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sexta-feira, 17 de março de 2023

Os países ricos exportam o dobro de resíduos plásticos para o mundo em desenvolvimento do que se pensava anteriormente


Os países desenvolvidos há muito enviam seus resíduos para o exterior para serem jogados fora ou reciclados – e uma equipa independente de especialistas diz que eles estão inundando o mundo em desenvolvimento com muito mais plástico do que o estimado anteriormente.

De acordo com uma nova análise publicada na semana passada, os dados das Nações Unidas sobre o comércio global de resíduos não contabilizam plásticos “ocultos” em têxteis, fardos de papel contaminados e outras categorias, levando a uma subestimativa anual dramática de 1,8 milhão de toneladas métricas. da quantidade de plástico que sai da União Europeia, Japão, Reino Unido e Estados Unidos para os países pobres. Os autores destacam os riscos ambientais e de saúde pública que as exportações de plástico representam no mundo em desenvolvimento, onde os importadores frequentemente despejam ou incineram um excesso incontrolável de resíduos plásticos.

“Os produtos químicos tóxicos desses plásticos estão envenenando as comunidades”, disse Therese Karlsson, consultora técnica e científica da Rede Internacional de Eliminação de Poluentes, ou IPEN, sem fins lucrativos. O IPEN ajudou a coordenar a análise junto com uma equipe internacional de pesquisadores da Suécia, Turquia e Estados Unidos

Muitas estimativas da escala do comércio de resíduos plásticos fazem uso de um banco de dados da ONU que rastreia diferentes tipos de produtos por meio de um “sistema harmonizado de descrição e codificação de mercadorias”, que atribui a cada categoria de produto um código que começa com as letras HS. A HS 3915 — “resíduos, aparas e sucata” de plásticos — costuma ser considerada por pesquisadores e formuladores de políticas como a descrição do volume total de plástico comercializado globalmente. Mas a nova análise argumenta que isso é apenas “a ponta do iceberg dos resíduos plásticos”, já que o HS 3915 deixa de lado grandes quantidades de plástico incluídas em outras categorias de produtos.

Roupas descartadas, por exemplo, podem ser rastreadas como HS 5505 e não contabilizadas como lixo plástico, embora 60 a 70 por cento de todos os têxteis sejam feitos de algum tipo de plástico. E outra categoria chamada HS 6309 – roupas e acessórios usados ​​– é considerada pela ONU como reutilizada ou reciclada e, portanto, não é considerada resíduo, embora cerca de 40% dessas roupas exportadas sejam consideradas inaproveitáveis ​​e acabem sendo despejadas em aterros sanitários. .

A contaminação plástica em fardos de papel – as enormes pilhas de papel não classificado que são enviadas para o exterior para serem recicladas – também tende a ser negligenciada nas estimativas do comércio internacional de resíduos plásticos, embora esses fardos possam conter de 5 a 30 por cento de plástico que deve ser removido e descartado.

A contabilização de plástico apenas dessas duas categorias de produtos aumenta as exportações de resíduos plásticos de todas as regiões analisadas em até 1,8 milhão de toneladas métricas por ano - 1,3 milhão de fardos de papel e meio milhão de têxteis. Isso é mais do que o dobro do plástico contabilizado quando apenas “resíduos, aparas e sucata” de plástico são analisados.

Categorias de produtos adicionais, como eletrónicos e borracha, agregam ainda mais ao comércio global de resíduos plásticos, embora Karlsson tenha dito que a falta de dados torna difícil quantificar sua contribuição exata. Todo esse plástico sobrecarrega a infraestrutura de gerenciamento de resíduos dos países em desenvolvimento, fazendo com que grandes quantidades de resíduos plásticos acabem em lixões, aterros sanitários ou incineradores. A queima desses resíduos causa poluição do ar perigosa para as comunidades próximas, e lixões e aterros sanitários podem libertar produtos químicos como PCBs – um grupo de compostos que podem causar cancro em humanos – no solo e no abastecimento de água.

Mais de 10.000 produtos químicos são usados ​​na produção de plástico, e um quarto deles foi sinalizado por pesquisadores por sua toxicidade e potencial de acúmulo no meio ambiente e no corpo das pessoas. O relatório pede maior transparência das indústrias de plástico e petroquímica sobre os produtos químicos que colocam em seus produtos de plástico e que os reguladores exijam que usem menos produtos químicos não tóxicos.

Karlsson também pediu a proibição total do comércio global de resíduos plásticos, juntamente com limites aplicáveis ​​à quantidade de plásticos que o mundo produz em primeiro lugar. “Independentemente de como lidamos com o lixo plástico, precisamos diminuir a quantidade de plástico que geramos”, ela disse a Grist, “porque a quantidade de lixo plástico produzida hoje nunca será sustentável”.

Sem uma ação agressiva para reduzir gradualmente a produção de plástico, o mundo está a caminho de produzir 26 biliões de toneladas métricas de resíduos plásticos até 2050 , a maioria dos quais será incinerada, despejada ou enviada para aterros sanitários.

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Marinha brasileira vai afundar porta-aviões tóxico no Atlântico


Após 37 anos de serviço na marinha francesa e 10 anos sob a bandeira brasileira, o Brasil decidiu afundar o seu porta-aviões São Paulo ao largo da sua costa do Atlântico Nordeste, apesar da presença de elevados níveis de amianto e de resíduos tóxicos a bordo. Face a certos riscos de poluição dos ecossistemas da região e da cadeia alimentar marinha, várias ONG denunciam este crime ambiental.

Anteriormente conhecido como o Foch, este porta-aviões participou nos primeiros testes nucleares franceses no Pacífico, e foi destacado para África, Médio Oriente e ex-Jugoslávia, até ser substituído pelo nuclear Charles-de-Gaulle. Em 2000, este antigo porta-estandarte da marinha francesa foi vendido ao Brasil pela modesta soma de 12 milhões de dólares. Para o tornar plenamente operacional, teria sido uma intervenção no valor de 80 milhões de dólares. Nem a marinha francesa nem a brasileira investiriam na remodelação.

A empresa turca de reciclagem marítima Sök Denizcilik adquiriu o casco por 10,5 milhões de dólares. Com a ajuda do rebocador holandês ALP Guard, o São Paulo partiu para águas turcas. Contudo, ao chegar ao Estreito de Gibraltar, as autoridades ambientais turcas recuaram, temendo que contivesse mais amianto do que o esperado. No seu regresso ao Brasil, infelizmente, não conseguiu atracar, pois a viagem tinha danificado seriamente o estado do seu casco.

A Associação Robin Hood descreveu o antigo porta-aviões como um "pacote tóxico de 30.000 toneladas".

Segundo um estudo realizado pela norueguesa Grieg Green, o porta-aviões continha 9,6 toneladas de amianto, 644,7 toneladas de metais pesados e 10.000 lâmpadas fluorescentes de mercúrio. Numa altura em que os nossos oceanos e biodiversidade marinha já estão sob pressão e o recém-eleito presidente brasileiro, Lula da Silva, comprometeu-se a pôr fim aos múltiplos ecocídios que afetaram o Brasil durante a era Bolsonaro, este afundamento controlado parece ser um novo crime ambiental. Segundo organizações ambientalistas, como a Greenpeace Brasil, as autoridades brasileiras terão violado vários tratados internacionais dos quais são signatárias:

- a Convenção de Basileia sobre o Controlo dos Movimentos Transfronteiriços de Resíduos Perigosos e sua Eliminação

- a Convenção de Londres sobre o Controlo da Poluição Marinha e sobre a Proibição de Dumping de Resíduos Industriais no Mar;

- a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes.

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Pele de cogumelo pode ser usada para criar chips eletrónicos biodegradáveis


O mundo está em constante mudança e nós, claro está, temos que mudar a avançar com ele. Neste sentido, as investigações trazem novidades com regularidade, como, por exemplo, novas formas mais sustentáveis de criar os produtos que usamos no nosso dia-a-dia.

Assim, dados mais recentes indicam que a pele dos cogumelos pode ser usada como substrato para a criação de chips eletrónicos biodegradáveis.

Pele de cogumelo para fazer chips biodegradáveis

Com a exigência da produção de cada vez mais chips eletrónicos para responder às necessidades do mercado, a indústria depara-se com um problema a curto e longo prazo relacionado com a poluição desses mesmos componentes. Como tal, é fundamental que sejam encontradas soluções para lidar com este problema que nos afeta a todos.

Assim, as investigações científicas realizadas por cientistas austríacos podem agora ter encontrado uma alternativa amiga do ambiente. Trata-se de uma pesquisa designada MycelioTronics e consiste no uso de pele de fungos como forma de substrato para a criação de PCBs (Printed Circuit Boards) biodegradáveis. Os investigadores descobriram que assim que a pele é removida e seca, esta consegue desenvolver muitas das propriedades encontradas nos PCBs que são usados em todos os dispositivos eletrónicos do mercado.

A pesquisa baseia-se no fungo Ganoderma lucidum para a criação de chips e PCBs, cuja pele é fina, flexível e pode ser dobrada mais de 2.000 vezes, preservando ainda assim a sua integridade estrutural. Para além disso é também um bom isolante e pode suportar temperaturas acima dos 200 graus, o que é mais do que os PCBs conseguem suportar.

Mas, como é normal, tudo isto tem que ser aplicado na prática para ver se é ou não viável. Assim, os investigadores já realizaram várias experiências onde revestiram a pele seca do fungo com uma camada de cobre, crómio e ouro de forma a melhorar a condutividade. Por cima usaram um laser para imprimir trilhos condutores e descobriram que o produto se comportava como um PCB, tendo ainda como vantagem o facto de ser biodegradável.


O fungo Ganoderma lucidum é uma espécie de cogumelo muito popular na Ásia, sendo também conhecido pelo nome Reishi e usado na medicina tradicional chinesa há mais de 4.000 anos. Há quem o descreva como cogumelo da imortalidade.

Assim, quem sabe daqui a uns anos os chips dos nossos equipamentos tecnológicos não serão baseados neste cogumelo, evitando assim enormes quantidade de resíduos?

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Why Are We Being Fed By a Poison Expert?


Is the ‘old’ Monsanto, the one responsible for producing Agent Orange, PCB’s and DDT and a terrible record at covering up and denying the tragedies that have resulted from their use, the same as the ‘new’ Monsanto, the one at the forefront of research in plant gene technology? We argue their scientific and ethical track record is entirely relevant to what they do today.

Em português

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Convenção de Estocolmo


Portugal aprovou através do Decreto nº 15/2004 de 3 de Junho, a Convenção sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (POP), adoptada em Estocolmo em 22 de Maio de 2001.
Os poluentes orgânicos persistentes designados por “POP”(persistent organic pollulants), são substâncias químicas que resistem à degradação sob condições naturais e que, dispersas no ambiente, se propagam através dos elementos (vento, chuva e água) ou de vectores animais, a distâncias consideráveis das suas fontes. Estas substâncias são bio-acumuláveis através da rede alimentar e podem pôr em risco a saúde humana e o ambiente.

São dois os instrumentos definidos pela comunidade internacional como ponto de referência para a resolução da questão dos poluentes orgânicos persistentes :

O Protocolo UNECE, aberto à adesão de todas as partes da Convenção das Nações Unidas sobre a Poluição Atmosférica Transfronteiras a Longa Distância (CLRTAP). Foi assinado pela Comunidade Europeia e por todos os Estados- Membros em 24 de Junho de 1998. Centra-se numa lista de 16 substâncias
(onze pesticidas, dois produtos químicos industriais e três subprodutos de produção não deliberada). O protocolo entrou em vigor em 23 de Outubro de 2003;

A Convenção de Estocolmo, adoptada em Maio de 2001, com a participação activa e a assinatura da Comunidade Europeia e de todos os Estados-Membros em 22 de Maio de 2001. Esta regulamenta uma acção a nível mundial relativamente a um agregado inicial de doze POP, com referência específica à aplicação do princípio da precaução e estabelece as regras para o alargamento progressivo da convenção a outras substâncias com características de persistência que requerem uma acção global.
Já em 1995, e integrado no programa ambiental das Nações Unidas, reuniram-se vários peritos da UNEP ( United Nations Environment Program), para que fosse negociado o controlo do uso, produção e libertação de Poluentes Orgânicos Persistentes e tendo esse grupo de peritos identificado de acordo com critérios científicos, os doze poluentes que deveriam ser objecto da Convenção:

oito pesticidas : aldrina e dieldrina, endrina, clordano, heptacloro, DDT, toxafeno e mirex;
dois químicos de aplicação industrial: hexaclorobenzeno e PCBs;
dois resíduos (sub-produtos não intencionais): dioxinas e furanos.

As negociações decorreram durante um longo período e culminaram com a Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes, que defende:

O princípio da precaução: onde existam ameaças de riscos sérios ou irreversíveis não será utilizada a falta de certeza científica como razão para o adiamento de medidas eficazes em termos de custo para evitar a degradação ambiental;
obrigações de financiamento: consagra o Fundo Global para o Ambiente (GEF) como o mecanismo de financiamento principal, e obriga os países desenvolvidos a prestar auxílio financeiro aos países em desenvolvimento;

A eliminação dos POPs produzidos intencionalmente, existentes e futuros: dos oito pesticidas mencionados, a maior parte é banida do mercado com a entrada em vigor da Convenção. Para os PCBs prevê-se uma eliminação gradual, assim como para o DDT, embora se admita o seu uso para controlo de vectores (fundamentalmente, o mosquito transmissor da malária). As Partes ficam ainda obrigadas a “tomar medidas reguladoras com o objectivo de prevenir” a produção e uso de quaisquer novos POPs;

A eliminação, como objectivo último, dos sub-produtos orgânicos persistentes: para as dioxinas, furanos e hexaclorobenzeno, as Partes deverão reduzir as emissões totais “com o objectivo de as minimizar continuamente e, sempre que praticável, as eliminar”. Para tal devem recorrer a processos, materiais e produtos alternativos – prevenindo, na fonte, a produção dos poluentes – em detrimento de tecnologias fim-de-linha;

A gestão e deposição sustentáveis de POPs

Limites estritos e interdições ao comércio de POPs: o comércio de POPs passa a ser permitido apenas para assegurar a sua correcta deposição ou em circunstâncias muito limitadas em que o Estado importador garante o seu empenho na protecção da saúde e do ambiente e o cumprimento de todos os requisitos consagrados na Convenção;

Reservas limitadas e transparentes: a maior parte das reservas à Convenção – ou seja, excepções à sua aplicação – são específicas para certos países ou certos químicos. Excepções mais genéricas incluem o uso de POPs para fins científicos, a sua ocorrência vestigial como contaminante e a posse de pequenas quantidades por um utilizador final.




sexta-feira, 26 de julho de 2019

James Lovelock celebra seu centenário e 50 anos da Teoria de Gaia


Neste ano de 2019, celebra-se o centenário do nascimento de James Lovelock e sua Hipótese ou Teoria de Gaia cumpre meio século, pois foi descrita pela primeira vez em 1969 e publicada 10 anos depois, em 1979.

A Hipótese Gaia
James Lovelock ficou famoso por ser o primeiro em formular uma teoria científica na qual se aborda uma intuição profunda no pensamento humano: que o Planeta está vivo e que é um organismo complexo em si mesmo. Lovelock formulou esta hipótese, que na atualidade é uma teoria, enquanto trabalhava como consultor da Agência Espacial dos Estados Unidos, a NASA, na década de 60.

Nessa mesma época, a petrolífera Shell Oil o convidou como consultor para um programa cuja finalidade era imaginar como seria o mundo no ano 2000; enquanto a maioria dos expertos falava de veículos alimentados por energia obtida através da fusão e outras tecnologias futuristas, Lovelock previu que para o ano 2000 o grande problema seria ambiental e “estaria afetando o seu negócio”.

Ao esboçar sua hipótese, Lovelock definiu Gaia como “uma entidade complexa que inclui a biosfera, atmosfera, oceanos e terra, constituindo na sua totalidade um sistema retroalimentado que busca um entorno físico e químico propício para a vida no Planeta”.

Naquele momento, a Hipótese de Gaia gerou intensos debates na comunidade científica e filosófica pelas suas implicações sociais e inclusive metafísicas. Era uma nova “fronteira”. O nome de Gaia foi sugerido pelo seu amigo, o escritor e Prémio Nobel de Literatura de 1983, William Golding, autor de “O senhor das moscas”. O que ficou de Gaia meio século depois?

Num artigo publicado por The Guardian, Lovelock, diz que “43 anos depois, isso foi o que aconteceu”, destacando a sua autoria por se antecipar ao que está acontecendo no nosso Planeta. Segundo Decca Aitkenhead, jornalista do The Guardian, suas predições, emitidas desde um “laboratório de um só homem”, lhe garantiram um lugar como um dos cientistas britânicos independentes mais respeitados.

Trabalhando sozinho desde que tinha 40 anos, Lovelock inventou o detector de captura de eletrões, que permitiu detectar componentes tóxicos em regiões tão remotas como a Antártida e o crescente buraco na Camada de Ozono (o trabalho do químico mexicano Mario Molina, que o levou a conquistar o Prémio Nobel de Química em 1995, está inspirado em Lovelock).

No seu último livro, “The Revenge of Gaia” (A Vingança de Gaia), James Lovelock previu que o clima extremo seria a norma causando grande devastação. Também afirmou que no ano 2040 Europa se pareceria com o Saara e boa parte de Londres estaria sob a água. Estes cálculos são mais radicais do que os do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), mas não completamente distantes das suas estimativas.

Na opinião de Lovelock, houve sete desastres similares ao que está por acontecer desde que os humanos evoluíram. “Acredito que estes eventos continuam, separando o joio do trigo e, eventualmente, sim teremos um ser humano no Planeta que entenderá isso e viverá de forma apropriada. Essa é a fonte do meu otimismo”, disse.

Segundo ele, a evolução do nosso Planeta, não se comporta de uma maneira linear, mas sofre descontinuidades e grandes saltos no seu trajeto. A história da Terra e a dos modelos climáticos simples baseados na noção de um Planeta vivo e responsivo sugere que a mudança repentina e supressiva é mais possível do que a suave curva ascendente da temperatura que predizem a maioria dos modelos para os próximos 90 anos.

Na Teoria de Gaia, estabelece que a Terra é um superorganismo, composto por uma rede vivente que, através de sua interação configura o delicado equilíbrio da biosfera. O Planeta é um ser vivo possivelmente inteligente (sua inteligência é a evolução mesma); uma unidade da qual todas as formas de vida são parte, que se reproduz autorreferencialmente através da autopoiesis e se autorregula para se manter homeostática.

Ainda que a sua teoria fosse usada para firmar as crenças do New Age e as do “movimento verde”, Lovelock não acredita nas ações estilo “salvar o planeta deixando de usar sacolas de plástico”, ou coisas pelo estilo. Lovelock acredita que este tipo de coisas são uma fantasia e uma ilusão que nos fizeram acreditar para nos sentirmos melhor, mas não fazem diferença.

“É tarde demais. Talvez se tivéssemos tomado uma rota diferente em 1967, teria ajudado. Mas, não temos tempo. Estas coisas verdes, como o desenvolvimento sustentável, eu acredito que são apenas palavras que não significam nada. Muitas pessoas vêm até mim e me dizem que não posso dizer isso, porque faz que não tenham nada a fazer. Eu digo que, pelo contrário, nos dá uma imensa quantidade de coisas a fazer. Só que não do tipo de coisas que querem fazer”, disse respondendo a perguntas numa entrevista do The Guardian.

Há que dizer que James Lovelock é sumamente controvertido e que suas predições foram apoiadas pelo IPCC. Parece amar a polêmica. Não acredita que a energia renovável permita alimentar uma sociedade como a nossa. Em troca, prefere a energia nuclear.

Ele considera que, ao ter ultrapassado um ponto crítico, o aquecimento global fará com que boa parte do mundo seja inabitável e que desaparecerão até 80% dos seres humanos. O que fazer perante isso tudo? Lovelock diz sorridente: “Desfrutar da vida enquanto se pode. Porque se se tem sorte ainda ficam 20 anos antes que tudo se desmorone”.

A Teoria de Gaia se baseia na ideia de que a biosfera autorregula as condições do Planeta para fazer seu entorno físico (especialmente temperatura e química atmosférica) mais hospitaleiro para as espécies que conformam a “vida”. A Teoria de Gaia define esta “hospitalidade” como uma completa homeostase. Um modelo simples que se usa para ilustrar a Hipótese de Gaia é a simulação do mundo das margaridas.

De acordo com a Segunda Lei da Termodinâmica, um sistema fechado tende à máxima entropia. No caso do Planeta Terra, sua atmosfera deveria estar em equilíbrio químico, composta maioritariamente de CO2 (estimou-se que a atmosfera deveria se compor de, aproximadamente, 99% de CO2) apenas com vestígios de oxigênio e nitrogênio. Segundo a Teoria de Gaia, o fato de que hoje em dia a atmosfera se configure com 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e apenas 0,3% de dióxido de carbono se deve a que a vida, com sua atividade e sua reprodução, mantém estas condições que a fazem habitável para muitas formas de vida.

Antes da formulação da Hipótese Gaia se supunha que a Terra possuía as condições apropriadas para que a vida acontecesse nela; e que esta vida tinha se limitado a se adaptar às condições existentes, assim como as mudanças que se produziam nessas condições.

A Hipótese de Gaia propõe que dadas as condições iniciais que fizeram possível o início da vida no Planeta, teria sido a própria vida que foi se modificando e, portanto, as condições resultantes são consequência e responsabilidade da vida que a habita. Para explicar como a vida pode manter as condições químicas de Gaia, a bióloga Lynn Margulis co-criadora da Teoria de Gaia desde 1971 e autora de “The Symbiotic Planet”, destacou a grande capacidade dos microrganismos para transformar gases que contêm nitrogênio, enxofre e carbono.

A cosmovisão da Terra viva
Ainda que o conceito de uma Terra viva seja antigo, devemos a Newton a comparação do Planeta com um animal ou um vegetal. James Hutton, (1726-1797), considerado um dos precursores da Hipótese de Gaia, Aldous Huxley, Vladimir Vernadsky e Pierre Teilhard de Chardin expressaram pontos de vista similares, mas, ao carecer de dados quantitativos, essas ideias pioneiras ficaram na anedota ou em meras declarações.

Lovelock iria depurando a sua proposta. Em 1981 criou um modelo de plantas de cores escuras e claras que competiam num planeta com crescente irradiação de luz solar. Tratava de mostrar que a Hipótese de Gaia era coerente com a seleção natural.

Em 1986, o climatologista Robert Charlson, Lovelock, Meinrat Andreae e Steven Warren descobriram o nexo existente entre o gás biogênico dimetilsulfureto (produzido por algas oceânicas), sua oxidação na atmosfera para formar núcleos de condensação nebulosa e o efeito subsequente de criação das nuvens. Margulis, aportou ao modelo a função desempenhada pelos microrganismos que constituem a infraestrutura biológica da Terra. Se durante boa parte da história do Planeta ocuparam todos os espaços da biosfera, em nosso tempo resultam também vitais para uma regulação eficaz da mesma.

Com efeito, os microrganismos do solo são os responsáveis pela produção de gases que encontramos na atmosfera; o vapor de água, o dióxido de carbono e o amônio reduzem a perda de radiação da Terra ao espaço, graças a sua absorção infravermelha.

Estamos falando do Efeito Estufa, graças ao qual a atmosfera mantém o Planeta bastante mais quente do que estaria por si mesmo. Tudo indica que nos primeiros estágios da Terra o Efeito Estufa desempenhou uma missão principalíssima, que foi diminuindo conforme o Sol ia enviando mais calor. Mas, não percamos de vista que os gases decisivos do Efeito Estufa são produzidos pelos organismos.

Geofisiologia
Como o próprio Lovelock declarou em 1969 a Terra é um sistema auto-regulável capaz de manter o clima e a composição química confortável para os organismos. Essa hipótese – a Hipótese de Gaia, agora Teoria de Gaia – ainda deve ser provada. Uma crítica a essa teoria é a que se relaciona com a Teologia. “Esta acusação é injusta, pois nunca me propus atribuir-lhe um propósito ou uma visão do futuro. Seja correta ou não, é uma teoria comprovável e capaz de realizar predições “arriscadas”. Uma delas foi que deveria haver uma emissão de sulfato de dimetilo suficientemente grande desde os oceanos para equilibrar o pressuposto de sulfuro natural”.

“Uma confirmação preliminar veio de minhas próprias medições em 1972, e foi completamente confirmada por M. O. Andreae de forma independente. Mais tarde, considerando a predição por parte de Gaia da regulação do clima, Robert Charlson, Lovelock, Meinrat Andreae e Steven Warren postularam que a densidade das nuvens estava modulada pela abundância de sulfato de dimetilo na atmosfera, e que isso por sua vez mudava o albedo da Terra e a temperatura média da superfície”. “Esta proposta foi publicada como artigo na revista científica Nature em 1987 e ainda está a ser provada. A Teoria de Gaia também ofereceu uma interpretação da regulação em longo prazo do dióxido de carbono e o clima através da erosão biótica das rocas. Esta proposta foi confirmada por Schwartzman e Volk em 1989”.

A obra científica de James Lovelock
Lovelock é autor de quase 200 artigos científicos, distribuídos equitativamente entre temas de medicina, biologia, ciência instrumental e geofisiologia. Possui mais de 50 patentes, na sua maioria de detectores para uso em análises químicas. Um deles, o detector de captura de eletrões, foi importante para o desenvolvimento da consciência ambiental. Revelou pela primeira vez a distribuição ubíqua dos resíduos dos pesticidas e outros compostos químicos que contêm halogêneos.

Esta informação permitiu a Rachel Carson escrever seu livro “Primavera silenciosa” (considerado o iniciador da tomada de consciência ambiental. Mais tarde permitiu a descoberta da presença de PCB (Bifenilos policlorados) no meio ambiente. Mais recentemente, o detector de captura de eletrões permitiu descobrir a distribuição global de óxido nitroso e de clorofluorcarbonos, ambos importantes na química do ozônio estratosférico. Algumas dessas descobertas foram adotadas pela NASA nos seus programas de exploração interplanetária. A NASA lhe outorgou 3 certificados de reconhecimento .

James Lovelock fora de ser o criador da Hipótese de Gaia (agora chamada Teoria de Gaia) e escreveu outros quatro livros sobre esse tema: “Gaia: A New Look at Life on Earth – Gaia: Um Novo Olhar sobre a Vida na Terra” (1979); o segundo é “Ages of Gaia – As Eras de Gaia” (1988).

O terceiro é “Gaia: The Practical Science of Planetary Medicine – Gaia: una ciência para curar o planeta” (1991) e o quarto, “Homage to Gaia: The Life of an Independent Scientist – Homenagem a Gaia. A vida de um cientista independente” (2000). O principal interesse de Lovelock se focaliza nas Ciências da Vida. No início. através da pesquisa médica e, depois, em relação com a Geofisiologia, a ciência dos sistemas da Terra. Seu segundo âmbito de interesse, o do projeto e desenvolvimento de instrumentos, interagiu com o primeiro gerando benefício mútuo.

As conferências sobre a Hipótese de Gaia
As comunidades científicas de Ciências da Terra, Ciências da Vida e de Filosofia da Biologia debateram nestes 50 anos os diversos aspectos da Hipótese de Gaia. São muitos os aspectos problemáticos de uma cosmovisão tão interdisciplinar como esta. No ano 1985 celebrou-se na Universidade de Massachusetts a Primeira Conferência sobre a Hipótese de Gaia, sob o título: “A Terra é um organismo vivo?” Três anos mais tarde, em 1988 o climatólogo estadunidiano Stephen Schneider organizou a Segunda Conferência de Gaia, onde James Kirchner criticou a Hipótese de Gaia pela sua imprecisão e afirmou que Lovelock e Margulis não tinham apresentado uma Hipótese de Gaia, mas quatro:

– Gaia Co-evolucionária: a hipótese afirma que a vida e o ambiente evoluíram de forma vinculada. Kirchner afirmou que esta ideia já era aceita cientificamente e não era novidade.

– Gaia Homeostática: afirma que a vida mantém a estabilidade do entorno natural, o que permite que a vida possa continuar existindo. Esta hipótese pode-se dividir em Gaia Débil e Gaia Forte, como se indica a seguir.

– Gaia Geofísica: a Hipótese de Gaia gerou interesse pelos ciclos geofísicos, dando lugar a uma nova pesquisa interessante na dinâmica geofísica terrestre.

– Gaia Optimizada: Gaia deu forma ao Planeta de uma forma que fez um ambiente propício para a vida no seu conjunto. Kirchner afirmou que isto não era comprovável e, portanto, não era científico.

Segundo Kirchner, pode-se dividir a Hipótese original (Gaia Homeostática) numa série de hipóteses, desde a inegável Gaia Débil, até a radical e, em sua opinião, não comprovável, Gaia Forte.

Desta forma, numa Gaia Débil, a própria biosfera atuaria como um sistema auto-organizado que mantém um meta-equilíbrio permitindo a vida. Porém uma Gaia Forte incluiria a biosfera, a atmosfera, os oceanos e a terra, dentro de um sistema retroalimentado para conseguir um entorno físico e químico adequado à vida em seu conjunto no Planeta onde os organismos se reproduzem, controlam e adaptam baseando-se nas mudanças ecológicas que o sistema vai sofrendo de acordo com sua evolução.

Outras Conferências
A Terceira Conferência de Gaia (que é a Segunda Conferência Chapman sobre a Hipótese de Gaia) teve lugar em Valência, Espanha, em Junho de 2000, e foi organizada pela Universidade de Valência e a American Geophysical Union. Nessa ocasião a atenção se centralizou nos mecanismos específicos pelos quais a homeostase básica de curto prazo da Terra pode-se manter no âmbito das mudanças estruturais.

Em Outubro de 2006 celebrou-se no campus da Universidade George Mason em Arlington, Virgínia (EUA), una Quarta Conferência Internacional sobre a Hipótese de Gaia. Nessa conferência se abordou a Hipótese de Gaia como ciência e como metáfora, buscando um elemento para entender de que forma poderíamos começar a solucionar os problemas do Século 21, tais como o aquecimento global e a destruição do meio ambiente.

Num artigo na Investigación y Ciencia (versão espanhola da revista Scientific American), [“Gaia, Asentamiento de una teoría controvertida”, 2015], seu autor, Luis Alonso, comentou um ensaio de Michael Ruse [The Gaia hipothesis: Science on a pagan planet – The University of Chicago Press, Chicago, 2013]. Meses depois da publicação do livro de Michael Ruse, James Lovelock publicava o que se considera como o último capítulo de uma série de trabalhos em torno à mesma: A rough ride to the future: The next evolution of Gaia.

Os fundamentos científicos e epistemológicos da ideia de Gaia, lançada em 1969, se mantêm. Estabelecem que a Terra é um sistema autorregulado: organismos e entorno físico evolucionam de forma conjunta e mutuamente retroalimentados. Os organismos regulam a atmosfera no seu próprio interesse. Há um acordo de que se trata de uma metáfora, pois a Terra não é nenhum sistema vivo, mas se comporta como se fosse, no sentido de que mantém constantes a temperatura e a composição química face às perturbações, esclarece Lovelock.

As críticas à Hipótese de Gaia
James Lovelock nunca disse que Gaia, a Terra, era um ser pensante, nem que tinha consciência, mas, apesar disso, suas ideias foram perseguidas e ridiculizadas ferozmente pelos cientistas durante muito tempo, até que, a partir dos anos noventa, começaram a ser aceites de forma mais ampla.

As críticas mais duras procedem do campo do darwinismo radical. Assim, Richard Dawkins [Dawkins, Richard (1982). “The Extended Phenotype: the Long Reach of the Gene”. Oxford University Press], Stephen Jay Gould [Gould S. J. June 1997. “Kropotkin was no crackpot”. Natural History. 106: 12–21].e Ford Doolittle [Doolittle, W. F. (1981). “Is Nature Really Motherly”. The Coevolution Quarterly. Spring: 58–63] nos anos oitenta e noventa, criticaram duramente a hipótese de Lovelock.

Num tom mais moderado se manifestou a bióloga Lynn Margulis considerada como a mãe de Gaia. Sua principal contribuição científica radica na chamada Teoria da Endossimbiose Sequencial a qual explica, entre outros dados, a presença de mitocôndrias ou cloroplastos nas células eucariotas (de animais e plantas) como resultado da fusão de duas bactérias que teriam obtido um benefício mútuo; a existência de organelas ou organoides, que compõem as células eucariontes tenha surgido como consequência duma associação simbiótica estável entre organismos em determinadas formas celulares; ou a presença de motilidade (movimentos intracelulares) em células evolucionadas. Isto é, que os caracteres dos organismos pluricelulares são produto da incorporação simbiótica e em muitas ocasiões de bactérias que antes tinham uma vida livre.

Margulis também colaborou com James Lovelock no desenvolvimento da Teoria de Gaia. Diferentemente de Lovelock, Lynn Margulis não acreditava que a Terra fosse um único e gigantesco “superorganismo”.

Segundo ela, Lovelock dizia isso “porque acreditava que se as pessoas pensassem no Planeta como se fosse um ser vivo, o cuidariam mais. Eu não acredito nisso. Pode-se dizer que Gaia é um ecossistema muito complexo, mas não um organismo”.

Lovelock é polêmico por suas controvertidas declarações em favor da energia nuclear, mesmo sendo considerado um dos pais da ecologia moderna, e suas críticas em relação à maioria dos ecologistas, considerando que eles “não só desconhecem a ciência, mas que, além disso, a odeiam”. Seu apoio à energia nuclear o converteu no alvo das críticas de muitos dos seus colegas. Numa entrevista virtual realizada pelo jornal espanhol El País foi preguntado ao cientista se levava em consideração as emissões de dióxido de carbono (CO2 ))produzidas pela mineração e processamento do urânio, e na construção/demolição das centrais nucleares e seus cemitérios.

Lovelock respondeu radicalmente: “A energia produzida por um quilo de material nuclear equivale à energia produzida por um milhão de quilos de carvão. Portanto, as emissões de CO2 produzidas na extração do urânio é um milhão de vezes menor do que aquela necessária para extrair carvão”.

James Lovelock defende que a energia nuclear é uma das formas com as quais pode se ajudar a frear o aquecimento global, posto que possa aliviar o enorme consumo de energia da atualidade sem prejudicar a atmosfera e, além disso, é muito rentável.

Implicações filosóficas e teológicas da Hipótese de Gaia
Do ponto de vista filosófico e teológico, a Hipótese Gaia foi etiquetada como uma religião neo-pagã. Qualquer um que tenha estudado o movimento verde global, sem nenhuma dúvida ouviu falar de Gaia. Os crentes de Gaia, ou “gaianos“, como se referem frequentemente a si mesmos, afirmam que a Terra é um ser vivente, um antigo espírito da deusa, merecedor de adoração e reverência.

Na opinião destes autores, James Lovelock, no seu libro “Gaia: A New Look at Life on Earth – Gaia: um novo olhar sobre a vida na Terra”, afirma que “todas as formas de vida neste Planeta são parte de Gaia – parte de uma deusa do espírito que sustenta a vida na Terra. A partir desta transformação num sistema vivo, as intervenções de Gaia trouxeram com ela a diversidade na evolução das criaturas viventes no Planeta Terra”. Os gaianos ensinam que a “Deusa da Terra”, ou a Mãe Terra, deve ser protegida da atividade humana destrutiva. É essa crença que alimenta o movimento ambientalista, o desenvolvimento sustentável e um impulso global pela mudança nas nações industrializadas por uma forma de vida mais primitiva.

Os gaianos afirmam que “somos parte da natureza e a natureza é parte de nós, portanto, Deus é parte de nós e está em todas as partes, tudo é Deus”. Na realidade Gaia é um renascimento da “deusa da Terra” que se encontra em muitas religiões pagãs antigas. O atual culto a Gaia é uma astuta mistura de ciência, paganismo, misticismo oriental e wicca.

A Teoria de Gaia encontrou sua maior ressonância no movimento New Age que ficou fascinado pelo lado místico de Gaia. Eles acharam fácil conceber que os seres humanos podem ter uma relação espiritual com Gaia. Uma conexão com a natureza e a crença de que os seres humanos são uma parte dessa consciência coletiva chamada Gaia apela fortemente à sua cosmovisão.

Uma simples busca no Google sobre a Gaia pagã revelará milhares de organizações orgulhosamente se proclamando a si mesmas, literalmente, sacerdotes pagãos e discípulos da grande Deusa Gaia. Há dezenas de grupos de Gaia na maioria das cidades importantes. A Wicca, que se diz que é a religião de mais rápido crescimento nos Estados Unidos, está intimamente relacionada com a adoração a Gaia. Com efeito, muitos gaianos se chamam de bruxas e bruxos.

O movimento feminista também acolheu calorosamente o conceito de uma Deusa Gaia. Para muitos desses defensores, uma parte integral da adoração da Deusa é seu tema predominante em declarações anti-masculinas. Nessa visão filosófica do mundo, posto que o culto à Deusa é bom então, por necessidade, qualquer uso da terminologia masculina em referência a Deus ou qualquer prominência dos homens na cultura ou na sociedade é geralmente desalentado.

De um ponto de vista filosófico, aquele de que a Terra era um planeta vivo, uma ideia de muito longa história no pensamento ocidental, na realidade desde a origem da reflexão científica na Jônia mediterrânea se relaciona com a teleologia ou finalidade do cosmos e seu conteúdo. Platão percebeu uma forma de desenho num mundo que distava muito de um caos que se movimentasse sem nenhuma razão, cego.

A complexidade manifesta não podia ser fruto do acaso, senão que devia subjazer em todo um sentido e uma finalidade. As coisas têm uma explicação finalista, imposta desde o exterior, pelo demiurgo que a planejou. A finalidade convergia com o bem do objeto ou do processo, expõe Platão no “Timeu” onde especula sobre a natureza do mundo físico e os seres humanos. Já Aristóteles, seu discípulo, da um passo adiante e implanta a finalidade no próprio objeto ou organismo. Os animais, por exemplo, carentes de razão, atuam por um fim, que é o que lhes foi conferido pela sua própria natureza.

Lovelock diferenciou entre causas próximas (o escultor que cinzela a figura e vai eliminando partes do mármore) e o propósito ou finalidade que guia o escultor na talha: a criação da figura. Por um imperativo da natureza e com um propósito, a andorinha constrói o ninho e a aranha tece sua rede, as plantas dão frutos e afundam suas raízes no solo em busca de nutrientes. Com a revolução científica, começou-se a separar com nitidez o trabalho do cientista focado no mecanismo, e não na tarefa do filósofo ocupado no por quê.

Sobre James Lovelock
Lovelock graduou-se como químico na Universidade de Manchester em 1941 e em 1948 obteve o doutorado em Medicina na Faculdade de Higiene e Medicina Tropical de Londres. Em 1959 recebeu o título de Doctor of Science em Biofísica na Universidade de Londres. Depois trabalhou no Conselho de Pesquisa Médica do Instituto Nacional de Pesquisa Médica de Londres por cinco anos, de 1946 a 1951, na Unidade de Pesquisa do Resfriado Comum do Hospital Harvard de Salisbury (Wiltshire, Reino Unido).

No ano 1974, James Lovelock foi eleito membro da Royal Society, a Academia das Ciências do Reino Unido e em 1975 recebeu a medalha Tswett de Cromatografia. Anteriormente recebeu um prêmio da Fundação CIBA por sua pesquisa sobre o envelhecimento. Em 1980 recebeu o Prêmio em Cromatografia da Sociedade Americana de Química e em 1986 obteve a Medalha de Prata e o Prêmio do Laboratório Marinho de Plymouth.

Em 1988 foi um dos destinatários do Prêmio Norbert Gerbierde da Organização Meteorológica Mundial e em 1990 foi lhe concedido o primeiro Prêmio Amsterdam pelo Meio Ambiente da Real Academia de Artes e Ciências dos Países Baixos. A relevante contribuição à ciência dada através da sua hipótese lhe valeu a prestigiada Medalha Wollaston da Sociedade Geológica de Londres.

Em 1996 recebeu tanto o Prêmio Nonino quanto o Prêmio Volvo Environment. Em 1997 recebeu o Prêmio Blue Planet do Japão. Foi nomeado Doutor Honoris Causa pelas Universidades East Anglia (1982), Exeter (1988), Politécnica de Plymouth – atualmente Universidade de Plymouth – (1988), a Universidade de Estocolmo (1991), Edimburgo (1993), Kent, East London (1996) e a Universidade de Colorado (1997). A Rainha Elizabeth II o sagrou Comandante da Excelentíssima Ordem do Império Britânico em 1990.

Em 1954 James Lovelock recebeu uma bolsa para medicina da Fundação Rockefeller, na Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, em Boston. Em 1958 foi professor visitante na Universidade de Yale durante um período similar. Em 1961 renunciou ao seu cargo no Instituto Nacional de Pesquisa Médica de Londres para trabalhar em tempo integral como professor de química na Faculdade de Medicina da Universidade de Baylor em Houston (Texas) onde permaneceu até 1964.

Durante sua permanência nos EUA colaborou junto com outros colegas no Jet Propulsion Laboratory da NASA em Pasadena, Califórnia, em pesquisa lunar e planetária. Desde 1964 é cientista independente, mas manteve associações acadêmicas honorárias como professor visitante, primeiro na Universidade de Houston e depois na Universidade de Reading. Desde 1982 colaborou na Associação de Biologia Marinha de Plymouth, primeiro como membro do Conselho, e entre 1986 e 1990, como presidente.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Our laws make slaves of nature. It’s not just humans who need rights, by Mari Margil

For decades our laws have been a death sentence for the environment. Now, from the Amazon to Australia, the tide is turning

Fonte: The Guardian
The Amazon rainforest is often called the earth’s lungs, and generates 20% of the world’s oxygen. Yet in the past half-century nearly a fifth of it has been cut down. The felling and burning of millions of trees is releasing massive amounts of carbon, in turn depleting the Amazon’s capacity to be one of the world’s largest carbon sinks – the natural systems that suck up and store carbon dioxide from the atmosphere.

Recently, 25 children brought a lawsuit to end the deforestation and its devastating impacts on the environment and their own wellbeing. The case made its way to Colombia’s supreme court, which issued its decision last month. While deforestation is hardly a new issue in this region, the court’s response to the lawsuit certainly was. Commenting that environmental degradation – not only in the Amazon but worldwide – is so significant that it threatens “human existence”, the court declared the Colombian Amazon a “subject of rights”.

In 1972 the law professor Christopher Stone published a seminal article, Should Trees Have Standing?, that explored the possibility of recognising the legal rights of nature. He described how women and slaves had long been treated as rightless in law, and suggested that just as they had eventually attained rights, so trees and other nonhuman living things should also do so.

Today, environmental laws regulate the human use and destruction of nature. They legalise fracking, drilling, and even dynamiting the tops off mountains to mine coal. The consequences are proving catastrophic: the die-off crisis of the world’s coral reefs, accelerating species extinction, climate change. Finally, though, this is changing. In 2006 the first law recognising the legal rights of nature was enacted in the borough of Tamaqua, Pennsylvania, in the United States. The community sought to prevent dredging sludge laden with PCBs (polychlorinated biphenyl) being dumped in an abandoned coalmine. The organisation I work for, the Community Environmental Legal Defense Fund, helped the council draft the law, transforming nature from being rightless to possessing rights to exist and flourish. It was the first such law in the world. Communities across more than 10 US states have now followed suit, including New Hampshire, Colorado and Pittsburgh.

After the decision to grant legal rights to nature in Pennsylvania, representatives of my organisation met Ecuador’s constituent assembly in 2008, which was elected to draft a new constitution. We discussed the rights of nature, and why communities all over the world find themselves unable to protect nature under laws that authorise its exploitation. The assembly’s president, Alberto Acosta, told us: “Nature is a slave.”

However, that year Ecuador enshrined the rights of nature – or Pachamama (Mother Earth) – in its constitution, the first country to do so. Since then Bolivia has put in place a Law of Mother Earth. Courts in India and Colombia have similarly ruled that ecosystems possess rights. In Mexico, Pakistan, Australia and other countries, rights-of-nature frameworks are being proposed and enacted.

Colombia’s supreme court was asked to consider the climate-change impacts of Amazon deforestation in the lawsuit that led to its groundbreaking ruling. Similarly, in Nepal the Center for Economic and Social Development is working to advance rights to protect against climate change. The Himalayas – known as the world’s third pole – are experiencing warming faster than any other mountain range on earth. With the melting of ice and snow, a Sherpa told us, “the mountains are turning black”. But now a constitutional amendment has been developed that would, if adopted, recognise the rights of the Himalayas to a climate system free from global-warming pollution. It would for the first time provide a platform for Nepal to hold major climate polluters accountable for violating the rights of the mountains.

Law today divides the world into two categories: persons, capable of having rights; and property, unable to possess rights. While there is no universally agreed upon definition of “legal person”, it is generally understood to mean an entity capable of bearing rights and duties. The problem that the rights-of-nature movement is now encountering is that this definition is predictably problematic when it comes to rivers, forests or nature more broadly.

In 2017, for example, the state high court in Uttarakhand, India, ruled that in order to protect the Ganges and Yamuna rivers, they should be considered legal persons with “all corresponding rights, duties and liabilities of a living person”. In a subsequent appeal to India’s supreme court, the state government asked whether, if the rivers flood, leading to the death of a human being, a lawsuit could be filed for damages. Could the Uttarakhand chief secretary of state, named by the court as one of several officials in loco parentis, be held liable on the river’s behalf? In this case, the supreme court decided not.

Can we hold a river accountable for flooding, or a forest for burning? Of course not. Yet existing legal systems force us to think of nature in terms of human concerns rather than what concerns nature. With the past three years the warmest in recorded history, and as we face what has been called the sixth great extinction, lawmakers and judges appear increasingly to agree that it is time to secure the highest form of legal protection for nature, through the recognition of rights.

To make progress in this area, we must break away from legal strictures that were never intended to apply to nature, such as legal personhood, and establish a new structure that addresses what nature needs. Perhaps we can call this framework legal naturehood. A recent symposium at Tulane Law School, in New Orleans, brought together academics, lawyers and activists to develop a set of guidelines for recognising and enforcing legal rights of nature, known as the rights-of-nature principles.

These define the basic rights that nature needs, including rights to existence, regeneration and restoration. Further, they call for monetary damages derived from violations of these rights to be used solely to protect and restore nature to its pre-damaged state. In addition, they outline a means for nature to defend its own rights – like children unable to speak for themselves in court – by being the named “real party in interest” in administrative and court proceedings. The principles build on laws and judicial decisions that have begun to accumulate in this new area of law, laying the groundwork for what legal naturehood could look like.

As daily headlines tell us how we are tearing holes in the very fabric of life on earth, it is time to make a fundamental shift in how we govern ourselves towards nature – before, as Colombia’s constitutional court wrote, it’s too late.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Efeitos directos dos incêndios na saúde

Para Lá da Cortina de Fumo- os efeitos na saúde

O que importa dar destaque! Como temos feito destacar, os negócios silvícolas não ocorrem apenas entre duas partes. Por isso, o Estado tem de estar presente e com posição reforçada, seja na investigação, seja na fiscalização, seja em extensão, seja na regulação.

Já assinou a Petição- "Nem mais um hectare de eucalipto plantado em Portugal", queremos esta promessa cumprida?


Por  1 e Diogo Pestana 2, Público, 16 de Agosto de 2017

Portugal encara, atualmente, uma situação de emergência para dar resposta à crescente problemática dos incêndios florestais. Os incêndios são eventos adversos com custos tangíveis ambientais (área ardida em 2017 mais de dez vezes superior ao mesmo período de 2016), socioeconómicos (como a desertificação, a erosão do solo, a falta de abastecimento de água, e outros prejuízos económicos estimados em cerca de 250 milhões de euros por ano com incêndios) e para a vida humana. A quantificação dos custos imediatos e diretos dos incêndios permite estabelecer a métrica do impacto socioeconómico; porém, os incêndios têm outras consequências adversas menos imediatas e evidentes sobre o ambiente e, por consequência, sobre as populações. É por isso surpreendente a escassez de literatura e comunicação relativa aos seus efeitos diretos na saúde.

Efetivamente, a relação do ambiente com o binómio saúde-doença é reconhecida desde Hipócrates, no seu mais famoso tratado Dos ares, Águas e Lugares. Numa interessante e rica descrição dos efeitos ambientais na saúde de indivíduos e populações, correlaciona o ambiente aos diferentes quadros nosológicos e características populacionais. O modelo ainda hoje é válido, mas a multifatorialidade de muitas doenças dificulta a avaliação da contribuição relativa dos diferentes fatores ambientais, tornando-se assim premente o aumento do conhecimento integrativo em domínios como a água, o ar, os solos, a nutrição, procurando clarificar um olhar da toxicologia para a saúde.

O impacto dos incêndios nas populações depende de vários fatores, nomeadamente a duração e o tipo de exposição, os meios de transmissão para o meio ambiente e a suscetibilidade do indivíduo. Uma distinção importante na definição dos impactos é a diferenciação entre curto e longo prazo. Os efeitos para a saúde decorrentes de uma exposição aguda são os mais explorados, nomeadamente relacionados com o fumo produzido pelos incêndios (problemas respiratórios, cardiovasculares e oculares), com o excesso de calor (queimaduras, desidratação e golpes de calor) e com falhas do abastecimento de água (ver em Riscos para a saúde resultante da ocorrência de incêndios, DGS).

Em matéria de alimentação e com o objetivo de mitigar estes efeitos, principalmente nas populações vulneráveis e em risco (como os bombeiros), o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS), da Direção-Geral da Saúde, tem vindo a definir algumas linhas orientadoras sobre alimentação em tempo de incêndios (ver em Recomendações gerais para a alimentação de bombeiros, Nutrimento).

Mas, atrás da cortina de fumo dos incêndios florestais, não podemos menosprezar os efeitos a longo prazo da contaminação do ambiente (solo, água e subsequentemente da cadeia alimentar) e da exposição crónica das populações a outros poluentes provenientes do fumo, como metais pesados, PAH, PCB e dioxinas. Talvez por este impacto não ser imediatamente observado e reconhecido, e muitas vezes decorrente da exposição a baixas concentrações (disruptores endócrinos), escasseia o conhecimento dos seus verdadeiros efeitos (cardiovasculares, respiratórios e carcinogénicos) nas populações afetadas.

Já assinou a Petição- "Nem mais um hectare de eucalipto plantado em Portugal", queremos esta promessa cumprida?

1- Investigadora do grupo ProNutri, Cintesis; Faculdade de Ciência Médicas Universidade Nova de Lisboa
2- Investigador do grupo ProNutri, Cintesis; Faculdade de Ciência Médicas Universidade Nova de Lisboa; Membro da COST Action – Industrially Contaminated Sites and Health Network (ICSHNet)