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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Crise Climática: Por Que Ter Esperança É Racional

Há muitos motivos para desesperar: a nossa terra verdejante e aprazível está seca e acastanhada, as albufeiras estão depletadas e os incêndios florestais estão a fustigar o Reino Unido, a Europa, Canadá e os EUA. Mas há muitos mais motivos para não desesperar: o desespero alimenta-se a si próprio; o desespero desarmar-nos-á; o desespero é aquilo que os sacanas querem que sintas. Mas, acima de tudo, o desespero é irracional. Deixa-me explicar porquê.

Por mais sofisticadas que sejam as nossas ferramentas de previsão, simplesmente não temos forma de saber o que vem a seguir. Tal como o clima, tal como qualquer ecossistema, a sociedade é um sistema complexo. As suas propriedades e respostas adaptativas não podem ser previstas estudando os seus componentes de forma isolada, independentemente do brilhantismo dos cientistas sociais e dos futurólogos. Acontecem coisas — coisas inesperadas —, por vezes a uma velocidade espantosa. Dito de outro modo, a sociedade tem pontos de rutura: pode passar rapidamente de um estado de equilíbrio para outro.

Veja-se a Irlanda, para dar apenas um exemplo. Até há poucas décadas, a República da Irlanda era uma teocracia católica. Tinha sido assim desde os anos 1920. Aliás, durante a maior parte do século XX, a Igreja Católica parecia estreitar cada vez mais o seu controlo. Quebrar esse controlo era algo quase inimaginável. Mas depois uma série de acontecimentos combinou-se de formas inesperadas. Uma sucessão de escândalos terríveis veio à tona: violência sexual sistemática, o rapto de mulheres e crianças, trabalho escravo e mortalidade em massa em instituições da Igreja. As viagens e os meios de comunicação social permitiram ao povo irlandês ver como era a libertação social e sexual noutros países. A comunicação social e os fóruns internacionais permitiram que ativistas corajosos, cujas vozes tinham sido suprimidas durante muito tempo, fossem ouvidos de forma mais ampla. As muralhas caíram mais depressa do que alguém poderia ter adivinhado. Em pouco tempo, tanto o casamento igualitário como o direito ao aborto foram legalmente sancionados: uma mudança que tinha sido quase inimaginável.

O mesmo se pode dizer do colapso do comunismo de Estado e do fim de quase todos os impérios e monarquias que outrora pareciam inabaláveis. O império dos combustíveis fósseis não é exceção.

O sistema complexo a que chamamos sociedade tem dois estados de equilíbrio: o impossível e o inevitável. A mudança que queremos parece sempre impossível. Voto para as mulheres? Perdeu o juízo. Independência para a Índia? A Grã-Bretanha nunca a vai largar. Direitos civis? Ridículo! Mas com pressão sustentada, um pouco de sorte e uma mudança de circunstâncias, pumba!, o impossível acontece. Depois toda a gente diz: “Pois, era inevitável, não era?”

Acho que podemos estar a aproximar-nos de um ponto de rutura no colapso climático. Durante anos disseram-nos: “Estão a pedir a Lua. Os combustíveis fósseis vieram para ficar.” Uma parte de mim acreditou nisso. Mas agora, como a reportagem do Guardian demonstrou, subitamente os combustíveis fósseis são muito mais caros do que as energias renováveis. Subitamente, são as tecnologias verdes que estão a gerar imenso emprego e rendimento. Subitamente, barreiras tecnológicas que pareciam insuperáveis ruíram. Subitamente, os políticos financiados pelos combustíveis fósseis parecem ultrapassados, ridículos, corruptos. Subitamente, estamos a acordar para a necessidade de uma ação urgente, à medida que os choques de calor reforçam a mensagem.

O problema de um ponto de rutura, seja ele positivo ou negativo, é que nunca se sabe de antemão onde ele possa estar. Só se consegue ver em retrospetiva. Se já causámos tanto aquecimento global ao ponto de o sistema de correntes do Atlântico estar destinado a colapsar, ou de um fracasso em cascata da floresta amazónica estar assegurado, ainda não sabemos. Mas, da mesma forma, se as condições necessárias para uma grande mudança social já estiverem alinhadas, não o saberemos até o sistema mudar.

Este tipo de mudança rápida exige um público informado por fontes de comunicação independentes, jornalistas comprometidos com os factos e não com interesses corporativos. O modelo aberto e financiado pelos leitores do Guardian é um antídoto claro para outros meios de comunicação — tanto a imprensa dos bilionários como os radiodifusores de serviço público — que estão ativamente a esquivar-se a este desafio, reduzindo a sua cobertura sobre o clima numa altura em que ela nunca foi tão crítica.

Por isso, no Guardian e não só, continuamos a pressionar, continuamos a expor, continuamos a demonstrar como a mudança pode acontecer. E, por razões inteiramente racionais, continuamos a ter esperança. Por favor, considera apoiar o nosso jornalismo hoje mesmo.

A maior questão com que nos confrontamos, possivelmente a maior questão que a humanidade já enfrentou, é saber se conseguimos atingir os pontos de rutura sociais antes de atingirmos os pontos de rutura ambientais.

Fonte

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Falta regularizar apenas três Zonas Especiais de Conservação para Portugal cumprir as obrigações europeias da Directiva Habitats. A multa é de 2250 euros por dia


Falta regularizar os processos relativos às áreas da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba, para que fiquem concluídas as 61 ZEC e respetivos planos de gestão. Governo prevê concluir todo o processo ainda este ano.

Portugal está a suportar uma penalização de cerca de 750 euros por dia por cada Zona Especial de Conservação (ZEC) ainda em atraso, estando ainda por concluir três das 61 ZEC abrangidas pelo processo de regularização das áreas protegidas exigido pela União Europeia.

Segundo avançou o Ministério do Ambiente e Energia (MAEn) ao Público, falta finalizar a regularização das ZEC da Serra da Estrela, do Sado e de Alvito/Cuba. Nomeadamente, o diploma relativo à ZEC do Sado já concluiu o circuito governamental e foi remetido ao Presidente da República para promulgação; o plano de gestão da ZEC de Alvito/Cuva deverá ser submetido a Conselho de Ministros no início de setembro; e o plano de gestão da ZEC da Serra da Estrela encontra-se atualmente em circuito legislativo, na sequência da consulta pública recentemente concluída.

Recorde-se que, em março passado, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) condenou Portugal a pagar 10 milhões de euros por não ter executado um acórdão sobre a violação da Diretiva ‘Habitats’, relativa à preservação de habitats naturais, e 750 euros diários por cada um dos sítios que ainda não estão protegidos. Na altura, o TJUE referiu que Portugal não adotou medidas de conservação adequadas, considerando que estavam em causa infrações particularmente graves ao direito do ambiente da União, “nas quais Portugal persistiu ao longo do tempo”.

Tendo em conta que o território português abriga uma biodiversidade significativa - incluindo 99 tipos de habitats e 335 espécies abrangidas pela Diretiva Habitats- , “os riscos para o património natural comum da União são especialmente relevantes”, destacava o Tribunal, que impôs sanções financeiras até que todas as 61 zonas especiais de conservação em causa dispusessem “de proteção adequada”.

Desde então, o Governo diz ter acelerado significativamente o processo, com o MAEn a salientar que “o trabalho desenvolvido pelo Ministério do Ambiente e Energia permitiu acelerar de forma muito significativa a aprovação das designações e dos respetivos instrumentos de gestão”, colocando Portugal “numa trajetória de cumprimento integral” das obrigações europeias.

Fonte oficial do MAEn acrescenta que o trabalho iniciado pelo XXIV Governo, em 2024, deverá terminar este ano, sublinhando que este “veio corrigir um atraso acumulado ao longo de sucessivos governos, que manteve Portugal em incumprimento em matéria de obrigações europeias durante vários anos e deu origem a um processo de infração por parte da Comissão Europeia”.

O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) já tinha, entretanto, confirmado ao Jornal PT Green que entregou à tutela todos os planos de gestão das ZEC, ressalvando que “eventuais alterações ao calendário previsto poderão decorrer das diligências subsequentes ao processo, que poderão incluir pedidos de esclarecimento ou consultas ao ICNF”.

As ZEC integram a Rede Natura 2000, uma rede europeia de áreas destinadas à conservação de habitats e espécies ameaçados ou representativos da biodiversidade europeia.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Inteligência Artificial e água: a fatura invisível


Tendemos a ver o armazenamento em “nuvem” como um conceito abstrato. Mas cada pergunta que fazemos a um assistente de inteligência artificial (IA) depende de uma estrutura física concreta: um centro de dados onde milhares de servidores trabalham sem interrupção, aquecem e precisam de ser arrefecidos. E, na maioria dos casos, esse arrefecimento faz-se com água que evapora em torres de arrefecimento e não regressa ao sistema. À pegada direta soma-se a indireta: a água consumida na produção da eletricidade que alimenta estas infraestruturas e no fabrico dos chips que as equipam.

Os números começam a ser conhecidos e não são tranquilizadores. Investigadores da Universidade da Califórnia estimaram que o treino do modelo GPT-3 terá evaporado cerca de 700 mil litros de água doce apenas nos centros de dados norte-americanos da Microsoft, e que uma conversa de 10 a 50 interações com um destes modelos consome, em média, o equivalente a uma garrafa de meio litro de água. O mesmo estudo, publicado na Communications of the ACM ("Making AI Less 'Thirsty': Uncovering and Addressing the Environmental Footprint of AI Models"), projeta que a procura global de IA possa representar, já em 2027, uma captação de água entre 4,2 e 6,6 mil milhões de metros cúbicos por ano. É certo que são estimativas, mas a falta de transparência das empresas tecnológicas quanto aos seus consumos reais é, em si mesma, parte do problema.

Poderíamos pensar que esta é uma preocupação distante, já que quase metade dos centros de dados de todo o mundo se localizam nos Estados Unidos, parte deles em áreas desérticas ou semidesérticas. Não é. Portugal está a posicionar-se agressivamente como destino europeu para esta indústria e fá-lo quando grande parte do território do continente vive em situação de escassez hídrica estrutural. O índice de escassez WEI+ para Portugal continental subiu para 34% no período 1989-2015, atingindo 74% na região hidrográfica do Sado e Mira e 66% nas Ribeiras do Algarve, existindo ainda o risco de perdermos 30 a 40% da disponibilidade das nossas massas de água até 2050, num contexto de redução de 25% da precipitação face aos valores históricos (dados do Relatório do Estado do Ambiente / APA). É neste país que decidimos instalar infraestruturas que funcionam 24 horas por dia e cuja sede de água e energia cresce ao ritmo da procura de IA.

O caso de Sines é paradigmático e, em parte, um exemplo a reter. O mega-campus de data-centers em desenvolvimento na antiga zona da central termoelétrica, que poderá atingir 1,2 GW de capacidade, foi desenhado para arrefecer os servidores com água do mar, reaproveitando os canais de captação e devolução da antiga central, sem consumo evaporativo de água doce nos processos de arrefecimento. De acordo com o estudo de impacte ambiental, o consumo de água potável do campus completo ficará limitado a usos humanos (cerca de 275 m³/dia), quando um centro de dados convencional de dimensão equivalente poderia consumir mais de mil milhões de litros de água por mês em arrefecimento, o equivalente a quase 50 mil famílias. A diferença entre uma solução e outra é abissal e demonstra que as escolhas de projeto e de localização importam, e muito. Ainda assim, importa não esquecer que a própria utilização de água do mar tem impactes que não podem ser desvalorizados, desde a afetação de organismos marinhos na captação à devolução de salmoura e de água a temperatura mais elevada, e que exigem avaliação, monitorização e minimização rigorosas.

Mas seria um erro descansar sobre este exemplo. Primeiro, porque o litígio que hoje opõe a EDP ao Estado quanto à titularidade das infraestruturas de captação de água do mar em Sines mostra como estas soluções dependem de condições muito específicas, dificilmente replicáveis noutros pontos do território. Segundo, porque a corrida aos centros de dados não se esgota em Sines, multiplicam-se projetos e intenções de investimento por todo o país, incluindo em regiões onde não há mar por perto nem folga hídrica para acomodar novos consumos. Terceiro, porque a pressão sobre a água de todo o conjunto dos projetos de interesse nacional previstos para a zona industrial de Sines representa uma necessidade agregada de água doce na ordem dos 10 hectómetros cúbicos por ano, equivalente ao consumo de um concelho de média dimensão, numa região servida por albufeiras que já abastecem populações e regadio em expansão.

Já não é possível defender um regresso a um mundo sem inteligência artificial, sendo necessário reconhecer o seu potencial em áreas como a gestão da água, desde a deteção de perdas nas redes e a otimização do regadio até à modelação hidrológica que suporta os Planos de Gestão de Região Hidrográfica. No entanto, é essencial assegurar que o desenvolvimento da IA decorra dentro dos limites planetários, respeitando a disponibilidade de recursos naturais, nomeadamente energia, água e matérias-primas, e garantindo que os seus benefícios sociais e ambientais superam os impactos da infraestrutura que a suporta. E isso tem tradução concreta na política da água.

Desde logo, transparência: os consumos de água (e energia) dos centros de dados devem ser públicos, medidos e reportados, instalação a instalação, e não escondidos atrás de médias corporativas ou de segredos comerciais. Depois, planeamento: a decisão sobre onde instalar estas infraestruturas tem de estar subordinada aos balanços hídricos regionais e aos Planos de Gestão de Região Hidrográfica, cujo 4.º ciclo (2028-2033) está em preparação e não pode ignorar esta nova categoria de utilizadores, privilegiando localizações com soluções de arrefecimento sem consumo de água doce, como a água do mar ou circuitos fechados, e o recurso a águas residuais tratadas em vez de água potável. Importa, contudo, ressalvar que o recurso à água do mar e, em particular, a dessalinizada não é isento de impactes, pelo que estas soluções devem ser sujeitas a avaliação de impacte ambiental exigente, sem nunca substituírem a prioridade que deve ser dada à eficiência e à necessidade de redução da procura. A recente Estratégia Europeia para a Resiliência Hídrica, que aponta para uma melhoria de pelo menos 10% na eficiência hídrica na União Europeia até 2030, deve ser o referencial mínimo. Finalmente, hierarquia de usos: em situação de seca, o abastecimento humano e os ecossistemas têm prioridade, e os títulos de utilização de recursos hídricos atribuídos a estas infraestruturas devem prever, desde o licenciamento, mecanismos de redução e contingência, tal como se exige a outros setores.

A água que os nossos rios e aquíferos já não garantem em cada verão não pode ser hipotecada a uma indústria que cresce mais depressa do que a nossa capacidade de a planear. Portugal tem uma oportunidade real de acolher a economia digital pela via certa, mas só o fará se a política da água deixar de correr atrás dos investimentos e passar a estar, de uma vez por todas, à frente deles.

Saber mais
Iniciativa da UE para Resiliência Hídrica:


sábado, 9 de maio de 2026

Carta aberta ao Ministério do Ambiente e Energia contesta plano de gestão da ZEC Alvito/Cuba por ausência de espécie-alvo


Uma carta aberta subscrita pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural e pela CPADA – Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente contesta a proposta de Plano de Gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Alvito/Cuba, acusando o documento de se basear na conservação da espécie Linaria ricardoi apesar de não existirem registos recentes da sua presença confirmada na área, segundo dados de prospeções realizadas entre 2019 e 2025.

Segundo a mesma fonte, a credibilidade da Rede Natura 2000 “assenta na eficácia em conservar valores naturais que ocorrem nas áreas classificadas para esse propósito, de forma significativa e comprovada. É por isso que constitui um dos pilares centrais da política europeia de conservação da biodiversidade”.

A proposta de Plano de Gestão da Zona Especial de Conservação (ZEC) Alvito/Cuba (PTCON0035), elaborada pelo ICNF – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, que esteve em consulta pública entre os dias 2 e 30 de abril, foi criada com o objetivo exclusivo de conservação da planta endémica e prioritária Linaria ricardoi, espécie que consta do Anexo II da Diretiva Habitats da União Europeia. Contudo, “já não existe qualquer população confirmada de Linaria ricardoi dentro dos atuais limites da ZEC Alvito/Cuba, de acordo com os resultados das prospeções realizadas entre 2019 e 2020 pelo próprio ICNF, nem nas de 2025 ao encargo da SPB – Sociedade Portuguesa de Botânica”, alerta a nota.

A carta explica que o objetivo de conservação desta espécie, que se restringe ao Baixo Alentejo, deu origem ao Sítio Alvito/Cuba, incluído na Lista Nacional de Sítios, em 2000, tendo passado mais de duas décadas desde a classificação. Desde que passou de Sítio a Zona Especial de Conservação, esteve mais seis anos sem qualquer plano de gestão. O resultado é claro: “a extinção da espécie está em processo, o seu estatuto de ameaça tem-se elevado e a estratégia seguida falhou em travar essa tendência”.

No entanto, lê-se ainda, os próprios documentos oficiais do Estado português – incluindo o Relatório para a Conclusão do Processo de Designação da ZEC e o Plano de Gestão agora proposto – apresentam medidas “claramente incoerentes e desfasadas da realidade”:

O Plano de Gestão proposto insiste em propor metas como “aumentar o número de quadrículas ocupadas” ou “aumentar a densidade populacional” em ambas as parcelas classificadas como ZEC, aplicadas a um território onde a planta simplesmente não ocorre.

Uma ZEC que falha os critérios da Diretiva Habitats
De acordo com a Diretiva 92/43/CEE, a designação de Zonas Especiais de Conservação deve basear‑se, entre outros critérios, na existência real de populações das espécies que se pretendem conservar e na adequação ecológica do sítio para assegurar a sua sobrevivência a longo prazo.

Manter uma ZEC delimitada numa área onde:
  1. A espécie já não ocorre;
  2. Os solos não correspondem aos seus requisitos ecológicos;
  3. E as práticas agrícolas intensivas e super-intensivas dominantes são incompatíveis com o seu ciclo de vida, “representa um desvio claro dos objetivos da Diretiva Habitats e enfraquece a coerência da Rede Natura 2000”.
Atualmente, o Plano de Gestão em causa propõe manter os limites atuais da área e estender esta estratégia com vigência de dez anos, com base na escassa “possibilidade de persistência de um banco de sementes no solo”, enquanto há evidência científica de que a manutenção de um banco de sementes em olivais intensivos é improvável devido à modificação das condições ecológicas. Existem áreas alternativas, bem documentadas, onde a espécie ocorre com sucesso reprodutivo em vários municípios.

“Conservar mal é também perder tempo e colocar em causa a efetiva proteção da espécie”, sublinham as organizações.

E acrescentam: “persistir na implementação de um plano de gestão desajustado significa, na prática:
1 – Desviar recursos públicos para um território que não responde às necessidades da espécie;
2 – Impor condicionamentos territoriais a populações locais sem benefício ecológico comprovado;
3 – Adiar, mais uma vez, a proteção efetiva dos núcleos populacionais que garantem a sobrevivência de Linaria ricardoi”.

Um apelo à coerência, à ciência e à coragem institucional
A conservação da natureza “exige decisões difíceis, mas baseadas na evidência. Hoje, a própria documentação oficial reconhece que existe um desajuste entre a Rede Natura 2000 e as áreas de maior abundância de Linaria ricardoi”, alertam.

Perante este reconhecimento, “é incompreensível insistir na aprovação de um Plano de Gestão que perpetua esse erro”.

Defendem, por isso, que:
  • A atual proposta de Plano de Gestão da ZEC Alvito/Cuba não deve ser aprovada nos termos em que se encontra elaborada;
  • O processo deve ser reformulado com base na redefinição dos limites da ZEC para áreas onde a espécie efetivamente ocorre e onde existem núcleos populacionais que asseguram a diversidade genética nacional;
  • As entidades associadas e responsáveis pelo Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva, como a EDIA – Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva, S.A., melhorem os efeitos das medidas estipuladas nas Declarações de Impacte Ambiental e nos Relatórios de Conformidade Ambiental (uma vez que falharam em impedir a extinção ou o processo de extinção em cerca de 87 núcleos de L. ricardoi, por destruição direta do seu habitat, num período de 20 anos).
“Proteger uma espécie ameaçada faz‑se onde ela existe, onde pode sobreviver e onde as medidas de conservação fazem sentido, em estreita colaboração com a população”, sublinham.

E concluem: “conservar a natureza exige rigor, mas também humildade para corrigir decisões passadas e atualmente erradas. Neste caso, essa correção é não apenas possível, mas urgente”.

Esta carta aberta é subscrita pela Palombar – Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural e pela CPADA – Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente, a maior organização ambientalista do país, integrando cerca de 100 associações de defesa do ambiente ou organizações não governamentais de ambiente, de âmbitos nacional, regional e local, quer no Continente, quer nas Regiões Autónomas.

terça-feira, 3 de março de 2026

O olival Português transformado num activo financeiro

Greenpeace Portugal exige “moratória imediata à expansão do olival superintensivo”


Um relatório de investigação internacional divulgado pela Greenpeace, intitulado "O Campo como Ativo", expõe a face oculta da expansão do olival superintensivo em Portugal. O documento revela que o país se tornou o "porto seguro" para fundos de investimento canadianos e britânicos, que utilizam o Alqueva e milhões de euros em fundos públicos portugueses para substituir a agricultura tradicional por um modelo industrial de lucro rápido e elevado risco ambiental. 
Ao contrário de Espanha, onde o olival tradicional ainda resiste, a expansão em Portugal (liderada por empresas como a Innoliva) foca-se quase exclusivamente no modelo superintensivo. Dos 4.800 hectares geridas pelo grupo na última década, mais de 65% (3.168 hectares) estão em solo português. 
O relatório detalha como o Estado Português, através do IFAP, financiou diretamente esta transição. Um único projeto de um fundo estrangeiro recebeu 6,5 milhões de euros a fundo perdido, a que se somaram mais 3 milhões para lagares industriais de alta capacidade (como o de Carapetal). 
A investigação confirma o impacto devastador na biodiversidade. As colheitas noturnas com máquinas cavadeiras, fundamentais para a rentabilidade destes fundos, provocam a mortalidade em massa de aves, o que forçou as autoridades a suspender a prática, embora o modelo económico destes grupos continue a depender da mecanização extrema. 
O relatório alerta que o modelo superintensivo, embora eficiente "por árvore", consome volumes totais de água por hectare muito superiores ao tradicional, colocando em causa a resiliência hídrica do Alentejo em períodos de seca extrema. 
Para o Diretor da Greenpeace Portugal, "Estamos a trocar pessoas por máquinas e comunidades por folhas de Excel. O Governo gasta milhões em subsídios para um modelo que não fixa um único jovem no Alentejo. 
O que vemos hoje é uma forma de extrativismo moderno: os fundos de investimento a sugar a nossa água e o nosso solo, pagos com os nossos impostos, deixando para trás um território vazio, biologicamente devastador e socialmente abandonado. 
O Alqueva não pode ser o cemitério das nossas aldeias." Toni Melajoki Roseiro acrescenta que “não é agricultura, é extração de valor. Transformaram a nossa oliveira numa franquia industrial onde tudo é uniformizado e mecanizado, controlado à distância a partir de um escritório em Toronto ou Londres. O resultado é um Alentejo mais frágil; ´água sob pressão, território a esvaziar-se e o azeite português tratado como um ativo financeiro, em vez de ser parte da nossa terra.” 
Parte da riqueza produzida no regadio de Alqueva é encaminhada para fundos de pensões de funcionários públicos, Forças Armadas e Polícia Montada do Canadá, bem como da Igreja Mormón.
Perante este cenário, a Greenpeace Portugal exige uma moratória imediata à expansão do olival superintensivo. O governo português tem de escolher: ou continua a ser o facilitador dos fundos de investimento, ou assume o seu papel de protetor do território e da soberania alimentar de Portugal. O campo não é um banco. O campo é a nossa vida.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Do mar à terra, passando pelos céus: como as tempestades afetam a vida selvagem


O “comboio de tempestades” que durante semanas atingiu Portugal deixou no seu encalço um rasto de devastação. Casas destruídas, estradas e outras vias arruinadas e já 16 pessoas morreram desde que a 28 de janeiro a tempestade Kristin se abateu sobre o território nacional.

No entanto, as intempéries, mais inclementes e frequentes à medida que o planeta se torna mais quente, afetam não só os mundos humanos, mas também os dos animais selvagens.

Desde 25 de janeiro, e com maior intensidade no mês de fevereiro, centenas de aves marinhas têm dado à costa portuguesa, de norte a sul do país. À Green Savers, Hany Alonso, técnico sénior de Ciência da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), diz que desde que a tempestade Kristin entrou em Portugal foram já registados mais de 400 papagaios-do-mar arrojados, a maior parte dos quais no litoral norte e na região de Peniche.

Segundo dados de parceiros internacionais, também na Galiza foram registados mais de 500 papagaios-do-mar arrojados e mais de 200 ao longo da costa francesa.

No que toca a Portugal, “os números de aves afetadas poderão ser muitíssimo mais altos, pois estamos a monitorizar uma parte muito pequena da nossa costa”, acautela o ornitólogo, acrescentando que mais arrojamentos são de esperar, pois “as condições continuam difíceis no mar”.

Já no inverno de 2022 para 2023, também fruto de tempestades, em duas semanas registaram-se mais de 1.700 arrojamentos de papagaios-do-mar na costa continental portuguesa, “que já foi um grande impacto nas populações desta espécie”, explica Alonso. Apesar de pequenas, essas aves estão habituadas a lidar com mares revoltosos e são “bastante resistentes”, podendo deslocar-se para áreas mais afastadas da costa até o temporal passar.

“O problema surge quando há muitas tempestades consecutivas, que dificultam a sua alimentação e deterioram a condição física das aves”, explica o ornitólogo da SPEA.

“Muitos dias com um mar difícil pode acabar por levar à mortalidade massiva de muitos indivíduos”, salienta, acrescentando que “começam a ficar mais fracos e vão-se aproximando mais de terra e acabam por arrojar nas praias, alguns vivos, mas uma grande parte já mortos”.

Além dos papagaios-do-mar, foram também registados arrojamentos de aves marinhas de outras espécies, como as tordas-miúdas, as gaivotas-tridáctilas, as gaivotas-de-patas-amarelas, os corvos-marinhos, as gaivotas-de-asa-escura e as galhetas. Ainda que essas aves estejam habituadas a lidar com mares tempestuosos, procurando abrigos mais perto da costa ou mesmo em terra, a sua resistência tem limites e, se as más condições se mantiverem durante muito tempo, acabam por sucumbir por não se conseguirem alimentar devidamente.

Embora a maior parte dos animais tenha dado à costa já sem vida, alguns ainda resistiam, tendo sido encaminhados prontamente para centros de recuperação de fauna selvagem. A esperança é que possam recuperar e regressar ao seu habitat natural.

Os impactos das tempestades, como as que temos tido, nas aves marinhas variam consoante a espécie e a idade dos indivíduos, sendo que os mais jovens e os mais fracos são, regra geral, os mais vulneráveis às intempéries. No entanto, eventos de mortalidade massiva podem abranger muitos outros indivíduos, com impactos severos para as populações da sua espécie.

As aves marinhas são um dos grupos de aves mais ameaçados em todo o mundo e estão cada vez mais pressionadas por uma miríade de fatores, como a captura acidental em redes de pesca, a poluição, a perda de habitat e de presas e as espécies invasoras. Assim, num contexto de crise climática e em linha com o que é dito pela Ciência, as tempestades, como as das últimas semanas, tornar-se-ão mais frequentes e mais intensas, e, por isso, “o impacto nas aves marinhas será grande”.

Como avisa Maria Dias, professora na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL) e investigadora do Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais (CE3C), “períodos longos de tempestades geralmente afetam as aves marinhas por dificultarem a obtenção de alimento, levando, por isso, à emaciação e, por vezes, à morte”.

Como tal, Hany Alonso, da SPEA, realça a importância de monitorizar estes eventos de arrojamento em massa e tentar perceber os seus impactos, especialmente nas espécies mais afetadas, como os papagaios-do-mar, “uma espécie que as pessoas geralmente desconhecem que ocorre nos mares portugueses”.

Quando se encontra uma ave arrojada ainda viva, os especialistas dizem que o mais importante é contactar o serviço ambiental da GNR, o SEPNA, ou o ICNF, para que o animal seja encaminhado para um centro de recuperação.

“Caso seja a própria pessoa a transportar a ave para um centro de recuperação, deve evitar o contacto direto com a ave, usando luvas ou uma peça de roupa, colocar a ave numa caixa de cartão e transportar a ave o mais rapidamente para o centro mais próximo. Não tentem alimentar ou dar água à ave, pois o ideal será que seja avaliada no centro onde lhe poderão prestar os cuidados adequados”, explica o técnico da SPEA.

Sob as ondas
Os impactos das tempestades vão além das aves. Também os animais que vivem sob a superfície das águas marinhas podem sentir os seus efeitos.

Uma vez mais, as consequências das tempestades e da agitação marítima associada dependem da espécie. Como nos explicam Alicia Quirin e Patrícia Nogueira, da Associação para a Investigação do Meio Marinho (AIMM), aquelas que dependem mais de habitats costeiros, em particular de zonas de águas pouco profundas, podem ter mais dificuldades em encontrar alimento por causa da agitação do mar.

“A ação das ondas pode também causar perturbações físicas nos fundos marinhos, causando danos em habitats mais frágeis ou a ressuspensão de sedimentos, que podem afetar algas e invertebrados e, consequentemente, toda a rede alimentar associada”, detalham, em resposta enviada por e-mail.

Devido aos ventos fortes e a mares revoltosos, algumas aves e mamíferos marinhos podem ter de gastar mais energia para se deslocarem de um lado para o outro, o que pode pôr em risco a sua sobrevivência. No caso dos golfinhos, por exemplo, “podem ocorrer dificuldades na navegação, sobretudo em animais mais jovens ou fragilizados”, mas, de forma geral, “estão bem-adaptados para sobreviver num ambiente dinâmico e com condições por vezes adversas”, dizem Alicia Quirin e Patrícia Nogueira.

Como tal, é expectável que os golfinhos e outros mamíferos marinhos sejam capazes de lidar com os efeitos nos mares lançados por tempestades como as que temos enfrentado nos últimos tempos.

Para já não há registo, além das aves marinhas, de mortalidade de animais marinhos associada diretamente às tempestades das últimas semanas. As especialistas da AIMM dizem-nos também que, nestas circunstâncias, é provável que animais já mortos possam acabar por chegar à costa, “mas isso não significa obrigatoriamente que a causa de morte esteja relacionada com as condições meteorológicas”.

“Este tipo de eventos acaba por reforçar a importância de existirem redes de monitorização e de resposta a arrojamentos bem estabelecidas para que se possa perceber melhor os efeitos destes fenómenos na vida marinha. Isto é particularmente importante num contexto de alterações climáticas, em que se prevê que fenómenos extremos se tornem mais frequentes”, salientam.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Cheias no Baixo Mondego: não nos atirem Girabolhos para os olhos




Desenterrou-se agora o projecto da barragem de Girabolhos e atirou-se ao espaço público como solução milagrosa, tardia mas redentora, para um problema complexo: as cheias do Baixo Mondego. Esta, diga-se já, é uma solução intelectualmente desonesta, tecnicamente errada, financeiramente pesada e politicamente estúpida.

Por piada — mas apenas por piada — poderia dizer que, se a garantia de controlo das cheias é feita por um Governo cujo líder, Luís Montenegro, parece acreditar que os caudais do Mondego se regularizam com telefonemas para Madrid, quando toda a bacia hidrográfica se encontra no nosso país, talvez fosse mais eficaz fazer promessas e ir a Fátima.

Mas este não é um assunto para sarcasmos fáceis. Custa dinheiro público, cria expectativas infundadas e, no fim, entrega apenas soundbites de acção governativa. A ciência, porém, não se governa por conferência de imprensa. 

Convém começar pelo princípio. O Baixo Mondego é, historicamente, uma zona susceptível a inundações. Sempre foi. Durante séculos, as cheias sazonais faziam parte do regime natural da região e, mesmo sendo uma calamidade, contribuíam para a fertilidade agrícola dos campos. Foi para domesticar esse comportamento que, a partir das décadas de 1970 e sobretudo de 1980, se avançou com grandes obras de regularização hidráulica: diques longitudinais (para aumentar a capacidade de encaixe de caudais sem inundação adjacente), canais, rectificações e barragens.

Entre estas, destacam-se as barragens da Aguieira e do Raiva, que entraram em exploração nos anos 80 e reduziram de forma clara a frequência e a severidade das inundações a jusante. Isto é um facto histórico e técnico, não uma opinião.

Não foi aí que “algo falhou”. Pelo contrário: durante décadas, o sistema funcionou de acordo com os objectivos para que foi concebido. Também não é sério atribuir as cheias actuais a uma alegada pluviosidade excepcional. Conforme destaca Paulo Fernandes, professor da Universidade de Trás-os-Montes, os dados são claros: Janeiro de 2026 foi apenas o 11.º mês de Janeiro mais chuvoso desde 1940 na série de Coimbra. Não estamos, assim, perante um episódio extremo em termos históricos.

Quando há cheias significativas sem precipitação recorde, o problema raramente está no céu; está quase sempre na bacia.
E é aqui que o debate se torna incómodo e nos remete para o Verão passado — e por isso mesmo politicamente evitado: os incêndios rurais.

Nos últimos anos, e de forma particularmente intensa em 2025, vastas áreas da bacia hidrográfica do Mondego, sobretudo no alto curso e em sub-bacias críticas, foram devastadas por incêndios florestais de grande dimensão. Na bacia do Mondego, na Serra da Estrela e zonas de cabeceira e vertentes declivosas arderam como há muito não se via. Em Agosto houve um incêndio iniciado em Arganil que devastou mais de 65 mil hectares de áreas florestais e de matos; na região de Trancoso, outro que dizimou quase 47 mil hectares. Do ponto de vista hidrológico, isto não é um detalhe: é uma alteração estrutural do comportamento da bacia.

Solos queimados perdem cobertura vegetal, reduzem, de forma drástica, a infiltração, tornam-se mais susceptíveis à erosão e aceleram o escoamento superficial. O tempo de concentração da água encurta; os picos de cheia tornam-se mais rápidos e mais altos; o transporte de sedimentos aumenta, assoreando linhas de água e reduzindo a capacidade hidráulica dos canais. Tudo isto está documentado há décadas na literatura científica. E tudo isto ocorre quer se construa ou não mais uma barragem a montante.

Chegados aqui, importa desmontar o mito central: o que mudaria, na realidade, a barragem de Girabolhos? Do ponto de vista técnico, a resposta é muito menos impressionante do que o discurso político sugere. Girabolhos regularizaria apenas uma fracção limitada da bacia do Mondego — abarcará uma área de drenagem de apenas 980 km², cerca de 15% quer da área total contributiva quer do escoamento total anual.

Não estamos a falar, portanto, de uma albufeira com capacidade para controlar todo o sistema; estamos a falar de uma infra-estrutura que interceptaria uma pequena parte do escoamento a montante, deixando intactos contributos significativos de sub-bacias a jusante e de afluentes críticos.

Além disso, mesmo a regularização inter-anual proporcionada por Girabolhos não elimina cheias em cenários de precipitação concentrada ou de resposta rápida da bacia — precisamente aqueles que os incêndios tornam mais prováveis. As barragens não “absorvem” cheias por decreto: têm limites operacionais, volumes já ocupados antes das chuvas invernais (ainda mais se o uso predominante for hidroeléctrico), regras de exploração e constrangimentos de segurança. Em certos contextos, podem até agravar picos a jusante se forem obrigadas a descarregar.

Dizer, portanto, que Girabolhos “resolveria” as cheias do Baixo Mondego é vender uma solução simples para um problema que deixou de ser simples há muito. É ignorar a degradação do território, a política florestal errática, a ausência de gestão integrada da bacia e a incapacidade crónica de lidar com as consequências hidrológicas dos incêndios. E, em suma, é preferir betão a planeamento, obra visível a intervenção estrutural, fotografia de capacete a políticas de gestão do solo.

Nada disto significa que o debate sobre Girabolhos seja ilegítimo. Pode discutir-se a sua utilidade para armazenamento, para regularização de caudais em certos cenários, para produção energética ou para abastecimento. Aquilo que não se deve fazer é instrumentalizar a barragem como resposta automática a cheias que têm causas múltiplas e bem identificadas. E a imprensa engolir

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Ganhamos à EDP

Barragem de Miranda do Douro

Ganhamos!! Após anos e anos de cartas à PGR, inquéritos fiscais, ações em tribunais arbitrais, denúncias públicas, etc. e solidariedade de alguns partidos ganhámos! Um dos momentos simbólicos mais fortes foi a Carta Aberta de 27 de janeiro de 2021, do MCTM que marcou o confronto formal com as autoridades nacionais em relação à venda das barragens. Assim o Ministério Público vai exigir à EDP a entrega ao Estado de impostos que não foram pagos na altura, no total de 335,2 milhões de euros acrescido de juros.
De todos os Partidos e quadrantes saliento o papel do BE. Tem sido o partido mais próximo das causas do MCTM.
Deputados do BE, como Pedro Filipe Soares e Fabian Figueiredo, apresentaram requerimentos parlamentares e interpelações ao Governo sobre a venda das barragens.
O BE foi o primeiro partido a denunciar publicamente a perda de receitas fiscais para os municípios afectados.
Aos autarcas da Associação de Municípios do Baixo Sabor o meu agradecimento.
Aos políticos de Bragança eleitos pelo PS, Berta Nunes e Sobrinho Teixeira, o social-democrata Adão Silva e a representante do PCP, Fátima Bento também o meu agradecimento.
Por fim, claro, agradeço sobretudo o empenho do Movimento Cultural da Terra de Miranda que foi e continua incansável nesta matéria!

quinta-feira, 9 de maio de 2024

Manifesto para as eleições europeias de 9 de junho


Garantir um Pacto Ecológico Europeu 2.0 reforçado é imperativo para a democracia e a sustentabilidade económica da UE: no dia 9 de junho vamos Votar na Natureza!

O próximo ciclo político europeu 2024-2029 afigura-se de uma importância crucial na construção de um futuro digno, saudável e próspero para todos os  europeus. Para  assegurar que cumprimos a curta janela temporal desta década para reverter o curso atual das emissões carbónicas que comprometem a vida no Planeta até ao final do século e para construir novos paradigmas na mobilidade, na energia, na agricultura, na gestão de recursos e na recuperação de ecossistemas vitais. Será essencial colocar em prática novas formas de trabalhar e de viver com a natureza. É necessário garantir que a União Europeia (UE) assume o compromisso de ser pioneira mundial na descarbonização da economia, na despoluição do planeta, na desintoxicação dos bens que consumimos e na recuperação da natureza.

Medidas e Políticas mais urgentes
Embora o Pacto Ecológico Europeu tenha feito progressos sólidos na abordagem da crise climática e tenha avançado no que respeita à poluição da água e do ar, mostrou-se débil quanto aos tóxicos e profundamente contraditório no que respeita à biodiversidade, renunciando a muitas oportunidades de progresso.

Por isso consideramos prioritário:
  1. Aprovar  e  implementar  com  urgência  a  Lei  de  Restauro  da  Natureza,  financiando  a recuperação da natureza em terra e nos oceanos;
  2. Apresentar uma nova lei sobre resiliência hídrica e climática que dê prioridade ao restauro e à proteção dos ecossistemas de água doce;
  3. Aprovar a lei relativa aos sistemas alimentares sustentáveis (SFS);
  4. Implementar a Estratégia do Prado ao Prato (F2F);
  5. Rever o regulamento relativo ao registo, avaliação, autorização e restrição dos produtos químicos (REACH), no sentido de reforçar a sua capacidade de promover um ambiente não tóxico;
  6. Reforçar a Convenção de Minamata, reduzindo o uso, emissões e perdas de mercúrio, bem como o seu comércio e exposição;
  7. Promover  a  Estratégia  para  os  Químicos  Sustentáveis  (CSS)  e  um  ambiente sem tóxicos, eliminando rapidamente os químicos mais perigosos, incluindo os PFAS, os retardantes inflamáveis e o PVC nos plásticos;
  8. Aumentar as ambições de mitigação das emissões GEE através do desenvolvimento de um pacote de medidas de emergência climática adequado ao objetivo 90 até 2040 (fit-for-at-least-90-by-2040), com um conjunto convincente de medidas facilitadoras;
  9. Implementar a Estratégia da UE para o Metano;
  10. Adotar o regulamento relativo à utilização sustentável dos pesticidas;
  11. Rever a Diretiva relativa aos Nitratos, com a finalidade de aumentar a proteção das águas superficiais (rios e albufeiras) e subterrâneas, contra a poluição causada por nitratos de origem agrícola, restringindo o uso de fertilizantes e reforçando as medidas para reverter a contaminação, em particular nas zonas vulneráveis, promovendo a qualidade das massas de água e prevenindo a eutrofização. Incluindo, de igual modo, a revisão do Código de Boas Práticas Agrícolas (CBPA).
  12. Reformar a PAC para a tornar um instrumento justo da tão necessária e urgente transição e garantir que os agricultores que recorrem a práticas agro-ecológicas sejam adequadamente apoiados e tenham uma vida decente;
  13. Implementar a Estratégia UE para a Biodiversidade 2030 e a Iniciativa para os Polinizadores da União;
  14. Implementar a Estratégia UE para as Florestas 2030 e a lei de monitorização florestal;
  15. Colaborar com as ONGA e contribuir para a negociação internacional com vista à adoção de um tratado internacional vinculativo para acabar com a poluição dos plásticos;
  16. No que toca à mineração, assegurar o direito das populações a dizer não e promover a denúncia de zonas de sacrifício;
  17. Implementar o Regulamento de Matérias primas críticas e a defesa da redução do consumo de minérios e outros recursos, apostando na sua reutilização e no direito à reparação, criando uma verdadeira economia circular;
  18. Rever a Diretiva relativa ao ruído ambiente, reforçando as medidas de avaliação e gestão do ruído ambiente e a melhoria do ambiente acústico ao nível comunitário, de forma a salvaguardar a saúde e o ambiente, garantindo uma informação mais ampla ao público;
  19. Apresentar um pacote de medidas no âmbito do "Acordo sobre o Oceano";
  20. Aplicar plenamente a gestão das pescas baseada nos ecossistemas através da política comum das pescas;
  21. Apresentar o Plano de Ação para a Gestão dos Nutrientes; 
  22. Rever a legislação de bem-estar animal, incluindo o reforço das medidas relativas à proteção dos animais durante o transporte, o regulamento relativo ao bem-estar dos animais detidos para fins económicos e o regulamento relativo à proteção dos animais no momento da occisão/ abate;
  23. Adotar uma agenda para uma economia do bem-estar e de pessoas saudáveis: através do ajustamento do Semestre Europeu, utilizando indicadores de bem-estar além do PIB, que tenham em conta a sustentabilidade;
  24. Promover modelos empresariais que não se baseiem no valor para os acionistas e na maximização dos lucros, mas que tenham em conta a forma como os ecossistemas contribuem para a prosperidade e resiliência;
  25. Aumentar o investimento em competências, formação, criação de emprego e investigação em sectores-chave da economia verde e hipocarbónica;
  26. Acelerar sistematicamente a inovação em produtos limpos e sustentáveis através de regulamentação, incentivos, normas e condições e investigação.
  27. Comunicar e mostrar os múltiplos benefícios da natureza para as pessoas, a sociedade e a economia;
  28. Apresentar um Plano de Ação do 8.º Programa de Ação Ambiental (8EAP) para 2030, a fim de abordar as áreas em que os progressos são insuficientes.
  29. Assumir o compromisso de acelerar a inovação e a substituição de produtos tóxicos por produtos químicos seguros e ecológicos, a fim de criar os produtos químicos certos para o futuro – através da investigação, de uma melhor governação, da fixação de preços e da regulamentação;
  30. Adotar uma agenda para melhorar o cumprimento legislativo, demonstrando uma vontade clara de impedir o desrespeito da legislação comunitária através de uma instauração mais rápida e de uma transparência total dos processos por infração, de um aumento significativo da capacidade do pessoal da CE para fazer cumprir a lei e de sanções financeiras e reputacionais mais dissuasoras para os intervenientes no mercado;
  31. Rever a legislação de Avaliação de Impacte Ambiental no sentido de tornar a sua implementação mais efetiva, por exemplo, através do reforço da dimensão da participação pública, ou de uma mais eficaz monitorização da implementação das medidas de compensação.
Organizações subscritoras
Francisco Henriques |ALAMBI – Associação para o Estudo e Defesa do Ambiente do Concelho de Alenquer
Carlos Cabrita | Almargem – Associação de Defesa do Património Cultural e Ambiental do Algarve
José Carlos Marques | Campo Aberto – Associação de Defesa do Ambiente
Helder Careto | Cidamb – Associação Nacional para a Cidadania Ambiental
Teresa Santos | Dunas Livres
Nuno Gomes Oliveira | FAPAS – Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade
Rogério Ivan | GEOTA – Grupo de Estudos de Ordenamento do Território
Paulo Pimenta de Castro | IRIS – Associação Nacional de Ambiente
Guilherme Azambuja | Juntos pelo Sudoeste
Graça Passos |PTF – Plataforma Transgénicos Fora
Alexandra Azevedo | QUERCUS-ANCN – Associação Nacional de Conservação da Natureza 
Gonçalo Carvalho | Sciaena Oceano, Conservação e Sensibilização
Domingos Leitão | SPEA – Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves 
Francisco Ferreira | ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável

sábado, 25 de novembro de 2023

Carta aberta aos defensores do eucalipto


Eu já vi eucaliptos a arder. É uma árvore assustadoramente pirófita. O som dele a arder é horripilante, sibilante, as explosões que disparam a madeira em todos os sentidos e os seus frutos até longas distâncias, incendiando novas árvores. É imparavél. O eucaliptal está de tal ordem desorganizado, que infelizmente ocupou a sucessão habitual do carvalhal, pelo menos a Norte e Centro do País. 
Há pequenos resquícios como a MilVoz , da Silveira, do Movimento Gaio, Medronhalva e do Projecto 100.000 Árvores
O eucalipto é claramente uma árvore invasora, infestante e prejudicial à biodiversidade indígena Portuguesa. 
Como já disse, os Franceses é que foram espertos: há mais de 100 anos que não quiseram o eucalipto, mantêm o carvalhal como sucessor clímax e estão e são mais ricos que nós. Os franceses tiveram vários Presidentes da República e confiam na Ciência Florestal do seu País. Não querem eucalipto!! 
Aqui em Portugal também temos uma política de 4 em 4 anos, que altera tudo, porém mantem e subjuga-se ao lóbi das celuloses. 
Hipoteticamente se o eucaliptal nacional não tiver controle humano e deixado em completo abandono, acabará por morrer por si próprio, sem antes passados mais uns 20 anos de incêndios, quiçá mais gente morta (não bastou a tragédia de Pedrógão), mais desertificação e o País sem água para abastecer as bacias hidrográficas. Muito trágico e muito triste. 
Quando a aposta económica, social e ecológica seria o ecossistema do carvalhal.

domingo, 29 de outubro de 2023

Equador anuncia cortes de energia devido a seca na Amazónia

Seca no Rio Negro, no Amazonas [Fonte: Folha de Pernambuco]

Com uma forte dependência elétrica das barragens construídas na região amazónica, os reservatórios não têm água suficiente para satisfazer a crescente procura nacional.

Em situações como esta, o Equador está habituado a importar excedentes de eletricidade da Colômbia, mas o país vizinho também enfrenta uma situação de seca e toda a sua capacidade de produção está a ser utilizada para abastecer o mercado interno, segundo as autoridades equatorianas.

A interligação elétrica com o Peru é ainda muito limitada e só nas próximas semanas é que o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Europeu de Investimento (BEI) deverão assinar um financiamento de quase 250 milhões de dólares (cerca de 236 milhões de euros) para a construção de uma linha elétrica de alta tensão de 500 mil volts no lado equatoriano da fronteira, que só estará operacional pelo menos em 2026.

Os primeiros cortes de eletricidade começaram na sexta-feira passada às 08:00 horas locais (13:00 em Lisboa) na maior parte do país e surpreenderam muitos cidadãos que desconheciam a medida anunciada menos de 24 horas antes pelo Governo.

As ruas tornaram-se em alguns momentos caóticas, uma vez que os semáforos deixaram de funcionar, obrigando a polícia a tentar gerir o trânsito nos cruzamentos mais movimentados.

Estes cortes de energia, que poderão prolongar-se até ao início de dezembro, deverão durar quatro horas por dia nas regiões serranas e amazónicas e três horas na região costeira, das 07:00 às 18.00.

Prevê-se que os cortes não afetem a produção de petróleo, um dos principais pilares da economia equatoriana, mas nenhuma autoridade foi capaz de especificar o impacto económico da medida.

sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Ano de seca. Colheita de cereais para outono e inverno é "a pior de sempre"


A campanha de colheita de cereais para grão de outono e inverno, já concluída, é “a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas”, indicou esta quinta-feira o Instituto Nacional de Estatística. O ano agrícola volta a sofrer os efeitos da situação de seca, quadro que abrange 96,9 por cento do território continental do país.“

A colheita dos cereais para grão de outono/inverno está concluída, confirmando a atual campanha como a pior de sempre para todas as espécies cerealíferas, resultado dos decréscimos de área de produtividade”, adianta o INE nas previsões agrícolas agora divulgadas.

Os cereais semeados tardiamente, por causa das chuvas de dezembro do ano passado e janeiro deste ano, foram “muito penalizados”. Por outro lado, a falta de precipitação na primavera e as altas temperaturas penalizaram igualmente o desenvolvimento de cereais praganosos, o que deu azo a um espigamento precoce.A seca abrange 96,9 por cento do território do continente, dos quais 34,4 por cento, a sul do Tejo, estão sob seca severa ou extrema.

Já a instalação de culturas de primavera e verão “decorreu com normalidade”, dado que o regadio está assegurado em 60 albufeiras. Cinco albufeiras hidrográficas mantêm-se, desde 2022, debaixo de restrições de rega.

O volume de água armazenada nas principais albufeiras com aproveitamento hidroagrícola, em Portugal continental, encontrava-se em julho a 66 por cento da capacidade total, aquém dos 71 por cento do mês anterior, mas acima do período homólogo, quando estava a 61 por cento.

Ainda segundo o Instituto Nacional de Estatística, a “escassa produção de matéria verde para o pastoreio” obrigou à antecipação da suplementação da pecuária em regime extensivo, com base em alimentos conservados.

No Alentejo, as quebras de produtividade da matéria verde foram de 20 a 80 por cento, com a maior redução a ter lugar nos concelhos de Castro Verde, Ourique, Mértola e Almodôvar. A norte do Tejo, todavia, a situação “não assume a mesma gravidade, estando a suplementação com alimentos grosseiros armazenados e/ou alimentos concentrados mais próxima dos parâmetros normais”.

Outras culturas
“De um modo geral”, escreve o INE”, as culturas de primavera e verão “apresentam um regular desenvolvimento, embora no caso do tomate para indústria se antevejam produtividades inferiores ao normal”.

Os pomares de pereiras e macieiras devem sofrer reduções de produtividade de, dez e 15 por cento, respetivamente, ao passo que a produção de cereja registou uma queda de 55 por cento, relativamente à anterior campanha.

Já a área de milho de regadio deverá igualar o valor do ano anterior – esta cultura, em fase de enchimento do grão, mostra “um bom desenvolvimento vegetativo e sem problemas fitossanitários relevantes”.Nas vinhas, o INE não anota acidentes sanitários relevantes e as vindimas devem ser antecipadas. Estima-se que a produtividade aumente em todas as regiões, com a exceção do Dão. O rendimento unitário global deve atingir os 42 hectolitros por hectare, mais oito por cento em comparação com 2022.

A maioria dos arrozais estava, no final de julho, na denominada fase de encanamento. Esta cultura mostra um “bom desenvolvimento vegetativo, embora com a presença de infestantes”, desde logo nas zonas litorais do Baixo Mondego e Vouga.

No norte e no centro, o desenvolvimento da batata de regadio beneficiou das condições meteorológicas. “Na Península de Setúbal, a produtividade da batata de consumo foi idêntica à da campanha anterior, sendo que na batata para indústria foi superior, estimando-se um acréscimo global na ordem de cinco por cento”, lê-se no documento do INE.

Mesmo com um quadro meteorológico desfavorável, os pomares de pessegueiros estão com produtividades de cerca de dez toneladas por hectare, volume próximo do habitual. No que diz respeito à amêndoa, a produtividade global deve crescer 15 por cento.

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Falta de água ou falta de uso sustentável da água?


Por Maria Carolina Varela, Expresso
“A agricultura (irrigação, pecuária e aquacultura) representa 69% das captações anuais de água a nível mundial, tornando-a no setor que mais consome água no planeta.” Fonte ONU, Centro Regional de Informação para a Europa Ocidental
Quem não poupa água e lenha, não poupa nada do que tenha. Este dizer é uma forma popular de avisar as pessoas para a necessidade de usar a água de forma sustentável, foi provavelmente criado por alguém que tinha a noção empírica de sustentabilidade sem conhecer a palavra “sustentável”.
O problema da escassez de água no Sul de Portugal e da Península Ibérica é uma calamidade penosa que deriva da descontrolada expansão das culturas em regadio intensivo e campos de golf. Em zonas onde o clima é caracterizado por baixa quantidade de chuva, a atividade Humana dependente da disponibilidade de água tem de ser planeada para os valores mínimos de precipitação e não para a média.
O uso sustentável da água tem de começar pelo licenciamento prudente dos usos da terra. Porém, o que assistimos é à aprovação incessante, de forma danosa para os interesses do país, de vastas áreas de regadio e outras atividades de que implicam enorme consumo de água. As corporações que buscam o sul de Portugal para instalar atividades depredadoras de água são movidas pela voracidade do lucro. De per se nenhuma empresa vai pautar os seus investimentos pelo uso sustentável da água, impor contenção é da responsabilidade das autoridades que têm a tutela do assunto.
As empresas privadas têm conseguido expandir as áreas de culturas regadas aos milhares de hectares. Ao invés da agricultura que se baseie em uso sustentável da água, esta agricultura intensiva gera lucros enormes, rápidos e fáceis e é feita em exploração do tipo mineira. Quando os recursos da água e do solo se esgotam abandonam essa zona e reiniciam o ciclo noutro sítio ou noutro país qualquer.
Entre as culturas intensivas de regadio destacam-se a produção de frutas e legumes em estufa. No Mediterrâneo o pináculo é atingido nas imensas áreas de estufas em Almeria, de tal maneira imensas que tomaram o epiteto de “mar de plástico”. Até à década de 1950 na zona dominava a vegetação rasteira, as pastagens e algumas pequenas parcelas para cultivo sazonal. Em Portugal está a desenrolar-se um cenário idêntico com as estufas em Odemira. Mas o processo está a expandir-se a outras zonas do país.
O consumo insustentável da água vai muito para além das estufas. A milenar oliveira, tão respeitada pela sua frugalidade, pela capacidade de crescer e dar azeitona em montes e serras de solos esqueléticos pedregosos com escassa chuva e estios abrasadores, está a ficar irreconhecível. Está trasvestida numa cultura agrícola intensiva em regadio, onde já não existem as majestosas e centenárias árvores, mas umas moitas grotescas amontoadas em linhas, ridiculamente atarracadas que têm vida económica curta. Mas não é apenas a oliveira. Ao cortejo juntam-se outras espécies cultivadas em sequeiro há séculos e louvadas pela sua resistência como a vinha e a amendoeira. E já se fazem experiências-piloto para sobreiro com rega gota-a-gota.
A indústria (incluindo a geração de energia) é responsável por 19% do consumo de água e as famílias por 12%, todo o restante é consumido pelo sector agrícola.
Por baixo desses milhares de “árvores” transformadas em sebes a poder de máquinas consumidoras de combustível, estão quilómetros de tubos de plástico com goteiras que drenam incontáveis metros cúbicos das albufeiras que só têm a água da chuva como fonte de alimentação. Para agravar a escassez estival de água, muitas albufeiras têm as margens plantadas com eucalipto, uma árvore que a evolução natural dotou com uma fisiologia e arquitetura de raízes capaz de ir buscar água a profundidades sem par nas espécies mediterrânicas autóctones. As barragens do Alentejo e do Algarve foram construídas para complemento das culturas de sequeiro. As que nos anos recentes exibem mais problemas situam-se nos cursos dos rios Sado, Mira, Odelouca, Arade e afluentes terminais do Guadiana. Todos estes cursos de água nascem nas serras do Algarve que estão cobertas em grandes extensões por eucalipto que substituíram o sobreiro, as pastagens de sequeiro e outros usos seculares dessas terras.
Este consumo insustentável de água é um tabu que ninguém aborda, sejam políticos ou técnicos do setor.
Todos os discursos políticos e técnicos, repetidos pelos meios de informação, culpam a SECA. Quando o problema toma dimensões dramáticas, surgem os remendos -medidas conjunturais a jusante como o aumento do preço da água e o apelo à diminuição do consumo doméstico. São paliativos para afastar responsabilidades e encobrir o cerne do problema. Os midia espalham que os cidadãos urbanos podem contribuir para o alívio do problema se abrirem menos as torneiras das suas casas. Quando o nível da água das albufeiras se torna critico é certo que isso se torna imperativo até à próxima época de chuvas. Mas difundir que o uso familiar é parte do problema e incutir essa ideia no cidadão ingénuo é profundamente desonesto, sobretudo quando se sabe que o consumo doméstico representa pouco mais de 10% do consumo total de água.
Transferir a responsabilidade para o nível pessoal e criar a culpa no cidadão é toldar-lhe a capacidade de questionar sobre as causas estruturais e porque é que estão a ser omitidas.
Os Povos Mediterrânicos, nomeadamente o Sul de Portugal, lidam com a prolongada seca estival há milénios. Já os Romanos construíram barragens no SW da Espanha, como a albufeira de Proserpina, perto de Mérida, que foi sofrendo as necessárias manutenções e ainda hoje funciona. Os sistemas de regadio que os Árabes trouxeram para a Península Ibérica são mais um dos engenhos Humanos para o aproveitamento judicioso da água. Os egípcios usavam os nilómetros para medir o nível das cheias do Nilo e prever as colheitas em consonância. Os ciclos de chuva / seca já são descritos na BIBLIA, Gênesis 41, « Então chegaram ao fim os sete anos de abundância que houve na terra do Egito. E, como José havia predito, começaram a vir os sete anos de fome. Havia carestia e fome em todas as terras vizinhas, mas em todo o Egito havia o que comer.… E concluiu José: “Agora, portanto, que o Faraó escolha um homem inteligente e sábio e o estabeleça sobre toda a terra do Egito. Que o Faraó aja e institua funcionários supervisores na terra para recolher um quinto da colheita do Egito durante os próximos sete anos de fartura. Eles deverão reunir todos os víveres que puderem desses bons anos que virão e acumular reservas de trigo que, sob o controle do Faraó, serão armazenados nas cidades. Essa poupança servirá de reserva especial para os sete anos de fome que se abaterão sobre o Egito, a fim de que a terra não seja aniquilada e o povo não morra de fome!”
Os ciclos de chuva excelente e seca sempre existiram. Acontecem de forma errática e fazem parte da normalidade do clima de cada região. Viver com a média é bastante acessível, o engenho está em saber viver com os mínimos. Mas não há nenhuma técnica, por mais sofisticada, que permita gastar mais água do que a que as albufeiras podem armazenar com a precipitação que os céus nos oferecem.

Saber mais:

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Alguém pensa que o preço dos alimentos vai descer?



A médio prazo o preço dos alimentos vai forçosamente aumentar com os custos de produção. A prioridade dada à transição digital sobre a transição ecológica é de uma irresponsabilidade revoltante.

Helena Lopes, 19 de Abril de 2023
Sabe-se que haverá cada vez mais secas e cheias, que a área de terras aráveis vai diminuir e a população aumentar, que a qualidade dos solos se está a deteriorar. Como se pode então pensar que o preço dos alimentos pode descer? É certo que mais de 50% desse preço vai para a transformação e a distribuição, e que parte da inflação se deve à concentração do capital no sector agroalimentar. Mas a médio prazo o preço dos alimentos vai forçosamente aumentar com os custos de produção. Neste contexto, a prioridade que tem sido dada à transição digital sobre a transição ecológica é de uma irresponsabilidade revoltante.A água não chega para todos.A água é a ilustração mais gritante da insegurança alimentar que nos ameaça. 

O Público  reproduziu há dias declarações de especialistas do Alqueva: a água não chega para tudo e para todos. Sabe-se que a chuva total no planeta será a mesma, mas vai chover em locais e com intensidade diferente do passado. A Terra aqueceu, em média, 1,2graus desde 1850, mas aqueceu 4 graus na Gronelândia e 1,7 graus na Europa ocidental. Vai ser necessário escolher. Vamos usar a água para o turismo, o uso doméstico, a agricultura intensiva ou a agricultura tradicional? O Plano Nacional da Água deverá ser revisto dentro de dois anos. Aguardemos as prioridades que aí serão estabelecidas.

Quem estiver atento percebe que a segurança alimentar é uma prioridade da diplomacia internacional da China. São disso exemplo as relações com o Brasil, a compra de terras em África e a amizade com Putin, porque o aquecimento climático vai transformar a Sibéria numa das maiores regiões agrícolas do mundo. Ninguém sabe como vai evoluir o preço dos alimentos, mas descer, é pouco provável. Um europeu consome 3,6 toneladas de petróleo por ano, um africano 0,6; um americano consome 100kg de carne, um paquistanês 16. Sabe-se que o modo de vida dos ocidentais consome os recursos de duas Terras por ano e é responsável pelos desastres ecológicos. No entanto, muitos ficam surpreendidos por os valores ocidentais perderem influência, por os "direitos humanos” não importarem aos povos do Sul. 
Como se o Ocidente tivesse monopólio do bem. Como se os outros povos não sofressem já de insegurança alimentar e não vissem que os ocidentais continuam a não dar prioridade à transição ecológica.
Quem estiver atento percebe que a segurança alimentar é uma prioridade da diplomacia internacional da China

Transição digital e transição ecológica Parece que os governos não se apercebem que existe uma gigantesca assimetria entre transição digital e transição ecológica. Ora, enquanto a segunda exige uma intervenção pública sem precedentes, para a primeira, bastaria deixar empresas e mercados seguirem o
business as usual.
Com efeito, a transição digital agrada à maioria dos cidadãos, consumidores e trabalhadores, e é impulsionada pelas empresas e pelos centros de inovação mais poderosos do mundo. A digitalização do trabalho e dos serviços públicos não é submetida processos democráticos. Pelo contrário, a transição ecológica não agrada a ninguém. Pede sobriedade aos consumidores, ameaça destruir os empregos dos trabalhadores e diminui a competitividade das empresas.
A transição digital agrada à maioria dos cidadãos, consumidores e trabalhadores. Pelo contrário, transição ecológica não agrada a ninguém.

Por muito que desagrade a alguns, a transição ecológica requer processos de planeamento, nacionais e territoriais, exigentes e uma multidão de taxas e regulações impopulares. Ou seja, requer um projeto político liderado por uma entidade que represente o bem comum, projeto que deve ser legitimado por processos democráticos. E aqui está o problema. Estando os governos e os partidos reféns do seu eleitorado, quem vai alertar os cidadãos e prepará-los para a transição ecológica? O Plano de Recuperação e Resiliência, e a sua atualização, financia e incentiva formações em competências digitais, essenciais para o mercado de trabalho e o reforço da competitividade. É a agenda “Inovação, digitalização e qualificações como motores do desenvolvimento". Para a transição ecológica, preveem-se incentivos às empresas e aos cidadãos, sobretudo para produção de energia verde e eficiência energética. E nada sobre formações e competências ecológicas.

A inflação tem sem dúvida causas conjunturais. Mas também é estrutural e premonitória
Note-se que as competências digitais têm objetivos exclusivamente instrumentais (interesse económico) enquanto as competências ecológicas teriam objetivos éticos (o interesse coletivo). São então acusadas de ideológicas, por subverterem a abstinência liberal, que apregoa a neutralidade ética. Segundo esta, a eficiência económica e o enriquecimento individual são valores não-ideológicos. A inflação tem sem dúvida causas conjunturais. Mas também é estrutural e premonitória. É imperativo distanciarmo-nos do curto prazo e perceber que a inflação atual encerra uma luta sobre quem vai pagar os danos ecológicos. Apelo, uma vez mais, os ministérios e as universidades a preparar os jovens para o mundo que aí vem.