Mostrar mensagens com a etiqueta Piroceno. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Piroceno. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de julho de 2026

Contra a pós-verdade do eucalipto e dos "matos": cumprir escrupulosamente a Lei


Mitigar a tragédia dos incêndios florestais exige atacar o problema em duas frentes: travar as ignições e mudar radicalmente a estrutura da floresta. O eucalipto não pode continuar a ser o "combustível perfeito" do nosso território.

A prioridade absoluta? Quebrar a continuidade do combustível através do ordenamento. A nossa floresta deixou de ser um ecossistema para passar a ser um mar contínuo de eucaliptos. É urgente criar mosaicos na paisagem, intercalando os eucaliptais com faixas de espécies autóctones - como o carvalho, o castanheiro ou o sobreiro. Estas árvores têm copas mais húmidas e folhas muito menos inflamáveis, funcionando como verdadeiras barreiras naturais contra o fogo.

Mas o ordenamento não chega; a gestão ativa e a limpeza são vitais. Os dados mostram que as áreas de eucaliptal geridas profissionalmente, pela indústria papeleira, ardem pouco (as taxas andam pelos 2%). O drama está nos milhares de hectares privados deixados ao abandono. Para mudar isto, é preciso limpar o mato do subcoberto, respeitar o espaçamento entre árvores e, acima de tudo, controlar a regeneração natural - aquela que nasce sozinha e sem regras logo a seguir a um incêndio.

No terreno, porém, a realidade bate de frente com a ineficácia do Estado e a falta de fiscalização. Há regras, sim, mas os pequenos proprietários continuam a avançar com plantações clandestinas e sem qualquer licenciamento. O eucalipto tornou-se o refúgio financeiro da terra abandonada: exige pouco investimento e dá algum lucro a curto prazo, mesmo sem cuidados. Para desarmar este barril de pólvora, o caminho passa por criar incentivos financeiros sérios que convençam os proprietários a trocar o risco do eucalipto pela segurança das florestas de conservação ou dos sistemas agroflorestais. Algo que, na prática, continua a falhar.

Do lado do combate, o sucesso depende de vigilância, tecnologia e mão dura contra o crime. Apostar em videovigilância e patrulhas nas horas críticas permite apagar o fogo nos primeiros minutos, antes que o eucaliptal comece a projetar faúlhas a quilómetros de distância. Só que o sistema falha onde devia ser mais forte.

Primeiro, nas comunicações: em cenários de grande catástrofe, o SIRESP continua a falhar por saturação ou perda de sinal. Quando a rede vai abaixo, a coordenação no terreno colapsa. Segundo, o subaproveitamento da tecnologia: os drones com sensores térmicos seriam ideais para vigiar a floresta à noite, mas a sua utilização esbarra sempre numa burocracia absurda, na falta de pilotos certificados, nas forças de segurança e na ausência de uma frota pública que esteja mesmo operacional.

Enquanto não resolvermos o caos das plantações clandestinas, os apagões do rádio e a paralisia tecnológica na vigilância, o eucaliptal vai continuar a arder sem controlo. E, de nove em nove anos, estaremos exatamente no mesmo sítio: a lamentar os "piroverões", a ver casas arder e a chorar tragédias que eram perfeitamente evitáveis

terça-feira, 30 de junho de 2026

Greenpeace alerta para falhas na prevenção dos incêndios em Portugal

Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.

A Greenpeace Portugal apresentou hoje  o relatório “Incêndios florestais em Portugal: mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar”, um estudo inédito que analisa a evolução dos incêndios florestais em Portugal desde 1943 e conclui que o país continua demasiado dependente das condições meteorológicas e da resposta à emergência, falhando na prevenção estrutural do risco.

O relatório foi desenvolvido pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais (CEIF), da ADAI/Universidade de Coimbra, sob coordenação científica do professor Domingos Xavier Viegas, e reúne mais de oito décadas de dados sobre incêndios em território nacional.

Segundo o estudo, os grandes incêndios são um problema estrutural e não uma fatalidade associada apenas ao Verão. A investigação conclui que o risco começa a construir-se muito antes da época crítica, impulsionado pela pressão das alterações climáticas, pela acumulação de combustível vegetal, pela gestão insuficiente da paisagem, pelo abandono rural, pela expansão da interface urbano-florestal e pela falta de integração do risco de incêndio no ordenamento do território.

Apesar da redução significativa do número de ignições nas últimas duas décadas, o relatório alerta que Portugal continua altamente vulnerável quando se conjugam fenómenos de calor extremo, seca e vento forte com uma paisagem pouco gerida.

Entre os anos analisados, 2003, 2005, 2017 e 2025 destacam-se pela dimensão da área ardida e pelo número de vítimas mortais, evidenciando um padrão de risco que, segundo os autores, permanece sem resposta estrutural. O estudo refere ainda que a maioria das ignições continua a ter origem humana, reforçando a necessidade de investir na investigação das causas, na sensibilização da população e em medidas preventivas.

Para o professor Domingos Xavier Viegas, a evolução dos incêndios resulta da conjugação de vários fatores, entre eles a crescente florestação do território, a redução da atividade agrícola, o despovoamento do interior e o agravamento das alterações climáticas.

“O conhecimento científico que hoje temos não nos permite continuar a fazer mais do mesmo”, afirma o coordenador do relatório, defendendo uma transformação profunda da gestão florestal e da paisagem. O investigador sublinha que, embora a capacidade de deteção e combate aos incêndios tenha melhorado significativamente nas últimas décadas, essa evolução não tem sido suficiente para evitar grandes incêndios em anos de condições meteorológicas extremas.

O diretor do CEIF destaca ainda que 2025 voltou a demonstrar a vulnerabilidade do país, com uma época marcada por temperaturas elevadas, seca meteorológica em grande parte do território e um aumento expressivo da área ardida durante o mês de agosto.

Para a Greenpeace Portugal, o relatório pretende contribuir para que o debate sobre os incêndios deixe de depender apenas da memória de cada verão e passe a assentar numa base científica sólida. O diretor da organização, Toni Melajoki Roseiro, considera que o documento deve servir como instrumento de escrutínio das políticas públicas e apoiar decisões sobre prioridades orçamentais e estratégias de prevenção.

Já Ana Farias Fonseca, coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal, alerta que o país precisa de atuar sobre as causas estruturais dos incêndios, defendendo que a prevenção deve decorrer durante todo o ano. “Sem prevenção estrutural, o combate chegará sempre tarde demais”, afirma.

Na sequência das conclusões do estudo, a Greenpeace apresenta um conjunto de exigências dirigidas ao poder político, entre as quais uma ação climática mais ambiciosa, uma gestão estratégica da paisagem, maior envolvimento do setor privado, reforço da prevenção social das ignições, maior transparência na aplicação dos recursos públicos, revitalização económica do mundo rural e a criação de um pacto ibérico para aumentar a resiliência aos incêndios florestais.

Segundo a organização ambiental, o conhecimento acumulado ao longo de mais de 80 anos demonstra que Portugal dispõe hoje da informação necessária para alterar o paradigma da prevenção e reduzir o impacto dos grandes incêndios nas populações, na economia e nos ecossistemas.

Petição: aqui

Ler mais

A onda de calor na Europa é a mais quente e húmida de sempre

As temperaturas actuais na Europa ocidental e central teriam sido virtualmente impossíveis há 50 anos, e os níveis de humidade sem precedentes tornam esta onda de calor especialmente perigosa.
Não sou eu que o digo. É a Ciência e a Biogeografia que o dizem.

A Europa está a viver um verão histórico e extremamente severo. Após um final de junho com recordes absolutos de temperatura estilhaçados por todo o continente, com os termómetros a passarem os 41°C na Alemanha e os 44°C em França e Espanha, os modelos de previsão sazonal apontam para uma continuidade deste cenário crítico nos meses de julho e agosto.
As previsões detalhadas para as próximas semanas indicam que, em julho, haverá o retorno da crista de altas pressões. Embora os primeiros dias do mês tragam um ligeiro alívio temporário em partes da Europa Central e Ocidental devido a uma mudança de fase na Oscilação do Atlântico Norte (NAO), o calor extremo vai regenerar-se rapidamente. Em Portugal e Espanha, o IPMA e a AEMET já emitiram avisos para o início de julho, prevendo máximas entre os 40°C e os 43°C, especialmente nos vales do Tejo, Douro e Alentejo, acompanhadas de "noites tropicais" onde as mínimas não descem dos 20°C a 25°C. 
Já na segunda quinzena de julho, os modelos europeus, como o ECMWF, apontam para o regresso em força da crista de alta pressão e de um bloqueio atmosférico. Espera-se que o núcleo do calor extremo se mova ligeiramente mais para Leste, afetando severamente a Europa Central, Itália e os Balcãs, mas mantendo todo o sul do continente com temperaturas muito acima da média.
Por sua vez, as previsões para agosto desenham-se como o mês mais preocupante em termos de persistência e risco de incêndios, caracterizando-se por calor sustentado e seca. 
Os modelos de longo prazo estimam que as temperaturas globais em agosto sejam 1°C a 2°C mais quentes do que a média histórica de referência de 1991–2020, sendo que no sul da Europa e no Mediterrâneo essa anomalia pode ser ainda maior. 
A probabilidade de ocorrência de ondas de calor com temperaturas acima do normal em agosto é de 60%, esperando-se que os sistemas de alta pressão se tornem dominantes e estacionários, o que favorece períodos de calor mais longos e secos. Adicionalmente, o fator marítimo terá um papel crucial, dado que as águas do Atlântico e, muito em particular, o Mar Mediterrâneo estão a registar uma onda de calor marinha. Esta água invulgarmente quente impede o arrefecimento noturno das zonas costeiras e atua como um combustível que intensifica a sensação de abafamento e a força das massas de ar quente que sobem do Norte de África.

Relacionados

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Espanha: 'burros bombeiros' evitam há uma década incêndios em Doñana


Todos os verões, Espanha é devastada por incêndios florestais. Milhares de hectares são consumidos pelas chamas, não só devido ao calor e à seca, mas também ao abandono rural: menos pessoas, menos rebanhos e mais vegetação que cresce sem ser vigiada.

No entanto, tal como em Portugal, algumas comunidades encontraram uma solução tão antiga como eficaz – trazer de volta os burros, que caminham ao lado dos seres humanos há mais de 7.000 anos, para participar numa nova missão de combate aos incêndios florestais. Estes animais trabalham em pequenas brigadas, deslocando-se silenciosamente pela floresta, arrancando ervas daninhas e comendo-as dia após dia.

A urgência dessa missão tem vindo a aumentar. Em Agosto de 2025, cerca de 400 hectares arderam em várias regiões de Espanha, tornando-o o pior ano de incêndios florestais das últimas três décadas. A magnitude desta crise levou o governo a declarar estado de calamidade nas regiões de Castela e Leão, Galiza, Astúrias, Extremadura, Madrid e Andaluzia.

Nesse contexto, o trabalho lento e deliberado destes burros parece quase radical – um regresso a ritmos antigos para enfrentar uma crise muito moderna.

Desde cerca de 2014, 18 burros patrulham os arredores do Parque Nacional de Doñana. Pertencem todos a uma associação chamada El Burrito Feliz. O grupo resgata animais abandonados e transforma-os naquilo a que o seu presidente, Luis Manuel Bejarano, descreve como “os melhores bombeiros herbívoros”.

Mortadelo, Magallanes, Leonor, Ainoa e Ume são alguns dos recrutas do Batalhão de Burros Bombeiros de Doñana. Eles seguem um plano táctico: patrulham durante cinco horas por dia, entre Março e Novembro, ao longo de caminhos quebra-fogos assinalados por limitações que vão mudando de sítio. Todos os dias, estes burros dirigem-se à zona que lhe está atribuída, comem uma faixa de vegetação com cerca de 40 por 15 metros, bebem cerca de 30 litros de água e depois regressam para descansar. No final do dia, consumiram todo o material inflamável na área que lhes foi atribuída, diminuindo drasticamente o risco de incêndio.

A estratégia funciona. Embora Espanha enfrente incêndios florestais cada vez mais intensos, o Parque Nacional de Doñana — um refúgio essencial para aves europeias e africanas, linces ibéricos e outras espécies ameaçadas – não sofreu um único incêndio florestal nos últimos nove anos. “Os burros bombeiros tornaram-se um símbolo de eficiência”, diz Bejarano.

O seu sucesso até conquistou o apoio da unidade militar de emergência (UME), o serviço espanhol que responde a incêndios, cheias e terramotos quando os recursos civis ficam sobrecarregados. Durante uma visita ao parque, soldados da UME adoptaram um dos burros e ofereceram-lhe um pequeno capacete – igualzinho ao de um bombeiro.

Os burros não estão sozinhos no terreno. São constantemente monitorizados por voluntários do grupo ambiental Mujeres por Doñana, que fornece apoio logístico de campo, transportando água em carrinhos de mão através de áreas florestadas que não são acessíveis através de veículos.

Parece um trabalho difícil – e é –, mas da perspectiva dos burros é um paraíso. Eles podem alimentar-se à vontade durante o dia, recebem cuidados e afecto dos seus cuidadores e dos visitantes do parque e até recebem visitas como a rainha Sofia, que já passou algum tempo com a burra Leonor.

Apesar do aumento dos incêndios florestais ocorridos em Espanha nos últimos anos, o Parque Nacional de Doñana não sofreu um único incêndio nos últimos nove anos.

O que faz com que os burros sejam bons bombeiros
Ao contrário das vacas ou das ovelhas, os burros não têm um sistema digestivo complexo, o que lhes permite consumir repetidamente o mesmo alimento. Comem lenta, mas frequentemente, transformando até a erva mais rija em energia – uma adaptação perfeita para sobreviver em ambientes inóspitos. A sua dieta simples e apetite constante criam um efeito cumulativo: cada ramo que mastigam é menos combustível que arde na vaga de calor seguinte.

Especialistas em ecologia de pasto e restauro de ecossistemas, como Rosa María Canals Tresserrras, professora de ecologia de pradarias e restauro na Universidade Pública de Navarra concordam: os burros reduzem a quantidade de vegetação que serve de combustível e, consequentemente, a propagação do fogo em paisagens cada vez mais cobertas por arbustos e plantas lenhosas.

“Os burros, por exemplo, eram outrora bastante comuns, não enquanto animais que forneciam carne, mas enquanto animais de carga – para transportar mercadorias, trabalho agrícola e lavoura”, explica Canals. “A chegada dos tractores, automóveis e maquinaria substituíram-nos gradualmente. Aquela era a sua função e, como muitas coisas na vida, só nos apercebemos do seu valor depois de desaparecerem.”

A ausência de burros está a fazer-se sentir mais do que nunca noutros locais. Em algumas regiões, a ausência de herbívoros selvagens de grande porte – desde mamutes-lanudos a gado mantido em liberdade – associada ao declínio do pasto tradicional, o abandono do uso da lenha e o despovoamento rural deixaram as paisagens mais densas e secas, transformando-as em sítios onde as alterações climáticas podem funcionar como acelerador natural.

Trazer os burros de volta às zonas rurais não é apenas uma questão cultural ou simbólica, mas uma estratégia preventiva. À medida que pastam, eles criam zonas-tampão com pouco combustível em redor das aldeias e ajudam a conter os incêndios antes de estes sequer começarem.

Como outros sítios estão a seguir este exemplo
O sucesso do projecto andaluz inspirou outros. Nos anos subsequentes, comunidades rurais de Espanha começaram a replicar a ideia, adaptando-a às suas próprias paisagens. Na Catalunha, País Basco e Galiza, surgiram novas brigadas, aliando a conservação ambiental à prevenção de incêndios.

Durante milénios, o burro foi considerado o símbolo da teimosia. “Os cavalos fazem as coisas por obrigação. Os burros fazem-nas por convicção”, diz Joan Cedó, que lançou o programa Burros Bombeiros de Tivissa em 2020.

Aquilo que começou como um projecto-piloto, com três burros em dois hectares, foi crescendo até se transformar no trabalho diário de cerca de 40 animais – todos resgatados de negligência ou maus-tratos – que se dedicam a limpar cerca de 300 hectares de terrenos públicos e privados na região montanhosa de Tarragona, na Catalunha.

“Um burro pesa três vezes mais do que uma cabra, por isso, quando se desloca, destrói a vegetação de forma mais eficaz”, diz Cedó. “Um burro também come cerca de dez vezes mais do que uma cabra. Isto significa que o seu impacto diário é muito maior”.

Se têm sido tão eficazes como os seus homólogos de Doñana? “Desde que introduzimos os burros no nosso município, não tem havido incêndios florestais”, diz Cedó. Ele acha que, com mais apoio do estado, a burricada poderá crescer até alcançar 300 animais e proteger uma área muito maior.

Em Allariz, uma vila na província de Ourense, no noroeste de Espanha, os burros da Associación Andrea trabalham de forma semelhante, cuidando de cerca de mil hectares de floresta dentro de uma Reserva da Biosfera da UNESCO. O projecto começou numa aldeia abandonada, onde o grupo, colaborando com o conselho local, testou um modelo de restauro da terra: efectuando primeiro uma limpeza manual e depois mantendo o terreno limpo com a ajuda dos burros.

Com o passar do tempo, o esforço estendeu-se à zona central da reserva. Os burros vagueiam em liberdade e são monitorizados através de GPS, o que permite alertar os seus cuidadores para o caso de se desviarem para além dos limites de segurança. Podem percorrer até 19 quilómetros por dia, alimentando-se maioritariamente de arbustos pequenos – o mesmo tipo de vegetação que causa incêndios florestais.

Em todos estes anos, a área principal onde os burros pastam não ardeu uma única vez. “E neste ano, a província de Ourense foi devastada”, diz o presidente da associação, David Lema. “Nunca houvera incêndios tão grandes nesta província”.

Lema acrescenta que, embora esta nova táctica de combate aos incêndios seja bem-sucedida, a prevenção real dos incêndios depende daquilo que se cultiva nas zonas circundantes.

“A verdadeira solução reside no planeamento do uso da terra”, diz ele. “Aquilo que não pode continuar a acontecer plantarem-se espécies pirófitas, como pinheiros ou eucaliptos, em terras florestais, pois isso é uma garantia de incêndios. Embora os animais sejam uma ferramenta valiosa, não são uma solução completa – fazem parte da solução”.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Nuno Castanheira - Estar em casa no mundo como esforço ético e político



Não há outra Terra. Não há um fora. Não há cálculo cujo resultado dê certo em uma equação na qual uma economia com demandas ilimitadas se valha de recursos limitados, em um planeta finito. Por isso, é preciso repensar o significado de “estar em casa no mundo”, propõe o filósofo português Nuno Castanheira nesta entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

“Estar em casa no mundo significa fazer do mundo um lugar apropriado para habitação. A palavra-chave é 'fazer', ou seja, compreender esse 'estar em casa no mundo' como uma prática constante, um esforço ético e político que exige uma ação concertada e responsável”. E acrescenta: “As catástrofes climáticas, enquanto parte da crise ecológica, devem ser vistas como um sintoma da nossa condição de cada vez mais extrema alienação, um grito por parte da Terra e dos seus sistemas que se transformou numa espécie de último resquício daquele estranhamento que é condição da própria liberdade e que agora se encontra sob ameaça existencial, não só em termos políticos, mas até, poderíamos dizer, ontológicos”.

Discutindo o significado do Antropoceno, Castanheira observa que este sua tese fundamental reside no “fato de os impactos da atividade da humanidade sobre a Terra e os seus diversos sistemas serem de tal modo significativos – em particular nos últimos três séculos – que atingiram uma dimensão geológica, ou seja, conseguiram alterar o comportamento do sistema-Terra de tal modo que se estendem para um futuro imprevisível, possivelmente na ordem dos milhares de anos”.

Por isso, pesquisadores sustentam que saímos da época geológica do Holoceno para outra, do Antropoceno, quando “a humanidade deixaria de ser considerada apenas mais um agente entre outros, cujos impactos eram mais ou menos reversíveis no quadro dos processos terrestres, passando a ser considerada uma força geológica poderosa, determinante e consequente para os processos do sistema-Terra”. Por estarmos frente a condições absolutamente novas, o pensador propõe que retomemos o “espírito revolucionário, reafirmando uma vida comunitária baseada na liberdade e na pluralidade de perspectivas e de possibilidades que se adicionam, ao invés da monocultura política e econômica em que temos vivido, administrados e dominados por um regime com elementos totalitários, alienante, reificante e niilista”.

Confira a entrevista.

IHU – Como podemos compreender o que é o Antropoceno, suas raízes e seus desdobramentos?
Nuno Castanheira – O Antropoceno (anthropos – humano; ceno – recente, novo) é a proposta de uma nova época geológica, apresentada num curto texto publicado na Global Change Newsletter, em 2000, por dois cientistas – o holandês Paul J. Crutzen (1) (químico ambiental) e o estadunidense Eugene Stoermer (2) (ecólogo) –, a qual sucederia ao Holoceno, a época geológica atual, caracterizada, entre outras coisas, pela estabilidade climática, por temperaturas amenas, pelo recuo glacial, e pela expansão humana pela Terra. No fundo, o Holoceno designa a época caracterizada pelas condições básicas favoráveis à vida na Terra, tal como nós a conhecemos, com início há cerca de 11.600 anos.

O Antropoceno, por seu turno, tem como tese fundamental o fato de os impactos da atividade da humanidade sobre a Terra e os seus diversos sistemas serem de tal modo significativos – em particular nos últimos três séculos – que atingiram uma dimensão geológica, ou seja, conseguiram alterar o comportamento do sistema-Terra de tal modo que se estendem para um futuro imprevisível, possivelmente na ordem dos milhares de anos. Assim, segundo os referidos cientistas, tais mudanças, resultantes da atividade humana, teriam ocasionado a transição de uma época geológica, o Holoceno, para uma nova época geológica, o Antropoceno, na qual a humanidade deixaria de ser considerada apenas mais um agente entre outros, cujos impactos eram mais ou menos reversíveis no quadro dos processos terrestres, passando a ser considerada uma força geológica poderosa, determinante e consequente para os processos do sistema-Terra.

Antes de prosseguir, é preciso lembrar que esta proposta foi avaliada pelo Grupo de Trabalho Antropoceno, constituído pela Comissão Internacional de Estratigrafia, da União Internacional de Ciências Geológicas, sobre a qual recai a responsabilidade de validar eventuais alterações à escala de tempo geológico. Em 2024, a recomendação do GT Antropoceno foi no sentido de recusar a proposta de formalização do Antropoceno como época geológica.

Não obstante a relevância científica desta decisão e os inevitáveis debates que dela resultarão no contexto das ciências naturais, penso que ela não torna o conceito de Antropoceno menos importante como eixo de análise da crise ecológica e climática que vivemos. De fato, o conceito de Antropoceno revelou-se decisivo para reavivar e trazer para o debate público, quer nas universidades, quer na sociedade em geral, duas questões fundamentais e interligadas para a compreensão do significado e das implicações da crise ecológica contemporânea, a saber:

a. Será ainda possível sustentar a separação estrita, claramente aprofundada pelo dualismo e pela tecnociência característicos da Modernidade ocidental, entre sociedade e natureza, que se tornou globalmente hegemônica nos seus diferentes aspectos e abordagens – científicos, epistemológicos, éticos, políticos, econômicos, ontológicos, entre outros?

b. A que anthropos – ser humano – nos referimos quando falamos de Antropoceno e da humanidade como força geológica, responsável pela atual crise ecológica? Quais os seus pressupostos, implicações e possíveis consequências?

Na cultura ocidental, e mais marcadamente na sua manifestação moderna – tecnocientífica, matematizada, capitalista e dualista –, a separação entre natureza e sociedade foi considerada evidente por si mesma. Em tempos pré-modernos, a natureza era vista, no Ocidente, como cíclica e imutável, como uma ordem cósmica sempiterna que servia de cenário mais ou menos indiferente às comunidades humanas e às suas atividades. Em tempos modernos, a natureza tornou-se uma reserva sempre disponível e sempre abundante de material para propósitos humanos, sem finalidades próprias e desprovida de valor intrínseco. Num e no outro caso, a natureza é ética e politicamente indiferente, o Outro relativamente às sociedades humanas e às relações humanas.

Relação entre sociedade e natureza
A crise ecológica mostra-nos que a separação entre natureza e sociedade não pode ser mais tomada como evidente, tendo-se tornado, bem pelo contrário, um campo de acesa disputa ética e política. De fato, se a atividade humana se mostra cada vez mais capaz de transformar irreversivelmente a natureza e os seus processos, então a natureza foi “trazida” para a sociedade, tornou-se uma entidade ético-política e, nesse sentido, uma entidade cujas reivindicações – direta ou indiretamente consideradas – tomaram um lugar central nas disputas políticas contemporâneas.

No nosso tempo, e devido à atividade humana, os processos que decorrem entre sociedade e natureza mostram uma tal codependência que uma distinção clara entre ambas parece quase impossível de ser obtida. Longe de ser algo negativo, esse reabrir da questão acerca da relação entre sociedade e natureza é extremamente positivo, pois o reequacionar da relação pode ajudar-nos não só a compreender e, quem sabe, a resolver a crise ecológica, mas também a reavaliar a nós próprios enquanto comunidade ética e política com responsabilidades mais alargadas. E essa é uma questão que a proposta do Antropoceno ajudou a trazer a um público mais vasto.

É certo que o conceito de Antropoceno não inaugurou as reflexões críticas a respeito do dualismo sociedade/natureza e suas implicações, reflexões que estavam já presentes na área da filosofia em geral, em particular ao longo da segunda metade do século XX. Nesse período, estabeleceram-se ou ampliaram-se áreas acadêmicas como a bioética, a fenomenologia e a ética ambiental, ou perspectivas políticas como o ecofeminismo e o ecossocialismo, entre muitas outras, com nomes como Hans Jonas (3), Aldo Leopold (4), Arne Naess (5), Val Plumwood, Vandana Shiva (6), só para citar alguns, que contribuíram decisivamente não só para a crítica do dualismo, mas também para a crítica de pressupostos estruturantes da sociedade atual, exigindo a sua superação e a integração de perspectivas alternativas àquela que é, ainda hoje, a hegemônica. Não obstante, a proposta do Antropoceno como época geológica veio não só dar nova vida a esse debate no âmbito da filosofia e das ciências humanas, alargando os seus horizontes, mas também tornar mais explícito esse debate no campo das ciências naturais e do público em geral.

Universalidade abstrata da humanidade
Isto conduz-nos à segunda questão que referi antes, a questão relativa ao anthropos que constitui o Antropoceno. São conhecidas e muito variadas as críticas que o conceito de Antropoceno tem recebido ao longo dos quase 25 anos da sua existência, algumas delas que me parecem bastante justas. Uma das mais relevantes parece ser a sua contribuição para a propagação de um dos preconceitos fundadores da Modernidade ocidental, um preconceito que teve e continua a ter consequências desastrosas: a referência à humanidade como se se tratasse de um todo abstrato, politicamente neutro, indiferenciado, universal. Tal preconceito exclui ou apaga o fato de a comunidade humana ser plural nas suas manifestações políticas, históricas, culturais, éticas, econômicas, tecnológicas, nas suas formas de vida. Assim, também as responsabilidades da pluralidade constituinte da comunidade humana perante a crise ecológica são igualmente plurais e desiguais, não podendo ser tratadas como relativas a um todo homogêneo.

A pretensa universalidade abstrata da humanidade omite alguns elementos significativos. Talvez o mais relevante desses elementos seja a sua fundação numa imagem eurocêntrica, racista, classista e patriarcal do humano (masculina, branca, burguesa, etc.). O conceito de Antropoceno é acrítico relativamente a essa perspectiva despolitizada da humanidade moderna, críticas que estão espalhadas na literatura filosófica e política pelo menos desde a segunda metade do século XX até hoje. Tais críticas assinalam, em minha opinião, acertadamente o contributo significativo dessa despolitização e naturalização de uma certa imagem do humano para a legitimação e a justificação da afirmação da superioridade da cultura ocidental relativamente a outras culturas, o que conduziu à dominação colonial e imperialista, à exploração, ao racismo e, nos casos mais extremos, à escravização e mesmo ao extermínio.

Se juntarmos as mulheres e a própria natureza a essas exclusões e subalternizações constitutivas da humanidade abstrata moderna, facilmente anteveremos os riscos presentes numa adoção acrítica do conceito de Antropoceno. Certamente sem essa intenção e deixada tal como está, a humanidade referida no conceito de Antropoceno pode contribuir não só para apagar esse histórico de dominação, exploração e exclusão, mas também reproduzir os seus efeitos de forma surda e indireta, nomeadamente colocando no mesmo patamar de responsabilidades relativamente às consequências da atividade humana, por exemplo, os países do Norte Global e os países do Sul Global ou, para dar outro exemplo, o capitalismo – o modo de produção hegemônico – e formas mais tradicionais e sustentáveis de organização social e econômica. Foi no quadro dessas e de outras críticas que surgiram noções alternativas como capitaloceno, necroceno, chthuluceno, só para mencionar algumas, cujos contornos não cabe apresentar aqui, mas que contribuíram significativamente para o aprofundamento do debate sobre a proposta de uma nova época geológica e sobre as origens da crise ecológica que a subjaz.

Relevância conceitual
Uma das consequências da renovação do debate em torno da relação entre natureza e sociedade ou natureza e humanidade foi e continua a ser a necessidade de recolocar a questão: “quem é (o) humano? Quem somos nós?”, que eu já havia mencionado antes. E essa é uma questão em aberto cujo caráter político é inegável. A politização da natureza trouxe consigo a necessidade de desnaturalizar uma concepção abstrata de humanidade feita de preconceitos e exclusões (de gênero, raciais, étnicas, da natureza etc.), colocando-nos em face, nesta sociedade globalizada, da comunidade que hegemonicamente somos e, possivelmente – sublinho aqui o possivelmente –, abrindo algum espaço para um debate sério, profundo, informado e matizado sobre a comunidade que podemos, queremos, e devemos ser.

Como é óbvio, e como referi antes, não foi a proposta do Antropoceno como nova era geológica que originou tudo isto. Mas tem funcionado como um eixo de debate e disputa intelectual e política que não se esgotou ainda, não obstante a decisão da União Internacional de Ciências Geológicas. E isso mostra, em minha opinião, a continuada relevância do conceito.

IHU – Qual é a aproximação entre o Antropoceno e a noção arendtiana de ação na natureza (acting into nature)?
Nuno Castanheira – Esta seria uma resposta que exigiria uma incursão nos escritos de Hannah Arendt e algum aprofundamento não só dos seus conceitos principais, mas também um desenvolvimento interpretativo de algumas das suas teses, em particular da metodologia fenomenológica que preside às suas análises. Isso é algo que não é possível realizar neste contexto, pelo que indicarei apenas alguns dos seus elementos. Também é necessário sublinhar que, embora se trate de uma aproximação, não é mais do que isso, como espero ser capaz de mostrar seguidamente, pois as teses de Arendt (6) contêm possibilidades que nos permitem lidar com todas as críticas dirigidas ao conceito de Antropoceno e ir muito além dele.

No livro A Condição Humana, de 1958, Hannah Arendt afirma que o ser humano começou a agir na natureza, querendo com isto dizer que a ação humana, apoiada na experimentação e na tecnologia, viu alargadas de tal modo as suas capacidades que começou a desencadear processos naturais sem precedentes, imprevisíveis e irreversíveis na Terra. Traduzido em termos do conceito do Antropoceno, poderíamos dizer que a humanidade se transformou numa força geológica cuja atividade e respectivos efeitos se projetam para um futuro indeterminado.

Mas a aproximação possível da ação na natureza apontada por Arendt e o Antropoceno fica-se por aí, por diversas razões. Em primeiro lugar, embora possa parecer que Arendt subscreve o conceito abstrato de humanidade implícito no conceito de Antropoceno, a verdade é que a sua concepção de comunidade humana é, desde logo, política, plural e existencialmente concreta, e nunca deixa de o ser (não há o Homem, mas homens, diz a autora). Arendt toma o conceito abstrato de humanidade ocidental como um fato, mas não para o subscrever ou para o reproduzir acriticamente. Pelo contrário, Arendt assume-o como um fato, constituído histórica e politicamente, que nos serve de condição e com o qual temos necessariamente de lidar, dada a sua hegemonia global. Em conformidade, a pensadora procede à sua desconstrução crítica por intermédio de uma genealogia que mostra não só as suas origens e os seus limites, mas também o conjunto de exclusões sobre os quais assenta, desnaturalizando-as, apontando o caráter eminentemente político do seu processo de constituição e, assim, os fundamentos e as possibilidades da sua destituição.

Em segundo lugar, para Arendt, a pluralidade é uma condição existencial do ser humano e da liberdade humana, liberdade que ela equipara à ação, a capacidade de começar de novo, de iniciar processos sem precedentes. A comunidade humana deve ser compreendida como o espaço aberto pelo encontro paradoxal de entes singulares, únicos, livres e irrepetíveis. Como esse espaço de encontro – esse mundo – se constitui por intermédio de atos discursivos pelos quais cada um de nós aparece a outros, tudo aquilo que é descoberto no mundo é já atravessado de perspectivas, de interpretações, de significados. Cada um só é livre na medida em que a sua perspectiva ou interpretação pressupõe implicitamente a pluralidade de perspectivas ou interpretações que funda o mundo como lugar de encontro, como espaço de liberdade. Ser livre é, para cada ser humano e implicitamente, uma exigência de abertura aos outros, de deixar que sejam livres, uma reivindicação de reconhecimento de uma liberdade compartilhada, efetiva ou possível.

Assim, a noção de ser humano em que Arendt baseia as suas teses assenta numa condição de pluralidade existencialmente concreta e vivida de entidades livres, não numa abstração. Além disso, ela recusa, como contradição performativa que nega a própria liberdade, qualquer pretensão de uma perspectiva abstraída dessa condição de pluralidade existencial a impor-se sobre as outras. Dito de outro modo, qualquer tentativa de despolitizar a comunidade humana plural, naturalizando-a numa humanidade abstrata, homogênea, indiferenciada, corresponde a um ato de dominação sobre e exclusão de outros cujo resultado é a alienação do mundo e, por último, um atentado contra a integridade e dignidade próprias e alheias enquanto entidade livre.

Imprevisibilidade da ação humana
Em terceiro lugar, a tese de Arendt acerca da liberdade como sendo manifestada e articulada nos atos discursivos, num contexto existencialmente plural, implica que tudo aquilo que se dá, é descoberto, ou é encontrado nesse contexto – no mundo – é atravessado de interpretação, incluindo a natureza. Assim, a natureza é descoberta no interior do mundo, isto é, ela não é criada pelo ser humano, mas dá-se, deixa-se ver nas mais diversas interpretações ou narrativas. Ao tentarmos substituir essa espontaneidade de doação da natureza pela sua “produção” através da dominação pelo experimento e pela tecnologia, isto é, de a forçarmos a aparecer em função das imposições tecnocientíficas, homogeneizantes, excludentes e antropocêntricas da humanidade moderna, alienamo-nos das nossas próprias condições mundanas e terrestres e passamos a estar envolvidos num processo ensimesmado, autorreferencial, monocultural, protagonizado por uma interpretação abstrata que tudo quer dominar. Mas isso é apenas uma ilusão, pois o caráter imprevisível da ação humana não é aniquilado e as suas consequências deixam-se ver, mais cedo ou mais tarde.

Assim, podemos dizer que a crise ecológica – essa aparente incapacidade de estarmos em casa no mundo e na Terra, de estarmos deles alienados – é uma das consequências imprevisíveis desse processo de fechamento da humanidade de matriz ocidental sobre si mesma, de negação performativa da sua própria liberdade, um processo que, devido à sua implementação globalmente hegemônica, não só produz e reproduz um conjunto de exclusões, mas põe em risco as condições básicas de vida na Terra.

Abertura de horizontes
Por último, também é fácil de ver que, compreendendo a natureza como dada no interior de um mundo humano fundado na pluralidade de interpretações, a tese de Arendt a respeito da constituição fundamentalmente política da comunidade humana abre espaço para a constante atualização através da inclusão de perspectivas tão diferentes como aquelas que foram e são alvo dos processos de exclusão da humanidade moderna: as mulheres, os grupos racializados ou perseguidos em razão da etnia, as cosmovisões dos Povos Originários, os historicamente e politicamente desfavorecidos etc.

Resumindo, a noção arendtiana de ação na natureza, embora tenha como ponto de partida, tal como o conceito de Antropoceno, o equívoco moderno relativo à nossa capacidade de “produção” da natureza, não descansa nele, abrindo os horizontes da nossa compreensão da política e de quem somos, queremos e devemos ser enquanto comunidade de potenciais habitantes da Terra.

IHU – Qual é o nexo geral entre a crise ecológica e a alienação das diferentes sociedades? Nesse sentido, qual é a colaboração de Marcuse (8) para pensarmos essa relação?
Nuno Castanheira – Alguns dos aspectos dessa alienação já foram mencionados anteriormente, mas tentarei explicitá-los um pouco melhor. Inspirado por Arendt, costumo usar uma definição de trabalho de “crise ecológica” como o índice de uma experiência de crise multidimensional envolvendo a ética, a política, a economia, o direito, o conhecimento, das instituições, do ambiente, do clima, da natureza, normativa etc. No fundo, trata-se da experiência de uma crise generalizada e indefinida, com manifestações nos mais diversos quadrantes da vida humana. Trata-se de uma aparente incapacidade de estarmos em casa, de habitarmos de forma equilibrada, não destruidora e mais ou menos estável, um mundo que nós mesmos criamos e que está enraizado na Terra como sua condição mais essencial.

Como referi antes quando falei sobre a alienação do mundo e da Terra, a alienação refere algum tipo de relação entre termos que copertencem, mas que se encontram problemática e mesmo patologicamente separados. A crise ecológica é, no meu entender, a manifestação contemporânea dessa patologia social na sua forma globalizada. Mais concretamente, a crise ecológica é a manifestação de uma recusa patológica da dependência do ser humano (de matriz ocidental) relativamente a condições dadas – sejam essas condições a presença de outros, a natureza, ou a Terra como oferecendo as condições básicas para a vida tal como a conhecemos, a humana incluída. Como procurei explicar antes, reconhecer-se como entidade condicionada, dependente de algo que não foi criado pelo ser humano ou mesmo por coisas humanamente criadas, não significa perda de liberdade, mas justamente o contrário: é o reconhecimento da pluralidade que funda a nossa liberdade e que se constitui como vínculo não só entre humanos e o mundo humano, mas também com a própria Terra como condição de todas as condições.

Não posso entrar aqui em muitos pormenores, mas essa alienação marca particularmente a sociedade de matriz ocidental, encontrando a sua expressão patologicamente mais significativa no capitalismo compreendido não só como forma econômica, mas como modo de produção, organização e reprodução de vida que se tornou autorreferencial, se autonomizou e se transformou num sujeito totalizante e desvinculado da vida humana concreta. Basta vermos o modo como somos governados pelos “estados de espírito” do mercado para termos noção da sua transformação num sujeito autônomo, com aparente vida própria, para o qual as restantes vidas são meras funções reificadas da sua subsistência.

De fato, o capitalismo relaciona-se com a Terra e com tudo o que nela encontra – incluindo pessoas – como recursos inesgotáveis de matéria-prima para o processo de produção de riqueza, isto é, de sustentação de si mesmo, tratando todos os limites ou condições como barreiras a serem ultrapassadas. Ou seja, trata-se de um processo de assimilação de tudo aquilo que é outro, ocasionando a sua exclusão ou mesmo destruição, consumindo-o. E isso é, como já vimos, altamente problemático, pois a pluralidade e alteridade são condições constitutivas de tudo o que existe, incluindo o humano, e o seu reconhecimento é uma exigência que deve acompanhar toda a atividade humana.
Alienação sistematicamente produzida

Uma das múltiplas manifestações dessa alteridade que escapa ao controle, à assimilação e à dominação total é a “natureza”, esse Outro que não criamos, que nem sabemos bem o que é, que é objeto de interpretações divergentes, mas do qual inevitavelmente dependemos, seja qual for a interpretação que tenhamos dele. Assim, o sucesso total na dominação da “natureza” só se obtém por via da sua destruição total, resultando paradoxalmente na destruição do próprio ser humano.

Há um óbvio niilismo em tudo isto, um processo patológico de destruição que se revela absurdo e que, no entanto, está bem presente nas disputas sociais e políticas contemporâneas. Por exemplo, todos os acordos políticos estabelecendo metas para redução da temperatura global, em face da ameaça existencial posta pelas mudanças climáticas, são imediatamente acompanhados por racionalizações que adiam ou mesmo cancelam medidas significativas de combate ou mitigação em nome das demandas da economia e do mercado, não obstante as suas consequências desastrosas. Olhar para este processo como resultado exclusivo da mera ganância de uns poucos – o que também é – é não atender ao fato de operar contra todo e qualquer interesse na própria sobrevivência, é menosprezar o seu caráter patologicamente niilista e autonomizado.

Tal como Arendt, Herbert Marcuse assinalou que todos partimos de condições dadas ou de pré-condições e que isso não é necessariamente problemático, constituindo o ponto de partida de qualquer processo crítico e emancipatório. O problema não é tanto uma certa dose de alienação (que é um fato da existência humana, o fato de sermos condicionados por uma situação que não criamos e que nos é estranha), mas aquilo a que ele chama, numa tradução livre, “excesso de alienação”, a alienação sistematicamente produzida e imposta pelos processos autônomos de preservação de si da sociedade existente, visando manter o status quo à custa da repressão, da desumanização, da exploração, e da destruição sistemáticas. É contra essa que devemos dirigir os nossos esforços críticos e a nossa ação coletiva.

IHU – O poder público que assiste inativo ou com adesão subdimensionada e insuficiente às catástrofes climáticas como a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul é o mesmo que é responsável pelo bem-estar das comunidades que o elegeram. Qual é a sua percepção sobre o papel dos entes públicos sobre outras formas de condução da relação ser humano/meio ambiente?
Nuno Castanheira – Bom, parece-me evidente que o poder público contemporâneo – internacional, nacional, estadual etc. – parte dos pressupostos da perspectiva hegemônica, isto é, da perspectiva de humanidade moderna e abstrata que referi antes, pois é ela que serve de base não só às democracias representativas e às suas instituições, mas à própria ordem internacional e suas normas de alcance global também.

Antes de prosseguir, eu desejo esclarecer uma coisa: quando me refiro criticamente à modernidade ocidental, não pretendo dizer que tudo o que saiu dela é ruim e que deve ser descartada sem reservas. As coisas são mais complexas: somos entidades finitas, quer em tempo de vida, quer em conhecimento, e isso implica que são raras as coisas em que estamos envolvidos que não sejam, pelo menos potencialmente, entrelaçamentos do bom e do mau. Assim, a tarefa é tentar não jogar o bebê fora com a água do banho, o que nem sempre é fácil e raramente se obtém sem esforço significativo.

Dito isto, parece-me que a racionalidade econômica, de matriz capitalista, e todas as suas ramificações constituem a interpretação hegemônica daquilo a que podemos chamar, na falta de melhor termo, de interesse comum, seja ou não válida essa pretensão (não me parece que seja). O problema é que essa racionalidade há muito assumiu contornos ideológicos, em sentido arendtiano: ela desvinculou-se das condições concretas e, em face das dificuldades que tem em dar conta do mundo concreto, alienou-se dele, começou não só a criar um “mundo” próprio – para o qual serve de explicação total, dado que não tem de lidar com os fatos –, mas também a destruir tudo aquilo que lhe resiste.

Se considerarmos o significado mais geral da palavra “responsabilidade” – responder a, responder por, prometer –, facilmente verificaremos que o seu comportamento é, genericamente falando, irresponsável: não responde à sua situação concreta; não responde por si nem por quem representa; e não promete, isto é, não é capaz de oferecer garantias não só de que a sua atividade reconhece e respeita as condições do mundo atual, mas também que é limitada pela possibilidade de existência de um mundo futuro.
Responsabilização do poder público

Essa parece ser a lógica que preside a boa parte da ação dos protagonistas do poder público, à sua compreensão do papel das instituições públicas, e dos desejos e necessidades das populações que representam. Não falo aqui de intenções perversas, de defesa encapotada de interesses privados, de corrupção e afins. Essa seria uma outra conversa, não menos importante e certamente relacionada, mas que escapa ao âmbito daquilo que aqui nos interessa. Falo, isso sim, de uma lógica que colonizou as nossas mentes e que comanda a nossa ação, em particular, as mentes e a ação de quem nos governa. Mais: historicamente, essa lógica é reforçada pelo recurso a uma qualquer força sobre-humana – leis da história, leis da natureza etc. –, perante a qual se afirma a nossa impotência, procurando assim legitimar a irresponsabilidade e a desculpabilização dos agentes morais e políticos. No caso das enchentes, as mudanças climáticas e os eventos extremos assumiram esse papel de força sobre-humana que está na base de todos os processos de desresponsabilização e desculpabilização. As mudanças climáticas são de tal ordem, diz-se, que pouco ou nada podemos fazer.

Sabemos que essa não é toda a verdade. Relativamente ao município de Porto Alegre, foram várias as manifestações de cientistas, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, sublinhando a necessidade de atender ao sistema de retenção de águas. Possivelmente em consequência dessas denúncias, foi noticiado recentemente que está em curso uma ação do Ministério Público do Rio Grande do Sul contra a Prefeitura da cidade por incumprimento do dever de proteção da população, nomeadamente por falta de ações de vigilância, monitoramento e manutenção do Sistema de Proteção contra Cheias. Desconhece-se ainda o desfecho desse processo, mas ele mostra que o problema é bem mais complexo, muitas vezes relacionado com a secundarização de opções de investimento que não dão lucro, que não geram mais-valia, que não correspondem à lógica totalizante do capital.

Assim, é importante que o poder público seja colocado no banco dos réus e que os seus protagonistas sejam forçados pela justiça humana a responder pelas suas ações ou omissões, pelas suas escolhas e decisões. Mais do que um mero revanchismo, esse tipo de processos visa colocar a ação humana no poderoso lugar que ela descobriu como seu, exigindo dos agentes a responsabilidade correspondente. Visa também reivindicar, por parte dos poderes públicos, um exercício de autocrítica, de análise dos seus pontos cegos, dos seus pressupostos, que faça uso do melhor conhecimento disponível, que se distancie da lógica economicista alienada e alienante que preside às suas decisões.

Apelo à responsabilidade
É fundamental, também, que a população esteja atenta, que seja mais exigente e que participe na gestão da coisa pública, que se reúna em espaços além das redes sociais e das suas interações alienadas e reificadas, que se organize e debata as suas visões divergentes de modo aberto, informado e respeitador das diferenças. É importante compreendermos que, embora seja verdade que lidamos com uma crise ecológica, esta não deve ser vista apenas como uma força onipotente contra a qual nada podemos fazer. Ela tem origem na ação humana sobre a Terra e os seus sistemas, orientada por uma perspectiva hegemônica que tem de ser chamada à responsabilidade.

Se não podemos alterar o fato de a crise ecológica estar aí e de se ter tornado condição da nossa existência, podemos e temos de assumir a nossa responsabilidade coletiva e lidar com ela, não encontrar desculpas ou subterfúgios para escapar a esse enfrentamento. E o apelo à responsabilidade, que serve para todos nós, serve mais ainda para os poderes públicos, que têm nas suas mãos capacidades legislativas, poderes de licenciamento, de gestão territorial etc., para os quais têm de encontrar referenciais de orientação alternativos àqueles que nos conduziram à atual situação. Ou seja, têm responsabilidades acrescidas, embora não exclusivas, na atualização e renovação do significado de quem somos, quem queremos ser, e quem devemos ser enquanto comunidade política.

IHU – Ainda podemos nos sentir “em casa no mundo” frente às catástrofes climáticas que têm se proliferado nos últimos anos? Que alternativas nos ajudam a delinear outras formas de vida?
Nuno Castanheira – Penso que sim, mas teremos de reconsiderar o que significa “estar em casa no mundo”. Estar em casa no mundo significa fazer do mundo um lugar apropriado para habitação. A palavra-chave é “fazer”, ou seja, compreender esse “estar em casa no mundo” como uma prática constante, um esforço ético e político que exige uma ação concertada e responsável.

Esse desafio estava presente, de forma talvez agora excessivamente esquecida e certamente mais limitada, nas origens gregas da própria palavra “ética”, que nos remetia para um lugar de abrigo, um espaço a que se está acostumado, que nos é familiar, habitual, sentidos que foram internalizados em certas disposições habituais ou naquilo que chamamos caráter. A ética e a política concretizam-se, neste sentido, numa disposição prática constante e estável que procura conferir sentido não só ao nosso entorno, tornando-o uma “casa” apropriada para habitação, mas também constituir quem nós somos, o nosso caráter. Temos, então, essa experiência inter-relacionada e indissociável de um agente que se constitui em relação com outros e com o mundo, tentando fazer dele a sua casa. Nesse sentido, a crise ecológica reflete uma crise ética e política, uma crise dos modos de habitar, das nossas práticas hegemônicas costumeiras, dos nossos comportamentos e das normas que os determinam e estimulam.

Mas, para podermos dispor-nos a constituir e a habitar o mundo, não podemos estar de tal modo assimilados às suas normas e determinações que nos dissolvemos nele e nos tornamos idênticos a ele. Para Arendt, os seres humanos são estranhos num mundo com o qual têm de se reconciliar, o qual têm de constituir num lar, tarefa que se revela sempre inacabada, sempre por fazer e como a fazer. Para isso, é necessário que essa experiência de estranheza – de uma certa alienação sentida por quem é uma espécie de recém-chegado ao mundo – não seja eliminada, administrada ou domesticada pelas imposições do mundo existente. Para Marcuse, tal como para Arendt, esse é um dos riscos da sociedade contemporânea, um risco escondido pelas suas promessas de libertação através da tecnologia, que tomam cada vez mais o lugar de uma libertação por via política.

Em O Homem Unidimensional, Marcuse escreve que a promessa da civilização tecnológica e industrial é uma promessa de libertação das energias individuais para um reino de liberdade e autonomia, alcançado por via da organização centralizada do aparelho produtivo no sentido da satisfação das necessidades vitais. No entanto, aquilo que prometia ser a condição de possibilidade de autonomia humana, promovido pela racionalidade tecnológica, revelou algumas tendências totalitárias, no sentido de uma coordenação técnica e econômica que cria, administra e satisfaz necessidades ao serviço não da libertação das pessoas, mas da sua autopreservação enquanto sistema.

Hoje, mais do que nunca, esta tendência parece estar presente na sociedade, com a emergência da governamentalidade algorítmica e a sua capacidade de se dirigir aos indivíduos e suas aparentes “necessidades” específicas, colonizando a espontaneidade dos seus desejos e aspirações e neutralizando qualquer tipo de emergência de oposição ao sistema. Ou seja, estamos perdendo gradualmente, mas de forma cada vez mais acelerada, a capacidade de experienciarmos algum tipo de estranheza em relação ao mundo, esse sentimento de alienação relativamente a pré-condicionamentos que nos foram impostos, sentimento que é constitutivo da experiência humana e condição de toda a libertação, compreendida como uma atualização das condições individuais e coletivas de vida e de coexistência.

Numa sociedade de produção e consumo como aquela em que vivemos, o processo de produção e satisfação de necessidades da sociedade existente não só se acelerou, como está cada vez mais autônomo e apostado na gratificação instantânea, momento em que as “dores e penas” do trabalho, como lhes chama Arendt – do processo de satisfação de necessidades – serão substituídas pelo deleite no consumo, pelo trabalho plenamente identificado com o lazer. Esse será o momento em que todos nos transformamos em objetos de administração total por parte de uma racionalidade econômica e tecnológica que aprendeu a neutralizar toda e qualquer consciência de sujeição e de dominação. É também o momento em que passamos da experiência fundamental de um certo estranhamento ou alienação relativamente a uma situação social, econômica e política preexistente que se impõe a nós para uma alienação total relativamente ao mundo, à Terra e seus limites básicos, e a nós próprios, de caráter destrutivo. Em suma, de uma total incapacidade de estar em casa no mundo e na Terra.

Não há outra Terra
Até aqui, o modo predominante de lidar com a crise ecológica tem sido a sua sujeição às leis e necessidades do mercado e do sistema capitalista tecnologicamente administrado, que tende ao escapismo, à desculpabilização e à destruição niilistas sempre que as suas exigências não são correspondidas. Não podemos contentar-nos com isso. As catástrofes climáticas, enquanto parte da crise ecológica, devem ser vistas como um sintoma da nossa condição de cada vez mais extrema alienação, um grito por parte da Terra e dos seus sistemas que se transformou numa espécie de último resquício daquele estranhamento que é condição da própria liberdade e que agora se encontra sob ameaça existencial, não só em termos políticos, mas até, poderíamos dizer, ontológicos.

Sermos ou não capazes de estar em casa no mundo vai depender da nossa resposta a essa reivindicação que nos chega da Terra e que dá conta da nossa própria alienação. A insistência no sistema e na lógica que esteve na origem da crise ecológica produz uma resposta irresponsável e niilista, como já referi, sustentada por uma complacência relativamente aos condicionamentos existentes e em mecanismos gastos e destrutivos, em vez de no esforço prático – ético e político – de transformação e atualização ética, política, econômica das nossas condições de vida, em face a uma situação sem precedentes.

Correndo o risco da simplificação excessiva, estar em casa no mundo e na Terra não é diferente de habitar a nossa própria casa (para quem tem a felicidade de ter uma): se formos complacentes, se deixarmos de cuidar dela diariamente, de a limpar e atender às suas necessidades estruturais, ela vai-se degradando e, eventualmente, desaba nas nossas cabeças. É certo que há quem possa dar-se ao luxo de pura e simplesmente trocar de casa, deixando os escombros do consumo irresponsável atrás de si para que os que vierem depois. A grande diferença no que respeita à Terra é que não há outra. Essa não deveria ser a única razão para assumirmos perante ela uma atitude responsável e fazermos o esforço de nos libertarmos das garras de um modo de habitação alienante e que, em última análise, nos vai deixar desalojados. No entanto, se apenas o interesse próprio for motivação suficiente, que façamos pelo menos o esforço de o identificar, em vez de nos entregarmos aos automatismos reconfortantes e alienados da gratificação instantânea, produzidos por um sistema aparentemente apostado na nossa destruição individual e coletiva.

Retomar o espírito revolucionário
Os caminhos alternativos estão por construir, não há respostas prontas, ainda menos para uma situação sem precedentes. A primeira coisa é romper com a perspectiva dominante, disputar a sua hegemonia. Para isso, temos bastantes recursos, propostas e experiências: temos a via ecossocialista, a via ecofeminista, a escuta e o trabalho com os Povos Originários, suas experiências, cosmovisões e formas de vida, as experiências comunais, o conhecimento ecológico e cada vez mais integrado dos sistemas naturais e seus diferentes habitantes, as diferentes reflexões sobre e experiências históricas das fundações da ética e da política, os diversos modos de conceber as relações econômicas e as suas finalidades, e por aí afora. Nenhuma delas será a resposta definitiva, mas todas elas certamente contribuirão com elementos para encontrarmos um novo caminho, uma nova experiência de vida em comunidade.

Temos, acima de tudo, a possibilidade de revolucionar as nossas formas de viver e de pensar, de conceber o nosso espaço de coexistência e, para tudo isso, não faltam recursos, falta apenas vontade, esforço e coragem política para aceitar a pluralidade como condição básica de vida na Terra, agir politicamente a partir dela sem cair em relativismos ou nas fórmulas velhas e gastas que nos conduziram à atual situação. Arendt diz que o tesouro escondido das revoluções são as comunas, os conselhos revolucionários, lugares de emergência da liberdade no encontro da pluralidade de agentes livres e suas diferentes perspectivas sobre o mundo, as quais, através do debate, se põem em questão, experimentando os seus limites, se educam mutuamente, renovando e alargando o seu potencial coletivo para lidarem com o inesperado, com o absolutamente novo. Estamos diante de condições absolutamente novas, talvez seja necessário retomar esse espírito revolucionário, reafirmando uma vida comunitária baseada na liberdade e na pluralidade de perspectivas e de possibilidades que se adicionam, em vez da monocultura política e econômica em que temos vivido, administrados e dominados por um regime com elementos totalitários, alienante, reificante e niilista.

IHU – Qual é a contribuição da Filosofia para pensarmos um outro paradigma civilizacional que problematize o Antropoceno?
Nuno Castanheira – Responderei de forma muito breve a esta questão. Infelizmente, temos testemunhado que a filosofia está sob ataque proveniente de diversos quadrantes: de forças reacionárias que temem a sua capacidade crítica e o seu poder de inspirar a mudança política e procuram substituí-la por receituários já prontos de comportamento e pensamento; de forças menos conspícuas, mas talvez mais perigosas, que procuram submetê-la aos ditames da racionalidade economicista e tecnológica e da sua pulsão produtivista, neutralizando o seu caráter subversivo e transformando-a em mera forma de legitimação e justificação da perspectiva hegemônica. Seja qual for a via seguida, o único resultado visível é a manutenção da sujeição individual e coletiva ao status quo.

No que me diz respeito, a filosofia – e a atividade de pensar, genericamente falando – pode e deve contribuir não esquecendo a sua vocação ético-política original, a saber, ser uma prática crítica do que se apresenta como evidente e indiscutível, mostrando as suas contradições e limites, abrindo novos horizontes não por meio do fornecimento de respostas prontas, mas através da destruição dos preconceitos que impedem o aparecimento do novo, ao mesmo tempo que excluem ou invisibilizam perspectivas e formas alternativas de compreender a nossa situação existencial.

Nesse sentido, a filosofia não pode esquecer o seu passado, mas também não pode ficar prisioneira dele. Tem, consequentemente, de tudo fazer para o preservar, não apenas no sentido de registrar a sua própria história, mas também no sentido de fazer com que esta não seja percebida apenas como letra morta, incapaz de falar aos vivos. Essa relação com o seu passado tem de responder às reivindicações e condições do presente, pois só assim a filosofia será capaz de integrar novos contributos, perspectivas e problemas, de mostrar a sua relevância e de se atualizar, projetando-se um futuro de possibilidades sempre renovadas e abertas ao imprevisível que é o traço constitutivo da condição de crise ecológica, cujas consequências, dispersas num tempo de dimensões geológicas, são impossíveis de predizer.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

Reinterpretar o fogo num tempo que extraiu dele um novo Adamastor


Este país, que durante séculos se pensou pelo mar, hoje vê-se encerrado pelo fogo, e com a extensão crescente da área ardida, se tantos vulgarizam o apelo da indignação, fica claro como esta apenas serve para ocultar um ajuste de contas, uma consciência da realidade que emerge pelo fogo, lavrando a cada verão como o grito de um território e de uma população abandonados

Dantes era o mar, esse elemento de expansão e ligação com o mundo, espelho convulso que nos abismava diante do desconhecido, um horizonte líquido e que prometia passagem, mas se este limite aberto recuou para a margem da memória, hoje é a orla flamejante que devora pinhais e eucaliptais a cada verão e nos convoca para um espectáculo de impotência e despossessão, é o fogo o elemento que mais nos acossa, capturando-nos, dançando ao nosso redor e pintando um inferno em cerco. Se o mar foi, outrora, uma promessa e um sustento, se nos treinou para a distância, para o conhecimento dos ventos, do risco e da deriva, desse antigo mar da História o que resta? Eduardo Lourenço notou como este banhava já «sem paixão o promontório sacro, donde outrora investimos o Desconhecido para hoje ainda, por esse gesto, termos no silêncio expectante de uma memória que nos julga na sua luz imperecível um rosto e um nome que são os nossos por nós sermos deles». Outro elemento reemerge agora para nos entregar a esse resíduo final dos tempos, e conseguimos ouvir-lhe o murmúrio sobre a terra, os picos desses fogos, o ar que de súbito nos enclausura. Se antes nos pensávamos pelo mar, hoje parece ser o fogo que pensa em nós, pensa por nós, nos força a imaginar um mundo em que já não controlamos nada, mas somos o alvo constante da predação de elementos sobre-excitados, que avançam sobre nós como titãs, arrasando tudo à sua passagem. O fogo deixa, assim, de ser uma arma, a nossa primeira técnica ou indústria, e liberta-se dessa chama que se deixava contemplar, tornando-se uma muralha móvel, inferno imediato, que atravessa aldeias e compromete tudo. Parece, assim, romper com esse delírio empobrecido, essa lúgubre fantasia do quotidiano, e instala um excesso de realidade que consome a própria imaginação. O fogo deixa de ser símbolo e torna-se destino.

O historiador do ambiente Stephen J. Pyne diz que, num clima que era já propício a incêndios, as alterações climáticas e as mudanças no uso da terra, nomeadamente através da agricultura intensiva e de outras formas de exploração que apenas acumulam combustível, entrámos na era do Piroceno. Pela leitura do livro com este mesmo título, publicado entre nós pela Livros Zigurate, com tradução de Sara I. Veiga, fica claro que não se trata de um termo ostentoso ou de uma metáfora escandalosa, mas serve antes como um diagnóstico civilizacional: a história humana pode ser lida como uma história do fogo, e o tempo presente como a sua culminação mais ambígua. Desde o início, o Homo sapiens é um animal pirotécnico, distinguindo-se de todas as outras espécies pela capacidade de dominar a combustão e de a usar como extensão do corpo e da comunidade. O fogo alimentou as cozinhas e os mitos, abriu clareiras nas florestas, forjou ferramentas e territórios, e, sobretudo, instaurou uma ecologia artificial, uma ecologia do fogo, onde natureza e cultura se confundem. Assim, ao invés de propor algum rótulo geológico, o que Pyne nos oferece é uma cronologia que nos permite actualizar algumas noções decisivas. Se o Holoceno foi a idade da estabilidade climática e o Antropoceno a era em que o humano se tornou força geológica, o Piroceno é a idade em que o fogo industrial, liberto dos limites ecológicos, passou a governar. Ao queimar os combustíveis fósseis para alimentar esse estado de crisálida constante das sociedades modernas, absorvidas na mitologia do progresso, e cada vez mais alheadas da ecologia planetária, é o fogo, esse elemento que parecia condenado a tornar-se apenas metáfora ou resíduo, que regressa para nos sacudir deste estupor. Como se Prometeu tivesse finalmente partido os grilhões e viesse cobrar a dívida acumulada de séculos.

Pyne propõe, assim, uma tripla articulação: primeiro, o fogo natural, produto da fulguração terrestre, dos raios, das erupções, do acaso atmosférico; depois, o fogo cultivado, domesticado pelos humanos, agente de agricultura, de expansão, de conquista de espaços; por fim, o fogo fóssil, aquele que, desde a Revolução Industrial, escava os subterrâneos do planeta e liberta, de modo concentrado e inédito, a energia acumulada em eras geológicas. Essa última combustão – carvão, petróleo, gás natural – é a que funda o Piroceno: um tempo em que a humanidade queimou o passado fossilizado para inflamar o presente, convertendo o planeta num imenso campo de cinzas.

Sacrifício total
Deste ponto de vista, o Piroceno é simultaneamente técnico, climático e político. Não se trata apenas de incêndios florestais devastadores, cada vez mais frequentes, mas de uma mudança estrutural na relação entre as sociedades e fogo. O regime energético fóssil multiplicou a potência do fogo para lá de qualquer contenção cultural ou ecológica: onde antes havia ciclos, práticas de manejo, rituais de controlo, agora há uma combustão que não pode ser detida senão pelo esgotamento da própria matéria-prima ou pelo colapso climático. As chamas que ardem na Califórnia, na Amazónia, no Mediterrâneo ou na Austrália, são apenas sintomas localizados de uma pirotecnia global que revela o parasitismo na atitude que temos para com o planeta.

Assim, aquele fogo vivo que os povos indígenas sabiam cultivar, de tal modo que mesmo os campos de cevada pareciam inspirados nele, aproveitando-lhe o eco, deu lugar a esta irrupção descontrolada e que denuncia a lógica de supressão, fazendo nascer esse fogo que parece tomado de um ânimo vingativo, vindo reclamar com juros tudo o que lhe é devido. Neste quadro, já sem colónias nem extensões além-mar, Portugal parece recair uma vez mais nos seus vícios seculares, na tendência para a ruína que sempre nos acompanhou, vendo-se comprometido face à intriga cobiçosa que Camões já denunciara através do Velho do Restelo, cultivando as espécies mais rendosas e que mais o fragilizam. Se antes tínhamos uma agricultura que criava mosaicos, hoje deixamos apenas combustível acumulado à espera de uma faísca. Assim, não há ano em que o verão não seja atravessado pela expectativa do desastre, pelas imagens das chamas colossais, das colunas de fumo, aldeias evacuadas, cinzas a cair como uma neve sinistra. Aos poucos, o mar já não é a imagem central, mas é o fogo que molda a percepção contemporânea de um país ciclicamente em chamas, laboratório de uma era em que a paisagem se torna pira.

Quando o fogo devorar a terra inteira, se algo lhe sobreviver, talvez se diga que começou por aqui. Mas, por agora, o colapso é também da narração, pois sempre que essa coreografia macabra dos nossos verões se instala, com ela surgem os chavões e o tom enfático daqueles que preenchem os directos televisivos e que simulam o escândalo, uma má-consciência em pó para misturar em qualquer beberagem, e, para além disso, também os relatórios ministeriais e as sucessivas promessas de maiores investimentos, da afectação de mais recursos para o combate aos fogos, a criminalização, a prevenção. Por detrás de toda esta coreografia lateja uma falha de imaginação, enquanto o mais fácil continua a ser figurar o fogo como inimigo absoluto, sonhando-se a utopia de uma paisagem sem combustão. Quer-se negar os ciclos, a transitoriedade, e esse elemento de alquimia natural que o fogo providencia. Ao expulsá-lo, apenas se consegue alimentá-lo. Ao querer extinguir inteiramente as chamas, prepara-se o sacrifício total. Eis-nos, assim, diante desse Adamastor de brasas, que faz de nós mirrados argonautas de um século que nos atemoriza, sem bússola nem um verdadeiro anseio de qualquer espécie. Vemos emergir esse colosso no modo como as chamas serram ao vento, as brasas empalidecem e logo se adensam ainda mais, uma e outra vez, como o pulsar do sangue de um ser vivo eviscerado, e que se reergue, vingativo. «Assim, contemplamos o fogo que contém em si algo dos próprios homens, que são menos sem ele, estão apartados das suas origens e são exilados. Porque cada fogo é todos os fogos, e é o primeiro fogo e o último» (Cormac McCarthy). São estas as representações que emergem a partir do momento em que se quer fazer do fogo esse inimigo terrível, não nos deixando senão a hipótese de encarar o próprio futuro como um fogo devorador, que nos deixará reduzidos ao próprio fóssil da civilização que erguemos. «A imagem mais viva do inferno./ Eis o fogo em todos seus vícios:/ eis a ópera, o ódio, o energúmeno,/ a voz rouca de fera em cio», escreve João Cabral de Melo Neto.

E poderíamos levar bem mais longe este vitral em combustão, esta catedral consumida pelas chamas, como um imaginário que subitamente se propagasse também ele, sujeito ao mesmo clarão, sentindo o impulso de um deus convocado a partir das entranhas da terra. Ver-nos-emos assim cercados por «monstros sem ordem génios galopando na respiração estrelada dos meus pulmões», para trazer aqui uns versos de Ernesto Sampaio. «Olhar suculento mestre do horror e da audácia gelada em cada canto em cada flor de fumo colada aos ossos dum horizonte inocente e inesgotável/ Poeira dum astro pré-existente ao nosso espiral dos dias que estreitamos puros tripas da raiva vegetal que embrulhamos em cada palavra/ Fogo perpétuo fruto espantoso de bandeiras negras e vermelhas comboio que esmaga e canta e ninguém deterá».

Íntimo e universal
De qualquer modo, o ponto central e a advertência que colhemos nas páginas do livro de Pyne é de que esta ideologia da supressão do fogo está fadada ao fracasso. Enquanto isso, e para não comprometer os lucros, continua a acumular-se combustível, e o interior do país vê-se transformado num barril de pólvora. Ao suprimir as queimadas, esses fogos quase rituais que controlam a dispersão do mato, incubámos o tal monstro que depois só é travado quando toda a matéria que tinha à sua disposição para se alimentar foi consumida. O resultado é o que vemos verão após verão: esses incêndios imensos, tragédias como as de Pedrógão Grande, um país incinerado e que se tornou uma espécie de entretenimento televisivo para os que, nas cidades, se sentem defendidos. E o país aceita esta condição de epicentro do Piroceno, um país-vitrine do que acontece quando uma cultura deixa de integrar o fogo no seu regime ecológico e o relega apenas para o desastre.

Há aqui uma lição mais profunda, e que nos puxa para essa relação tão próxima com o fogo, sendo este, segundo Gaston Bachelard o elemento ultra-vivo. «É íntimo e é universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Ergue-se das profundezas da substância e oferece-se com o calor do amor. Ou pode descer de novo à substância e ocultar-se aí, latente e represado, como o ódio e a vingança. Entre todos os fenómenos, é de facto o único a que se podem atribuir com tanta nitidez os valores opostos do bem e do mal. Brilha no Paraíso. Arde no Inferno. É brandura e é tormento. É cozinha e é apocalipse.» Mesmo essa imagem de um cigarro aceso junto ao rosto, iluminando-o, admite esse ígneo impulso, esse anseio contemplativo, tão bem cultivado por estes versos da poeta russa Marina Tsvetáieva: «O cigarro arde e apaga-se,/ na sua ponta treme,/ como um poste consumido – a cinza./ Dá-te preguiça sacudi-la –/ o cigarro inteiro atravessado pelo fogo.»

Num tempo em que, diante dos avanços científicos, tudo, e até a religião, merece o seu sarcasmo, o fogo parece atravessar-se como um elemento ancestral, que vem escarnecer da prepotência que nos entregou a um estado de fragilidade absurda, colocando-nos à mercê dos elementos, e, desde logo, ao lado insano e impiedoso do fogo, que em mitologias antigas aparecia como dádiva divina, e agora surge como um Prometeu invertido. Atrás das noites, o incêndio corta pelo meio, como flor terrível que se abre no escuro. As ondas de calor mortíferas, os incêndios que acabarão por cercas as cidades, lembram teatros de guerra, e deixam claro como a criatura pirotécnica perdeu o seu pacto com a chama. Já não a domina. O Antropoceno, dito de outro modo, não é senão a face geológica do Piroceno: o homem imprime na Terra a assinatura do fogo que libertou.

Contudo, isto marca também uma cisão dentro da espécie, uma vez que, para boa parte dela, a humanidade se foi tornando em qualquer coisa de odioso. Podemos pressentir como já trazíamos o incêndio na cabeça, como um ensejo secreto de devastação de uma realidade absurdamente profana, e este já não seria justamente um país de marinheiros ou navegantes, mas de incendiários, uma vez que quem se sente queimado, devastado interiormente, toca tudo com essa ferida que anseia por degradar a envolvência, participando do horror que o consome. Nesta orla vã desfeita em que o país se transformou, condenando todos a sentirem-se estranhos à sua própria terra, é realmente de espantar que venha alguém lançar fogo à paisagem? Não é a absoluta impotência e o desvario dos sentidos que sopra intimamente uma fúria elementar, «como se um fogo celestial tornasse/ seu, de um instante para outro, os mais estranhos objectos,/ assim consagrando um intervalo/ de outro modo inconsequente// por nos dar grandeza e glória,/ ou até amor.» (Sylvia Plath).

Entre nós, quem levou mais longe esta denúncia foi certamente Manuel Bivar, que este ano assinou, com Sofia da Pala Rodrigues, a reportagem ‘País de Incendiários’, um podcast de investigação da revista Divergente, e que, no país com mais área ardida da União Europeia, vem por fim preencher uma lacuna estarrecedora, esforçando-se por nos dar a conhecer o contexto e as motivações daqueles que fazem arder Portugal. Antes desta investigação, Bivar tinha já publicado, em 2021, A Charca, livro que, apesar das suas quatro edições, continua a não ter qualquer eco nos nossos órgãos de imprensa. Assim, talvez seja desculpável que seja o seu editor a fazer esta chamada de atenção, reproduzindo aqui um excerto: «Dizem os psicanalistas que os ascetas, os pastores, os puritanos, não eliminando o esperma, se tornam possessos e puxam fogo. Mas ele não concordava com estas teorias da psicanálise. Ele odiava psicanálise. Puxam fogo porque são desgraçados, porque se sentem revoltados e porque o incendiário é, nestes matos, o revolucionário possível. Também dizem que os incendiários são alcoólicos, mas isso não explica nada. O álcool apenas dá coragem à vontade de fazer. O alcoolismo é de certa forma o oposto do puxar fogo, é um puxar fogo ao interno para esquecer o externo, enquanto no foguear o mato tudo é externo, tudo é glória. A combustão final, a salga da terra, a morte nas chamas como a menos solitária das mortes, porque se morre em conjunto com o que está em volta. Quem vê um fogo não o esquece, como quem vê a revolução não a esquece. Mas o fogo está sempre ao alcance, em acto individual e grande, e a revolução não. O fogo é a arma dos solitários e, convenhamos, não tem nada que ver com ejaculação.

O fogo, a arma dos desvalidos, dos oprimidos, daqueles a quem querem controlar e a quem tudo é negado. Basta riscar o fósforo em Julho ou Agosto e tudo vai pelos ares. Nem ricos nem pobres, nem poderosos nem indigentes, o fogo está ao alcance de todos, torna a todos iguais, dá sentido à existência, e não nega o gesto a ninguém. De­sesperado, perseguido pela burocracia da natureza, num estado mental que não lhe permitia enfrentá-los, entendia pela primeira vez o porquê de metade dos que ali subsistiam serem incendiários em potência.»

Mais à frente, Bivar ainda ensaia uma réplica àqueles que, a cada ano, com uma espécie de fulgor patriótico, encenam o seu repúdio ou incompreensão diante desses pequenos monstros no íntimo dos quais eclode essa pulsão de largar um fósforo a tudo isto, estes seres que se passeiam por ali nessa deserção etílica, como espectros que atravessam o fumo, fantasmas de tudo o que ardeu e ainda vai arder, assombrados pelo tumulto dos lugares esquecidos. «Quando os via discutir o porquê de tanto fogo posto, de tantos incendiários, dava-lhe vontade de rir de tão óbvia que era a resposta numa terra onde todos tinham sido re­duzidos ao papel de passar os dias em frente da televisão a ver programas da manhã ou agarrados a telemóveis, e que simplesmente queriam voltar a fazer parte deste mundo. Como não respeitar o velho que fechado no lar a ver tele­visão de dia e de noite, que escuta os arrotos dos dez com quem partilha o quarto e que de vez em quando morrem ao fim da tarde e só são tirados de manhã porque há falta de pessoal de noite, e que sai discreto e puxa fogo à serra numa derradeira e última acção cujo resultado assiste ser transmitido em directo na televisão? Como não respeitar o rendeiro que, expulso do terreno de que sempre tratou porque vão plantar olival intensivo, corta os carvalhos centenários, faz explodir a mina de água com dinamite e por fim puxa fogo aos matos de giestas?»

Um novo pacto
Como resulta claro da leitura do livro de Pyne, nenhuma política de fogo é neutra. Toda a técnica carrega uma imaginação, e acaba por gerar as suas catástrofes e assombrações. O século XX cultivou a fantasia prometeica da supressão total do fogo, deixando para o século XXI a obrigação de ter de aprender, à força, que a supressão alimenta o monstro, enquanto acumula combustível, alonga épocas de risco, permitindo que o menor impulso sirva de ignição a esse efeito concatenado. Começa também a ficar claro como, do lado dos homens, o fogo responde a uma ânsia de intensidade pura, prometendo vir, com a sua força, lavrar um tempo que nos esgota na sua condição intervalar, indecisa, enquanto tudo já arde, mas sem se ver. Afinal, o próprio coração é tido como um fogo encoberto que se consome e canta… Ora, sendo o país já em si uma catástrofe para aqueles que se sentem entregues a essa periferia urbana, perante estes, o fogo, esse elemento incapaz da imobilidade, mostra-se um agente de revelação, um monstro propriamente dito, no sentido em que mostra aquilo que foi escondido. E se o fio da história humana pode ler-se como uma sucessão de fogos – o fogo que aquece a gruta, a chama que cozinha e purifica os alimentos, encurtando os intestinos, e que, assim, assume uma co-autoria biológica do humano, permitindo a expansão do cérebro… e o fogo que, mais tarde, arde sob caldeiras e asfaltos –, isto diz-nos que, qualquer que venha a ser o sobressalto do capítulo seguinte, o fogo desempenhará um outro papel, e é possível que esteja uma vez mais ao lado daqueles que se sentem impotentes.

De algum modo, desde cedo o fogo nos convoca, por meio daquela sua soberba ondulação nas formas… Como diz Herberto Helder, «o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma». Perante uma cultura ensurdecida, é a própria natureza que resgata a dimensão épica, e vem reelaborar os caracteres desastrosos que foram despertados por uma civilização que tende claramente para a mitificação do progresso, desertando o real, provocando a degradação dos ecossistemas e a extinção em massa da vida no planeta. O próprio fogo nuclear persiste e vê agravar-se a sua ameaça existencial a cada dia que passa. E, nisto, aqueles homens que ficaram para trás, podem não saber explicar-se melhor, e podem encontrar nessas grandes arcadas de fogo toda a eloquência que falta à sua expressão. Surge neles, assim, esse ânimo de passar fogo à criação inteira, iluminando por dentro as coisas até as carbonizar num espectáculo que sacia o lado demoníaco das naturezas inquietas que nos restam. E uma vez mais vemos como o fogo responde, nos pensa, elabora sobre o que somos. Entre os símbolos nocturnos, emerge essa escrita cheia de prenúncios quanto ao que nos espera. Por isso mesmo, Stephen J. Pyne recusa qualquer fatalismo, e vinca como esta análise da civilização humana na relação com o fogo permite entender como aquilo que se nos impõe é estabelecer uma nova política do fogo, um novo pacto, para que possamos reaprender a gerir combustões, reatar laços com práticas tradicionais de queimada controlada, reconhecer que o fogo não pode ser abolido, apenas administrado. Num planeta saturado de carbono, pensar o futuro é pensar regimes de chama. Assim, o Piroceno não é um conceito que deva apenas situar-nos numa cronologia geológica, mas aparece como uma alegoria do destino humano: o século XXI será julgado pelo modo como lidou com o fogo – se continua a queimar o passado fossilizado até ao último sopro, ou se inventa uma pirotecnia diferente, renovável, reconciliada com o ritmo da Terra.