Mostrar mensagens com a etiqueta Aplicativos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aplicativos. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Refúgios climáticos: a solução que pode tornar as cidades mais resilientes às ondas de calor


As ondas de calor têm-se tornado mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, afetando sobretudo quem vive nas cidades. Ruas asfaltadas, edifícios de betão, falta de árvores e escassez de zonas de sombra criam o chamado efeito de ilha de calor urbana, fazendo com que a temperatura nas cidades seja significativamente superior à das áreas envolventes.

Nos últimos anos têm surgido várias iniciativas para responder a este desafio. Em Portugal, por exemplo, foi recentemente apresentado o Pro Nat.Urbe, um programa que pretende investir na criação de mais espaços verdes, corredores ecológicos e redes de conforto climático para tornar as cidades mais resilientes.

Agora surge uma nova medida complementar. O Turismo de Portugal lançou a Rede de Refúgios Climáticos | Stay Cool, integrada na Agenda para a Ação Climática no Turismo 2030, que pretende criar uma rede nacional de espaços preparados para proteger residentes e visitantes durante períodos de calor extremo.

Mas afinal, o que são refúgios climáticos? E porque poderão tornar-se tão importantes como os parques urbanos ou as bibliotecas?
O que são refúgios climáticos?

Os refúgios climáticos são espaços gratuitos onde qualquer pessoa pode encontrar conforto térmico durante uma vaga de calor.

Podem ser espaços interiores, como bibliotecas, museus, centros comerciais, equipamentos culturais, igrejas ou edifícios públicos climatizados, mas também espaços exteriores desde que ofereçam sombra, vegetação e condições adequadas de descanso.

Para integrarem a rede devem disponibilizar, sempre que possível:
  • sombra natural ou artificial;
  • vegetação;
  • água potável;
  • zonas de descanso;
  • instalações sanitárias;
  • boa ventilação ou climatização;
  • acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida;
  • informação sobre proteção durante ondas de calor.

O objetivo é simples: permitir que qualquer pessoa possa encontrar rapidamente um local seguro para recuperar do calor intenso.

Os grupos mais vulneráveis incluem idosos, crianças, pessoas com doenças crónicas, trabalhadores expostos ao exterior e famílias que vivem em habitações sem condições adequadas de isolamento térmico.

Em Portugal, muitas casas permanecem demasiado quentes durante o verão devido à pobreza energética, tornando os refúgios climáticos uma extensão do próprio espaço habitacional durante os dias mais extremos.

Barcelona tornou-se uma referência mundial
Uma das cidades que mais tem investido nesta estratégia é Barcelona.

A cidade iniciou a sua rede em 2020 com cerca de 70 espaços e atualmente disponibiliza centenas de refúgios climáticos distribuídos por praticamente todos os bairros. O objetivo é que todos os residentes tenham um refúgio a menos de cinco minutos a pé de casa.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, um refúgio climático não é apenas um edifício com ar condicionado.

Barcelona definiu critérios rigorosos para estes espaços, incluindo temperatura adequada, acesso gratuito, água potável, casas de banho e zonas para descansar. Nos espaços exteriores, exige igualmente sombra e áreas verdes.

A cidade utiliza bibliotecas, escolas, museus, centros cívicos, mercados e parques urbanos, todos identificados através de sinalização própria e integrados num mapa digital acessível aos cidadãos.

Lisboa também começa a dar passos

Em Portugal, Lisboa tem vindo igualmente a desenvolver soluções.

Além de vários jardins, bibliotecas, museus e equipamentos culturais que funcionam como locais de abrigo durante episódios de calor extremo, foram criados mapas que identificam estes espaços, permitindo aos cidadãos encontrar rapidamente um local para descansar e refrescar-se.

Investigadores portugueses têm também desenvolvido ferramentas que ajudam a identificar as zonas da cidade mais vulneráveis ao calor, cruzando informação como:
  • intensidade da ilha de calor urbana;
  • densidade populacional;
  • distância a parques e jardins;
  • existência de árvores;
  • proximidade de bibliotecas e outros equipamentos públicos.
Esta análise permite priorizar os locais onde novos refúgios climáticos poderão ter maior impacto.

Adaptar a cidade, não apenas criar edifícios frescos
Os especialistas defendem que os refúgios climáticos são apenas uma parte da solução.
O verdadeiro desafio passa por transformar as cidades para que estas sejam naturalmente mais frescas.

Algumas das medidas mais eficazes incluem:
  • plantar mais árvores nas ruas;
  • criar corredores verdes;
  • instalar estruturas de sombra temporárias ou permanentes;
  • substituir superfícies impermeáveis por materiais mais permeáveis;
  • aumentar as zonas com água, como fontes e espelhos de água;
  • reduzir áreas asfaltadas;
  • criar microflorestas urbanas;
  • instalar bebedouros públicos;
  • preservar corredores naturais de ventilação;
  • diminuir o tráfego automóvel, reduzindo o chamado calor antropogénico.
Mesmo pequenas intervenções podem fazer diferença. Em Lisboa, por exemplo, projetos experimentais recorreram a estruturas têxteis para criar sombra em espaços onde a plantação de árvores não era possível, demonstrando que soluções simples podem melhorar significativamente o conforto térmico.

Os mapas podem salvar vidas
À medida que as ondas de calor se tornam mais frequentes, os mapas digitais assumem um papel cada vez mais importante.

Saber onde existe um refúgio climático próximo pode ser tão importante como localizar um hospital ou uma farmácia.

Aplicações móveis, sistemas de informação geográfica e plataformas de turismo podem integrar estes locais, permitindo aos utilizadores encontrar rapidamente um espaço fresco, verificar horários de funcionamento e receber indicações através da geolocalização.

A informação torna-se assim uma ferramenta de proteção da saúde pública.

Um investimento na adaptação ao calor extremo
Durante décadas, o planeamento urbano privilegiou o automóvel, o betão e a impermeabilização do solo. Hoje, as prioridades começam a mudar.

Criar cidades mais resilientes passa por aumentar a sombra, reforçar os espaços verdes, recuperar zonas de água e garantir que todos têm acesso a locais seguros durante as ondas de calor.

Os refúgios climáticos representam uma resposta concreta, relativamente simples e de rápida implementação, que pode proteger milhares de pessoas enquanto as cidades se adaptam aos períodos de calor extremo.

Ler mais:

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Catfish: descubra o que é o golpe com perfis digitais

Por mais que as camadas de proteção, dicas de precaução e os sistemas de segurança nos ambientes online estejam disponíveis em maior número, os novos golpes digitais continuam sendo criados, ou adaptados, por pessoas mal-intencionadas e que sabem como utilizar a engenharia social para atingir o elo mais fraco: o ser humano. O chamado Catfish é um dos tipos de armadilhas que estão sendo aplicadas atualmente.

Talvez você já tenha visto casos de pessoas dizendo que alguém está usando a sua foto para entrar em contato, principalmente por WhatsApp ou via uma conta falsa nas redes sociais. Ao se passarem por outra pessoa, como alguém conhecido, os criminosos fazem novas vítimas com o objetivo de capturar dados, receber dinheiro, até instalar vírus no celular de quem foi pego neste golpe.

Esse é o cenário em que o Catfish acontece. Quer compreender mais sobre o assunto? Então, continue a leitura e veja quais são as dicas de segurança que os especialistas do Santander indicam para você.

O que é o golpe Catfish?
Apesar de ter um nome em inglês, o golpe Catfish é aplicado em diferentes regiões do Brasil e do mundo, já que se refere a uma armadilha digital capaz de alcançar as vítimas de onde elas estiverem, e que os criminosos conseguem operar igualmente de qualquer lugar.

Ele ocorre quando uma pessoa mal-intencionada cria uma identidade falsa nas redes sociais para enganar e atrair pessoas para o golpe. Geralmente, o criminoso por trás do perfil falso busca estabelecer um relacionamento online com a vítima, muitas vezes românticos e fingindo ser alguém que não é.

Para você saber: o termo Catfish remete a “peixe-gato”, como uma espécie de tradução para essa prática em que há uma pessoa mal-intencionada fazendo uma pessoa comum como “presa” e vítima.

Em quais contextos o golpe Catfish acontece?
Os ambientes online são propícios a serem cenários de golpes porque em determinadas situações é difícil distinguir o que é real daquilo que não é.

Por exemplo, ao trocar mensagens em redes sociais, você poderá estar conversando com um perfil falso sem saber, basta que esteja usando a imagem de alguém que você conhece ou algo semelhante a isso.

Dessa forma, o golpe Catfish ocorre em contextos como os exemplos a seguir:
- Está interessado de forma romântica e passa a manter uma conversa diária por dias seguidos, perguntando assuntos pessoais, relatando o dia a dia e demais pontos de uma troca de mensagens comum;
- Encontrou o número em algum grupo em comum e mantém o bate-papo como se quisesse se tornar um amigo virtual da vítima, mostrando um perfil que utiliza fotos de outras pessoas para passar confiança;
- Entram em contato com familiares e amigos, e dizem ser um novo número de contato (o telefone de trabalho, por exemplo). Com a vítima aceitando tal mensagem como verdadeira e dando abertura, os criminosos alegam situações em que precisam de dinheiro ou de algum dado sigiloso;
- Afirmam que querem muito encontrar você pessoalmente, mas sempre apresentam algum motivo, como um imprevisto, para evitar que isso aconteça.

Saiba como se proteger do golpe Catfish
Quer redobrar os seus cuidados para se proteger online? Então, confira quais são as medidas de segurança para não ser vítima do golpe Catfish.

Para começar, nunca transfira dinheiro nem faça pagamentos para pessoas, por mais que esteja com a foto de algum conhecido seu, sem verificar antes se são elas mesmas que estão solicitando essa ajuda financeira. Ou seja, converse pessoalmente ou por chamada de vídeo com o seu contato, e confirme a mensagem.

Caso tenha conhecido alguém pela internet, como em aplicativos de relacionamento, busque maneiras de confirmar que essa pessoa existe mesmo. Por exemplo, investigue as fotos nas redes sociais, publicações com família e amigos, faça chamadas de vídeo e faça uma busca do nome completo em sites de pesquisa.

Sempre que possível marque um encontro presencial, em locais públicos e seguros, e leve alguém de confiança para acompanhá-lo(a), e desconfie de determinados assuntos, como os que envolvem dinheiro, e demais apelos emocionais.

quinta-feira, 26 de março de 2026

How Do We Protect Children from Becoming Addicted to Social Media?


My granddaughter began scrolling on a cellphone when she was around two years old, her index finger repeatedly swiping across its face as if she were already a teenager.

Some of the 18-year-olds in my classes at Berkeley seem to suffer withdrawal symptoms when I ask them to put away their phones.

I see young people in restaurants sitting with other young people, none saying a word to each other as they lose themselves in their devices.

Are they addicted? Yes, if you define addiction as getting such a dopamine rush that they feel compelled to use their cellphones for hours at a time.

How similar is this to a nicotine addiction? And — as was a central question thirty years ago when Big Tobacco was being sued — is Big Tech intentionally designing its product to hook young people?

The answer appears to be that the addictions are quite similar, and Big Tech is just as culpable as Big Tobacco.

On Wednesday, in California, a young woman prevailed in a lawsuit against social media giants Meta Platforms and Google’s YouTube, in which she accused them of designing their apps to be as addictive and harmful to adolescents as cigarettes. Jurors found the tech companies to be negligent in having failed to provide adequate warnings about the potential dangers of their products.

What seemed to persuade the jury were features that Meta and YouTube had built into their software like infinite scroll, algorithmic recommendations, and autoplay videos — designed to get young users to compulsively engage with the platforms.

Internal company documents from Meta and YouTube executives showed they knew of and discussed the negative effects of their products on children.

In fact, this case and many others likely to follow in its wake (more than 3,000 other similar lawsuits are pending in California courts against Meta, YouTube, Snapchat and TikTok) are rooted in the litigation against Big Tobacco thirty years ago, in which plaintiffs argued that the tobacco corporations created addictive products that harmed their users.

I’m old enough to remember when U.S. Surgeon General Dr. Luther Terry issued the first landmark report warning that cigarette smoking causes cancer and other diseases, on January 11, 1964. I was a teenager then, quietly debating with myself whether to look cool by having a cigarette dangling from my lips.

The report, entitled Smoking and Health: Report of the Advisory Committee to the Surgeon General, sparked a national shift in public health — leading in 1965 to mandatory warnings on cigarette packages. The report and the warnings, and the hullabaloo surrounding them, put me off smoking.

Almost sixty years later, in 2024, U.S. Surgeon General Vivek H. Murthy called for adding warning labels to social media, explaining that the platforms were associated with mental health harms for adolescents. She wrote:

“The mental health crisis among young people is an emergency — and social media has emerged as an important contributor.

Adolescents who spend more than three hours a day on social media face double the risk of anxiety and depression symptoms, and the average daily use in this age group, as of the summer of 2023, was 4.8 hours. Additionally, nearly half of adolescents say social media makes them feel worse about their bodies.

It is time to require a surgeon general’s warning label on social media platforms, stating that social media is associated with significant mental health harms for adolescents.”

She’s right. A surgeon general’s warning label would remind parents and adolescents that social media may be unsafe.

Evidence from tobacco studies show that warning labels can increase awareness and change behavior. When asked if a warning from the surgeon general would prompt them to limit or monitor their children’s social media use, 76 percent of people in one recent survey of Latino parents said yes.

But we shouldn’t stop there, and Big Tech shouldn’t be able to use warning labels as a defense to future lawsuits claiming social media addiction among young people.

Meta, YouTube, and other social media platforms must redesign their products to be less addictive to minors. Yet, as with Big Tobacco, they’re unlikely to do this unless liability judgments against them start mounting substantially.

In the 1998 Tobacco Master Settlement Agreement, the major tobacco companies agreed to pay over $200 billion to 46 states, 5 territories, and the District of Columbia to settle lawsuits over smoking-related health costs. The settlement imposed strict marketing restrictions and funded anti-smoking campaigns.

Now, cigarettes are prohibited in most workplaces and public spaces. The Food and Drug Administration restricts tobacco sales to individuals 21 or older. Additional rules under consideration target menthol flavors, and reduce nicotine levels.

We need to protect our kids from social media no less strictly. Why not ban children under 16 from using social media, prohibit its use in schools, and have Big Tech pay for anti-social media campaigns directed at young people?

In December, Australia issued a ban on young people using social media. Malaysia, Spain, and Denmark made similar rules. American children deserve no less.

A jury in New Mexico found Meta liable for failing to protect young people from online dangers, including sexually explicit content, solicitation and human trafficking, on Tuesday in the first trial of its kind and ordered the company to pay a $375 million penalty. Meta said it respectfully disagreed with the jury and would appeal the ruling.

By focusing on the design of Meta and YouTube’s apps rather than the content posted on them, Kaley’s case sought to get around longstanding legal protections, known as Section 230 of the Communications Decency Act of 1996, that have largely shielded social-media companies from being held liable for content on their platforms.

It is a bellwether case for thousands of similar lawsuits in California, which serves as a test of evidence to see how juries reacted. The outcome doesn’t bind other cases but could encourage settlements now that both sides have a better sense of how their arguments might play out with jurors.

During the seven-week trial, Kaley testified that she started watching YouTube videos at age 6 and made an Instagram account at age 9. She uploaded more than 200 YouTube videos before she turned 10 and created 15 Instagram accounts before she turned 15, Kaley and her lawyers said.

Lanier, Kaley’s lead attorney, said that on one day she spent 16 hours on Instagram.

“I wanted to be on it all the time,” she said. “If I wasn’t on it, I felt like I was going to miss out on something.”

Meanwhile, Meta spent hours in cross examination trying to convince jurors that Kaley’s struggles were caused by other factors, including a difficult family life and bullying at school. Meta lawyer Andrew Stanner said notes from six months of therapy appointments didn’t mention social-media addiction or name any social-media apps.

Jurors also heard from Meta executives Mark Zuckerberg and Adam Mosseri. Mosseri, the Meta executive tasked with running Instagram, testified that the app wasn’t “clinically” addictive, and Zuckerberg said his company’s goal was to give users something useful, not addict them.

“We used to give teams goals on time spent and we don’t do that anymore because I don’t think that’s the best way to do it,” Zuckerberg said when he took the witness stand in the second week of the trial.

On Tuesday evening, Meta introduced a new stock option program for senior executives to motivate them to grow the company at an extremely aggressive pace and reach a $9 trillion-plus valuation.

As the punitive-damages phase of the trial got under way in court on Wednesday, the plaintiff’s attorney, Lanier, revealed a jar of M&Ms—415 of them. Each one represented $1 billion of the $415 billion in total stockholders’ equity of Alphabet Inc., he said. As he removed M&Ms one by one, Lanier noted how the jar barely registered a change, symbolizing how inconsequential even a ruling of $1 billion in damages would be to a company of Alphabet’s value.

Luis Li, an attorney representing YouTube, began his remarks by apologizing to Kaley.

“We at YouTube truly, truly hope that there have been things about YouTube that have enriched your life,” he said. He then began delineating how YouTube has instituted features to interrupt scrolling and give parents an indication of how much time their children are spending on their phones.

“They’re not perfect,” he said, adding, “you can’t walk into someone’s phone and turn on all of these features.”

Paul W. Schmidt, an attorney for Meta, referenced testimony from former company employees who, while critical of the company’s practices, said they did not believe it was intentionally trying to harm young people.

“There wasn’t an intention to do harm,” he said.

domingo, 22 de março de 2026

Pobreza de mobilidade: o que significa e como Portugal a quer eliminar. Não é aceitável uma pessoa ter cinco apps para andar de transportes públicos, é desmotivador


Com apenas 14% dos portugueses a usar transporte público e 66% dependentes do automóvel, Cristina Pinto Dias, Secretária de Estado da Mobilidade, alerta para desigualdades profundas entre litoral e interior, onde há crianças que “não podem ficar à tarde para jogar futebol ou aprender piano porque depois não têm transporte para voltar para casa”.

A resposta passa por reforçar a ferrovia, expandir metros, renovar material circulante e avançar com a alta velocidade, mas também por soluções flexíveis como transporte a pedido e tarifários sociais.

“O transporte público está a perder cota modal e o transporte individual a aumentar. Ou seja, 14% das nossas pessoas anda de transporte público, mas 66% das nossas pessoas anda em transporte individual. O ideal seria o contrário. 88% das nossas pessoas estão concentradas em 40% do nosso território e 12% das nossas pessoas dispersas em 60% do nosso território, o que significa que a política pública de mobilidade não é uma receita única que se aplica a todo o país”, explica a governante.

Cristina Pinto Dias sublinha que o país vive uma “revolução” no investimento público, mas que o grande salto depende da integração tecnológica: “Não é aceitável que uma pessoa tenha cinco apps, uma para andar de comboio, outra de metro, outra de Transtejo.” E acrescenta: “Se eu quero trazer pessoas para o transporte público, tenho que convidar de tapete vermelho: ‘Venha para o transporte público, vai ser bem servido.’

A secretária de estado sublinha mesmo a existência de uma revolução dentro do transporte público, “com metas muito concretas”. E detalha: “Estamos a fazer uma expansão das redes de metro, estamos a comprar comboios novos para o próprio metro. Já aqui foi dito neste podcast também pelo presidente da Transtejo, fizemos uma aquisição de 10 navios 100% elétricos para nos fazer a travessia do Tejo. E sim, nós estamos a fazer um investimento, como não há memória, na ferrovia, resultado de longos e prolongados anos de desinvestimento. Estamos a fazer um investimento só para material circulante, incluindo já a alta velocidade de 1,8 mil milhões de euros.”

A integração da bilhética e da informação em tempo real é, para a Secretária de Estado, o passo decisivo para atrair mais pessoas para o transporte público e garantir equidade territorial. Só depois disso será possível pensar num tarifário verdadeiramente nacional.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Dia Internacional da Língua Materna


Celebrado anualmente em 21 de fevereiro, o Dia Mundial da Língua Materna é muito mais do que uma data no calendário; é um lembrete de que o idioma que aprendemos no colo dos nossos pais é a base da nossa identidade, cultura e forma de ver o mundo.

A data foi proclamada pela UNESCO em 1999 e oficializada pela ONU em 2002.

Sabia que? O idioma Ubykh (Turquia), extinto em 1992, tinha um dos sistemas sonoros mais complexos do mundo. Com a sua morte, sons que o ser humano era capaz de produzir perderam-se para sempre na prática quotidiana.

O desaparecimento acelerado de idiomas no século XXI representa uma das maiores crises de património imaterial da humanidade. Segundo o relatório Ethnologue (2025/2026), aproximadamente 40% das 7.168 línguas catalogadas no mundo estão em risco de extinção, um fenómeno impulsionado pela globalização económica e pela hegemonia de idiomas transnacionais. O World Atlas of Languages da UNESCO (2025) reforça que esta perda não é meramente vocabular, mas sim a erosão de sistemas de conhecimento ecológico, histórico e espiritual únicos. No contexto da Década Internacional das Línguas Indígenas (2022-2032), o foco global deslocou-se da simples documentação passiva para a revitalização ativa, onde o uso da língua materna na educação básica é apontado como o fator determinante para a sobrevivência de uma cultura.
A tecnologia tem desempenhado um papel ambivalente neste cenário. Se, por um lado, o mundo digital exclui línguas sem representação escrita ou técnica, por outro, surgem ferramentas inovadoras de salvaguarda. Projetos como o Woolaroo, do Google Arts & Culture, utilizam inteligência artificial para identificar objetos através da câmara e traduzi-los instantaneamente para idiomas ameaçados, como o Ibibio ou o Maia, criando uma ponte visual para as novas gerações. Outras plataformas, como o Indigenous Languages Digital Archive (ILDA) e a aplicação FirstVoices, permitem que comunidades isoladas criem os seus próprios dicionários de áudio e jogos educativos, garantindo que a fonética correta seja preservada mesmo quando o número de falantes nativos é reduzido.
A nível bibliográfico, os estudos de Crystal (2000) em Language Death continuam a ser a base teórica para compreender porque é que as línguas morrem, mas são os relatórios anuais da UNESCO (2024, 2025) que traçam o mapa atualizado da urgência. Estes documentos sublinham que a "morte" de uma língua ocorre habitualmente em três gerações: quando os avós a falam, os pais a entendem mas não a praticam, e os filhos a desconhecem por completo. Portanto, as ferramentas de gamificação e os arquivos digitais de livre acesso tornam-se, em 2026, as principais armas contra o silenciamento cultural, transformando dispositivos móveis em veículos de resistência linguística.

Referências e Relatórios Consultados:
Crystal, D. (2000). Language Death. Cambridge University Press.
Eberhard, D. M., Simons, G. F., & Robinson, A. J. (Eds.). (2026). Ethnologue: Languages of the World (29th ed.). 
UNESCO (2025). World Atlas of Languages: Global Status Report on Linguistic Diversity. 
United Nations (2022). Global Action Plan of the International Decade of Indigenous Languages (2022–2032).

Como estamos em Portugal, a análise do nosso território revela um contraste fascinante e preocupante entre a homogeneidade do português padrão e a resistência de pequenos enclaves linguísticos que lutam pela sobrevivência em 2026.

O Caso do Noroeste e Nordeste de Portugal
No interior de Portugal, a erosão linguística está diretamente ligada à desertificação humana. O Mirandês, a única língua regional oficialmente reconhecida (Lei n.º 7/99), entrou num período crítico. Segundo os relatórios mais recentes de monitorização da Associação de Língua e Cultura Mirandesa (ALCM) e estudos da Universidade de Coimbra (2025), o número de falantes nativos fluentes desceu para menos de 5.000 pessoas. Embora o Mirandês seja ensinado nas escolas de Miranda do Douro, o desafio em 2026 é a "interrupção da transmissão geracional": os avós falam, mas os jovens, embora o entendam, optam pelo português no ambiente digital e social.

Mais a sul, na zona de Castelo Branco e Alentejo, temos casos de micro-línguas ou dialetos em estado terminal:

Minderico (Minde): Originalmente uma gíria de comerciantes (piação), evoluiu para uma língua complexa. Hoje, é classificada pela UNESCO como "criticamente em perigo", restando apenas algumas dezenas de falantes que dominam o léxico completo.

Barranquenho (Barrancos): Situado na fronteira, este idioma funde elementos do português e do espanhol (extremenho e andaluz). Em 2021, foi reconhecido como património cultural, mas a pressão dos meios de comunicação de massa em português padrão continua a diluir a sua pureza fonética.

O Contraste com a Amazónia (Brasil)
Se em Portugal o risco é a assimilação cultural, na Amazónia o risco é a extinção física e territorial. O Brasil abriga cerca de 180 línguas indígenas, mas o relatório "Línguas em Trânsito" (2025) indica que a maioria delas possui menos de 1.000 falantes.

Línguas Isoladas: Grupos como os Pirahã mantêm uma língua única, sem números ou cores abstratas, que desafia as teorias linguísticas de Noam Chomsky. Contudo, a pressão do garimpo ilegal e a desflorestação forçam o contacto, o que historicamente leva à rápida substituição da língua nativa pelo português por necessidade de sobrevivência.

Resistência Digital: Em 2026, assistimos a um fenómeno inverso: o uso de redes sociais (TikTok e Instagram) por jovens indígenas (como os das etnias Guajajara ou Puyanawa) para criar conteúdos nos seus idiomas originais. Esta "re-gramatização" digital está a despertar o interesse dos adolescentes pela língua dos avós, transformando o telemóvel numa ferramenta de orgulho identitário.


Bibliografia e Documentação Específica:
Ferreira, M. B. (2024). O Mirandês no Século XXI: Entre a Escola e a Rua. Coimbra: Almedina.
Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional - IPHAN (2025). Inventário Nacional da Diversidade Linguística: Foco Amazónia.
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade. 
UNESCO (2025). Interactive Atlas of the World's Languages in Danger (Edição Digital 2026).
Relatório ALCM (2026). Estado da Língua Mirandesa: Censo e Vitalidade.

domingo, 4 de janeiro de 2026

Esquece o puxão na ranhura: o novo perigo no Multibanco é invisível


Há décadas que seguimos o mesmo ritual no Multibanco: meter o cartão, puxar a ranhura verde, abanar para ver se há peças soltas. Se nada cair, assumimos que estamos seguros. Lamento dizer-te, mas esse truque já não serve para o novo perigo no Multibanco. A era do skimming grosseiro (aquelas peças de plástico mal coladas) acabou. Os burlões modernos evoluíram para tecnologia de nível militar, tão fina e miniaturizada que o ataque acontece debaixo do teu nariz e literalmente dentro da máquina. Chamam-lhe Deep Insert Skimmer (ou Shimmer), e é a razão pela qual tens de mudar a forma como levantas dinheiro hoje mesmo.

O novo perigo no Multibanco DENTRO não fora
Antigamente, o dispositivo de roubo era colocado sobre a entrada do cartão. Hoje, o dispositivo é uma “folha” ultrafina, com circuitos microscópicos, que é inserida profundamente na ranhura do Multibanco.

Como funciona?
O ladrão insere o dispositivo em segundos (parece que está apenas a usar o multibanco).
O chip fica lá dentro, invisível a olho nu.
Quando metes o teu cartão, o dispositivo “lê” os dados do chip em tempo real enquanto a máquina faz a operação normal.
Tu recebes o dinheiro, o cartão sai, e nem sonhas que acabaste de ser copiado.
Não há nada para puxar. Não há nada para abanar.

O Golpe Duplo: o teclado fantasma
“Mas eles precisam do PIN!”, pensas tu. Exatamente. E esquece as câmaras minúsculas escondidas num buraco em cima do ecrã. Isso é tecnologia de 2010.

Agora, os criminosos usam teclados falsos de alta precisão. São películas finíssimas colocadas exatamente por cima das teclas originais. Quando digitas o código, a sensação táctil é a mesma, mas a película regista a pressão e guarda o teu PIN.

Entretanto tens os dados do cartão roubados por dentro e o PIN roubado por cima. A combinação perfeita para esvaziar a conta.

O único “Teste” que realmente funciona (e não é com uma chave)
Muita gente sugere tentar meter uma chave ou palito para sentir obstruções. Não faças isso. Podes avariar a máquina e ficar com a chave presa (e uma conta para pagar).

A única forma 100% eficaz de contornar os Deep Insert Skimmers é não usares a ranhura.

A Regra de Ouro: usa por exemplo o MBWay para gerares um código para levantares dinheiro ou ativares a máquina Multibanco para a utilizares. Assim estás imune. O dispositivo de roubo não consegue ler os dados via wireless desta forma. A ranhura torna-se irrelevante.

3 Regras para sobreviveres aos novos burlões
  1. A “Dança” do Cartão: Ao inserir o cartão, se sentires uma resistência anormal ou se ele não entrar suavemente até ao fim, não forces. Cancela e muda de máquina. O chip espião cria um aperto extra dentro da ranhura.
  2. A Mão Concha: Mesmo que não vejas câmaras, cobre sempre a mão que digita o PIN com a outra mão ou com a carteira. Se houver uma câmara escondida (ainda usam), não apanham nada. Se for um teclado falso, torna a vida deles mais difícil para correlacionar os dados.
  3. Foge dos ATMs isolados: Dá preferência às máquinas que estão dentro das agências bancárias (no hall de entrada). Os burlões preferem máquinas de rua, com menos vigilância e onde é mais fácil instalar o equipamento durante a noite.
Entretanto a tecnologia dos ladrões evoluiu. Assim a tua prevenção também tem de evoluir. Da próxima vez, antes de meteres o cartão no buraco, pergunta-te: “Posso usar o Contactless?”. Se a resposta for sim, nem hesites.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Já existem esquemas para pagamentos com o smartphone!


Há algumas semanas atrás, dissemos para priorizaes pagamentos com o smartphone ou relógio, de forma a evitar a grande maioria dos esquemas que andam por aí. Mas… O problema é não é só a tecnologia que evolui. Os scammers também aprendem novas técnicas.

Dito tudo isto, está na hora de falar do NGate: o esquema no Android que permite levantar dinheiro no multibanco sem te roubarem o cartão.

Portanto, se achas que para alguém te esvaziar a conta bancária precisa de te roubar o cartão ou saber o PIN, convém leres isto com atenção. Há um esquema a circular chamado NGate que usa o teu próprio smartphone Android para dar a volta ao sistema… e o pior é que muita gente nem percebe como foi enganada.

Ou seja, aqui não há skimmers, nem cartões clonados à antiga. Há engenharia social, aplicações falsas e NFC. Uma combinação perigosa.

O que é afinal o esquema NGate?
NGate é o nome dado a um tipo de burla que explora o NFC do teu telemóvel. Sim, a mesma tecnologia que usas para pagar com um toque.

Assim, o esquema começa quase sempre da mesma forma. Recebes uma SMS ou email a fingir que vem do teu banco. A mensagem fala de um problema urgente, uma falha de segurança ou uma operação suspeita. Tudo pensado para te meter alguma pressão em cima.

Na mensagem vem um link para instalares uma aplicação. Não está na Play Store. Esse é logo o primeiro grande sinal de alerta.

A aplicação parece legítima, tem logótipos, linguagem cuidada e até “verificações de segurança”. Mas, claro, foi criada pelos burlões.

Como é que passam do telemóvel para o multibanco?
Depois de instalares a app, o esquema continua.

Recebes uma chamada de alguém a dizer que é do banco. Às vezes até há um SMS adicional para “confirmar identidade”, de forma a tudo para parecer real. A seguir, a app pede-te algo crítico. Que encostes o cartão bancário ao telemóvel e introduzas o PIN. Tal e qual como num pagamento contactless.

O que está a acontecer na verdade é isto. A app lê os dados do cartão via NFC e envia-os em tempo real para o burlão, que está perto de um multibanco. Em segundos, conseguem levantar dinheiro como se tivessem o teu cartão físico.

Em suma, tu ficas em casa. Eles ficam com o dinheiro.
Não é um esquema super perigoso, e de facto, pagar com o telemóvel continua a ser a forma superior de fazer as coisas. Mas… É preciso ter os olhos bem abertos!
Não parece uma burla clássica. Porque não te pedem dados num site estranho. Não te pedem transferências diretas. Usam processos que já conheces e em que confias.

Além disso, como o levantamento é feito com os teus próprios dados e PIN, a deteção e a recuperação do dinheiro tornam-se muito mais difíceis.

Mas, como sempre, a regra de ouro continua a ser a mesma de sempre. O banco nunca te pede para instalares aplicações fora da Play Store. Nunca. Nem te pede dados por mensagem ou telefonema.

Liga tu para o banco usando o número oficial do site ou da app. Nunca uses contactos que vêm na mensagem. Nunca encostes o cartão ao telemóvel a pedido de uma aplicação ou de alguém ao telefone. Isso simplesmente não faz parte de nenhum processo legítimo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Europa: de que forma os professores utilizam a IA na sala de aula e que país a usa mais?

A inteligência artificial (IA) está a tornar-se parte da vida quotidiana. As ferramentas e oportunidades oferecidas pelas principais empresas de IA cresceram rapidamente nos últimos anos. A educação não é exceção. Autoridades, professores ou académicos revelam como os alunos utilizam ferramentas como o ChatGPT para fazer os trabalhos de casa, incluindo ensaios. Ao mesmo tempo, a IA também oferece um apoio valioso aos professores.

Até que ponto os professores estão a utilizar a IA na Europa? Quais são os países mais avançados? E em que áreas os professores mais recorrem à IA?

Segundo o Teaching and Learning International Survey (TALIS) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o uso de IA por professores variou significativamente na Europa em 2024.

Entre 32 países, a percentagem de professores do ensino básico que utilizam a IA varia entre 14% em França e 52% na Albânia em 2024. A média na União Europeia (UE-22) é de 32%, enquanto na OCDE (27 países) é de 36%.

No inquérito, o uso de IA inclui fazer previsões, sugerir decisões ou criar texto. Abrange a utilização da IA no ensino ou para facilitar a aprendizagem dos alunos nos 12 meses anteriores ao inquérito.

Não se verificam padrões regionais fortes, embora, em geral, os países da Europa Ocidental tendam a ter uma menor utilização da IA pelos professores em comparação com os Balcãs Ocidentais e a Europa Oriental.

Além da Albânia, a percentagem de professores que utilizaram IA pelo menos uma vez atingiu dois em cada cinco ou mais em oito países/economias. As suas percentagens foram Malta (46), Chéquia (46), Roménia (46), Polónia (45), Kosovo (43), Macedónia do Norte (42), Noruega (40) e a região flamenga da Bélgica (40).

Os países com menor utilização da IA nas escolas foram a Bulgária (22%), Hungria (23%), a região francófona da Bélgica (23%), Turquia (24%), Itália (25%), Finlândia (27%), Montenegro (28%) e Eslováquia (29%).

Por que razão varia tanto a utilização de IA?
Um porta-voz da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) referiu que os governos adotaram posições políticas diferentes em relação à IA na educação, o que pode influenciar a consciencialização dos professores e o uso da IA na Europa.

"Alguns países foram mais proativos na implementação de estratégias nacionais de IA, que incluem o setor da educação, enquanto outros adotaram uma postura de cautela quanto à IA e ao uso de IA generativa nas salas de aula, estabelecendo regras mais rígidas dependendo da idade dos alunos", disse o porta-voz à Euronews Next.

Ruochen Li, gestor sénior de projetos na OCDE, observou que "as infraestruturas, as restrições tecnológicas, como as firewalls, as atitudes sociais em relação à utilização da tecnologia nas escolas e as políticas que podem incentivar ou desencorajar os professores a utilizar a IA" podem explicar as disparidades entre os países.

"Observamos uma relação forte, ao nível dos países, entre a quantidade de formação oferecida sobre o uso de IA e a sua utilização", disse à Euronews Next.

Ben Hertz e Antoine Bilgin, responsáveis pedagógicos e de investigação na European Schoolnet, salientaram que as grandes diferenças no uso de IA refletem o enquadramento político e a cultura educativa de cada país, com alguns a adotarem uma postura nacional de maior cautela.

"O acesso a apoio prático, como formação e infraestrutura, é também um acelerador crítico. Os dados do TALIS confirmam que, em sistemas com maior utilização de IA, os professores têm maior probabilidade de ter recebido formação profissional sobre o tema", explicaram Hertz e Bilgin à Euronews Next.

Por exemplo, França começou este ano a disponibilizar formação nacional em IA nas escolas públicas, o que ocorreu após a recolha dos dados do TALIS.

"Cautela, regras pouco claras e infraestrutura limitada são fatores que provavelmente explicam uma adoção mais lenta, sobretudo numa área nova e controversa como a IA", acrescentaram.

Motivos possíveis para estas diferenças incluem a existência e qualidade da formação, a carga de trabalho, a escassez de professores, a motivação pessoal e a curiosidade, segundo Martina Di Ridolfo, coordenadora de políticas no Comité Sindical Europeu de Educação (ETUCE).

Para que usam os professores a IA?
Entre os professores que usaram a IA, em média na União Europeia (UE-22), quase dois terços (65%) afirmam que a utilizam para aprender e resumir um tópico de forma eficiente, e 64% recorrem à IA para dar forma a planos de aula ou atividades. Estas duas percentagens mais altas indicam que a IA é usada sobretudo na preparação dos próprios professores.

Outros fins e respetivas percentagens:
  1. Ajudar alunos a praticar novas competências em cenários reais (49%)
  2. Apoiar alunos com necessidades educativas especiais (40%)
  3. Ajustar automaticamente a dificuldade dos materiais segundo as necessidades de aprendizagem dos alunos (39%)
  4. Gerar texto para feedback aos alunos ou comunicações com pais/encarregados de educação (31%)
  5. Analisar dados sobre participação ou desempenho dos alunos (29%)
  6. Avaliar ou classificar trabalhos dos alunos (26%)
Os resultados sugerem que os usos diretos em sala de aula ou voltados para os alunos são menos comuns. Os professores recorrem sobretudo à IA para a sua própria preparação, enquanto para as tarefas de avaliação são menos usadas. Hertz e Bilgin sugerem que muitos professores provavelmente utilizarão a IA sobretudo "nos bastidores", agora e num futuro próximo.

Ruochen, da OCDE, referiu que a IA pode apoiar os professores no trabalho administrativo, libertando tempo e energia para outras tarefas mais relacionadas com o ensino direto.

Que futuro para a IA nas escolas?
Os especialistas concordam que o uso de IA na educação está a crescer de forma constante e continuará a expandir-se. Alertam também que a utilização responsável, diretrizes claras e a consciência das possíveis desvantagens devem fazer parte desse progresso.

Hertz e Bilgin, da European Schoolnet, notaram que, com o tempo, os sistemas de IA poderão interagir mais diretamente com os alunos, por exemplo, propondo atividades personalizadas ou fornecendo feedback em tempo real.

"Mas os professores devem manter-se como o principal interlocutor entre o aluno e a tecnologia, para preservar a sua autonomia, supervisão ética e função de cuidado", disseram.

A UNESCO sublinha o papel central dos professores à medida que o uso de IA na educação se expande.

"As ferramentas de IA devem complementar, não substituir, os professores, e o seu uso deve alinhar-se com padrões éticos e objetivos educativos, preservando a autonomia e privacidade de professores e alunos", afirmou a porta-voz da UNESCO.

Antecipando um crescimento do uso da IA entre professores e alunos, sobretudo com ferramentas generativas, Di Ridolfo salientou outra preocupação: "Face à grave escassez de professores que enfrentamos na Europa, vemos riscos concretos de desqualificação e perda de competências na profissão", disse à Euronews Next.

Chamou ainda a atenção para uma limitação do inquérito da OCDE: os dados nada dizem sobre a frequência desse uso. Não indicam se os professores recorreram à IA regularmente ou se apenas a testaram algumas vezes.

sábado, 22 de novembro de 2025

Esta torre de escritórios com horta vertical pode alimentar 40.000 pessoas


A empresa de design Carlo Ratti Associati lançou um projeto de uma torre de escritórios em Shenzhen, China, cuja fachada inteira será uma horta urbana vertical. Este projeto foi também inscrito no concurso de design de construção da rede de supermercados chinesa Wumart.

“A agricultura urbana em pequena escala está a acontece em cidades de todo o mundo – de Paris a Nova Iorque e Singapura”, afirmou em comunicado Carlo Ratti, sócio fundador da CRA e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts.

“A Torre Jian Mu, no entanto, leva a agricultura urbana para o próximo nível. Esta abordagem tem o potencial de desempenhar um papel importante no projeto das cidades do futuro, pois envolve um dos desafios arquitectónicos mais urgentes da atualidade: como integrar o mundo natural com projeto de construção. Além de produzir alimentos, a horta da Torre Jian Mu ajuda com a proteção solar – uma questão fundamental em edifícios altos.”

A torre tem 218 metros de altura e dedica 10.000 metros quadrados da sua superfície ao espaço de cultivo. Uma horta vertical em tal espaço poderia produzir cerca de 270.000 kg de alimentos por ano, o que alimentaria 40.000 pessoas. O cultivo, a colheita, a venda e o consumo dos alimentos devem ocorrer dentro do mesmo prédio para reduzir o desperdício e a poluição da cadeia de abastecimento. A torre também abrigará escritórios, uma praça de alimentação e um supermercado.

“Jian Mu”, o nome dado à torre, vem de uma árvore chinesa mítica que, segundo a lenda, chega ao céu. Para refletir a crença tradicional chinesa de que o céu é redondo enquanto a terra é quadrada, a Torre Jian Mu foi projetada para se transformar lentamente de uma base retangular num topo arredondado tubular.

A torre está repleta de espaços verdes que, além de funcionais, também pretendem ser bonitos. Terraços ajardinados ao ar livre alimentados por irrigação sustentável em vários níveis conterão lichias, nenúfares e samambaias. Os jardins interiores serão abertos a escritórios no interior do edifício. Os trabalhadores poderão usar uma app para ajustar os microclimas dentro do seus escritórios, que levam a espaços verdes de dois andares criados para minimizar a necessidade de ar condicionado.

Saber mais:

segunda-feira, 14 de julho de 2025

IA e influenciadores lavarão a nossa loiça?

São tempos em que a tecnologia mais aprisiona do que emancipa. Baudrillard apontava o risco do “mapa que substitui o território”. Quando a performance exclui a experiência autêntica, o resultado é crise, nostalgia e fetichismo capitalista…

O avanço de tecnologias baseadas em “inteligência artificial” tem aumentado consideravelmente nos últimos anos e gerado uma série de debates éticos sobre o uso de propriedade intelectual, sobre o que é arte, sobre o que é de facto uma produção autêntica ou exclusivamente o produto de um algoritmo que, de forma bastante reducionista, é apenas um reprodutor e detetor de padrões. Somado a isso, temos a presença e atuação das big techs a interferir de forma óbvia e sem qualquer restrição regulamentar na nossa realidade, favorecendo unicamente o interesse de alguns em detrimento dos coletivos. Mas acredito que um dos pontos mais centrais deste furacão de capitalismo tardio é a nossa total desconexão da realidade. Não foi necessário que as máquinas nos dominassem e nos colocassem numa realidade simulada, como no filme Matrix, para que a sociedade contemporânea perdesse a total referência do real.

“Já tiveste um sonho, Neo, do qual tinhas tanta certeza que era real? E se não conseguisses acordar desse sonho? Como distinguirias o mundo dos sonhos do mundo real?”, diz Morfeu a Neo, ainda confuso sobre o que é a Matrix, quando os dois se encontram num quarto escuro, antigo, com cortinas pesadas e móveis gastos. A mesma pergunta pode ser replicada para nós, no entanto, fora do contexto dos sonhos: já se envolveu de forma tão íntima com o seu feed de ecrã infinito que, após horas ali, conseguiria distinguir o que é real ou não de tudo o que viu?

Apesar de uma das referências mais óbvias do filme Matrix ser o mito da caverna de Platão, apeguemo-nos a outra referência extremamente presente no filme, citada inclusive de forma direta quando o nosso protagonista Neo, numa das primeiras cenas, pega num livro de fundo falso intitulado Simulacros e Simulação, de Jean Baudrillard, que discute a relação entre realidade, símbolos e sociedade. O ensaio afirma de forma categórica que a sociedade atual substituiu a realidade por simulacros e descreve o processo gradual de como a realidade se torna algo sem qualquer referencial.

O coração da argumentação de Baudrillard são as três ordens do Simulacro:
De primeira Ordem – Natural, Utópico, Imitativo: tem um alto valor simbólico pois possui um referencial real, ou seja, está ligado diretamente ao original.
De segunda Ordem – Produtivo, Mecânico, Industrial: reprodução mecanizada em massa, cujo valor simbólico (ou seja, o original) já não importa tanto; o que importa é a sua reprodução em série.
De terceira Ordem – Cibernético, Virtual, Puro Signo: a realidade já não existe.

O exemplo usado por Baudrillard nas suas argumentações é o mapa de Borges: um mapa tão detalhado que cobre exatamente o território que representa. Com o tempo, o território deteriora-se, e só o mapa (o simulacro) resta. Assim, vivemos num mundo de mapas sem território. Voltemos à problemática inicial: quanto é que o nosso dia a dia se tem assemelhado, cada vez mais, ao mapa de Borges? Submetidos a tecnologias que, em tese, deveriam servir-nos, mas que agora são a nossa maior fonte de escravidão. O mesmo ocorre em Matrix: as máquinas que deveriam servir-nos tornam-se os nossos escravizadores. E o princípio de tal servidão, de certa forma, é o mesmo – colocou-nos num mundo de simulacro de terceira ordem.

Abrimos os telemóveis e ligamo-nos de forma tão inconsciente que já não é possível dizer que existe, de facto, uma separação entre um suposto mundo virtual e o nosso real. De modo que a nossa realidade se tornou tão esvaziada que, quando nos vemos obrigados a desconectar, nos deparamos com o desespero daquilo que Baudrillard vai chamar de deserto do real – que simboliza de forma direta um despojamento violento da realidade em detrimento do simulacro, ou seja, vivemos num mundo tão saturado de símbolos, imagens e signos que o real se perdeu. Não importa mais, de maneira nenhuma, o "eu", mas sim a performance que posso realizar diante dos outros; somos instigados todos os dias a desempenhar uma personagem que precisa constantemente de demonstrar uma série de caracteres para ser aceite – um simulacro de emoções.

Isto tem aberto de forma significativa alguns caminhos: aqueles que se apegam com nostalgia doentia a um mundo pré-simulacro, ainda que o seu saudosismo seja um retrato tão falso quanto a realidade. Outros, enganados pelos símbolos, dizem-se despertos e apegam-se a factos extremamente desconexos em relação a qualquer possível visão de essência ou simulacro para se dizerem diferentes dos outros. E, por último, aqueles que, por inanição, ignorância ou conformismo, aceitam ou não percebem que a nossa realidade já não existe.

Perceba as relações com as redes sociais: influenciadores de todo o tipo moldam de forma muito evidente os comportamentos, de maneira que passamos em massa a reproduzir bordões e padrões de ação quase diretamente após uma trend viral. Quantos pais e mães, com condições ou não, passaram a comemorar o “mêsversário” dos seus filhos, após esse fenómeno ser amplamente partilhado pelos ditos influencers?

Tecnologias que deveriam permitir-nos conectar e partilhar sobre nós tornaram-se, através dos algoritmos das redes, as nossas maiores correntes, tudo em nome do lucro de poucos. No início das redes, poderíamos perguntar-nos: o algoritmo influencia-nos ou nós influenciamo-lo a ele? Hoje essa resposta está mais do que clara. Empresas gastam milhões para moldar as nossas opiniões e costumes, e isso existe para todos os gostos, géneros, religiões e posicionamentos políticos. Se todos bebemos da mesma fonte, ainda que o meu parecer seja diametralmente oposto ao do outro, não somos nós escravos do mesmo senhor?

Como dito anteriormente, a nostalgia é uma das ferramentas que nos prende ao simulacro porque, quando o real já não é aquilo que foi, é a nostalgia que toma o centro do palco. Mitos de origem e sinais de realidade passam a ser sobrevalorizados — como relíquias de um tempo em que o real ainda parecia possível. Procura-se, então, uma verdade de segunda ordem: objetiva, autêntica, mas apenas no discurso, pois a substância original já se perdeu. É a escalada do vivido como espetáculo, da verdade como performance, da imagem como substituto da presença. O figurativo ressurge com força justamente onde o objeto real desapareceu. O que temos agora é uma produção desenfreada de realidade e referência — mais intensa e invasiva do que a própria produção material. É nesse ponto que se instala a simulação: como uma estratégia de hiper-realidade que imita o real com tanta perfeição que o anula, dobrando-se sobre ele como um véu que não esconde, mas dissuade.

E muitos, embriagados de nostalgia, perdem-se no suposto encontro da verdade através de uma caricatura grotesca do hiper-real e, por alegadamente fugirem de um senso comum, sentem que tomaram a pílula vermelha. Dizem-se despertos, mas, assim como Cypher em Matrix, desejam ansiosamente voltar à simulação, porque, mesmo que o seu simulacro seja um amontoado de pequenas realidades unido por uma teia de mentiras, ele pode atuar como outsider, como aquele que conhece, aquele que supostamente viu o deserto do real e sobreviveu para contar a história; no entanto, não se pode produzir significado que não seja da realidade. Tudo isto para, no mundo, instigar uma relação de consumo vazia.

Chegamos a um estágio do capitalismo que, diferentemente do seu início, não se preocupa mais em desenvolver as forças produtivas, gerar inovação ou produzir competição. Estamos no ponto dos grandes monopólios que se apropriam das grandes ideias do passado para usar o que deveria ser um meio de libertação da raça humana — a tecnologia — como o nosso maior cabresto. Consumimos hoje por um fetiche performativo, ou, como cunhado por Marx, o fetiche da mercadoria ou fetiche capitalista, que nada mais é do que a magia encenada pelo mercado: transforma objetos comuns em promessas de identidade, desejo e transcendência — ocultando as estruturas que os produzem.

A abordagem, além de Baudrillard, que mais me salta aos olhos diante desta performance consumista são os escritos de Slavoj Žižek, mais especificamente as suas obras O Mais Sublime dos Histéricos: Hegel e Lacan (1989) e Bem-Vindos ao Deserto do Real (2002). Para Žižek, o fetiche é “Aquilo que finges não saber, para continuares a desejar”, ou seja, permite-te ignorar a realidade desconfortável por trás do objeto, desde que possas manter o prazer do consumo. Um mecanismo puramente ideológico: sabes que o objeto é falso, vazio, mas continuas a agir como se ele fosse tudo aquilo que promete. Temos plena consciência de que a vida dos influenciadores é uma mentira, que tudo ali existe única e exclusivamente para encenar sucesso e te convencer a comprar algo, mas, ainda assim, é tão bom saber o que a Maria Flor vai aprontar hoje nos stories da Virgínia.

Diante dos avanços desta suposta disrupção tecnológica que vivemos, embora de facto nada com poder transformador aconteça desde o surgimento dos smartphones, até o direito de possuir nos foi negado. Tudo vem no formato “as a service” (como um serviço); já nada é teu para guardar, mas tudo ali está colocado para ser desejado. Já não se compram filmes, assinamos um serviço que te permite ver o filme. O mesmo se aplica a livros em suporte digital: adquires apenas o direito de ler aquela obra. Mas vai além disso: a nossa existência foi embalada, monetizada e entregue por assinatura. Já não temos casas, temos co-livings. Não escolhemos móveis, alugamos a decoração do mês. Até cães, em alguns lugares, vêm por assinatura — amor com prazo de validade. Cozinhar virou capricho: marmitas fitness, dark kitchens, chefes por aplicação. Precisou de impressionar alguém? Comida gourmet em 30 minutos, com amor embalado em vácuo.

A própria identidade virou um serviço: alugamos roupas de luxo, contratamos curadores de feed, terceirizamos o estilo. Trabalhamos em coworkings, somos freelancers à la carte, vendemos o nosso tempo e saúde mental à hora em plataformas. E quando o coração aperta? Os relacionamentos também se tornaram on demand. Swipe, conversa, encontro. Amor algorítmico. Em alguns lugares, até um abraço é pago - cuddle as a service. Porque carinho sim, mas sem drama. Até a saúde mental entrou no jogo. Meditação por aplicação, terapia em caixinhas, emoções tratadas com notificações: “Lembra-te de respirar”. Vivemos uma existência fragmentada em pacotes mensais. A vida deixou de ser vivida e passou a ser organizada (curated). Ser virou parecer. Parecer virou monetizar. E, apropriando-nos novamente da obra de Baudrillard, podemos observar que já não se trata de dissimular, mas sim de simular. Porque dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem. Um influenciador dissimula tristeza; o outro simula felicidade; para o algoritmo não importa o que é real, apenas o que gera envolvimento (engajamento).

No entanto, a cereja no topo do bolo é colocada nos anos após 2020, com as IAs generativas a serem abertas ao público. Ferramentas extremamente poderosas que deveriam permitir-nos realizar tarefas mecanizadas de forma brutalmente eficiente passam a ser usadas para emular ainda mais aquilo que não se é. Um copiloto para as nossas atividades diárias substitui o pensamento crítico por um prompt. E a partir daqui começa o fetiche visual, quando estes modelos baseados em textos nos permitem roubar – isso mesmo, roubar – a propriedade intelectual de artistas para que possamos ver como seríamos se fôssemos desenhados naquele estilo. Ou seja, permitimos que uma empresa lucre milhares de milhões com o trabalho de artistas, simplesmente para encenar identidade na internet.

O real torna-se cada vez mais deserto e a nossa existência cada vez mais vazia; a tecnologia que deveria libertar-nos das tarefas mecânicas, repetitivas e braçais para nos permitir ter mais tempo para viver, tem sido a principal fonte de precarização e escravidão. Deixo aqui uma provocação de Joana Maciejewska:

“Eu quero que a Inteligência Artificial lave a minha roupa e a minha loiça, para que eu possa escrever e criar a minha arte, e não o contrário; não desejo que a IA crie arte e escreva, enquanto eu lavo a loiça e ponho a roupa a lavar.”

Celebremos então, convocados por Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o fim da história.
Ensaio de César Teixeira

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Colapso contínuo das populações de insetos em todo o mundo


Tess McClure tem um artigo inestimável no Guardian  que se centra no trabalho do lendário biólogo tropical Dan Jantzen. Em 1978 — há menos de meio século — trabalhava na Estação de Campo de Guanacaste, na floresta da Costa Rica, quando, certa noite, estendeu um lençol com uma luz atrás e fotografou o que caía.
Nessa primeira fotografia, tirada em 1978, o lençol iluminado está tão densamente coberto de traças que, em alguns pontos, o tecido mal se vê, transformado no que parece ser um papel de parede rastejante com padrões densos.

Os cientistas identificaram umas impressionantes 3.000 espécies a partir daquela armadilha luminosa, e a trajetória da carreira de Janzen transformou-se, do estudo das sementes para uma vida inteira especializada nas populações pouco documentadas de lagartas e traças da floresta.

Agora com 86 anos, Janzen ainda trabalha na mesma cabana de investigação na área de conservação de Guanacaste, ao lado da sua colaboradora de longa data, esposa e colega ecologista, Winnie Hallwachs. Mas na floresta que os rodeia, algo mudou. Árvores que antes estavam infestadas de insetos jazem estranhamente imóveis.

O zumbido das abelhas selvagens desapareceu, e as folhas que deveriam ser mastigadas até ao caule pendem inteiras e intocadas. São estas folhas brilhantes e intocadas que mais assustam Janzen e Hallwachs. Parecem mais uma estufa imaculada do que um ecossistema vivo: uma natureza selvagem que foi fumigada e deixada estéril. Não uma floresta, mas um museu.

Ao longo das décadas, Janzen repetiu as suas armadilhas luminosas, pendurando o lençol, observando o que acontece. Hoje, algumas traças voam em direção à luz, mas o seu número é muito menor.

“É a mesma folha, com as mesmas luzes, no mesmo lugar, com vista para a mesma vegetação. A mesma altura do ano, a mesma altura do ciclo lunar, tudo é idêntico”, diz. “Simplesmente não há traças naquela folha.”
O que é singularmente assustador neste relato, como McLure deixa claro, não é que as populações de insectos estejam a diminuir — já o sabemos há muito tempo, primeiro através do trabalho dos cidadãos-entomologistas na Alemanha e depois em muitas outras partes do mundo. Este declínio constante — estimado em 2% ao ano, embora alguns biólogos achem que é maior — tem sido atribuído em grande parte à perda de habitat e ao uso de pesticidas. Mas, no caso de Guanacaste e de outras florestas imaculadas semelhantes, como Porto Rico, estes factores não se aplicam. O que estamos a assistir é ao efeito constante das alterações climáticas. Como explica Hallwachs,
Um ecossistema de floresta tropical é “um relógio suíço afinado”, perfeitamente concebido para sustentar um sistema de criaturas com uma vasta biodiversidade.

Cada elemento é delicadamente ajustado e interligado com os outros: o calor, a humidade, a precipitação, o desabrochar das folhas, a duração das estações, o início e o fim dos ciclos de vida dos insetos e dos animais.

A cada volta incremental de uma engrenagem, o resto do sistema responde. Os insetos e os animais evoluíram para cronometrar as suas hibernações e períodos de reprodução precisamente a pequenos sinais do sistema: uma alteração da humidade, um aumento das horas de luz do dia, uma pequena subida ou descida da temperatura.

Mas agora, o sistema tem uma engrenagem a girar descontroladamente dessincronizada: o clima.

“Quando aqui cheguei, em 1963, a estação seca durava quatro meses. Hoje, são seis meses”, conta Janzen. Os insetos que normalmente passam quatro meses debaixo da terra, à espera das chuvas, são agora obrigados a tentar sobreviver a mais dois meses de clima quente e seco. Muitos não estão a conseguir.

Juntamente com as mudanças de estação, ocorrem outras alterações, como na precipitação ou na humidade. “É apenas uma interrupção geral de todos os pequenos sinais e sincronias que estariam lá fora”, diz Janzen. Por todo o relógio da floresta, as plantas e as criaturas estão a perder a sincronia. Ao fundo, a temperatura está a subir.

“O assassino – a causa que está a puxar o gatilho – é, na verdade, a água”, diz Wagner. Para os insetos, manter-se hidratados é um desafio fisiológico único: em vez de pulmões, os seus corpos estão crivados de orifícios, chamados espiráculos, que transportam o oxigénio diretamente para os tecidos.

“São todos superfície”, diz Wagner. “Os insetos não conseguem reter água.” Mesmo uma breve seca de apenas alguns dias pode exterminar milhões de insetos dependentes da humidade.
Isto não se limita de forma alguma aos trópicos húmidos. Investigadores em muitas outras áreas – o quente deserto do sudoeste, por exemplo – estão a observar os mesmos resultados. O biólogo David Wagner descreve uma viagem recente ao Texas, considerando-a “a mais mal sucedida que já fiz. Simplesmente não havia vida de inseto para mencionar”.

Não eram apenas os insetos que faltavam, disse a McLure, era tudo. "Estava tudo crocante, frito; o número de lagartos caiu para o número mais pequeno de que me consigo lembrar. E depois os seres que comem lagartos não estavam presentes – não vi uma única cobra durante todo o tempo."

Particularmente proeminentes nesta triste lista são as aves. Só nos EUA, os ornitólogos da Universidade de Cornell (as mesmas pessoas que trouxeram Merlin, e se não tem no telemóvel, porque é que tem um telemóvel?) relataram que faltavam cerca de três mil milhões de aves nos Estados Unidos, de acordo com um estudo posterior, eram aves que dependiam de insetos. (O que explicaria porque ainda pode haver muitos chapins no seu comedouro).


sábado, 7 de junho de 2025

O que é streaming? Entenda como funciona a tecnologia e conheça as principais plataformas


Streaming é a tecnologia de transmissão ou recepção contínua de dados via internet. A tecnologia permite que usuários acessem a diferentes tipos de conteúdos alocados nos servidores das plataformas de serviço.

Existem três tipos de streaming: de vídeo, de áudio ou de jogos. E a reprodução de conteúdos acontece sob pedido ou em tempo real (como no caso de live streaming).

A tecnologia de streaming serve para acessar a conteúdos da internet de maneira simplificada, sem a necessidade de downloads locais nos dispositivos.

A seguir, entenda o que é streaming, veja como a tecnologia funciona, e confira as principais plataformas do mercado.

O que é streaming?
Streaming é uma tecnologia de transmissão ou recepção contínua de dados via internet, de um servidor para o usuário. Essa tecnologia permite que dispositivos (como smartphones, PCs, smart TVs, entre outros) possam acessar vídeos, músicas, jogos e outros tipos de conteúdo em tempo real ou sob demanda.

Qual é o significado de streaming?
O termo “streaming” é derivado da expressão em inglês “stream”, que significa “fluxo contínuo”. No âmbito tecnológico, a palavra se refere à transmissão contínua de dados via internet, a exemplo de conteúdos em vídeos, áudios e games.

Para que serve o streaming?
O streaming tem a função de transmitir ou receber dados de forma contínua pela internet. Do ponto de vista do usuário (receptor), o streaming é a tecnologia necessária para assistir a filmes ou jogar online, sem a necessidade de baixar os conteúdos no dispositivo.

Já do ponto de vista dos prestadores de serviços ou criadores de conteúdos, o streaming consiste no meio necessário para que os dados armazenados nos servidores sejam disponibilizados aos usuários, seja no modelo sob demanda ou em tempo real.

Como funciona o streaming
O funcionamento do streaming se baseia na tecnologia de cloud computing, em que as empresas armazenam seus conteúdos (em áudio, vídeo, entre outros formatos) na nuvem para disponibilização sob demanda. Em casos de live streaming, os sinais do streamer são enviados para os servidores, e então são distribuídos em tempo real.

Os usuários então conectam seus dispositivos à internet e acessam as plataformas de streaming, seja via software de aplicação (apps) ou plataforma web. Alguns serviços podem ser utilizados de forma gratuita e sem a necessidade de login, mas a maioria das plataformas exige uma conta e assinatura paga para uso.

Se a conta tiver as permissões necessárias, a plataforma vai receber os dados dos servidores para reproduzir os conteúdos. E vale destacar que a qualidade dos serviços de streaming pode variar, de acordo com a velocidade da internet, configuração de dados móveis, taxa de bits, e limitações das próprias plataformas.

Consigo usar streaming sem internet?
Não. A tecnologia de streaming necessita que dispositivos estejam conectados à internet para receber os dados dos servidores e acessar aos conteúdos. Logo, os processos de transmissão e recepção de informações só ocorrem em ambiente online.

Alguns serviços de streaming permitem uso offline, desde que os conteúdos sejam baixados previamente. Mas nesses casos, não há transmissão de dados em tempo real, e ocorre apenas a reprodução de dados armazenados localmente.

Preciso pagar para usar streaming?
Não necessariamente. YouTube e Spotify são exemplos de serviços de streaming gratuitos, que podem ser utilizados (com limitações) sem uma assinatura. Contudo, a maioria das plataformas de streaming costumam exigir assinaturas pagas para acessos ilimitados aos conteúdos e experiência completa dos serviços.

Quais são os tipos de streaming?
A tecnologia de streaming pode envolver diferentes finalidades, mas inclui três tipos de transmissão de dados:
  • Streaming de vídeo: serviços que disponibilizam acesso a filmes, séries, documentários e vídeos sob demanda ou em formato live streaming (transmissão em tempo real);
  • Streaming de áudio: tipo de streaming que oferece acesso a músicas e audiolivros (sob demanda) ou conteúdos em tempo real (como podcasts, rádios, entre outros);
  • Streaming de jogos: serviço de jogos via streaming, que fazem com que consoles, PCs, TVs e smartphones rodem jogos diretamente da nuvem.

Quais são as principais plataformas de streaming?
Há diversos serviços de streaming voltados para vídeo, áudio ou jogos, dos quais a maioria exige uma assinatura paga. As principais plataformas de streaming abrangem:
  • Netflix: plataforma paga focada em filmes, séries e documentários, além de oferecer jogos em dispositivos móveis;
  • Amazon Prime Video: serviço mediante assinatura da Amazon, que oferece um amplo catálogo de filmes, séries originais, canais adicionais e eventos em tempo real;
  • Disney+: streaming pago da Disney, com foco em filmes, séries e documentários do conglomerado;
  • HBO Max: serviço pago da Warner Bros. Discovery, que disponibiliza filmes, séries originais e documentários;
  • Apple TV+: plataforma de streaming da Apple mediante assinatura, focada em filmes e séries originais, e com disponibilidade de eventos ao vivo;
  • Globoplay: serviço da Rede Globo com planos pagos e conteúdos gratuitos, que inclui um catálogo de filmes, séries, programas de TV, e transmissões ao vivo do conglomerado;
  • Mubi: plataforma paga da Mubi com enfoque em clássicos do cinema e em filmes aclamados pela crítica;
  • YouTube: serviço do Google de uso gratuito ou pago, que inclui vídeos de entretenimento, videoclipes, músicas, podcasts, live streaming, aluguer de filmes, entre outros conteúdos audiovisuais;
  • Spotify: plataforma de streaming de áudio com planos gratuitos ou pagos, que reúne ampla biblioteca de músicas, audiolivros, podcasts e rádios;
  • Deezer: plataforma de áudio com catálogo recheado de músicas e podcasts, e que pode ser usada gratuitamente ou por meio de assinatura;
  • Tidal: serviço pago da Block focado em músicas, mas que também inclui videoclipes e conteúdos exclusivos de artistas;
  • Amazon Music: serviço de streaming de áudio mediante assinatura da Amazon, que inclui músicas, podcasts e outros áudios em seu catálogo;
  • Apple Music: plataforma de streaming de áudio da Apple mediante assinatura, que contém músicas, rádios, entrevistas e conteúdos exclusivos;
  • Xbox Cloud Gaming (xCloud): serviço pago de jogos em nuvem da Microsoft, com amplo catálogo de games e títulos rotativos;
  • GeForce Now: serviço de streaming de jogos da Nvidia, que inclui planos gratuitos ou pagos, e que permite rodar jogos já adquiridos diretamente na nuvem;
  • Amazon Luna: plataforma de jogos via nuvem mediante assinatura da Amazon, que inclui games do catálogo e títulos por assinatura;
  • Twitch: serviço focado em transmissão de conteúdo em tempo real, que pode ser usado gratuitamente ou com uma assinatura paga;
  • Kick: plataforma focada em live streaming, com opções de uso gratuitas ou pagas.
Quais são os principais benefícios do streaming?
A tecnologia de streaming inclui diversos benefícios de uso, principalmente em questões de praticidade e recursos de reprodução de conteúdos. As principais vantagens do streaming incluem:
  • Bibliotecas amplas de conteúdo: o universo de streaming reúne uma grande quantidade de conteúdos disponíveis para os usuários;
  • Economia de armazenamento local: o streaming é baseado em conteúdos armazenados em servidores, de modo com que usuários não precisem baixar os conteúdos nos dispositivos;
  • Autonomia de uso: o streaming permite que usuários utilizem as plataformas via app ou plataforma web, bastando uma conexão com internet;
  • Recurso de pausar e voltar: é possível pausar ou voltar a reprodução, seja em conteúdos sob demanda ou em live streaming;
  • Disponibilidade em múltiplos aparelhos: usuários podem acessar plataformas de streaming de diversos dispositivos, como smartphone, computador, videogames, tablets, entre outros aparelhos;
  • Recomendações com base em preferências: plataformas de streaming costumam recomendar conteúdos com base nas preferências e visualizações dos usuários.
Quais são as principais limitações do streaming?
O streaming apresenta limitações de uso especialmente ligadas à conexão com internet e planos para uso. Dentre as desvantagens da tecnologia, estão:
  • Dependência de internet: o uso de serviços de streaming é dependente de conexão com internet, e do bom funcionamento dos servidores das empresas de streaming;
  • Alto consumo de dados: a transmissão contínua de dados consome grande quantidade de dados de internet, aumentando consideravelmente o uso dos dados móveis;
  • Conteúdos muito diluídos: devido a questões de direitos de licenciamento, conteúdos costumam ser disponibilizados em múltiplas plataformas, o que pode exigir assinaturas em vários serviços;
  • Exigência de assinaturas: a maioria dos serviços de streaming exige planos pagos para uso ou para uma experiência completa.
Qual é a diferença entre streaming e live streaming?
Streaming é uma tecnologia de consumo responsável pela transmissão contínua de dados via internet. Quando conectados à internet, dispositivos eletrônicos podem usar o streaming para acessar plataformas de vídeo, áudio ou jogos, seja no formato sob pedido (como Netflix) ou em tempo real (a exemplo da Twitch).

Já live streaming é um tipo específico de streaming, em que a transmissão contínua de dados via conexão com a internet ocorre em tempo real. Em outras palavras, trata-se da transmissão ou recepção de dados de eventos ocorrendo naquele exato momento, como um jogo de futebol ou lives de criadores de conteúdo.

Em suma: nem todo formato de streaming é uma live streaming, mas toda live streaming se caracteriza como streaming.