Mostrar mensagens com a etiqueta Argentina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Argentina. Mostrar todas as mensagens

domingo, 28 de junho de 2026

'Fracking', a técnica que mudou o panorama energético mundial

Chega a casa e acende as luzes. Em seguida, toma um banho de água quente e, quando termina, prepara o jantar. Hoje é frango grelhado com ervilhas salteadas. Esta poderia ser a sua rotina, tal como a de milhões de pessoas em todo o mundo que têm acesso ao gás nas suas casas. E é que este abastecimento tornou-se um dos pilares invisíveis da vida quotidiana moderna. Pelo menos em Portugal, está por trás de quase tudo o que fazemos. Tanto é assim que é mais comum questionarmo-nos sobre o seu preço do que sobre a sua origem.

Esta última questão não condiciona nem perturba o nosso quotidiano, mas também nos deveria interessar: de onde vem esse gás que sustenta as tarefas básicas do nosso lar? No caso nacional, provém de outros países, seja através de gasodutos ou sob a forma de gás natural liquefeito transportado a bordo de grandes navios metaneiros. E é aí que surge um termo que continua a gerar controvérsias entre o sector energético e o meio ambiente: o fracking (fracturação hidroeléctrica).

Como é realizado o fracking?
Os dados mais recentes revelam que uma parte significativa do gás natural consumido em Portugal é importada de países onde a exploração de hidrocarbonetos não convencionais, incluindo o fracking, tem um peso relevante. Por outras palavras, embora Portugal não explore gás natural através de fracking no seu território, parte do gás que consome é proveniente de países onde essa técnica é amplamente utilizada, nomeadamente dos Estados Unidos. Em 2024, por exemplo, cerca de 40% do gás natural liquefeito (GNL) importado pelo nosso país teve origem no país actualmente governado por Donald Trump.

Integrado no mercado internacional, este método de extracção permite aumentar a disponibilidade energética e, consequentemente, reduzir os preços. Um benefício tão relevante quanto superficial, que ignora as graves consequências desta técnica industrial para o ambiente, a saúde pública e a biodiversidade dos territórios onde é aplicada.

Não é de admirar que os Estados Unidos sejam, de longe, o país que mais utiliza esta técnica: foi lá que foi concebida, pelas mãos do multimilionário texano George Mitchell e do engenheiro Nick Steinsberger. No final do século XX, ambos descobriram que era possível libertar grandes quantidades de gás e petróleo retidos em rochas muito compactas, combinando duas inovações fundamentais: a perfuração horizontal e a injecção de fluidos a pressão muito elevada.

A fracturação hidráulica consegue atingir camadas profundas de xisto, para depois injectar no solo uma mistura de água, areia e aditivos químicos que fracturam a rocha: daí o seu nome. A areia mantém abertas essas microfracturas, permitindo que o gás ou o petróleo fluam para a superfície para serem recolhidos.

Por que gera tanta controvérsia o fracking?
Não são poucas as organizações científicas e ambientais que estudaram exaustivamente os efeitos do fracking nos ecossistemas. E é que, devido ao seu sucesso retumbante em termos económicos e geopolíticos na América do Norte, outros países com grandes reservas de combustíveis fósseis despertaram interesse por esta técnica: no mesmo continente, destaca-se o caso de Vaca Muerta, em Neuquén (Argentina), um jazigo que se tornou um dos maiores centros de exploração de hidrocarbonetos não convencionais do mundo.

O mesmo não acontece na Colômbia, onde a técnica ainda não foi regulamentada, embora o último governo se tenha posicionado abertamente contra a sua aplicação. O fracking, de facto, tem sido protagonista nos debates da campanha presidencial colombiana de 2026, e não é de admirar: num dos países com maior biodiversidade do mundo, a fracturação hidráulica pode colocar em risco ecossistemas de altíssimo valor ambiental, fontes de água doce e territórios habitados por comunidades rurais e indígenas.

É o que demonstram as evidências científicas: de acordo com um relatório da Agência de Protecção Ambiental dos Estados Unidos, o fracking pode fazer com que fluidos se infiltrem nas águas subterrâneas, causando poluição na água. Além disso, tal como explica a especialista Sandra Steingraber à National Geographic, em algumas zonas próximas de jazidas, a fracturação "é a principal fonte de smog". E não é só isso: pode até provocar terramotos em regiões onde antes quase não se registavam movimentos sísmicos.

Tudo isto, sem esquecer o impacto desta indústria na saúde das pessoas: os estudos realizados até à data sugerem que os bebés nascidos perto de poços de fracking podem apresentar uma maior incidência de baixo peso à nascença, parto prematuro ou anomalias congénitas. Além disso, os cidadãos idosos podem correr um risco maior de morte prematura.

Em relação a estas investigações, todas realizadas em zonas petrolíferas dos Estados Unidos, Steingraber salientou: "Isto é uma crise de saúde pública". Mas nada parece travar os países que impulsionaram a sua economia através desta estratégia. E enquanto o mercado internacional continua a crescer e a procura de gás se mantém em alta, os alertas científicos parecem ficar relegados para segundo plano.

sábado, 6 de junho de 2026

Evangelina Mascardi baroque lute: Preludio e Fuga de Sylvius Leopold Weiss

Tenho tido a incrível sorte de assistir a inúmeros concertos ao vivo ao longo dos anos, desfrutando tanto de ambientes íntimos em recintos fechados como de atuações ao ar livre, rodeadas pela natureza. Há uma alquimia única quando música bela é tocada com tanta naturalidade por um verdadeiro mestre e, para mim, Evangelina Mascardi personifica essa perfeição. O seu domínio do alaúde é absolutamente hipnotizante.

O meu profundo amor por este instrumento estende-se também à brilhante obra do alaúdista e compositor alemão Sylvius Leopold Weiss. As suas composições transmitem uma beleza profunda e intemporal que ressoa profundamente, especialmente quando trazidas à vida por artistas que compreendem a alma delicada do alaúde.

Ouvir esta música no seio da natureza é uma experiência sublime - onde o suave dedilhar das cordas se funde na perfeição com o farfalhar das folhas e o céu aberto. É uma lembrança de quão poderosa e reconfortante a arte pura pode ser.

Biografia de Evangelina Mascardi

Tocar um instrumento musical como o alaúde barroco em plena natureza é uma experiência que cruza de forma profunda a biologia, a cultura e a sensibilidade humana. Para compreender esta ação, podemos dividi-la em duas perspetivas fundamentais: a biofilia e a etnobiologia. A biofilia, um conceito popularizado pelo biólogo E. O. Wilson, sugere que os seres humanos possuem uma tendência inata para procurar conexões com o mundo natural e outras formas de vida. Ao levar um instrumento para um bosque, para uma praia ou para um jardim, o músico não está apenas a contemplar a paisagem, mas sim a interagir ativamente com ela. A música transforma-se num diálogo e numa busca por bem-estar, onde o ritmo do dedilhar e o timbre do instrumento se alinham instintivamente com o som do vento, das ondas ou do canto dos pássaros. No caso específico do alaúde barroco, esta ligação é ainda mais íntima devido à sua natureza inteiramente orgânica, construída com madeiras ressonantes leves e cordas delicadas, produzindo um som acústico e suave que não agride o ecossistema, mas funde-se perfeitamente com ele.

Por outro lado, embora o ato isolado de tocar não seja uma ciência, a relação humana e cultural que o sustenta é o objeto de estudo perfeito para a etnobiologia. Esta disciplina estuda as complexas interações entre as sociedades humanas e os ecossistemas ao seu redor. Quando analisamos o alaúde barroco sob esta lente, entramos no campo da etnobotânica aplicada à luthieria, que é a arte de construir instrumentos de corda. A própria existência do alaúde é o resultado de séculos de conhecimento acumulado por artesãos europeus sobre as propriedades físicas e acústicas das árvores. Para criar o tampo harmónico do instrumento, por exemplo, utiliza-se historicamente o abeto de ressonância, uma madeira proveniente de árvores que crescem em altitudes elevadas e em condições de frio extremo, como nos Alpes. Este crescimento lento gera anéis de madeira extremamente compactos e regulares, garantindo uma elasticidade e uma rigidez únicas que permitem ao instrumento vibrar com a máxima sensibilidade. Já para a construção da concha traseira do alaúde, recorre-se a madeiras como o ácer, que reflete o som rapidamente e confere brilho e clareza às notas, ou o teixo e as madeiras de árvores de fruto, como a ameixoeira, que trazem doçura e harmónicos calorosos à música.

Existe ainda uma ponte fascinante entre estes conceitos chamada biomúsica ou zoomusicologia, que estuda a música humana que incorpora ou responde diretamente aos sons do ambiente. No período Barroco, compositores como Sylvius Leopold Weiss criavam obras inspiradas na imitação da natureza, tentando traduzir paisagens e movimentos do mundo natural para as cordas do instrumento. Ao interpretar estas peças ao ar livre, o músico está, na verdade, a devolver essa matéria-prima florestal, agora transformada em património cultural, ao seu local de origem. Cria-se assim uma simbiose física e ambiental instantânea, uma vez que a madeira, sendo um material vivo e higroscópico, reage diretamente ao microclima, expandindo-se ou contraindo-se com a humidade e a temperatura do ar. Hoje em dia, esta relação enfrenta até desafios ecológicos modernos, pois as alterações climáticas e os invernos menos rigorosos na Europa fazem com que as árvores cresçam mais depressa, forçando os construtores de instrumentos a subir cada vez mais alto nas montanhas para encontrar a madeira ideal. Assim, tocar este instrumento na natureza manifesta o impulso biofílico de pertença ao mundo vivo e, em simultâneo, celebra o conhecimento etnobotânico que permitiu transformar a floresta em arte pura.

Finalmente, saber que o instrumento foi construído em 2024 pelo conceituado luthier Cezar Mateus, em Nova Jérsia, liga o passado histórico diretamente ao presente globalizado.

Do ponto de vista da etnobotânica moderna, a construção deste alaúde específico reflete a complexa jornada dos materiais na atualidade. Embora Cezar Mateus trabalhe nos Estados Unidos, um construtor desse nível mantém a tradição rigorosa de importar as madeiras europeias ideais, como o abeto dos Alpes para o tampo harmónico e o ácer ou o teixo para o corpo. Isto demonstra como o conhecimento tradicional sobre as árvores europeias cruzou o Atlântico, sendo aplicado por um mestre artesão nas Américas para criar um instrumento que, depois, viaja de volta à Europa para ser tocado na natureza pela alaudista Evangelina Mascardi. É a globalização ao serviço da preservação duma arte ecológica e histórica.

Além disso, o facto de ser um instrumento tão recente traz uma dinâmica física única para a biofilia e para a acústica ao ar livre. Um alaúde construído em 2024 é um instrumento "jovem". As suas madeiras ainda estão a aprender a vibrar juntas e são extremamente sensíveis às condições atmosféricas. Quando a artista o retira do ambiente controlado de um estúdio e o toca num espaço natural, o instrumento enfrenta o seu batismo de fogo ambiental, reagindo de forma muito viva à humidade e à temperatura daquele momento. Há uma beleza poética nisso: um instrumento feito recentemente com árvores antigas, esculpido do outro lado do oceano, a cantar e a vibrar pela primeira vez em plena sintonia com a natureza europeia.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

José González - Against the Dying of the Light


“Against the Dying of the Light”, de José González, é uma canção profundamente introspectiva que aborda a forma como o ser humano enfrenta a finitude, a perda e o esgotamento da vida. Inspirada no célebre poema de Dylan Thomas,“Do Not Go Gentle into That Good Night” a música centra-se na ideia de resistência interior perante o inevitável, defendendo que, mesmo quando o fim se aproxima, é essencial manter a consciência, a dignidade e a lucidez. A “luz” funciona como metáfora da vida, da esperança e da energia vital, e lutar contra o seu apagamento não significa negar a morte, mas recusar a rendição emocional e espiritual. O tom contido e melancólico da canção reforça uma luta silenciosa, íntima, marcada mais pela reflexão do que pela revolta. Para além da leitura literal associada à morte, a canção pode também ser entendida como um apelo à resistência contra a apatia, o conformismo e a perda de sentido no mundo contemporâneo, afirmando a importância de permanecer desperto e humano até ao último momento.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Sol Halabi

 
Sol Halabi nasceu em 1977, na cidade de Córdoba, na Argentina.

As pinturas de Sol Halabi combinam realidade e sonho — os seus quadros frequentemente unem elementos figurativos (rostos, figuras humanas) com fundos ou contextos oníricos, abstractos ou simbólicos; dessa fusão surge uma atmosfera de lembrança, memória e introspecção.

O seu trabalho foi classificado dentro do movimento “Neorromântico” (New Romantic), por sua inclinação ao trágico, ao sublime, ao inquietante — evocando o que está entre projeção e percepção, coerência e caos.

Halabi utiliza técnicas diversas — óleo, acrílicos, tintas variadas, betume e às vezes areia — e mistura realismo clássico com informalismo e simbolismo: há precisão nos rostos e figuras, e liberdade atmosférica nos fundos.

Frequentemente as suas obras evocam estados psicológicos — memória, consciência, sonho — mais do que narrativas literais; muitos dos retratos ou figuras são mais sugestivos do que definidos, convidando o espectador a interpretar.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

“Humanity is missing the bigger picture”: Sandra Díaz explains



Sandra Díaz mais conhecida no campo da ciência é a Sandra Myrna Díaz, ecóloga argentina, nascida em 1961.

🔹 Quem é:
É considerada uma das cientistas mais influentes do mundo na área da ecologia funcional das plantas, biodiversidade e serviços dos ecossistemas.

🔹 Contribuições principais:

  • Desenvolveu o conceito de “síndromes funcionais das plantas”, que ajuda a compreender como diferentes espécies vegetais contribuem para o funcionamento dos ecossistemas.

  • Foi uma das principais autoras do Relatório Global da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES, 2019), um documento fundamental que alertou para a perda acelerada da biodiversidade global.

  • Criou a base de dados global TRY, a maior compilação de características funcionais de plantas do mundo.

🔹 Reconhecimentos:

  • Recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Investigação Científica e Técnica (2019).

  • Eleita entre as cientistas mais citadas em ecologia e meio ambiente.

  • Considerada referência mundial em debates sobre natureza, sustentabilidade e futuro do planeta.

terça-feira, 24 de junho de 2025

José Mujica: a sua reflexão sobre a riqueza, Milei, o peronismo e a Argentina


Pepe Mujica não foi um político comum. Foi um semeador de ideias, um artesão da coerência, um sonhador que, com os pés bem assentes na terra, nos ensinou que o poder só faz sentido se servir.
Pepe, foi um homem que soube transformar a dor em sabedoria e a política num ato de profunda humanidade. 
A sua vida simples, despojada de luxos, foi a sua maior lição. Mostrou-nos que a felicidade não está na acumulação, mas na liberdade interior e na capacidade de partilhar o pouco ou muito que se tem. A sua voz, cheia de ternura, rebeldia e filosofia, permanecerá um farol para aqueles que procuram caminhos mais humanos, mais justos e mais autênticos.
Mujica deixou-nos o seu exemplo, a sua humildade radical, o seu amor à terra e aos humildes, a sua visão crítica do sistema consumista que nos devora a alma. Resta-nos honrar o seu legado com ações, com coragem, com ternura, com esta ética de vida que nos convida a viver com menos para ser mais.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Nem Deus nem Mestre: A História Secreta do Anarquismo Mundial


A história do Anarquismo. Sem deuses, nem mestres é um documentário em 4 partes de Tancrède Ramonet.


"Nem Deus nem Mestre" relembra todos os principais eventos da história social dos últimos dois séculos e revela a origem e o destino deste movimento político que luta contra todos os mestres e deuses há mais de 150 anos. 

Nascido do capitalismo, irmão inimigo do comunismo de estado, o anarquismo nunca deixou de soprar seu vento de justiça e liberdade sobre o mundo. E se alguns libertários conseguiram se transformar em criminosos, brincando com revólveres ou fazendo dinamite falar, esquecemos que muitos deles propuseram alternativas e iniciaram as grandes revoluções do século XX. Usando imagens de arquivo inéditas, documentos esquecidos e entrevistas exclusivas com os maiores especialistas do movimento operário, este filme excepcional conta pela primeira vez a história deste movimento que luta contra todos os senhores e deuses há mais de 150 anos e que, de Paris a Nova York e de Tóquio a Buenos Aires, continua a abalar o mundo. Este documentário foi produzido para fins educacionais e pode conter imagens que podem ofender alguns espectadores. Se você é uma pessoa sensível, não é recomendado assistir a este documentário.

O segundo episódio, Terra e Liberdade, analisa as diferentes tensões no movimento anarquista durante o auge da sua popularidade — quando parecia, por um tempo, que o sonho da revolução anarquista poderia tornar-se realidade. Esta foi uma era de fermentação e experimentação social, que incluiu: vida comunitária, nudismo e igualdade de género; reforma educacional destinada a inaugurar o desenvolvimento do “novo homem”; o ressurgimento da propaganda pelo feito sob o disfarce de assaltos violentos e tiroteios com a polícia; e a participação de anarquistas em revoluções do México à Rússia.

O anarquismo diminuiu na Europa durante os anos que antecederam a Primeira Guerra Mundial, mas a Revolução Mexicana de 1910 levantou a tocha e atraiu o apoio de anarquistas e antiautoritários, incluindo os pensadores e ativistas Peter Kropotkin, Emma Goldman e Joe Hill (da IWW). Mas apesar dos primeiros ganhos dos zapatistas, eles seriam traídos e massacrados pelos seus aliados. Os anarquistas que participaram da Revolução Russa de 1917 sofreram o mesmo destino. Felizes por terem o seu apoio para derrubar o governo, os comunistas reprimiram-nos com o que Trotsky chamou de “uma vassoura de ferro”.

Embora parecesse que o sonho de uma revolução anarquista estava ao nosso alcance, a Primeira Guerra Mundial poria fim à revolta popular, à medida que os jovens marchavam para a frente. Um movimento que outrora parecia prestes a dominar o mundo estava agora gravemente enfraquecido.

No início do século XX, os anarquistas em França eram uma força suficientemente poderosa para atrair a atenção do presidente francês. Em Inglaterra, eram considerados tão perigosos que, quando ocuparam um edifício em Londres, foi necessária toda a força da artilharia pesada e a ajuda de 800 policias (alguns sob o olhar de Winston Churchill) para desalojá-los.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Papa Francisco - doze anos de novos dinamismos e portas abertas


Papa Francisco foi o primeiro em muitas coisas. Primeiro Papa jesuíta, primeiro Papa originário da América Latina, primeiro a escolher o nome Francisco sem um numeral, primeiro a ser eleito com seu antecessor ainda vivo, primeiro a residir fora do Palácio Apostólico, primeiro a visitar terras nunca antes tocadas por um pontífice - do Iraque à Córsega -, primeiro a assinar uma Declaração de Fraternidade com uma das autoridades islâmicas mais importantes. Também foi o primeiro Papa a se equipar com um Conselho de Cardeais para governar a Igreja, a atribuir funções de responsabilidade a mulheres e leigos na Cúria, a lançar um Sínodo que envolvia diretamente o povo de Deus, a abolir o segredo pontifício para casos de abuso sexual e a remover a pena de morte do Catecismo. O primeiro também, a liderar a Igreja enquanto no mundo não há “a” guerra, mas muitas guerras, pequenas e grandes, travadas “em pedaços” nos diferentes continentes. Uma guerra que “é sempre uma derrota”, como repetiu nos mais de 300 apelos, mesmo quando sua voz falhava, e que ocuparam todos os últimos pronunciamentos públicos desde o início da violência na Ucrânia e no Oriente Médio.

Processos
Mas Francisco, nascido Jorge Mario Bergoglio, provavelmente não gostaria que o conceito de “primeiro” fosse associado ao seu pontificado, projetado nesses 12 anos não para atingir metas ou conquistar primados, mas para iniciar “processos”. Processos em andamento, processos concluídos ou distantes, processos que provavelmente são irreversíveis até mesmo para quem o sucederá no trono de Pedro. Ações que geram “novos dinamismos” na sociedade e na Igreja - como está escrito na road map do pontificado, a Evangelii Gaudium - sempre no horizonte do encontro, da troca, da colegialidade.

Do fim do mundo
“E agora iniciamos este caminho, Bispo e povo”, foram as primeiras palavras pronunciadas da Sacada Central da Basílica de São Pedro, no final da noite de 13 de março de 2013, para uma multidão que lotava a Praça São Pedro há um mês, sob os refletores após a renúncia de Bento XVI. Para aquela multidão, o recém-eleito Papa de 76 anos, escolhido por seus irmãos cardeais, originário “do fim do mundo”, pediu uma bênção. Com o povo, quis recitar uma Ave Maria, tropeçando em um italiano que até então não havia praticado assiduamente, dadas as raras visitas do pastor de Buenos Aires a Roma, pronto para fazer as malas imediatamente após o Conclave. E ao povo, no dia seguinte, ele quis prestar sua homenagem íntima, dirigindo-se à paróquia de Santa Ana no Vaticano e depois à Basílica de Santa Maria Maior, agradecendo à Salus Populi Romani, protetora de seu pontificado, a quem ele continuou a prestar homenagem em todos os momentos mais fortes. E exatamente nessa Basílica, Francisco expressou seu desejo de ser enterrado.

Pastor no meio do povo
A proximidade com o povo, um legado do ministério argentino, foi manifestada pelo Papa em todos os anos seguintes de várias maneiras: com visitas aos funcionários do Vaticano nos seus escritórios, com as Sextas-feiras da Misericórdia no Jubileu de 2016 em locais de marginalização e exclusão, com as celebrações da Quinta-feira Santa em prisões, asilos e centros de acolhida, com o longo tour em paróquias nos subúrbios romanos, com visitas e telefonemas surpresa. E manifestou essa proximidade em todas as viagens apostólicas, começando pela primeira ao Brasil em 2013, herdada de Bento XVI, da qual nos lembramos a imagem do papamóvel bloqueado no meio da multidão.

Primeiro Papa no Iraque
O Pontífice argentino completou quarenta e sete peregrinações internacionais, feitas com base em eventos, convites de autoridades, missões a serem realizadas ou algum “movimento” interno, como ele mesmo revelou no voo de volta do Iraque. Sim, exatamente o Iraque: três dias em março de 2021 entre Bagdá, Ur, Erbil, Mosul e Qaraqosh, terras e vilarejos com cicatrizes ainda evidentes da matriz terrorista, com sangue nas paredes e tendas de pessoas deslocadas ao longo das estradas, em meio à pandemia da Covid e preocupações gerais com a segurança. Uma viagem desaconselhada por muitos por causa da saúde e do risco de atentados; uma viagem desejada a todo custo. A “mais bela” viagem, como o próprio Francisco sempre confidenciou, o primeiro Papa a pisar na terra de Abraão, onde João Paulo II não conseguiu ir, e a conversar com o líder xiita Al-Sistani.

A Porta Santa em Bangui e a mais longa viagem ao Sudeste Asiático e à Oceania
Uma boa obstinação o levou ao Iraque, a mesma que em 2015 o levou a Bangui, a capital da República Centro-Africana ferida por uma guerra civil que, nos mesmos dias da visita, deixou mortos pelas ruas. No país africano, onde disse que queria ir mesmo ao custo de saltar “de paraquedas”, Francisco abriu a Porta Santa do Jubileu da Misericórdia em uma cerimônia comovente que também marca o recorde de um Ano Santo aberto não em Roma, mas em uma das regiões mais pobres do mundo. Também pode ser descrito como uma boa obstinação a que animou sua decisão de empreender a viagem mais longa do pontificado em setembro de 2024, aos 87 anos: Indonésia, Papua-Nova Guiné, Timor-Leste, Cingapura. Quinze dias, dois continentes, quatro fusos horários, 32.814 km percorridos de avião. Quatro universos diferentes, cada um representando os principais temas do Magistério: fraternidade e diálogo inter-religioso, periferias e emergência climática, reconciliação e fé, riqueza e desenvolvimento a serviço da pobreza.

De Lampedusa a Juba
Não se pode esquecer, repercorrendo as viagens apostólicas e as visitas pastorais, a primeira viagem fora de Roma, à pequena ilha de Lampedusa, cenário de grandes tragédias migratórias, com a coroa de flores lançada no “cemitério a céu aberto” do Mediterrâneo. A denúncia também se repetiu na dupla viagem a Lesbos (2016 e 2021) nos contêineres e tendas de refugiados e pessoas deslocadas.

Na história do pontificado, ficaram marcadas também a viagem à Terra Santa (2014); à Suécia, em Lund (2016) para as celebrações do 500º aniversário da Reforma Luterana; ao Canadá (2022) com o pedido de perdão às populações indígenas pelos abusos sofridos por representantes da Igreja Católica. E, em seguida, na República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul, em Juba (2023), esta última etapa compartilhada com o Arcebispo de Canterbury, Justin Welby, e o Moderador da Assembleia Geral da Igreja da Escócia, Ian Greenshields, para sublinhar a vontade ecumênica de curar as feridas de um povo. As mesmas que ele implorou que fossem curadas aos líderes sul-sudaneses, reunidos em 2019 para dois dias de retiro na Casa Santa Marta, concluídos com o gesto perturbador de beijar seus pés.

Também, Cuba e Estados Unidos (2015), uma viagem para selar o estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Um evento histórico para o qual Francisco passou meses, enviando cartas a Barack Obama e Raúl Castro, instando-os a “iniciar uma nova fase”. Foi o próprio Obama quem agradeceu publicamente ao Pontífice. Em Havana, houve também o encontro com o Patriarca Kirill e a assinatura de uma declaração conjunta para colocar em prática o “ecumenismo da caridade”, o compromisso dos cristãos para uma humanidade mais fraterna. Um compromisso que se tornou, anos depois, tragicamente atual e um tanto desconsiderado com a eclosão da guerra no coração da Europa.

Por último, mas não menos importante, entre as viagens, Abu Dhabi (2019) e o Documento sobre a Fraternidade Humana assinado em conjunto com o Grão Imame al-Tayeb, coroando o degelo com a universidade sunita de Al-Azhar que começou com um abraço na Casa Santa Marta e terminou com a assinatura de um texto que imediatamente se tornou a pedra angular do diálogo islâmico-cristão, também transposto para várias Constituições.

As encíclicas
As experiências, os diálogos e os gestos vividos nessas viagens fluíram para os documentos do pontificado. Quatro encíclicas: a primeira, Lumen Fidei, sobre o tema da fé, a quatro mãos com Bento XVI; depois, Laudato si', um grito para invocar uma “mudança de rumo” para a “casa comum”, em crise pelas mudanças climáticas e pela exploração excessiva, e para estimular ações para erradicar a miséria e para o acesso equitativo aos recursos do planeta. A terceira encíclica, a Fratelli Tutti, o eixo fundamental do Magistério, fruto do Documento de Abu Dhabi, profecia - antes da deflagração de novas guerras - da fraternidade como o único caminho para o futuro da humanidade. Por fim, a Dilexit Nos para repercorrer a tradição e a atualidade do pensamento “sobre o amor humano e divino do coração de Jesus” e lançar uma mensagem a um mundo que parece ter perdido seu coração.

Exortações Apostólicas e Motu Proprio
São sete exortações apostólicas: desde a já mencionada Evangelii Gaudium até C'est la confiance, para o 150º aniversário do nascimento de Teresa do Menino Jesus. Entre elas, as exortações pós-sinodais - Amoris Laetitia (Sínodo sobre a família), Christus Vivit (Sínodo sobre os jovens), Querida Amazonia (Sínodo para a Região Pan-Amazônica) -, Gaudete et Exsultate sobre o chamado à santidade no mundo contemporâneo, Laudate Deum, uma sequência ideal da Laudato si' para completar seu apelo para reagir pela Mãe Terra antes de um “ponto de ruptura”.

Foram emitidos cerca de 60 Motu Proprio para reconfigurar as estruturas da Cúria Romana e do território da Diocese de Roma, para alterar o Direito Canônico e o sistema judiciário do Vaticano, para emitir regras e procedimentos mais rigorosos na luta contra os abusos. Esse é o caso do Vos estis lux mundi, um documento que incorporou resultados, indicações e recomendações do Summit sobre a Proteção dos Menores, realizado no Vaticano, em fevereiro de 2019. Uma cúpula que representou o auge do trabalho para combater a pedofilia do clero e os abusos não só sexuais; uma expressão da disposição da Igreja de agir com verdade e transparência em uma atitude penitencial. Com o Vos estis lux mundi, Francisco estabeleceu novos procedimentos para a denúncia de assédios e violências e introduziu o conceito de accountability, ou seja, garantir que bispos e superiores religiosos prestem conta de suas ações.

Reforma da Cúria
Portanto, processos. Os processos de reformas foram uma constante no papado de Francisco, que não quis ignorar as recomendações dos cardeais nas congregações pré-conclave que pediam ao futuro novo Papa que reestruturasse a Cúria Romana e, em particular, as finanças do Vaticano, que durante anos estiveram no centro de escândalos. Logo após sua eleição, o Papa criou um Conselho de Cardeais, o C9 (que se tornou C6 e C8 ao longo dos anos, conforme os vários membros foram mudando), um pequeno “senado” para ajudá-lo a governar a Igreja universal e trabalhar na reforma da Cúria. Fusões de Dicastérios e outras mudanças de títulos e organogramas foram os sinais do work in progress; o passo final foi a Constituição Apostólica Praedicate evangelium: aguardada por anos, promulgada em 2022, sem aviso prévio ou preâmbulo, introduzindo novidades significativas. Entre elas, a instituição do novo Dicastério para a Evangelização, presidido diretamente pelo Pontífice, e o envolvimento dos leigos “em funções de governo e responsabilidade”. Nessa onda de mudanças, devem ser vistas as nomeações do primeiro prefeito leigo, Paolo Ruffini, para o Dicastério para a Comunicação, da primeira “prefeita” para o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada, Irmã Simona Brambilla, e da primeira governadora da Cidade do Vaticano, Irmã Raffaella Petrini.

As Mulheres
As mulheres, outra vertente destes anos de Bergoglio no trono de Pedro, o Papa que, mais do que outros, confiou a figuras femininas papéis de responsabilidade, que criou duas comissões para o estudo das diaconisas, que nunca deixou de recordar o “génio” feminino e a dimensão materna da Igreja (que “é mulher” porque “é a Igreja, não o Igreja"). Além disso, colocou as mulheres lado a lado com cardeais e bispos nas mesas do último Sínodo sobre a Sinodalidade, irmãs, missionárias, professoras, especialistas, teólogas, às quais deu, pela primeira vez, o direito de voto.

Uma abertura, como tantas outras feitas por Francisco. Aberturas e não extirpações, nem saltos; para alguns muito rápidos, para outros cautelosos demais. De fato, também esses, processos. Como a concessão dos sacramentos aos divorciados recasados, na perspectiva da Eucaristia como “remédio” para os pecadores e não como “alimento para os perfeitos”; a acolhida às pessoas Lgbtq+ com o convite à proximidade pastoral, porque dentro da Igreja há espaço para “todos, todos, todos”; a obstinação em dialogar com representantes de outras denominações e religiões cristãs, após séculos de preconceitos e suspeitas, também em virtude do “ecumenismo do sangue”. Também, o olhar à China, com o Acordo Provisório para a Nomeação de Bispos, assinado em 2019 e renovado três vezes. Um sinal de diálogo, entre tropeços e retomadas, com um “povo nobre” que ele desejou visitar por todos esses anos. Um desejo que remonta às aspirações missionárias da juventude.

Missionariedade e sinodalidade
Missão, este também é um tema central. De fato, a “missionariedade”, é um convite recorrente em textos e homilias, assim como a “sinodalidade”, outro termo que ressoou tantas vezes nesses doze anos. O Papa dedicou nada menos que duas sessões do Sínodo (2023 e 2024) à “sinodalidade”, renovando a estrutura e o funcionamento da assembleia, percebendo a necessidade de começar o caminho sinodal “de baixo” e instituindo também dez grupos de estudo para aprofundar temas doutrinários, teológicos e pastorais após os trabalhos.

Pobres e migrantes
Neste pontificado serão lembrados também os axiomas que encapsularam inteiras realidades eclesiais, políticas e sociais: “Cultura do descarte”, “globalização da indiferença”, “Igreja pobre para os pobres”, “Igreja em saída”, “pastores com cheiro de ovelhas”, “ética global da solidariedade”. Permanecerá a atenção aos pobres com a instituição, em 2017, de um Dia dedicado a eles, sempre caracterizado pelo almoço do Papa na Sala Paulo VI, lado a lado com pessoas em situação de rua e sem-teto. Permanecerá o ensinamento sobre os migrantes, declinado nos quatro verbos “acolher, proteger, promover e integrar”, como indicações programáticas para enfrentar “uma das maiores tragédias deste século”. Assim como permanecerá o convite para elaborar “compromissos honrosos” como soluções para os conflitos que estão dilacerando a Europa, o Oriente Médio e a África.

Compromisso em prol da paz
Conflitos, angústia dos últimos anos, denunciados em apelos ressonantes e cartas a núncios e povos vítimas de violências, aliviados por meio de videochamadas - sobretudo a diária para a paróquia de Gaza - ou missões de cardeais e o envio de produtos de primeira necessidade. “Não pensei que seria um Papa em tempo de guerra”, confidenciou no primeiro e único podcast com a mídia do Vaticano no décimo aniversário de sua eleição.

A paz foi o objetivo constante. Pela paz, o Papa Francisco pediu continuamente orações, convocando Dias de jejum e oração - pela Síria, Líbano, Afeganistão, Terra Santa - envolvendo os fiéis de todas as latitudes; consagrou a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria em 2022; organizou momentos históricos, como o plantio de uma oliveira nos Jardins do Vaticano em 8 de junho de 2014 com os presidentes de Israel, Shimon Peres, e da Palestina, Mahmoud Abbas. Em prol da paz, o Papa fez gestos inusitados, como entrar em seu carro e ir, no dia seguinte ao lançamento da primeira bomba em Kiev, ao escritório do embaixador russo na Santa Sé, Alexander Avdeev, tentando iniciar contatos com o presidente Putin e assegurando-lhe sua disposição de mediar. Francisco repreendeu várias vezes os chefes de Estado e de governo, advertiu os senhores da guerra de que eles prestarão contas diante de Deus pelas lágrimas derramadas entre os povos, estigmatizou o florescente mercado de armas lançando uma proposta para usar os gastos com armas para criar um Fundo Mundial para erradicar a fome. Pediu a construção de pontes e não a construção de muros, e insistiu em colocar o bem comum acima das estratégias militares, sendo às vezes mal interpretado e criticado.

Inovações
Em todos esses anos não faltaram críticas contra o Papa argentino, que comentou escaladas e os ventos contrários com aquele humor que é o que “mais se aproxima da graça de Deus”. Francisco questionou e surpreendeu, talvez tenha feito alguém torcer o nariz pela quebra de tabus e a ruptura de protocolos e velhos costumes, ou pela remodelação do próprio papado com roupas diferentes, uma residência diferente, uma inusual gestualidade, um estilo pastoral original. Ou aparecendo em transmissões ao vivo pela Internet e em programas de TV, usando a conta X @Pontifex, em 9 idiomas, ou como um canal para transmitir mensagens de divulgação e imediatismo necessários.

Momentos difíceis e problemas de saúde
Nesses anos sempre densos, com raríssimos momentos de descanso (e o cancelamento das tradicionais férias papais em Castel Gandolfo), não faltaram momentos difíceis, em meio a processos judiciais - liderados pelo longo e complexo processo pela gestão dos fundos da Santa Sé -, o caso Vatileaks 2, escândalos de abusos e corrupção e a publicação de livros sem “nobreza e humanidade”. Também não faltaram problemas de saúde entre as operações no Hospital Gemelli em 2021 e 2023, a internação no mesmo hospital, novamente em 2023, as complicações respiratórias, e depois os resfriados, as gripes e as dores no joelho que o forçaram a usar a cadeira de rodas nos últimos três anos.

Dados estatísticos
Tantas dificuldades que nunca impediram uma intensa atividade ou sua presença em eventos. Várias estatísticas testemunham isso: mais de 500 audiências gerais, dez Consistórios para a criação de 163 novos cardeais que restituíram caráter de universalidade ao rosto da Igreja; mais de 900 canonizações (incluindo três predecessores: João XXIII, João Paulo II, Paulo VI); os “Anos Especiais”, entre os quais os da Vida Consagrada (2015-2016), São José (2020-2021) e a Família (2021-2022); quatro Jornadas Mundiais da Juventude: Rio de Janeiro, Cracóvia, Panamá, Lisboa. Dois Jubileus: o extraordinário sobre a Misericórdia em 2016 e o ordinário em 2025, atualmente em andamento, com o tema “Peregrinos da Esperança”.

A Statio Orbis durante a pandemia da Covid
Jorge Mario Bergoglio foi um Papa que buscou a proximidade com o grande público também por meio de entrevistas, livros, prefácios, autobiografias. Um Papa do qual, talvez, mais do que as muitas palavras e escritos, será recordado com uma imagem: ele, sozinho, mancando, na chuva, no silêncio geral do lockdown e com o único som de fundo de uma ambulância, enquanto atravessa a Praça São Pedro no tempo suspenso da pandemia. Era a Statio Orbis de 27 de março de 2020, com o mundo fechado dentro de casa vendo em streaming um homem idoso que parecia carregar sobre os ombros todo o peso de uma tragédia que revirou cotidianidade e hábitos. A humanidade estava aflita, mas o Papa falou de esperança. E de fraternidade: “Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo todos chamados a remar juntos”.

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Dezenas de milhões de pessoas neste país bebem água contaminada com arsénico. A situação pode piorar muito


Incolor, insípido e inodoro. O arsénio é um assassino furtivo, naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas. Há vários países onde se verificam contaminações por arsénico

Começou com pontos espalhados pelo peito e costas das pessoas. Manchas duras invulgares na pele das palmas das mãos e nas solas dos pés. Para alguns, um escurecimento dos dedos dos pés.

Médicos e investigadores começaram a observar pacientes no Bangladesh que apresentavam este tipo de sintomas na década de 1980. Rapidamente se tornou claro o que estavam a ver: sinais clássicos de envenenamento por arsénico.

Numa trágica ironia, a razão acabou por ser atribuída a um programa de saúde pública de enorme sucesso.

Na década de 1970, as crianças do Bangladesh morriam em grande número devido a doenças como a disenteria e a cólera, depois de beberem água suja dos rios, lagos e ribeiros. Em resposta, o governo do Bangladesh, juntamente com agências de ajuda lideradas pela UNICEF, lançou um enorme esforço para obter água mais limpa no subsolo.

Ao longo das duas décadas seguintes, milhões de poços tubulares - tubos estreitos perfurados a profundidades relativamente pequenas - foram enterrados na terra. "No espaço de uma geração, mudaram o comportamento da água potável de toda uma população", disse Seth Frisbie, químico e professor emérito da Universidade de Norwich, que passou décadas a investigar a contaminação por arsénico.

Os números de crianças a morrer diminuíram significativamente. Ainda assim, nos anos 90, tornou-se claro que o projeto tinha falhado a ter em conta um problema enorme e mortal: grande parte das águas subterrâneas continha níveis elevadíssimos de arsénico, um conhecido agente cancerígeno ligado a uma série de outros impactos negativos para a saúde.

Os especialistas em saúde classificaram-no como o "pior envenenamento em massa" de uma população na história - com dezenas de milhões de pessoas afetadas. Embora o governo, a UNICEF e outras agências de ajuda humanitária se tenham esforçado por combater a contaminação, os impactos do envenenamento continuam a ser generalizados. Estima-se que 43.000 pessoas morrem todos os anos devido a doenças relacionadas com o arsénico no Bangladesh, de acordo com um estudo.

Agora, numa reviravolta cruel, a situação pode estar a piorar. Novas evidências sugerem que os impactos da crise climática causada pelo homem - incluindo as inundações e o aumento do nível do mar - estão a alterar a química da água no subsolo e a aumentar ainda mais os níveis de arsénico.


O problema estende-se muito para além do Bangladesh.
Um número crescente de estudos realizados noutros países, incluindo os Estados Unidos, sugere que o aquecimento global pode estar a superalimentar o problema da água contaminada com arsénico em todo o mundo.

"Afeta todos os órgãos do corpo"
O arsénico é naturalmente abundante nas rochas e no solo da Terra. É muito tóxico na sua forma inorgânica, sendo encontrado nos níveis elevados das águas subterrâneas, não só no Bangladesh, mas também em países como a Índia, China, Taiwan, Vietname, Argentina, Chile, México, partes da Europa, Austrália e EUA.

Enquanto as águas superficiais poluídas adoecem rapidamente as pessoas, o arsénico é um assassino furtivo.

É incolor, insípido e inodoro. Não há forma de o detetar sem testes e os seus impactos tendem a surgir ao fim de muitos anos.

A exposição crónica pode revelar-se através da pele endurecida das mãos e dos pés, chamada queratose, do aparecimento de manchas pigmentadas na pele e até da "doença do pé negro", uma doença vascular que pode causar gangrena - tecido morto causado pela falta de fluxo sanguíneo.

Os seus efeitos nocivos continuam no interior do corpo das pessoas, onde aumenta o risco de cancro da pele, do fígado, dos pulmões e da bexiga, bem como de doenças cardíacas e diabetes. O arsénico também tem sido associado à perda da gravidez, a atrasos no desenvolvimento das crianças e a doenças respiratórias.

"Afeta todos os órgãos do corpo", afirma Rubhana Raqib, cientista sénior do Centro Internacional de Investigação sobre Doenças Diarreicas no Bangladesh (ICDDR,B - na sigla original).

Alguns peritos sugeriram que a escala do envenenamento no Bangladesh ultrapassa largamente a de outras catástrofes mais conhecidas causadas pelo homem, como o desastre nuclear de Chernobyl. Mas o número exato de mortos é quase impossível de calcular, em parte devido às dificuldades em desvendar as causas do cancro.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que cerca de 140 milhões de pessoas em pelo menos 70 países têm bebido água contaminada com arsénico a níveis que excedem o limite recomendado de 10 microgramas por litro.

No Bangladesh, onde as diretrizes do governo estão fixadas numas menos restritivas 50 microgramas, acredita-se que milhões de pessoas terão sido afetadas.

Um enorme estudo de análise de poços realizado pelo British Geological Survey, que teve início em 1998 e abrangeu a maior parte do Bangladesh, revelou que 27% dos poços tubulares menos profundos excediam as diretrizes do país, afetando cerca de 35 milhões de pessoas. Cerca de 57 milhões de pessoas foram expostas a níveis que violavam as indicações de 10 microgramas da OMS, de acordo com o estudo - aproximadamente 45% da população.

Frisbie, que passou algum tempo no Bangladesh a produzir mapas da água potável afetada pelo arsénico, disse que o número era evidente.

"Percorri aldeias onde ninguém tinha mais de 30 anos", disse à CNN.

Mesmo as normas mais rigorosas em matéria de arsénico recomendadas pela OMS e adotadas por países como os EUA não proporcionam proteção suficiente, afirmou. "O arsénico é extremamente tóxico. Só porque está a um determinado nível que o governo diz ser seguro... não significa que seja seguro, não significa que as pessoas não vão morrer."

O aquecimento global pode aumentar os riscos
Os riscos são cada vez maiores à medida que os seres humanos continuam a queimar combustíveis fósseis que aquecem o planeta.

Os impactos cada vez mais graves das alterações climáticas podem mudar a química das águas subterrâneas, de acordo com um estudo recente de que Frisbie é coautor.

Isto significa mais problemas para o Bangladesh, que está firmemente na linha da frente da crise climática. Baixa e densamente povoada e com uma longa costa, enfrenta uma imensidão de ameaças, desde a subida do nível do mar até às inundações - todos os anos, cerca de 20% do país fica submerso.

As inundações podem impedir que o oxigénio da atmosfera penetre nas águas subterrâneas, de acordo com a investigação, o que, por sua vez, pode aumentar a libertação de arsénico dos sólidos e sedimentos para a água - um processo designado por "redução".

A subida do nível do mar representa outro desafio, provocando a infiltração de água salgada nas fontes de água subterrâneas. Isto não só faz com que a água tenha um sabor mais salgado, como a presença de sal pode também aumentar as concentrações de arsénico, fazendo com que este se dissolva na água através de um fenómeno chamado "efeito salino".

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Azorella compacta ou também conhecida por Llareta


Esta planta de 3.000 anos de idade pode parecer uma pedra com musgo, mas na verdade é um arbusto com milhares de ramos e cachos de pequenas folhas verdes densamente embaladas. Conhecida como Llareta, o arbusto é parente de salsa e vive no deserto de Atacama no Chile e distribui-se até nordeste da Argentina e nas altas altitudes nos Andes do Perú e Bolívia.
Eles crescem apenas 1-1,5 centímetros por ano.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Os crimes de Henry Kissinger


Vamos desenterrar Timor-Leste e outros crimes do Kissinger? Morreu um grande criminoso.
Este livro foi direitinho para o lixo. Porquê? Foi Kissinger que enviou Carlucci entre muitos outros para Portugal. Não temos muito por onde fugir. Ou CIA ou China ou uma Federação Europeia.


É chato, mas republicanos hipócritas, criminosos e ultra-liberais, por favor, poupem-me!!
Sobre uma possível invasão espanhola, afirma Frank Carlucci : "Sempre tentei contrariar essa ideia e falei com o embaixador de Madrid em Lisboa, que concordou comigo. Espanha devia ser o último país a intervir em Portugal. Seria desastroso. Enviei várias mensagens ao meu Governo para não tentar envolver Espanha, mas não sei se Henry Kissinger [então secretário de Estado] prestou alguma atenção ao que lhe disse".

A Argentina foi sempre vítima de Kissinger. Já vem muito detrás 👉 The Conversation.

Críticas e Condenações
As críticas a Kissinger foram e são severas. O obituário de Kissinger na revista Rolling Stone tem como título “War Criminal Beloved by America’s Ruling Class, Finally Dies” (Criminoso de guerra amado pela classe dominante americana, finalmente morre).

terça-feira, 21 de novembro de 2023

History: Adolph Hitler Was Financed by Wall Street, the U.S. Federal Reserve and the Bank of England



Wall Street creditors are the main actors.

They were firmly behind Nazi Germany. They financed Operation Barbarossa and the invasion of the Soviet Union in 1941.
1932 Secret Agreement: Wall Street Finances Hitler’s Nazi Party

“On January 4th, 1932, a meeting was held between British financier Montagu Norman (Governor of the Bank of England), Adolf Hitler and Franz Von Papen (who became Chancellor a few months later in May 1932) At this meeting, an agreement on the financing of theNationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (NSDAP or Nazi Party) was reached.

This meeting was also attended by US policy-makers and the Dulles brothers, something which their biographers do not like to mention.

A year later, on January 14th, 1933, another meeting was held between Adolph Hitler, Germany’s Financier Baron Kurt von Schroeder, Chancellor Franz von Papen and Hitler’s Economic Advisor Wilhelm Keppler took place, where Hitler’s program was fully approved.” (Y. Rubtsov, text below)

Upon the accession of Adolph Hitler as Chancellor in March 1933, a massive privatization program was initiated which bears the finger-prints of Wall Street.

Dr. Hjalmar Schacht –re-appointed in March 1933 by Adolph Hitler to the position of President of The Reichsbank — was invited to the White House (May 1933) by President Franklin D. Roosevelt.

“After his meeting with the U.S. President and the big bankers on Wall Street, America allocated Germany new loans totalling $1 billion” [equivalent to $23.7 billion in 2023, PPP estimate] (Y. Rubtsov, op cit)

The Deutsche Reichsbahn (German Railways) was privatized. The Nazi government sold off State owned shipbuilding companies, state infrastructure and public utilities.

With a “Nazi- Liberal” slant, –no doubt with “conditionalities”- the privatization program was negotiated with Germany’s Wall Street creditors. Several major banking institutions including Deutsche Bank and Dresden Bank were also privatized.

“[T]he government of the Nazi Party sold off public ownership in several State-owned firms in the mid-1930s. These firms belonged to a wide range of sectors: steel, mining, banking, local public utilities, shipyards, ship-lines, railways, etc.

In addition, the delivery of some public services that were produced by government prior to the 1930s, especially social and labor-related services, was transferred to the private sector, mainly to organizations within the party.” (Germa Bel, University of Barcelona)

The proceeds of the privatization program were used to repay outstanding debts as well as fund Nazi Germany’s buoyant military industrial complex.

Numerous U.S. conglomerates had invested in Nazi Germany’s arms industry including Ford and General Motors:

Both General Motors and Ford insist that they bear little or no responsibility for the operations of their German subsidiaries, which controlled 70 percent of the German car market at the outbreak of war in 1939 and rapidly retooled themselves to become suppliers of war materiel to the German army.

… In certain instances, American managers of both GM and Ford went along with the conversion of their German plants to military production at a time when U.S. government documents show they were still resisting calls by the Roosevelt administration to step up military production in their plants at home. (Washington Post, November 30, 1998)
“A Famous American Family” Sleeping with the Enemy. The Role of Prescott Bush

Of significance: “A famous American family” made its fortune from the Nazis, according to John Loftus’s documented historical analysis.

Prescott Bush (grandfather of George W. Bush) was a partner in Brown Brothers Harriman & Co. and director of the Union Banking Corporation, closely linked to the interests of German corporations, including Thyssen Stahl, an important company involved in the arms industry of the Third Reich.

The Bush family links to Nazi Germany’s war economy were first brought to light at the Nuremberg trials in the testimony of Nazi Germany’s steel magnate Fritz Thyssen.

Thyssen was a partner of George W. Bush’s grandfather Prescott Bush:

“From 1945 until 1949 in Nuremberg, one of the lengthiest and, it now appears, most futile interrogations of a Nazi war crimes suspect began in the American Zone of Occupied Germany.

Multibillionaire steel magnate Fritz Thyssen –-the man whose steel combine was the cold heart of the Nazi war machine– talked and talked and talked to a joint US-UK interrogation team.

… What the Allied investigators never understood was that they were not asking Thyssen the right question. Thyssen did not need any foreign bank accounts because his family secretly owned an entire chain of banks.

He did not have to transfer his Nazi assets at the end of World War II, all he had to do was transfer the ownership documents – stocks, bonds, deeds and trusts–from his bank in Berlin through his bank in Holland to his American friends in New York City: Prescott Bush and Herbert Walker [father in law of Prescott Bush]. Thyssen’s partners in crime were the father and [grandfather] of a future President of the United States [George Herbert Walker Bush]. (John Loftus, How the Bush family made its fortune from the Nazis: The Dutch Connection)

The American public was not aware of the links of the Bush family to Nazi Germany because the historical record had been carefully withheld by the mainstream media. In September 2004, however, The Guardian revealed that:

George Bush’s grandfather, the late US senator Prescott Bush, was a director and shareholder of companies that profited from their involvement with the financial backers of Nazi Germany. …

His business dealings, which continued until his company’s assets were seized in 1942 under the Trading with the Enemy Act, has led more than 60 years later to a civil action for damages being brought in Germany against the Bush family by two former slave labourers at Auschwitz and to a hum of pre-election controversy.”

(Ben Aris and Duncan Campbell, How the Bush’s Grandfather Helped Hitlers Rise to Power, Guardian, September 25, 2004)
Screenshot, The Guardian

Evidence of the Bush family’s links to Nazism was available well before George Herbert Walker Bush (Senior) and George W. Bush entered politics.

The U.S. media remained totally mum. According to John Buchanan (New Hampshire Gazette, 10 October 2003):

After 60 years of inattention and even denial by the U.S. media, newly-uncovered government documents in The National Archives and Library of Congress reveal that Prescott Bush, the grandfather of President George W. Bush, served as a business partner of and U.S. banking operative for the financial architect of the Nazi war machine from 1926 until 1942, when Congress took aggressive action against Bush and his “enem\\y national” partners.

The documents also show that Bush and his colleagues, according to reports from the U.S. Department of the Treasury, tried to conceal their financial alliance with German industrialist Fritz Thyssen, a steel and coal baron who, beginning in the mid-1920s, personally funded Adolf Hitler’s rise to power by the subversion of democratic principle and German law. Furthermore, the declassified records demonstrate that Bush and his associates, who included E. Roland Harriman, younger brother of American icon W. Averell Harriman, and George Herbert Walker, President Bush’s maternal great-grandfather, continued their dealings with the German industrial tycoon for nearly a year after the U.S. entered the war.

While Prescott Bush’s company’s assets, namely Union Banking Corporation were seized in 1942 under the Trading with the Enemy Act (See below), George W. Bush’s grandfather was never prosecuted for his business dealings with Nazi Germany.
“In 1952, Prescott Bush was elected to the U.S. Senate, with no press accounts about his well-concealed Nazi past.

There is no record of any U.S. press coverage of the Bush-Nazi connection during any political campaigns conducted by George Herbert Walker Bush, Jeb Bush, or George W. Bush, with the exception of a brief mention in an unrelated story in the Sarasota Herald Tribune in November 2000 and a brief but inaccurate account in The Boston Globe in 2001.” (John Buchanan, op. cit)

Up until Pearl Harbor (December 1941), Wall Street was trading with Germany.

In the wake of Pearl Harbor (1941-1945), Standard Oil “was trading with the enemy” selling oil to Nazi Germany through the intermediation of so-called “neutral countries” including Venezuela and Argentina.

Without the U.S. supply of oil to Nazi Germany instrumented by Standard Oil of New Jersey, the Third Reich would not have been able to invade the Soviet Union.

—Michel Chossudovsky, November 21, 2023

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Metade das espécies de plantas desapareceram com os dinossaurios


Uma nova análise de dados fósseis emergentes da América do Norte e do Sul lança luz sobre como as plantas se saíram após aquele cataclismo planetário, chamado extinção do Cretáceo-Paleógeno. É publicado na nova revista Cambridge Prisms: Extinction.

Continua a haver um debate sobre como a extinção do Cretáceo-Paleógeno (K-Pg) afetou a vida vegetal na Terra, em parte porque estudos globais do registo fóssil mostraram que nenhuma grande família de plantas foi extinta.

“Tem havido uma tendência na literatura de dizer que talvez este evento tenha sido ruim para os dinossauros e para muita vida marinha, mas foi bom para as plantas porque os principais grupos sobreviveram”, disse Peter Wilf, professor de geociências na Penn em comunicado e autor principal do estudo. “Nossa análise contradiz essa ideia, porque para onde quer que olhemos, mais da metade das espécies estão extintas”.

Compreender o que aconteceu às plantas antigas durante a extinção requer coleções adequadas de plantas fósseis e, para o K-Pg, estas estavam anteriormente limitadas a algumas áreas nos Estados Unidos, disseram os cientistas. Novos fósseis da Colômbia, Argentina e Estados Unidos forneceram uma gama geográfica mais ampla para estudar a gravidade, os efeitos no ecossistema e o legado do evento na vida vegetal.

“Você precisa de uma amostragem realmente robusta e de saber onde estão as rochas com fósseis de plantas”, disse Wilf. "As diferenças no DNA entre as plantas vivas não vão dizer nada sobre extinções de espécies em tempos profundos. Você precisa de fósseis de plantas de antes e depois. Você precisa de camadas rochosas que mostrem a extinção. E quanto mais indicadores você tiver, mais completa será sua história. ."

Os pesquisadores revisaram dados fósseis emergentes de Dakota do Norte, Colorado e Novo México, nos Estados Unidos, e da Colômbia e Argentina. As evidências apontam para uma perda significativa de espécies de plantas, superior a 50% em cada local, disseram os cientistas.

Esta perda de espécies representa uma verdadeira extinção, disseram os cientistas. Os esforços modernos de conservação, por exemplo, centram-se em salvar espécies (como o urso polar), e não no grupo mais vasto a que pertence: todos os ursos ou todos os mamíferos. Aplicando isto às plantas, a extinção de uma família inteira de plantas modernas, como as Fagaceae, exigiria a extinção de todas as espécies de faia, castanheiro e carvalho.

“Você realmente não pode matar a maioria das famílias de plantas, então esse argumento é um pouco inútil”, disse Wilf. "No final do Cretáceo, cada família tinha muitos géneros com muitas espécies e indivíduos. As plantas superam todos os animais combinados, mais de duzentas vezes. Os dinossaurios eram muitas vezes menos diversos e abundantes do que as plantas e, portanto, era muito mais fácil mataram quase todas as principais categorias deles: apenas os pássaros sobreviveram."

“Lembramos aos nossos colegas que essas extinções de espécies de plantas foram extinções reais e muito significativas. Em todos os lugares que olhamos onde são mantidos registros, houve enormes perdas de espécies de plantas, seguidas por uma série surpreendente de eventos evolutivos que tornaram nosso mundo moderno o que isso é."

A extinção K-Pg marcou o início do surgimento e do verdadeiro domínio das plantas com flores e ajudou a estabelecer as florestas tropicais do planeta que abrigam a maior parte da sua biodiversidade, disse Wilf.

quinta-feira, 16 de março de 2023

O “ouro branco” da Argentina: o seu boom do lítio terminará mal?

Como uma batalha pelos recursos minerais na Argentina poderia determinar a luta contra o aquecimento global.

A Argentina possui enormes reservas de lítio, um metal leve usado em baterias elétricas que provavelmente será vital para reduzir a nossa dependência de combustíveis fósseis que aquecem o planeta.

Mas essas reservas situam-se sob as vastas planícies salinas andinas – um ecossistema único que se estende entre a Argentina, a Bolívia e o Chile e que as comunidades indígenas estão desesperadas por proteger de um boom mineiro.

Eles dizem que a produção de lítio suga as escassas águas subterrâneas e seria ambientalmente catastrófica para esta região deslumbrante, mas árida.

Então, é possível extrair o metal – e combater as alterações climáticas – sem causar danos ecológicos significativos? Pessoas e Poder investigam.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Crescer ou não crescer, eis a questão?


“Parece mais sensato propor à América Latina um olhar de a-crescimento, no qual o objetivo do crescimento económico seja deslocado de sua centralidade, e indicadores como o PIB sejam complementados com outros. Uma economia em que haverá setores que necessariamente devem crescer, como a saúde, a educação ou a habitação, e outros que podem permanecer iguais, mas também haverá aqueles que devem diminuir porque expressam opulência e impactos socioambientais intoleráveis”, escreve Eduardo Gudynas, pesquisador do Centro Latino-Americano de Ecologia Social - CLAES, em artigo publicado por Brecha, 27-01-2023. A tradução é do Cepat.
Eis o artigo.

Nos últimos anos, nos países mais ricos, multiplicam-se os questionamentos sobre a obsessão pelo crescimento económico como condição central para a compreensão do desenvolvimento. Uma obsessão que, quando concretizada, também tinha um lado obscuro em seus impactos sociais e ambientais. Entre as diferentes respostas alternativas, surgiu o chamado decrescimento, conforme resenhado no excelente artigo de Geoff Mann publicado no Brecha em 20 de janeiro (“Darle la vuelta a la ecuación”). Mas várias questões permanecem pendentes, especialmente desde uma perspectiva do Sul. A mais óbvia é se o decrescimento faz sentido para um país latino-americano ou se, em vez de resolver nossos problemas, não os agravaria.

Os defensores mais entusiastas do decrescimento encontram-se na Europa Ocidental, entre alguns académicos e ativistas sociais. Por outro lado, em quase toda a América Latina, as abordagens têm sido muito mais limitadas e permaneceram distantes dos grandes movimentos sociais. A novidade mais recente é que essa inusitada palavra veio à tona na Colômbia, como resultado das intenções da nova ministra de Minas e Energia de limitar a exploração de petróleo. Encurralada pelas interpelações da imprensa, chegou a justificar a medida apelando à ideia do decrescimento.

Um equivalente uruguaio dessa posição seria como se o ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca dissesse que deseja limitar a expansão da soja ou da celulose e, ao clamor da media sobre uma catástrofe económica, respondesse dizendo que a economia deve reduzir.

Na Colômbia, o debate se intensificou quando o novo presidente, Gustavo Petro, apoiou a ideia, indicando que “hoje a ciência sabe que o consumo de petróleo e carvão deve diminuir substancialmente, que o consumo de carne bovina, desde que seja sustentado por combustíveis fósseis, deve diminuir em escala global”, e concluiu dizendo que devemos nos acomodar ao “equilíbrio da vida no planeta” (1).

Uma palavra gatilho
Os usos atuais do termo decrescimento têm origem na França, com economistas e ativistas políticos. O décroissance foi popularizado pelo economista Serge Latouche nos anos 2000, entendendo-o como um slogan ou palavra gatilho para atacar a obsessão pela ideia de desenvolvimento como crescimento perpétuo (2). Com o passar dos anos, tornou-se mais complexo, e agora, na academia, é definido como uma "crítica à economia do crescimento", que busca a "abolição do crescimento económico como objetivo social", ao mesmo tempo em que incentiva alternativas baseadas na simplicidade, no convívio, no cuidado e na partilha. Isso implicaria uma redução equitativa da produção e do consumo, de modo a reduzir os fluxos de energia e matérias-primas (3).

Não é de estranhar que, para a grande maioria dos que vivem nos países do Sul, um apelo a decrescer não faça muito sentido. Eles imediatamente imaginam contrações económicas com consequências negativas para suas vidas. É um termo que se choca com ditados repetidos há décadas, que assumem que o emprego e o bem-estar derivam do crescimento da economia.

Por outro lado, para algumas pessoas e movimentos de países ricos, o decrescimento faz sentido, pois reduziria os impactos sociais e ambientais, aplacaria o consumismo e até mesmo a extração de recursos naturais. No entanto, essas conceituações de decrescimento não oferecem argumentos ou modelos precisos para o Sul, onde, para muitos, o problema é o subconsumo que traz a pobreza.

De qualquer forma, o questionamento ao crescimento, como adverte o artigo de Mann, contém verdades que não podem ser ignoradas. Em 2022, as economias da Argentina e do Uruguai, por exemplo, apresentaram bom crescimento económico, mas esses indicadores macroeconómicos não se traduziram em melhorias nas condições de vida da maioria. A história latino-americana está repleta de casos semelhantes, em que o crescimento económico beneficia alguns poucos, mas sempre se defende indicando que geraria derramamentos ou gotejamentos que atingiriam o restante da população.

Limites do crescimento
Ao mesmo tempo, fica claro que o crescimento económico perpétuo proposto pelos economistas é impossível. Pelo menos desde a década de 1960, houve alertas sobre os chamados limites do crescimento, tanto sociais quanto ambientais. Os mais evidentes estão no esgotamento dos recursos naturais (por exemplo, as reservas limitadas de minerais ou hidrocarbonetos) ou na incapacidade de lidar com impactos ambientais crescentes (manifestada, por exemplo, nas mudanças climáticas). As economias não podem crescer indefinidamente porque o planeta é finito.

No Uruguai, tais limites já estão diante dos nossos olhos. A agropecuária está limitada às terras disponíveis no país, razão pela qual o aumento da produção passa por uma maior intensidade, o que desencadeia múltiplas alterações sociais e econômicas, enquanto a pressão sobre o solo se multiplica e a água é contaminada. Apesar disso, políticos, empresários e quase toda a academia parecem minimizar ou ignorar esses limites.

Na Colômbia, por outro lado, alguns desses limites são mais prementes. Há quem avalie que as suas reservas exploráveis de hidrocarbonetos têm apenas cinco anos, o que significaria que sua economia não pode mais crescer à custa das receitas do petróleo. Nessas condições, não surpreende que o novo governo use a palavra decrescimento para discutir o futuro da economia nacional.

Mas esses casos mostram que o decrescimento postulado para o Norte rico, como descreve o artigo de Mann, não pode ser transplantado para a América Latina. Impor uma redução geral das economias seria catastrófico. Mas ele consegue nos obrigar a questionar se o crescimento econômico deve ser a questão essencial que deve orientar e organizar uma economia. A resposta é “não”, por vários dos motivos que já foram referidos e outros que todos podemos acrescentar. Parece mais sensato propor para o Uruguai, e outros países da região, um olhar de a-crescimento, no qual o objetivo do crescimento econômico seja deslocado de sua centralidade, e indicadores como o PIB sejam complementados com outros. Uma economia em que haverá setores que necessariamente devem crescer, como a saúde, a educação ou a habitação, e outros que podem permanecer iguais, mas também haverá aqueles que devem diminuir porque expressam opulência e impactos socioambientais intoleráveis.

Não devemos cair nas modas, repetindo a moda do decrescimento porque se popularizou em Paris, Madri e Berlim, mas buscar as nossas próprias soluções ajustadas às nossas urgências e necessidades.

Notas

1. Gustavo Petro no Twitter, 02-09-2022.
2. Ver, por exemplo, La apuesta por el decrecimiento, por S. Latouche, Icaria, Barcelona, 2008.
3. ‘Decrescimento’, por G. Kallis, F. Demaria e G. D’Alisa, em Decrescimento. Vocabulário para um novo mundo. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2016.

Leia mais