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sexta-feira, 15 de maio de 2026

Biofilia- o cordão vital que esquecemos de cortar

Cartaxo-comum ( (Saxicola rubicola)- macho

A nossa existência não é um fenómeno isolado, mas sim um capítulo indissociável da narrativa biológica da Terra. O ser humano, por mais que se cerque de betão e silício, carrega no seu ADN uma herança ancestral que clama pela proximidade com o mundo natural. Esta interdependência é capturada pelo conceito de biofilia - a nossa tendência inata para procurar ligações com a natureza e outras formas de vida. Como afirmou o biólogo Edward O. Wilson, o proeminente impulsionador deste conceito: 
"A nossa existência depende desta propensão, o nosso espírito tece-se a partir dela, e a esperança nela reside." 
Não se trata de um capricho estético ou de uma nostalgia romântica pelo campo; a biofilia é, em última análise, uma estratégia de sobrevivência. Num mundo que idolatra o betão, a luta pelo domínio dos recursos não renováveis e agora a Inteligência Artificial, insistir na nossa interdependência com o mundo natural é frequentemente ridicularizado como um delírio utópico ou um radicalismo fora de horas. No entanto, o verdadeiro irrealismo reside na crença de que podemos prosperar enquanto cortamos os laços com o sistema que nos mantém vivos. Como Edward O. Wilson alertou, a nossa essência está tecida na biodiversidade. Ignorar este vínculo não é apenas um erro filosófico, é um passo em direção à extinção. 

Quando rotulamos de "radical" quem defende a integração da natureza nas cidades ou a prioridade dos ecossistemas sobre o lucro imediato, estamos a sofrer de uma miopia civilizacional. A biofilia relembra-nos que o impacto ambiental não é um "problema lá fora", mas uma ferida no nosso próprio corpo coletivo. Negar esta ligação é como tentar viver num vácuo: podemos ignorar as leis da biologia por algum tempo, mas a conta acaba sempre por chegar. O vínculo essencial com a Terra não é uma escolha ideológica; é a nossa única apólice de seguro.

A metáfora do "cordão umbilical" é fascinante porque, ao contrário de um nascimento biológico onde o corte simboliza a conquista da independência, na biofilia, o corte simboliza a interrupção do fluxo vital. Se cortarmos essa conexão, não nos tornamos independentes da natureza; tornamo-nos biológica e psicologicamente órfãos de um sistema do qual somos apenas uma engrenagem, o que torna a ideia de "cortar o cordão" não uma evolução, mas um erro de cálculo fatal.

O ser humano moderno comporta-se como um adolescente que declara independência dos pais, mas continua a usar o cartão de crédito e a comer a comida deles. O nosso "cartão de crédito" são os recursos finitos do planeta. Não se trata de um luxo ou de um passatempo de fim de semana, mas sim de um imperativo evolutivo. Se essa ligação for definitivamente rompida, enfrentamos uma degenerescência em várias frentes. Psicologicamente, a humanidade já sofre daquilo que os investigadores chamam de "Perturbação de Défice de Natureza", onde a desconexão gera picos de ansiedade e um isolamento existencial que nenhum algoritmo consegue mitigar. Fisicamente, a nossa sobrevivência depende de serviços ecossistémicos que não controlamos, como a polinização e os ciclos de purificação da água. Cortar o cordão seria, na prática, desligar as máquinas que sustentam a nossa sobrevivência no planeta.

Muitas vezes, a civilização moderna age como se o progresso fosse o ato de superar a natureza, mas essa é uma antítese falsa. A verdadeira resiliência da nossa espécie depende da nossa capacidade de integração e não do isolamento em ambientes puramente sintéticos. Tentar viver inteiramente fora da biofilia seria como tentar manter um peixe vivo num copo de leite: a estrutura física está lá, mas o meio é incompatível com a essência da vida. Portanto, a biofilia não é um laço que nos prende ao passado, mas sim a rede de segurança que nos permite ter um futuro. Se a cortarmos, não estaremos a nascer para uma nova era, estaremos a assinar a nossa própria extinção.

Referências bibliográficas

1.Abram, David (1996). The Spell of the Sensuous: Perception and Language in a More-Than-Human World.
Foco: Fenomenologia e Ecopsicologia. Explora como a linguagem e a abstração tecnológica nos desligaram dos sentidos e da perceção direta do mundo vivo.

2.Fromm, Erich (1973). The Anatomy of Human Destructiveness.
Foco: Psicanálise e Ética. Introduz a biofilia como uma orientação psicológica de amor à vida, opondo-a à necrofilia (fascínio pelo mecânico, inorgânico e pela destruição).

3.Kaplan, Stephen (1995). The restorative benefits of nature: Toward an integrative framework. Journal of Environmental Psychology.
Foco: Psicologia Cognitiva. Desenvolve a Teoria da Restauração da Atenção, provando que o contacto com a natureza é essencial para recuperar a fadiga mental causada por ambientes urbanos.

4. Kellert, Stephen R. & Heerwagen, Judith (2008). Biophilic Design: The Theory, Science, and Practice of Bringing Buildings to Life.
Foco: Arquitetura e Urbanismo. Estabelece as bases práticas para reintegrar a natureza nas construções modernas, tentando "curar" a separação entre o betão e a vida.

Kellert, S.R., Wilson, E.O. (Eds.). 1995. The biophilia hypothesis. 
Foco: É a validação científica e filosófica da ideia de que os seres humanos possuem uma necessidade intrínseca de contacto com o resto da vida, explorando as consequências práticas da sua ausência.

5. Louv, Richard (2005). Last Child in the Woods: Saving Our Children from Nature-Deficit Disorder.
Foco: Educação e Sociedade. Analisa as consequências sociais e comportamentais da vida artificial e cunha o termo "Transtorno de Défice de Natureza".

6.Terrapin Bright Green (2014). 14 Patterns of Biophilic Design.
Foco: Design e Sustentabilidade. Define padrões científicos e sensoriais (visuais, auditivos, térmicos) que mantêm o "cordão umbilical" funcional dentro de espaços fechados.

7.Wilson, Edward O. (1984). Biophilia.
Foco: Biologia Evolutiva. A obra que popularizou o conceito, defendendo que a nossa necessidade de natureza está codificada no nosso DNA devido a milhões de anos de evolução.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Estudo revela que a ligação humana com a natureza diminuiu 60% em 200 anos


Estamos a perder a ligação à natureza e talvez nem estejamos a perceber.
Um estudo recente indica que a “ligação à natureza” terá diminuído mais de 60% desde o século XIX. Esta conclusão resulta de um modelo que combinou dados sobre urbanização, perda de biodiversidade e mudanças culturais entre gerações, mostrando uma redução progressiva no contacto direto com o mundo natural.
Curiosamente, a investigação de Miles Richardson, professor da Universidade de Derby, em Inglaterra, aponta também para um reflexo simbólico desta mudança: a presença de palavras relacionadas com a natureza — como “rio”, “musgo” ou “flor” — tem diminuído na literatura ao longo do tempo, sugerindo uma transformação na forma como a natureza ocupa o nosso imaginário coletivo.
Os investigadores descrevem este fenómeno como uma possível “extinção da experiência”: menos contacto quotidiano com ambientes naturais, menos transmissão desse vínculo entre gerações e, consequentemente, uma relação mais distante com a biodiversidade que nos rodeia.
O estudo publicado na revista Earth ainda sugere medidas político-sociais para reverter esta tendência, tal como a introdução das crianças na natureza desde tenra idade e o reflorestamento radical dos ambientes urbanos, as intervenções mais eficazes, por exemplo.

domingo, 30 de novembro de 2025

Creches e contacto com a Natureza - só vantagens


Uma creche na Finlândia revitalizou o seu pátio com elementos naturais e as crianças ficaram mais saudáveis: agora todo país está a replicar o mesmo. As crianças podem evitar doenças e alergias ao longo da vida se tiverem permissão para brincar na natureza. Dezenas de estudos comparativos já haviam constatado que crianças que vivem em áreas rurais e têm contato com a natureza apresentam menor probabilidade de contrair doenças resultantes de distúrbios do sistema imunológico e menor risco de desenvolver doença celíaca, alergias, atopia e até diabetes. O contato repetido com elementos naturais cinco vezes por semana diversifica a microbiota intestinal, oferecendo proteção contra doenças transmitidas pelo sistema imunológico. Cada indivíduo humano é, na verdade, um ambiente em si: um hospedeiro de trilhões de microrganismos, incluindo bactérias, vírus e fungos. Estes, coletivamente, superam as nossas próprias células numa proporção de 4 para 1 e estão emergindo como uma das forças mais influentes, senão a mais importante, na saúde e no funcionamento humanos.

Artigos cientifícos 

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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Professores da Lousada vão ter formação no método Forest School


Vai decorrer na Lousada uma formação dirigida a educadores-de-infância e professores do 1.º ciclo do ensino básico, para que fiquem habilitados a dar aulas ao ar livre. O curso tem a duração de cinco dias (16, 17, 22, 23 e 24 de outubro) e tem uma carga horária de 35 horas, que vão das 09h00 às 17h00.

A formação que irá capacitar para a metodologia ‘Forest School’, está acreditada pelo Centro de Formação do Agrupamento de Escola Sousa Nascente. Esta metodologia baseia-se num conceito, que surgiu na Dinamarca, em 1950, quando Ella Flatau criou um “Jardim Infantil em Movimento”, onde as crianças caminhavam, todos os dias, na floresta.

A metodologia atual aposta em sessões de aprendizagem ao ar livre, permitindo reforçar a ligação das crianças com a natureza, tornando-as resilientes, confiantes, independentes e criativas.

De acordo com o município, há cada vez mais “evidências científicas que provam que a natureza tem um efeito positivo na saúde e no bem-estar físico e psicológico das crianças”, constituindo “um espaço único de experimentação, aprendizagem integral, autónoma e estimulante”.

A formação vai ocorrer na Mata de Vilar, a maior mancha de floresta nativa do concelho e um dos espaços verdes mais emblemáticos de Lousada, e será dinamizada por professores credenciados e com vários anos de experiência.

As inscrições decorrem até ao dia 11 de outubro.

Poderá enviar um e-mail para a autarquia de Lousada para colocar as suas dúvidas: matadevilar@cm-lousada.pt

sábado, 7 de março de 2020

Ligação à natureza torna as crianças mais felizes


A ligação à natureza torna as crianças mais felizes e com comportamentos mais sustentáveis e ecológicos, indica um estudo hoje divulgado na revista "Fronteiras em Psicologia".

O estudo, liderado por Laura Berrera-Hernández, do Instituto Tecnológico de Sonora, México, mostrou pela primeira vez que a ligação com a natureza deixa as crianças mais felizes, pela tendência para comportamentos virados para a ecologia.
Com as alterações climáticas a levarem a um aumento da temperatura média, destruição de habitats e extinção de espécies, investigadores estão a trabalhar na promoção de comportamentos sustentáveis e no desenvolvimento de cuidados ambientais nas crianças, os futuros "guardiões" do planeta.
Os investigadores dizem que o afastamento da natureza, chamado de "transtorno de défice de natureza", pode contribuir para a destruição do planeta, já que é improvável que a falta de ligação com o mundo natural resulte no desejo de proteger esse mundo.
Berrera-Hernández explica que a ligação com a natureza não é apenas apreciar a beleza mas é também entender a inter-relação entre o ser humano e a natureza.
O estudo juntou 296 crianças entre os nove e os 12 anos, de uma cidade do noroeste do México. Todas as crianças se definiram em relação à ligação com a natureza e a comportamentos sustentáveis, e responderam a um questionário.
Os investigadores descobriram que, nas crianças, sentir-se ligado à natureza tinha associações positivas com práticas sustentáveis, e também levou as crianças a falar de níveis mais altos de felicidade.
Investigações anteriores com adultos também sugeriram uma relação entre a ligação com a natureza e o desenvolvimento de comportamentos pró-ambientais e a felicidade derivada desses comportamentos.
Apesar das limitações do estudo, que apenas testou crianças da mesma cidade, os resultados dão informações sobre o poder da psicologia positiva de sustentabilidade em crianças.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

'Deficit de natureza' provoca problemas físicos e mentais em crianças, alerta especialista

Texto e imagem aqui

Saem as brincadeiras no quintal, entram os apartamentos. Saem as praças e parques, entram os prédios. Saem os jogos na rua, entram os tablets e videogames.

Basta um olhar rápido para perceber que nas grandes e médias cidades o contato das crianças com a natureza, em geral, vem diminuindo.

E para o americano Richard Louv, autor do livro A Última Criança na Natureza, essa constatação nada tem a ver com um saudosismo barato. Mas, sim, com os impactos negativos causados pelo o que ele chama de Transtorno de Deficit de Natureza.

Em visita a São Paulo para o lançamento de seu livro, Louv contou à BBC Brasil que ele começou a se interessar pelo tema no início dos anos 90, quando fazia pesquisas para seu livro Childhood's Future ("O Futuro da Infância", em tradução livre).

"Entrevistei mais de 3 mil pais e professores. Queria saber deles sobre como o cenário da infância estava mudando. E uma constante nos depoimentos foram pais reclamando de que não conseguiam tirar seus filhos de casa. Mesmo se morassem perto de áreas verdes ", disse.

"Na época, não haviam estudos sobre a aflição desses pais. Somente há menos de 10 anos surgiram as primeiras pesquisas sobre isso - e todas apontam para a mesma direção: a falta de contato das crianças com a natureza causa problemas físicos, como a obesidade, e mentais, como depressão, hiperatividade e deficit de atenção."

Louv, no entanto, vai além do cenário triste que pinta para as crianças dos dias atuais: ele também aponta medidas simples que pais, educadores, médicos e o poder público podem adotar para evitar o "deficit de natureza" até mesmo em grandes metrópoles. Confira os principais trechos da conversa:

BBC Brasil - Ainda há esperança para as crianças que vivem em cidades como São Paulo ou outras do estilo "selva de pedra"?

Richard Louv - (Risos). Sim, é claro que há esperança! Vi experiências muito interessantes em cidades na China e também em Atlanta, Chicago e em outras metrópoles americanas que podem ser comparadas com as brasileiras.
São escolas e associações que estão usando hortinhas, caminhadas em bosques e outras soluções simples para combater uma série de novos problemas que atingem muitas das crianças de hoje, por estarem tão afastadas da natureza.

BBC Brasil - Quais exatamente são esses novos problemas? São físicos ou mentais?

Richard - Os dois. Na parte física temos, por exemplo, a obesidade infantil, que hoje é epidemia em vários países mundo afora, inclusive, até onde eu sei, no Brasil. (47% das crianças brasileiras têm excesso de peso ou são obesas).
As crianças hoje passam menos horas ao ar livre e, consequentemente, mais tempo confinadas em casa, vendo TV ou jogando videogame. Essa é uma das grandes causas da obesidade infantil. Meninos e meninas que ficam na frente de telinhas são menos ativos do que os que correm no parque, sobem em árvores...

BBC Brasil - E os transtornos psicológicos?

Richard - São muitos e são novos. Porque até a poucos anos atrás, era raro os pediatras atenderem crianças bem novas com sintomas de depressão. Também posso citar transtorno de deficit de atenção e hiperatividade (TDAH), além de problemas cognitivos.

BBC Brasil - Como a natureza pode amenizar esses problemas?

Richard - Hoje, há muitos estudos mostrando que o contato com a natureza - ainda que pequeno e por pouco tempo - pode reduzir os sintomas desses distúrbios.
Uma pesquisa de um grupo na Universidade de Chicago que estuda distúrbios de atenção entre crianças comprovou que meninos e meninas de 5 anos tiveram uma melhora significativa com caminhadas curtas em parques.
Pesquisadores da Universidade de Essex também mostraram impactos psicológicos mensuráveis em adultos depois de apenas cinco minutos andando entre árvores. Porque adultos, obviamente, também se beneficiam do contato com a natureza.

BBC Brasil - Você acha que conviver com a natureza é mais eficiente do que receitar remédios?

Richard - Veja, não estou dizendo que remédios como a Ritalina (usado para o tratamento de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, por exemplo) são ruins. Eles podem ser muito úteis para alguns casos.
Mas quando há escolas nos EUA em que 30% dos meninos tomam Ritalina, sabemos que algo não está certo. E os pediatras sabem disso. (O Brasil é o segundo maior consumidor do medicamento no mundo, com cerca de 2 milhões de caixas vendidas em 2010 - um aumento de 775% na última década, segundo a Anvisa.)

BBC Brasil - Sabem mesmo?

Richard - Acredito que muitos estão passando a se dar conta disso. E vejo cada vez mais profissionais começando a prescrever "brincar no parque". Prescrever mesmo, por escrito.
Em algumas partes dos EUA, por exemplo, associações de médicos começaram a usar dados com mapeamento das áreas verdes de suas cidades. Assim, dizem para os pais "tem um bosque a duas quadras da sua casa, portanto não há desculpas para não levar seu filho lá duas vezes por semana."

BBC Brasil - E o que exatamente acontece com essas crianças que são taxadas, corretamente ou não, de hiperativas quando elas passam mais tempo em áreas verdes?

Richard - Essa mudança costuma ser visível e rápida. Vou dar um bom exemplo. Recebo muitos comentários de professores que passaram a incluir mais passeios ao ar livre em suas turmas.
E, juro, perdi a conta de quantos professores me falaram exatamente a mesma coisa, com praticamente as mesmas palavras: "Richard, é impressionante. Meu aluno que é encrenqueiro na classe se transforma no líder quando estamos no parque". E o que estamos fazendo com essas crianças? Dando Ritalina.

BBC Brasil - Isso também mostra como o papel da escola é importante, não?

Richard - Com certeza. Eu diria inclusive que, em grandes cidades, as escolas devem liderar o caminho de resgate do convívio das crianças com a natureza, já que as áreas verdes são poucas e a vida dos pais é corrida.
E há estudos mostrando que uma educação baseada no meio ambiente melhora o aprendizado não somente em áreas ligadas à ciências da terra, por exemplo, mas também em idiomas, matemática, história.

BBC Brasil - Mas como isso acontece?

Richard - Há muitos exemplos. São alunos aprendendo a somar ou dividir na beira de lagos. São escolas que exploram as áreas verdes não só em suas dependências, mas também no bairro.
Há dados impressionantes mostrando como alunos de escolas baseadas no meio ambiente se saem melhor em testes tradicionais e também desenvolvem melhor a capacidade de ter um pensamento crítico, de solucionar problemas, de tomar decisões, entre outras características cognitivas.

BBC Brasil - E esses impactos positivos se dão sempre que a criança tem mais contato com a natureza, seja na escola ou não?

Richard - Exato. Pegue os exemplos dos parquinhos. Há dois tipos: os com brinquedos estruturados (escorregador, balanço, etc) e os chamados "playgrounds de aventuras", em que em vez dos pisos de cimentos, temos terra, areia, grama; e não tem brinquedos prontos, e sim tocos de madeiras, morros e afins.
Pesquisas mostraram que crianças brincando nesse playground natural tinham uma propensão muito maior de inventar seus próprios jogos, de convidar outras crianças para a brincadeira, inclusive crianças de outras idades e outros gêneros, e de brincar de uma maneira mais cooperativa.
É isso que a natureza proporciona para as crianças.

BBC Brasil - Você cita muita crianças pequenas. Para uma mais velha, com 10 ou 11 anos por exemplo, é tarde demais para reconquistar esse convívio com o ambiente natural?

Richard - De jeito nenhum. Nunca é tarde demais. É claro que o ideal seria começar isso desde de bebê até os 3 anos. Mas o nosso cérebro tem o que se chama de plasticidade. E graças a ela abrem-se janelas para mudar o caminhos neurológicos que usamos para aprender ou perceber coisas novas em qualquer idade.

BBC Brasil - A poucas quadras daqui, há uma área (na Rua Augusta, centro de São Paulo) que virou alvo de disputa e que pode tanto virar um grande empreendimento imobiliário como um parque municipal. Certamente há disputas assim em todas as grandes cidades do mundo. Como o sr. se posiciona diante dessas situações?

Richard - É preciso ter uma visão pragmática. Por isso eu diria que o prefeito precisa colocar na ponta do lápis. Quanto a cidade gasta com saúde pública, com problemas como síndromes respiratórias, sedentarismo e saúde mental? Uma área verde no meio da cidade pode ajudar nisso.
Outro ponto: já está mais que provado que quando há um parque natural em uma determinada área, todo o entorno é valorizado, elevando o valor de mercado das propriedades ao redor. Isso também precisa entrar na conta. Aliás, a gestão municipal pode fazer muita diferença.

BBC Brasil - Por quê?

Richard - Eu queria lançar um desafio para o prefeito de São Paulo, como eu fiz na China. A cidade tem metas de ser uma cidade rica em áreas verdes? Isso pode entrar no marketing da cidade, para atrair grandes empresas, por exemplo.
Quais as metas de São Paulo ou de outras cidades no Brasil para ter mais parques, áreas de caminhada, playgrounds naturais, trilhas?

BBC Brasil - O sr. acha que isso hoje não é encarado como prioridade?

Richard - Bem longe disso. Um parque é encarado como uma coisa a mais para se ter, algo extra, um mimo. Enquanto pensarmos assim, nada vai mudar.
Porque a verdade é que uma área verde não é algo legal para se ter, é algo do qual todos precisam. É parte da nossa humanidade ter contato com a natureza, é parte dos direitos humanos básicos, como muitos órgãos internacionais já reconheceram. Por isso não pode ser negado pelas autoridades.

BBC Brasil - Além das autoridades e das escolas, qual o papel dos pais nessa retomada de contato das crianças com a natureza?

Richard - Como em tudo, os pais precisam ser exemplos. Precisam também usufruir da natureza - mesmo porque isso é benéfico para todas as idades. Precisam proporcionar passeios ao ar livre para as crianças, mostrar a importância desse contato...

BBC Brasil - Mas será que os pais que vivem dias corridos nas cidades dão conta disso também?

Richard - É importante é deixar claro que não é preciso ir acampar toda a semana, fazer trilhas na mata todo dia. O convívio com a natureza se dá também em atos simples, compatíveis com o dia a dia corrido das famílias atuais.
É ter uma hortinha em casa ou até na varanda do apartamento, é aproveitar áreas ao ar livre como quadras esportivas, quando não houver um super parque perto de casa. E até mesmo ler Tom Sawyer ou outros livros que despertem o encantamento das crianças com a natureza.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Assim têm de ser as escolas no século XXI


A educação dos nossos filhos deve ser uma componente importante do seu desenvolvimento que temos de valorizar. No momento de pensar no modelo de educação mais apropriado há que ter em conta a influência da zona envolvente que o rodeia. Há escolas que romperam com o ensino tradicional e exploraram também a alteração do design dos espaços educativos.

Como são as escolas do século XXI? Esta é uma pergunta de resposta difícil, mas numa era em que a educação “navega” por lugares nunca antes explorados, e sabendo que muitas crianças podem aceder pela primeira vez ao ensino escolar, há a ideia de que se está a tentar acabar com o sistema clássico de um ensino rígido e unidirecional. Isto para dizer que a arquitetura também ajuda ao desenvolvimento da educação com a criação de projetos com design de novas escolas.

Nesta reportagem mostramos alguns exemplos de como podem vir a ser as escolas do século XXI; amplas, arejadas, alunos não abrigados em salas de aula e luminosas… com muito espaço para que os jovens estudantes expressem as suas emoções e estimulem o seu desejo de aprender.