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| Francisco Caldeira Cabral foi o propulsor da arquitetura paisagista em Portugal |
E se as cheias ou os incêndios não fossem uma tragédia anual? O cenário parece de sonho, mas é uma realidade possível aos olhos dos arquitetos paisagistas. Têm na sua génese muito mais do que a estética. Aprendem sobre anatomia, plantas, sociedade, cultura e tanto mais. A disciplina tem cerca de 80 anos de história e 50 de reconhecimento, apresentando soluções para a gestão equilibrada entre o ser humano e a natureza. O que falta para ser escutada?
Não fosse estar em causa o bem-estar (e até a vida) do ser humano e poderíamos considerar a história da arquitetura paisagista um autêntico filme. Um daqueles em que o “bom da fita” nunca é ouvido. Até ser tarde de mais. E, à imagem de muitos filmes, não falta neste um cliché: o do “eu avisei”. A expressão parece ser utilizada pelos arquitetos paisagistas para demonstrar que há algo com que todos se preocupam agora que, para estes profissionais, já é uma “cantiga antiga”. Mas do que se trata? Das alterações climáticas. Ou melhor, de como a atividade do ser humano exacerbou e acelerou alterações climáticas ao ponto de sofrermos atualmente com fenómenos climáticos extremos, diários, em torno de todo o Globo. Mas tudo poderia ser diferente. Como? Já lá vamos.
Primeiro, reforcemos o “eu avisei”. “O fenómeno parece novo. Fala-se em todo o lado. Faz capas de jornais quase todos os dias. Mas, para nós, arquitetos paisagistas, não é novidade nenhuma. Estavam à espera que acontecesse o quê?” Quem o questiona é Aurora Carapinha, arquiteta paisagista, investigadora, docente e apaixonada por jardins, que realça que não foi apenas um alerta que a profissão deixou à sociedade, tendo também apontado soluções. “Todos os nossos projetos da altura, por volta dos anos 1980, procuravam dar respostas para que situações extremas com que nos deparamos anualmente hoje não ocorressem.”
Fala-se de cheias, incêndios, perda de biodiversidade, recuo da linha de costa, entre tantos outros assuntos que, hoje, são tema recorrente e catalogados como “nova crise”. Aurora Carapinha lamenta que muitos desses projetos inovadores e solucionadores “tenham sido metidos na gaveta”. Problemas que todos os anos são recorrentes poderiam ser mitigados se tivesse havido um trabalho real com a arquitetura paisagista nos últimos anos? “Sem dúvida alguma. E não o digo por arrogância”, remata.
Arquitetura sem teto
E como é que a arquitetura paisagista tem um poder tão grande perante as alterações climáticas e os fenómenos extremos? Porque tem capacidade de prever e gerir mudanças a longo prazo, indica Carapinha. “O Professor Nuno Portas chamava-nos, com muita graça, os arquitetos sem teto. E trabalhar sem teto é o maior desafio que existe, porque é uma arquitetura que está exposta à intempérie, à mudança das estações, à mudança da luminosidade, às diferentes temperaturas. Enquanto na ‘arquitetura com teto’ posso controlar essas variáveis, aqui não.”
E, por isso, o arquiteto paisagista tem de aprender, por exemplo, onde chove, quanto chove, de que forma se comporta e acumula a chuva. Entre outros dados. E, acima de tudo, completa a docente da Universidade de Évora, “o arquiteto paisagista tem de saber como aproveitar essa chuva”. Em suma, além de prever acontecimentos, a disciplina trabalha para que esses acontecimentos sejam aproveitados em benefício do bem-estar humano e do “bem-estar” da natureza. “Eu não trabalho contra a natureza. Trabalho com as dinâmicas dos sistemas naturais. E tenho de ter duas coisas: a ciência para os saber e a arte para os reinventar, criando novos lugares e oportunidades de vida.”
É no balanço entre ciência e arte que se baseia a definição da arquitetura paisagista, que, nas palavras de Caldeira Cabral, figura histórica da profissão, “é a ciência e a arte de ordenar o espaço exterior em relação ao homem”. E os equilíbrios parecem ser o ex-líbris. “Equilíbrios que vão além do estético, mas que alcançam dimensões como o equilíbrio económico, ecológico ou social”, afirma Carapinha.
A primazia do económico
Nestes vários equilíbrios, João Ceregeiro, arquiteto paisagista e presidente da Associação Portuguesa dos Arquitetos Paisagistas (APAP), acredita que se encontra a fórmula (ou fórmulas) que poderia solucionar diversos problemas da sociedade. Fórmulas essas que, tal como já frisado por Aurora Carapinha, não são novas para a profissão. “O que hoje se fala de conforto climático, de sequestro de carbono, da economia circular, da economia verde… tudo isso são temas que para os arquitetos paisagistas não são novos, porque estão implícitos na sua própria prática há muitas décadas”, esclarece o dirigente. E, agora, a pergunta de “milhões”.
Porque é que essas tais soluções não foram aplicadas e esses tais alertas escutados? “Porque a prática da arquitetura paisagista não se compagina com aquilo que é a agenda dos decisores políticos e económicos, ela está sistematicamente a ser protelada em função de outras prioridades”, em especial, prioridades economicistas, que não têm uma visão complexa e de longo prazo como a profissão assim exige, denuncia Ceregeiro. Porque construir uma praça viável ou ordenar uma mata ou uma floresta poderá ter um custo no momento presente que só será “devolvido” dali a décadas, e nem sempre se trata de um retorno financeiro – o que parece ser difícil de aceitar para uma sociedade que vive em torno do lucro.
A visão exclusivamente economicista e de prazo limitado é também criticada por Aurora Carapinha. Passemos a um exemplo. E logo dos mais complexos. “O problema dos incêndios é muito mais do que dizermos que há árvores demasiado perto das casas. É uma consequência de anos de desertificação do interior. E se quem vive lá é constantemente colocado à margem da sociedade e vive na pobreza, tem de procurar forma de subsistência, para a qual a solução foi, muitas vezes, a exploração do pinhal. É um rendimento fixo e a curto prazo que, de três em três anos, serve para subsistir a família e para pagar as contas extra. Não podemos simplesmente chegar a um local e arrancar de lá as pessoas ou tirar-lhes a forma de sobrevivência.” Por muito prejudicial que essa forma seja para o ambiente.
Aurora Carapinha considera que o arquiteto paisagista pensa “na complexidade social, económica, cultural, simbólica e ecológica da paisagem”, sendo muito mais do que plantar “a árvore certa”.