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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Veneno das víboras da Europa não evoluiu para causar dor, mas sim para subjugar presas

Muitas vezes, os venenos das serpentes estão associados a dores intensas. Essa é uma das mais fortes razões pelas quais muitas pessoas as temem.

Contudo, uma investigação encabeçada por cientistas da Universidade de Bangor (Reino Unido), em colaboração com instituições europeias e australianas, revela que, pelo menos neste caso, não foi para causar dor que o veneno das víboras da Europa evoluiu.

A equipa analisou os venenos quatro espécies de víboras – Vipera ursinii, Vipera ammodytes, Vipera aspis e Vipera berus – para tentar responder a uma questão que, por muito tempo, tem permanecido sem resposta: como é que essas serpentes equilibram a função defensiva do veneno (para se protegerem de predadores) com a função de captura de presas (que requer a imobilização rápida da presa)?

A dor faz com que as vítimas se contorçam em agonia, o que pode aumentar a probabilidade de o predador ser ferido, e gravemente, e de a presa escapar. Por outro lado, um veneno concebido para subjugar as presas pode não servir de grande aviso para os predadores das serpentes.

“Esperávamos encontrar evidências de que algumas víboras evoluíram componentes do veneno especificamente para causar dor rapidamente, como mecanismo de defesa”, recorda Wolfgang Wüster, principal coautor do estudo.

“Em vez disso, não encontrámos quaisquer evidências de que os venenos ativam diretamente células nervosas sensíveis à dor. Isso sugere que, nas víboras europeias, a evolução do veneno é, principalmente, impulsionada pela necessidade de subjugar a presa”, detalha.

As glândulas de veneno das serpentes conseguem produzir apenas tipos específicos de venenos consoante a espécie, o que significa que umas produzem venenos com determinadas funções e efeitos e outras com outros.

Os investigadores começaram o estudo convictos de que víboras que se alimentam de animais com menos defesas, como insetos, podiam ter desenvolvido toxinas para produzir dor para defesa.

Não sendo preciso grande esforço “venenoso” para subjugar os insetos dos quais se alimentam, essas serpentes podiam ter orientado o veneno para a proteção contra predadores e outras ameaças. O inverso seria esperado de espécies que se alimentam de presas que podem causar mais danos às serpentes, como os roedores, com garras e dentes afiados.

Contudo, não foi isso que constataram, testando os venenos das diferentes víboras europeias em laboratório em células sensíveis à dor. Independentemente da dieta que tenham, nenhum dos venenos desses répteis evoluiu especificamente para causar a dor.

Assim, concluem os autores deste trabalho que a seleção natural deu prioridade à eficiência na caça em detrimento da produção de dor como defesa durante a evolução dos venenos das víboras europeias.

“Isto desafia a ideia de que as funções de defesa e predação impulsionam a evolução do veneno em diferentes direções nas serpentes”, afirma Bálint Üveges, primeiro autor do artigo. “Os nossos resultados indicam que a captura de presas é a força dominante que molda a composição do veneno nestas espécies.”

Saber mais:

sábado, 8 de agosto de 2026

Cientistas criam vírus com IA para combater superbactérias


Pela primeira vez, cientistas da Universidade de Stanford e do Arc Institute recorreram à Inteligência Artificial (IA) para criar novos tipos de vírus, que não existem na natureza. O objetivo é o desenvolvimento de tratamentos para o combate de bactérias resistentes ou superbactérias.

“A nossa abordagem amplia o que a genómica sintética pode alcançar juntamente com métodos como evolução dirigida e engenharia racional, traça um caminho para gerar terapias com bacteriófagos adaptativos e resilientes contra agentes patogénicos em rápida evolução e estabelece uma base para o projeto generativo de genomas maiores e mais complexos”, referem os investigadores no estudo publicado na quinta-feira na revista Science.

Apesar de a biologia sintética não ser novidade, sobretudo em relação à reprodução de genomas conhecidos, os investigadores ensinaram o modelo de IA Evo 2 a “reconhecer padrões de estrutura de ADN na natureza e, em seguida, a usar esses dados para escrever receitas para vírus inteiramente novos”, refere o The New York Times. As receitas foram usadas para criar bacteriófagos, para serem inseridos em bactérias E. coli resistentes ao PhiX174. Estes micro-organismos apenas infetam e destroem bactérias e não afetam humanos.

O Evo 2 foi treinado a aprender estruturas de sequências genéticas dos genomas PhiX174 e cerca de 15 mil parentes próximos, e criar novas. No total, foram analisados nove biliões de nucleótidos. O modelo gerou 700 mil novos vírus, tendo sido selecionadas 285 sequências de moléculas, que foram sintetizadas quimicamente e testadas. Destas, foram gerados 16 bacteriófagos com possibilidade de infetar bactérias e que se mostraram tão resistentes quanto os vírus naturais.

Estes vírus não representam uma ameaça para os humanos, pois “são todos semelhantes a um vírus natural chamado PhiX174, que só consegue infetar bactérias”, sublinha o jornal norte-americano. No entanto, o estudo aumenta as preocupações em relação à criação de vírus em laboratório para serem usados como armas biológicas. Por essa razão, o modelo de IA foi treinado para produzir receitas de vírus que apenas infetassem bactérias, e não humanos, animais ou fungos.

“Acho isso muito louvável, porque [os investigadores] não recebem nenhuma orientação de lugar nenhum sobre o que deveriam estar a fazer”, afirmou ao The New York Times Moritz Hanke, investigador do Centro Johns Hopkins para Segurança da Saúde, que não participou no estudo. O académico alerta que os governos e organizações científicas têm demorado a implementar medidas de proteção para impedir a geração de um vírus mortal.

Na semana passada, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) implementaram uma nova política para interromper investigações de alto risco que envolvem o desenvolvimento da nocividade de agentes biológicos.

“Só queríamos ser extremamente cautelosos”, sublinhou Brian Hie, biólogo computacional da Universidade de Stanford e um dos autores do estudo, em relação à investigação.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Os principais CEO das empresas de IA pedem uma lei que proteja contra as armas biológicas

A urgência desta carta foi motivada pela revogação recente, por parte da administração Trump, de uma ordem executiva da era Biden que criava uma estrutura de triagem para a síntese de genes. Como o governo atual ainda não publicou uma política de substituição, este grupo de CEOs e cientistas uniu-se para pedir que o Congresso norte-americano crie uma lei federal definitiva.

A principal preocupação é que, embora criar um vírus funcional ainda exija perícia prática de laboratório, os novos modelos de IA conseguem apontar falhas em sistemas de segurança, sugerir mutações perigosas ou ensinar passo a passo como contornar os filtros das empresas que vendem DNA sintético.

Em Apoio ao Rastreio Obrigatório e Registo da Síntese de Ácidos Nucleicos
"Como investigadores em ciências da vida, criadores de IA e biotecnologia, e especialistas com uma vasta gama de visões sobre como abordar a política de IA, apelamos aos legisladores para que tornem obrigatória a triagem de encomendas de ácidos nucleicos sintéticos — e do equipamento necessário para os fabricar.

A capacidade de encomendar DNA sintético online acelerou o desenvolvimento de vacinas, impulsionou a investigação básica e permitiu que pequenas equipas acedessem a capacidades que antes estavam confinadas a grandes instituições. Desde a publicação de protocolos para reconstruir vírus a partir de filamentos de DNA, há mais de duas décadas, isto também tem sido reconhecido como um ponto crucial na cadeia de abastecimento biotecnológico onde um ator mal-intencionado pode causar danos desproporcionais. Reconhecendo esta vulnerabilidade, as empresas de síntese formaram o International Gene Synthesis Consortium em 2009 para desenvolver e implementar salvaguardas voluntárias contra a utilização indevida.

Embora o problema não seja novo, o ritmo de progresso na inteligência artificial é. Os sistemas de IA superam agora virologistas com nível de doutoramento em questões sobre procedimentos laboratoriais altamente técnicos nos seus próprios domínios de especialização. As evidências sobre o que isto significa para as ameaças atuais à biossegurança são genuinamente mistas, mas a tendência é difícil de contestar. Os sistemas de IA estão a melhorar rapidamente e, a par de benefícios incríveis para a ciência e a medicina, existe a possibilidade real de que as barreiras de conhecimento que historicamente impediram atores mal-intencionados de obter armas biológicas venham a erodir significativamente.

O apoio à triagem não depende de uma visão específica sobre a IA; o caso da biossegurança tem sido reconhecido por cientistas e governos há décadas. A triagem é também uma das medidas de biossegurança mais bem compreendidas e menos disruptivas disponíveis. Ela solicita aos fornecedores de DNA sintetizado e aos fabricantes de máquinas de síntese que verifiquem se os pedidos de síntese contêm sequências preocupantes e que validem a legitimidade do cliente antes de enviarem as encomendas. Os fornecedores devem também registar as encomendas de síntese e os dados de sequenciação para apoiar investigações legítimas de biossegurança, de modo a que qualquer ameaça que consiga escapar à triagem inicial possa ser rastreada até à sua origem - inclusive quando sequências individuais não levantariam preocupações de forma isolada. A própria consciência da rastreabilidade dissente o uso indevido.

(...) Dado o ritmo a que a tecnologia subjacente está a mudar, acreditamos que a necessidade é urgente. O Congresso deve agir nesta sessão, e aplaudimos os esforços legislativos atualmente em curso. Para garantir um padrão nacional consistente, em vez de uma manta de retalhos de leis estaduais conflituosas, os estados devem também considerar a implementação de requisitos baseados nas diretrizes federais e da indústria já existentes."

terça-feira, 26 de maio de 2026

Cientistas descobrem por que a reciclagem de garrafas de plástico PET não é 100% eficaz


Uma investigação permitiu identificar os mecanismos moleculares que bloqueiam a degradação enzimática de um dos plásticos mais produzidos no mundo, o tereftalato de polietileno (PET), quando este se encontra na sua forma cristalina.

Publicado na revista The Journal of Physical Chemistry Letters, o estudo do Instituto de Ciências Marinhas (ICM-CSIC) e do Instituto de Química Avançada da Catalunha (IQAC-CSIC) apontou como principal problema a grande quantidade de energia necessária para a enzima se ligar às cadeias poliméricas quando estas estão extremamente compactadas.

Há duas décadas que os cientistas tentam aperfeiçoar enzimas capazes de decompor este material, presente em milhões de toneladas de resíduos, mas a maioria delas atua apenas na sua porção mais flexível, noticiou na terça-feira a agência Efe.

No entanto, os produtos comerciais apresentam frequentemente um elevado grau de cristalinidade, com moléculas altamente ordenadas, o que representa um desafio significativo para a degradação biológica.

Limitação estrutural e energética
Para realizar o estudo, a equipa científica combinou a análise de dados experimentais sobre o formato das cadeias de plástico com simulações computacionais de alta precisão.

Estas simulações permitiram observar como a enzima se liga a pequenos fragmentos de plástico e medir o gasto energético deste processo.
"Os nossos resultados demonstram que, embora a enzima seja teoricamente capaz de alcançar a posição correta para realizar o corte químico tanto em plástico macio como em plástico cristalino, o custo energético para tal neste último é proibitivo", observou o autor principal do estudo, Francesco Colizzi.
Ao compreender que a limitação é estrutural e energética, os investigadores podem agora concentrar-se na modificação da arquitetura das enzimas existentes.
"Se conseguirmos conceber enzimas que ultrapassem estas barreiras energéticas, estaremos muito mais próximos de uma verdadeira economia circular, onde as garrafas usadas possam ser transformadas em novas garrafas da mesma qualidade, vezes sem conta", realçou a primeira autora do estudo, Ania Di Pede-Mattatelli.
Para os cientistas, esta descoberta realça a necessidade de desenvolver novas ferramentas biotecnológicas para um processo de reciclagem circular mais sustentável e independente dos combustíveis fósseis.

Os investigadores sublinharam que a colaboração internacional é fundamental para alcançar o objetivo final, de criar um catálogo de biocatalisadores otimizados para diferentes tipos de resíduos plásticos, minimizando a pegada de carbono do processo de reciclagem e oferecendo uma alternativa viável à produção de plástico virgem derivado do petróleo.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Cientistas resolvem mistério sobre origem da vida complexa na Terra



Cientistas descobriram que os nossos antepassados microbianos usavam ambos oxigénio, resolvendo o mistério presente na teoria de que a vida complexa na Terra surgiu após a união de dois micróbios muito diferentes, foi esta quarta-feira divulgado.

O problema da teoria "mais amplamente aceite" para a evolução das "plantas, animais e fungos, conhecidos coletivamente como eucariotas" era não conseguir explicar como é que os dois micróbios estavam tão próximos para se unirem, quando um precisa de oxigénio para sobreviver e o outro era conhecido por viver em espaços sem este gás.

Estudo revela que antepassados "usam, ou pelo menos toleram, o oxigénio"
Segundo um estudo publicado na revista científica Nature, algumas arqueias Asgard, grupo de organismos do qual fazia parte um daqueles antepassados e que hoje em dia vivem sobretudo nas profundezas do mar e noutros espaços sem oxigénio, "usam, ou pelo menos toleram, o oxigénio".

"A maioria dos Asgards vivos de hoje foram encontrados em ambientes sem oxigénio", diz um dos autores do estudo, Brett Baker, professor associado de Ciências Marinhas e Biologia Integrativa na Universidade do Texas, nos Estados Unidos, citado num comunicado de divulgação do estudo desta instituição.

"Mas aqueles que estão mais relacionados com os eucariotas vivem em locais com oxigénio, como sedimentos costeiros pouco profundos, flutuando na coluna de água, e têm muitas vias metabólicas que utilizam oxigénio. Isto sugere que o nosso antepassado eucariótico provavelmente também possuía estes processos", acrescenta.

Teoria de Baker diz que a vida evoluiu num ambiente rico em oxigénio
A mais recente descoberta da equipa de Baker, que investiga genomas de arqueias Asgard, descobrindo novas linhagens, expandindo a diversidade enzimática e explorando as suas vias metabólicas, dá mais credibilidade à ideia de que a vida complexa evoluiu como a teoria previa e aparentemente num ambiente rico em oxigénio.

De acordo com a ciência, até há cerca de 1,7 mil milhões de anos a atmosfera terrestre tinha muito pouco oxigénio, mas os níveis do gás aumentaram drasticamente durante o período conhecido como o Grande Evento de Oxidação e "algumas centenas de milhares de anos" depois "surgiram os primeiros microfósseis de eucariotas conhecidos", o que indica que a presença de oxigénio pode ter sido importante para a origem da vida complexa.

"O facto de alguns dos Asgardianos, que são os nossos antepassados, serem capazes de usar oxigénio encaixa muito bem nisso", adianta Baker.

"O oxigénio apareceu no ambiente e os Asgardianos adaptaram-se a ele. Descobriram uma vantagem energética na utilização de oxigénio e, então, evoluíram para eucariotas".

Para os cientistas, os eucariotas surgiram quando uma arqueia Asgardiana desenvolveu uma relação simbiótica com uma alfaproteobactéria e esta terá evoluído, tornando-se "uma organela produtora de energia dentro dos eucariotas, chamada mitocôndria".

A coautora Kathryn Appler, investigadora de pós-doutoramento no Instituto Pasteur, em Paris, França, destaca "o enorme esforço de sequenciação e a sobreposição de métodos de sequenciação e estruturais" realizados pelos cientistas e que permitiram" ver padrões que não eram visíveis antes desta expansão genómica."

Investigação começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019
Segundo o comunicado, esta investigação resulta do trabalho de doutoramento de Appler no Instituto de Ciências Marinhas da Universidade do Texas, que começou com a extração de ADN de sedimentos marinhos em 2019.

A equipa da UT e os seus colaboradores reuniram mais de 13 mil novos genomas microbianos, tendo conseguido "centenas de novos genomas de Asgard" e "quase duplicando a diversidade genética" do grupo que era conhecida.

Com base em semelhanças e diferenças genéticas, os cientistas construíram uma árvore da vida alargada das arqueias de Asgard, tendo os novos genomas permitido também descobrir novos grupos de proteínas, "duplicando o número de classes enzimáticas conhecidas".

De seguida, analisaram a Heimdallarchaeia e compararam as proteínas que produz com proteínas eucarióticas envolvidas no metabolismo energético e do oxigénio. Usando um modelo de inteligência artificial chamado AlphaFold2, previram como estas proteínas se dobram em formas tridimensionais. As formas, ou estruturas, das proteínas determinam o seu funcionamento. Os resultados mostraram que várias proteínas produzidas pela Heimdallarchaeia se assemelham muito às utilizadas pelos eucariotas para o metabolismo energético eficiente baseado no oxigénio.

Os ex-investigadores da UT Xianzhe Gong (atualmente na Universidade de Shandong, na China), Pedro Leão (agora na Universidade Radboud, Países Baixos), Marguerite Langwig (agora na Universidade de Wisconsin-Madison, Estados Unidos) e Valerie De Anda (atualmente na Universidade de Viena, Áustria) são outros autores do estudo.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Cientistas alertam para riscos de 'vida espelho' com potencial devastador


Cientistas internacionais emitiram um alerta sobre a ameaça existencial representada por "vida espelho", micro-organismos sintéticos criados como reflexos estruturais de micróbios naturais. Esses organismos poderiam superar as defesas naturais de seres humanos, animais e plantas, causando danos irreversíveis, segundo um grupo de 40 pesquisadores, incluindo dois ganhadores do Prêmio Nobel.
Em um artigo divulgado na revista Science, publicado pelo Financial Times, os pesquisadores argumentam que os avanços na biologia sintética, embora promovam importantes inovações na saúde, também trazem o risco de gerar novos organismos potencialmente mortais, seja por acidente ou intencionalmente.

O perigo da "vida espelho"
A "vida espelho" baseia-se no fenômeno científico da quiralidade, ou "mão única", em que moléculas possuem a mesma composição química, mas são estruturalmente diferentes por serem imagens espelhadas. Micróbios espelho poderiam evadir o sistema imunológico humano e as defesas naturais de outros organismos, causando infecções letais e superando espécies naturais em diversos ecossistemas.

Segundo Jack Szostak, professor da Universidade de Chicago e ganhador do Nobel de Fisiologia ou Medicina, "a liberação de bactérias espelho no ambiente poderia ser pior do que qualquer desafio enfrentado anteriormente, e muito além de nossa capacidade de mitigação".

Michael Kay, bioquímico da Universidade de Utah, acrescenta que esses organismos seriam a "última espécie invasora", com capacidade de superar as defesas naturais de corpos humanos e ecossistemas.

Avanços tecnológicos e riscos globais
Os cientistas enfatizam a necessidade de ação internacional para regulamentar o desenvolvimento dessa tecnologia antes que ela se torne viável.

Com o rápido progresso nas tecnologias de biologia sintética impulsionadas por inteligência artificial, a criação de células vivas espelho deve ser possível em apenas 10 anos, segundo Vaughn Cooper, professor de microbiologia da Universidade de Pittsburgh.

O artigo no Science também aponta que os avanços recentes mostram que bactérias comuns, como a E. coli, podem crescer com fontes de alimentos que não possuem uma especificidade quiral, refutando a ideia de que organismos espelho seriam inviáveis por falta de nutrição adequada.
Medidas regulatórias urgentes

Os autores sugerem a adoção de modelos de regulamentação, como as Diretrizes de Biossegurança de Tianjin, elaboradas em 2021. Essas diretrizes promovem a colaboração internacional para monitorar e limitar tecnologias que poderiam facilitar a criação de organismos sintéticos perigosos.

Apesar das incertezas, os cientistas concordam que a ameaça é grave. "Bactérias espelho poderiam causar uma onda de infecções devastadoras se escapassem de um laboratório", alerta Eörs Szathmáry, professor de biologia evolutiva da Universidade Eötvös, na Hungria.

O avanço da biologia sintética trouxe benefícios inegáveis para a humanidade, mas também apresenta riscos consideráveis. O desenvolvimento de micro-organismos sintéticos "espelho" requer atenção global imediata para evitar um potencial desastre ambiental e biológico que poderia ameaçar todas as formas de vida conhecidas.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Comunicação entre plantas permite alertar contra perigos

Fonte: aqui

Uma nova pesquisa de cientistas da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, mostra que plantas conseguem se comunicar entre si quando são atacadas por pragas.

O estudo mostra que elas compartilham mensagens na forma de produtos químicos transportados pelo ar, conhecidos como compostos orgânicos voláteis (COVs), responsáveis por transferir informações entre as plantas.

A equipe de Andre Kessler, professor de ecologia e biologia evolutiva na Universidade Cornell, analisou a Solidago altissima, uma espécie botânica nativa do nordeste americano, e monitorou o impacto de um herbívoro específico: o besouro Trirhabda canadensis.

A grande descoberta é o que Kessler chama de “comunicação de canal aberto”. Quando as plantas estão sob ataque, seus cheiros — transportados por COVs — se tornam mais semelhantes.

“Então, elas meio que convergem para a mesma linguagem, ou para os mesmos sinais de alerta, a fim de compartilhar informações livremente”, diz Kessler. “A troca de informações se torna independente do nível de relação de uma planta com sua vizinha”.

A pesquisa constatou que plantas vizinhas recebem alertas de COVs e se preparam para a ameaça, que pode ser, por exemplo, uma praga de insetos.

“Vemos frequentemente que as plantas mudam seu metabolismo quando são atacadas por patógenos ou herbívoros”, diz Kessler. “Mas não é uma mudança aleatória — na verdade, essas mudanças químicas e metabólicas também as ajudam a lidar com esses agressores. É algo muito parecido com o nosso sistema imunológico: embora as plantas não possuam anticorpos como nós, elas podem se defender usando recursos químicos danosos.”

Esses recursos químicos incluem compostos defensivos. Alguns dos COVs, por exemplo, podem atrair insetos predadores, ou parasitóides, que matam os herbívoros agressores e salvam a planta.

As descobertas podem ter aplicações práticas em todo o mundo.

“Há muito tempo, aos humanos pensam em usar as interações planta-planta na agricultura orgânica para proteger as plantações, especialmente quando há mais de uma espécie plantada no mesmo local”, diz Kessler. “Estamos envolvidos em um trabalho de um sistema no Quénia — chamado ‘push-pull‘ e desenvolvido pelo Centro Internacional de Fisiologia e Ecologia de Insetos — que se baseia na manipulação do fluxo de informações para controlar pragas em campos de milho.”

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Biomimicry - Tree Media Video


O vídeo "Biomimicry", produzido pela Tree Media e apresentado por Janine Benyus, explora o conceito de biomimética e como a natureza pode inspirar soluções para problemas de engenharia, design e sustentabilidade. O filme, que estreou no SXSWEco, apresenta exemplos inspiradores de como a natureza pode ser uma fonte de soluções inovadoras e sustentáveis. 
O vídeo, com duração de 20 minutos, demonstra como a natureza pode ser uma fonte de inspiração para a criação de um mundo mais sustentável. Janine Benyus, co-fundadora da Biomimicry 3.8, oferece uma visão abrangente sobre o que é a biomimética e os valiosos ensinamentos que podemos aprender com a natureza. Ela apresenta exemplos de projetos inspirados na natureza que visam resolver desafios globais como a seca e as mudanças climáticas. 

sexta-feira, 15 de junho de 2018

An Outbreak of Nipah Virus in India Can Help Explain the Future of Infectious Disease


India’s Kerala state has just faced an outbreak of Nipah virus. Seventeen people have died so far. That wouldn’t seem so serious, but only eighteen people were infected.  To make matters worse, there is no known cure or vaccine for Nipah – all doctors can offer is supportive treatment while the victim’s immune system attempts to fight off the virus, which causes brain damage.

Nipah is a near perfect example of an emerging infectious disease. Its history and evolution follow the pattern of almost every new virus.

First of all, it’s not actually new. When we say Nipah is an “emerging” infectious disease, we mean that it is emerging into humans and domestic animals. The virus itself has been in existence for a long time; it’s not something that recently evolved out of nowhere. But it was only identified in 1998, when it first infected humans in Malaysia in the village of Sungai Nipah. In the 1970s, intensive pig farming started in Malaysia, with farmers expanding farmland into wild areas. Nipah, it turns out, was already present in fruit bats. Bats infected pigs, and then pigs infected people. 265 people were infected, and 40% of them died.

Next, Nipah is a Zoonotic disease. It circulates among animals, and can then infect humans. In this case, Nipah has a wild animal reservoir – bats – and when humans began to expand into bat territory, the infection spread. Ebola is the same way; it’s present among wild bats and every so often it spreads into the human population and then among people. As people take over the last wild spaces on the planet, we’re going to see more virus outbreaks like Nipah.

And, finally, like so many viruses, Nipah has no cure. Bacterial infections can almost always be treated or cured through some combination of antibacterial drugs. Viruses are much more difficult to target. HIV can be treated, not cured; the same is true of the herpes virus. There are drugs that treat the influenza virus, but their effectiveness is limited.

This Nipah outbreak was probably caused by bats. Pigs have been ruled out as the infection source. While the India health authorities have not yet identified Nipah in bats in Kerala, Nipah is present it bats all through South and Southeast Asia and it is challenging to identify viruses in wild animals like bats, especially since bats carry the circus without actually getting sick. It’s most likely that some unfortunate person came into contact with a bat or a fruit contaminated with bat saliva and was directly infected.

So far the Indian response has also been exemplary. The outbreak in India seems to be under control. The first cases were identified in Kozhikode district, and were promptly reported to the Indian Ministry of Health and the World Health Organization. The Ministry of Health sent a response team immediately to support response. The Kerala Department of Health and Family Welfare has identified and quarantined every Nipah patient, and they are tracing their contacts to identify people who may have been exposed.

This, though, is what the future looks like. Zoonotic diseases and human deaths, apparently out of the blue. When we’re lucky, the response will look like this too.

Artigos científicos

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Química do Amor


Num programa que desvenda a química escondida no nosso dia-a-dia, pode parecer estranho falar de Amor, quase sempre celebrado como um fenómeno espiritual, por vezes apenas físico, mas raramente visto como resultado da acção de algumas substâncias químicas sobre o cérebro. A verdade é que o "Amor" é um complexo fenómeno neurobiológico, baseado em atividades que envolvem a acção de um número elevado de mensageiros químicos.

Outras Leituras
A química do amor e do sexo

terça-feira, 17 de abril de 2012

Ted Talk - Imitando as biotecnologias da Natureza (Biomimicry ou Biomimetics)






A biomimética é uma área da ciência que tem por objetivo o estudo das estruturas biológicas e das suas funções, procurando aprender com a Natureza (e não sobre ela) e utilizar esse conhecimento em diferentes domínios da ciência. A designação desta recente e promissora área de estudo científico provém da combinação das palavras gregas bíos, que significa vida e mímesis que significa imitação. Dito de modo simples, a biomimética é a imitação da vida.

Algumas ligações com interesse:
  1. The 15 Coolest Cases of Biomimicry (em inglês) "Os 15 mais interessantes casos de biomimética"
  2. The Biomimicry Institute
  3. Termite Mounds Inspire Zimbabwe Office Complex
  4. Biomimetic Architecture - Biomimicry applied to building and construction
  5. Ask Nature - the Biomimicry Design Portal: biomimetics, architecture, biology, innovation inspired by nature, industrial design


domingo, 6 de dezembro de 2009

As Formigas Agricultoras e a sua Evolução

Formiga cortadeira. Fonte: aqui

1. As formigas agricultoras
Maria Carlos Reis
Se pensa que o Homem descobriu a agricultura, está enganado! Há mais de 50 milhões de anos que pequenas formigas desenvolvem culturas de fungos, como forma de garantir alimento, numa relação de contornos verdadeiramente impressionantes.

A descoberta da agricultura pelo homem terá acontecido há mais de 10.000 anos. Ao permitir o controlo das fontes de alimento, a agricultura lançou as bases para o desenvolvimento das civilizações. Mas apesar desta descoberta ter sido um triunfo incontestável, na realidade o homem não foi o primeiro ser a pôr em prática técnicas agrícolas. Há cerca de 50 milhões de anos atrás, não muito depois do desaparecimento dos dinossauros, e muito antes do homem se ter diferenciado dos chimpanzés, algures na bacia do Amazonas, um grupo de humildes formigas descobriu uma forma de assegurar alimento – tornaram-se agricultoras, cultivando fungos no interior dos formigueiros para a sua alimentação. Esta alteração do modo de vida terá ocorrido apenas num grupo restrito de formigas, já que a maioria das actuais 10 000 espécies mantém os seus hábitos de predador. Contudo, a razão porque tal terá acontecido permanece indeterminada. É provável que a competição ou alguma alteração no ambiente tenha “empurrado” este grupo de formigas para uma modificação drástica dos seus hábitos, alteração essa que terá sido vantajosa, pois só assim se explica que actualmente existam cerca de 200 espécies agricultoras. Todas estas espécies pertencem à tribo Attini, e distribuem-se fundamentalmente pelas florestas tropicais da América Central e do Sul. Nesta categoria encontram-se géneros considerados inferiores ou mais primitivos e géneros superiores, dos quais fazem parte os géneros Atta e Acromyrmex, que correspondem às conhecidas formigas cortadeiras, extremamente especializadas.

Mas esta relação está longe de ser uma exploração; pelo contrário, ambos os intervenientes souberam tirar dela o melhor proveito. Na ausência de enzimas que possibilitam a degradação da matéria vegetal e de insectos mortos, estas formigas obtêm os nutrientes de que necessitam através dos fungos. Em contrapartida, eles ganham um local no solo onde se podem desenvolver, protegidos pelas formigas de predadores e parasitas, e conseguem obter mais material da área circundante do que se estivessem por sua conta, material esse que já vem preparado pelas enzimas produzidas pelos insectos. Os fungos utilizam esta biomassa preparada para crescerem e acumulam tantos nutrientes que as extremidades das suas hifas incham com açúcares e proteínas, que depois os insectos podem morder. Para além disso, na preparação do substrato para as suas culturas, as formigas conseguem atenuar os efeitos dos fungicidas presentes nas plantas e desenvolveram a capacidade de escolher as folhas com menor conteúdo destes compostos. Esta aptidão é retribuída pelos fungos, já que eles conseguem degradar as substâncias insecticidas presentes no alimento trazido pelas formigas. A horta de fungos é, assim, uma forma eficiente de transformar material indigestível em alimento utilizável pela colónia de formigas.

Contudo, esta relação simbiótica assume contornos distintos, dependendo do tipo de agricultores envolvidos, nomeadamente do tipo de material que recolhem como substrato para o crescimento dos seus fungos. Assim, as formigas consideradas inferiores constituem colónias relativamente pequenas e colhem uma grande variedade de alimentos que colocam à disposição dos seus fungos, esperando que estes os degradem, desde ervas, folhas caídas, excrementos de insectos e mesmo os seus cadáveres. Contrariamente, as formigas superiores tendem a usar apenas material vegetal e as cortadeiras utilizam apenas material retirado de plantas vivas.

Estas últimas possuem uma complexidade social espantosa. Os seus formigueiros são enormes estruturas elaboradas, com centenas de câmaras de diferentes tamanhos, por vezes a mais de três metros de profundidade, onde chegam a existir mais de 8 milhões de trabalhadoras, frequentemente pertencentes a diferentes castas, especializadas em tarefas distintas. À superfície, a área envolvente do formigueiro é mantida escrupulosamente limpa pelas trabalhadoras. As colectoras de material vegetal, detentoras de uma força surpreendente, cortam as folhas e carregam-nas até ao formigueiro. Enquanto cortam, elas bebem a seiva que se liberta das margens cortadas, o que constitui uma importante fonte de energia para estes indivíduos. Já no formigueiro, pela acção de diferentes tipos formigas, as folhas são cortadas em fracções cada vez mais pequenas, mastigadas e encharcadas com enzimas, transformando-se numa pasta mole, que é posteriormente espalhada sobre o substrato dos fungos. Existem, ainda, as formigas colectoras de detritos, que os recolhem e transportam até câmaras específicas, situadas a grandes profundidades. Os efeitos das formigas cortadeiras são, por vezes, devastadores. Uma manada de elefantes dificilmente pode causar tanto distúrbio como a passagem das trabalhadoras formigas, que procuram matéria verde para alimentarem as suas hortas, desfolhando em pouco tempo qualquer planta que apareça no seu caminho. Por isso são responsáveis por enormes prejuízos na agricultura, nos países em que atingem grandes densidades. Contudo, para responder a estes ataques das formigas, as plantas desenvolveram um arsenal de substâncias que incorporaram nas suas folhas, incluindo insecticidas e fungicidas que, ao aniquilarem os fungos, afectam indirectamente os insectos. Como resposta, as formigas adquiriram, ao longo da evolução, a capacidade de detectar muitos destes compostos, evitando utilizar folhas de plantas que os produzam. É por este motivo que as plantas nativas não são tão molestadas quanto as introduzidas, que não tiveram tempo de desenvolver defesas. Por isso estas formigas tendem a evitar as florestas húmidas virgens e a preferir zonas já perturbadas.

Apesar do seu impacto devastador, verificou-se que as formigas, ao tratarem cuidadosamente das suas culturas de fungos, desempenham funções ecológicas muito importantes. Elas estimulam o crescimento de novas plantas, promovem a degradação do material vegetal e o enriquecimento e arejamento do solo. Embora possam espalhar a devastação à superfície, elas criam um verdadeiro Éden para os fungos, em autênticos jardins subterrâneos. Mas a complexidade da simbiose entre as formigas agricultoras e os seus fungos, adquirida durante uma extensa história evolutiva, é bem maior do que inicialmente se pensou. Muito antes dos humanos, as formigas começaram a tomar medidas para optimizarem as condições de crescimento das suas culturas. Por exemplo, os investigadores descobriram que certas áreas da cutícula das formigas se encontram revestidas por uma substância de aspecto poeirento, que estudos micromorfológicos e bioquímicos revelaram ser massas filamentosas de bactérias do grupo dos Actinomicetes, especialmente do género Streptomyces, produtoras de metabolitos secundários, muitos dos quais com propriedades antibacterianas e antifúngicas específicas. À luz das propriedades bioquímicas únicas deste grupo, foi proposto que as bactérias associadas às formigas seriam responsáveis pela supressão do desenvolvimento de agentes patogénicos potencialmente devastadores, nomeadamente outras espécies de fungos, parasitas, que invadem as plantações das formigas. Assim, a utilização de antibióticos tem sido uma constante desde que as formigas iniciaram as suas actividades agrícolas. Porém, as descobertas não se ficam por aqui. Também elas foram pioneiras na utilização de técnicas de fertilização, já que realizam adubações à base de folhas misturadas com excrementos, de forma a maximizar o crescimento das culturas. Para além disso, as formigas realizam autênticas mondas quando fungos indesejáveis aparecem, eliminando-os com as suas mandíbulas.

Os cientistas conhecem há mais de um século estas formigas que cultivam massas de fungos para alimento, mas enquanto as formigas foram estudadas, o mesmo não aconteceu com os fungos. Por não desenvolverem corpos frutíferos (estruturas da reprodução sexuada) nos formigueiros, foi difícil fazer a classificação taxonómica dos fungos e determinar se poderiam viver no exterior, na ausência da relação simbiótica. No entanto, uma equipa de cientistas conseguiu analisar o ADN de mais de 500 tipos de fungos encontrados em formigueiros, tornando possível relacionar os fungos cultivados pelas formigas e alguns dos cogumelos que apareciam nas redondezas. Os cientistas descobriram que a maioria dos fungos pertence à família Lepiotaceae, escolha que não terá sido arbitrária, já que estes são especializados na decomposição de detritos vegetais. A partir do momento em que os fungos iniciaram a relação simbiótica deixaram de se reproduzir sexuadamente e acabaram por depender das formigas para a sua dispersão. Reproduzem-se de forma vegetativa, através de rebentos, que não são mais do que clones do fungo original. Pelo facto de se ter observado que as novas rainhas destes formigueiros, ao saírem para acasalar e formar novas colónias, transportam fungos nas suas peças bucais, durante muito tempo pensou-se que esta seria a forma de todas as hortas começarem, o que significaria a existência de linhagens de fungos com milhares de anos. No entanto, investigações genéticas demonstraram que, apesar das formigas de uma mesma colónia só cultivarem um tipo de fungo, outras colónias da mesma espécie utilizam outros tipos de fungos, o que implica que, de vez em quando, as formigas saiam dos formigueiros para obter fungos livres na natureza, de forma a refrescarem os seus stocks e, provavelmente, obterem uma maior variedade alimentar. Por outro lado, algumas colónias de diferentes espécies cultivam exactamente os mesmos tipos de fungos. Por tudo isto considera-se, actualmente, que as formigas agricultoras domesticaram fungos várias vezes ao longo da sua evolução.

Em situações de desespero, resultantes de factores ambientais (como uma inundação) ou do ataque de doenças ou parasitas que limpam estas hortas, as formigas podem tornar-se mais beligerantes, pois estes condicionalismos têm efeitos devastadores, podendo condenar à indigência toda a colónia. Nas situações de crise as formigas ou morrem ou têm de procurar novos fungos para cultivarem. Esta procura pode ser feita na natureza ou mesmo no formigueiro das suas vizinhas. Já foram observadas operações organizadas de furto, em que as formigas de uma colónia tomam de assalto outro formigueiro para obterem fungos, forçando-o a sair, e chegando mesmo a fazer prisioneiros, que põem a trabalhar.

Os cientistas sempre se impressionaram com a harmonia da relação existente entre as formigas e os seus parceiros, mas apenas agora estão a desvendar as nuances que esta história evolutiva e de simbiose tem por trás. Eles estão a aplicar ferramentas moleculares para reconstruir a história genealógica da simbiose, determinando a sua origem e como terá progredido ao longo dos milhões de anos da sua existência. Esta interdependência assume um carácter tão forte que virtualmente controla o ecossistema de muitas regiões neotropicais. Existem cientistas que consideram esta relação como um dos maiores passos da evolução animal, colocando-a a par da conquista do meio terrestre. Mas estas descobertas são importantes ainda noutro sentido. O facto desta simbiose ter despertado tanto interesse constitui um motivo para que os fungos sejam estudados. Este tem sido um grupo bastante desprezado, apesar do seu papel crucial no funcionamento de todos os ecossistemas.

O mais antigo agricultor da Terra tem seis patas e pode ser capaz de nos dar algumas ideias de como praticar agricultura sem causar danos ambientais, pois é isto que tem feito durante muitos milhões de anos. As formigas poderão fornecer-nos algumas pistas sobre a forma de manter as mesmas técnicas agrícolas por tão longo tempo. Por exemplo, uma das lições que podemos reter prende-se com a necessidade de manutenção das diferentes variedades de plantas de cultivo em meio natural. Da mesma forma que as formigas saem para trazer novos fungos se uma doença devastar as suas culturas, os agricultores também deveriam poder ir buscar à natureza as plantas originais após o ataque de doenças. Por tudo isto, o que quer que nós tenhamos aperfeiçoado, em termos de práticas agrícolas, terá sido inquestionavelmente melhor realizado pelas formigas agricultoras, ao longo de 50 milhões de anos.


2. Documentos Recomendados por BioTerra

1. Paleodistributions and Comparative Molecular Phylogeography of Leafcutter Ants (Atta spp.) Provide New Insight into the Origins of Amazonian Diversity
2. Fungus-growing ant (University of Copenhagen)2.3. Estudo comportamental da formiga cortadeira Acromyrmex spp
3. O PAPEL DE FORMIGAS CORTADEIRAS (ATTA SEXDENS SEXDENS) NA CICLAGEM DE NUTRIENTES EM SOLOS DE RESTINGA
4. Evolution of Ant Agriculture
5. Dry habitats were crucibles of domestication in the evolution of agriculture in ants
6. What Ants Can Teach Humans about Farming

domingo, 6 de abril de 2008

Ondas de rádio são prejudiciais, ponto! O nível de potência é irrelevante

Apenas um violino desafinado numa orquestra, ou uma voz desafinada num coro, arruinará uma bela harmonia ou um conjunto encantador. Não importa quão alto ou quão suavemente ele soe; se não parar, a performance chegará ao fim.

O mesmo acontece com as células do nosso corpo e com os pássaros, insetos, animais e plantas cuja música enche a Terra. Quando uma nota estridente é introduzida, não importa quão suavemente, os acordes tornam-se dissonantes, a melodia torna-se ruído, a vida degrada-se e desaparece.

Vida, informação e eletricidade
A coesão da vida não vem da química. Vem da Terra, do Sol e das estrelas.

K. H. Li escreveu, em seu prefácio ao livro Bioinformação Eletromagnética:

“É o aspecto informativo dos sistemas biológicos que caracteriza a visão essencial da vida. E isto é menos refletido pelas descobertas bioquímicas, mas sim por um nível além do domínio da reatividade química, nomeadamente o dos campos eletromagnéticos.” [1]

Nikolai Kositsky, Aljona Nizhelska e Grigory Ponezha revisaram 40 anos de pesquisa na Ucrânia e na Rússia e concluíram:

“Os efeitos biológicos [da radiação eletromagnética] não dependem da força da energia transportada para um ou outro sistema, mas da informação transportada para ele.” [2]

W. Grundler e F. Kaiser escreveram:

“As células vivas exibem um alto grau de processamento de informação e comunicação... Está claramente demonstrado que um campo externo muito fraco e de oscilação rápida está influenciando as reações biológicas das células... Temos que levar em conta um oscilador 'interno' (o própria célula ou partes da célula ou de seu ambiente) acoplando-se ao campo externo”. [3]

John Zimmerman e Vernon Rogers escreveram:

“A bioinformação eletromagnética depende da capacidade dos organismos de emitir, receber e interpretar padrões espaço-temporais de campos eletromagnéticos.” [4]

Herbert L. König, aluno de Winfried Schumann, escreveu:

“As forças eletromagnéticas em geral devem desempenhar um papel de importância ainda incalculável na transferência de informação entre ou para organismos vivos.” [5]

Ulrich Warnke escreveu:

“A forma comunicativa do contato das antenas em abelhas e formigas pode ser registrada por um oscilógrafo. Cada vez que ocorre um curto contato entre as antenas, um sinal é gerado no sistema eletrolítico do receptor na forma de um impulso.” [6]

Günther Becker mostrou que a taxa de construção de galerias por cupins era afetada pela existência de cupins num recipiente adjacente, mas não se a parede entre eles fosse protegida com um material condutor. “Esses resultados indicam que a comunicação entre grupos de cupins é baseada em campos elétricos ou eletromagnéticos produzidos pelos insetos”, escreveu ele. [7]

Bernhard Ruth escreveu que o crescimento das plantas e dos animais não pode ser explicado em termos de reações químicas porque “todas as reações químicas ocorrem igualmente em todas as direções” e o crescimento biológico é direcional. “As células existentes de um organismo têm que determinar quando e onde uma nova célula será gerada por mitose. Isto só pode ser alcançado por meio de uma transferência de informação que estimule a célula necessária a se dividir, e que não seja emitida em todas as direções de maneira homogênea.” [8]

Helmut A. Fischer escreveu:

“Há boas razões para acreditar que, além das formas de comunicação mecânica e química, existem mais formas de comunicação biofísicas... As descobertas feitas até agora confirmam que os processos bioquímicos numa célula, além dos efeitos térmicos, também provocam outros sinais eletromagnéticos." [9]

Igor Jerman escreveu:

“Oscilações eletromagnéticas coerentes nas células permitem processos intermoleculares ordenados e atrações altamente seletivas entre enzimas e substratos. Estas oscilações... representam um meio importante de conexão intercelular de longo alcance e, portanto, têm um papel importante na manutenção de uma ordem intercelular... As neoplasias decorrem do fato de que algumas das células dentro do organismo escapam do campo intercelular coerente e, portanto, da ordem intercelular.” [10]

Células vivas emitem sinais em todo o espectro eletromagnético
No seu estudo, “Emissão eletromagnética em comprimentos de onda de mícrons de nervos ativos”, Allan Fraser e Allan Frey mediram emissões infravermelhas de nervos com comprimentos de onda entre 2 e 20 mícrons, a uma intensidade de 6 μW/cm2. [11]

Bernhard Ruth detectou fótons de luz emitidos por plantas:

“A intensidade luminosa emitida pelas mudas de trigo, feijão, lentilha e milho variou entre 700 cps (contagens por segundo) e 250 cps... A distribuição espectral estendeu-se de 400 nm a 600 nm... As células de levedura apresentam uma radiação entre 150 e 380 nm.” [8]

Shou Sin-Sung escreveu que “o DNA é uma possível fonte de radiação”. [12]

AH Jafary-Asl e Cyril W. Smith detectaram sinais de radiofrequência de levedura a uma frequência de 8 MHz. [13]

Herbert A. Pohl detectou sinais em 7 e 33 kHz de uma espécie de algas. [14]

J. Kent Pollock e Douglas G. Pohl, em estudos de dieletroforese, detectaram emissões de RF de células de camundongos em frequências entre 4 e 9 MHz. Emissões semelhantes foram detectadas em células de bactérias, leveduras, vermes, galinhas, sapos, macacos e humanos. As emissões máximas ocorreram durante a divisão celular e nenhuma emissão de células mortas:

Funciona em frequências entre 4 e 9 MHz. Emissões semelhantes foram detectadas em células de bactérias, leveduras, vermes, galinhas, sapos, macacos e humanos. As emissões máximas ocorreram durante a divisão celular e nenhuma emissão de células mortas:

“As evidências dos experimentos m-DEP e dos experimentos de padrões intimamente relacionados indicam consistentemente que as células estão produzindo campos elétricos de radiofrequência.” [15]

Sergey Sit’ko e seus colegas mediram as emissões do corpo humano entre 37-78 GHz em 0,000000000000001 a 0,0000000000000001 μW/cm2Hz. [16]

É preciso pouco ou nenhum poder para interferir na vida
Alan Frey escreveu:

“Os campos eletromagnéticos não são uma substância estranha aos seres vivos como o chumbo ou o cianeto. Com substâncias estranhas, quanto maior a dose, maior o efeito – uma relação dose-resposta. Em vez disso, os seres vivos são sistemas eletroquímicos que usam CEM de frequência muito baixa em tudo, desde o enovelamento de proteínas, passando pela comunicação celular, até o funcionamento do sistema nervoso. Para modelar como os CEM afetam os seres vivos, podemos compará-los ao rádio que usamos para ouvir música.

“O sinal EMF que o rádio detecta e traduz em som de música é quase incomensuravelmente fraco. Ao mesmo tempo, existem, no total, fortes campos eletromagnéticos incidindo sobre o rádio. Não notamos os sinais EMF mais fortes porque eles não têm a frequência ou modulação apropriada. Assim, eles não atrapalham a música que ouvimos. Porém, se você impor ao rádio um EMF ou harmônico adequadamente sintonizado, mesmo que seja muito fraco, isso interferirá na música. Da mesma forma, se você impor um sinal EMF muito fraco a um ser vivo, ele terá a possibilidade de interferir no funcionamento normal se estiver devidamente sintonizado. Esse é o modelo que muitos dados biológicos e teorias nos dizem para usar, não um modelo toxicológico.” [17]

Gerard Hyland disse:

“O corpo humano é um instrumento eletroquímico de extrema sensibilidade.” [18] “Se um sinal pode operar um dispositivo mecânico, ele pode perturbar todas as células do corpo humano.” [19]

Igor Belyaev escreveu:

“Embora o conceito de taxa de dose/SAR seja adequado para a descrição de efeitos térmicos agudos, não é aplicável para exposições crônicas a N[on]T[hermal] M[icro]W[aves].” [20] e “A frequência de ressonância de 51,755 GHz da reação da célula aos MMWs não dependia da densidade de potência (PD) na faixa de 10(exp-19) a 3 × 10(exp-3) W/cm2.” [21]

Ross Adey, da Universidade Loma Linda, escreveu:

“Descobrimos algumas das chaves para compreender como as células do corpo 'sussurram' umas para as outras e, ao fazê-lo, descobrimos algumas das chaves para compreender como os campos eletromagnéticos, tão fracos que alguns cientistas os consideraram incapazes de efeitos biológicos, são detectados por tecidos vivos, e estudamos algumas das prováveis consequências para a saúde humana... Esses campos podem exercer efeitos mesmo em intensidades próximas de zero, ou seja, um limite inferior ou limiar pode não existir.” [22]

Neil Cherry apresentou “evidências conclusivas” de que “o nível seguro de exposição é zero” [23] e que os sinais de rádio “podem interferir nos corações, cérebros e células em intensidades extremamente baixas”. [24]

Roberto Becker escreveu:

“Não existe uma maneira eficaz de se proteger dos campos ambientais, exceto evitar áreas onde eles são predominantes” [25] e “Se a sensibilidade do sistema for a descrita atualmente, então a frequência se torna um parâmetro mais importante em qualquer experimento do que a intensidade do campo”. [26]

Em O Corpo Elétrico, ele escreveu:

“A pesquisa acumulada mostrou claramente que pequenas doses muitas vezes têm os mesmos efeitos que doses maiores... Na verdade, já houve um relato de alterações nas ondas cerebrais sugerindo ressonância de correntes elétricas neurais com ondas de rádio e microondas até um bilionésimo de microwatt. ... Devemos compreender que nenhuma quantidade de EMR artificial, por menor que seja, foi comprovadamente segura para exposição contínua. Bioefeitos foram encontrados nas doses mensuráveis mais baixas.” [27]

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Adelino Canário- coordenador do Projecto Latitude 60


No I WORKSHOP PORTUGAL E A ANTÁRCTIDA (pdf da Revista Finisterra), Adelino Canário refere as particularidades da Ecologia da Antárctida na evolução e aspectos adaptativos dos peixes que vivem nesses ambientes.

Adelino Canário é Director do Centro de Ciências do Mar do Algarve, Professor Catedrático da Faculdade de Ciências do Mar e do Ambiente da Universidade do Algarve, e é membro do Comité Português para o Ano Polar Internacional 2007-08. Com mais de 20 anos de experiência em investigação nas áreas da fisiologia e da bioquímica, tem coordenado vários projectos nacionais e internacionais (in Cria FM). O seu grupo de investigação estuda a função das hormonas na reprodução, osmorregulação e comportamento em peixes, incluindo as adaptações ao ambiente gelado das águas da Antárctica.

Os projectos actualmente a decorrer incluem a utilização das hormonas e ácidos biliares em comunicação química, a identificação de genes determinantes do sexo, a regulação dos níveis de cálcio, o mapeamento do genoma da dourada e Marine Genomics Europe, uma Rede de Excelência Europeia dedicada ao uso de genómica na biologia marinha (in LATITUDE60! Educação para o Planeta no Ano Polar Internacional 2007-08).

Mais informações: Ano Polar