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sexta-feira, 28 de agosto de 2026
Rosetta Stone - Shadowban
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quarta-feira, 8 de julho de 2026
Interpol - Iron City
O Interpol é uma das bandas mais emblemáticas do rock alternativo do início dos anos 2000, tendo-se formado em Manhattan, Nova Iorque, em 1997. Sendo um dos pilares da cena musical que revitalizou a cidade na virada do milénio, a banda norte-americana é mundialmente reconhecida pelo seu estilo focado no post-punk revival e no indie rock. O som do grupo caracteriza-se por uma atmosfera melancólica, guitarras rítmicas entrelaçadas, linhas de baixo marcantes e o vocal barítono e introspectivo de Paul Banks, que frequentemente suscita comparações com Ian Curtis, dos Joy Division. Com o lançamento do single "Iron City", que antecipa o oitavo álbum de estúdio This Mirror Weighs a Ton, a banda expande esta paleta tradicional ao fundir as suas guitarras clássicas com arranjos de cordas, instrumentos de sopro e uma produção muito mais atmosférica.
O significado de "Iron City" afasta-se um pouco das narrativas puramente urbanas e pessoais do passado para abraçar um conceito quase distópico e existencial. Segundo o próprio Paul Banks, a canção funciona como uma conversa conceptual entre a humanidade e uma Inteligência Artificial do futuro que assumiu o controlo, descrita por ele como uma espécie de matriarcado benevolente ou raivoso. A letra alterna entre os humanos a cantarem para essa entidade e a própria máquina a responder, gerando uma reflexão profunda sobre até que ponto a tecnologia moldará a nossa sensibilidade, a solidão e a arte, concluindo que a tecnologia apenas consegue simular aquilo que os humanos já criaram.
Esta bagagem conceptual e abstrata deve-se em grande parte à formação académica dos membros originais, uma vez que Paul Banks se licenciou em Literatura Inglesa e Comparada e o ex-baixista Carlos Dengler estudou Filosofia, ambos na Universidade de Nova Iorque. No campo dos romancistas e escritores, Henry Miller surge como a maior influência na honestidade lírica de Banks, que expressa o tom cru e visceral do autor nas suas músicas e carrega inclusive uma tatuagem em homenagem à trilogia Sexus, Plexus, Nexus. Outras referências literárias de peso incluem Vladimir Nabokov, de quem Banks absorve a elegância e a beleza da linguagem, e Thomas Mann, que inspira a exploração dos comportamentos humanos mais subtis. O lado mais cínico, boémio e urbano das crónicas da noite provém de Charles Bukowski, enquanto o realismo fantástico de Jorge Luis Borges e a sátira sombria de Kurt Vonnegut também deixam marcas na sua escrita.
No que diz respeito à filosofia e à poesia, a influência manifesta-se sobretudo através de uma forte atmosfera existencialista. O niilismo, o isolamento urbano e a busca por significado numa metrópole fria remetem diretamente para o pensamento de filósofos como Jean-Paul Sartre e Albert Camus. As letras do Interpol funcionam assim como pequenos poemas modernos, assemelhando-se por vezes às técnicas de escrita automática dos poetas surrealistas, onde o foco reside mais no fluxo de consciência, no mistério e no impacto sonoro das palavras do que propriamente numa narrativa literal com princípio, meio e fim.
sábado, 17 de junho de 2023
Os economistas que desafiam os velhos dogmas
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| O Pudim [The Doughnut]. Gráfico de Kate Raworth e Christian Guthier |
Temos nos apegado aos experimentos mais curiosos e muitas vezes ridículos em análise econômica, alguns até consagrados com o Prémio Nobel do Banco da Suécia (não um prémio Nobel oficial) como é o caso de Milton Friedmann, com pessoas ofegantes com a profundidade de sua simplicidade: “O negócio do negócio é o negócio”. Como se isso significasse algo além de comportamento corporativo gratuito. Os modelos matemáticos deram uma aparência de ciência séria ao que se tornou, nas palavras de Michael Hudson,“economia lixo”. Parece que a economia está atualmente recolocando os pés no chão. E, olhando para trás, é impressionante o quanto estivemos (e ainda estamos) atrelados a simplificações absurdas. Basicamente, se cada um de nós se concentrar em se apropriar do máximo que puder, o resultado será mais prosperidade para geral. Quão racional é o slogan A ganância é boa?
A humanidade está pronta para acreditar em quase tudo, e transformar suas crenças em dogmas, se sentir que tem companheiros ao seu lado. A bestialidade coletiva surge com tanta força e muitas vezes encontra cientistas de prontidão para apoiá-la com argumentos. Esses argumentos são racionais, mas construídos sobre pressupostos absurdos, como a invenção do homo economicus, o indivíduo racional que maximiza o lucro. Dar asas às tensões internas e poder cobri-las com argumentos gera uma impressionante sensação de libertação. Jonathan Haidt chamou isso de “mente correta”, que justifica qualquer coisa. Se hoje reagimos aos absurdos da Ku-Klux-Klan, ou ao lema nazi Deutschland Über Alles (com Gott Mit Uns, é claro), tantos compraram a “teoria do dominó” que justificou a invasão do Vietnã, ou a narrativa das “armas de destruição em massa” para justificar a invasão do Iraque, ou as ditaduras militares na América Latina supostamente para nos salvar do comunismo. É difícil abrir a mente de alguém, se seu conforto emocional depende de mantê-la fechada. E os interesses econômicos podem ser facilmente envolvidos em argumentos científicos, se possível complexos o suficiente para evitar que as pessoas olhem mais de perto. Na verdade, a teoria econômica tornou-se principalmente uma justificativa de interesses privados, disfarçada de ciência. J.K. Galbraith chamou isso de “economia da fraude inocente”.
“Devido às pressões e modas pecuniárias e políticas da época, a economia e os sistemas económicos e políticos mais amplos cultivam sua própria versão da verdade. Isso não tem relação necessária com a realidade” (Galbraith, p.x). Este “[não ter] relação necessária com a realidade” faz parte da leve abordagem irónica de Galbraith. Às vezes ele é mais direto: “Os executivos da espetacularmente falida Enron foram um exemplo proeminente, assim como os da respeitável General Electric. Recompensas generosas para a administração se estendem por toda a empresa corporativa moderna. O autoenriquecimento legal de milhões de dólares é uma característica comum do governo corporativo moderno. Não surpreende: os gerentes estabelecem sua própria remuneração” (p. 27). Bem, é o mercado! “A crença em uma economia de mercado na qual o consumidor é soberano é uma de nossas formas mais difundidas de fraude. Que ninguém tente vender sem o controle da gestão do consumidor” (p. 14). Nosso progresso econômico deve ser resumido no valor do PIB: “Mas do tamanho, composição e eminência do PIB se origina também uma de nossas socialmente mais difundidas formas de fraude… A fraude mais básica consiste em medir o progresso social quase exclusivamente pelo volume de produção influenciada pelo produtor, o aumento do PIB… Não a educação ou a literatura ou as artes, mas a produção de automóveis, incluindo SUVs: Aqui está a medida moderna de realização econômica e, portanto, social” (p. 15).
Numa abordagem crítica similar, de acordo com Kate Raworth, as economias devem “nos fazer prosperar, cresçam ou não”. Nesta simples imagem, temos o pudim – o lugar seguro onde devemos estar –, o meio – as carências – e a parte de fora do círculo – os excessos que devemos reduzir. Colocar resultados em vez de velocidade na forma como medimos o progresso é uma mudança profunda naquilo para que vemos a economia ser útil. A economista apresenta mais visualizações em seu Doughnut Economics: seven ways to think like a 21st century economist [Economia do Pudim: sete maneiras de pensar como um economista do século 21]. Mas conduzir a economia para aquilo que precisamos, e não o contrário, é uma mudança profunda.
Robert Skidelsky, com What’s Wrong with Economics [O que há de errado com a economia], é outro estudioso que aponta para novas tendências. Ele sugere um “repensar radical da metodologia”, em que “os tópicos centrais seriam o papel do Estado, a distribuição de poder e o efeito de ambos na distribuição de riqueza e renda… Além disso, o meu livro deixaria claro que o único propósito defensável da economia é tirar a humanidade da pobreza” (p. 193). E se a economia for útil hoje, “ela precisará modificar a sua crença no mercado autorregulado”. As fortunas financeiras estão a crescer, mas “os historiadores do futuro, olhando para trás, podem muito bem identificar a globalização liderada pelas finanças como a causa raiz das tribulações do século XXI”. Não se trata apenas de crescimento, mas o que produzimos, para quem, com quais impactos ambientais. E recoloca a economia no seu lugar, apenas como parte das ciências sociais, numa abordagem sistémica: “É pelo fato de que a economia não é uma ciência que ela precisa de outros campos de estudo – quais sejam, psicologia, sociologia, política, ética, história – para suprir as lacunas em seu método de compreensão da realidade… A tarefa é nada menos do que recuperar a economia para as humanidades” (p. 78).
Thomas Piketty teve um papel importante nessa redefinição do pensamento económico. Analisando O Capital no Século 21, ele mostrou uma mudança fundamental nas economias atuais: a produção de bens e serviços cresce em torno de 2,5% ao ano, enquanto as aplicações financeiras rendem entre 7% e 9%, o que significa simplesmente que o sistema financeiro está drenando as atividades produtivas. A financeirização tornou-se não apenas evidente, mas os economistas de todo o mundo voltaram sua atenção para um conjunto de transformações dela decorrente. Em seus estudos mais recentes, Piketty mostrou como isso mudou a relação entre poder econômico (e particularmente financeiro) e poder político. Com contribuições do WID (World Inequality Database) e de economistas como Gabriel Zucman, hoje podemos ter uma compreensão muito mais clara não apenas do aumento dramático da desigualdade, mas de como o dinheiro virtual (97% da liquidez hoje em dia são apenas sinais magnéticos, não dinheiro impresso pelo governo) permite uma gigantesca drenagem de riqueza.
Não se trata de “mercados”, mesmo que o chamemos assim. Trata-se de um poder radicalmente concentrado. Larry Fink, chefe da BlackRock, uma corporação de gestão de ativos, administra US$ 10 triliões; o orçamento federal dos Estados Unidos da América é de US$ 6 triliões. O rabo está abanando o cachorro. Compreender o dreno financeiro improdutivo da economia está levando a um amplo conjunto de estudos sobre sistemas de distribuição, tributação, financiamento de serviços públicos como saúde, educação, políticas ambientais. Em particular, ficou evidente a lacuna de governança entre os fluxos financeiros, um processo de escala global, e a regulação financeira, fragmentada entre tantos países. A evasão fiscal é escancarada, e em lugares próximos como, por exemplo, Delaware. O que ficou evidente é que atualmente não temos regulação de mercado (os gigantes corporativos mundiais gostam do nome, “mercados”, e afetam agir como se estivessem obedecendo a “eles”) nem regulação governamental (qualquer esforço de regulação em nível nacional leva a corporação a mudar seu local de residência fiscal).
O resultado geral é que estamos diante da convergência de uma catástrofe ambiental, de desigualdades explosivas (tanto a nível nacional como internacional) e de uma gestão caótica e oportunista dos recursos financeiros, que deveriam justamente estar nos ajudando a financiar os desafios ecológicos e sociais. Precisamos de uma sociedade que não seja apenas economicamente viável, mas também socialmente justa e ambientalmente sustentável. Esse triplo resultado final está se tornando óbvio em círculos amplos e foi detalhado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Mas podemos organizar a economia de acordo com metas? A mudança básica deve ser a concentração em como devemos migrar da maximização do lucro em escala corporativa mundial gratuita para uma economia que seja social e ambientalmente útil, ou no mínimo menos destrutiva. Praticamente todas as corporações afirmam aderir aos ESGs [ambiente, sociedade e governança], o que significa que estão conscientes dos desafios, mas deixam isso restrito aos seus departamentos de relações públicas e comunicações. Não é falta de entendimento, mas falha no processo de tomada de decisões corporativas. Governança é a questão central.
Mariana Mazzucato tem sido particularmente bem-sucedida na divulgação dessa nova visão da economia do mundo real, tanto em seu livro The Entrepreneurial State [O Estado Empreendedor] como em Mission Economy [Economia por Missões]. Em vez da maximização imprudente dos lucros corporativos junto com a tímida regulamentação pública, deveríamos nos concentrar nas principais questões que a humanidade enfrenta, particularmente nos dramas sociais e ambientais. Esses são os desafios, e políticas públicas, iniciativas empresariais e organizações da sociedade civil devem se unir para enfrentá-los em conjunto. O exemplo que ela usa é a missão da corrida à lua, que organizou contribuições de diferentes setores, gerando sinergia em vez de competição. Mazzucato mostra, assim, não apenas o papel fundamental do setor público na provisão de bens e serviços (o Estado como empreendedor), mas também seu papel em promover a convergência de esforços em torno de prioridades nacionais e internacionais.
J is for Junk Economics [L de Economia Lixo] de Michael Hudson apresenta, numa linguagem fácil, uma descrição bem-humorada do que ele chamou de “os 22 mitos económicos mais difundidos de nosso tempo”, como o de que os ciclos econômicos são regulados pelos estabilizadores automáticos da economia, que a privatização é mais eficiente do que a propriedade e gestão públicas, que não existe renda não auferida, que a desregulamentação do setor financeiro irá liberá-lo da burocracia e permitir que ele repasse a economia de custos para seus clientes, entre outros mitos muito presentes. “O antídoto para essa economia lixo deve explicar por que as economias tendem a se tornar mais instáveis e mais polarizadas como resultado de suas próprias dinâmicas internas (“endógenas”) – acima de tudo, dinâmicas de crédito e dívida, e a desoneração da renda econômica não auferida” (p. 267). Para cada mito, Hudson apresenta “realidade”.
Uma análise particularmente bem estruturada da mudança global na análise económica é apresentada por Brett Christophers, em Rentier Capitalism (Capitalismo rentista, 2020), bem como em Our lives in their portfolios: why asset managers own the world (Nossas vidas nos portfólios deles: por que os gestores de ativos são donos do mundo, 2023). O argumento básico consiste no fato de que ganhar dinheiro (Big Money) resulta essencialmente de escoamentos financeiros, não de produção. Gestão de crédito e ativos financeiros, apropriação de reservas naturais, propriedade intelectual, plataformas digitais, contratos de serviços, taxas de licenciamento de infraestrutura, aluguel do solo – todas essas atividades têm a comum característica de obter dinheiro com produtos e capitais existentes, não com produção. Eles não estão a aumentar a nossa capacidade de produção, mais estão drenando.
Quer se trate de fraude absoluta na análise económica, como colocado por Galbraith, ou a mudança na forma como medimos os resultados que expõe o absurdo que é a contabilidade centrada no PIB, quer seja a análise de Skidelsky sobre como a economia perdeu sua ligação com aquilo para o que precisamos dela, a poderosa análise de Piketty sobre o significado do próprio capital, a abordagem de Mazzucato sobre o resgate da capacidade do Estado em definir missões e organizar a convergência racional de esforços, ou ainda a demonstração de Hudson de como a economia (a chamada economia ortodoxa) perdeu contato com a realidade, ou finalmente a síntese de Christophers sobre como o capitalismo produtivo migrou para o capitalismo de extração de renda financeira – a imagem geral que construo em minha mente é a de uma mudança global em como os economistas estão abordando nossas novas realidades. E eles são novos.
Gosto da abordagem direta de Robert Reich, em The System [O sistema]: “Não pode haver responsabilidade sem leis que obriguem as corporações a sacrificar alguns ganhos dos acionistas em benefício dos trabalhadores, das comunidades e da sociedade. E entenderão que as próprias leis não têm sentido se as grandes corporações continuarem a violá-las sempre que as multas resultantes forem inferiores aos benefícios derivados de sua ilegalidade. Eles verão que o atual sistema americano não é uma meritocracia onde a capacidade e o trabalho árduo são recompensados, mas uma impostura cruel dominada pela riqueza e pelo privilégio” (p. 189).
Tantos outros autores poderiam ser mencionados aqui, desde Joseph Stiglitz em New Rules for the 21st Century [Novas regras para o século 21], até Michael Sandel de The Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good? [A tirania do mérito: o que é feito do bem comum?], mas a questão-chave é que os contos de fadas, movidos a altos juros, a respeito dos mercados, do gotejamento para baixo ou que a busca por ganhos individuais trará naturalmente a prosperidade social estão todos sendo deixados para trás, enquanto uma nova economia do mundo real está nos dando novas ferramentas para enfrentar nossos desafios: a catástrofe ambiental, a desigualdade explosiva e o caos financeiro.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2022
Thomas Mann e Política
Thomas Mann (6 de junho de 1875 - 12 de agosto de 1955). Escritor, romancista, ensaísta, contista e crítico social. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1929.
"Sei que, frequentemente, os sinais e os símbolos exteriores, visíveis e tangíveis da sorte e da ascensão, só aparecem quando, na realidade, tudo já se põe de novo a declinar."
E-livros
Cinco Livros: A Montanha Mágica; Doutor Fausto; Morte Em Veneza; Sua Alteza Real e Discursos Contra Hitler
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terça-feira, 29 de novembro de 2022
Livro: Thomas Mann - "A Montanha Mágica"
Uma intensa reflexão sobre a vida humana. Reli com imenso gosto e é muito actual.
Lodovico Settembrini é um personagem fundamental neste livro. Italiano, homem do sul, ele é sonhador, muito crítico, lutador pela liberdade. Talvez o contraponto com o espírito alemão. Ele é, sem dúvida nenhuma, o representante do lado otimista do ser humano, da visão crítica e livre da existência. Para ele, a vontade e a força humana (haverá algo de Schopenhauer?) são capazes de enfrentar qualquer poder e a própria natureza, apontando como exemplo a forma como Voltaire se recusou a aceitar o terramoto de 1755. Não é, no entanto, um hedonista; é um humanista que defende o primado do espírito. Mas um espírito livre, longe do “obscurantismo cristão”. Ele é o único que aconselha Hans a abandonar o sanatório. Muito crítico em relação à medicina, ele considera que Hans tem de optar pela liberdade.
No entanto, a prisão de Hans Castorp já não é só o sanatório; é também Clavdia. A sua paixão começa precisamente quando adoece. O amor surge associado à doença e à tristeza: “Le corps, l’amour, la mort, ces trois ne font qu’un », diz Clavdia. Thomas Mann introduz aqui uma forte imagem simbólica: a recordação que Hans guardará de Clavdia será a sua radiografia.
À medida que a obra avança, o tempo vai-se tornando uma obsessão; o drama da sucessão dos anos, o ritmo das estações do ano; a nostalgia de um verão em que os dias vão sendo cada vez mais curtos…
Setembrini, maçónico, é o adepto fiel do progresso, da civilização e do humanismo. É um pacifista mas contra a Áustria admite todas as guerras… Lentamente, estas ideias vão influenciando o espírito jovem de Joacquim Ziemssen, o aspirante a militar; pouco lhe interessam as reflexões e os assuntos da alma.
Hans, por seu turno, vai-se tornando cada vez mais reflexivo.
Leo Naphta, o jesuíta de família judaica, é um personagem fortíssimo, que surge a meio do livro. Ele é um nacionalista que advoga o valor da guerra e anuncia o conflito mundial que se aproximava. Defende o nacionalismo por oposição a um certo humanismo cosmopolita.
Nafta é um conservador revoltado: a sua família fora martirizada por serem semitas e o jovem Leo haveria de seguir o rumo jesuítico mais por revolta do que por convicção, depois de ter lido Marx. No entanto, foi a doença que o impediu de seguir uma brilhante carreira eclesiástica. Talvez este espírito revoltado explique o seu radicalismo aliado a uma inteligência invulgar. E talvez seja por isso que Setembrini o considera perigoso.
As longas mas profundas discussões entre Naphta e Setembrini concretizam também a oposição entre o tradicional e o moderno, o conservador e o progressista. Dá a sensação que a posições se extremam ao longo da discussão levando mesmo Naphta a defender o primado da fé sobre a ciência. Só a fé é útil à salvação do homem e por isso a ciência só é útil se servir a fé.
Note-se que a narrativa se desenrola imediatamente antes do deflagrar da primeira guerra mundial; neste contexto a obra é também algo premonitória: estes dois personagens, opostos, inimigos, talvez simbolizem as duas forças opostas que entrarão em conflito e que depois terão sequência na segunda guerra mundial, em todo o século XX e agora o séc. XXI: as democracias por um lado e os totalitarismos por outro.
Os mais jovens, Joacquim e Hans rejubilam com os argumentos de Setembrini: democracia, progresso, liberdade; Renascimento, Luzes, Ciência moderna. No entanto, paira no ar o sinal da razão de Naphta: o absoluto resiste; a ciência não evita o medo; a lógica do mundo parece não sobreviver sem a autoridade, a força, a disciplina. Numa palavra, a obediência.
Naphta representa também aqueles que colocam o espírito à frente do corpo; o espiritual triunfando sobre o carnal. No entanto, o próprio Naphta foi derrotado pelo corpo: a sua saúde é terrivelmente precária; sobreviverá o seu espírito? No entanto, para ele a doença é o estado natural do Homem; é aí que ele assume toda a sua humanidade porque perante a doença do corpo, impera o espírito.
Defendendo a pena de morte e a tortura, Naphta afirma o primado do ser universal sobre o ser individual, acusando Setembrini de defender o individualismo burguês, que ele considera egocêntrico e fútil.
Este personagem (Naphta) assume um papel fundamental na obra: o leitor começa por estranhar e mesmo adquirir uma certa repulsa pelas suas ideias ultra conservadoras mas, mesmo nessas ideias podemos encontrar poderosos motivos de reflexão. Por exemplo, até que ponto a defesa da liberdade individual, da tolerância e da democracia não está ligada ao interesse político da ética capitalista, no culto interesseiro e mesmo egocêntrico do individualismo burguês?
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sábado, 24 de setembro de 2022
Literatura Gótica
Gosto imenso de literatura gótica, do macabro, contos repletos de escuridão, masmorras de castelos medievais, bruxas, vampiros, lobisomens, criptas, transumanismo, cyborgs, a morte, a arte fúnebre, pós-morte, druídas, feitiçaria, feitiços, monstros humanos e extraterrestres. Gosto de autores que explorem ambientes sombrios e usem o sobrenatural. Que usem de recursos filosóficos da mitologia grega, mitologia hindu, mitologia céltica, mitologia dos povos indígenas, mitologia cristã e paleo-cristã, do misticismo, em geral.
No geral a literatura gótica baseia-se na sombra, do mais enigmático da psicologia e na espiritualidade. Distingue-se da literatura de terror/horror, pois esta baseia-se mais em zombies (mortos-vivos), necrofilia, cenas sanguinárias, casas assombradas, fenómenos paranormais, canibalismo, satanismo, exorcismo, sociopatas, massacres com armas violentas (punhais, machados, serras-eléctricas, etc), visões de crianças inocentes e culto do pavor. No início dos anos 2000, houve uma onda de cinema francês com forte caráter gore e tortura . Dentro dessa tendência sangrenta e descarada, Mártires foi uma joia que não só gerou polémica pelas suas cenas de violência explícita ao extremo, como também levantou bolhas por suas críticas ao fanatismo religioso e à fé.
Faz parte da literatura gótica personagens melodramáticas: donzelas, cavaleiros, seres vis; e uma simbologia repetitiva: mistérios que surgem de tempos passados, manuscritos ocultos, previsões do futuro, imprecações. Algumas obras recorrem igualmente à psicologia do terror – o pavor, a insanidade mental, os abusos da sexualidade, entre outros temas; a esfera transcendental – espíritos, seres demoníacos, monstros alienígenas; meditações sobre a esfera do Poder – sistema colonial, as tarefas que cabem ao feminino, etc. -; debates políticos – monarquia, república, revoluções, estética nazista, estética soviética; tópicos religiosos – Inquisição, Cruzadas, etc.
Origem da palavra Gótico
O primeiro autor a referir-se ao termo gótico relacionado com literatura foi Addison nos seus ensaios. No entanto, utiliza este termo como sinónimo de bárbaro. A obra de Tobias Smollet " The Adventures of Ferdinand Count Phatom" (1753) também possui alguns dos elementos góticos. Mas é só a partir da obra The Castle of Otranto (1764), da autoria de Sir Horace Walpole, que a verdadeira literatura de cariz gótico entra nos círculos literários. Esta obra, apesar de todas as suas inverosimilhanças, teve uma grande influência para os autores que se seguiram. É a partir dela que se começa a utilizar o terror, o sobrenatural e o macabro como possíveis fontes de ficção. O submundo do inconsciente não entrava, porém, nas criações de Walpole. O uso que faz do termo gótico deve-se à sua preocupação em reconstituir o ambiente medieval – logo longínquo – que permitiria o uso da superstição, de ambientes misteriosos e terríficos.
A palavra gótico tem origem numa tribo germânica, os Godos, que por volta do século II a.C. se tinha instalado nas margens do Báltico. Esta palavra entra no vocabulário significando germânico e mais tarde, com o Renascimento e o Iluminismo, medieval. Gótico seria tudo o que dissesse respeito à Idade Média, vista como a Idade das Trevas e associada à brutalidade, às superstições e ao feudalismo. Assim, e até ao século XVIII, a palavra era usada de forma depreciativa.
Em arquitectura, o estilo gótico surge em meados do século XII e prospera até ao século XVI. Este estilo expressava a essência da fé católica, preocupada em criar um ambiente onde se sentisse a presença de Deus, incorporando algum simbolismo pagão – as gárgulas são um bom exemplo disso. A arte e arquitectura góticas tinham por objectivo criar um efeito sobrenatural e mágico no espectador, evocando uma espécie de terror, vulnerabilidade, temor, o sentir-se à mercê de um poder superior – ponto de vista do mundo medieval – e é isso que é recuperado em muitos dos romances gótico. Desta forma, a ligação entre o termo artístico gótico e o termo literário, encontra-se na ênfase que ambos dão às emoções.
No Século XVIII, e ao mesmo tempo que o Romance se estabelecia como forma literária, houve, por parte de alguns autores, um interesse por tradições mais antigas e orais, pelas sagas e baladas islandesas, nórdicas e celtas e pela literatura da Idade Média. Isto seria uma reacção contra algumas das ideias do Iluminismo. Muito do imaginário do que futuramente se denominaria literatura gótica, existia já nos elementos sobrenaturais das baladas e nos excessos dos romances de cavalaria medievais. É na primeira metade desse século que aparece também a Graveyard School of Poets (Os Poetas do Cemitério). Poetas como Thomas Parnell, Thomas Gray e Edward Young, que escreviam longos poemas meditativos sobre a morte e a imortalidade da alma, normalmente passados em cemitérios, lançaram algumas das sementes do movimento gótico. Os principais objectos poéticos destes autores eram os cemitérios, a noite, as ruínas, as almas penadas, a morte, todos eles futuros temas do romance gótico.
O século XVIII foi o século do revivalismo gótico, primeiro na arquitectura e jardinagem e só depois na literatura. O Romantismo, como movimento literário, dava preferência ao esplendor, ao pitoresco, à felicidade dos tempos passados, ao sublime espectáculo da natureza, à paixão e à beleza extraordinária. Era considerado o oposto do clássico. O gótico distinguia-se pelo seu fascínio pelo horrível, pelo repelente, pelo grotesco e sobrenatural, pelas atmosferas de mistério e suspense, pelo medieval. A junção desses elementos faz com que surja o romance gótico.
A escola gótica inglesa demonstrou-se sempre fiel à preocupação didáctica do século XVIII, que justificava o uso da crueldade e da perversidade como forma de glorificar a virtude – que no final sempre triunfava. Na sua essência, este tipo de romance é, primeiramente, um romance sentimental onde intervém o sobrenatural. O seu esquema fundamental implica uma donzela virtuosa, um herói apaixonado e um vilão que não olha a meios para obter os seus fins. A isto acrescentam-se as forças ocultas do sobrenatural e um ambiente tenebroso. Alguns dos elementos que constituem este romance gótico são, entre outros, os seguintes: a existência de um antigo manuscrito; a magia; os fantasmas ou espectros; a loucura e os sonhos proféticos; um castelo antigo ou em ruínas; as obras de arte, armaduras e espadas ferrugentas; os crimes e imenso sangue; a religião católica; a Itália; e a Natureza como leit-motif.
O romance gótico fica estabelecido e muitos autores viram no romance de Walpole uma boa fonte de inspiração, como é o caso de Clara Reeves com o romance The Champion of Virtue. A Gothic Story, publicado em 1777, mais conhecido pelo nome com que é reeditado no ano seguinte: The Old English Baron.
No século XVIII racionalista, a incongruência do romance gótico encontrava-se na intervenção do sobrenatural. Isto foi resolvido por Ann Radcliffe que, no final dos seus romances, explicava sempre o sobrenatural por elaboradas causas naturais. É com os romances de Radcliffe que o gótico, com os seus elementos de terror e suspense, se assume como uma moda literária. Dos seus seis romances góticos, o mais famoso é, sem dúvida, The Mysteries of Udolpho, de 1794. É também a partir de Ann Radcliffe que as histórias passam a ser góticas, não por serem passadas em tempos distantes e medievais, mas pelo seu cenário. Há uma tentativa de aproximação do romance aos tempos mais próximos.
Se com Radcliffe se concretizou o «terror» gótico, é com Matthew Gregory Lewis e o seu romance The Monk publicado em 1796, que a violência brutal e os pormenores macabros passam para o romance e se concretiza o «horror» gótico. Lewis é o mais alto expoente da influência da escola gótica alemã em Inglaterra. A preocupação com a glória da virtude não existiu nesta escola, deixando espaço para a criação de formas de terror mais violentas por parte de Lewis.
Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann (Königsberg, 24 de janeiro de 1776 – Berlim, 25 de junho de 1822), mais conhecido por E. T. A. Hoffman, foi um escritor romântico, compositor, desenhista e jurista alemão, sendo sobretudo conhecido como um dos maiores nomes da literatura fantástica mundial.
As suas histórias foram a base da famosa ópera de Jacques Offenbach, Os Contos de Hoffmann, em que Hoffman aparece como personagem. O balé O Quebra-Nozes de Piotr Illitch Tchaikovsky foi baseado no seu conto "O Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos", o ballet Coppélia foi baseado em outros contos seus e a Kreisleriana de Robert Schumann é baseada no personagem Johannes Kreisler, criado por Hoffmann.
Este período foi fértil em autores e obras. Nomeadamente: Lord Byron (Horas de Lazer; Poetas Ingleses e Críticos Escoceses; A Peregrinação de Childe Harold; O prisioneiro de Chillon; Manfred; Beppo; Don Juan) e William Blake (Songs of Innocence; Book of Thel; A Song of Liberty; The Marriage of Haven and Hell; Songs of Experience; The Song of Los; Milton; Everlasting Gospel; Jerusalem)
A última grande figura do panorama gótico desse século é, indubitavelmente, Charles Robert Maturin que, com o romance "Melmoth, the Wanderer" (1820), faz com que o gótico atinja altitudes nunca antes vistas, em que o medo sai do reino do convencional e desaba sobre a humanidade. O terror inspirado é ao nível do espírito.
Já no século XIX, o gótico continua a proliferar e os romances góticos, tanto Ingleses, Franceses como Alemães, continuam a aparecer em abundância: Edgar Allan Poe; Charles Baudelaire; Mary Shelley: (Frankenstein ou O Moderno Prometeu), Lewis Carroll e as suas obras "Alice no País das Maravilhas"; "Alice no País do Espelho"; "Algumas Aventuras de Silvia e Bruno"; "Rimas do país das maravilhas"; "A caça ao Turpente" e Rudyard Kipling ("The Phantom Rickshaw," "The Strange Ride of Morrowbie Jukes," e "The Mark of the Beast" )
No final do séc. XIX surgem expoentes da literatura gótica Brasileira -Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos ("Saudade"; "Eu e Outras Poesias"; "Psicologia de um Vencido"; "Versos íntimos") e Cruz e Souza ("Tropos e Fantasias"; "Missal e Broquéis"; "Evocações"; "Faróis"; "Últimos Sonetos").
Em Portugal alguns poemas de Bocage e no início do séc. XX a grande poetisa Florbela Espanca, em especial: "Livro de Mágoas"; "Livro de Sóror Saudade"; "Charneca em Flor"; "Juvenília"; "Reliquiae" e "Sonetos Completos".
Nos EUA, Charles Brockden Brown é o responsável pela difusão do gótico, embora tenha transposto a acção dos seus romances para palcos mais familiares aos seus leitores. Em vez de castelos em ruína, usa como palco florestas e longínquas localidades, que, no entanto, possuem o mesmo espírito gótico. Muitos poemas de Emily Dickinson são góticos.
É no teatro que o domínio do «negro» entra mais cedo. Em Inglaterra, já Shakespeare utilizara, nas suas peças, uma parte dos elementos que se encontram na escola gótica, como é o caso do fantasma em Hamlet, as bruxas em Macbeth ou o carácter distorcido de Ricardo III na peça com o mesmo nome. Na Alemanha, o movimento do Sturm und Drang – nome de uma peça de Klinger – difunde um novo género de drama. A sua influência em Shakespeare e suposta liberdade dos padrões clássicos, eram uma revolta contra as convenções e doutrina do classicismo francês. Os dramas eram de índole nacionalista, caracterizados pelo fervor, entusiasmo, retrato de grandes paixões, fortes experiências emocionais e lutas espirituais que irão influenciar o drama gótico. Todavia, as suas convenções foram estabelecidas pela literatura gótica. O efeito da popularidade dos romances góticos fez com que as produções dramáticas fossem em grande número. Robert Jephson foi o primeiro dramaturgo gótico: The Count of Narbonne (1781) é uma dramatização de The Castle of Otranto. Jephson simplificou e reduziu muito do romance, omitindo alguns dos elementos sobrenaturais que teriam sido difíceis de colocar em palco. Joanna Baillie distinguiu-se, com a peça De Monfort (1800), pela representação da mulher no gótico. A sua peça é uma crítica aos vários modos convencionais de dramatizar a mulher. É um thriller psicológico, que utiliza cenários, personagens e atmosferas góticas.
Porém, a escola gótica tinha-se afundado no absurdo sendo um alvo fácil para a sátira, como o comprova Jane Austen em Northanger Abbey (1817). O romance gótico sucumbe perante a sua própria extravagância mas os mecanismos e imaginário góticos continuam a assombrar a ficção de escritores como Edgar Allen Poe, Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Gray; O Fantasma de Canterville; O Filho da Estrela; Rosa Mystica; Flores de Ouro) e Nathanial Hawthorne. Há uma incorporação de alguns elementos góticos em obras posteriores. Um bom exemplo disso é Dracula de Bram Stoker, publicado em 1897.
No século XX, a literatura gótica encontra seguidores. Na primeira metade do século autores como M. R. James, Algernon Blackwood, Shirley Jackson, Edward Plunkett, Howard Phillips Lovecraft, Daphne du Maurier, Marion Zimmer Bradley e William Gerald Golding são figuras de destaque. Após os anos 80, Anne Rice, Poppy Z. Brite e Patrick McGrath continuam a utilizar alguns dos consagrados elementos góticos.
Charles Samuel Addams (Westfield, 7 de janeiro de 1912 — Nova Iorque, 29 de setembro de 1988) foi um cartoonista norte-americano conhecido por seus personagens macabros e por seu humor pouco convencional.
Ficou conhecido por ter criado A Família Addams, baseados em alguns personagens recorrentes de suas tirinhas. A família tornou-se famosa nas tirinhas do jornal The New Yorker e ganharam série de TV, musical e filmes para o cinema..
Edward Gorey foi um autor plurifacetado e prolífico. Os seus livros "fora da caixa" criaram um culto em torno dele. Essencialmente ilustrador e criador de figurinos para peças teatrais. As principais obras mais conhecidas são "The Doubtful Guest" e "The Gashlycrumb Tinies".
Howard Allen O'Brien, mais conhecida como Anne Rice é também uma excelente representante da literatura gótica. Nos seus livros, invariavelmente apresenta os vampiros como indivíduos com paixões, teorias, sentimentos, defeitos e qualidades, tal como os seres humanos, mas, com a diferença de terem que lutar pela sua sobrevivência por meio do sangue de suas vítimas e sua própria existência que, para alguns deles, é um fardo a ser carregado através das décadas, séculos e até mesmo milénios.
O seu livro de maior sucesso é "Entrevista com o vampiro". Anne relata que escreveu esse livro em apenas uma semana, após a morte de sua filha por leucemia, retratada na personagem Cláudia.
Terence David John Pratchett, OBE (Beaconsfield, Buckinghamshire, 28 de abril de 1948 – Broad Chalke, Wiltshire, 12 de março de 2015) foi um escritor inglês, mais conhecido pelos seus livros da série Discworld.
Terry Pratchett começou a se interessar por literatura de fantasia lendo as obras de J.R.R. Tolkien aos treze anos, na mesma época em que vendeu sua primeira história. Pratchett explica em seu site que com o dinheiro recebido, comprou uma máquina de escrever em segunda mão. A sua primeira novela humorística é "The Carpet people", e o editor Colin Smythe publicou-a em 1971. Após trabalhar em jornalismo e assessoria de imprensa por anos, escrevendo nas horas vagas, ele publicou "A Cor da Magia" em 1983, e o grande sucesso do livro, inaugurando a série Discworld, acabou por levar o autor a uma carreira literária em tempo integral.
Através de um humor cáustico e irónico ele usa histórias ambientadas num mundo de fantasia para trazer à tona incoerências e idiossincrasias bem reais. No entanto, consegue fazer isso sem prejudicar as características mais marcantes das suas obras: o bom humor e o entretenimento inteligente. O seu sucesso há muito que ultrapassou as fronteiras da Inglaterra, tendo os seus livros publicados em 36 idiomas.
William Golding é o meu favorito. São inúmeras as suas obras e reflexões sobre parapsicologia, linguística, politeísmo, cristianismo, misticismo, o terror psicológico, as lutas espirituais, o absurdo, a obsessão, a monomania. Saliento "A Duas Vozes" e "O Pináculo".
Literatura gótica e ficção científica
Um dos autores mais impressionantes nesta vertente é sem sombra de dúvida William Gerald Golding. Os seus romances são fábulas sobre o mal, e sondam o abismo entre o mundo da ciência/razão e o mundo da verdade espiritual. Apresenta uma visão "verde" da natureza, como um ecossistema renovável, sob a ameaça sempre presente do homem. Conquistou o pódio gótico com o romance Lord of the Flies (1954)- O Senhor das Moscas. A obra recria acontecimentos que decorreriam num futuro próximo, e conta a história de um grupo de crianças, após terem sido evacuadas de Inglaterra por causa de uma guerra nuclear, sobrevivem ao despenhamento do avião em que seguiam, e que mata todos os adultos. Chegando a uma ilha de coral, formam a sua própria sociedade, que começa por ser solidária e justa, para se ir tornando gradualmente numa autêntica anarquia.
Marion Zimmer Bradley e as suas histórias de ficção científica do ciclo Darkover (um planeta onde os seres humanos, ao contacto com os alienígenas, adquirem poderes extrapsíquicos) continuam a ter numerosos admiradores.
O gótico viu-se envolvido no séc. XX entre a literatura e roteiros para programas e séries da rádio, televisão, cinema e jogos de consola e online.
The Twilight Zone (Além da Imaginação no Brasil e A Quinta Dimensão em Portugal) é sem dúvida uma série marcadamente gótica. Criada por Rod Serling e dirigida por Stuart Rosenberg, apresenta histórias de ficção científica, suspense, fantasia e terror. Mediante o sucesso popular da série, ao longo de sua história foram realizadas diversas temporadas e continuações. Além da imaginação (1959) da CBS, possui 5 temporadas e 156 episódios, enquanto que na década de 1980 foi lançada, ainda pela CBS O Novo Além da imaginação, com três temporadas. Essa primeira continuação foi precedida por um filme, No Limite da Realidade. Já no século XXI, houve a produção, pela UPN, de Além da imaginação (2002) com apenas uma temporada, apresentada por Forest Whitaker.
Em 1 de abril de 2019, foi lançado pela CBS All Access um novo revival "The Twilight Zone (2019)". Inicialmente foi encomendado uma temporada de dez episódios.
O programa The Twilight Zone seguiu a tradição de programas de rádio mais antigos, como The Weird Circle e X Minus One, além dos trabalhos de rádio do dramaturgo Norman Corwin.
Entre 1974 e 1975 é exibida a série Kolchak: The Night Stalke. Conta as investigações do repórter Carl Kolchak, que vai atrás de casos misteriosos, geralmente envolvendo assassinos monstruosos e sobrenaturais. A série foi precedida por 2 filmes pilotos para TV: The Night Stalker (1972) e The Night Strangler (1973).
Christopher Marlon Carter ficou mundialmente conhecido por escrever e dirigir a série /filme X-files, que envolve extraterrestres, teorias da conspiração e ciência. A série foi exibida originalmente entre 10 de setembro de 1993 e 19 de maio de 2002.
Mais célebre e multifacetado é William Ford Gibson. Chamado de "profeta noir" do cyberpunk, subgénero da ficção científica, Gibson cunhou o termo "ciberespaço", em seu conto Burning Chrome e posteriormente popularizou o conceito no seu romance de estreia e obra mais conhecida, Neuromancer, de 1984, primeiro volume da aclamada trilogia Sprawl. Prevendo o ciberespaço, Gibson criou uma iconografia para a era da informação antes da omnipresença da internet na década de 1990.Também é creditado a ele a previsão do surgimento da "televisão de realidade/reality show" e de estabelecer as bases conceituais para o rápido crescimento de ambientes virtuais como jogos e internet. Gibson é um dos mais conhecidos escritores de ficção científica norte-americana, festejado pelo The Guardian em 1999 como "provavelmente o mais importante romancista das duas décadas passadas". Ele tem escrito mais de vinte contos e nove romances aclamados pela crítica (um em colaboração), e contribuiu com artigos para várias importantes publicações e colaborou bastante com performances de artistas, cineastas e músicos. Seu pensamento tem sido citado como uma influência em autores de ficção científica, design, académico, cibercultura e tecnologia.
É também roteirista, tendo escrito o roteiro do filme Johnny Mnemonic - O Cyborg do Futuro baseado num conto escrito por ele em 1981, dois episódios da série de televisão Arquivo X e o primeiro roteiro de Alien 3 que foi posteriormente reescrito e modificado.
Os conceitos e ideias de Gibson influenciaram diretamente a trilogia cinematográfica Matrix, de autoria das Irmãs Wachowski.
George Raymond Richard Martin é um roteirista e escritor de ficção científica, terror e fantasia norte-americano. É mais conhecido por escrever a série de livros de fantasia épica As Crónicas de Gelo e Fogo, que originou a bem sucedida série televisiva Game of Thrones (A Guerra dos Tronos).
Frank Patrick Herbert foi um escritor de ficção científica e jornalista americano de grande sucesso comercial e de crítica. Ele é mais conhecido pela obra Duna, e os cinco livros subsequentes da série. A saga de Duna trata de temas como sobrevivência humana, evolução, ecologia, e a interação entre religião, política e poder. Arthur C. Clarke escreve que Duna foi "uma obra única de ficção. Não conheço nada comparável a ela exceto O Senhor dos Anéis."
Em 1986, surge o filme "O Labirinto", realizado e escrito por Jim Henson e estrelado por David Bowie (actor e música do filme de fantasia)
O medo de fim do mundo assombra a história da humanidade. Desde o início do século XXI, o espectro de uma tecnologia fora de controle, ultrapassando e depois arrasando nossa espécie, persegue os especialistas. Entretanto chegam novidades góticas e de ficção científica em relação ao transumanismo, inteligência artificial e biotecnologia, como os humanos geneticamente modificados. A inteligência artificial e as próteses digitais prometeriam ao Homo sapiens um destino de Frankenstein. Mas quem difunde essa narrativa e quem ganha com ela? [Ler: O Mito do Transumanismo].
E o gótico continua a fascinar milhões de utilizadores de jogos. The Last of Us lançado em 2013 é disso um bom exemplo.
Os meus autores favoritos são: Ann Radcliffe, Anne Rice, Charles Addams, Charles Baudelaire, Charles Brockden Brown, Charles Robert Maturin, Dan Brown,,Daphne du Maurier, Danilo Kiš, Edgar Allan Poe, Edgar Gorey, Emil Cioran, Emily Dickinson, Holly Black, Horace Walpole, J.K. Rolling, J. R. R. Tolkien,Lewis Carroll, Lord Byron, Marion Zimmer Bradley, Mary Shelley, Matthew Lewis, M.R. James, Nikolai Gogol, Oscar Wilde, Peter Watts, Terry Pratchett, Washington Irving, William Beckford, William Blake e William Gerald Golding William Godwin,
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segunda-feira, 9 de maio de 2022
A mitologia do crescimento verde
O Compromisso para o Crescimento Verde (CVV) é um plano estratégico para o desenvolvimento de um futuro sustentável para Portugal, onde o crescimento económico dá as mãos a comportamentos ambientais responsáveis, contribuindo assim para a justiça social e a qualidade de vida das populações de hoje e das gerações futuras.
A mitologia do crescimento verde instalou-se nas narrativas sobre as economias do norte global. Supostamente construindo mais a partir de menos, as economias pós-industriais conseguiriam dissociar-se dos bens materiais e dos consumos de energia utilizados para a produção destes.
Serviços cada vez mais eficientes, tecnologias de informação e algoritmos passariam a ser o fator decisivo das economias, com práticas de reciclagem e reutilização a aliviar o fardo sobre os gastos materiais. Ficam assim bem longe os velhos tempos em que o progresso se media pela produção de aço e mineração de carvão.
A Comissão Europeia congratula-se com um crescimento económico de 61% nas últimas décadas, enquanto as emissões de gases com efeito de estufa diminuíram 23%. Já nos Estados Unidos, vários se deslumbram com o crescimento da economia americana ao longo das últimas décadas – apesar do uso de materiais ter-se mantido supostamente ao mesmo nível, ou até tendo mesmo decrescido.
Assim reza a lenda, e por isso não haverá razões para reconsiderar o modelo económico capitalista assente no extrativismo, se é que de facto esse extrativismo ainda existe, sequer.
As metas para a redução das emissões de gases com efeito de estufa estão seguras com o atual modelo, com a eficiência a conduzir-nos à superação da dependência da extração de recursos. Os planos de redução de emissões serão cumpridos, sendo o verdadeiro obstáculo ao cumprimento destas a nível global os países como a China que ainda não conseguiram atingir o virtuoso modelo ocidental.
Esta é uma narrativa conveniente, porque alivia do ónus de ter de ser mudado drasticamente o modo de produção e consumo. Ao apontar nesta direção, as economias do norte global continuariam o seu caminho iluminado, virtualmente não causando danos ambientais à medida que as novas conquistas digitais abririam o caminho para o crescimento dos Produtos Internos Brutos até ao infinito.
Tristemente, não passa de um álibi para a inação e para prosseguir o business as usual da acumulação de lucros sem fim. Os argumentos da narrativa caem por terra quando se considera a existência do trivial fenómeno económico conhecido por comércio internacional.
Quer os “progressos” sejam apontados nas emissões de gases com efeito de estufa, quer na utilização de materiais, os adeptos da mitologia do crescimento verde convenientemente ignoram o facto de que as décadas da suposta dissociação das economias em relação aos recursos naturais foram as décadas da deslocalização das indústrias de extração e dos antigos centros industriais para países do sul global como a China e o Bangladesh, protagonizada por empresas do norte global.
Colocando as indústrias mais destruidoras nos territórios do sul global, as emissões associadas à energia consumida e utilização de materiais para realizar a produção são contabilizadas nestes, com o fator extra de se gastar ainda mais energia para transportar os produtos finais para serem consumidos no norte global.
O crescimento via exportações de serviços a partir do norte global – quer sejam turismo, marketing ou serviços de aprendizagem automática – é o que permite pagar pelos bens agora importados. Rapidamente cai a fachada do crescimento verde, restando uma faceta da globalização no seu lugar.
O problema em contabilizar os consumos de energia e de materiais onde estes são produzidos ou extraídos é reconhecido e tomado em conta em análises sérias. O paper “Consumption-Based Accounting of CO2 Emissions” por Steven Joseph Davis e Ken Caldeira de 2010 dava conta de que 23% das emissões globais eram exportadas, em especial da China e de outros países industriais para os países desenvolvidos. Em países como o Reino Unido e a França, 30% das emissões eram exportadas em termos líquidos.
Já sobre o uso de materiais, no paper de Thomas Wiedmann e vários outros autores do ano 2015, “The Material Footprint of Nations”, foi mostrado que o uso de materiais nos países mais ricos na verdade aumentou, com a estimativa de que um aumento de 10% no Produto Interno Bruto traduz-se num aumento de 6% no uso de materiais. Medidas convencionais de contabilização de materiais que ignoram o uso de matérias-primas antes dos produtos serem exportados para países do norte global traçam um cenário de estabilidade ou mesmo decrescimento do consumo material ao longos dos anos.
No entanto, quando toda a cadeia de produção é considerada, a estreita ligação que existe entre o crescimento do PIB e a utilização de materiais é evidente. Esta tendência de crescimento aplica-se a quase todas as economias desenvolvidas importadoras de materiais manufaturados noutros países, como a dos Estados Unidos da América, a da União Europeia e a do Japão.
Qualquer que seja a métrica escolhida, o modelo de desenvolvimento é tudo menos verde e não se vislumbra qualquer mudança de sentido. Aumentos na eficiência no uso dos combustíveis fósseis têm dificuldade em transformar-se numa redução do uso destes, mas numa oportunidade para alimentar ainda mais o imperativo do lucro. Como o economista do século XIX Jevons notou paradoxalmente em relação aos ganhos de eficiência no uso do carvão: quando melhoramentos na tecnologia permitiam usos mais eficientes da matéria-prima, o resultado era aumentar os consumos carbónicos, não o contrário.
A soberania da lógica do lucro anula qualquer possibilidade de racionalização da forma como os recursos naturais são extraídos, transformados e consumidos. Quer através da obsolescência programada, da cultura do consumo em massa ou de outros mecanismos, as potencialidades tecnológicas e sociais degeneram sempre em apenas mais uma oportunidade de negócio.
Em Portugal, o discurso segue naturalmente a mesma dinâmica. A desindustrialização e a redução de emissões das últimas décadas é exposta como se de um progresso verde se tratasse. As divisas que foram obtidas por setores como o turismo serviriam na prática para manter um equilíbrio externo face às crescentes importações de produtos industriais de países do sul global – nunca quebrando a ligação umbilical à exploração desenfreada. Já as práticas no uso de materiais extraídos sem qualquer critério são complementadas com uma política de reciclagem e reutilização que pouco mais serve do que para enfeitar.
Agora, o discurso expande-se para o hidrogénio, que é posicionado para ilibar o velho negócio da energia fóssil com fachada verde. Mais uma oportunidade para Portugal estar na vanguarda do clichê mais atual da Comissão Europeia, superando a acima explicada pintura do resultado colateral do comércio internacional como “crescimento verde”, para agora mascarar de “ação climática” um novo negócio patrocinado pelo Estado.
Enquanto isso, os planos do Governo para esburacar o solo e o fundo dos mares em busca de minerais ganham força. Certamente um pequeno pecado a que o país se pode dar ao luxo, dado o excesso de virtude que será trazida pela “estratégia muito ambiciosa” da qual o ministro do Ambiente, João Matos Fernandes, se gabou na carta enviada a Greta Thunberg no ano passado.
A vontade de colocar o lucro acima dos limites naturais do planeta – mesmo quando isso implica o colapso da civilização como a conhecemos – está presente entre poderosos por todo o globo. A mitologia do crescimento verde surge como a desculpa perfeita para deixar tudo na mesma, ou até mesmo para intensificar o percurso suicida.
Não bastam afirmações e discursos sobre a vontade de fazer uma transição energética, esta tem que ser materializada em atos concretos de reconfiguração do sistema económico. Essa reconfiguração não para na simples intenção de repensar como usamos energia ou recursos minerais, passa também por tirar a promoção do lucro como motor da agenda pública.
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022
A escola não pode ser uma empresa porque a lógica da educação não é a do mercado – Nuccio Ordine
O professor universitário Nuccio Ordine contesta as “universidades-empresa” e defende mais investimento na educação, nomeadamente nos estudos clássicos.
Nuccio Ordine acabou há pouco um périplo pela América Latina, depois Lisboa, onde realizou a conferência “A utilidade dos saberes inúteis”, na Torre do Tombo, a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos. A conferência está baseada no livro que publicou em 2013.
O livro “A Utilidade do Inútil”, publicado pela Kalandraka, foi traduzido para 20 línguas, está em 30 países e já vendeu mais de 200 mil exemplares. Neste, o professor italiano da Universidade de Calabria, filósofo e especialista na obra de Giordano Bruno, critica a lógica do lucro que chegou ao mundo do ensino e da investigação e propõe uma reflexão sobre quais são os verdadeiros saberes que podem ajudar a sair da crise.
Finalizando Nuccio Ordine cita Victor Hugo e a necessidade de se investir na educação: “Seria necessário multiplicar as escolas, as disciplinas, as bibliotecas, os museus, os teatros, as livrarias.”
Actualmente temos gente muito competente à frente de empresas ou de governos, altamente especializada, mas que não sabe identificar uma peça de Bach ou nunca leram Thoman Mann. A escola falhou?
Esse é o grande problema da contemporaneidade: temos gente super especializada e que perdeu o sentido geral e global do saber. Hoje as escolas e as universidades preparam os alunos para seguirem uma especialização e isso é muito perigoso. Estas devem proporcionar uma cultura geral. Einstein já dizia que a especialização mata a curiosidade e esta está na base do avanço da ciência e da tecnologia. Por exemplo, a atual directora do CERN [o laboratório europeu de física de partículas] é uma italiana [Fabiola Gianotti] que fez estudos clássicos no liceu, aprendeu piano durante dez anos, mas é uma grande física. Os maiores arquitectos italianos, como Renzo Piano, fizeram estudos clássicos. Portanto é preciso ter uma cultura geral de base.
O que é preciso mudar no ensino?
O meu livro é um grito de alarme. Quando pergunto aos meus alunos por que estão na universidade, respondem-me que é para obter um diploma. Um diploma não serve para nada! Há uma visão utilitarista da educação que mata a ideia de escola. Vamos à escola para sermos pessoas cultas! Para sermos pessoas melhores, para sermos éticos, não importa o curso.
Na apresentação do meu livro, viajei de Norte a Sul de Itália e os estudantes diziam-me: “Professor, adoro os gregos e os latinos, mas os meus pais perguntam-me ‘o que vais fazer com literatura? Porque não te inscreves num curso onde possas vir a ganhar dinheiro?’ Isto é a corrupção da ideia do que deve ser a universidade! É corromper os estudantes. Temos médicos que o são porque ganham muito dinheiro e não por razões humanitárias e não pelo que prometem no juramento de Hipócrates. Esta corrupção – a ideia de ganhar muito dinheiro – atravessa a sociedade inteira, chega à política, à economia. Por isso temos corrupção no mundo inteiro.
Costumo ler uma história belíssima de Kavafis [poeta grego, 1863-1933] sobre Ítaca, a história de Ulisses, que diz que a experiência da viagem é que fará de ti um homem rico, fará de ti um homem melhor. Se não fizeres essa experiência, de nada te servirá chegar a Ítaca.
Isso significa?
Significa que devemos estudar por amor ao conhecimento, por amor à aprendizagem, para que sejamos homens e mulheres livres. Os alunos têm de compreender que não há saber sem conhecimento e que só se é livre se formos sábios. E isso não têm nada a ver com o mercado e com aquilo que este pede.
No seu livro critica as universidades-empresa.
Contesto a ideia de que as universidades sejam empresas. A nossa missão não deve ser vender diplomas que os estudantes compram. Isso é uma enorme corrupção. A escola não pode ser uma empresa porque a lógica da educação não é a do mercado. O princípio da educação é aprender a ser melhor, para si mesmo e não para o mercado. O que vemos na City em Londres [no centro financeiro britânico] são pessoas com elasticidade mental, pessoas que vêm dos estudos clássicos ou da filosofia porque compreendem melhor o mundo do que os especialistas em economia ou programação.
As consequências da Declaração de Bolonha, que veio alterar a forma como o ensino superior está organizado, são negativas?
Bolonha foi muito dura para o futuro do ensino. Há coisas graves, a começar no léxico, as palavras não são neutras, têm significado, e quando as primeiras palavras que os alunos aprendem, quando chegam ao ensino superior, é “créditos” e “débitos”, impomos uma lógica da economia no ensino. As universidades recebem financiamento consoante os seus resultados, quanto mais alunos com sucesso, mais financiamento recebem, e assim baixa-se o nível para todos passarem. Ninguém vai avaliar a qualidade, só a quantidade. Deixa-se de financiar as pesquisas de base, mas se não fossem essas não seria possível fazer ciência. As grandes revoluções são fruto de pesquisas de base. Por isso, é preciso redireccionar as coisas porque o inútil de hoje pode ser o útil de amanhã.
Que modelo de escola é que defende?
Costumo contar aos meus alunos que Albert Camus, quando ganhou o Nobel da Literatura, fez duas coisas: escreveu uma carta à sua mãe e uma ao seu professor da escola média [3.º ciclo do básico], Louis Germain. Foi ele que o incentivou a continuar a estudar, porque Camus era bom aluno, embora pobre. Camus agradeceu ao seu professor tudo o que fez por ele. É essa a escola que quero! Uma escola em que o professor e o aluno estejam no centro e os professores não estejam soterrados em burocracias. Os professores perderam a paciência para ensinar e a paciência tem de estar no centro da pedagogia.
E os pais? O que podem fazer para criar seres humanos mais completos: dar um computador ou um smartphone ou levar os filhos ao teatro ou a um concerto?
Comprar o computador e levá-los ao teatro, a ler poesia, a ouvir um concerto porque tudo isso pode mudar a vida de uma pessoa. A música pode fazer milagres, como pode a ciência. O poder libertador do utilitarismo pode tornar a humanidade mais humana.
*Entrevista originalmente publicada no jornal português ‘Público’, 21.10.2017.
**Nuccio Ordine é professor, filósofo e crítico literário italiano, um dos mais importantes estudiosos da Renascença na atualidade, especialmente sobre o filósofo Giordano Bruno.
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2022
Maturana: sem cooperação e alteridade, não há futuro
Biólogo chileno, falecido a 6/5/21, influenciou as ciências sociais com seus estudos sobre os seres vivos. Crítico das lógicas neoliberais, constatou, pela teoria da autopoiese: humanidade pode reconstruir o mundo, mas evolução só vem a partir do Cuidado.
A Ciência, além dos frequentes ataques que vem sofrendo nas últimas décadas, em decorrência de fenômenos como revisionismo histórico, negacionismo e outras distorções cognitivas que alimentam as regressões do sombrio tempo atual, perdeu, em 6/5/2021, um dos seus maiores expoentes, o neurobiólogo chileno Humberto Maturana, que tinha 92 anos. Resgato aqui algumas ideias que escrevi em setembro de 2020, num texto intitulado A biopolítica do desacoplamento, acerca da genialidade e do espírito humanístico desse notável pensador.
Para quem conhece o extraordinário legado de Maturana, não é necessário, portanto, muito esforço cognitivo para percebermos que o atual modo de vida hegemônico da civilização é totalmente insustentável, em qualquer perspectiva que o observemos. Essa incongruência civilizatória tem a ver com as diversas visões de mundo que foram sendo elaboradas e vivenciadas ao longo da história, até chegarmos à visão econômica de mundo, que impera quase absoluta na época atual. Isso porque todas as cosmovisões já experimentadas, desde o teocentrismo da idade média, passando pelo antropocentrismo da cultura renascentista e moderna, que foi mesclado com o mecanicismo determinista iniciado no século XVII e desembocou no economicismo atual (e até mesmo a aposta no transumanismo proporcionado pelos algoritmos, que alguns projetam para o futuro próximo), foram permeadas pela cultura patriarcal, a qual está amparada na apropriação da verdade de que o mundo é uma grande arena regida pela ideia de luta, hierarquia, poder, controle e extração de recursos naturais. E esta cultura patriarcal, em muitos momentos da história da humanidade, desencadeou processos de profunda regressão, porém nunca tão intensa e impactante quanto a que aparenta estar em curso na contemporaneidade.
Em sua intensa e abrangente prática científica, Maturana deixou para a humanidade, como veremos adiante, contribuições relevantes para a compreensão do que seja a vida, em especial, sobre os fundamentos biológicos que sustentam (ou deveriam sustentar) não só o comportamento humano mas também o social. Diferentemente dos muitos pensadores que, ao longo da história, fizeram e continuam fazendo, a partir das ciências sociais, a crítica ao nosso sistema-mundo que está amparado na lógica de mercado, Maturana desenvolveu ao longo da sua trajetória investigativa as concepções biológicas que demonstram que estamos vivendo, há milênios, sob um paradigma civilizacional totalmente incongruente com os processos de sustentação da vida, que tem afetado as mais diversas dimensões da experiência humana: científica, econômica, cultural, política, social, religiosa, dentre outras.
Humberto Maturana, de Santiago do Chile, doutorou-se em Biologia por Harvard (1958), trabalhou em neurofisiologia no MIT (Massachusetts Institute of Technology) e também transitou pela filosofia, antropologia e algumas áreas específicas da medicina como anatomia, genética e cardiologia, com um interesse permeado pela compreensão dos seres vivos e, especialmente, do humano e da relação entre humanos. Maturana é reconhecido em vários países e em vastas áreas do saber pelos seus estudos, tendo sido agraciado por diversos prêmios e distinções como Doutor Honoris Causa pela Universidade Livre de Bruxelas e o Prêmio McCulloch pela Sociedade Americana de Cibernética. Dos muitos livros que escreveu, destacaria Autopoiesis and Cognition (Reidel, 1980) e El Arbor del Conocimiento (Editorial Universitária, Chile, 1984), os dois escritos junto com o biólogo e filósofo chileno Francisco Varela, falecido em 2001, com quem ele concebeu na década de 1970 a noção de autopoiese (autoprodução, a criação de si), conceito que extrapolou o domínio da biologia e foi incorporado noutras áreas da ciência e da filosofia, tendo sido utilizado por nomes reconhecidos como Felix Guattari, Gilles Deleuze, Niklas Luhmann, Antonio Negri e outros.
Embora sua atuação estivesse voltada para a biologia, o trabalho de Maturana extrapolou para o campo da política. Por meio das suas ideias foi possível refletir sobre a fenomenologia da política a partir da fenomenologia da biologia e, assim, podermos perceber como o biológico e o cultural se imbricam, por uma condição inerente à natureza dos seres vivos, e como essa relação dissociou-se ao longo da história da humanidade, contrariando os princípios que regem os metabolismos constituintes da vida. Depois de Charles Darwin, cujas descobertas no campo das ciências naturais (Teoria da Evolução das Espécies – 1859) pôs por terra a aura de divindade em torno do homem até então, tornando-o mortal e colocando-o na mesma categoria dos seus parentes animais, Maturana talvez tenha sido quem melhor conseguiu ampliar a compreensão acerca da dinâmica da vida, inclusive alcançando, por meio da biologia, uma melhor compreensão também acerca do comportamento humano e da vida em sociedade.
Talvez a principal contribuição de Maturana para a ciência tenha sido a ampliação do entendimento do que seja conhecimento e realidade e qual a relação entre eles. Maturana concebe que a vida, em suas mais variadas formas, trata-se de um processo de conhecimento entrelaçado com a realidade. Nas palavras dele, “todo ato de conhecer faz surgir um mundo”. Assim, a realidade na qual cada indivíduo vive é o que ele constrói a partir da sua percepção, ou seja, da sua visão de mundo ou modelo mental, ao mesmo tempo em que esta mesma realidade também retroage sobre o indivíduo, construindo-o. Convencionou-se chamar esse campo de estudo de biologia da cognição. Aliás, o que Maturana revelou pela fenomenologia biológica, nomes como Nietzsche já intuíam pela via da filosofia, quando enunciou: “Contra o positivismo, que para perante os fenômenos e diz: ‘Há apenas fatos’, eu digo: ‘Ao contrário, fatos é o que não há; há apenas interpretações’. Não podemos constatar nenhum fato ‘em si’: talvez seja um disparate querer algo assim. Tudo é subjetivo.” Lembrando que Nietzsche, como grande parte dos notáveis de sua época, era um pensador mais próximo da visão patriarcal, mas com bons insights não patriarcais. Afinal de contas, por mais brilhante que seja uma mente em sua capacidade de compreensão da complexidade do mundo real, não há como escapar totalmente dos condicionamentos patriarcais estando imerso em um modo de vida que assim se sustenta.
Dizer que cada indivíduo produz o mundo e por ele é produzido, num processo recursivo e circular, vai de encontro com a ideia ainda hoje predominante chamada representacionismo, na qual há uma realidade objetiva independente do observador, que constitui a base da cultura patriarcal. Nela, o mundo já é algo pré-dado em relação à experiência humana, que nos faz adotar uma atitude passiva diante da realidade. É assim que opera, por exemplo, a visão econômica de mundo, hoje, hegemônica, que nos impõe como verdade a ideia de que o mundo é um grande mercado regido pela competição, meritocracia, consumo e acumulação, por meio da qual se procura justificar que não há outra forma de sociabilidade que não seja a que nós vivemos atualmente, que tem como centralidade o capital.
Para uma melhor compreensão dessa biologia do conhecer, segue uma tentativa de síntese dos principais conceitos e estudos desenvolvidos por Maturana e Varela que melhor explicam os fundamentos biológicos que sustentam a dinâmica da vida e do fenômeno social, os quais servem de argumentos para entender que o comportamento humano foi moldado por uma cultura patriarcal em desacordo com tais fundamentos, e que também nos permite entender como, a partir dos séculos XVII e XVIII, o capitalismo foi gradualmente engendrando uma biopolítica de desacoplamento crescente dos processos que sustentam a vida no nosso planeta, que inclui as sociedades humanas.
Autopoiese e acoplamento estrutural: a dinâmica da vida
O termo “autopoiese”, que vem do grego poiesis, referente à produção, significa autoprodução. Foi utilizado pela primeira vez no mundo acadêmico em 1974, em um artigo escrito por Maturana, Varela e Ricardo Uribe (PhD em cibernética pela Universidade Brunel, Londres) para explicar como os seres vivos produzem continuamente a si mesmos. Como diz Maturana, a autopoiese é o “centro da dinâmica constitutiva dos seres vivos”. Os organismos vivos, desde o nível dos componentes celulares às comunidades de seres vivos, são, desse modo, sistemas autônomos que se autoproduzem e se autorregulam. Entretanto, paradoxalmente, eles também são dependentes, pois precisam recorrer aos recursos disponíveis no meio ambiente para manter sua autopoiese. Daí a necessidade do pensamento complexo (que abraça as contradições) para compreendermos conceitos que melhor explicam a complexidade inerente ao mundo real.
Por outro lado, os organismos vivos também estão determinados por sua estrutura, o que Maturana e Varela chamaram de “determinismo estrutural”. Cada ser vivo tem uma organização que o define, o modo como ele se configura, a qual é sustentada por uma estrutura resultante da forma como seus componentes se interconectam e interagem sem que a sua organização se altere. Ou seja, a estrutura muda o tempo todo para manter sua organização, adaptando-se às modificações do seu ambiente, que também são contínuas. O determinismo aqui, portanto, não se confunde com previsibilidade, pois a estrutura está em constante mudança para manter sua congruência com o meio, também em permanente mudança. Mais um paradoxo da dinâmica dos sistemas vivos: estão em contínua desordem interna, no âmbito da estrutura, para manter a ordem externa, no âmbito da organização. Dizendo de outro modo, os seres vivos estão permanentemente em estado de entropia (degradação) e neguentropia (regeneração). Esse fluxo, que é necessário e imprescindível para que o ser vivo mantenha uma espécie de harmonia com o meio no qual está inserido, só cessa com a perda da organização, ou seja, com a morte.
Daí vem a noção de “acoplamento estrutural”, também desenvolvida por Maturana e Varela. O ser vivo, para manter sua organização, precisa estar em um permanente estado de congruência com o ambiente em seu entorno. O mundo vivo constitui-se, assim, de uma grande comunidade com variadas formas de vida, todas em um contínuo estado de interação, em diversas ordens de organização, cujos comportamentos afetam-se mutuamente (ser vivo e meio) e, assim, vão estabelecendo consensos contextuais que garantem a coexistência e a evolução de todos os integrantes dessa imensa rede que é a comunidade de biodiversidade na qual estamos inseridos. Como diz Maturana, “o que define uma espécie é o seu modo de vida, uma configuração de relações variáveis entre organismo e meio”.
Quando apreciamos a harmonia e a exuberância de uma grande floresta amazônica, por exemplo, na verdade estamos observando uma imensa rede de biodiversidade em acoplamentos estruturais, entre um número incalculável de seres vivos, em processos adaptativos complexos de coexistência. Só no corpo humano, segundo os microbiologistas, coexiste uma comunidade da ordem de 3 biliões de milhão de bactérias e micro-organismos. Conforme Maturana e Varela, “a contínua mudança estrutural dos seres vivos com conservação de sua autopoiese acontece a cada instante, incessantemente e de muitas maneiras simultâneas. É o palpitar da vida”.
Aceitação do outro: a origem do social
A partir desses conceitos como autopoiese e acoplamento estrutural, a visão da chamada biologia moderna (século VII), que entendia a evolução a partir das configurações genéticas que se conservam na história reprodutiva dos seres vivos, dá um enorme salto de compreensão acerca da dinâmica da vida. Nessa nova perspectiva, a explicação do fenômeno da evolução, segundo Maturana, “está na mudança do modo de vida, e em sua conservação na construção de uma linhagem de organismos congruentes com sua circunstância, e não em desacordo com ela”. No caso dos seres humanos, Maturana sustenta, com base em estudo de registros fósseis de 3,5 milhões de anos, que a origem do humano está no surgimento da linguagem e no seu entrelaçamento com a emoção, a qual constitui a base das ações humanas, ao contrário do que pensa o senso comum que dá centralidade à razão e à objetividade nas nossas ações, entendimento que constituiu a base do desenvolvimento da ciência moderna, surgida nos séculos XVI e XVII na Europa. Como ele mesmo diz, “todo sistema racional tem um fundamento emocional”. No entanto, “pertencemos a uma cultura que dá ao racional uma validade transcendente, e ao que provém de nossas emoções, um caráter arbitrário.”
Maturana também sustenta que, do ponto de vista biológico, a aceitação do outro é o que dá origem ao social como acontece em qualquer comunidade de seres vivos. Entretanto, não é isso que ocorre entre os humanos. As sociedades humanas funcionam a partir de uma dinâmica de comportamentos forçados, que é o padrão da cultura patriarcal, na qual se sustenta a visão econômica de mundo. Esse padrão de comportamento foi reforçado ainda mais pelo chamado darwinismo social, que traz a noção de que o mundo é uma grande arena, ideia concebida pelo filósofo, biólogo e antropólogo inglês, Herbert Spencer, por alguns considerado o profeta do capitalismo laissez-faire, que cunhou a expressão “sobrevivência do mais apto”. Essa é uma versão da teoria evolutiva da seleção natural, não aceita totalmente pelo próprio Darwin, que ultrapassou o domínio da biologia, e estendeu-se até o âmbito cultural.
A noção de autopoiese, da mesma forma que explica a dinâmica de qualquer comunidade de seres vivos, também deveria se estender aos agrupamentos humanos. No entanto, a cultura patriarcal subverteu essa dinâmica da vida e, assim, vivemos uma sociabilidade patológica nesse sentido, uma vez que ela privilegia uma ínfima minoria da espécie humana em detrimento de um enorme contingente de indivíduos. Nas palavras do escritor e médico psicoterapeuta Humberto Mariotti, “uma sociedade só poderia ser vista como autopoiética se satisfizesse a autopoiese de todos os seus indivíduos. Logo, uma sociedade que descarta indivíduos vivos enquanto eles ainda estão vivos, e portanto atual ou potencialmente produtivos (por meio de expedientes como produção de subjetividade, exclusão social, guerras, genocídios e outras formas de violência), é automutiladora e portanto patológica.” Dizendo de outro modo, somos culturalmente condicionados a viver em competição, e não raro de forma predatória, que nega a presença do outro, enquanto biologicamente só podemos manter nossa autopoiese e nossa congruência com o meio se aceitarmos o outro como legítimo outro na convivência.
Nesse sentido, o que há na natureza é uma grande coexistência de variadas formas de vida que interagem entre si e a melhor forma para compreender essa dinâmica é por meio da noção de cooperação. No entanto, quando à natureza se junta à cultura, esta pode se sobrepor àquela, o que parece ter ocorrido com os seres humanos quando a cultura patriarcal se instalou desde o neolítico. Mariotti descreve bem como tentamos inutilmente nos projetar na natureza: “quando o homem chama determinados animais de predadores está antropomorfizando-os, ou seja, projetando neles uma condição que lhe é peculiar. Como não competem entre si, os sistemas vivos não-humanos não ‘ditam’ uns aos outros normas de conduta. Mantidas as condições naturais, entre eles não há comandos autoritários nem obediência irrestrita. Os seres vivos são sistemas autônomos, que determinam o seu comportamento a partir de seus próprios referenciais, isto é, a partir de como interpretam as influências que recebem do meio. Se tal não acontecesse, seriam sistemas sujeitados, obedientes a determinações vindas de fora.”
Portanto, a competição é um fenómeno que pertence ao âmbito cultural. O que dá origem ao social é a aceitação da legitimidade da existência do outro, sem a qual não poderia haver convivência humana. Maturana, além de afirmar que “a origem antropológica do Homo sapiens não se deu através da competição, mas sim através da cooperação”, ainda vai mais longe quando diz que “o amor é a emoção central na história evolutiva humana desde o início”. A palavra amor aqui está mais associada à noção de cuidado mútuo do que a qualquer conotação cristã ou romantizada que ela enseja no senso comum, ou seja, diz respeito à “emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro como legítimo outro na convivência”. Por isso é que Maturana afirma, com base na biologia, que 99% das enfermidades humanas estão relacionadas à negação do amor, na medida em que a aceitação do outro é o fundamento biológico do fenómeno social. “Como também reforça o filósofo político britânico John Gray, “a saúde pode ser a condição natural das outras espécies, mas no caso dos homens o normal é a doença. Estar cronicamente doente é parte do que significa ser humano”.
Negação da política: a origem da barbárie
Hoje, como já é quase um continuum na História, a humanidade vive mais um processo de deterioração da política e, por consequência, observamos o crescente esgarçamento do tecido social, que, via de regra, descamba para os autoritarismos e nacionalismos acompanhados de extrema violência contra a dignidade humana. Os horrores do século XX confirmam isso. Aliás, segundo o historiador inglês Eric Hobsbawm, “a história é o registo dos crimes e loucuras da humanidade”. E não poderíamos esperar algo diferente se a cultura que permeou toda a trajetória humana nos últimos seis ou sete mil anos foi a patriarcal.
No fundo, a humanidade é refém de uma espécie de autobloqueio cultural, que a aprisiona em sua própria cultura e assim não consegue ver outra forma de sociabilidade. Isso tem a ver com aquela afirmação atribuída a Einstein de que “nós não podemos resolver um problema, com o mesmo estado mental que o criou”. Em outras palavras, encaramos de um modo muito natural e, portanto, sem qualquer questionamento, a cultura em que nascemos e nos desenvolvemos, sem perceber que estamos incongruentes com a própria condição humana, a qual nos permitiu, ao longo do processo evolutivo do Homo sapiens, que durou em torno de 350 mil anos, chegar até aqui. A normalização da negação do outro e, no extremo, a banalização da violência que essa normalização gera é o padrão de sociabilidade da cultura patriarcal. Maturana vincula esse condicionamento cultural à atual crise civilizatória nos seguintes termos: “para os membros da comunidade que a vivem, uma cultura é um âmbito de verdades evidentes. Elas não requerem justificação e seu fundamento não se vê nem se investiga, a menos que no futuro dessa comunidade surja um conflito cultural que leve a tal reflexão. Esta última é a nossa situação atual.”
O fato é que a negação da política está atualmente em acelerada expansão, em várias partes do mundo, como reflexo do exacerbamento do capitalismo por meio da doutrina neoliberal em curso nos últimos cinquenta anos. O movimento do capitalismo a partir desse ideário neoliberal, impulsionado pelo desenvolvimento tecnológico, consiste, de um lado, em desarticular e suprimir as forças do Estado e, de outro, impor o padrão empresa de sociabilidade ou, como prefere Maturana, estamos vivenciando a “abertura para a tirania empresarial”. Por isso é que o neoliberalismo deve ser compreendido como uma nova forma de totalitarismo, que agora se dá invertido, ou seja, sob uma ditadura de mercado, como sustenta a filósofa Marilena Chauí. E como tal, revela-se uma doutrina econômica fadada ao fracasso, mas não sem antes produzir uma profunda regressão civilizatória, tendente a ser muito mais avassaladora do que outras registradas na história, uma vez que há dois componentes novos que potencializam e amplificam assustadoramente seus efeitos: as mudanças climáticas e o desmoronamento dos Estados-nação, os dois fenômenos de abrangência global. Na verdade, a humanidade coloca-se de frente com a sua primeira crise de alcance planetário, o que leva muitos pensadores mais atentos às múltiplas dimensões da atual crise civilizatória compararem o antropoceno como mais um dos processos de extinção em massa que a Terra teve no passado, em face da acentuada e acelerada perda de biodiversidade que vem sendo constatada pela ciência nas últimas décadas.
Gray afirma que “novas espécies de despotismos surgem em muitas partes do mundo. Governos recorrem às mais recentes tecnologias para desenvolver técnicas hipermodernas de controle muito mais invasivas que das tiranias tradicionais.” A nova biopolítica que opera no tempo atual ajuda a compreender essas mudanças em curso no sistema do capital. Com o neoliberalismo iniciado nos anos 1970, associado à revolução dos algoritmos, que fez emergir o fenômeno da globalização, financeirização e transnacionalização do capital, esse metabolismo desencadeou um processo quase imperceptível de reformulação da democracia de mercado dos últimos quatrocentos anos, ampliando ainda mais a incongruência do sistema capitalista. Estamos vivenciando, de um lado, o declínio das democracias liberais e, de outro, o provável advento de um capitalismo de hipervigilância como desdobramento da simbiose entre mercado e tecnologia.
Numa recente entrevista ao jornal chileno La Tercera, em 30/4/2020, Maturana mostrou-se bastante preocupado com a atual crise sanitária e ecológica e foi muito contundente em afirmar que se não nos escutarmos e não nos encontrarmos na mútua aceitação e na colaboração, por meio da convivência democrática, “não geraremos mudança alguma orientada para o bem-estar da humanidade, sem pandemia viral ou com ela, iremos direto à nossa extinção”. O sistema capitalista não só é incompatível com a dinâmica da natureza como está deteriorando de forma muito acelerada essa dinâmica. Na visão de Mariotti, “uma sociedade verdadeiramente autopoiética não pode coexistir com o capitalismo de competição predatória e de índole excludente que hoje predomina no mundo. O mesmo vale, é claro, para o capitalismo de Estado, pelo menos o que se tem posto em prática até agora, em regimes que não primam pelo respeito à diversidade de ideias. Se somos determinados a partir de dentro, qualquer forma de autoritarismo é e sempre será uma agressão.” Daí o impasse entre a biopolítica de sustentação do capital e a dinâmica da imensa comunidade de vida, da qual nós humanos fazemos parte, que se sustenta numa delicada teia de acoplamentos estruturais, os quais vêm sendo rompidos desde quando inauguramos o antropoceno.
Infelizmente, a ciência e a história não avançam de forma harmoniosa. Não é porque Maturana e outros, antes e depois dele, descobriram melhores fundamentos para explicar a condição humana e a realidade na qual ela se insere que o nosso modo de viver será ressignificado para melhor. Os avanços e retrocessos que a humanidade experimentou não foram impulsionados pela ciência e sim pela visão de mundo hegemônica em cada época histórica, a qual sempre se apropriou da ciência da forma que melhor lhe convém para se impor, como foi o caso do darwinismo social citado anteriormente. Como afirma Gray, “a ciência é um método de investigação, e não uma visão de mundo”. O motor da história, desde quando o capital tornou-se o eixo estruturador da civilização, tem sido a liberdade da política e do mercado, este sempre submetendo aquela e, por vezes, chegando a anulá-la. E não há sinais de que haverá uma inversão dessa dinâmica em um horizonte próximo.
Segundo a socióloga austríaca Riane Eisler, a partir de algum momento do neolítico, quando houve a grande bifurcação cultural do Ocidente, os povos guerreiros indo-europeus fizeram uso das armas para promover a passagem da “sociedade de parceria”, até então predominante, para a “sociedade de dominação” (O Cálice e a Espada: nossa história, nosso futuro, Palas Athena, 2008). Por isso, talvez seja mais razoável e proveitoso compreendermos e aceitarmos que a história da humanidade coincide com a história das regressões impostas pelo patriarcado e, provavelmente, terá seu ápice e esgotamento na contemporaneidade. Não há como o antropoceno ter vida longa diante dos desacoplamentos que estão em curso.
Se os achados científicos de Maturana e de muitos outros, nessa linha investigativa em torno da fenomenologia social, não estão sendo incorporados pela política e pelo mercado, e tudo indica que não o serão, pelo menos servirão para nos fornecer os fundamentos biológicos para compreendermos a barbárie e o colapso climático para os quais a civilização está deslizando. Com a crescente anulação da política, já há fortes indícios de que estamos inaugurando uma fase muito sombria da história em que o ego humano, em suas mais destrutivas expressões, ameaça reinar absoluto, sem contrapesos para contê-lo ou pelo menos mitigá-lo. Por isso vale sempre lembrar a advertência do neuropsiquiatra austríaco Viktor Frankl, que sentiu na pele os horrores do nazismo: “Portanto, fiquemos alerta — alerta em duplo sentido: Desde Auschwitz nós sabemos do que o ser humano é capaz. E desde Hiroshima nós sabemos o que está em jogo.”.
Segundo o poeta Thomas Eliot, “a humanidade não suporta muita realidade”. Vista de uma certa perspectiva, tal afirmativa não deixa de ser um grande alento. Isso porque talvez a nova biopolítica que está sendo gestada pelas forças do capital, lastreada nos algoritmos, que alguns acham mais adequado chamar de tanatopolítica ou necropolítica, como o faz o filósofo camaronês Achille Mbembe, nos conduzirá a uma realidade tão distópica e, por isso, tão insuportável que, no fim das contas, esse esvaziamento do humano, do vital, da política, da reflexão, da contemplação, talvez represente uma preparação para a travessia da difícil metamorfose que poderá nos permitir resgatar a nossa humanidade perdida. Quem sabe, uma última chance de redenção, um fragmento de esperança de que a cultura patriarcal e os conflitos internos que ela infligiu aos humanos seja, finalmente, dissipada e regresse ao seu estado contingencial, e que a comunidade de vida e o amor que lhe dá sustentação retornem, depois de um longo tempo, ao seu curso natural, como nos ensinou Humberto Maturana!
Referências
EISLER, Riane. O cálice e a espada: nosso passado, nosso futuro. Tradução de Tônia Van Acker. São Paulo: Palas Athena, 2007.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução: Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 2ª ed. São Leopoldo: Sinodal; Petrópolis: Vozes, 1991.
GRAY, John. A alma da marionete: um breve ensaio sobre a liberdade humana. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2018.
GRAY, John. O silêncio dos animais: sobre o progresso e outros mitos modernos. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2019.
HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. Tradução: Marcos Santarrita. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
MARIOTTI, Humberto. Autopoiese, cultura e sociedade. 1999. Disponível em:
MATURANA, Humberto R. A ontologia da realidade. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2001.
MATURANA, Humberto R. Conversações matrísticas e patriarcais. In: ______; VERDEN-ZÖLLER, G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. Tradução de Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo: Palas Athena, 2004.
MATURANA, Humberto R. Emoções e linguagem na educação e na política. Tradução: José Fernando Camos Fortes. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
MATURANA, Humberto R. Reportagem de Paulina Sepúlveda, publicada por La Tercera, 30 de abril de 2020. A tradução é do Cepat. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/598691-sem-escuta-respeito-mutuo-e-colaboracao-iremos-direto-a-nossa-extincao-adverte-humberto-maturana>
MATURANA, Humberto R.; VARELA, Francisco J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Palas Athena, 2010.
NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos póstumos: 1885 – 1887: volume VI. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013.
Fonte: aqui
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