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terça-feira, 27 de outubro de 2026

De The Cure e Mareux a Godard: o que é que a cultura tem a ver com a Educação Ambiental?

Ao longo de 35 anos a trabalhar como educador ambiental, aprendi que a ecologia não pode ficar fechada em manuais nem limitar-se a prescrições repetitivas. Para transformar consciências de forma profunda, gosto muito de cruzar mundos aparentemente distantes - e colocar a arte, a música e o cinema em diálogo direto com a sustentabilidade.

À primeira vista, pode parecer um salto improvável ligar a lente crua do filme Masculin, Féminin de Jean-Luc Godard (1966) à melancolia de "The Perfect Girl" dos The Cure (1987) e à sua posterior releitura por Mareux - gravada em 2015 e transformada num fenómeno viral em 2021. Mas a ponte é perfeita: todas estas obras tocam no mesmo ponto cego da modernidade - a nossa desconexão com a realidade, a aceleração do tempo e a ditadura do consumo.  

Em 1966, Godard retratava "os filhos de Marx e da Coca-Cola", jovens apanhados no início da engrenagem do consumo de massas. Em 1987, os The Cure traduziam a busca intangível por ideais inalcançáveis num mundo em transformação. Décadas mais tarde, ao explodir nas plataformas digitais a partir de 2021, a sonoridade darkwave de Mareux veio demonstrar como essa mesma ânsia se transportou para a era das redes sociais e do scroll infinito. Mudaram os suportes, mas caímos na mesma armadilha: a falácia de que a felicidade, as relações e até a própria identidade se compram e se consomem de forma rápida, efémera e descartável.   E essa lógica já não se limita apenas ao estilo de vida urbano - ela está hoje por todo o lado. Das metrópoles ao meio rural, a cultura do imediatismo infiltrou-se em todos os cantos do planeta. A forma como tratamos os recursos naturais e os afetos de modo utilitário alimenta a mesma economia linear de "extrair, usar e deitar fora" que compromete o nosso futuro comum.

Nestes mais de 35 anos de percurso, a minha convicção mantém-se: a ecologia é muito mais do que separar o lixo no ecoponto. É repensar a cultura global e o modo como habitamos o mundo. Esta abordagem crítica conecta-se diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU. Ao desconstruirmos o consumismo e a cultura do descarte, respondemos ao ODS 12 (Produção e Consumo Responsáveis); ao usar a arte e a música contemporânea para provocar o pensamento crítico, concretizamos o ODS 4 (Educação de Qualidade) e a sua missão de promover estilos de vida em harmonia com a natureza; e ao questionarmos o impacto do ritmo hiperativo e da solidão digital no bem-estar humano, tocamos no ODS 3 (Saúde e Bem-Estar) e no ODS 13 (Ação Climática).

A cultura é, afinal, o pilar invisível da sustentabilidade. O olhar de Godard e as vibrações dos The Cure e de Mareux convidam-nos ao mesmo gesto revolucionário: abrandar. Precisamos exatamente disso na educação ambiental contemporânea - desacelerar, parar o piloto automático e questionar esta aceleração omnipresente que consome a terra, o pensamento e a nossa humanidade.

sábado, 24 de outubro de 2026

Dia das Nações Unidas: Balanço e Evolução do Multilateralismo (2000–2026)




O Dia das Nações Unidas (celebrado anualmente a 24 de outubro) assinala a entrada em vigor da Carta da ONU em 1945. Fazer um balanço do papel da organização exige olhar para o seu impacto sob duas perspetivas fundamentais: as suas grandes conquistas e os profundos desafios estruturais que enfrenta no mundo contemporâneo.

Portugal só aderiu às Nações Unidas em 1955, dez anos após a criação da organização. A admissão foi adiada durante vários anos devido às tensões políticas entre as grandes potências. A 14 de dezembro de 1955, um acordo internacional permitiu a adesão de 16 novos países, incluindo Portugal.

A 3 de junho de 2026, Portugal foi eleito membro não permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas para o biénio 2027–2028, garantindo assim o regresso a um dos principais órgãos da ONU responsável pela manutenção da paz e da segurança internacionais.

Deslize pelo carrossel e conheça a história da entrada de Portugal nas Nações Unidas.

O período entre o ano 2000 e meados da década de 2020 representa uma das fases mais intensas e contraditórias da história das Nações Unidas. Se por um lado a organização expandiu a sua atuação para novos domínios normativos e de desenvolvimento global, por outro enfrentou o ressurgimento da rivalidade entre grandes potências e um estrangulamento político sem precedentes.

Este balanço detalhado analisa as conquistas, as falhas operacionais/políticas e os desafios do futuro imediato.
1. As Grandes Conquistas e Inovações (2000–2026)
A. A Agenda de Desenvolvimento Global (ODM e ODS)
  1. Declaração do Milénio (2000) e ODS (2015): A ONU estabeleceu uma linguagem universal para o progresso humano. Os Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (2000–2015) impulsionaram a maior redução da pobreza extrema e da mortalidade infantil da história global.
  2. Agenda 2030: Em 2015, foram adotados os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), alargando o foco para a desigualdade, transição energética e sustentabilidade ambiental.
B. Ação Climática e Multilateralismo Ambiental
  1. Acordo de Paris (2015): Sob os auspícios da UNFCCC, a ONU conseguiu um compromisso histórico para limitar o aquecimento global abaixo dos 2°C (com meta de 1,5°C) em relação aos níveis pré-industriais.
  2. Ciência do Clima: O painel científico da ONU (IPCC) consolidou a base científica indiscutível do aquecimento global antropogénico, moldando as políticas fiscais e energéticas globais.
C. Evolução Normativa e Direitos Humanos
  1. Responsabilidade de Proteger (R2P, 2005): Adotada na Cimeira Mundial de 2005, estabeleceu que a comunidade internacional tem o dever de intervir caso um Estado falhe em proteger a sua população de genocídio, crimes de guerra, limpeza étnica e crimes contra a humanidade.
  2. Criação do Conselho de Direitos Humanos (2006): Substituiu a antiga Comissão, introduzindo o Exame Periódico Universal (EPU), que avalia todos os Estados-Membros em igualdade de condições.
D. Saúde e Gestão de Crises Humanitárias
  1. Pandemia de COVID-19 e Iniciativa COVAX (2020–2022): A OMS liderou a resposta à maior emergência sanitária global do século XXI, enquanto o mecanismo COVAX distribuiu mais de 2 mil milhões de doses de vacinas a países em desenvolvimento.
  2. Iniciativa de Cereais do Mar Negro (2022–2023): A mediação da ONU e da Turquia permitiu a exportação de cereais ucranianos e fertilizantes russos, mitigando uma crise alimentar e de inflação em África e no Médio Oriente.
2. Dificuldades, Falhas e Impasses Geopolíticos
A. A Paralisia do Conselho de Segurança
  1. Guerra do Iraque (2003): a intervenção militar liderada pelos EUA sem autorização expressa do CSNU demonstrou a vulnerabilidade do direito internacional e abalou a autoridade da ONU.
  2. Guerra Civil na Síria (desde 2011) e Conflito na Ucrânia (desde 2022): A utilização sistemática do poder de veto por membros permanentes (especialmente a Rússia e a China) paralisou qualquer resposta decisiva para travar agressões militares territoriais ou crimes de guerra massivos.
  3. Guerra Israel-Hamas e crise em Gaza: Exerceu uma pressão tremenda sobre a coesão interna e legitimidade do sistema ONU, expondo divisões profundas entre países do Sul Global e potências ocidentais
B. Reveses na Manutenção da Paz (Peacekeeping)
  1. Comportamento Indevido e Choques de Mandato: Casos de exploração e abuso sexual por forças da ONU na África Central e a introdução acidental de Cólera no Haiti (2010) por capacetes-azuis feriram gravemente a credibilidade da instituição.
  2. Expulsão de Missões de Paz: O encerramento de missões na África Ocidental e do Sahel (ex.: MINUSMA no Mali em 2023) refletiu o descontentamento local e a ascensão de novas alianças de segurança privadas ou bilaterais.
C. Atraso na Agenda 2030
Recuo dos ODS: o impacto cumulativo da pandemia, de guerras regionais e de crises de dívida em países emergentes estagnou ou reverteu o progresso em cerca de 80% das metas estipuladas para 2030.

3. O Ponto de Situação e Novas Fronteiras (2024–2026)
A governação multilateral recente ficou marcada pelo combate ao estancamento e pelo esforço de reestruturação do sistema internacional:

DomínioAção / Evento MarcanteSignificado
Pacto para o Futuro (2024)Cimeira do Futuro da ONU (Nova Iorque)Adoção do Pacto Digital Global, visando criar regras mundiais de governação da Inteligência Artificial e dos dados.
Reforma Financeira Global"Bridgetown Initiative" e o Financiamento para o DesenvolvimentoFoco em reestruturar as arquiteturas do FMI e Banco Mundial para evitar as crises de dívida no Sul Global e custear a transição energética.
Governação da IACriação do Painel Científico da ONU para IAPrimeira tentativa formal de criar um equivalente ao IPCC para a regulação dos riscos e oportunidades da IA generativa e autónoma.
4. Síntese do Balanço
Neste primeiro quarto de século, a ONU provou ser insubstituível como rede operacional humanitária e científica, mas profundamente frágil como garantidora da paz e da segurança internacional.
  • O Diagnóstico: O sistema multilateral construído em 1945 já não reflete a demografia ou o equilíbrio geopolítico atual. O fosso entre as aspirações normativas e a realpolitik das grandes potências nunca foi tão visível.

  • A Conclusão: O fracasso em reformar o Conselho de Segurança e os mecanismos de financiamento internacional não invalida a instituição; pelo contrário, demonstra que um mundo fragmentado precisa de uma ONU revitalizada para evitar o colapso dos bens públicos globais (clima, saúde pública e regulação tecnológica).

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O Caso de Souto de Moura nos Açores: Sustentabilidade e Habitação Social em Destaque

Mofo

O Dia Nacional da Sustentabilidade, instituído pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 56/2023, de 9 de junho, assinala-se a 25 de setembro, coincidindo com a data de adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) pelas Nações Unidas. Esta efeméride reforça que o caminho para um país mais sustentável exige uma abordagem holística sobre as dimensões ambiental, social e económica, garantindo um envolvimento inclusivo e participativo de toda a sociedade para «não deixar ninguém para trás».

É precisamente nesta interseção entre as políticas públicas de sustentabilidade e a sua aplicação prática que ganha relevância a análise de casos concretos, como o do loteamento de habitação social nas Sete Cidades, em São Miguel (Açores), projetado pelo arquiteto Eduardo Souto de Moura em coautoria com Adriano Pimenta. Concluído por volta de 2010, este conjunto habitacional oferece uma oportunidade para avaliar, no longo prazo, se os princípios teóricos da sustentabilidade se traduziram em qualidade de vida duradoura para a comunidade.

Confrontando as três dimensões basilares promovidas no âmbito das comemorações do Dia Nacional da Sustentabilidade com a realidade deste projeto público, destacam-se os seguintes pontos de reflexão:

1.Sustentabilidade ambiental e adequação climática: embora o projeto procure reinterpretar a volumetria tradicional das habitações açorianas, a opção pelo betão visto como material predominantemente exposto revelou-se problemática perante a humidade extrema e a pluviosidade do microclima das Sete Cidades. A colonização biológica da fachada exterior (líquenes e fungos) e as elevadas exigências de ventilação para controlar a humidade ambiente demonstram que a sustentabilidade exige o respeito pelos materiais e pelas técnicas construtivas locais.   

2. Sustentabilidade económica e custo de vida: a habitação de cariz social destina-se a populações com recursos limitados. Quando o desempenho térmico e a gestão da humidade de uma solução arquitetónica obrigam a consumos contínuos de eletricidade (através do uso frequente de desumidificadores e aquecedores) ou exigem manutenções exteriores constantes, o encargo financeiro sobre os residentes e a administração pública torna-se elevado, contrariando o princípio da eficiência no ciclo de vida do edifício.

3. Sustentabilidade social e aceitação comunitária: a relação dos moradores com as habitações foi marcada por críticas quanto à funcionalidade do espaço interno e ao conforto habitacional. O caso evidencia a importância do planeamento participativo e da escuta ativa das comunidades locais, garantindo que o desenho arquitetónico responde às reais necessidades quotidianas dos utilizadores.

A análise deste conjunto habitacional com mais de uma década de vivência oferece uma reflexão crítica sobre a necessidade de alinhar a arquitetura contemporânea com a arquitetura vernácula, demonstrando que a verdadeira sustentabilidade depende da durabilidade, da funcionalidade e da dignidade proporcionadas a quem habita o espaço.

Além disso, a questão da eficiência energética e do conforto térmico é, de facto, uma das fragilidades mais apontadas a este projeto de habitação social. A escolha do betão visto como material predominantemente exposto traz desafios acrescidos no microclima extremamente húmido, frio e chuvoso da cratera das Sete Cidades. Sendo um material de elevada inércia térmica e reduzida permeabilidade ao vapor de água, o betão exige um esforço acrescido de aquecimento e ventilação para que as superfícies interiores atinjam uma temperatura de conforto e evitem o ponto de orvalho, resultando na necessidade frequente de recorrer a equipamentos elétricos.   Por sua vez, este consumo elétrico continuado traduz-se num elevado encargo financeiro para as famílias, o que anula o próprio propósito de uma habitação de custos controlados. A conjugação entre a insuficiência dos sistemas de ventilação mecânica para a libertação do vapor de água quotidiano, a elevada humidade do microclima local e o comportamento higrotérmico do betão gera condensações internas, o aparecimento de fungos e um ambiente interior bastante desconfortável. Este cenário evidencia o desfasamento entre o desenho conceptual e os padrões reais de habitabilidade e sustentabilidade, mesmo num edifício cujo projeto cumpre formalmente os requisitos do certificado energético (com classificação estimada de nível B).  

No que concerne às proeminentes "torres" de betão - que constituem o prolongamento vertical dos corpos dos fornos e chaminés exteriores -, estas foram igualmente alvo de fortes críticas e estranheza por parte da comunidade e dos residentes. Do ponto de vista estético e formal, a escala monumental e austera destas chaminés em betão cru contrasta vivamente com as delicadas chaminés e fornos da arquitetura tradicional micaelense, habitualmente caiados de branco e de proporções mais modestas. Esta linguagem visual agressiva levou a que a população local percepcionasse estas estruturas não como um tributo à memória construtiva dos Açores, mas antes como uma imposição industrial e descaracterizadora.   Paralelamente, no plano funcional e do conforto quotidiano, a opção por chaminés de tal envergadura acopladas à fachada gerou sérios constrangimentos. A exposição contínua destas elevadas massas de betão ao vento rigoroso e à chuva constante das Sete Cidades favorece o arrefecimento das superfícies e potencia fragilidades na estanquidade e nas juntas de ligação às habitações, criando zonas propícias a infiltrações e condensações. Além disso, a altura e a geometria destas estruturas tornaram as tarefas habituais de limpeza, manutenção e controlo da tiragem da salamandra bastante mais complexas para os moradores. Deste modo, o elemento que no projeto representava uma reinterpretação poética do forno açoriano acabou por ser vivenciado no dia a dia como uma solução sobredimensionada e pouco prática.  

 [Fases do projecto aqui]

terça-feira, 30 de junho de 2026

Para pior, já basta assim: quem acompanha agora a Agenda 2030 das Nações Unidas?


A 23 de junho, sem alarido, o Governo extinguiu o único órgão onde as regiões autónomas, as autarquias, o Conselho Económico e Social e a sociedade civil se sentavam à mesma mesa para acompanhar a Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável. Chamou-lhe simplificação.

Com efeito, nessa data, o Diário da República publicou a Resolução do Conselho de Ministros n.º 132/2026, que altera o modelo de coordenação e acompanhamento da Agenda 2030 fixado pela Resolução n.º 5/2023. Em nome da simplificação, o Governo extingue a Comissão de Acompanhamento e revoga, em bloco, os números que lhe davam corpo. Vale a pena examinar o argumento, porque a palavra “simplificação” só funciona se ninguém perguntar o que foi simplificado.

A Comissão de Acompanhamento reunia-se por meios telemáticos, sem estrutura permanente, sem orçamento próprio, sem máquina administrativa que justificasse falar em fardo burocrático. Invocar a simplificação para a extinguir é, por isso, um argumento que se desfaz ao primeiro toque: não se elimina peso, porque peso não havia. Elimina-se outra coisa.

Elimina-se participação. A Comissão reunia representantes dos dois Governos Regionais, dos Açores e da Madeira, da Associação Nacional de Municípios Portugueses, da Associação Nacional de Freguesias, do Conselho Económico e Social e três personalidades de reconhecido mérito. Era a tradução institucional de duas opções de fundo: uma abordagem whole of government, que sentava a administração central à mesma mesa que as regiões autónomas e o poder local; e uma abordagem whole of society, que dava a parceiros sociais, sociedade civil e academia um lugar formal e regular para acompanhar a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Não eram fórmulas de circunstância. Eram os princípios que as Nações Unidas pedem aos Estados que traduzam em estruturas concretas e eram, em larga medida, o que tornou o Relatório Voluntário Nacional de 2023 tão bem recebido no Fórum Político de Alto Nível, em Nova Iorque, em junho de 2023. Esse relatório não foi escrito num gabinete: beneficiou diretamente do escrutínio e do contributo de quem se sentava nesta Comissão. Quem acompanhou o processo sabe que o valor não foi simbólico.
A nova resolução não substitui esta arquitetura por nenhuma outra. Concentra tudo na coordenação técnica, reportando diretamente à área governativa da presidência. Onde havia um órgão colegial, com representação plural, passa a haver um serviço a reportar, sem mediação institucional, a um gabinete. Não se cria mecanismo alternativo de pronúncia regular dos governos regionais, do poder local, do Conselho Económico e Social ou da sociedade civil.

A centralização não é um efeito colateral. É o conteúdo da decisão. Concentrar na figura de um ministro aquilo que antes era partilhado com regiões, autarquias e sociedade civil não é simplificar a governação da Agenda 2030: é estreitá-la. E estreitá-la num domínio cujo princípio fundador é, literalmente, “não deixar ninguém para trás” tem uma ironia que não deveria passar despercebida.

Há ainda uma segunda perda, mais silenciosa. A Resolução de 2023 comprometia expressamente o país com a apresentação do Relatório Voluntário Nacional nas Nações Unidas. A nova redação fala apenas, em termos vagos, de coordenar “as atividades de reporte”. As conclusões do relatório de 2023 apontavam para um novo exercício em 2027, precisamente o ano da Cimeira dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável). Esse compromisso deixou de ter tradução escrita. Para um país que apresentou o seu desempenho na Agenda 2030 como credencial na candidatura ao Conselho de Segurança, abdicar discretamente do próximo reporte internacional é uma opção que merece, no mínimo, ser explicada.

Não está em causa a boa-fé de quem decidiu. Está em causa o juízo da decisão. A única iniciativa relevante deste Governo em matéria de Agenda 2030 foi dar continuidade, com atraso considerável, ao Roteiro Nacional para o Desenvolvimento Sustentável que o executivo anterior deixara em consulta pública e que, mesmo esse, continua à espera de aprovação formal. Entretanto, o ato concreto, decidido e publicado, foi extinguir um órgão de participação que nada custava e algo valia.

Faltam quatro anos para 2030. Falta aprovar o Roteiro que dormiu meses e restabelecer um compromisso datado de reporte internacional à altura da ambição que Portugal mostrou em 2023. Mas a primeira coisa a fazer seria reconhecer que a participação não é burocracia a abater.

Conduzir uma agenda desta dimensão depois de desligar os instrumentos de participação é uma imprudência que o tempo se encarregará de cobrar.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa


A Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) é uma oportunidade para reunir governos e a sociedade civil para ação orquestrada em prol da melhoria de vida das pessoas idosas.

A violência contra idosos é um problema subnotificado mundialmente que existe tanto em países em desenvolvimento quanto em países desenvolvidos. Embora a extensão dos maus-tratos contra idosos seja desconhecida, sua importância social e moral é incontestável.

Por isso, a ONU instituiu o dia 15 de junho de 2006 como o Dia Mundial da da Consciencialização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa para definir abordagens culturalmente contextualizadas para detectar e lidar com a violência contra esse grupo populacional.

A Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) apoiou nos últimos cinco anos 8.540 pessoas idosas vítimas de crime e violência, o que representa uma média de cinco por dia, divulgou hoje a instituição.
Os dados estatísticos da APAV indicam um aumento de 26,5% no número de idosos apoiados entre 2021 e 2025, sendo que a ajuda foi dada em resposta a 15.804 crimes e outras formas de violência
A violência doméstica continua a ser o crime mais frequentemente registado, representando 78,9% das situações acompanhadas pela APAV, o que corresponde a 12.465 crimes.

Seguem-se a ameaça ou coação (3,7%), a ofensa à integridade física (3,7%), a difamação ou injúria (3%) e a burla (2%).
A maioria das vítimas apoiadas era do sexo feminino (76,3%), tinha entre 65 e 74 anos (49,4%) e nacionalidade portuguesa (92,7%), sendo mais de metade (55,9%) dos agressores do sexo masculino.
A APAV assinala que "a violência contra pessoas idosas ocorre maioritariamente em contexto familiar, sendo a pessoa agressora, na maioria das situações, filha ou filho da vítima (32,3%), seguida do cônjuge (21,5%)", acrescentando que 29,8% dos agressores tem entre 25 e 64 anos.
A associação salienta também que "mais de metade das vítimas apoiadas (53,6%) encontravam-se em situação de vitimação continuada", entre as quais 23,4% que viveram situações de violência durante um período compreendido entre dois e seis anos antes de procurar apoio.
Quase metade das vítimas (46,6%) não apresentou queixa nem viu a sua situação denunciada às autoridades.
Para a instituição, "estas estatísticas reforçam a necessidade de continuar a investir na prevenção, deteção precoce e apoio especializado às pessoas idosas vítimas de crime e violência, bem como na sensibilização da sociedade para uma realidade frequentemente invisível".
A APAV, criada em 1990, presta apoio jurídico, psicológico e social, gratuito e confidencial, por telefone, através da Linha de Apoio à Vítima 116 006, 'online', no Chatbot APAV, e presencialmente nos seus gabinetes espalhados pelo país.




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sábado, 6 de junho de 2026

Saber não basta - décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento

O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap) [relatório disponível aqui]

Nunca soubemos tanto sobre o clima. Os modelos atmosféricos tornaram-se mais sofisticados, as redes de monitorização produzem dados em tempo quase real e os relatórios do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) oferecem diagnósticos cada vez mais robustos sobre os riscos associados às trajetórias atuais de desenvolvimento. Paradoxalmente, quanto mais sólido se torna o conhecimento científico, mais insuficiente se revela para promover a transformação social, económica e política que os próprios dados reclamam.

O problema central do nosso tempo já não é a falta de informação. O verdadeiro desafio reside no fosso persistente entre aquilo que sabemos e o que fazemos. Décadas de investigação nas ciências comportamentais demonstram que a informação, por si só, raramente produz mudanças significativas de comportamento. Quando os riscos são percecionados como distantes, abstratos ou excessivamente complexos, a consciência do problema não se traduz necessariamente em ação.

Esta dificuldade é agravada pela natureza sistémica das crises contemporâneas. Os desafios atuais não surgem de forma isolada. Pelo contrário, interagem entre si de forma não linear. As alterações climáticas afetam a segurança alimentar e hídrica; a instabilidade energética amplia desigualdades económicas; as tensões geopolíticas comprometem respostas coordenadas a problemas globais; e a degradação dos ecossistemas aumenta vulnerabilidades sociais preexistentes. Vivemos numa realidade marcada pela interdependência, na qual perturbações localizadas podem produzir efeitos em cascata à escala planetária.

Durante décadas, as sociedades habituaram-se a interpretar as crises como interrupções temporárias da normalidade. Hoje, essa visão tornou-se insuficiente. A sucessão de choques ambientais, económicos e geopolíticos sugere que a instabilidade deixou de ser uma exceção para se transformar numa condição. Adaptar-se à incerteza tornou-se uma exigência permanente.

Esta transformação tem consequências profundas. A exposição prolongada a narrativas de risco e urgência gera uma ansiedade difusa, alimentada pela perceção de que os problemas se acumulam mais rapidamente do que a capacidade coletiva para os resolver. A dificuldade crescente em imaginar futuros estáveis e desejáveis converte-se num fator de vulnerabilidade por direito próprio.

A psicologia ajuda-nos a compreender este fenómeno. A repetição constante de alertas pode reduzir gradualmente a intensidade da resposta emocional. Embora este mecanismo tenha valor adaptativo no curto prazo, pode tornar-se contraproducente quando prolongado. A preocupação converte-se em resignação, a confiança nas instituições enfraquece e as decisões passam a orientar-se pelo imediato. Um dos maiores riscos das sociedades contemporâneas poderá não ser apenas a multiplicação das crises, mas a erosão da capacidade coletiva para lhes responder.

No entanto, são muitos os progressos alcançados. A expansão das energias renováveis acelerou a um ritmo histórico, os custos da energia solar e do armazenamento diminuíram drasticamente e a capacidade científica para prever fenómenos extremos melhorou de forma notável. Estes avanços demonstram que a inovação, a cooperação e o investimento de longo prazo podem produzir mudanças significativas.

Sabemos hoje mais sobre os riscos que ameaçam as sociedades humanas do que em qualquer outro momento da história. Dispomos de conhecimento científico, capacidade tecnológica e experiência acumulada para enfrentar muitos desses desafios. O verdadeiro teste do nosso tempo já não reside na produção de mais informação, mas na capacidade de traduzir conhecimento em decisão, cooperação e compromisso coletivo. Saber continua a ser indispensável, mas deixou de ser suficiente.
Diário de Coimbra, 02/06/2026

Leituras recomendadas:
A. O Fosso entre Saber e Agir (The Value-Action Gap)
A premissa de que "dar informação não muda comportamentos" é o calcanhar de Aquiles da comunicação de ciência.
  • George Marshall (Livro: Don't Even Think About It: Why Our Brains Are Wired to Ignore Climate Change): Este livro explora exatamente o que a autora descreve: como o cérebro humano lida mal com riscos abstratos, distantes no tempo e geograficamente distantes.

  • Per Espen Stoknes (Livro: What We Think About When We Try Not To Think About Global Warming): Stoknes, um psicólogo e economista norueguês, identificou as "5 barreiras psicológicas" para a ação climática (Distância, Destruição, Dissonância, Negação e Identidade). O texto de Helena Freitas reflete quase diretamente o trabalho de Stoknes ao falar sobre a "redução da resposta emocional" e a "resignação".

B. O Conceito de Policrise e Efeitos em Cascata
A secção sobre crises que "interagem entre si de forma não linear" bebe diretamente da literatura sociológica contemporânea.
  • Adam Tooze (Historiador e Economista): Popularizou o termo "Policrise" para descrever como a crise climática, a geopolítica, a inflação e as pandemias já não são eventos isolados, mas uma rede interligada onde um choque amplifica o outro.

  • Thomas Homer-Dixon (Artigos sobre Complex Systems and Cascading Regimes): Investigador que estuda como o stress ecológico interage com o stress económico e político, levando ao colapso ou à necessidade de resiliência sistémica.

domingo, 10 de maio de 2026

ICNF e APA: WWF, Zero, SPEA e Quercus questionam reestruturação anunciada pela ministra do Ambiente



As quatro organizações reagiram esta quinta-feira com preocupação ao anúncio feito pelo gabinete da ministra do Ambiente e Energia. Quercus pede reunião urgente com Maria da Graça Carvalho.

As mudanças planeadas para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e para a Agência Portuguesa de Ambiente (APA), anunciadas esta semana pela ministra da tutela, Maria da Graça Carvalho, estão a ser vistas com apreensão por várias organizações ligadas à defesa do ambiente, que pedem para ser escutadas neste processo e receiam que a anunciada “simplificação profunda dos processos de licenciamento” enfraqueça ainda mais a conservação do património natural.

A WWF Portugal foi uma das primeiras a reagir, manifestando preocupação com os planos de reestruturação e exigindo que “qualquer processo de reforma reforce a capacidade técnica e operacional da APA e do ICNF, assegure qualidade técnica nas avaliações ambientais, garanta participação pública efectiva e transparente e mantenha elevados padrões de protecção da natureza e ordenamento do território”

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“O comunicado do Governo centra-se exclusivamente na linguagem da desburocratização e da facilitação do investimento, sem uma única menção à missão fundamental destas instituições: proteger o património natural de Portugal”, afirma a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), defendendo que “a eficiência administrativa não pode ser alcançada à custa do enfraquecimento dos mecanismos de proteção ambiental”.

A mesma opinião é partilhada pela ZERO, que aponta o dedo às reformas em cima da mesa, considerando-as “uma clara tentativa de fragilizar ainda mais as instituições que devem defender o bem comum, criando não só uma inaceitável pressão adicional sobre recursos técnicos que já estão há muito no limite das suas capacidades, mas também prejudicando a qualidade e o rigor das avaliações que serão efetuadas, o que poderá levar a decisões tecnicamente pouco ponderadas”.

A ONG questiona também se este processo de “debilitação” poderá ser agravado por “cortes nos orçamentos de funcionamento das instituições, situação que gerará a inoperacionalidade quase total dos serviços públicos”. E alerta para uma possível “tentativa de desestruturação da política pública de ambiente, em benefício de interesses que poderão não ser compatíveis com os instrumentos de gestão territorial ou com a conservação dos valores naturais protegidos”.

Também a Quercus exige cautela neste processo de reestruturação, admitindo que “a modernização, simplificação e automatização de processos é desejável”, mas desde que “não abra caminho ao eventual esvaziamento de competências e de autonomia destes organismos” nem comprometa a sua capacidade operacional e os meios necessários para fiscalizarem no terreno.

Fiscalizar antes ou no final?
Outra das medidas olhadas com preocupação, aliás, é a “simplificação profunda” dos processos de licenciamento, incluindo a passagem de um modelo de controlo prévio para a aposta na fiscalização a posteriori.

A Quercus teme que a simplificação anunciada tenha de facto como objetivo a criação de “um ‘livre-trânsito’ para atropelar os interesses e as regras ambientais”.

“A destruição de um habitat prioritário, a perturbação de espécies em época de nidificação ou a alteração irreversível de uma zona húmida não são danos que possam ser remediados com uma multa ou uma ordem de reposição”, acrescenta por seu lado a SPEA, que afirma que “enfraquecer os mecanismos de avaliação prévia não só agravaria a situação do património natural como exporia Portugal a sanções comunitárias acrescidas”.

“Proteger a natureza é proteger o futuro de Portugal e dos portugueses. As zonas húmidas que filtram a água que bebemos, as paisagens naturais saudáveis que nos protegem dos incêndios, os ecossistemas costeiros que defendem as comunidades piscatórias — tudo isto depende de instituições públicas capazes de fazer o seu trabalho. Quando se enfraquecem a APA e o ICNF, não é só a Natureza que fica desprotegida são só as aves que ficam desprotegidas: são as pessoas”, afirma Pedro Neto, diretor-executivo da SPEA.

Também a ZERO avisa para a necessidade de mais reflexão face a uma nova simplificação dos processos de licenciamento, depois das iniciativas do Governo socialista (Simplex) e do atual Executivo. “Não deixa de ser preocupante que se proponha mais simplificação sem uma efetiva avaliação de quais foram os resultados das medidas tomadas anteriormente. Não seria aconselhável avaliar o que já foi proposto antes de voltar a sugerir mais alterações?”, questionam.

Além do mais, acrescenta a mesma associação, “o discurso político parece querer passar a mensagem que o licenciamento não tem uma função ou dignidade próprias”. “Ele existe para garantir a equidade entre todos (todos devem ter de cumprir as mesmas obrigações) e garantir que o bem comum não seja usurpado ou prejudicado para interesse apenas de alguns. Nem todo o investimento contribui para o desenvolvimento sustentável do país, nem deve ser aprovado”, sustenta.

ONG de Ambiente querem ser ouvidas
A SPEA apela também à tomada de várias medidas da parte do Governo, incluindo que a missão de conservação da natureza seja assumida como “pilar central da reforma” e não como “o obstáculo a remover”, e lembra também a necessidade de reforço dos meios humanos, técnicos e financeiros do ICNF e da APA – “condição indispensável para que qualquer reforma produza resultados reais”.

Tanto a WWF, SPEA como a Quercus e a ZERO exigem que o processo de reestruturação envolva ouvir as organizações de conservação da natureza, mas também outras entidades como a comunidade científica, “garantindo que as decisões são informadas pelo melhor conhecimento disponível”.

A Quercus anunciou também que vai pedir uma reunião “com urgência” à ministra do Ambiente, “a fim de expôr as suas reservas, preocupações e obter todas as informações sobre esta reestruturação”. “Paralelamente, iremos solicitar uma audiência a todos os Grupos Parlamentares sobre este assunto no sentido de exigir a fiscalização necessária para garantir a defesa do Ambiente”, avisa esta ONG.