Eisina, deixou cair algumas radículas e disse ocasionalmente, mas suficientemente alto para ser ouvido: “Aqui debaixo do meu manto espesso nunca haverá calor e seca, e, comida nunca faltará.” “Enquanto não lhe queimarem.” Disse Eisina secamente.

Com tantas minhocas na terra, o pasto era bom, muito bom, até bom demais. Pelo menos o dono do pasto pensava assim. Aqui iria dar uma ótima lavoura de algodão. Fincou uma enxada para tirar uma mostra da terra, justamente onde estava Eisina, e a cortou ao meio. Um besouro que passava nesse instante, quase morreu de rir. “Dona Flor e seus “dois maridos!”gritou ele: “Esposas” observou Eisina triste.

Uma formiga que se encontrava por perto, olhou e perguntou: “Como se chamará a outra metade?” E logo apareceu uma centopeia que fez seus cálculos se dava para comer uma das partes, uma vez que a minhoca diminuiu de tamanho, e parecia exatamente adequada. Mas depois desistiu. Alguns saltadores que não tinham medo de nada, perguntaram: “Qual das duas partes é a Eisina?” A Eisina também não sabia. Como iria saber se cada parte iria dar uma minhoca inteira? Um ácaro sugeriu: “Chame uma parte de Eisina e outra de Aloisia, em homenagem a Alicio. Mas agora as duas partes se revoltaram. Isso lhes faltava. Homenagear outros com a própria desgraça. Mas afinal, nem sabia ao certo se era uma desgraça ou uma vantagem. O único que poderia sabê-lo, era a velha toupeira, o bicho mais sábio debaixo da terra, mas não queria perguntar, porque corria o risco de ser engolida na hora.

Atraído pelo barulho geral, apareceu Alicio. Olhou algo surpreso as duas partes de Eisina e disse laconicamente: “Eisina I e Eisina II, agora somos um casal a três.” Mas uma aranha que passava abanou a cabeça em desaprovação: “Embora isso seja moda entre os humanos em Brasília, não precisam imitar esta sem vergonhice!”

A entrada da enxada foi somente o início de uma série de catástrofes. Resolveram arar e gradear o campo e plantar algodão. E para não nascerem plantinhas nativas, que chamavam de invasoras, aplicaram herbicida. Das minhocas da terra revolvida, quase nenhuma escapou dos passarinhos. Alicio se refugiou a tempo para o fundo de seu túnel, arrastando consigo Eisina I e II. Mas veio ainda pior. Aplicaram liberalmente adubo e, o nitrogénio amoniacal é mortal para a maioria dos bichinhos da terra. A terra nua e desprotegida aqueceu muito sob os raios solares diretos. Os depósitos das minhocas se esvaziaram, e as folhas semi-decompostas terminaram. Não tinha mais comida. Mas a vista não lhe animou. Havia somente algodão, plantinhas novas que nem pensavam em jogar alguma folha. E, mesmo se as tivesse jogado, não teria ajudado, pois estavam impregnadas de veneno.

Eisina se levantou e se espichou, mas não podia ver nada, a não ser algodão. Não poderia migrar por cima desta terra seca e quente. E ir para longe, era impossível. Minhoca que se preze, não migra muito. Somente as da família dos lumbricus migram com gosto, mas também após uma chuva.

Quando finalmente choveu, Alísio tentou fugir com as duas Eisinas. Mas a plantação não tinha fim. Era grande demais. Cansados, desistiram. E agora?

Todas estavam famintas e fracas. Era melhor voltar à terra. Cavaram um pequeno túnel e deitaram. “Agora, quem iria fazer túneis para as raízes poderem buscar água? Quem iria proteger as entradas dos túneis, para a água poder entrar? Quem iria preparar a terra fofinha e rica em cálcio para as plantas? Quem iria matar os nematóides ou criar bactérias benéficas?” quis saber Eisina I. Alício deu um nó duplo no seu corpo e Eisina I e II fizeram o mesmo. Já quase anestesiada perguntou ainda: “E se essas adversidades não terminarem tão cedo?” O fim da frase foi um sussurro quase inaudível e depois elas caíram num sono profundo do qual nunca mais iriam acordar.

Os homens não se deram conta que as minhocas eram seus melhores amigos.
In: A Convenção dos Ventos - Agroecologia em Contos

sábado, 12 de março de 2022

Bioinsectidas


Quando os nossos autarcas pulverizam, ou, pagam a quem pulverize, os solos com herbicidas, estão a matar os insectos que controlam outros insectos mais devoradores, e a envenenar os solos. O mesmo acontece quando os agricultores pulverizam as suas culturas com pesticidas.
É isto que quer para o futuro dos seus filhos?!

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Documentário - Living the Change: Inspiring Stories for a Sustainable Future (2018)


Living the Change é um documentário de longa-metragem que explora soluções para as crises globais que enfrentamos hoje – soluções das quais qualquer um de nós pode fazer parte – por meio de histórias inspiradoras de pessoas pioneiras em mudanças nas suas próprias vidas e nas suas comunidades para viver de forma sustentável e regenerativa.

Os diretores Jordan Osmond e Antoinette Wilson reuniram histórias de suas viagens, juntamente com entrevistas com especialistas capazes de explicar como chegamos onde estamos hoje. De jardins florestais a banheiros de compostagem, agricultura apoiada pela comunidade e banco de tempo, Living the Change oferece maneiras pelas quais podemos repensar nossa abordagem de como vivemos.

Entrevistados:
Leo Murray, Charles Eisenstein, Shane Ward, Dr. Susane Krumdieck, Dr. Mike Joy, Frank van Steensel, Josje Neerincx, Greg Hart, Robert Guyton, Wiremu Puke, Andrew Martin, Ton Nicholson, Sarah Nelisiwe Nicholson, Sharon Stevens, Maria Lee, Stephen McLuckie, Weveney Warth, Matthew Luxon, Sharon McIver e Greg Inwood

domingo, 20 de janeiro de 2019

What is Soil Organic Carbon (SOC)?


Here, Professor Zachary Senwo highlights how Soil organic carbon (SOC) interlinks with soil health, agriculture, climate change, and food security

Introduction
Soil organic carbon (SOC) is a major contributor to overall soil health, agriculture, climate change, and food solutions. It is a natural energy storage, derived from soil organic matter and considered a highly valued earth’s biopolymer. SOC improves soil biological, chemical, and physical properties, water-holding capacity, and structural stability. It plays an integral part to the formation of soil’s organic acids key to soil minerals dissolutions and availability to plants and nutrient leaching.

SOC will buffer soils from extreme pH fluctuations and build reservoirs of soil organic matter (SOM), critical for several soil functions and ecosystem services. Organic carbon imparts several human activities including agricultural, pharmaceutical, textile, cosmetic, and food industries, with by-products disposed and recycled in the environment. The impact of SOC on climate change science (climate change adaptation and mitigation) has been recognised and validated in numerous documented studies. SOC sequestration is an obvious strategy to improve soil health and quality, achieve food security and mitigate climate change. Global soil carbon pools have been reported to consist of 62% of organic C pool and 38% inorganic C pool (Lal, 2004).

Excessive depletion of SOC pool is likely to degrade soil quality, reduce biomass productivity, and adversely impact water quality. Approximately 50% of the earth’s organic C in the form of cellulose, is synthesised via photosynthetic CO2 fixation and constitute the most abundant organic C pool in the biosphere. Cellulose is a high-molecular-weight, linear biopolymer composed of D-glucose residues linked by β-1,4-glucosidic bonds. Hydrolysis of these bonds yields mainly glucose as well as cellobiose made of two glucose residues. Cellulosic hydrolysis provides readily available C as an energy source for humans, animals, and microorganisms.

Despite its potential as a renewable energy source, energy released from cellulose has been a challenge due to its structure, existence with such materials as lignin, and hemicellulose, and complex hydrolysation into simple sugars.

Carbon pools and cycling

Biogeochemical cycling of carbon is critical in sustaining soil health, agriculture, food security and eco-systems services. Carbon flow through soils depends on the efficiency with which plants and microbes use C residues as growth substrates. The proportion of total C made up of plant residues and particulate organic C is primarily impacted by the number of new organic materials added yearly to soils. Carbon exists in soils in various pools, ranging from freshly deposited plant residues to organo-complex stable structures adsorbed to clay and soil aggregates. Agriculture has the most impact on labile carbon pools, plant residues and particulate organic carbon, and humus fractions.

A more stable transformation product attributed to residue decomposition is humus. Globally, carbon losses from agricultural systems are amongst the major pressures on global warming and natural ecosystems. Scientists have long warned climate change threatens food availability, access, utilization and stability. Autotrophic photosynthetic fixation by green plants captures sequestered carbon from the atmosphere into biosphere. Soil microbial respiratory activities via organic residue decompositions, and root respiration will release carbon dioxide (a greenhouse gas).

Carbon enzymes and microbes

Microorganisms secrete various carbon enzymes to disassemble various organic C compounds. Cellulases (glucosidases and galactosidases) widely distributed in nature are responsible for catalyzing cellulose hydrolysis. They originate from different sources, which include plants, seaweeds, protozoa, fungi, bacteria, vertebrates, and invertebrates. They are specific in their hydrolytic reactions in soil organic C bio¬geochemical cycles processes. Reducing sugars which are biodegradation products of cellulose are end products in several soil enzymatic reactions. Understanding the processes associated with cellulose decomposition and identifying the factors involved are important in understanding the microbiological and biochemical changes associated with agricultural practices. Mfombep and Senwo (2012) characterized soil maltase activity using a glucose oxidase–peroxidase system. Maltase is involved in the exo-hydrolysis of 1,4-α-glucosidic linkages and certain oligosaccharides into glucose which is an important energy source for soil microbes.

Anthon and Barrett (2002) developed the 3-methyl-2-benzothiazolinone-hydrozone method for quantifying reducing sugars in pure systems. Other methods described to measure reducing sugars in soils include the use of glucose oxidase-peroxidase system (Benefield, 1971; Kapustka et al. 1981), Somogyi-Nelson procedure (Deng and Tabatabai 1994) and hexokinase-glucose-6-phosphate dehydrogenase enzymatic assay (Frey et al. 1999). The activity of β-glucosidase is considered an indicator for biomass turnover because it exhibits wide substrate specificity. Fungi, white rot fungi, mushroom, yeast, and moulds which are heterotrophic organisms secrete an array of enzymes to externally digest lignin and various biomass components.

Soil microbes use residue components as substrates for energy and as C sources in synthesising new cells. Cellulose is synthesised by all higher plants and a wide variety of other organisms, such as fungi, bacteria, invertebrates, and protists. The oxidation of organic compounds furnishes the microbial cells with energy, and the major product is CO2 which is released back to the atmosphere. Microbial respiration and C-mineralization are adequate indicators of microbial activity, dependent on substate availability and soil edaphic factors. The global emphasis on climate change, food security and defence has reawakened significant interest in microbial associations with soil organic carbon.

Conclusion

There is a strong interlink between soil health, agriculture, climate change, food security and soil organic carbon pools. The demand for information for SOC in the framework of soil health, agriculture, food security, and climate change has increased tremendously over time. Soil organic C is an important indicator of soil organic matter, which enhances agriculture’s sustainability, food solutions, natural resources, and biodiversity. SOC has been identified as a global indicator for monitoring soil health and productivity. Ensuring secure and adequate food supplies is a primary responsibility of governments and a core interest of the scientific community.

Unlocking SOC potential could bring about enormous benefits to soil health and agricultural productivity. Organic C should be considered in assessing programs that support and enhance the long-term use of valuable soil resources. Managing soil carbon and improving its usage efficiency is paramount in developing better strategies to contribute to global food solutions. Relationships among carbon enzymes are important given their significant roles in C biogeochemical cycles in nature. SOC will contribute to increased levels of atmospheric carbon dioxide. Getting C back to the land is a natural remedy for climate change and soil health.

There is surmountable evidence in support of the earth’s climate rapidly changing in response to continuous inputs of CO2 and various greenhouse gases (GHGs) to the atmosphere because of anthropogenic activities (IPCC 2007). There is the need to develop or identify policy options relevant to soil and SOC to encourage adopting practices to optimise SOC sequestration and stabilisation within climate change agendas. Impacts of land and soil management on SOC or processes that increase SOC, need continual examination.

References

Anthon GE., DM Barrett (2002). Determination of reducing sugars with 3-methyl-2-benzothiazolinoenhydrazone. Anal Biochem. 305:287-289.

Benefield CB (1971). A rapid method for measuring cellulase activity in soils. Soil Biol. Biochem. 3:325-329.

Deng S., MA Tabatabai (1994). Colorimetric determination of reducing sugars in soils. Soil Biochem. 26:473-477.

Frey SD., ET Elliot, K Paustian (1999). Application of the hexaokinase-glucose-6-phosphate dehydrogenase enzymatic assay for measurement of glucose in amended soil. Soil Biol. Biochem. 31:933-935.

IPCC (2007) Intergovernmental Panel on Climate Change. Climate Change 2007. The Physical Science Basis. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

Kapustka LA, AE Annala, WC Swanson (1981). The peroxidase-glucose oxidase system; A method to determine glucose liberated by carbohydrate degrading soil enzymes. Plant Soil. 63:487-490.

Lal R (2004). Soil carbon sequestration impacts on global climate change and food security.

Mfombep P., ZN Senwo (2012). Soil maltase activity by a glucose oxidase-peroxidase system. 3 Biotech. 2:225–231.