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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro


Com os preços atuais do biometano ainda não é possível descarbonizar a indústria. Esta foi uma conclusão transversal aos dois debates que decorreram hoje na Feira Nacional de Agricultura, promovidos pela Floene e a que o Expresso se juntou como media partner.

Portugal depende quase exclusivamente de gás importado e, a este nível, tem sido um dos países da Europa mais afetado pela subida generalizada de preços, resultante da guerra na Ucrânia. Contudo, uma das soluções pode estar no biometano, capaz de somar vantagens como a descarbonização, a competitividade industrial e a valorização territorial. No debate desta manhã na Feira Nacional de Agricultura (FNA), em que o tema foi ‘o biometano enquanto solução ambiental’, os vários participantes foram unânimes no diagnóstico de que o país tem potencial na produção desta energia renovável, mas continua longe de conseguir transformá-lo em escala.

Quando questionado sobre se o país está a aproveitar o seu potencial agropecuário, António Farracho não hesitou em garantir que “a resposta óbvia é que não”. O fundador e CEO da Prado Energia recorda que o biometano permite transformar “um passivo ambiental que não está a ser aproveitado, em ativo energético”, sobretudo em territórios rurais onde os odores e riscos sanitários associados aos efluentes são uma preocupação constante.

Contudo, e como referiu Nuno Pinto, o biometano é antes de tudo um caminho de qualificação territorial, o que significa que “os projetos têm de ser transparentes, sem segredos, e envolver todos os envolvidos, até as populações”. Ou seja, o responsável pela área do biometano na REGA Energy alertou para a importância da aceitação, que dependerá sempre da forma como se comunica e como se escolhem os locais, e lembrou que, no contexto europeu, o gás renovável é já um pilar estratégico. “O biometano é um dos fatores essenciais da soberania energética europeia”.

Do lado da comercialização, Óscar Delfim, diretor comercial B2B da Goldenergy, destacou a vantagem imediata para as empresas. “As empresas conseguem descarbonizar rapidamente e sem necessidade de investir nos equipamentos”. Mas alerta para aquele que considera o principal desafio: “Há uma grande dificuldade na parte dos licenciamentos”.

Já na perspetiva da indústria cerâmica, altamente exposta ao custo do gás, o biometano “é uma solução técnica já madura”. Paulo Pires, vice‑presidente da APICER (Associação Portuguesa Indústria Cerâmica), não tem dúvidas de que seria possível “substituir a 100% o gás natural por biometano”. Mas, à data de hoje, identifica o preço “incomportável para a indústria” e a falta de oferta como os grandes travões à descarbonização. “Todos gostamos do ambiente, mas o ambiente sai muito caro”, acrescentou Nuno Pinto.

Miguel Faria reforçou que o país está atrasado na política de resíduos e que isso limita a matéria‑prima disponível, lembrando que o biofertilizante resultante do processo “já permite substituir metade do fertilizante que vem da Rússia ou do que passa pelo Estreito de Ormuz”. Para o COO (Chief Operating Officer) da Floene, o desafio é “dar velocidade à implementação dos projetos”.

Mix perfeito não existe
Quando falamos de mix energético, Portugal não pode substituir uma dependência por outra, nem avançar para soluções simplistas num sistema que continua estruturalmente ancorado em combustíveis fósseis. A opinião é de Nuno Ribeiro da Silva, que abriu o debate da tarde no espaço Floene, na Feira Nacional de Agricultura, e que defendeu também que a transição energética não é um exercício tecnológico, mas um teste económico e geopolítico à resiliência dos países. Como lembrou o ex-presidente da Endesa, “quando dizemos que produzimos 80% da energia com fontes renováveis, falamos apenas da eletricidade, que representa menos de um quarto do total da energia consumida no país. O resto continua a ser petróleo e gás”.

Neste contexto, defendeu ainda Nuno Ribeiro da Silva, o gás, e sobretudo o biometano, permanece “a geração menos agressiva do ponto de vista ambiental”, sendo por isso inevitável no equilíbrio do sistema.

Do lado regulatório, Mário Paulo rejeitou a ideia de que a ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) trava a transição. “A ERSE não faz leis”, sublinhou, lembrando que o regulador atua dentro das políticas definidas e que “acabar com o gás em dois ou três dias é uma fantasia tecnicamente impossível”. A Europa, acrescentou o presidente da ERSE, já reviu a sua posição e admite que o gás continuará a representar “cerca de 20% do mix energético em 2040”.

Gabriel Sousa, CEO da Floene, destacou que Portugal pode acelerar a adoção de biometano aprendendo com quem começou mais cedo. “Não é sempre mau sermos os últimos”, afirmou. França, Itália e Dinamarca mostram que o crescimento depende de mecanismos estáveis e de uma articulação entre energia, agricultura e resíduos. “Portugal vai precisar dos dois sectores”, defendeu, sublinhando que o país pode fazer “em três anos o que outros demoraram quinze a fazer”.

Nuno Ribeiro da Silva reforçou ainda que as tecnologias emergentes precisam de apoio, tal como aconteceu com a eólica e o solar. “Se fosse puramente o mercado, só as tecnologias incumbentes existiam”, disse, defendendo que o biometano representa uma oportunidade industrial acessível e integrável na economia nacional.

Outras conclusões:
  1. O potencial agropecuário português continua largamente por explorar, apesar de estar mapeado e quantificado. “O Concelho de Torres Vedras figura no Top 10 dos concelhos com maior produção de efluentes agropecuários”, exemplificou António Farracho.
  2. A aceitação social dos projetos depende da forma como são apresentados às comunidades. “Quando se chega a um território e se apresenta um projeto há sempre um fator de rejeição natural”, afirmou Nuno Pinto.
  3. Para Óscar Delfim, a produção nacional de biometano pode reduzir a exposição do país às flutuações internacionais do preço do gás. “Não estaremos sujeitos às acelerações de preços que têm sido fruto dos conflitos”.
  4. A indústria cerâmica enfrenta um risco real de perda de competitividade se não houver acesso a gás renovável a preços viáveis. “O problema que temos é um fator de competitividade”, alertou Paulo Pires.
  5. “A classificação dos resíduos como subprodutos é um passo essensial para desbloquear matéria‑prima para o biometano”, sublinhou Miguel Faria.
  6. A evolução do sistema energético não pode assentar em ilusões de substituição instantânea: exige convivência prolongada entre múltiplas fontes e uma gestão realista das limitações técnicas. “Neste processo de transição energética, temos de dar tudo para conseguir libertar‑nos deste uso que ainda fazemos do petróleo e do gás natural”, disse Nuno Ribeiro da Silva.
  7. “A regulação acompanha, mas não inventa políticas”, garantiu Mário Paulo. O regulador sublinha que o país precisa de soluções compatíveis com a sua estrutura industrial e que a transição não pode ignorar a história e o ritmo dos sistemas energéticos.
  8. Gabriel Sousa alertou que o biometano só avança se unir sectores que nunca trabalharam juntos. “Juntar energia, agricultura, resíduos, economia e indústria não é fácil, mas parece‑me absolutamente indispensável”.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Trocar uma crise por outra? Preço do petróleo pode aumentar em 70% a procura global por biocombustíveis até 2030


A atual procura por matérias-primas para produção de biocombustíveis para escapar aos impactos da subida dos preços do petróleo pode vir a fazer disparar o consumo desses combustíveis de baixo carbono.

Um estudo da organização Transport & Environment (T&E) prevê um aumento de até 30% do consumo de biocombustíveis a nível global ainda este ano, e que poderá chegar aos 70% em 2030. Os especialistas temem que esse aumento acentuado da procura por biocombustíveis faça subir ainda mais os preços dos alimentos, levando-os para novos máximos.

Apelando aos governos para não trocarem “uma crise dos combustíveis por uma crise alimentar”, a T&E diz que, um pouco por todo o mundo, os preços de vários produtos alimentares, especialmente dos óleos vegetais, uma das principais matérias-primas do biodiesel, estão a subir há três meses consecutivos. Os analistas desta organização não-governamental referem que esse é um padrão já visto em 2022, altura da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Com os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irão, e com a crise no Médio Oriente daí resultante, os preços dos combustíveis fósseis atingiram máximos históricos, o que levou vários governos, como o norte-americano, o tailandês e o indonésio, a definirem novas metas de incorporação de biocombustíveis nos combustíveis fósseis para tentarem amortecer os impactos da subida de preços do petróleo.

Ao mesmo tempo, grandes potências exportadoras, como o Brasil e a Indonésia, têm limitado a quantidade de matérias-primas para biocombustíveis que vendem para outros mercados.

“Os governos estão a correr riscos ao promoverem a conversão de alimentos em combustível”, avisa Kädi Ristkok, diretor das áreas de energia e clima na T&E. “Compreensivelmente, os líderes estão a tentar encontrar soluções para a atual crise do petróleo, mas os biocombustíveis jamais poderão desempenhar um papel mais do que marginal nos nossos sistemas energéticos sem consequências devastadoras”, salienta.

Para o responsável, “os impactos indesejados nos preços dos alimentos e no ambiente são enormes” e argumenta que “em vez de alimentarem os carros, os governos devem apostar em opções mais sustentáveis, como a eletrificação”.

A guerra no Médio Oriente levou também a uma escassez de fertilizantes de escala mundial, pressionado os sistemas de produção agroalimentar e refletindo-se nos preços dos produtos. Por isso, a T&E considera que a corrida aos biocombustíveis poderá esgotar rapidamente as reservas globais de produtos alimentares.

Os biocombustíveis já consomem 5 % dos fertilizantes mundiais para produzir apenas 4 % dos combustíveis para transportes a nível global, diz a organização, que alerta que qualquer aumento na produção dos biocombustíveis exerceria “ainda mais pressão sobre um mercado que tem sido fortemente afetado pelo bloqueio no Estreito de Ormuz”.

Os analistas da T&E acreditam que não é possível aumentar a produção de biocombustíveis sem entrar em concorrência direta com a produção alimentar, e estimam que se os esses combustíveis passassem a representar 20% da composição dos combustíveis usados nas estradas por todo o mundo, como países como a Indonésia e o Brasil propõem, seriam precisos mais 130 milhões de hectares de terras para consegui-lo.

Isso, apontam, resultaria no agravamento da perda de ecossistemas e de florestas, e em mais emissões de gases com efeito de estufa do que as libertadas pelos combustíveis fósseis que se pretende substituir por biocombustíveis.

“A escassez mundial de fertilizantes ameaça pôr em risco a segurança alimentar global. Enquanto os governos procuram formas de armazenar fertilizantes, ninguém fala dos biocombustíveis. Quanto mais cultura queimarmos, de mais fertilizantes precisaremos. Os governos têm de dar prioridade aos alimentos em vez de aos combustíveis”, defende Kädi Ristkok.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Segurança energética: soluções para os desafios atuais


A energia é fundamental no nosso quotidiano, permitindo o funcionamento da sociedade e da economia. Mas o acesso à energia não é algo garantido.

A Europa tem reduzido a sua dependência dos combustíveis fósseis russos desde a invasão em grande escala da Rússia na Ucrânia em 2022, estando agora a tratar de a eliminar completamente. Outros desafios incluem a transição progressiva para as fontes de energia renovável e a necessidade de conectar e proteger as infraestruturas energéticas.

Reduzir a dependência energética, principalmente da Rússia
Em 2025, a UE ainda importa 60% da sua energia, incluindo 90% do seu gás e 97% do seu petróleo, bem como combustível nuclear. Uma situação que pode vir a implicar riscos de interrupções no abastecimento e pressão externa, especialmente por parte da Rússia.

É por isso que a UE está a esforçar-se para retirar os combustíveis fósseis russos do seu cabaz energético. Uma nova lei aprovada pelo Parlamento em dezembro de 2025 proíbe as compras de gás natural liquefeito russo para entrega imediata na UE e será diretamente aplicável assim que o regulamento entrar em vigor no início de 2026, enquanto as importações de gás por dutos deverão ser progressivamente eliminadas até 30 de setembro de 2027.

Durante as negociações com o Conselho, o Parlamento também garantiu um compromisso da Comissão Europeia de apresentar legislação no início de 2026 para proibir todas as importações de petróleo russo, de modo a que uma proibição efetiva possa entrar em vigor antes do final de 2027.

As importações de gás da Rússia (gás canalizado e gás natural liquefeito combinados) diminuíram de mais de 40% do total das importações da UE em 2021 para menos de 19% em 2024. Estas importações foram substituídas por fornecimentos provenientes de fontes mais fiáveis, por energia produzida internamente, ou tornaram-se desnecessárias devido à redução do consumo. A quota das importações de petróleo russo também encolheu de 27% no início de 2022 para 3% em 2024.

Aumentar a energia renovável gerada na UE
Desde 2014, o uso da energia eólica quase duplicou e o da energia solar mais do que triplicou na UE. As renováveis forneceram 45% da eletricidade consumida no bloco em 2023.

No entanto, problemas na rede elétrica levaram ao desperdício de 12 terawatts-hora de energia renovável (o equivalente ao consumo médio de eletricidade de aproximadamente 3,3 milhões de famílias da UE durante um ano). É por isso que os eurodeputados insistem no aumento dos investimentos para expandir e modernizar as redes elétricas.

O Parlamento pede também apoio a tecnologias emergentes, como a energia geotérmica e o biometano.
A UE tem como objetivo atingir uma quota de energia renovável de pelo menos 42,5% no consumo total de energia até 2030. O Parlamento apelou a uma cooperação mais estreita e a uma implementação mais rápida dos projetos renováveis para cumprir estas metas.

Melhorar a eficiência energética
Poupar energia é uma das melhores formas de reduzir a dependência de abastecimentos energéticos externos. A resolução do Parlamento salientou que a procura de energia na UE caiu 20% entre 2006 e 2023, graças aos esforços de eficiência.

No entanto, o consumo energético proveniente de centros de dados e tecnologias digitais aumentou de forma acentuada. O Parlamento apelou a políticas mais claras e apoio para reduzir este crescimento. Também pediu melhores medidas de poupança de energia em casas e indústrias para diminuir a procura e evitar sobrecargas na rede.

Prevenir falhas no abastecimento de energia
A resolução alertou que, se não houver energia de reserva suficiente, picos súbitos na procura ou interrupções no fornecimento poderão causar grandes apagões e prejudicar a economia.

O Parlamento referiu que poderá ser necessária uma capacidade extra de 100 GW até 2035 para garantir fiabilidade, segurança energética e redução de custos, e ressaltou que esta capacidade deverá provir de fontes energéticas diversificadas.

Proteger a infraestrutura energética contra ataques
O Parlamento manifestou preocupação com o aumento dos ciberataques e dos incidentes de sabotagem física que ameaçam a infraestrutura energética, especialmente as linhas transfronteiriças, cabos submarinos e ligações a parques eólicos offshore.

Foi pedido um reforço da proteção e uma cooperação mais estreita entre os países da UE, a Comissão Europeia e as agências da UE. As autoridades devem também trabalhar em conjunto com as empresas privadas para garantir o fornecimento de eletricidade e apoiar a segurança nacional.

A resolução destacou a necessidade de controlos obrigatórios de cibersegurança em pequenos dispositivos energéticos ligados à internet, pois podem ser vulneráveis a ciberataques.

Reforçar a solidariedade entre os países da UE
O Parlamento sublinhou que a segurança energética exige solidariedade, pois ações nacionais unilaterais podem desestabilizar o sistema mais amplo. Com base nisso, apelou aos países da UE para coordenarem projetos de infraestruturas e respostas a emergências.


Armazenar gás suficiente para enfrentar interrupções
Em julho de 2025, o Parlamento aprovou também um regulamento sobre o armazenamento flexível de gás, que visa garantir que os países da UE armazenem gás a preços acessíveis para cobrir períodos frios ou interrupções no abastecimento.

A legislação foi inicialmente adotada em 2022, na sequência da invasão em grande escala da Rússia na Ucrânia, em meio a preocupações de que a Rússia poderia usar o fornecimento de gás como instrumento de pressão sobre a UE.

As alterações de 2025 na legislação introduzem maior flexibilidade na forma como os países da UE podem cumprir as regras. Em vez de terem que atingir uma meta de enchimento dos armazéns de gás de 90% até 1 de novembro de cada ano, os países podem atingir o mesmo objetivo de 90% em qualquer momento entre 1 de outubro e 1 de dezembro. Isto deverá resultar em menos especulação e preços mais baixos nos mercados do gás.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Energia: Portugal e a Europa estão a ficar perigosamente dependentes da China



País mais poluidor do planeta controla 80 a 90% das matérias-primas indispensáveis às baterias dos carros elétricos, turbinas eólicas e painéis solares

"A dependência de matérias-primas críticas poderá em breve substituir a presente dependência do petróleo". Este sério aviso está escrito no relatório final da Comissão Europeia relativo ao 'Estudo das matérias-primas críticas para a União Europeia', publicado em 2023. A nova dependência levanta questões da maior gravidade. Para começar, põe em causa o modelo - e, sobretudo, o ritmo de aplicação - das políticas de transição energética. No limite, no futuro próximo, ameaça a segurança do abastecimento energético à Europa para satisfazer as necessidades correntes das famílias e das empresas, com destaque para as industriais.

O assunto ainda não é discutido em Portugal, que continua a ser pioneiro na implementação das políticas comunitárias de transição energética sem qualquer ponderação daqueles riscos. João Bernardo, que foi diretor-geral de Energia e Geologia entre 2018 e 2023, lança o debate em entrevista à CNN Portugal. “Esta transição energética está a ser demasiado brusca, porque as renováveis dependem de um conjunto de materiais críticos - indispensáveis à construção de baterias, carros elétricos, torres eólicas e painéis solares - controlados por países que têm praticamente o monopólio do seu processamento”, alerta o agora presidente do Centro de Biomassa para a Energia (CBE).

O lítio é a matéria-prima mais popular, devido à massificação dos telemóveis. No entanto, eletrodomésticos, veículos elétricos e tecnologias para a digitalização, dependem de dezenas de outros minérios, em muitos casos raros ou concentrados em áreas geográficas politicamente instáveis. Passa-se o mesmo com as centrais eólicas e solares, já hoje predominantes na produção de eletricidade em Portugal. A OCDE prevê que a procura global por esses materiais críticos mais do que duplique, dos 79 mil milhões de toneladas, em 2023, para 167 mil milhões de toneladas em 2060. “A competição por matérias-primas tornar-se-á feroz na próxima década”, antecipa o relatório da Comissão Europeia.

“Já é evidente um descompasso entre a oferta e a procura por vários minerais, com níveis particularmente altos observados para o lítio”, descreve o relatório “Geopolítica da Transição Energética”, da Agência Internacional para as Energias Renováveis (IRENA). Esta organização declara-se preocupada com o impacto que este desequilíbrio poderá vir a ter no cumprimento das metas de transição energética.

A Agência Internacional de Energia (AIE) antecipa problemas de curto prazo no fornecimento de níquel e de terras raras como o neodímio e o disprósio. O próprio lítio, no médio prazo, será insuficiente para as encomendas. “Um enorme aumento na procura de matérias-primas críticas - na maioria dos casos bem acima do ritmo histórico - levanta questões sobre se essa demanda pode ser satisfeita de forma segura”, previne a AIE. Para além disso, adverte os decisores políticos para “as consequências ambientais e sociais associadas à produção mineral”. As populações do mundo desenvolvido reagem mal à exploração mineira ao pé da porta.

O Conselho Europeu aprovou em 18 de março o Regulamento Europeu das Matérias-Primas Críticas, com o propósito assumido de controlar, até 2030, a origem de 10% e o processamento de 40%. Este ato legislativo constitui a primeira tentativa concreta de mitigar os riscos de interrupção das cadeias de abastecimento. Provavelmente, chegou tarde demais. “Dado que países como a China, os Estados Unidos e mesmo a Rússia já se posicionaram estrategicamente nesta corrida há algum tempo, tanto no continente Africano, como na América do Sul ou na Ásia Central, parece-me muito difícil alcançar essas metas”, adverte João Bernardo.

Partido Comunista Chinês tem o telecomando da Europa na mão
De acordo com os dados da IRENA, a China tem uma quota de processamento, a nível mundial, de 100% de grafite; superior a 85% nas terras raras; mais de 70% do cobalto; e cerca de 60% do lítio e do manganésio. Todos estes materiais, juntamente com o níquel, são indispensáveis ao fabrico dos motores dos carros e autocarros elétricos. Problemas nas cadeias de fornecimento destas matérias-primas chinesas colocariam em risco o modelo de transportes públicos que está a ser implementado em Portugal e na Europa.

Um sistema elétrico dependente da primeira geração de energias renováveis é o segundo elo fraco dos países europeus face ao gigante asiático. A China processa também 100% de algumas terras raras, como o disprósio. Para além de fazer falta aos motores dos veículos elétricos, esta matéria-prima é vital para as turbinas eólicas de alta eficiência, assim como nas barras de controlo dos reatores nucleares. Já o manganês é crucial na produção de aço de alta resistência, imprescindível ao funcionamento de turbinas eólicas e ao fabrico das infraestruturas dos parques solares.

A China é, de longe, o país mais poluidor do mundo, com 31,58% das emissões de dióxido de carbono do planeta. Os dados do Atlas Global do Carbono mostram que o gigante asiático se destaca no ranking dos países responsáveis pela concentração de CO2 na atmosfera. Os outros quatro são Estados Unidos (14,01%), Índia (7,84%), Rússia (4,58%) e Japão (2,92%). Nos últimos três anos, a China abriu cerca de quarenta centrais a carvão, aumentando a potência instalada em 91 gigawatts (GW), em 2022; outros 107 GW, em 2023; e mais 10 GW nos primeiros seis meses deste ano.

As novas centrais a carvão chinesas equivalem a nove vezes a potência instalada em todo o sistema elétrico português. “A China continua a utilizar as energias fósseis para manter preços baratos para a sua economia e garantir a segurança de abastecimento do seu sistema energético”, salienta João Bernardo. O antigo diretor-geral de Energia chama também a atenção para o investimento do maior país asiático na investigação e desenvolvimento de tecnologias alternativas e descarbonizadas. “O governo chinês está a tentar dominar as energias renováveis do ponto de vista tecnológico e da inovação, atraindo conhecimento, para quando tiver de fazer mesmo a mudança já estar a liderar este mercado”, comenta. A empresa estatal China Three Gorges, que é a maior acionista da portuguesa EDP, acaba de anunciar um investimento de 11 mil milhões de dólares no deserto do interior do país, combinando as tecnologias eólica, solar e… o carvão.

O governo chinês ignora por completo os protestos de organizações ambientalistas, como a Greenpeace, e justifica a sua política nos fóruns internacionais com o argumento de que as energias fósseis são mais fiáveis do que as renováveis, por oferecerem ao sistema elétrico potência firme, sempre que ela é necessária, independentemente das condições meteorológicas. Pela mesma razão, anunciou este verão a decisão de construir onze novos reatores nucleares, num investimento de 28 mil milhões de euros.
O risco da morte anunciada do gás natural

Os Estados Unidos, segundo maior emissor de CO2 do mundo, seguem igual política de investimento em tecnologias alternativas, mas sem descontinuar abruptamente as fontes tradicionais, como a energia nuclear e as centrais termoelétricas movidas a combustíveis fósseis. O governo federal americano reservou 342 mil milhões de euros de subsídios e descontos fiscais para financiar a deslocalização de empresas de energias verdes da Europa para o seu território. “Isto está a roubar competências e postos de trabalho na Europa e a criá-los do lado de lá”, lamenta João Bernardo. Se a União Europeia não responder com “mecanismos mais assertivos para apoiar as empresas, fixando cá o trabalho e a riqueza, vamos perder a batalha da competitividade à escala mundial”, antecipa o presidente do CBE.

Em Portugal, os planos de transição energética passam pelo encerramento do gás natural, para produção elétrica e no uso doméstico e industrial. “Se isso acontecer, será um erro grave. Eu sempre defendi, enquanto fui diretor-geral, a importância de mantermos dois vetores de energia: um vetor gás e um vetor eletricidade. Duas redes e duas infraestruturas, para não ficarmos dependentes de um único vetor energético”, argumenta João Bernardo.

Para o presidente do CBE, o fim da rede de gás natural seria acrescentar uma segunda vulnerabilidade estrutural à economia, por cima da dependência de matérias-primas raras. “Temos de ter muito cuidado antes de cancelar algumas energias, mesmo fósseis, para não nos lançarmos numa aventura que não sabemos onde vai terminar”, recomenda João Bernardo. “O gás natural é crítico para a segurança de abastecimento e um veículo para a introdução dos gases renováveis, como o hidrogénio e o biometano”, justifica este especialista.

Para além de aconselhar prudência no encerramento de fontes energéticas, João Bernardo elege as áreas de investimento que lhe parecem críticas para a União Europeia. A primeira delas passa pelo aproveitamento dos processos de dessalinização. “A água potável vai ser um recurso cada vez mais crítico, esse investimento vai ter de acontecer”, antecipa. A água da dessalinização é essencial para a agricultura, mas também pode ser aproveitada para a produção de hidrogénio. “Nesta tecnologia não ficaremos tão dependentes de matérias críticas como estamos nas renováveis eólica e solar, porque a água é um bem mais democrático e a tecnologia dos eletrolisadores é dominada pela Europa”, argumenta.

O hidrogénio deverá depois ser aproveitado para a produção de combustíveis sintéticos. O presidente do CBE considera este investimento estratégico por duas razões: o aproveitamento da rede existente de postos de combustível e a defesa da indústria automóvel europeia da feroz concorrência dos carros elétricos produzidos na China.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

ZERO defende Condomínios Industriais enquanto pilar da Estratégia Industrial Verde em Portugal


Estratégia Industrial Verde é peça essencial na transição energética, mas ZERO alerta para enorme atraso
A ZERO alerta que Portugal está sem Estratégia Industrial Verde, um documento fundamental numa altura em que o país precisa de um enquadramento estratégico para a indústria no processo de transição energética, sob pena de comprometer a sua competitividade internacional e de a deixar impreparada para um futuro compatível com o ambiente, os direitos sociais e o clima. Com o objetivo de contribuir para este documento e de impulsionar a sua elaboração, a ZERO reuniu com o gabinete do Secretário de Estado da Economia e apresentou um conjunto de elementos e recomendações que, no seu entender, devem ser incluídos na Estratégia Industrial Verde nacional.

A ZERO propõe a criação de Condomínios Industriais, geridos de forma a promover sinergias entre indústrias, reduzir custos e otimizar recursos, reduzindo a produção de resíduos e ao mesmo tempo aumentando a eficiência económica e energética dos processos industriais. Defende também a criação plataformas rodo-ferroviárias, integrando eficientemente o transporte ferroviário e rodoviário, a eletrificação dos transportes de mercadorias em articulação com a produção de electricidade através de fotovoltaico instalado em áreas artificializadas, nomeadamente nos telhados de armazéns e outros edifícios industriais, e a criação de uma estratégia de armazenamento e gestão de energia eficientes que potencie a utilização industrial de energia renovável. Deve haver ainda, no entender da ZERO, incentivos públicos que promovam uma economia circular, beneficiando indústrias que privilegiem o ecodesign nos seus produtos e produção de bens alinhados com uma economia de partilha.

Estratégia Industrial Verde: mais uma obrigação incumprida da Lei de Bases do Clima
A ZERO recorda que Estratégia Industrial Verde (EIV) é uma obrigação disposta na Lei de Bases do Clima (legislação que a ZERO entende como decisiva na governança climática do país), mas que está em incumprimento desde fevereiro de 2024 (Artigo 68.º da Lei n.º 98/2021). Trata-se de uma estratégia essencial  para o país efetuar uma transição energética mais rápida, justa, sustentável, não deixando ninguém para trás, bem como para o alinhar com o Plano Industrial do Pacto Ecológico Europeu (Green Deal Industrial Plan, no original), iniciativa de reforço da competitividade da indústria europeia e de incentivo à aceleração do caminho para a neutralidade climática, reduzindo  as cadeias globais de produção e de consumo e reindustrializando o continente europeu de forma socialmente coesa. É um documento igualmente essencial para o país estar alinhado com o futuro Acordo para uma Indústria Limpa (Clean Industrial Deal, no original), que a nova Comissão Europeia deverá apresentar nos seus primeiros 100 dias de mandato, com o objetivo de acelerar a descarbonização da indústria e, ao mesmo tempo, impulsionar a competitividade através de medidas relativas aos investimentos, aos custos da energia e aos mercados.  Desta forma, a EIV é fundamental para dar garantias às indústrias e investidores no avanço de projetos indispensáveis na transição energética.

Propostas para a Estratégia Industrial Verde
A ZERO defende que a promoção de Condomínios Industriais com gestão própria e capacitada permitirá acelerar a articulação entre as diversas indústrias, reduzindo custos e dando escala à sua necessária transformação. A proximidade geográfica irá facilitar a cooperação, promover sinergias, favorecer a gestão integrada de serviços, de bens e de resíduos, resultando na otimização de recursos, no uso eficiente de energia, bem como na redução de custos económicos para todas as empresas participantes. A este propósito será fundamental que os incentivos fiscais e os apoios públicos possam favorecer e acelerar, através de contratos-programa com estes condomínios industriais, o alcance de metas quantitativas bem estabelecidas e mensuráveis.

Para a ZERO existem ainda alguns outros elementos essenciais que, no seu entender, devem estar presentes e ser articulados na Estratégia Industrial Verde:

  1. Mobilidade – criar cadeias de logística sustentáveis e inteligentes para fomentar a complementaridade e articulação logística, bem como potenciar o transporte ferroviário de mercadorias, tirando partido das suas características de fiabilidade e capacidade, combinando-o com a flexibilidade do transporte rodoviário eletrificado de mercadorias. Para que tal se concretize, é essencial a estruturação de plataformas rodo-ferroviárias, identificando claramente a sua localização e inserção no tecido económico-industrial, algo em falta no plano ferroviário nacional. A EIV deve articular um Plano Estratégico dos Transportes revisto e atualizado com as restantes dimensões.
  2. Energia – acelerar rapidamente a eletrificação do setor dos transportes e o crescimento nacional da produção fotovoltaica privilegiando áreas artificializadas e respeitando critérios rigorosos que presidirão às áreas de aceleração para renováveis. Também o armazenamento de energia elétrica é crucial para a gestão do sistema elétrico, permitindo o aprovisionamento dos excedentes de produção e o fornecimento de energia em período de menor disponibilidade de energia renovável através de tecnologias custo-eficazes, e que sejam adequadas aos diferentes ciclos de armazenamento (diário, intra-anual e plurianual), em linha com a promoção do autoconsumo coletivo e a eficiência energética no conjunto dos condomínios industriais. Obter a melhor relação de custo-eficácia entre investimento nas redes elétricas, no armazenamento de energia e no ordenamento das atividades industriais será crucial para um obter condições favoráveis ao desenvolvimento de indústrias sustentáveis.
  3. Simbioses Industriais – ao potenciar a criação de sinergias entre os diferentes sectores e atores industriais, permite reduzir a produção de resíduos ao mesmo tempo que aumenta a eficiência económica e energética dos processos industriais. A modernização da legislação relativa à gestão de parques industriais e ao seu ordenamento, a adequação do quadro de incentivos e a robustez das redes ferroviárias são essenciais para promover estas simbioses.
  4. Economia circular – incluir no edifício de incentivos públicos a promoção de conceitos da economia circular, beneficiando indústrias que privilegiem o ecodesign nos seus produtos, bem como bens alinhados com uma economia de partilha.
  5. Ordenamento territorial das atividades industriais pesadas – localização das indústrias em articulação com os polos de produção e armazenamento de gases renováveis, as redes elétricas, incluindo offshore, com a estratégia para o armazenamento de energia, com as áreas de tratamento de água e resíduos, e com os planos para os portos e para a ferrovia, propiciando ganhos de eficiência logística e económica,  minimização de danos ambientais, menores custos e maior competitividade e atratividade internacionais.
  6. Criação de um Fundo Nacional para a Transição Justa – garantir que a transição para uma economia verde é feita de uma forma justa e equitativa, promovendo e alinhando o financiamento público e privado com o desenvolvimento de competências nos sectores prioritários da transição energética, assim como assegurar o apoio à requalificação e reconversão profissional (incluindo postos de trabalho indiretos) para competências verdes, sem perda de rendimentos e de direitos adquiridos e tendo sempre em atenção a necessidade imperativa de participação das organizações representativas dos trabalhadores nos processos de reconversão industrial, assim como o reforço dos fundos disponíveis para o apoio ao cooperativismo, destinado aos trabalhadores afetados pelo processo de  transição energética e que prefiram criar o seu próprio emprego em conjunto com outros trabalhadores igualmente afetados.
Estratégia Industrial Verde atuará como guia para a descarbonização da indústria portuguesa
A EIV irá funcionar como um vetor para a indústria portuguesa, guiando-a na busca de soluções, instrumentos e apoios à descarbonização. Deverá conter um conjunto de roteiros sectoriais que permitam a cada área industrial uma adaptação à transição verde, atendendo às especificidades de cada área e uma visão de conjunto que as articule devidamente. Deste modo, o tecido empresarial existente e os diferentes parceiros sociais, devem ser os maiores interessados no sucesso da estratégia e, como tal, devem ser devidamente auscultados no momento da  estruturação e elaboração do documento e não apenas na consulta pública.

De igual modo, a EIV deve ser articulada com as principais estratégias e planos nacionais, como o Plano Nacional de Energia e Clima (PNEC), o Plano Estratégico dos Transportes, a Estratégia Nacional para as Matérias-Primas Críticas, a Estratégia Nacional para o Hidrogénio, o Plano de Ação para o Biometano, o Plano Estratégico para os Resíduos Não Urbanos ou o Plano de Ação para a Economia Circular. Além disso, além da fundamental auscultação das partes interessadas, é necessário o garante do envolvimento dos diferentes ministérios e organismos do Estado com responsabilidades na sua execução. Nesse sentido, será importante a criação de uma unidade técnica que monitorize a implementação da EIV e que seja responsável pela apresentação de um relatório anual alvo de parecer do Conselho para a Ação Climática. Também merece destaque a importância de se aplicar uma abordagem centrada nas pessoas, de forma a assegurar uma transição socialmente justa com o apoio da sociedade civil.

Implementar a Estratégia Industrial Verde é essencial para impulsionar a transição energética justa
Tornar a indústria mais sustentável já não é uma opção, mas sim uma necessidade premente, tendo em conta que estamos a correr contra o tempo para atingirmos a neutralidade climática o mais tardar em 2045, mas preferencialmente 2040. Por outro lado, alavancar a transição energética na indústria portuguesa trará vantagens económicas para a mesma, considerando políticas europeias como o alargamento do Mercado Europeu de Emissões ou o Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço – que tributa as emissões dos bens produzidos fora do espaço europeu –, e ajudará a posicioná–la como líder em tecnologia verde. A ZERO insta o governo português, sob a coordenação do Ministério da Economia, a agilizar o processo de criação da EIV, procurando consensos o mais alargados possível, a fim de se adotar uma visão estratégica de futuro que venha fundamentar políticas públicas duradouras e que contribuam para o acelerar de uma Transição Justa.

sábado, 11 de maio de 2024

A Evolução dos Combustíveis Renováveis em Portugal



A jornada da descarbonização em Portugal começou de forma mais visível com os biocombustíveis líquidos. Por volta de 2006, o país estabeleceu metas de incorporação obrigatória de biodiesel no gasóleo, o que impulsionou o surgimento de indústrias nacionais de referência. Pode consultar o histórico destas metas e o papel da Entidade Nacional para o Setor Energético (ENSE) no portal oficial sobre biocombustíveis em Portugal. Este setor foca-se principalmente na substituição de derivados de petróleo nos transportes rodoviários pesados e ligeiros.

Por outro lado, o biometano representa a "segunda vaga" da transição energética portuguesa, focada na economia circular e na autonomia do sistema de gás. Embora Portugal já produzisse biogás há décadas para gerar eletricidade em aterros sanitários e Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETARs), a sua transformação em biometano para injeção na rede só se concretizou em 2022. O marco histórico aconteceu em Mirandela, num projeto pioneiro da Dourogás e da Resíduos do Nordeste. Detalhes sobre este projeto e a tecnologia utilizada podem ser encontrados no site da Dourogás.

Atualmente, o Governo português vê o biometano como uma peça estratégica para reduzir a dependência de importações de gás natural fóssil. Este compromisso está detalhado no Plano Nacional Energia e Clima (PNEC 2030), que define as metas de descarbonização para a próxima década. Para acompanhar as notícias e relatórios técnicos sobre o setor dos gases renováveis, o portal da ADENE (Agência para a Energia) é uma excelente fonte de informação atualizada.

Hoje, o biometano é visto como uma peça fundamental do Plano REPowerEU em Portugal, com vários projetos em desenvolvimento para aproveitar resíduos agroindustriais (especialmente no Alentejo e Ribatejo) para injetar gás renovável em larga escala.

domingo, 19 de março de 2023

Qual o estado das ações climáticas em 2023?


Lentamente, estão a acontecer alterações para inverter alguns dos danos que causámos ao ambiente. As empresas estão finalmente a subir a fasquia para impulsionar as mudanças necessárias, o que está bem atrasado tendo em conta os efeitos nocivos das embalagens, produção em massa, construção, mão-de-obra barata, poluição, seleção de materiais e muito mais.

Os consumidores estão também a tornar-se mais conscientes e a fazer escolhas conscientes para utilizar o poder do dólar na procura de produtos e serviços sustentáveis. Enquanto ainda estamos a lutar contra a acessibilidade de preços versus escolhas conscientes, os consumidores estão a forçar as empresas a conformarem-se ao entusiasmo que abraça a ação climática. Aqui estão, segundo o “Inhabitat”, algumas formas de vermos isto acontecer.

Apontar para o “net zero”.
É um tema que é discutido nas casas, nas comunidades, no país e em todo o mundo. Cada indivíduo e organização está a ser chamado para reduzir a sua pegada de carbono. A população global está a aceitar visivelmente o objetivo de alcançar o estatuto líquido zero até 2050. Essa meta está a menos de 27 anos e as empresas precisam de duplicar as suas promessas – literalmente.

Segundo um relatório da Accenture, “enquanto mais de 34% das maiores empresas do mundo estão empenhadas em atingir o “net zero”, quase todas (93%) não conseguirão atingir os seus objetivos se não conseguirem pelo menos duplicar o ritmo de redução das emissões até 2030″.

Este fosso entre as boas intenções e o sucesso real levou a uma infinidade de opções de consultoria para as empresas. Estas organizações ajudam as empresas a estabelecer objetivos tangíveis, a organizar as mudanças necessárias para atingir esses objetivos e a manter o negócio no bom caminho durante a viagem. Isto inclui passos como a avaliação da cadeia de abastecimento, impacto da terra e da água, efeitos sobre as populações de animais selvagens e métodos de transporte.

Energia renovável
Tanto no domínio residencial como no empresarial, assistimos a um enorme aumento na adoção de energias renováveis. Estes sistemas não são novos. O moinho de vento e a roda d’água existem desde as primeiras civilizações. No entanto, a tecnologia está a avançar, resultando em opções mais acessíveis, mais leves, compactas e eficientes.

Agora uma casa pode contar com um único painel solar para aquecer a banheira de água quente ou o aquecedor de água. Da mesma forma, dependemos cada vez mais da energia solar para iluminação de percursos e com sensores de movimento.

Os painéis solares estão a cobrir os telhados das empresas em todo o mundo, à medida que as poupanças de custos se tornam mais visíveis.

Mesmo em áreas onde a luz solar não é tão predominante, as opções geotérmicas, eólicas, hídricas, de biomassa e nucleares estão a crescer em popularidade, reduzindo o consumo de combustíveis fósseis como o carvão, o petróleo e o gás natural. A sua utilização está a aumentar em quintas, fábricas e edifícios de escritórios, num esforço para promover a eficiência energética, custos mais baixos e ações amigas do ambiente.

Aumento dos empregos ambientais
Embora necessitemos sempre de profissionais da banca, medicina, ciência, comércio, artesanato e educação, os campos de carreira do futuro estão diretamente orientados para as indústrias verdes.

O site de promoção de emprego LinkedIn relatou um aumento de 40% nas competências verdes como um requisito de emprego, com base em listas de empregos globais. De facto, a maioria dos sites de listagem de empregos, podcasts e blogs estão a mudar o foco para empregos verdes também. Vejam os trabalhos técnicos e de engenharia relacionados com turbinas eólicas, painéis solares, sistemas geotérmicos e muito mais.

Produção alimentar
O planeta está a sentir a tensão da produção alimentar. Desde o metano libertado pelas vacas leiteiras e de carne de vaca até à quantidade de terra dedicada a monoculturas como o milho, a agricultura está a deixar um enorme impacto na sua esteira. No entanto, com os dados à nossa frente, a indústria está a começar a fazer mudanças. Embora não esteja sequer perto de ser suficiente, estamos a colocar as ferramentas para que as mudanças ganhem velocidade. Estas mudanças incluem o aumento dos incentivos financeiros para os agricultores e a melhoria da educação sobre os efeitos das práticas agrícolas. Também tem havido um aumento significativo de tecnologias inovadoras.

Além disso, a investigação e desenvolvimento de alimentos alternativos está a aumentar e os produtos à base de plantas estão a inundar as prateleiras. Todas estas táticas visam a redução das emissões de carbono, metano e óxido nitroso, bem como o sequestro de carbono.

Materiais orgânicos e naturais
Todos nós partilhamos um ecossistema e cada ação que tomamos cria um efeito de ondulação. Por exemplo, o plástico é um inimigo do planeta. Não há duas formas de o fazer. É um produto baseado no petróleo que depende da recolha e transporte de combustíveis fósseis. Para além disso, cada pedaço de plástico alguma vez produzido ainda se encontra algures no planeta. Está a poluir a água e a terra. Foram encontrados microplásticos minúsculos nos sistemas de todos os seres vivos do planeta, desde bebés a animais.

Roupas, sapatos, acessórios, decoração doméstica, roupa de cama e muitos outros artigos com que entramos em contacto são feitos de uma mistura de materiais que incluem plástico de alguma forma. Considere alguns dos nomes alternativos para plástico, tais como acrílico ou polimetacrilato de metilo (PMMA), policarbonato (PC), polietileno (PE), polipropileno (PP), tereftalato de polietileno (PETE ou PET), cloreto de polivinilo (PVC) e acrilonitrilo-butadieno-estireno (ABS).

Durante a produção, utilização e após eliminação, estes produtos estão a criar um fluxo de resíduos que não podemos manter. O monstro plástico será difícil de derrotar, mas o reconhecimento do seu impacto em todo o ciclo de vida está a motivar os consumidores e as empresas a regressar aos materiais naturais.

Há um movimento para criar plásticos a partir de materiais de base biológica que funcionam da mesma forma. Muitas empresas têxteis estão a mudar para cadeias de abastecimento limpas para obter materiais naturais como bambu, eucalipto, algodão orgânico, cânhamo, folhas de banana, algas e muito mais. Estes materiais não só vêm com um rótulo mais seguro, como podem biodegradar-se ou mesmo voltar a ser compostados no solo após a sua utilização pelo consumidor.

Veículos elétricos
Segundo o Fundo de Defesa Ambiental (EDF) informa que “mais de 30 milhões de camiões nas estradas dos EUA geram 7% das emissões de GEE dos EUA – mais do que a aviação, a navegação marítima e o transporte ferroviário combinados”.

“Quase todos os modos de transporte têm agora uma versão totalmente elétrica. Temos aviões, comboios, barcos, camiões, autocarros e carros. O governo federal comprometeu-se a converter quase todos os veículos federais em veículos elétricos ou outras formas de operação net zero até ao ano 2035. Os consumidores também estão a aderir à ideia, procurando opções híbridas e elétricas a números recorde. À medida que a infraestrutura cresce para apoiar a indústria e que os preços descem, os VE tornar-se-ão correntes, a não ser que uma tecnologia ainda melhor chicoteie o mercado”, conclui o “Inhabitat”.

domingo, 22 de janeiro de 2023

De que tecnologia precisamos para chegarmos ao carbono-zero?

O mundo sabe agora que precisamos de chegar a emissões net-zero, ou mesmo a emissões negativas, para compensar o tempo perdido no combate às alterações climáticas. Mas que lacunas na tecnologia precisam de ser preenchidas para que isso se torne realidade?

Que tecnologias podem ajudar-nos a alcançar o net-zero
A ação climática está agora em curso. Contudo, as nossas ações não aconteceram com rapidez suficiente para atingir as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris para limitar o aumento da temperatura global a 1,5 graus Celsius. A fim de atingir estes objetivos, a tecnologia “deve desenvolver-se rapidamente para alcançar mais descarbonização e captura de carbono”, sublinha o “Inhabitat”.

Segundo a mesma fonte, para compreender que tecnologias poderiam ajudar a atingir os objetivos de mitigação do clima, primeiro temos de analisar que tecnologias estão disponíveis para resolver o problema. Eis alguns tipos de tecnologias que estão a ajudar a combater as alterações climáticas:
– captura e armazenamento de carbono
– biocombustíveis e energia limpa
– tecnologia de armazenamento de energia e bateria
– tecnologia de monitorização para medir o progresso

Cada uma destas tecnologias pode ajudar-nos a atingir emissões líquidas nulas. Mas sendo o objetivo atual, o mais tardar em 2050, de inverter os danos dos últimos 100 anos de industrialização, o tempo não está do lado do desenvolvimento tecnológico. Aqui estão as formas como podemos preencher as lacunas no tempo.

Tecnologias de captura de carbono
A captura de carbono pode ser tão simples como filtros em chaminés de fábrica, e tão complexa como a plantação de florestas e a utilização de pedras de pavimentação absorventes de carbono para recapturar o carbono libertado para a atmosfera. Estas tecnologias estão em desenvolvimento há 50 anos, mas recentemente mais destes produtos foram libertados, com 70% das aplicações de captura de carbono no espaço de recuperação de petróleo e gás, de acordo com um relatório do Instituto de Economia e Análise Financeira da Energia.

Isto parece um progresso, mas apenas 300 milhões de toneladas de carbono foram capturadas em todo o mundo, o que é apenas uma fração do que é necessário para cumprir os objetivos do Acordo de Paris. Estas tecnologias requerem também investimentos significativos em infraestruturas, tais como oleodutos e instalações de armazenamento, que competem com outras prioridades e investimentos para mitigar as alterações climáticas.

Biocombustíveis e combustíveis de energia
Os combustíveis energéticos são qualquer fonte de energia como o hidrogénio, metano, propano ou combustíveis líquidos sintéticos. Os biocombustíveis são mais especificamente combustíveis criados utilizando uma fonte como materiais vegetais como o etanol feito de milho ou o biodiesel feito de materiais residuais. Estes combustíveis podem preencher lacunas no fornecimento de energia, oferecendo alternativas mais limpas ao petróleo e ao gás. No entanto, o custo de produção destes combustíveis pode ainda compensar o benefício, ao mesmo tempo que cria bloqueios e resíduos no abastecimento alimentar quando os combustíveis são produzidos a partir das mesmas matérias-primas que o abastecimento alimentar. Tal pode ser o caso do etanol feito a partir de milho.

A melhor aposta para os combustíveis energéticos ou biocombustíveis vem da criação de soluções circulares que fazem uso de produtos residuais. Isto resolve a crise do plástico e dos resíduos alimentares, enquanto cria novas fontes de combustível, sem criar problemas de custos, exceto no custo de produção, que vai diminuindo à medida que estas tecnologias amadurecem.

Combustíveis energéticos como o hidrogénio ou o amoníaco podem ajudar a descarbonizar sectores que são difíceis de eletrificar, também. Isto incluiria indústrias como a aviação, a navegação marítima e o fabrico de aço, cimento e químicos.

O problema com os biocombustíveis e os combustíveis de potência é a energia e o custo necessários para converter o material de origem em combustível. Se estas tecnologias puderem ser amadurecidas para utilizar energia limpa para produzir os combustíveis necessários, poderia ser uma opção mais viável. Espera-se que os combustíveis de energia preencham lacunas nas indústrias, em vez de serem soluções amplamente aplicáveis. A eletrificação é uma solução mais geral para as necessidades energéticas para a maioria das aplicações, incluindo o carregamento doméstico e de veículos e a alimentação da rede para uso residencial e comercial.

Mais de 80% da energia global ainda é fornecida por combustíveis fósseis, pelo que há aqui muito espaço para todos contribuírem para ajudar a descarbonizar o mundo da utilização de combustíveis fósseis no sector industrial.

Tecnologias solares, eólicas e de baterias
As energias renováveis são um tema mais simples. As tecnologias eólicas e solares amadureceram e são agora mais baratas de produzir do que a tradicional energia de origem fóssil. A questão aqui é o investimento em deslocar a rede para energia limpa, que é um empreendimento maciço agora em curso.

Os preços crescentes do gás e do petróleo estão a pressionar a mudança para ocorrer mais rapidamente, mas a rede ainda precisa de mais capacidade de armazenamento para se agarrar à energia produzida pela tecnologia eólica e solar. Os proprietários podem produzir alguma da sua própria energia, embora o custo dos painéis solares seja ainda proibitivamente elevado.

Com o aumento da eficiência das células solares e baterias domésticas mais baratas, os proprietários podem cada vez mais contribuir com energia limpa para a rede. E para remover os picos de procura da rede durante as horas noturnas, quando os residentes estão em casa utilizando eletricidade para carregar EVs e alimentar aparelhos domésticos. Os incentivos governamentais para ajudar os residentes a pagar a energia solar, e os programas que fazem uso da tecnologia de baterias para armazenar a energia produzida durante as horas de vazio para as horas de maior procura, ajudarão a aliviar a pressão.

A necessidade de acelerar a adoção destas tecnologias favorece a energia eólica e solar, que são mais fáceis de escalar do que as centrais hidroelétricas, geotérmicas ou nucleares, que requerem investimentos a longo prazo. O Roteiro da AIE para o Net Zero até 2050 traça um caminho para aumentar rapidamente a escala solar e ganhar esta década, incluindo mais do que triplicar a quantidade de tecnologia eólica e solar instalada anualmente até 2030, em comparação com 2020. As pequenas turbinas eólicas eficientes e solares no telhado poderiam ajudar a alcançar o net-zero para as cidades.

Tecnologia inteligente para medir o progresso climático
A eficiência energética é uma área frequentemente negligenciada, onde a procura de energia é reduzida através de uma menor procura. De acordo com um estudo da McKinsey, a eficiência energética tem o potencial de reduzir as emissões globais em 40%. Iluminação mais eficiente, aparelhos e outras tecnologias consumidoras de energia podem ser combinadas com tecnologia inteligente para monitorizar a utilização de energia e otimizar a eficiência.

A tecnologia inteligente poderia incluir medidores de energia inteligentes, tecnologia de monitorização de energia em casa ou no escritório que reduz a utilização de energia durante as horas de folga, sistemas de controlo melhorados para a indústria, redes inteligentes e tecnologia para fabrico avançado que reduz a utilização de energia à escala. A IA pode também ajudar a prever as necessidades energéticas em toda a rede para ajudar a equilibrar as necessidades energéticas e evitar o desperdício.

Quão plausível é que alcancemos a tempo emissões líquidas zero?


Para além da tecnologia, os governos também precisam de procurar formas de tornar possível que os clientes empresariais e residenciais de energia possam pagar energia limpa e reduzir a procura. Os clientes com baixos rendimentos não podem instalar energia solar em telhados, por exemplo, sem alterações significativas no custo e na oportunidade de participação a nível individual.

Com isto vem o lembrete de que a grande maioria das emissões provém efetivamente da indústria, e as empresas e países altamente poluentes são o principal objetivo para reduzir as emissões a tempo de cumprir os objetivos climáticos. “Esperamos que uma combinação de incentivos e subsídios governamentais aliados a uma tecnologia melhorada possa ser implementada a tempo de descarbonizar a sociedade, mas precisa de ser aliada à supervisão governamental para empresas e entidades governamentais não cooperantes, para que a oportunidade de parar as alterações climáticas não nos escape”, conclui o site.

domingo, 21 de novembro de 2021

Portugal deixou definitivamente de usar carvão para produzir eletricidade



Portugal deixou definitivamente de usar carvão na produção de eletricidade, desde sexta-feira, graças ao fim dessa atividade pela Central Termoelétrica do Pego, anunciou hoje a associação ambientalista ZERO, que espera que o futuro não passe agora por queimar biomassa.

“O futuro da central do Pego não deve passar por queimar biomassa, opção ineficiente que põe em causa objetivos mais ambiciosos de mitigação das alterações climáticas”, considerou a organização, em comunicado.

Sábado foi o primeiro dia de produção de eletricidade sem recurso à queima de carvão, depois de a Central do Pego ter esgotado o stock de carvão que tinha, apesar de estar licenciada para funcionar até 30 de novembro.

Para a ZERO, “esta data histórica em que se deixa de utilizar em Portugal o combustível mais poluidor em termos de emissões de gases com efeito de estufa causadoras das alterações climáticas, antecipando um objetivo que estava inicialmente traçado para 2030, não deixa de ser um alerta para a necessidade de planear antecipadamente e assegurar uma transição energética justa para o país rumo à neutralidade carbónica em 2050 ou desejavelmente antes”.

Para os ambientalistas, é fundamental garantir o enquadramento dos trabalhadores direta e indiretamente afetados e promover soluções que não ponham em causa os ganhos ambientais conseguidos.

Deixar de usar carvão na produção de eletricidade é um elemento crucial da descarbonização, tema que ganhou destaque e causou polémica na conferência do clima (COP26), que terminou no passado fim de semana, com alguns países a recusarem-se a acabar com o uso deste combustível.

A central a carvão do Pego, que era responsável por 4% das emissões do país, foi a instalação com o segundo maior peso nas emissões de dióxido de carbono em Portugal na última década, a seguir à Central Termoelétrica de Sines, cujo encerramento ocorreu em janeiro deste ano.

Em termos absolutos, a média anual de emissões de gases com efeito de estufa (GEE) pela central do Pego entre 2008 e 2019 foi de 4,7 milhões de toneladas de dióxido de carbono.

Com a retirada agora consumada das duas centrais a carvão, “Portugal deverá registar uma enorme quebra de emissões de carbono, dado que o recurso a centrais de ciclo combinado a gás natural, caminho temporário para uma solução 100% baseada em fontes renováveis, se traduz em emissões de pouco mais de um terço por cada unidade de eletricidade produzida em comparação com o carvão”, assinala a ZERO.

Apesar dos equipamentos de despoluição instalados, a central a carvão do Pego era também uma fonte significativa de emissão de diversos poluentes, como os óxidos de azoto, dióxido de enxofre, partículas e metais pesados, cujas quantidades lançadas para a atmosfera em Portugal sofrerão uma redução importante.

O fim da atividade desta central suscita agora a questão das alternativas, sendo o recurso à queima de biomassa uma das soluções preconizadas, mas que a ZERO alerta não ser “sustentável”.

“Trata-se de uma solução ineficiente e contraditória com os objetivos de retenção do carbono na floresta e no solo e não se traduz numa significativa mais-valia face a outras soluções de mitigação climática”, afirma.

A associação defende que a concessão do ponto de ligação da Central do Pego deverá ter em consideração apenas projetos que resultem da “utilização de fontes de energia verdadeiramente renováveis e que de forma alguma se coloque a possibilidade de recurso a biomassa, tendo em consideração que esta não é, nem será de forma alguma renovável”.

Os ambientalistas alertam ainda para a escassez de biomassa residual florestal em território nacional, atendendo a que num raio de intervenção de 80 quilómetros são já inúmeras as centrais de biomassa e indústrias florestais que competem pela matéria florestal residual.

Acresce ainda que o espírito da proposta recente da Comissão Europeia, de julho de 2021, que faz parte do pacote “Preparados para os 55”, é de que “a partir de 31 de dezembro de 2026, (…) os Estados-membros não podem conceder apoio à produção de eletricidade a partir de biomassa florestal em instalações exclusivamente elétricas”.

Nessa medida, a ZERO questiona como está e como vai ser aplicado o Fundo para a Transição Justa nas centrais de Sines e Pego e na refinaria de Matosinhos, e defende um plano que fortaleça a vitalidade económica e social das regiões afetadas, promovido pelas empresas envolvidas em colaboração com trabalhadores, autarquias locais, organizações não-governamentais e outras entidades competentes.

“Sem diálogo, concertação social e criação de soluções alternativas atempadas, não estamos de forma alguma a fazer uma transição energética justa”, considera a associação, alertando desconhecer, no caso da central de Sines, “o uso de qualquer verba do Fundo para a Transição Justa até agora”.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Alterações Climáticas – O que é que cada um de nós pode fazer? Muito e já!

                                

Diariamente todos temos sido inundados de notícias sobre as alterações climáticas: incêndios gigantescos, inundações destruidoras, secas, chuvas torrenciais, degelo dos glaciares, acidez dos oceanos, ilhas de plástico, níveis altíssimos de poluição atmosférica, etc.

Ouvimos, lemos, vemos, e parece que já nos entrou no quotidiano das nossas vidas.

Incêndios incontroláveis no Canadá e nos Estados Unidos com pequenas cidades destruídas e eliminadas dos mapas, com incêndios gigantescos na Sibéria, na Amazónia, na Austrália e na Argélia, além daqueles que anualmente já nos parecem “normais” no sul da Europa. Já parámos para pensar que não é só o CO2 libertado por esses gigantescos incêndios, são os milhões, sim milhões de hectares de florestas que deixaram de existir e que no futuro não estarão lá estes milhões e milhões de árvores para absorverem o CO2 que até agora absorviam?
Estamos a ser cozinhados em lume brando, passivos e tranquilos.
Hoje já todos sabemos que a Terra é redonda e que vivemos num ecossistema fechado e finito. A Humanidade vive numa espécie de nave espacial, a que chamamos Terra, e todos somos viajantes da mesma “nave espacial”, não há forma de sair, de mudarmos de casa.

Provavelmente, nos próximos anos a Humanidade conseguirá instalar algumas colónias de Humanos na Lua ou em Marte, serão algumas centenas de seres humanos, só isso, ponto. Somos atualmente 7.890.000.000 de seres humanos. A Organização das Nações Unidas (ONU) acaba de divulgar a primeira parte do 6.º Relatório do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change) que é muito mais do que um alerta para toda a Humanidade. É o resultado de estudos científicos de centenas de cientistas, investigadores e meteorologistas, fruto de dezenas de anos de estudos, e, provavelmente, o último aviso da comunidade científica mundial sobre os efeitos das emissões de gases de efeito de estufa e das consequentes alterações climáticas que estarão a iniciar um período irreversível de destruição das condições de vida da Humanidade no planeta Terra.

O próximo aviso poderá vir já tarde demais para todos nós.

Este Relatório do IPCC (utilizo a sigla em inglês por ser a mais divulgada) é tornado público três meses antes da realização da COP 26, a Conferência das Partes (Conference Of Parts – COP) que se realizará em Glasgow entre os próximos dias 1 e 12 de novembro. Esta será muito provavelmente a última oportunidade dos governantes e líderes mundiais, tomarem consciência da gravidade da situação, e de acordo com as previsões da comunidade científica internacional adotarem – sem mais hesitações –, medidas comuns e globais que possam mitigar os efeitos das alterações climáticas e preparar a Humanidade para a forma como teremos que viver num futuro que se afigura cada vez mais próximo. As conclusões deste Relatório do IPCC apontam para alterações nunca detetadas pela comunidade científica, comprovadamente provocadas pela ação das atividades humanas, e que demorarão centenas ou mesmo milhares de anos a poderem ser revertidas, algumas muito provavelmente já serão praticamente irreversíveis, como por exemplo a subida do nível dos mares.

O que nos espera?
O ciclo da água será fortemente afetado pelas alterações climáticas, com chuvas intensas e muito concentradas no tempo com as consequentes cheias devastadoras e secas muito prolongadas em diferentes regiões, conforme a latitude, mais chuva nas latitudes mais altas e mais seca nas regiões sub-tropicais;
O aquecimento global est á a provocar a aceleração do degelo do permafrost, mais intenso em regiões do círculo polar ártico, a perda de gelo dos glaciares das grandes cadeias montanhosas de todo o Mundo, sem a respetiva reposição sazonal das calotes geladas, e o degelo dos grandes mantos de gelo, especialmente da Gronelândia, mas também da Antártida;
O aquecimento dos mares, a sua acidificação, a redução dos seus níveis de oxigénio, são eventos claramente apontados à atividade dos humanos. Estas alterações nos oceanos estão a afetar os respetivos ecossistemas marinhos e todas as populações que vivem diretamente do que os oceanos lhes proporcionam;
Não faltará muito para que a existência do plástico nos mares se sobreponha à população dos animais marinhos. Uma das ilhas de plástico no Oceano Pacífico já ocupa a área equivalente à da Alemanha, França e Espanha em conjunto;
Nas cidades muito do já referido será amplificado, pela impermeabilização dos terrenos, pela prevalência do betão e do asfalto em detrimento das árvores, dos arbustos e de terra, provocando temperaturas muito mais elevadas nas áreas urbanas.
O aumento significativo das emissões de metano com efeitos muito mais terríveis que as emissões de CO2.
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Estamos condenados?

Existe ainda uma pequena, mas é mesmo pequena, muito pequena, janela de oportunidade de inverter a situação catastrófica para a qual nos dirigimos a uma velocidade cada vez maior, ou no mínimo podermos abrandar o ritmo de destruição das condições de vida para os Humanos no planeta Terra e dar-nos tempo para nos adaptarmos à nova situação e às novas condições climatéricas que nos esperam, conforme também já nos alertou David Attenborough num dos seus últimos e dramáticos apelos, no documentário, “A Life On Our planet”.

Imprescindível também o documentário “Before the Flood” da National Geographic, produzido por Leonardo Di Caprio. Existem muitos outros documentários, no entanto, estes dois aqui referidos serão suficientes para tomarmos consciência da gravidade da situação que afetará irreversivelmente as gerações que já nasceram, portanto muitos de nós (os que não morrerem antes), os nossos filhos e os nossos netos.

Já ultrapassámos o ponto do não retorno, já não é possível evitar enormes e drásticas mudanças na forma como utilizamos os recursos naturais, na forma como consumimos e produzimos a nossa alimentação, equipamentos e bens diversos, como nos divertimos ou nos movimentamos de um lugar para outro. Urge mudar o modelo de desenvolvimento baseado nos combustíveis fósseis, urge parar a utilização dos combustíveis fósseis.

A União Europeia, no passado mês de julho, lançou o Pacto Climático (Green Deal), anunciado em dezembro de 2019, aprovado pelo Parlamento Europeu em janeiro de 2020, e que pretende atingir a neutralidade carbónica em 2050, sendo que para tal tem como objetivo a redução em 55% das emissões de gases com efeito de estufa em 2030 em relação às emissões de 1990.

De um enorme conjunto de medidas que terá um impacto direto na indústria automóvel, no transporte aéreo e marítimo, na produção alimentar, na preservação dos ecossistemas e da biodiversidade, na produção de energia, uma, tem um impacto direto no mundo automóvel: a proibição da venda de veículos com motores de combustão interna, incluídos os com motores a gasolina, a gasóleo e os híbridos plug-in, a partir de 2035 em todo o espaço da União Europeia.Alguns países na União Europeia e na restante Europa já anunciaram datas limite para a proibição da venda de veículos com motores de combustão interna anteriores, são o caso da Noruega (2025), Islândia, Suécia, Holanda e Irlanda (2030).

O que é que cada um de nós pode fazer? Muito e já!
Pensar Global, Agir Local!

Não me focarei nas grandes alterações ao nível da alimentação (consumir menos carne, consumir produtos locais), do consumo de bens (Reduzir, Reutilizar, Reciclar), na redução das deslocações aéreas ou marítimas em aviões ou barcos com motores que utilizem combustíveis fósseis, na redução da utilização de plásticos, no aumento da eficiência energética das nossas casas com a respetiva redução do consumo de eletricidade, na produção local e renovável de eletricidade, etc.

Vou focar-me nos veículos que utilizamos para nos deslocarmos no dia-a-dia ou em viagens grandes ou pequenas.
  • Privilegiar o andar a pé, a utilização dos modos de mobilidade suave, bicicleta, trotinete, etc;
  • Privilegiar os transportes elétricos, o comboio, o metro, o autocarro, o elétrico tradicional, o automóvel, o motociclo, o ciclomotor, a bicicleta, etc;
  • Privilegiar os transportes públicos, de preferência elétricos e quando tal seja possível;
  • Utilizar no transporte particular, veículos exclusivamente elétricos;
  • Reduzir, se possível parar, o consumo de combustíveis fósseis.
  • Não consumir bens e serviços fúteis.

Claro que nem tudo é possível, e menos ainda no imediato, mas isto é o que deverá ser feito por todos para ainda irmos a tempo de evitar a catástrofe que se avizinha para toda a Humanidade.

O modelo de desenvolvimento tem que deixar de estar assente nos combustíveis fósseis e passar a ser um modelo de desenvolvimento baseado nas energias renováveis. Para um país como Portugal é perfeitamente possível produzir toda a energia necessária à sua economia (das pessoas e das empresas) através do recurso às energias renováveis: a hídrica, a eólica, a geotérmica (nos Açores) e, principalmente, a fotovoltaica que está muito pouco desenvolvida em Portugal, privilegiando a produção local. Portugal já hoje atinge níveis de produção de eletricidade de fontes renováveis de 70% e podemos fazer mais, podemos e devemos, sem perda de tempo.

Os veículos elétricos servirão como armazém dessa eletricidade e permitirão uma melhor gestão da rede de distribuição de eletricidade em Portugal, pois poderão armazenar a eletricidade produzida pelas eólicas durante a noite, enquanto carregam, quando o seu consumo é muito reduzido, permitindo a sua utilização durante o dia.

Esta é a mensagem final: todos podemos, devemos, temos, que fazer algo.

Porque não trocar o seu veículo com motor de combustão interna por um veículo elétrico?

Os seus filhos agradecerão.

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