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terça-feira, 13 de fevereiro de 2024
Islão e marxismo
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quarta-feira, 22 de novembro de 2023
Leila Ghanem - O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista
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| Fonte: Coordenação dos Núcleos Comunistas |
Nesta entrevista com a antropóloga e dirigente comunista libanesa Leila Ghanem há muita informação esclarecedora. Sobre o significado da operação de 7 de Outubro. Sobre o Hamas e sobre o Eixo da Resistência. Sobre as atrocidades anteriores e actuais cometidas pelo Estado sionista, no desempenho da missão que lhe foi atribuída pelo imperialismo ocidental: a de ser a cabeça de ponte para controlar rotas marítimas estratégicas, recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio sobre esta área de enorme importância. À custa do martírio do povo palestiniano e dos povos da região.
1. Porque é que a operação militar do Hamas de 7 de Outubro abalou o Médio Oriente e até o mundo? Qual é o impacto histórico deste acontecimento nos movimentos de resistência do Médio Oriente?
Não há dúvida de que para o povo palestiniano, e mesmo para o povo árabe, o “dilúvio de Al-Aqsa” de 7 de Outubro foi uma operação militar de proporções míticas; em qualquer caso, sem precedentes desde a ocupação da Palestina em 1948, uma espécie de epopeia lendária aos olhos dos povos árabes. Alguns escritores remontam a Homero para evocar a imagem da Ilíada, uma lenda heroica “em que os fracos conseguem derrotar o seu colonizador numa inimaginável relação de forças”. Em apenas duas horas a maior potência do Médio Oriente, o quinto maior exército do mundo, sofreu uma derrota esmagadora às mãos de uma modesta unidade de comandos apelidada de “Distância Zero” (para sublinhar o confronto do corpo contra o tanque), composta por uma centena de homens modestamente armados mas dotados de uma coragem heroica. Vinte colonatos libertadas, bases militares ocupadas - uma das quais abrigava o quartel-general do Tsahal no sul -, um observatório militar de alta tecnologia encarregado de vigiar a fronteira, a unidade de investigação 545 e a unidade de informações 414 foram neutralizadas e dois generais capturados. A lenda sionista-ocidental da invencibilidade do Estado sionista foi destruída. Numa questão de horas, Gaza transformou-se em Hanói. E recordamos a célebre frase do general Giap durante a sua visita a Argel, em Dezembro de 1970: “Os colonialistas são maus alunos de História”.
Para o escritor e activista palestiniano Saif Dana, o exemplo que mais se aproxima desta vitória militar, apesar do desequilíbrio na relação de forças entre colonizados e colonizadores, é a “Revolução Haitiana”, que foi e continua a ser um símbolo importante para as pessoas de cor de todo o mundo. Armados de coragem e da “vontade de emancipação”, os haitianos, liderados por Dessalines, lançaram-se numa batalha decisiva contra os colonos franceses, que tinham acabado de receber reforços sob o comando do general Rochambeau. Esta batalha parecia estrategicamente impossível, mas após quatro ataques heroicos dirigidos pelo líder negro Cabuat, os franceses foram finalmente forçados a capitular em 18 de Novembro de 1803, no Forte Vertières, embora os haitianos tenham sofrido uma perda considerável de vidas. As guarnições francesas renderam-se uma a uma, o que permitiu à antiga colónia proclamar a sua independência em 1 de Janeiro de 1804. A partir de então, passou a chamar-se Haiti. Esta lendária batalha ficou registada nos anais da história. Mais tarde, inspirou revoltas de escravos noutros locais, como a rebelião de Aponte em Cuba, em 1812, ou a conspiração de Denmark Vesey na Carolina do Sul, em 1822. Esta vitória teve também uma influência decisiva em Simón Bolívar e outros líderes de movimentos independentistas na América Latina, embora se tivesse de esperar até 1834 para abolir a escravatura.
O que aconteceu a 7 de Outubro na Palestina é tão lendário como a batalha do Haiti e ficará para sempre nos anais da história, tal como as batalhas de Hittin, El Kadissiya, etc., no tempo de Saladino.
Imaginem o terramoto que abalou todo o sistema do Império Ocidental perante a súbita derrota da sua mão direita, na qual tinha investido milhares de milhões de dólares durante quase um século. A mesma potência a quem o Império tinha confiado o papel de ser a cabeça de ponte imperial para controlar as rotas marítimas estratégicas, os recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio desestabilizando os inimigos do Império, introduzindo relações de classe em benefício dos opressores…. Israel estava no centro deste sistema capitalista que tinha de manter os países do Sul dependentes dele; para isso, o povo palestiniano tinha de se converter num cenário precursor, um modelo a seguir… Para o conseguir, era necessário despossuí-lo, desumanizá-lo, mantê-lo sob bloqueio, massacrar os seus líderes históricos… Isto exigia um estatuto específico para os seus fantoches e protecção política, institucional, financeira e mediática…
O alarme imediato que abalou todos os dirigentes do mundo capitalista no dia 8 de Outubro, que acorreram em massa a Telavive, é a prova irrefutável do investimento do mundo ocidental neste Estado constituído à margem da lei, à margem de todos os direitos e normas humanas. Direitos e normas criados pelo próprio Ocidente.
O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista. E, a partir de agora, haverá um antes e um depois desse 7 de Outubro.
2. O Hamas é uma organização terrorista?
Comecemos por dizer que, para além dos EUA e da UE, nenhum outro país do mundo acusa o Hamas de terrorismo.
Se olharmos para a história, o termo “terrorista” nem sempre teve um carácter pejorativo. Os revolucionários usaram o “terror” contra os seus inimigos de classe. Foi durante a Revolução Francesa que o termo “terrorista” foi utilizado pela primeira vez, por Gracchus Babeuf, quando falou dos “patriotas terroristas do segundo ano da República”. Para o marxismo, o Terror não era em absoluto um fim político, mas uma ferramenta, o instrumento de uma política, e deve ser julgado em relação aos objectivos dessa política. Isto levanta duas questões diferentes: 1ª, a questão da legitimidade dos fins políticos. 2ª A adequação dos meios. Condenar o Terror como um “sistema” metafísico esconde um interesse em deslegitimar os objectivos políticos que ele se propôs.
Tomemos o exemplo da Comuna de Paris, ponto culminante da guerra civil francesa. Após a sua derrota, foram rotulados, para citar apenas Le Figaro, o órgão da reacção de Versalhes, como “terroristas do Hôtel de Ville”[da Câmara Municipal] ou “terroristas do 18 de Março” ou “a Comuna terrorista”.
O Terror foi defendido ou combatido em função dos objectivos que as diferentes classes sociais e facções políticas procuravam atingir, e que cada uma considerava legítimos.
Numa carta à sua mãe, Friedrich Engels explicava-lhe: “Dos poucos reféns que foram fuzilados à maneira prussiana, dos poucos palácios queimados à maneira prussiana, fala-se muito, porque tudo o resto é mentira; mas dos 40.000 homens, mulheres e crianças que os Versalheses massacraram com metralhadoras depois de terem sido desarmados, ninguém fala”.
Poder-se-ia pensar que esta descrição de Engels se refere aos acontecimentos em Gaza. Poder-se-ia pensar que ele está a descrever a forma como os meios de comunicação ocidentais avaliaram desproporcionadamente (e continuam a fazê-lo) o impacto do ataque do Hamas em 7 de Outubro e o genocídio que se seguiu com a retaliação sangrenta do exército Tsahal - o exército de Israel - apoiado pelas forças Delta dos EUA e pelos seus três porta-aviões no Mediterrâneo. Aqueles que falaram da Hiroshima de Gaza não estão longe do número das 70 000 vítimas que caíram no Japão em Agosto de 1945. Em Gaza, o número de civis mortos sobe para 50 000.
Os Estados imperialistas-coloniais têm denunciado habitualmente o terrorismo das lutas dos povos sob o seu domínio e tratado os seus combatentes como terroristas. Recordemos, uma vez mais, que várias organizações terroristas, colocadas no pelourinho ao longo da história, se tornaram interlocutores legítimos; foi o caso do Viet Cong, do Exército Republicano Irlandês (IRA), da Frente Argelina de Libertação Nacional, do Congresso Nacional Africano (CNA) e de muitas outras organizações que foram elas próprias qualificadas de “terroristas”, como a OLP e a FPLP na Palestina.
Este termo tinha e tem por objectivo despolitizar a sua luta, apresentá-la como um confronto entre o Bem e o Mal.
De cada vez que os palestinianos se revoltam, o Ocidente - tão rápido a glorificar a resistência dos ucranianos - invoca o terrorismo. Fê-lo durante a primeira Intifada, em 1987, e a segunda, em 2000, durante as acções armadas na Cisjordânia ou as mobilizações por Jerusalém, durante os confrontos em torno de Gaza, cercada desde 2007 e vítima de seis guerras em 17 anos.
Falta falar da questão da legitimidade de Israel para se defender e desarmar o Hamas. Alguns meios de comunicação sionistas chegam ao ponto de invocar Thomas Hobbes e a sua percepção daquilo a que chama a posse pelas classes dominantes do “monopólio da força física legítima”. Ignoram que essa legitimidade não pode ser aplicada a um Estado de colonos, legitimidade impugnada antes de mais pelos palestinianos, pelos povos dos países vizinhos atacados (libaneses, sírios, iraquianos, iemenitas, iranianos…) e por todos aqueles que o consideram um Estado de colonos. Antes da farsa do “Acordo de paz” de Oslo, a maioria dos países do mundo não reconhecia Israel. A sua legitimidade baseia-se simplesmente numa decisão da ONU, enquanto Israel tem rejeitado sistematicamente todas as decisões relativas ao povo palestiniano (resoluções 242, 323, 194, direito de regresso dos palestinianos ao seu país).
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