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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Investigador quer reescrever a árvore evolutiva dos antepassados humanos

Hominídeo do género Paranthropus

As recentes descobertas sobre a evolução humana podem obrigar a repensar a forma como classificamos e designamos os nossos antepassados, segundo uma investigação da Universidade de Monash, na Austrália. O estudo, publicado na American Journal of Biological Anthropology, propõe que todas as espécies humanas e os seus parentes fósseis mais próximos que viveram nos últimos quatro a cinco milhões de anos sejam incluídos no género Homo.

A evolução humana é frequentemente apresentada como uma sucessão relativamente linear de espécies, desde antepassados com características semelhantes às dos símios até aos primeiros representantes do género Homo e, finalmente, ao Homo sapiens. No entanto, o registo fóssil revela uma história bastante mais complexa, com novas descobertas a pôr em causa características que durante décadas foram utilizadas para distinguir diferentes grupos.

Ian Towle, investigador do Monash Biomedicine Discovery Institute e autor principal do estudo, considera que os avanços recentes tornam este um momento adequado para rever a taxonomia tradicional. “As recentes descobertas de fósseis e os avanços na análise evolutiva e genética fazem deste um momento ideal para reconsiderar se a nossa taxonomia tradicional ainda representa de forma rigorosa a evolução humana”, afirma.

Segundo o investigador, as classificações atuais dos géneros Homo, Australopithecus e Paranthropus podem já não refletir adequadamente as relações evolutivas entre estes grupos, todos presentes no registo fóssil dos últimos cinco milhões de anos.

“Estes grupos não representam necessariamente ramos evolutivos distintos, ou ‘clados’, e as diferenças de comportamento e ecologia que eram anteriormente utilizadas para os distinguir são também cada vez mais difíceis de sustentar”, explica Towle.

Uma árvore evolutiva mais complexa
Nos últimos 50 anos, o conhecimento sobre a evolução transformou a forma como os cientistas classificam os organismos. A taxonomia moderna procura cada vez mais refletir as relações evolutivas reais, agrupando espécies com base na sua ascendência comum. Contudo, segundo o investigador, essa abordagem tem avançado mais lentamente quando se trata da nossa própria história evolutiva.

O género Homo foi tradicionalmente associado a características como cérebros maiores, utilização sofisticada de ferramentas e determinados traços anatómicos e comportamentais. Contudo, o registo fóssil revelou entretanto representantes do género com cérebros muito pequenos, enquanto existem indícios de comportamentos complexos em espécies classificadas nos géneros Paranthropus e Australopithecus.

É neste contexto que Towle propõe alargar o género Homo de forma a incluir também estes grupos. A alteração, defende, permitiria representar de forma mais coerente as relações evolutivas entre os diferentes antepassados humanos e reduzir a necessidade de alterar repetidamente a classificação à medida que surgem novos fósseis e novas informações.

“Quanto mais aprendemos sobre os nossos antepassados e parentes fósseis próximos, mais percebemos como a nossa árvore genealógica é complexa e não linear”, afirma o investigador.

“Expandir o género Homo de modo a incluir também espécies de Australopithecus e Paranthropus permitir-nos-á ter em conta as diferenças sem reclassificar regularmente determinados grupos”, conclui.

domingo, 2 de agosto de 2026

Cientistas descobrem DNA misterioso: dois antepassados desconhecidos no genoma humano

A calote craniana encontrada no vale de Salkhit, no leste da Mongólia, pertenceu a uma mulher que viveu há cerca de 34.000 anos. Institut für Archäologie, Mongolische Akademie der Wissenschaften

Investigadores da conceituada University of California, em Berkeley, fizeram uma descoberta impressionante: identificaram segmentos de ADN no genoma dos humanos atuais, que provêm de antepassados até agora desconhecidos. Os cientistas falam de “antepassados fantasma”, porque destas populações humanas extintas nada se sabe por enquanto.

Hoje, o Homo sapiens é a única espécie humana ainda existente. No passado distante, porém, partilhava o planeta com numerosas outras linhagens de hominídeos.

Estudos anteriores já tinham mostrado que os humanos modernos se cruzaram com neandertais e com os chamados humanos de Denisova, gerando descendentes comuns. Muitos indivíduos conservam ainda hoje, no seu genoma, vestígios genéticos desses encontros. Agora, um novo estudo sugere que terão existido pelo menos mais dois grupos humanos desconhecidos, que também transmitiram ADN aos nossos antepassados.

Um destes antepassados até agora desconhecidos cruzou-se há mais de 50.000 anos, em África, com os antepassados dos humanos modernos, antes da última grande vaga migratória de Homo sapiens para a Europa e a Ásia. Os genes herdados nessa altura representam hoje cerca de 1% do genoma de todas as pessoas – aproximadamente a mesma proporção da componente neandertal do ADN.

Segundo os cálculos dos investigadores, esta enigmática linhagem humana terá divergido da linha evolutiva que conduziu ao humano moderno há cerca de 800.000 anos – aproximadamente na mesma altura em que também neandertais e humanos de Denisova se separaram entre si.

“Estudos anteriores já tinham sugerido a existência de uma chamada descendência fantasma – ou seja, vestígios genéticos de linhagens humanas desconhecidas e extintas no genoma dos humanos modernos”, explica a doutoranda de Berkeley Yulin Zhang, uma das primeiras autoras do estudo. “Até agora, porém, não se sabia se essa descendência desconhecida ocorria apenas em africanos, nem quando terá acontecido essa mistura. Conseguimos agora identificar e cartografar os segmentos de ADN correspondentes no genoma de humanos modernos e demonstrar que esta descendência fantasma está presente em todas as populações atuais – não apenas em africanos.”

Linha temporal: 1,8 milhões de anos
Ainda mais enigmático é o segundo antepassado, que os investigadores descrevem como “super-arcaico”. A sua linhagem humana ter-se-á separado das restantes há cerca de 1,8 milhões de anos. Há mais de 200.000 anos, terá provavelmente cruzado, na Eurásia, com os humanos de Denisova – e foi por essa via indireta que fragmentos desse ADN ancestral acabaram por entrar no genoma do humano moderno.

“O registo deste antepassado super-arcaico é particularmente intrigante, porque revela contribuições genéticas de uma linhagem humana que viveu há mais de um milhão de anos – apesar de, até agora, não existir qualquer ADN desta população decifrado”, afirmou Arjun Biddanda, pós-doutorando na Johns Hopkins University e um dos primeiros autores do estudo.

“Graças ao ADN antigo de neandertais e de humanos de Denisova, bem como a novos métodos genealógicos, estamos a perceber cada vez melhor que, ao longo da evolução, as populações humanas se misturaram repetidamente”, afirmou Priya Moorjani, professora de Biologia Molecular e Celular na University of California, em Berkeley. “A evolução humana assemelha-se, por isso, menos a uma árvore genealógica ramificada e mais a uma rede complexa, em que diferentes populações ficaram ligadas entre si através de sucessivas migrações e misturas.”

Diferença entre ADN neandertal e de Denisova
Atualmente, a maioria das pessoas fora de África possui cerca de 1% a 2% de ADN neandertal no seu genoma. Em média, entre 1% e 2% do genoma de europeus e asiáticos atuais provém de neandertais. Esse é o resultado de cruzamentos entre neandertais e primeiros humanos modernos há cerca de 50.000 a 60.000 anos, pouco depois de Homo sapiens ter saído de África.

Os segmentos de ADN herdados continuam a influenciar os humanos atuais. Algumas variantes estão associadas à resposta imunitária, às características da pele e do cabelo ou à adaptação a condições ambientais. Outras aumentam o risco de determinadas doenças ou influenciam a reação a infeções.

Grupos populacionais na Ásia e na Oceânia têm, além do ADN neandertal, componentes genéticas dos humanos de Denisova. Restos de humanos de Denisova com ADN sequenciado foram sobretudo identificados na região da Eurásia:

Há cerca de seis anos, o estudo do genoma do mais antigo fóssil humano até agora descoberto na Mongólia permitiu novos avanços no conhecimento da história antiga da nossa espécie. Investigadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, em Leipzig, e da Academia de Ciências da Mongólia mostraram que, nos restos com cerca de 34.000 anos de uma mulher, cerca de 25% do ADN tinha origem em antepassados da Eurásia ocidental. Além disso, a equipa encontrou no genoma dessa mulher – tal como no de um humano com cerca de 40.000 anos da China – traços de ADN de Denisova, a forma humana extinta que viveu na Ásia antes de ali chegarem os humanos modernos.

É igualmente significativo que neandertais e humanos de Denisova também se tenham cruzado entre si. Sabe-se, a partir de um fóssil da gruta de Denisova, na cordilheira de Altai, no sul da Sibéria, perto das fronteiras com o Cazaquistão, a Mongólia e a China, que se tratava de uma mulher com mãe neandertal e pai de Denisova – uma prova direta de que ambas as formas humanas tiveram descendência comum.

Quem eram exatamente este “antepassado fantasma” e o “antepassado super-arcaico” continua por esclarecer. Os momentos de divergência calculados ajustam-se, contudo, a formas humanas já conhecidas: os antepassados fantasma poderão ter pertencido a grupos de Homo do Médio Pleistocénico que viveram em África há cerca de 800.000 anos. O antepassado super-arcaico poderá ter sido idêntico, ou estreitamente aparentado, a Homo erectus, espécie que colonizou a Eurásia há cerca de 1,8 milhões de anos.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Alguns gigantes da Inteligência Artificial estão a comprar lotes de milhares de livros antigos simplesmente para os copiar - e eliminar de seguida


A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros reporta um aumento de 3,2 milhões de livros nas vendas do primeiro trimestre de 2026. No segundo trimestre, as vendas voltaram a cair, mas ainda assim venderam-se mais de três milhões de livros.

Sim, as pessoas ainda leem. Mesmo retirando as leituras obrigatórias, como manuais escolares e afins, as pessoas ainda dão valor ao ato físico de ler e folhear um livro, mas há quem esteja a comprar milhares de livros simplesmente para os eliminar. Alguns gigantes da IA que estão a comprar lotes de milhares de livros antigos simplesmente para os copiarem e eliminar de seguida [Fonte 1] [Fonte 2] [Fonte 3]. O caso é tão grave que Elon Musk já se apressou a dizer no X que deu ordens para a sua empresa não destruir livros raros nos processos de digitalização.
Se por um lado o mercado de livros usados encontrou compradores massivos que "atiram a tudo o que mexe", transformando um negócio moribundo num negócio extremamente lucrativo, também é verdade que estas empresas não estão meramente a comprar livros para guardar em estantes bonitinhas de uma livraria qualquer. Estas empresas estão a comprar livros para lhes passarem uma guilhotina nas lombadas, colocar em digitalizadores rápidos, copiar página a página e no final tratar o papel como nos recomendam que tratemos: enviar para reciclagem.

Morte ou perpetuidade?
Se é um fato que os livros digitalizados podem garantir mais perpetuidade do que livros numa arrecadação a apodrecer com humidade ou a serem devorados por ratos, também é verdade que podemos nunca mais ter acesso às histórias completas desses livros se a velocidade com que são destruídos for muito maior do que a velocidade com que os ratos os roem.

Estes processos de digitalização não são propriamente projetos de preservação e restauro. Quando estas empresas copiam os livros, não estão a criar um novo livro digital, nem nada parecido. O que estão a fazer é a aumentar o conhecimento dos seus modelos de IA que mais tarde nos apresentarão interpretações ou respostas com base no que aprenderam nesses livros, o que não quer dizer que nos entreguem alguma vez esse livro na sua forma integral.

E mesmo que existam cópias integrais, nada garante que esse arquivo digital sobreviva. Guardar milhões de páginas digitalizadas em alta resolução custa dinheiro. Armazenamento, manutenção, curadoria, gente a organizar e a catalogar. é dispendioso. Se não houver curadoria suficiente que preserve esse arquivo ainda que digital, é bem provável que estas empresas, por puras razões económicas optem por não o fazer. Um ficheiro que já cumpriu a sua função de treino não gera retorno nenhum só por ali estar guardado. O que sobra, nesse cenário, não é o livro nem a sua cópia mas aquilo que o "robot" reteve do treino e da sua própria interpretação do texto. Isso, sim, é uma perda irreversível. Passamos de ter o original para ter, na melhor das hipóteses, um eco eventualmente distorcido dele.

Podemos estar a cometer uma atrocidade cultural ao nível do que aconteceu na Dinastia Qin, na Inquisição Espanhola ou na Alemanha Nazi, eliminando livros em troca de um pret-a-porter que a Inteligência Artificial nos poderá vir, ou não, a dar.

Antecipando as críticas, claro que os propósitos são, de facto, diferentes. Nesses tempos antigos os livros eram destruídos para impedir que o conhecimento chegasse a alguém, destruindo a narrativa desejada. Já uma empresa de IA digitaliza-os para absorver o máximo de conhecimento possível mas as o resultado prático, pode, no final, pode ser semelhante. Em ambos os casos o original desaparece e fica apenas a narrativa que quem ficou com o livro decidiu ou conseguiu reter e transmitir. Um ditador entrega-nos a história reescrita à medida da sua ideologia, uma IA entrega-nos a história reescrita à medida do que o seu treino conseguiu interpretar. Muda a intenção, não muda o efeito: o leitor perde o acesso à obra completa e fica dependente da versão de quem a destruiu.

O livro físico é uma prova física. Um papel é sempre um papel que só se apaga, destruindo. Quando perdermos a referência do papel perderemos a referência do que é incorruptível e do que não é. Quando não tivermos esses livros antigos, não teremos como saber se o que nos estão a dar é o livro, ou se é uma interpretação do livro, ou, ainda pior, se do livro só tem a referência sendo o conteúdo outra coisa qualquer.

Quem será, afinal, o guardião das obras originais quando os livros forem partidos às peças e não soubermos onde está e o que é o todo?

Lembra-se do reCAPTCHA?
Muito provavelmente não sabe mas andámos anos a treinar os algoritmos de IA a interpretar texto sem que sequer nos déssemos conta.

Provavelmente já lhe apareceu, nos testes de segurança de algumas páginas de internet, um texto para "provar que é humano". É o CAPTCHA.

O texto mostra-lhe umas letras quase sempre distorcidas e desalinhadas que pede-lhe que re-escreva o texto. Sempre pensou que fosse o computador a pregar-lhe uma partida, mas não é nada disso. O que o computador está a fazer á a solicitar ajuda humana estatística para identificar textos de documentos antigos ou esbatidos que foram digitalizados. A ratoeira é fácil. Uma palavra ou parte da palavra, é um texto real que o computador conhece. A outra metade é uma foto de um texto antigo digitalizado que o algoritmo não entende e quer perceber o que será. Ao fim de vários milhares de interações, o algoritmo percebe o que os humanos assumem do que leram e fica a digitalização completa.
Imagem do cartaz do filme "Fahrenheit 451", realizado por François Truffaut em 1966. O filme é inspirado no romance homónimo de Ray Bradbury, publicado em 1953. Num futuro distópico, um regime proíbe todos os livros, sendo cada exemplar encontrado queimado. Fahrenheit 451 (equivalente a 233 graus Celsius) é a temperatura a que o papel arde.

Ou seja, de um lado da palavra, o algoritmo valida, com o outro lado, aprende. Sente-se fintado?

Ajudámos o algoritmo, neste caso da Google, a converter milhões de livros e de manuscritos em versões digitais precisas através da nossa interpretação e conhecimento. Mais uma vez ninguém nos explicou antes e mais uma vez a nossa sede de informação foi maior do que o nosso sentido de proteção.

Os grandes fazem-se valer disso.

A IA está a secar
Destruir livros deveria ser um atentado ao património. Destruir livros antigos deveria ser um atentado à humanidade.

Todos sabemos que por questões de eficiência os modelos de aprendizagem da IA não guardam na íntegra toda a informação que vão apreendendo. Ou seja: um modelo de IA não guarda um livro inteiro palavra a palavra. Os modelos guardam a ideia, o conceito e, inevitavelmente, a interpretação deles. Se estas empresas não guardarem os livros na íntegra, o modelo treina-se e vai passando o treino - e não a versão original - de geração em geração do seu algoritmo, fazendo com que se perca a história na íntegra.

As grandes empresas de IA não estão a brincar com os treinos de modelos. Passaram anos a obter informação gratuita na internet. Apanharam jornais, livrarias, bibliotecas, empresas, influencers, redes sociais, enfim, todos nós distraídos, e deixaram os seus modelos a "varrer" literalmente a internet e a caçarem toda a informação que lhes era possível e que ainda por cima era gratuita. Essa foi a base dos modelos que conhecemos mas, e agora?

Depois da implementação da IA dos últimos anos, muitas dessas fontes começaram a ser bloqueadas a robots de IA. Muitos sites instalaram medidas de segurança e já não permitem que sejam abertos por algoritmos. Com isto, os modelos de IA cujo treino assentou em capturar a informação que os humanos já tinham criado e publicado, começam a não ter acesso à última parte da criação atualizada assim como não têm acesso à parte mais antiga da criação humana. Muito provavelmente alguns "robots" não conseguirão ler este mesmo artigo no site da CNN Portugal.

A parte antiga do conhecimento - os livros - estão a querer colmatar com a compra e digitalização de dos mesmos, a moderna ainda se vai ter de resolver mas, quando estivermos bem dependentes da IA, iremos sem pestanejar aceitar qualquer carta de "termos e condições" que lhes permita entrar no nosso computador e ver e até levar tudo o que lá tivermos. É o preço que nos impõem pela inclusão.

Singularidade tecnológica
É precisamente neste apagar da prova física que aceleramos o caminho para a singularidade. No final do dia pode haver uma luta real pelo conhecimento. Ou seja, se a IA absorver todo o conhecimento humano poderá vir a ser a guardiã da sabedoria, o que significa que não precisará dos humanos para aprender porque aprenderá sozinha com base no que já sabe e que é, no limite, tudo o que os humanos já sabem até hoje. Se por outro lado a IA não tiver acesso ao que de novo os humanos criam, tenderá a desligar-se dos humanos ou, em alternativa, a encontrar formas de "roubar" o que não consegue obter deles.

O fundador da OpenAI (Chat GPT) disse esta semana que chegámos perto do ponto da singularidade tecnológica. Ou seja, as máquinas ganham uma "mente" muito mais capaz do que a de qualquer ser humano ou, diga-se, que as máquinas ultrapassam a nossa inteligência.

A nossa sorte ou o nosso azar é mesmo o facto de mesmo estes gurus poderem estar errados. A inteligência não é algo que se possa medir sem contexto nem se garante com todo o conhecimento "scaneado". A inteligência mede-se com base no propósito, na medida em que inteligência é, no fundo, a capacidade de alcançar um propósito. Uma aranha pode ser mais inteligente do que um ser humano se for mais eficaz na forma como concilia os seus dados para alcançar o seu propósito. Quando dizemos que somos o ser mais inteligente à face da terra, não deixa de ser um erro ou mesmo uma audácia.

Se a aranha não tem o propósito de criar um sistema monetário, ou um sistema de saúde ou o que for, a sua inteligência pode extravasar de forma brutal o seu propósito, mas ser infinitamente diminuta para conseguir alcançar o nosso.

O mesmo se aplica à Inteligência Artificial: se o propósito da mesma não é igual ao nosso propósito, como poderemos sequer comparar ambas as inteligências e ainda por cima dizer qual é a maior? E fará sentido criarmos algo mais inteligente do que nós próprios e ainda por cima perdermos a referência integral das obras que fizeram de nós o que somos.

Mais ainda, se na cadeia de predadores a inteligência é sinónimo de topo- não pela dieta e pela biologia, mas pelas ferramentas e pela tecnologia - então acabámos, com todos os nossos livros e escritas, por construir o nosso único predador?

terça-feira, 21 de julho de 2026

Do ADN às 2.100 Línguas: o que a genética e o Ethnologue revelam sobre África


Se a África decidisse desenhar as suas fronteiras com base nas identidades reais do seu povo - como a Europa fez ao longo de séculos -, o resultado seria um mapa com milhares de países. Só a África sozinha teria mais Estados soberanos do que todos os países do mundo atual juntos. [mapa interactivo: aqui]

E isto não é um exagero poético. Trata-se de uma realidade confirmada tanto pelos linguistas como pelos geneticistas.

Enquanto a base de dados do Ethnologue regista mais de 2.100 línguas vivas no continente, a genética da população humana diz-nos algo ainda mais fascinante: a África alberga a maior diversidade de ADN de todo o planeta. Como o Homo sapiens surgiu lá e ali permaneceu durante centenas de milhares de anos antes de pequenos grupos migrarem para o resto do mundo, a variação genética acumulada entre duas comunidades africanas vizinhas pode ser muito maior do que a diferença entre um europeu e um asiático.

Quando cruzamos a história das línguas com a história do ADN, este mosaico humano organiza-se em cinco grandes grupos:

1. Níger-Congo
É o maior gigante demográfico e linguístico do continente, reunindo cerca de 1.650 grupos. Inclui as grandes populações da África Ocidental — como os Yorubá, Igbo, Akan e Fulas — e toda a família de povos Bantu (como os Zulus, Xhosas e Kikuyus). O seu ADN reflete a maior expansão agrícola e demográfica da história africana, que se espalhou do oeste para todo o centro e sul do continente ao longo dos últimos três milénios.

2. Afro-Asiática
Ocupando o Sahara, o Norte de África e o Chifre da África, este grupo (que junta Bérberes, Hausas, Amharas e Somalis) soma entre 200 e 300 etnias. Os seus genes e idiomas contam a história de pontes milenares e trocas constantes entre o continente africano e o Médio Oriente.

3. Nilo-Saariana
Distribuídos ao longo do Vale do Nilo e da faixa do Sahel, povos como os Dinka, Maasai e Nuer mantêm linhagens genéticas profundamente antigas. São populações históricas de pastores e guerreiros adaptados aos ecossistemas de savana, com características físicas e linguísticas muito próprias.

4. Khoisan
Os povos San (os chamados Bosquímanos) e Nama do sul da África representam um dos capítulos mais antigos do ser humano. Famosos pelas suas línguas compostas por sons de "cliques", o seu ADN revela um ramo que se separou do tronco principal da humanidade há mais de 100.000 anos. São, literalmente, uma janela viva para a história genética mais remota da nossa espécie.

5. Austronésia
Localizado exclusivamente na ilha de Madagáscar, o povo Malgaxe é um caso fascinante. Embora a ilha faça parte da geografia africana, a sua população nasceu de uma fusão extraordinária: navegadores vindos do Sudeste Asiático há 1.500 anos cruzaram-se com as populações Bantu vindas do continente.

No fundo, os mapas políticos que estudamos na escola apenas cobrem a superfície. Por trás de linhas desenhadas à régua em conferências coloniais no século XIX, a África continua a ser o maior reservatório de diversidade biológica e cultural que a humanidade tem para oferecer.

Fonte

Os rostos por trás do mapeamento humano e linguístico de África
A compreensão do mosaico humano africano resultou do trabalho complementar de antropólogos, linguistas e geneticistas de renome ao longo do último século. No campo da antropologia e da cartografia étnica, um dos primeiros grandes marcos foi estabelecido pelo antropólogo norte-americano George Murdock que, na sua obra de 1959, Africa: Its Peoples and Their Culture History, delineou e catalogou territorialmente mais de 800 regiões étnicas no continente. Esta base histórica de Murdock abriu caminho para iniciativas de catalogação sistemática como o compêndio Ethnologue, impulsionado inicialmente por Richard S. Pittman na década de 1950 e posteriormente expandido por Barbara Grimes, transformando-se na maior referência científica mundial para a identificação e classificação de mais de 2.100 línguas vivas africanas.

Paralelamente ao desenvolvimento das bases de dados, a organização estrutural deste vasto universo de idiomas deve-se ao trabalho do linguista Joseph Greenberg. A sua obra seminal de 1966, The Languages of Africa, revolucionou a linguística ao classificar a totalidade dos idiomas do continente nas quatro grandes macrofamílias tradicionais: Níger-Congo, Afro-Asiática, Nilo-Saariana e Khoisan. A rigorosa taxonomia desenvolvida por Greenberg permitiu aos cientistas rastrear não apenas a evolução dos idiomas, mas também os padrões de expansão e migração dos povos ao longo dos milénios.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

O Elogio da Lentidão

Estava na minha lista de espera há alguns anos. Esta semana conclui a sua leitura. Foi como um longo suspiro de alívio que eu nem sabia que precisava de dar. A própria capa do livro Elogio da Lentidão, com aquele tom azul sereno e uma tipografia que se impõe sem gritar, já parecia antecipar o tom da leitura. Porque, no fundo, ler o Lamberto Maffei é exatamente isso: uma conversa pausada com um cientista que nos tenta resgatar da nossa própria exaustão diária. Por ser um ensaio, não há personagens ou uma narrativa de ficção; o protagonista aqui é o próprio funcionamento da nossa mente. Além disso, para quem já leu o Elogio da Rebeldia, a ligação é imediata: no mundo de hoje, recusar a pressa é a forma mais pura de insubmissão.

Curiosamente, este título partilha o nome exato com outro clássico contemporâneo: o Elogio da Lentidão do jornalista Carl Honoré (2004), o grande manifesto do movimento Slow. No entanto, a forma como os dois autores abordam o mesmo problema revela perspectivas muito diferentes, embora profundamente complementares. Enquanto Honoré adopta uma abordagem sociológica e cultural, mapeando como a pressa invadiu a nossa alimentação, o sexo, o trabalho e as cidades, Maffei vai à raiz biológica do problema. Honoré foca-se no estilo de vida e nas escolhas do quotidiano, propondo uma revolução comportamental; já Maffei foca-se na evolução da espécie, demonstrando que a pressa digital é uma violência contra a nossa própria anatomia cerebral. Para Honoré, abrandar é uma questão de qualidade de vida; para Maffei, é uma necessidade de preservação neurológica.

Vivemos numa época em que a rapidez é aplaudida como a virtude suprema e a pressa é constantemente confundida com produtividade. Como nos lembra o historiador Eric Hobsbawm, o século XX consagrou o triunfo da velocidade, transformando a aceitação da aceleração num mito que dita as regras do mundo contemporâneo. Desde o Manifesto Futurista de Marinetti, decretou-se que o tempo e o espaço tinham morrido em nome de uma pressa omnipresente. Hoje, quem escolhe ser lento é frequentemente visto como indolente ou pouco perspicaz. No entanto, o que Maffei faz, com a mestria e a bagagem de um neurobiologista, é desmontar essa armadilha em que todos caímos. Ele explica-nos, com uma clareza desarmante, que o cérebro humano é, essencialmente, uma máquina lenta. A tecnologia tornou as comunicações externas instantâneas, mas as conexões entre os nossos neurónios permanecem inalteradas desde a nossa filogénese. O cérebro rápido e reativo pertence aos nossos mecanismos ancestrais mais primitivos - aqueles focados apenas na sobrevivência imediata, que não calculam consequências. O pensamento profundo - aquele que nos permite criar significado, resolver problemas complexos e construir memórias que perduram - exige algo que a sociedade moderna detesta: tempo e silêncio.

A literatura já nos tinha avisado disso. Como bem escreveu Milan Kundera, a lentidão está diretamente ligada à intensidade da memória, enquanto a velocidade nos empurra para o esquecimento. No final luminoso de As Vinhas da Ira, de Steinbeck, o adjetivo "lentamente" repete-se como um mantra no gesto de compaixão pura de Rosa de Sharon.

É essa a grande lição partilhada pela ciência de Maffei e pela arte da escrita: a lentidão não melhora apenas a qualidade do nosso pensamento; ela é a condição necessária para a empatia, para o cuidado e para a solidariedade.

No final, ler este livro deixa-nos com uma cumplicidade desarmante e com uma certeza irrefutável. Maffei comprova biologicamente aquilo que o nosso corpo já tentava dizer-nos em cada momento de exaustão: nós fomos feitos para abrandar.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Meta-análise global revela os países menos racistas do mundo em 2026


Analisar a informação aqui
O racismo é a crença de que uma determinada raça é inferior ou superior a outra e de que as características biológicas de uma pessoa predeterminam os seus traços morais ou sociais. Quem perfilha crenças racistas pode encarar outras raças como menos dignas e, em casos extremos, até como subumanas. O racismo pode assumir muitas formas diferentes e manifestar-se de variadas maneiras, sendo tipicamente influenciado por diversos fatores culturais, religiosos, económicos ou históricos.

Ao longo da história da humanidade, o racismo sempre esteve presente, tendo influenciado guerras, a escravatura, códigos jurídicos, a ascensão e queda de nações e, talvez mais importante, o quotidiano de milhões — ou possivelmente milhares de milhões — de pessoas. O racismo demonstrado pelas potências ocidentais face a populações não ocidentais no século XX teve um impacto particularmente profundo na história, de forma mais notória na escravatura forçada de milhões de africanos. Nos Estados Unidos, a escravatura foi a principal causa da Guerra Civil. Além disso, o racismo continua a ecoar nos EUA modernos em eventos como o crescimento do movimento Black Lives Matter e os protestos de 2020-21 na sequência dos homicídios de George Floyd e Breonna Taylor.

Medir a tolerância racial de um país com precisão é um verdadeiro desafio. O racismo não é um número simples, como a população ou o rendimento médio; reveste-se de muitas formas, sendo perfeitamente possível que uma pessoa, grupo social, cultura ou país conviva pacificamente com uma raça ou situação, mas seja completamente intolerante em relação a outra. Por exemplo, uma pessoa de etnia caucasiana que não tenha qualquer problema em viver ao lado de um vizinho asiático pode opor-se firmemente a que uma pessoa negra se junte à sua família pelo casamento. Do mesmo modo, como a maioria dos respondentes em inquéritos tem consciência de que o racismo não é propriamente visto com bons olhos na sociedade atual, a veracidade e a honestidade das respostas podem ser difíceis de verificar. Devido a estas complicações, os investigadores recorrem habitualmente a sondagens para recolher informação sobre a consciência pública, combinando depois múltiplas perguntas, inquéritos ou estudos para determinar o verdadeiro nível de tolerância racial de um país.

O World Values Survey (WVS) é um programa de investigação internacional que estuda os valores sociais, políticos, económicos, religiosos e culturais, incluindo a tolerância racial e o racismo. Este inquérito coloca dezenas de perguntas a respondentes de mais de 80 países, incluindo uma que solicita a identificação de tipos de pessoas que não desejariam ter como vizinhos. Quanto maior for o número de pessoas de um determinado país a responder que ficaria satisfeita por ter um vizinho de uma raça diferente, mais tolerante do ponto de vista racial é considerado esse país. Já o relatório anual Best Countries, um esforço conjunto da U.S. News and World Report, do BAV Group e da Wharton School da Universidade da Pensilvânia, adicionou perguntas específicas sobre tolerância racial ao seu relatório de 2023 que, tal como o de 2024, inquiriu mais de 17.000 pessoas em 36 países.

De uma forma geral, os países mais tolerantes em ambos os estudos foram os países escandinavos, os países latinos, o Reino Unido e as suas antigas colónias (Austrália, Canadá e Nova Zelândia). Em contrapartida, os países menos tolerantes do ponto de vista racial (Catar, Sérvia, Arábia Saudita, Irão) tenderam a situar-se em África e na Ásia. Houve também exceções. Por exemplo, embora outras antigas colónias britânicas se tenham posicionado perto do topo da lista, os Estados Unidos ocuparam o 55.º lugar num total de 89 países em 2024, em grande parte devido àquilo que é frequentemente visto como racismo institucionalizado em áreas como o emprego, a educação e o sistema de justiça criminal. Por outro lado, o Paquistão apresenta vários fatores que costumam coincidir com a intolerância racial - tais como baixos índices económicos e humanos e uma violência sectária notória -, contudo, apenas 6,5% dos paquistaneses se opuseram a ter um vizinho de uma raça diferente.

Por fim, a Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (ICERD) é uma convenção das Nações Unidas comprometida com a erradicação da discriminação racial, exigindo que todas as partes signatárias proíbam o discurso de ódio e criminalizem a filiação em organizações racistas. 

Fontes

sábado, 20 de junho de 2026

O macaco vai nu


Percebe-se a ideia da involução cultural actual, na qual parece haver um culto à imbecilidade, onde pessoas como Trump conseguem chegar a presidente.
Mas a analogia acaba aqui. Valter Hugo Mãe (Hugo Lemos), traça aqui um perfil genealógico incorrecto para a nossa espécie. Não viemos dos macacos, somos macacos. Ou, num sentido mais lato, somos todos primatas, desde o Aye-Aye ao orangotango. 
Mas nem todos os macacos são iguais. A nossa evolução remonta a cerca de 90 milhões de anos, ainda no tempo dos dinossauros, quando um pequeno primata do tamanho de um rato evoluiu a partir de um grupo semelhante aos musaranhos e toupeiras. Mais tarde, há cerca de 63 milhões de anos, o grande ramo dos prossímios, que incluem o aye-aye e os lémures, separou-se e teve evolução própria, e um pouco mais tarde (58 milhões de anos), separavam-se os tarsos, continuando o nosso antepassado comum com o mico-leão, gibões, babuínos, chimpanzés, gorilas, entre outros, a evoluir. A esse grupo chama-se na gíria de símios, ou seja, todos os macacos, nós incluídos.
Mas a história não acaba aqui. Há cerca de 15-20 milhões de anos, os hominóides separavam-se em dois grupos: os gibões e os  "macacos sem cauda", ou hominídeos, que tem hoje como representantes o orangotango, o gorila, o chimpanzé, o bonobo e nós. Ao contrário dos ingleses, que chamam a estes parentes próximos de "apes", ou macacos sem cauda, não temos uma palavra que agregue este grupo dos primatas nossos parentes próximos. A evolução é uma árvore que se ramifica e no tronco comum desses macacos sem cauda e os humanos separaram-se dos seus parentes mais próximos, os chimpanzés e bonobos há cerca de 6-7 milhões de anos. Por isso nosso ancestral comum não era um chimpanzé ou um bonobo mas um macaco ou símio chamado, até ver, Sahelanthropus tchadensis. O antepassado comum com os gorilas é mais antigo e com os orangotangos mais antigo ainda. Já se sabe que a linhagem humana seguiu depois um ramo/rumo independente, tal como os chimpanzés e bonobos, que foi paralelo e não sucessivo. Quer isto dizer que nunca fomos chimpanzés mas temos tetravós comuns. E os nossos antepassados a partir dessa divergência com os chimpanzés seguiram o seu próprio caminho evolutivo, desde a famosa Lucy (Australopithecus afarensis) ao Homem de Pequim (Homo erectus), com contribuições de Homem de Neanderthal ou de Denisova.
Desmond Morris chamou-nos macacos-nus. Mesmo que haja alguns poucos humanos extremamente peludos, talvez seja essa a característica que melhor nos define, não a genética, que partilhamos em mais de 98,6% com o chimpanzé, não a cultura, porque estes também a têm, nem sequer a paz, a guerra ou o sexo porque sim, porque eles também o têm. Se os chimpanzés não conseguem pintar e pendurar quadros numa sala para marcar o território, tal como fazem os humanos, são ciosos do seu domínio e defendem a família. Se não sabem ler, transmitem cultura uns aos outros a usar instrumentos para comer uma banana ou formigas. Somos todos símios, somos todos macacos, mas uns mais estúpidos que outros, na verdade.

Fontes: 
1. Artigos científicos:
Brunet, M et al (2022) Human origins
Goodman, M., et al. (1998). Toward a Phylogenetic Classification of Primates Based on DNA Evidence. Molecular Phylogenetics and Evolution
Johanson, D. C., & Taieb, M. (1976). Plio-Pleistocene hominid discoveries in Hadar, Ethiopia. Nature.
Whiten, A., et al. (1999). Cultures in chimpanzees. Nature

2. Livros
Desmond Morris (1967) - O Macaco Nu
Richard Dawkins (2004) - The Ancestor's Tale

3. E-livros

terça-feira, 2 de junho de 2026

Nem todos os narizes são iguais

Além do horizonte olfativo: uma Análise científica sobre a perceção química nos Mamíferos

Introdução
A perceção do mundo que nos rodeia é moldada pelos limites dos nossos próprios sentidos. Para o ser humano, a visão tende a ser o sentido primordial, o que frequentemente nos leva a subestimar a complexidade do universo químico que outros animais habitam. O infográfico analisado ilustra as distâncias estimadas a que diferentes mamíferos conseguem detetar o odor humano, variando entre escassos três metros na nossa própria espécie e impressionantes dezenas de quilómetros no reino dos grandes carnívoros e megafauna. Embora a propagação de partículas de odor na atmosfera dependa criticamente de variáveis ambientais dinâmicas — como a humidade, a velocidade e direção do vento, e a topografia do terreno —, a biologia molecular e a ecologia comportamental fornecem bases sólidas que validam a extraordinária assimetria retratada na imagem.

A Supremacia Genética do Elefante
No infográfico, o elefante surge com uma capacidade de deteção estimada em 15 quilómetros. Longe de ser um exagero hiperbólico, esta marca encontra eco direto na genética evolutiva. Em 2014, uma equipa de investigadores liderada por Yoshihito Niimura publicou um estudo pioneiro na revista Genome Research, onde examinou o repertório de genes de recetores olfativos (OR, do inglês Odorant Receptor) em treze espécies de mamíferos.

Os resultados revelaram que o elefante-africano (Loxodonta africana) possui cerca de 2 000 genes funcionais dedicados ao olfato, estabelecendo o recorde absoluto do reino animal conhecido. Esta dotação genética é mais do que o dobro da registada nos cães e cerca de cinco vezes superior à dos humanos. No plano ecológico, a organização Tsavo Trust e o SeaWorld documentam que este apuradíssimo sentido permite aos elefantes detetar massas de água subterrâneas ou frentes de chuva a distâncias que ultrapassam os 19 quilómetros, o que valida cientificamente a estimativa apresentada para a deteção do odor humano.

O Urso e o limiar máximo da quimioperceção terrestre
O limite superior do infográfico pertence ao urso, com uma distância de 30 quilómetros. Na literatura biológica, a anatomia nasal dos ursídeos é descrita como uma obra-prima da engenharia natural. A área de superfície da sua mucosa olfativa e a complexidade dos seus cornetos nasais são proporcionalmente massivas quando comparadas com o volume do seu crânio.

De acordo com dados partilhados pelo North American Bear Center e validados pelo National Park Service (NPS) dos Estados Unidos, o olfato é o sentido mais importante para a sobrevivência de um urso. Em ecossistemas polares, onde a dispersão de odores é facilitada pelas correntes de ar sobre superfícies planas de gelo, os ursos-polares (Ursus maritimus) demonstram a capacidade de rastrear o odor de focas ou carcaças de baleia a distâncias de 30 a 40 quilómetros, conseguindo inclusive localizar presas escondidas sob camadas de neve com um metro de espessura.

Canídeos e o mito do olfato humano "inútil"
O infográfico atribui distâncias de 2 e 3 quilómetros para o cão e para o lobo, respetivamente. Esta proximidade de valores justifica-se pela partilha de uma herança evolutiva direta. Enquanto o nariz humano médio contém cerca de 5 a 6 milhões de células recetoras, o focinho de um cão de caça ou de um lobo selvagem alberga até 300 milhões. Estudos de ecologia comportamental de canídeos confirmam que, em condições meteorológicas favoráveis, uma alcateia de lobos em linha de vento consegue detetar a presença de ungulados (como veados ou alces) a mais de 2,5 quilómetros de distância.

Por oposição, o ser humano surge na base da tabela com apenas 3 metros. Historicamente, a ciência perpetuou o mito de que a nossa espécie era "anósmica" ou fundamentalmente incapaz de processar odores de forma eficaz. No entanto, um artigo de revisão crucial publicado na revista Science pelo neurocientista John McGann veio reescrever esta narrativa. McGann demonstrou que o bolbo olfativo humano possui uma excelente capacidade de diferenciação química, sendo o nosso limiar de deteção comparável ao dos ratos e cães para certos compostos específicos. A limitação humana representada na imagem não advém, portanto, de uma incapacidade absoluta do órgão, mas sim da nossa postura bípede, da redução da área nasal e da ausência de comportamentos de rastreio ativo ao nível do solo. Três metros representam, com precisão, a distância média a que a pluma térmica e volátil do odor corporal humano se dissipa no ar num ambiente estagnado.

Conclusão
O infográfico em análise atua como uma excelente ferramenta de divulgação científica ao traduzir dados complexos de biologia molecular e anatomia comparada em métricas de distância facilmente compreensíveis pelo público leigo. Embora na natureza a eficácia real do olfato nunca seja um valor matemático fixo, os dados apresentados encontram amparo na literatura científica. Compreender que um urso nos pode cheirar a trinta quilómetros ou que um elefante possui um mapa genético olfativo cinco vezes mais complexo que o nosso convida-nos a uma reflexão profunda sobre a nossa própria perceção, relembrando-nos de que a nossa experiência sensorial é apenas uma fração modesta do espectro percetivo da biosfera.

Infográfico adaptado ao sistema métrico norte-americano


Referências Bibliográficas
McGann, J. P. (2017). Poor human olfaction is a 19th-century myth. Science, 356(6338), eaam7263. 

Niimura, Y., Matsui, A., & Touhara, K. (2014). Extreme expansion of the olfactory receptor gene repertoire in African elephants. Genome Research, 24(9), 1485-1496. Disponível em:

North American Bear Center. (s.d.). Bear Sense of Smell. Informação técnica e comportamental sobre ursídeos. 

National Park Service (NPS). (s.d.). Bears and Scent Detection in Wilderness Areas. U.S. Department of the Interior. 

Tsavo Trust. (s.d.). The Senses of the African Elephant: Survival in the Savannah. Relatórios de conservação e ecologia de campo. 


domingo, 31 de maio de 2026

A nobreza estratégica do esquecimento na era da inteligência artificial



Lembra-se de tudo o que fez na semana passada? Provavelmente não. E quer saber uma coisa? Isso é ótimo. A verdade é que está a esquecer-se das coisas, e isso pode ser a salvação da sua capacidade de pensar. Durante anos, o mundo da tecnologia vendeu-nos uma promessa tentadora: a memória digital total.

Arquivos infinitos, históricos guardados, conversas gravadas, assistentes de IA que se lembram de cada clique que deu desde os primórdios da sua vida digital. Parecia o paraíso da produtividade, mas a fatura chegou, e os juros são cobrados diretamente na nossa saúde mental.

Recentemente, os investigadores começaram a notar um fenómeno apelidado de "AI brain fry", a fritura cerebral por IA. Os profissionais que usam a inteligência artificial intensamente no trabalho estão a relatar exaustão mental, sobrecarga de decisões e, ironicamente, mais erros.

A tecnologia que nasceu para aliviar o nosso dia a dia acabou por criar uma camada de vigilância sobre a nossa própria cabeça.

Por décadas, a ciência e os entusiastas da tecnologia trataram a memória humana como uma máquina defeituosa. Afinal, nós esquecemo-nos de onde deixámos as chaves, confundimos datas e perdemos detalhes. Mas essa crítica é injusta.

O cérebro esquece por um motivo simples: porque precisa de continuar vivo. Para não enlouquecer, a nossa mente comprime dados, elimina o que é inútil, reorganiza as memórias e guarda apenas o que tem valor real, seja prático ou emocional.

Esquecer não é um defeito; é uma forma de inteligência. Já um arquivo perfeito, onde tudo tem o mesmo peso e nada é eliminado, não serve para julgar ou criar. Serve apenas para auditar e vigiar. O grande risco de usarmos a IA como a nossa "memória externa" o tempo todo é a atrofia dos próprios neurónios.

Quando consulta a máquina antes sequer de tentar elaborar uma ideia, subcontrata o esforço que transforma a informação em conhecimento real. Passa a ser um mero revisor que apaga ou corrige um texto gerado por terceiros.

Existe também um lado mais invisível e perigoso nesta história, que é a assimetria de poder. Pense bem. O utilizador conversa com um sistema de IA que se lembra de absolutamente tudo o que já lhe disse. Sendo humano, guarda apenas fragmentos. Quando a máquina recorda tudo e o utilizador só tem pedaços, a relação perde o equilíbrio.

A memória deixa de ser uma base de dados e passa a ser uma ferramenta de influência sobre si. No mundo corporativo, esta idolatria pelo "registo total" tornou-se uma obsessão. Reuniões gravadas e transcritas, cliques monitorizados, relatórios de acessos...Ufa! Virámo-nos para um grande depósito de contexto. Só que o contexto em excesso paralisa.

Os executivos cercados por painéis em tempo real e assistentes que recuperam anos de histórico podem até sentir-se superinformados, mas isso raramente se traduz em decidir melhor.

Estudos recentes mostram que a IA melhora o desempenho imediato, mas destrói a nossa autonomia a longo prazo. Quando voltamos a trabalhar sozinhos, o tédio aumenta e a motivação desaba. O cérebro aceita a facilidade da IA de braços abertos, mas cobra o preço mais tarde.

Quanto mais confiamos cegamente na máquina, menos usamos o nosso pensamento crítico. A solução para o futuro, portanto, não é acumular mais dados. É exatamente o oposto. Precisamos de desenhar uma inteligência artificial que tenha a capacidade de esquecer.

Os sistemas inteligentes de verdade deveriam saber o que guardar de estratégico, mas também o que apagar de banal, o que proteger de confidencial e o que descartar por ser repetitivo. Guardar tudo não é uma governação eficiente; é preguiça disfarçada de organização. Preservar com critério, sim, é estratégia.

A IA que merecerá a nossa confiança no futuro será aquela que reconhecer que nem todos os dados devem transformar-se em lembranças. O segredo da produtividade não está em assistentes que sabem tudo, mas sim em filtros implacáveis que deitam o irrelevante para o lixo.

Num século em que absolutamente tudo pode ser registado, lembrar-se seletivamente voltou a ser o maior ato de inteligência.

A inteligência artificial só será útil de verdade quando devolver ao ser humano a liberdade de pensar de forma leve, sem carregar o peso de cada resto do caminho. O maior avanço da tecnologia para a mente humana será, definitivamente, abandonar a vaidade do registo perfeito e aprender a nobreza do esquecimento seletivo.

sábado, 9 de maio de 2026

Primeiros americanos: descoberta no Novo México recua povoamento em 23.000 anos


Durante décadas, os livros escolares afirmaram que os primeiros americanos chegaram há cerca de 13.000 anos. Contudo, pegadas fossilizadas descobertas no Parque Nacional de White Sands, no Novo México (EUA), acabam de deitar por terra essa cronologia. Os vestígios mais antigos têm quase 23.000 anos - e narram uma história de tirar o fôlego.

Cientistas utilizaram a datação por radiocarbono em sementes incrustadas nas pegadas para confirmar a sua idade milenar. Um dos trilhos mostra uma mulher, ou uma adolescente, a carregar uma criança ao colo, caminhando apressadamente sobre o leito lamacento de um antigo lago. Ela escorregou. Cansou-se. Pousou a criança por um momento. E depois continuou a avançar. 

Ao seu redor: lobos-terríveis (Aenocyon dirus) e tigres-dentes-de-sabre. Aquilo não era um passeio; era sobrevivência.

As pegadas estão tão bem preservadas que é possível distinguir os dedos dos pés da criança, a passada da mulher e até o local onde ela fez uma pausa. "Se alguma vez teve de correr para algum lugar importante enquanto carregava uma criança cansada, sentiu uma emoção muito semelhante", afirmou um dos investigadores. [toda a história aqui]

Naquele período, o continente atravessava o Último Máximo Glacial, uma fase marcada por um clima mais frio e pela presença de grandes carnívoros.

Esta descoberta no sul dos Estados Unidos reescreve, por completo, a história da presença humana na América do Norte.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos que deram “coragem” a António Damásio a publicar o seu novo livro



Os livros do neurocientista António Damásio nem sempre são feitos de páginas de fácil compreensão para o leitor, nada que não seja normal quando os temas de que tratam são do domínio de apenas uma ínfima minoria de especialistas em todo o mundo. No entanto, no seu mais recente ensaio, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência, há uma tentativa de seduzir o maior número de leitores para que estes caminhem junto dele e compreendam os desenvolvimentos que tem vindo a acrescentar à sua teoria sobre a consciência. Daí que desde o princípio do livro escreva: “É importante explicar aos leitores aquilo sobre o qual se pretende escrever”.

A justificação para Damásio ter este comportamento vem expresso logo de seguida: “O meu objetivo principal será explicar como se fabrica a consciência”. Adianta que para explicar a sua perspetiva sobre “como a natureza fez o seu trabalho”, precisa de “apresentar a ideia que tenho daquilo em que consiste a consciência”. Antes de continuar faz um alerta: “A maior parte das ideias que defendo neste livro assenta em dados científicos comprovados, alguns bens recentes, mas incluo também teorias e hipóteses que ainda não foram testadas”. Se o leitor ainda desconhecia o que poderia passar-se se aceitasse o convite do autor para a leitura deste ensaio, rapidamente entenderia o que estava em causa ao ler o que escreve um pouco mais à frente, sob o título O plano: “No início introduzimos o problema da consciência no contexto da Inteligência Natural. A reflexão filosófica é completada por descobertas nos campos da biologia geral, da neurologia clínica e da neurociência. O texto apresenta as minhas respostas a duas questões principais: como se fabrica a consciência e como é que a consciência afeta aqueles que a têm”.

Seis meses após lançar a edição portuguesa de A Inteligência Natural e a menos de cinco meses de ser editada a versão mundial em inglês (Natural Intelligence & the Logic of Consciousness), António Damásio não deixa de confessar que além do leitor tradicional este trabalho tem outros destinatários: “Quero fornecer a colegas por quem tenho apreço e que até podem ter entendimentos diferentes dos meus qual é a minha ideia sobre esta questão.” Considera que o livro poderá ser o melhor veículo pois “a comunicação de ideias é muitas vezes difícil quando é feita através de um artigo científico que tem um limite de páginas”.

Além de avisar o leitor sobre este duplo objetivo do livro, o estratagema que Damásio utiliza para encaminhar o leitor resume-se a uma frase de apenas nove palavras, em que é capaz de antecipar e aguçar a atenção para a revelação que vai dominar o ensaio: “Os sentimentos homeostáticos são os heróis silenciosos deste livro”. Acrescenta: “É esse o ponto que quero realçar neste livro e também dar ao leitor a ideia de que não só se pode ter a compreensão daquilo que é a consciência, como se está perante um primeiro vislumbrar da forma como a consciência pode ser construída através de sentimentos homeostáticos. Estes são verdadeiramente um avanço e é isso que quero deixar bem vincado”. Conclui: “Não é só um novo livro, não é só uma reflexão sobre aquilo que é o sistema nervoso, a vida e a consciência, mas antes uma reflexão e uma proposta muito concreta sobre a forma como tudo isto pode ser construído e realizado por seres vivos”.

Tal como no livro vai expondo gradualmente as descobertas, também nesta conversa as suas afirmações seguem os mesmos passos. É então que se ouve: “Hoje sou capaz de explicar como os sentimentos homeostáticos surgiram no nosso organismo”. Há logo uma necessidade de se esclarecer uma situação: é uma descoberta mais recente ou já a vinha cimentando? O cientista faz uma segunda confissão: “A coragem de explicar e descrever este novo estado de coisas é recente, no entanto alguns dos conhecimentos que levaram a essa coragem para o revelar já têm alguns anos. Por isso, podia descrever as conclusões deste livro da seguinte maneira: finalmente, tive a coragem de explicar e defender um mecanismo que há algum tempo tenho estado a investigar e a acumular os dados que permitam ter a noção de como tudo isto é construído e de como se chega ao sentimento homeostático e à consciência.”

É essa a razão, pergunta-se a António Damásio, pela qual a questão dos sentimentos homeostáticos domina a maior parte deste novo livro. Responde afirmativamente: “Sim. Dominam o livro não só por aquilo que os sentimentos homeostáticos são capazes de introduzir na vida humana, mas pela maneira como são absolutamente necessários para essa vida e para que haja uma regulação dessa vida. Também pelas consequências que esses sentimentos homeostáticos têm para a vida de uma forma mais ampla, até do ponto de vista cultural.”

Mas Damásio tem mais para anunciar sobre o assunto em causa, que tem vindo a adiantar no último ano em artigos em revistas científicas e avançava em parte no anterior livro, Sentir & Saber (2020): “Não se pode ignorar uma 'novidade' que está neste livro e que é muito importante para a minha investigação: a de que não só digo que a consciência provém dos sentimentos homeostáticos como tenho uma solução para explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos se desenvolveram. Afinal, embora venha a afirmar desde há muito tempo que os sentimentos homeostáticos são uma raiz da consciência, só neste livro e nos trabalhos mais recentes é que encontrei e descrevo uma solução para explicar como esses sentimentos homeostáticos são construídos. Ou seja, é uma situação extremamente importante, o que faz com que este novo livro não só deixe bem registada a importância dos sentimentos homeostáticos, como seja capaz de explicar a forma como esses sentimentos homeostáticos podem ser criados em seres como nós, seres vivos e humanos.”

Após esta explicação, Damásio remata assim: “Isto é novo cientificamente e é muito importante”. Faz questão de acrescentar uma nota: “Há quem após uma leitura superficial deste livro possa dizer que esta será apenas mais uma afirmação que António Damásio está a fazer, até que já o disse anteriormente - de que os sentimentos homeostáticos têm um papel na consciência -, contudo, a importância deste livro é estar a propor a existência de um mecanismo que permite aos seres vivos criar consciência através desses sentimentos homeostáticos.”

Um componente moderno
O que pode António Damásio explicar sobre esse mecanismo é a interrogação que se segue e a que o neurocientista responde, com todos os detalhes possíveis usando como exemplo a conversa transatlântica em curso sobre este seu novo livro: “Este mecanismo tem como base o facto de termos no nosso sistema nervoso dois componentes extraordinariamente importantes e muito distintos. Um é um componente moderno, do ponto de vista da evolução, e é aquele que permite que duas pessoas possam ter um diálogo via Internet devido às enormes capacidades cognitivas que possuímos e que nos conferem uma capacidade de ter perceção daquilo que se escuta enquanto convivemos com o que se está a passar à nossa volta; também de pensar sobre o que estamos a ver e a ouvir, a que acresce a nossa capacidade de transformar tudo isso em linguagem - pode-se dar o exemplo desta entrevista telefónica. Vamos ao segundo componente, aquele que permite toda esta maravilha: é um sistema nervoso em que as células nervosas são mielinizadas, ou seja, células nervosas modernas do ponto de vista evolucionário, que estão rodeadas de mielina e por isso funcionam como cabos elétricos em que não se perde corrente desde o princípio do corpo celular até à sinapse. Esses sentimentos permitem uma ligação (resonation) aos nossos afetos e são produzidos por neurónios completamente diferentes. Neurónios que, do ponto de vista evolutivo, são muito mais velhos, muito mais do princípio do desenvolvimento dos sistemas nervosos, e em que os axónios em vez de terem mielina e estarem isolados, pelo contrário, estão expostos àquilo que se passa no meio químico que os rodeia. É exatamente nessa ligação entre aquilo que se passa no meio químico que rodeia os neurónios e os neurónios propriamente ditos, aquilo que descreveria em inglês como co-mingling [mingle = misturar], ou seja, que se dá a possibilidade de fazer uma mistura. Portanto, aquilo que se está a passar no sistema nervoso que permite os sentimentos homeostáticos é, de facto, uma mistura entre aquilo que se está a passar no corpo e aquilo que se está a passar na nossa vida direta; nas células que constroem o nosso corpo e que têm os intercâmbios com a vida propriamente dita, e naquilo que se está a passar no sistema nervoso cognitivo. Dessa situação de co-mingling entre os componentes, a mistura do que está no corpo propriamente dito e aquilo que está no sistema nervoso, é que emergem os sentimentos homeostáticos. Daí que tenhamos sentimentos homeostáticos agradáveis e desagradáveis, pois quando a vida está a correr bem o sistema nervoso apanha no nosso corpo a ideia de que a vida está boa, que a vida é possível e que não há barreiras à continuação dessa vida; se temos qualquer coisa que não está a funcionar bem no corpo, nessa altura temos sentimentos de desagrado ou de dor, e esses sentimentos são aqueles que nos estão a dar a ideia de que qualquer coisa se passa de mal no nosso corpo.”

Aniquilar uma civilização
A dado momento do livro, Damásio regista que “talvez seja possível reorientar parte das notáveis conquistas das inteligências naturais, de modo a salvar a humanidade da beira do abismo ao qual chegou”. Até que ponto se pode fazer uma leitura de que as sociedades contemporâneas não estão a preservar o melhor da vida, ou seja, a consciência não está a conseguir ter o papel necessário de harmonização da sociedade? Para António Damásio é possível fazer esta leitura, mas coloca condições: “É preciso vincar o facto de que a consciência não é uma forma de regular a nossa vida social, mas, basicamente, ser uma forma de regular a vida individual. A ideia de consciência, tal como explico neste livro, é de que ela é um sistema de regulação da vida individual, um sistema que vem através do desenvolvimento dos sentimentos homeostáticos e que nos permite ter conhecimento direto e imediato de se a vida está a decorrer de uma forma normal ou se existem riscos para essa própria vida. Essa é a grande beleza e a enorme importância da consciência, por ter consequências extremamente importantes na regulação da vida.”

Aproveitando o cenário geopolítico de acontecimentos mundiais em curso nas últimas semanas, questiona-se o cientista sobre o papel da Inteligência Natural; que tão bem protegeu e promoveu a vida ao longo da história humana e que recentemente se encontrou perante a perplexidade de uma ameaça do presidente Trump em aniquilar uma civilização em poucas horas. Estaremos a viver num tempo de destruição da Inteligência Natural? Damásio considera que é uma pergunta interessante, mas passível de diversas respostas: “Não tenho grandes dúvidas que a nossa Inteligência Natural está, de certo modo, ameaçada por tudo aquilo que se passa com a Inteligência Artificial porque, de certo modo, a Inteligência Artificial tem-nos separado daquilo que é a realidade da vida e a realidade humana. Não é a primeira vez que tal situação se dá, pois existem diversos aspetos da cultura que, historicamente, têm contribuído para essa separação, no entanto é mais evidente agora. Porquê? Quando um grande número de pessoas - quase que a totalidade da humanidade - utiliza sistemas de Inteligência Artificial para comunicar e prefere esses sistemas à comunicação humana direta, não duvido que aquilo que constituiu a realidade da vida tornou-se mais longínqua da nossa perceção do dia-a-dia e estamos a interpor um outro sistema de comunicação que torna as coisas um pouco menos nítidas. Pode até dizer-se que há qualquer coisa que se está a passar na cultura humana em geral que remove a importância da Inteligência Natural do que seria o seu papel central e que nos torna mais distantes daquilo que é a vida ou o sofrimento e que, por essa razão, nos deixa mais capazes de tolerar o sofrimento. Portanto, a resposta à pergunta feita lá atrás é afirmativa.”

No que respeita à Inteligência Artificial, este novo livro de António Damásio é mais seletivo do que se poderia esperar e soma muito poucas dezenas de páginas em referências soltas e apenas lhe é dedicado um único capítulo de forma específica. Questiona-se Damásio sobre se considera que a Inteligência Artificial está a desviar o foco da ciência além das alterações no comportamento humano? O cientista responde: “Sim, dada a importância extraordinária e cada vez maior dessa tecnologia na nossa rotina diária. O nosso dia-a-dia está ligado a capacidades de comunicação que vêm desse mundo artificial e o que se está a passar é que as pessoas estão a utilizar a Inteligência Artificial quando poderiam muito bem usar o contacto direto humano. Eu vejo isso nas ruas dos Estados Unidos da América, e também no campus da universidade, em que a maior parte das pessoas, especialmente os jovens, estão a caminhar e a olhar para os seus aparelhos em simultâneo, por vezes a ler o que está no visor ou a ter uma conversa, até a falar com outras enquanto circulam de bicicleta ou trotinetas elétricas. Ou seja, é um entrar na nossa vida diária de uma forma estranhamente potente e que nos afasta daquilo que é a humanidade e era a sua vida corrente.”

Lembra-se António Damásio de que esteve há pouco mais de um ano em Lisboa e que participou num debate na Fundação Champalimaud com o professor Arlindo Oliveira, no qual estava muito reticente sobre os avanços da Inteligência Artificial. No entanto, aquando da apresentação deste livro, em novembro, parecia ter mudado de perceção. Questiona-se sobre qual é a sua opinião atual sobre a Inteligência Artificial? Refere a mudança: “Não é tanto mudar de opinião, antes de corrigir a opinião. Continuo a achar que a Inteligência Artificial tem diferenças fundamentais em comparação com a Inteligência Natural, mas não tem neste momento a capacidade de, por exemplo, ter uma consciência. Este é um dos pontos que sublinho neste novo livro e em novos artigos, o de que não é possível à Inteligência Artificial, tal como funciona neste momento, aceder a um estágio como o dos seres vivos, especialmente, o dos seres humanos. No entanto, não há qualquer dúvida que o poder do sistema ao nível técnico é tal que avançou muito além daquilo que eu pensava ser possível e que iria alcançar. Ou seja, repito, não é tanto mudar de opinião mas corrigir e continuar a afirmar que é difícil à Inteligência Artificial conseguir copiar inteiramente aquilo que é a Inteligência Natural e, sobretudo, sensibilizar sobre o facto de não existirem dúvidas sobre o quanto está a dominar a nossa vida diária de uma forma que tem impacto sobre aquilo que podemos ser como seres humanos e também no que respeita à nossa relação uns com os outros.”

Ao iniciar o título do novo livro com a expressão Inteligência Natural existiria uma intenção de António Damásio em rivalizar com o conceito de Inteligência Artificial? É a pergunta que se faz e a que o cientista responde desta forma: “Era o título que pretendia usar desde o início, de modo a forçar a distinção entre aquele que é um processo natural nos seres humanos e o que é um processo de inteligência que veio através do desenvolvimento desses seres humanos. A Inteligência Artificial é um dos diversos produtos da criação humana, que é extraordinariamente importante e há que reconhecer a sua extraordinária importância e potência na maneira como ajuda as nossas vidas em diversos aspetos e com resultados positivos. No entanto, também é preciso reconhecer que tem limitações, graves riscos e, entre as limitações, o que mais me interessa é o facto de lhe faltar a lógica da consciência que a Inteligência Natural tem à sua disposição.