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domingo, 20 de setembro de 2026

Como o Cartaxo-Nortenho Deixou de Reproduzir-se em Portugal (e a Culpa É Nossa)

«Pelo Entrudo, cartaxo penudo», ditava a antiga sabedoria popular das nossas serras. O adágio assinalava o despertador da primavera através do cartaxo-comum (Saxicola rubicola), a ave residente que ainda hoje canta no topo dos arbustos em pleno inverno. No entanto, o provérbio evoca um ecossistema rural e pastoril que está a ruir - e o reflexo mais trágico desse colapso não é a perda do ditado, mas o desaparecimento silencioso do seu parente mais raro: o cartaxo-nortenho (Saxicola rubetra). Sim, a espécie já foi uma ave reprodutora no nosso país e hoje está praticamente extinta como tal.

A afirmação soa a um pequeno detalhe ornitológico, irrelevante para a azáfama dos dias, mas é um lembrete ecológico brutal. É um dos muitos sinais dos tempos que teimamos em ignorar, reflexo direto da nossa profunda dificuldade cultural em interiorizar o conceito de wilderness - a vida selvagem na sua escala livre, não moldada pela conveniência humana - e em compreender que, na teia da biodiversidade, tudo está rigorosamente interligado.

Num país onde não faltam causas e lutas nobres a reclamar atenção - da vitalidade da cultura e do teatro às pontes geopolíticas da CPLP -, a defesa do património biológico continua remetida para uma periferia menor. Quando surge na agenda pública, surge quase sempre enviesada por interesses imbecis, vista como um obstáculo ao desenvolvimento económico ou como um capricho contemplativo. Estruturalmente, somos um país materialista: medimos o valor da terra pelo betão que suporta ou pela madeira rápida que dela se extrai, incapazes de atribuir valor ao que não se traduz em rendimento imediato.

A extinção funcional do cartaxo-nortenho como reprodutor nas nossas montanhas não foi um acidente de percurso; foi o resultado previsível dessa visão tacanha do território.

A biologia da espécie carrega consigo o seu próprio calcanhar de Aquiles: ao contrário de tantas outras aves que procuram a proteção das copas das árvores ou o abrigo inacessível das rochas, o cartaxo-nortenho nidifica exclusivamente no chão. Escondido entre as touceiras de relva e a vegetação rasteira dos prados húmidos de altitude, o ninho depende em absoluto da integridade e do mosaico vegetativo da montanha.

Foi precisamente essa estrutura que a intervenção humana estilhaçou nas serras do Norte. Primeiro, através da monocultura florestal: a conversão dos prados abertos em manchas densas de pinhal e eucaliptal fechou a paisagem e destruiu o habitat de caça e nidificação. Depois, com o declínio e abandono do pastoreio extensivo tradicional, que mantinha os prados abertos, permitindo que a vegetação evoluísse para matos densos e contínuos. Por fim, a praga dos incêndios recorrentes que fustigam ciclicamente as terras altas, destruindo as posturas em plena época de reprodução.

Estamos em setembro. Precisamente agora, enquanto lê estas linhas, milhares destas aves atravessam o nosso país de norte a sul. Mas não se iluda: os indivíduos que neste mês de setembro pousam nas vedações do Cabo de São Vicente ou nos arbustos da Ria de Alvor não são os herdeiros das nossas serras. São migradores vindos do centro e norte da Europa que usam o nosso território como mero posto de abastecimento na sua épica travessia rumo à África subsariana.

O desaparecimento do cartaxo-nortenho enquanto reprodutor dos nossos picos não é apenas a perda de uma ave; é o sintoma acabado de um país que continua sem saber conviver com a sua própria natureza nem valorizar os ecossistemas de montanha que herdou.

domingo, 15 de março de 2026

Jiddu Krishnamurti - a reforma que vale é a reforma do indivíduo


Quando os modelos estão experimentados e falham gradualmente na criação multilateral e igual de abundância e prosperidade, uma sociedade informada, sensata e consciente, deve começar a procurar novos sistemas e modelos, para que prevaleça e prospere .Ou neste caso concreto, ir buscar os exemplos onde está a sabedoria maior , na Natureza, que em muitos bilhões de anos já fez todas as experiências difíceis e criou modelos tão complexos e eficientes, que com toda a nossa tecnologia e estudo empírico, ainda só afloramos superficialmente.
A sabedoria da Natureza está em tudo o que acompanha o nosso quotidiano. Não inventamos nada, só vamos conseguindo ler e reproduzir , com o engenho e criatividade.
Este processo, seja na escala de consciência individual ou colectivo, transversalmente a tudo, deveria ser a base da nossa conduta, aceitando humildemente aquilo que não sabemos e aceitar a sabedoria da natureza, reproduzindo então com estas nossas capacidades que são o que de melhor temos.

Não somos sábios, mas a criatividade e engenho são dos nossos melhores atributos, como espécie .
Estes mesmos atributos trouxeram a um ponto que podemos construir ou destruir a escalas globais. Resida aqui a tal encruzilhada de escolhas .
Não querendo ser pessimista, porque não o sou, mas se não conseguirmos interiorizar isto primeiro e depois aplicar, temo que possa ser cheio de incertezas e perigos, o nosso futuro enquanto espécie neste maravilhoso e fascinante planeta e cosmos .
E que cada um vá dando o seu contributo, na sua escala e realidade, pode ser muito mais significativo do que se pensa .

Seguindo uma frase que diz que o pior erro é não fazer nada por acharmos que é pequeno ou os outros o farão.
Parece-me claro que estamos cada vez mais próximo de uma encruzilhada determinante .
E parece também que ao invés de aprendermos, só reproduzimos os mesmos erros e cada vez com mais consequências drásticas. É exponencial a capacidade que temos de destruir ou construir .
É uma escolha feita de muitas escolhas.

E-Livros de Jiddu Krishnamurti

Todos os livros traduzidos aqui

sexta-feira, 13 de março de 2026

The Marrow of the Infinite

Foto do meu amigo Rui Manuel Vitor Cortes

"The mountain does not hold the water;
it is the water,
and the water is the stone’s slow breath.

We do not look at the wild;
we are the wild looking back at itself,
remembering that the boundary of our skin
is as porous as the moss upon the rock.

To go out into the wild is to go in,
climbing not over the rocks, but through the soul,
where every moss-slicked boulder
is a scripture written in green and grey.

Our biological dance is in the spray;
we breathe what the forest exhales,
and the forest drinks what we let fall.
There is no "environment" out there to save -
only our own extended body,
leaping over the precipice in a roar of white foam.

We listen with the heart that reconnects.
In the rush of the current, we hear the world’s grief
and the world’s ancient, stubborn joy.

We stop being the masters of the flow
and become the flow itself—
held by the ancestors of the silt,
feeding the children of the sea.

The granite stands. The water moves.
And we, the watchers, are the bridge
where the mountain finally learns
how beautiful it is. "

João Soares, 13.03.2016

Pedi ao Gemini para criar uma música baseada no meu poema. Ouvir aqui

sábado, 28 de fevereiro de 2026

Entrevista a Gary Snyder - aos 92 anos


Snyder enfatiza que os seres humanos perderam a conexão com o local onde vivem. Ele defende que devemos conhecer intimamente a nossa "bacia hidrográfica" (watershed): quais plantas crescem ali, de onde vem a água, quais animais habitam à sua volta. Para ele, a ecologia não é um conceito abstrato, mas a prática de se tornar um "nativo" do lugar onde se pisa.

Ele discute sua longa permanência no Japão e como o Zen-Budismo moldou sua visão de mundo. Snyder explica que a prática espiritual não está separada do trabalho físico (como cortar lenha ou cuidar da terra). Ele vê a natureza como um "sangha" (comunidade espiritual) expandido, onde todos os seres vivos têm dignidade.

A conversa toca na importância de comunidades pequenas e autossustentáveis. Snyder acredita que a resistência contra a destruição ecológica começa na escala local, através do fortalecimento dos laços comunitários e da educação das novas gerações sobre o valor do seu ecossistema imediato.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Encontros Improváveis - John Muir

Parque Natural do Alvão
John Muir: o profeta da natureza
John Muir (1838–1914) foi o catalisador que mudou a percepção do mundo ocidental sobre a vida selvagem, movendo-a da exploração utilitária para a veneração espiritual.

"Wilderness is a necessity... there must be places for human beings to satisfy their souls." – John Muir

John Muir, frequentemente aclamado como o "Pai dos Parques Nacionais", foi uma das figuras mais influentes na formação da consciência ecológica moderna. O seu pensamento não era apenas uma teoria académica, mas uma filosofia vivida, profundamente enraizada numa visão espiritual e holística da natureza. Para Muir, o mundo natural não era um recurso a ser explorado, mas um templo sagrado onde a humanidade poderia encontrar renovação e verdade.

O panteísmo naturalista
No cerne da filosofia de Muir reside a convicção de que Deus e a Natureza são indissociáveis. Influenciado pelo transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, Muir via em cada glaciar, árvore ou tempestade uma manifestação direta do divino. Ele rejeitava a visão antropocêntrica — a ideia de que a Terra existe apenas para servir o Homem - e argumentava que todas as espécies possuem um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a civilização.

Preservacionismo vs. Conservacionismo
Muir é o principal rosto do preservacionismo. Esta postura diferenciava-o de contemporâneos como Gifford Pinchot, que defendia o "conservacionismo" (a gestão eficiente dos recursos naturais para uso humano). Enquanto Pinchot olhava para as florestas como madeira em potencial, Muir via-as como essenciais para a saúde espiritual e psicológica da humanidade. Para ele, a natureza selvagem (wilderness) deveria ser mantida intacta, protegida de qualquer intervenção comercial.

Pontos-Chave do Pensamento de Muir
  1. Interconectividade: Muir antecipou conceitos da ecologia moderna ao afirmar que, quando tentamos isolar algo na natureza, descobrimos que está "preso a tudo o resto no Universo".
  2. A Natureza como terapia: Ele acreditava fervorosamente que o contacto com o mundo selvagem era a cura para os males do materialismo industrial, descrevendo a ida para as montanhas como um "regresso a casa".
  3. Ativismo político: a sua filosofia traduziu-se em ação direta, resultando na fundação do Sierra Club e na criação de parques icónicos como Yosemite, Mount Rainier  e Sequoia.
"Milhares de pessoas cansadas, de nervos abalados e demasiado civilizadas, estão a começar a descobrir que ir para as montanhas é ir para casa; que a vida selvagem é uma necessidade." — John Muir

A herança de Muir continua viva hoje, servindo de base para o movimento ambientalista global e para a compreensão de que a preservação do planeta é, em última análise, a preservação da nossa própria essência.

quarta-feira, 14 de maio de 2025

Para que queremos a energia renovável?


"A resposta mais imediata é simples: queremos energia renovável para substituir os combustíveis fósseis e para usar energia endógena, reduzindo a dependência de importações. Esta necessidade ficou ainda mais evidente com a guerra em curso no Médio Oriente e o fecho do estreito de Ormuz.
Mas a resposta, sendo correta, está longe de ser completa. A boa resposta é que queremos energia renovável para fazer a transição para a sustentabilidade. E aqui importa ter em mente que renovável não é sinónimo de sustentável.
Um projeto de energia renovável que destrua ou degrade outros pilares da sustentabilidade perde grande parte do seu propósito. A produção de energia não pode ser avaliada apenas pelo seu mérito energético, ignorando os impactos nos territórios, nas comunidades, nos ecossistemas, na biodiversidade ou nos serviços que a natureza nos presta.
Uma barragem pode produzir eletricidade limpa, mas também alaga habitats, fragmenta rios e altera o transporte de sedimentos. Um projeto de biomassa pode tornar-se contraproducente se depender de exploração insustentável da biomassa. Qualquer projeto de energia renovável carece, por isso, de uma avaliação integrada do seu mérito e impacto global.
A energia solar surge à partida como a forma mais próxima de uma solução sustentável, ao captar diretamente a energia que o sol nos fornece diariamente. Ainda assim, também aqui não há soluções automáticas. Painéis fotovoltaicos instalados em telhados ou infraestruturas existentes são, em geral, uma opção sem conflito. Quando colocados sobre solos degradados ou com excesso de insolação, podem mesmo contribuir para o restauro ecológico e coexistir com alguns usos agrícolas. Mas quando implicam o abate massivo de árvores ou a substituição de ecossistemas naturais ou seminaturais valiosos, deixam de fazer sentido.
Há uma tendência humana para colocar o próprio setor ou os próprios interesses acima dos restantes. No setor da energia, isso traduz-se por vezes na ideia de que qualquer projeto de energia renovável deve avançar seja onde for, como se tivesse sempre interesse público preponderante. Não tem. Esse interesse tem de ser avaliado caso a caso, com base numa visão integrada do território.
A definição de áreas de aceleração para energias renováveis pode e deve ser parte da resposta. Mas só será eficaz se assentar em critérios sólidos, que garantam que acelerar não implica degradar, mas antes e idealmente ajudar a regenerar territórios. A melhor aceleração será aquela que orientar os projetos para onde há menor conflito com a natureza, com as pessoas e com usos já instalados do território.
Afinal, a pergunta mantém-se: queremos energia renovável para quê? Se a resposta for apenas para ter mais dessa energia, falharemos. Se for para construir um futuro verdadeiramente sustentável, então teremos de avaliar caso a caso e com critérios alargados de sustentabilidade."
Diretor para o Capital Natural na Direção-Geral do Ambiente da Comissão Europeia
Diretor para a adaptação e tecnologia de baixo carbono na Direção-Geral da Ação Climática da Comissão Europeia
Secretário de Estado do Ambiente
É Doutorado em Biologia Evolutiva e Licenciado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde foi Professor Auxiliar
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terça-feira, 12 de março de 2024

Gary Snyder - A Prática da Natureza Selvagem


"Para sermos verdadeiramente livres, temos de aceitar as condições fundamentais tal como são - dolorosas, impermanentes, abertas, imperfeitas - e de nos mostrarmos depois gratos pela impermanência e liberdade que elas nos concedem. Pois num universo invariável não haveria liberdade. Com essa liberdade, melhoramos a habitação, educamos crianças, expulsamos tiranos. O mundo é Natureza e, a longo prazo, inevitavelmente selvagem, porque o selvagem, enquanto processo e essência da Natureza, é também uma imposição de impermanência."

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Permaculture showed us how to farm the land more gently. Can we do the same as we farm the sea?



As wild fish and other marine species get scarcer from overfishing and demand for ‘blue foods’ grows around the world, farming of the ocean is growing rapidly. Fish, kelp, prawns, oysters and more are now widely farmed. The world now eats more farmed seafood than wild-caught.

These farms are springing up along coasts and in offshore waters worldwide. Australians will be familiar with Tasmania’s salmon industry, New South Wales’ oyster farms, and seaweed farms along the southern coastline. Aquaculture is already larger than fishing in Australia. Farming the sea is hailed as a vital source of food and biomass essential to reduce the damage we do to our oceans and help feed a growing population.

But the booming “blue economy” is no panacea. Fish farms can pollute the water. Mangroves are often felled to make way for prawn farms. The solutions of today could turn out to be problems of the future. We cannot simply shift from one form of environmental exploitation to another.

There is an alternative: permaculture. This approach has proven itself on land as a way to blend farming with healthy ecosystems. What if it could do the same on water?

Making aquaculture better
Many of today’s most pressing problems – from climate change to biodiversity loss to pollution – are linked to the way we produce food on land. To make new farmland often involves removing habitat, destroying trees and adding synthetic fertilisers and pesticides.

Since humans began farming about 12,000 years ago, we have expanded to the point where we now actively control about 70% of Earth’s ice-free land to make food, build cities, and many other uses.

On land, we are farmers, tending domesticated species. But at sea, we’ve been hunters, seeking wild populations. Now, the seas are to be farmed. We should farm in ways which do not damage these ecosystems.

We cannot afford to use the same intensive methods of farming in the oceans as we have been on land. Given how sick many of the world’s ocean systems are already from overfishing, algal blooms from nutrient overload, and habitat loss, there’s not much room for error.

What is marine permaculture?
Permaculture as we know it was developed in the 1960s by Australians Bill Mollison and David Holmgren. The latter is a co-author of the research forming the basis of this article.

The goal was simple: create ways of farming which give back to the soil and ecosystems, using tools like no-till farming, companion planting and food forests. Over the last 50 years, it has been adopted by farmers around the world.

Permaculture is framed around three ethics – care of Earth, care of people, and a fair share – aimed at producing benefits and distributing costs equitably between different people and nature.

So what would permaculture of the seas look like? While it hasn’t been fully articulated, many recent developments in ocean production and governance have strong parallels with the work permaculture practitioners have been doing for decades.

Aquaculture systems can, many now believe, not only be low-impact but work to restore lost or damaged ecosystems. Picture oyster farms slowly bringing back the natural oyster reefs which once carpeted shallow coastal waters, or prawn farms surrounded by regrowing mangroves to protect the coast from erosion.

There are strong parallels between the closed-loop approach taken by permaculture on land and an emerging sea farming approach called integrated multi-trophic aquaculture. Here, species with different ecological roles are grown together, producing more food from your farm – and strengthening natural ecosystem services.

In these systems, food waste from consumers is recycled by seaweeds and shellfish, which in turn provide food and habitat to farmed fish species. If well-designed, these benefits flow out from the farm.

Permaculture’s influence is also evident in nature-inspired design and biomimicry, using natural shapes to give nature a boost. Australian work here includes efforts to restore rocky reefs by creating structures with the nooks and crannies small sea creatures need.

From the grassroots
At present, a handful of corporations have disproportionately high levels of control over fisheries and aquaculture. In part, that’s because supertrawlers, motherships, and large blue-water fish farms are expensive.

If we instead took a marine permaculture approach to the blue economy, we would seek to return power back to the people who live and work at the water’s edge – a permaculture equivalent to artisanal fishing.

A localised approach to aquaculture has real benefit. Individuals and communities could develop their own versions of marine permaculture which work in their area, by adopting design solutions used elsewhere or just by tinkering and trialing.

If something isn’t working or it’s creating flow-on consequences, people can see what’s happening and respond quickly.

Small-scale sea farms are less likely to do damage, and should also boost resilience by investing in local social and environmental benefits.

How do we make this a reality?
For their part, governments can help by creating policy frameworks encouraging small-scale producers – especially those able to demonstrate positive social and ecological outcomes.

Governments have an essential role in creating comprehensive spatial plans to guide aquaculture in an area or region. This is important, as it removes uncertainty and avoids conflict between different uses.

Researchers can help by developing measures of success and testing new techniques to help guide the new communities which will form to farm the sea.

Over the past half-century, permaculture on land has grown into a diverse movement challenging conventional wisdom about how to produce food.

We’ll need that same intense creative energy to make marine permaculture a reality. It’s entirely possible to design food-producing seascapes which give back to the sea as well as take from it – while making it possible for smaller sea farmers to flourish.

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quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Helena Freitas: A natureza devia ser central na economia de uma forma geral, e não apenas nas áreas protegidas

Correjola (Corrigiola litoralis)

Qual a importância de ambientes de biodiversidade na natureza?
A biodiversidade é o legado biológico que temos à nossa disposição e que resulta de milhões de anos de evolução. Permitiu que connosco co-existissem um conjunto muito amplo de espécies de diferentes grupos. Neste momento conhecemos cerca de dois milhões de espécies, sendo que isso representará talvez um quinto do conjunto de espécies que podem existir. A ciência conhece, e identificou em algum tempo da história uma espécie, que agora também devia ser objeto de reanálise. Muitas destas espécies estão hoje em gavetas de museus, portanto não voltaram a ser estudadas, porque infelizmente também não temos capacidade, recursos humanos suficientes ou especialistas nos diferentes grupos de organismos à escala do que seria necessário. Hoje percebemos cada vez mais a importância da biodiversidade. Cada espécie é um repositório evolutivo fantástico de um processo longo, muitas vezes muito mais longo que o nosso, de grupos de organismos que são relevantes.

No essencial conhecemos as plantas superiores, organismos mais visíveis, mais fáceis de reconhecer. Há grupos de organismos que conhecemos pior, mas nas últimas décadas o que temos percebido claramente é que essas espécies têm uma relevância extraordinária na composição e no funcionamento dos sistemas vivos. Aliás, também nós temos um conjunto de diversidade, microbiana nomeadamente, que é essencial para o nosso equilíbrio e bem-estar. É inequívoco que o nosso microbioma é uma parte essencial da nossa saúde.

Temos uma intenção muito grande de continuar a estudar a biodiversidade, todos os dias descobrimos espécies novas em muitos locais do mundo. Continuamos com esse objectivo de estudar e conhecer. Há grupos que também hoje percebemos que são da maior relevância e conhecemos mal, por exemplo os fungos. Conhecemos talvez 2% ou 4% dos fungos que poderão existir. Os fungos têm uma relevância incrível quer na relação com as plantas, na forma como podem intervir na cadeia alimentar, na simplificação dos sistemas, como podem decompor, são os únicos organismos capazes de decompor a matéria vegetal e com isso contribuir para o ciclo da vida.

Na ciência, o grupo mais expressivo do que conhecemos são os insectos. Têm uma expressão muito significativa no conjunto da vida. Mas é certo que se conseguíssemos ter acesso à diversidade bacteriana ou fúngica por ventura teríamos ainda muito mais em termos de número.

Quais são as principais razões da perda de biodiversidade aqui em Portugal?
Havia um grande biólogo, o Edward Wilson – a ele se deve esta ideia da biodiversidade -, que dizia que são cinco as grandes ameaças. Em inglês é hippo. H para a perda do habitat, o I para a invasive species, as espécies invasoras, ou exóticas, que são levadas para outros ambientes e ameaçam as espécies nativas (no caso português 20% da flora já é exótica), o P para poluição, o outro P para população, a expansão demográfica – tendemos a anexar activamente  as grandes florestas tropicais, os grandes habitats para a expansão das nossas cidades, agrossistemas da monocultura industrial -, e o O para overexploitation, o abuso de utilização de recursos.

Essas são as grandes causas, no mundo inteiro e em Portugal também, para a perda da biodiversidade. Há uma destruição enorme dos habitats naturais, designadamente aqueles que dependem da água, as nossas zonas húmidas, os nossos rios, mas também as áreas protegidas. Nas nossas florestas, com os incêndios sucessivos, a expansão das espécies exóticas é visível, o que significa que as espécies nativas não têm condições de competição, porque não são espécies de crescimento rápido.

Em relação às zonas húmidas e aos rios, existe uma preocupação particular no papel que têm no ecossistema?
Há uma preocupação enorme. Estamos a perder as zonas húmidas, e as zonas húmidas mais temporárias, que eram muito características. Os charcos no sul de Portugal, no Alentejo, estão tremendamente ameaçados, desde logo porque os cenários climáticos também impõem uma nova realidade. Os sistemas dependentes da água sofrem uma alteração no seu ciclo de vida. Não é por acaso que é maior a susceptibilidade a doenças de vários anfíbios. Isso é visível à escala global, e em Portugal também. Não temos uma monitorização tão regular que permita ter essa ideia muito assertiva para Portugal, mas é notório e são vários os investigadores que transmitem isso.

Ainda há dias vi nas notícias o desaparecimento de um pequeno peixe que era endémico de uma ribeira no Alentejo – as águas estão poluídas, o fluxo hídrico não é o mesmo e o caudal não é o mesmo.

Em Inglaterra estão neste momento a oxigenar artificialmente muitas massas de água para conseguir manter a vida lá dentro. As formas de vida, sejam plantas, sejam peixes, que vivem na água precisam de oxigénio, tal como nós. Havendo um aumento muito grande da poluição, diminuindo o fluxo hidrológico e com isso a oxigenação destes sistemas, as formas de vida ressentem-se.

Nós estamos a entrar numa rota de colapso da biodiversidade, que resulta de uma conjugação muito grande de fatores, mas que tem tudo a ver com as opções que temos tidos. Aquela intenção de “do not harm”, na verdade não estamos a conseguir implementar. Não é monitorizado, não é penalizado quem não o faz, portanto é verdade que estamos a destruir os recursos biológicos e a vida, sendo que nós somos parte dela. É chocante a forma como nos desligámos.

Para começar a haver essa proteção da biodiversidade, e conseguir que ela se desenvolva mais em certas áreas, onde iria demorar muitos milhares de anos e podemos proporcionar um aceleramento, é preciso mais legislação ou consciencialização?
Tipicamente o que temos feito para conservar a biodiversidade é identificar áreas que ficam consignadas à conservação da natureza, e acreditamos que os parques naturais e as áreas protegidas de uma forma geral é um sistema que nos garante que essas áreas estão intocáveis ou que pelo a biodiversidade está salvaguardada. Se formos honestos, sabemos que não é bem assim.

Há uma série de estatutos e classificações que foram criadas com o desígnio de conservar a natureza, mas é verdade também que não tem havido o investimento necessário para garantir ao nível da governança, da monitorização, do cumprimento da legislação. Sabemos que há muita permeabilidade no sistema.

Hoje, em resultado da Convenção para a Biodiversidade, que aconteceu em Montreal no final do ano passado, assinámos um acordo que tem como um dos objectivos ter 30% de terra e mar consignado à conservação da natureza. São mais de 190 Estados signatários que se comprometeram, é um desafio para todos. Mas mais importante do que a área em si seria garantir a sua eficácia. Infelizmente sabemos que isso é mais difícil, mas a minha esperança é sempre que a natureza seja cada vez mais parte da forma como equacionamos quaisquer soluções de progresso, seja num meio urbano ou parque natural, na forma como planeamos as novas construções, tendo em atenção as soluções baseadas na natureza, no reforço de mitigar a questão climática. A natureza devia ser central na economia de uma forma geral, e não apenas nas áreas protegidas. Na economia e na nossa forma de pensar o mundo e a vida.

A agroecologia pode ser uma das soluções?
A agroecologia é tremendamente importante para conseguir a transição ecológica, que penso que é uma inevitabilidade, e consagrar a civilização ecológica, aquela capaz de viver em harmonia com a natureza. Só essa consagração permitirá a própria sobrevivência da espécie humana. E para que isso aconteça a transição ecológica é fundamental a alteração do sistema alimentar.

O sistema alimentar depende dos ecossistemas. A forma como nós produzimos alimento atualmente é perversa a todos os níveis. Desde logo socialmente, quando temos grande parte do mundo que não tem acesso a alimento, e outra parte que sofre de doenças causadas por alimentos que são nocivos, ou porque incorporam elementos poluentes, ou porque nos fazem mal, ou porque consumimos em excesso. É um sistema que nós construímos e que está nas mãos de um conjunto de corporações que escolhem aquilo que nós comemos. Nós vamos ao supermercado comprar aquilo que escolhem por nós. Com isto abdicamos de uma atividade que nos ligava à terra.

Sou cientista, acho que a ciência nos vai ajudar, que a tecnologia e a inovação nos vão ajudar, mas a agroecologia diz-nos que nós temos de ser capazes de produzir alimento sem fazer mal aos solos, à água, à biodiversidade, e contando com a biodiversidade para nos ajudar neste processo. Por outro lado, é fundamental que as soluções agro-ecológicas também penetrem na agricultura convencional e industrial.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Proteger a natureza “é uma ideia falha, e pífia também”

“O ambiente não precisa de ser protegido.” O PÚBLICO partiu desta provocação de Ai Weiwei para interpelar diferentes especialistas. E encontrou um consenso: falar em protecção é um erro.


A vida começou num mundo quente. Não havia ainda uma camada protectora de ozono na atmosfera superior da Terra. O que existia eram organismos minúsculos, chamados cianobactérias, que “aprenderam” a aproveitar os raios de sol para produzir energia. Ao longo dos muitos milhões de anos que se seguiram, a evolução viabilizou uma miríade de outros seres vivos, incluindo o Homo sapiens. Agora que o planeta volta a aquecer, os humanos ambicionam proteger o conjunto da vida que o precedeu. Faz sentido?

“Nós somos recém-chegados. A nossa espécie está a dar os primeiros passos neste planeta. Esta tese de que temos de proteger a natureza é uma inversão do ónus da primazia. Nós somos parte da natureza e dela dependemos”, alerta o filósofo português Viriato Soromenho-Marques, professor catedrático da Universidade de Lisboa.

Ao rejeitar o conceito de protecção, declina-se também uma relação de poder entre o domínio do humano e da natureza – esferas que, de resto, não deveriam ser entendidas separadamente. Como os humanos integram o mundo natural, o papel de protecção esvazia-se. Quem cuida de quem? Se pretendo proteger um ecossistema do qual faço parte, isto é superioridade, autocuidado ou apenas uma ilusão? Estas são algumas das questões que emergem da citação proposta pelo artista Ai Weiwei, e que o PÚBLICO usou para interpelar não só o filósofo Soromenho-Marques, mas também a ecóloga Helena Freitas, a curadora Margarida Mendes e a poetisa Ellen Lima.

“Não há uma separação entre humanos e natureza, este binómio é falso e deverá ser revertido, pois é este grande hiato que está na base dos problemas de extractivismo que testemunhamos hoje”, afirma a curadora e investigadora Margarida Mendes, cujo trabalho explora o impacte sociocultural das transformações ambientais.

A curadora exalta a importância de uma “reverência recíproca para com tudo o que nos rodeia”. E isso inclui não só os seres vivos (animais, vegetais e fungos), mas também o reino mineral e ancestral. Esta atitude de cortesia mútua tornaria supérflua a retórica dominante de “protecção da natureza” — um discurso que, de tão repetido, parece infiltrar-se acriticamente no nosso quotidiano. A ideia de “protecção” e “salvação” está presente nos mais variados produtos culturais, dos manuais escolares às campanhas de marketing, passando também pelas páginas deste jornal.

É mais simpático dizer ‘temos de proteger a natureza’ do que dizer que ‘temos de transformar a forma como habitamos a Terra por forma a podermos viver longamente neste planeta', não é?
Viriato Soromenho-Marques.

“O mundo natural em nosso redor não necessita de nenhuma intervenção humana, pois ele regenera-se sem nós. Basta não irmos contra ele”, acredita Margarida Mendes, reverberando a provocação do artista Ai Weiwei que serviu de ponto de partida para este texto.

“Desligamento do mundo biológico”
Opinião semelhante tem a poetisa brasileira Ellen Lima, indígena de origem Wassu Cocal, actualmente a realizar um doutoramento na Universidade do Minho. “A natureza foi dividida na era moderna — ela é uma coisa e nós somos outra. Mas isso não procede. É por isso que esta ideia de proteger a natureza não faz qualquer sentido. A ideia de protecção é falha, e pífia também”, defende.

A ecóloga Helena Freitas também sublinha a incoerência da cisão entre as esferas humana e natural. “Quando somos parte da natureza, deixa de fazer sentido quem protege quem. Contamos com a natureza para nos garantir um conjunto de bens e serviços sem os quais não vivemos — água, alimento, abrigo, regulação do clima, etc. Eu beneficio, mas também sou parte disso. Como dizia [a escritora] Rachel Carson, nada existe sozinho na natureza”, recorda a professora e investigadora da Universidade de Coimbra, que, desde o ano passado, dirige o Parque de Serralves, no Porto.

A ideia de protecção deveria ser substituída pela de dependência, defende Helena Freitas. Esta operação simbólica reposicionaria o lugar do humano, desencorajando a noção de superioridade e a desconexão do mundo biológico. É desse “desligamento” — a palavra é um fio condutor no raciocínio da investigadora — que advém, em parte, a ideia de “protecção”. Perdemos, como humanos, a “consciência da dependência” e isso conduz-nos à “ideia de cuidador”. Falamos em cuidar da natureza como se dela não fizéssemos parte e, assim, escondemos a nossa própria vulnerabilidade.

“Hoje, as ciências da vida e a biologia questionam o próprio conceito de espécie e a forma como esta ideia pode ser perniciosa para a forma como nos posicionamos. A tendência que temos como espécie é colocarmo-nos no topo da pirâmide, como se fôssemos um produto directo de uma evolução capaz de nos colocar num vértice”, refere a directora do Parque de Serralves.

“A pulsão de morte que nos habita”
A questão central desta discussão, para Soromenho-Marques, é compreender por que razão pensamos que temos de defender a natureza da qual dependemos. Sem esse entendimento, diz o filósofo, não vamos até à raiz e continuamos a ignorar como chegámos até aqui.

“Será que esta aparente generosidade não é uma proposta que acaba por ocultar algo pouco nobre, que é a nossa incapacidade de autocontrolo? A incapacidade de gerirmos a pulsão de morte que nos habita? É mais simpático dizer ‘temos de proteger a natureza’ do que dizer que ‘temos de transformar a forma como habitamos a Terra por forma a podermos viver longamente neste planeta', não é?”, indaga o filósofo, que ensina filosofia na natureza na Universidade de Lisboa.

É preciso colocar a humanidade diante do espelho – ou, para sermos justos, parte dela, uma vez que a atitude humana perante o sistema terrestre não é homogénea nem linear. Ellen Lima frisa, por exemplo, que os povos originários [do Brasil] sempre se “propuseram ao exercício de entender a Terra como um organismo vivo”, com a ciência de que a espécie humana integra o ambiente.

Margarida Mendes, por sua vez, cartografa com precisão a incapacidade de autocontrolo, apontando o dedo para o hemisfério norte. “O que sei ao certo é que o poder extractivo de alguns humanos (e aqui estou a falar essencialmente do 1% do Norte Global) tem aniquilado formas de vida e o seu entrelaçamento benéfico, diverso e reestruturador”, refere a curadora.

Somos hoje oito mil milhões sobre a crosta terrestre. Recebemos todos os dias notícias que, se inseridas do domínio da ficção, seriam um sinal do apocalipse: as calotas polares não param de derreter, os microplásticos e as substâncias químicas “eternas” tornaram-se quase omnipresentes, o regresso da guerra à Europa faz-nos cogitar o risco de um Inverno nuclear, os acontecimentos climáticos extremos tornam-se mais frequentes e intensos. Esta catadupa de informação assegura-nos que é preciso agir, mas não nos fornece necessariamente um retrovisor. Continuamos sem um espelho que nos devolva as imagens de que precisamos.

“O que está em causa é a sobrevivência da humanidade em condições que hoje consideramos vida digna. Mesmo com uma conjugação de guerra nuclear e catástrofe ambiental, haverá sempre um conjunto de indivíduos que vai sobreviver — os super-ricos que já têm abrigos para o fim do mundo. Sim, porque agora há uma indústria do fim do mundo. Alguém vai sobreviver. Temos de perceber como nos tornámos uma espécie ameaçadora para a Terra e para nós próprios. Se não percebermos a raiz disso, não temos hipótese nenhuma de sair daqui”, avisa o filósofo.

“A utopia tecnocientífica”
Viriato Soromenho-Marques tem investigado esta questão recorrendo a vários autores, incluindo Rachel Carson. No famoso livro Primavera Silenciosa, publicado há mais de 60 anos, a autora norte-americana usa o caso do pesticida diclorodifeniltricloroetano (DDT) para fornecer pistas sobre a incapacidade humana de autocontrolo.

“Os historiadores do futuro podem muito bem ficar espantados com a nossa distorcida noção das proporções. Como puderam seres inteligentes tentar controlar algumas espécies indesejadas com um método que contaminou todo o meio ambiente e trouxe a ameaça de doenças e morte até para a própria espécie? No entanto, foi exactamente isso que fizemos”, lê-se na badana da nova tradução de Primavera Silenciosa, que acaba de chegar às livrarias portuguesas.

A tese que Soromenho-Marques defende é, de forma simplificada, a de que houve uma grande mudança na forma como nos vemos a nós próprios. Passámos de uma “utopia baseada na sapiência, à maneira da República de Platão”, para uma “utopia tecnocientífica”, em que apostamos tudo na exploração do mundo através do conhecimento. Procuramos fazer coisas com o nosso conhecimento que nos sejam úteis e que “maximizem as nossas relações de poder”, segundo o filósofo.

O planeta existe há 4,6 mil milhões de anos e assim continuará por muito tempo, com ou sem a protecção humana.
“No fundo, andamos há 400 anos a cumular poder sobre a natureza. Tendo em conta esta origem, é compreensível que digamos que temos de proteger a natureza – quando, na verdade, temos é de a proteger de nós próprios e do poder que não controlamos. E trata-se de um poder, como diz a Rachel Carson, que se volta contra nós”, conclui o filósofo.

“Uma completa alucinação cultural”
Soromenho-Marques sublinha como esta utopia tecnocientífica não só nos trouxe até aqui como nos quer vender soluções para sairmos daqui. Os insectos estão em declínio? Acenamos com polinizadores em forma de drones. O planeta está a aquecer? Oferecemos soluções de geoengenharia capazes de reflectir a luz do sol de volta para o espaço e, assim, fazer descer os termómetros. “Hoje vivemos uma distopia, é uma completa alucinação cultural”, diz o filósofo, “e não há nenhuma certeza de que consigamos uma vitória sobre nós próprios”.

Enquanto a humanidade procura atalhos e soluções, ou envereda por descaminhos, o planeta continua a aquecer. A poetisa Ellen Lima recorre a outro pensador, o filósofo indígena brasileiro Ailton Krenak, para vincar a vulnerabilidade humana no sistema terrestre. “Quando olhamos para o Antropoceno, para essa era na qual os homens são entendidos como agentes geológicos, Krenak diz que a Terra pode muito bem seguir o caminho dela sem nós.”

Continuaremos, com o nosso cérebro evoluído, a tentar “segurar o céu” para “adiar o fim do mundo”, ainda citando Ailton Krenak, mas sempre sem saber as consequências exactas que este mundo quente trará para cada um de nós. Resta-nos nas mãos uma certeza: o planeta existe há 4,6 mil milhões de anos e assim continuará por muito tempo, com ou sem a protecção humana.

sábado, 15 de outubro de 2022

Porque não podemos ser cúmplices na transformação da emergência climática em fatalidade

Pisco-de-peito-azul (Luscinia svecica) macho

Enquanto assistimos à transformação da emergência climática em fatalidade, não podemos continuar sentados à espera que os Estados e as organizações consigam alcançar os compromissos necessários e/ou a poderem agir mais, fazer mais.

De facto, eles têm de fazer mais e agir mais e devemos exigir-lhes isso de todas as formas possíveis, falando mais neste tema, trazendo-o todos os dias à praça pública e privada e exigindo ações concretas e não intenções vãs, que se perdem em programas eleitorais, narrativas ilusórias, ou pactos que não se cumprem ou se manipulam com fins esconsos.

Enquanto isto ocorre todos os dias, temos de nos perguntar o que nós, individualmente e em grupo, nas nossas casas, na nossa vida quotidiana, entre o trabalho e toda a vida que se desenha no nosso dia-a-dia, podemos fazer? E de tudo daquilo que achamos que podemos fazer, o que verdadeiramente queremos fazer? Isto é, até onde estamos dispostos a mudar os nossos estilos de vida de modo a podermos assegurar futuro às gerações mais jovens e sobretudo às vindouras? E quiçá talvez mesmo à nossa?!

As Nações Unidas têm incorporado na sua missão esta luta pelo Clima, têm liderado as investigações, os estudos bem como desenhado e exigido compromissos sérios em praça pública. Apesar do discurso duro do seu Secretário Geral, ‘o nosso’ António Guterres, e das suas boas e esclarecidas intenções, a verdade é que a sua ação pouco ou nada tem mudado a forma como Estados e organizações têm lidado com as Alterações Climáticas. No entanto, e porque as Nações Unidas têm tentado abordar a complexidade deste problema nas suas múltiplas dimensões, quer a nível individual, quer a nível coletivo e organizacional, identifico aqui as 10 dicas que nos deixa na sua página, para combater a crise climática para que todos possamos refletir e agir mais:

1. Dissemine informações – identifique e junte-se a movimentos locais que procuram compreender o problema e encontrar soluções e discutir alternativas;

2. Faça pressão política – pressione os políticos a nível local, regional e nacional e as empresas e organizações, a reconhecerem o seu papel e a agirem, a fazerem parte da solução: faça ouvir a sua voz, exija responsabilidades;

3. Mude o seu meio de transporte – Sabemos que não basta vender o carro e comprar uma bicicleta ou andar a pé, mas enquanto não criam melhores serviços de transporte coletivos, podemos reduzir ao máximo o uso do automóvel e até a sua substituição, nos casos em que já temos as soluções de transportes alternativos:

4. Controle o seu consumo de energia –reduzir o consumo será a solução – reveja todos os sistemas em casa (para poupar energia e tornar a sua casa mais eficiente) e procure fontes alternativas.

5. Adapte a sua dieta – apesar das controvérsias e pela sua saúde reduza o consumo de carne e peixe, aumente o dos vegetais e leguminosas.

6. Consuma produtos sustentáveis e de origem local, da estação. Sempre que possível plante e consuma os seus próprios alimentos. Mesmo não tendo terreno ou varanda, pode pedir à junta de freguesia ajuda ou organizar hortas coletivas/comunitárias.

7. Não desperdice comida, não compre o que não vai consumir e se comprar reaproveite-os ao máximo.

8. Vista-se com inteligência (climática) – reduza o consumo, reaproveite e conserve as roupas e procure roupas feitas com materiais sustentáveis e recicláveis.

9. Plante árvores – use aquela terra que herdou e não sabe o que lhe fazer e plante árvores, conserve e mantenha as árvores da sua rua e se possível organize-se para plantar mais.

10. Faça investimentos favoráveis ao planeta – trabalhe apenas com empresas que respeitem o ambiente e invistam na sustentabilidade social e ambiental. Faça as suas pesquisas e cruze informações.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Edward O. Wilson, um dos mais proeminentes naturalistas do mundo, morreu aos 92 anos


Edward Osborne Wilson, tido como o “herdeiro de Darwin” e um dos mais proeminentes naturalistas do mundo, morreu a 26 de Dezembro em Burlington, Massachusetts (Estados Unidos), aos 92 anos, informou a E. O. Wilson Biodiversity Foundation.

Wilson, um perito em insectos e ecossistemas que lutou para travar o declínio mundial da biodiversidade, era um biólogo premiado e professor nas Universidades de Harvard e Duke. Chamavam-lhe o herdeiro natural de Charles Darwin.

“Wilson dedicou a sua vida a estudar o mundo natural e a inspirar outros para cuidarem desse mundo natural tal como ele”, segundo uma nota daquela Fundação.

Nas palavras de Paula J. Ehrlich, presidente da Fundação, “o santo Graal do Edward era o puro entusiasmo da conquista de conhecimento”. “O seu foco científico corajoso e a voz poética transformaram a forma como nos compreendemos a nós próprios e ao nosso planeta. A sua maior esperança era que estudantes por todo o mundo partilhassem a sua paixão pela descoberta como a fundação científica para a gestão futura do nosso planeta. O seu legado foi uma crença profunda nas pessoas e na nossa vontade humana partilhada de salvar o mundo natural.”

E.O. Wilson era chamado o “herdeiro natural de Darwin” e era afectuosamente conhecido como o “homem das formigas” pelo seu trabalho pioneiro como entomólogo. Wilson lembrava, fascinado, que se conheciam mais de 20.000 espécies de formigas desde o Círculo Polar Árctico à ponta da América do Sul. Só na floresta tropical da Amazónia, as formigas representam mais de 10% da biomassa de todos os animais.

No seu livro The Diversity of Life, de 1992, escrevia sobre uma expedição que fez à floresta tropical da Amazónia e sobre os seus insectos: “Subitamente apercebi-me do quão pouco se sabe sobre estas criaturas da floresta tropical e quão profundamente gratificante seria passar meses, anos, o resto da minha vida neste lugar até conhecer todas as espécies pelo nome e cada detalhe das suas vidas.”

E.O Wilson era professor Emérito da Universidade de Harvard, onde deu aulas durante 46 anos, presidente da E.O. Wilson Biodiversity Foundation e presidente do Half-Earth Council.

Autor de mais de 30 livros e centenas de artigos científicos, recebeu por duas vezes o Prémio Pulitzer, primeiro em 1979 com o livro de On Human Nature e depois em 1991 com o livro The Ants.

Wilson nasceu em 1929 em Birmingham, Alabama (Estados Unidos), e desde cedo cresceu nele um interesse pelo mundo natural. Estudou na Universidade de Alabama e fez o doutoramento em Harvard, onde ensinou durante 46 anos.

Durante a sua carreira, E.O. Wilson descobriu mais de 400 espécies de formigas e provou que as formigas usam excreções de feromonas para comunicar umas com as outras.

Este investigador, que estudou como a selecção natural e outras forças podem influenciar o comportamento dos animais, era também um ávido activista pela conservação e foi instrumental em lançar a Encyclopedia of Life, uma base de dados online gratuita que documenta todas os 1.9 milhões de espécies da Terra reconhecidas pela Ciência.

Em 2016 publica o livro Half-Earth: Our Planet’s Fight for Life, onde propõe um plano exequível para salvar a biosfera: dedicar metade da superfície da Terra à natureza. Entre as regiões do planeta que Wilson defendia ainda poderem ser reclamadas para o mundo natural estão o Parque Nacional da Gorongosa (Moçambique), a bacia hidrográfica do rio Amazonas e as planícies do Noroeste da Europa.

Fonte: Wilder

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Devolver metade do planeta à natureza não é uma ideia tão louca quanto parece


A sexta extinção em massa – é assim que os biólogos se referem ao que está a acontecer hoje em dia. Estima-se que, até ao final do século, uma em cada seis espécies esteja extinta devido a uma variedade de causas, entre as quais o crescimento populacional e a perda de habitat, causas estas que são complexas e estão interligadas.

Edward O. Wilson, biólogo de Harvard e vencedor de dois prémios Pulitzer, acredita, no entanto, que ainda temos tempo para salvar o planeta. O seu plano, exposto no livro “Half Earth: Our Planet’s Fight for Life” (Meia Terra: a Luta do Nosso Planeta pela Vida), é ousado: e se devolvêssemos metade do planeta à natureza? Este é um plano que o influente biólogo acredita ser possível e que poderá salvar de 80 a 90% das espécies da Terra.

Em conversa com a National Geographic, E. O. Wilson explicou, com mais pormenor, a sua teoria, defendendo que o desespero não é a resposta para os problemas enfrentados pelo nosso planeta e que, no fim de contas, a maioria das espécies da Terra ainda não foi identificada.

A situação actual do planeta

“Houve cinco grandes episódios de extinção durante a história geológica do passado, tendo o último ocorrido há 65 milhões de anos. Acho que é correto chamar ao que está a acontecer, atualmente, devido à atividade humana, o sexto. Se permitirmos que continue, poderíamos levar a uma diminuição da diversidade de vida na Terra que a deixaria perto do que era na última grande extinção, no final do Mesozoico. Temos bons cálculos, e embora se tratem de aproximações, foram elaborados cuidadosamente por equipas de cientistas, que colocam a taxa de extinção num valor 100 a 1000 vezes superior ao de antes do aparecimento da humanidade. De facto, acredito que esteja mais perto dos 1000, de momento, do que dos 100.”

“O processo de extinção pode ser resumido com a palavra HIPPO [alusão ao hipopótamo, espécie considerada vulnerável pela Lista Vermelha da IUCN]. Cada uma das letras, do H ao O, designa uma das causas de extinção. Portanto, H é habitat; I é o impacto das espécies invasoras; o primeiro P refere-se aos contínuos níveis elevados de crescimento populacional; e o segundo P é para a poluição. [O O refere-se a um termo em inglês “overharvesting”, que engloba a pesca, a criação de animais e a agricultura insustentáveis.]

Sobre a “nova conservação” e quem defende que se deve deixar de tentar salvar o planeta

“Isto é derrotismo que é tanto irracional como perigoso. O que eles estão a dizer é que não há como parar a extinção, que a humanidade é uma força imparável essencialmente irracional e que nos deveríamos concentrar em salvar as espécies que mais valorizamos, como os elefantes e outros mamíferos grandes. Parecem não estar cientes da vastidão da biodiversidade, que ascende a milhões de espécies, muitas das quais ainda desconhecidas pelo mundo científico. É uma combinação de ignorância e de desespero. O outro elemento que surge é uma proposta de que, se guardarmos o ADN, poderemos clonar essas espécies mais tarde e trazê-las de novo à vida. Isto é um absurdo.”

Metade do planeta como reservas naturais

“Se se pudesse reservar metade da superfície da Terra [para a natureza], conseguir-se-ia salvar entre 80 e 90 por cento de todas as espécies.”
“Comecemos com o oceano. Atualmente, 3% do oceano está protegido sob a forma de reservas marinhas. As reservas estão localizadas, normalmente, ao longo das zonas costeiras dos países e queremos que isso chegue aos 50%. Pode parecer quase impossível. Mas dois estudos independentes recentes, realizados por especialistas em organismos marinhos, mostram que se pudéssemos pôr de parte a totalidade da água azul fora das Zonas Económicas Exclusivas dos países costeiros e proibir a pesca em alto mar, teríamos, de facto, um aumento, não uma diminuição, do crescimento global das pescarias. Haveria pescarias mais ricas e um crescimento mais rápido nas áreas costeiras de pesca. Seria para nosso benefício reservar o oceano, o alto mar. Esta é uma consequência notável e não intencionada do conceito da meia Terra.”

O desconhecimento da vida na Terra

“O nosso desconhecimento da diversidade biológica é um dos grandes escândalos das ciências biológicas. Aqueles de entre nós que trabalham em biodiversidade, retrocedendo ao tempo de Lineu [naturalista sueco do séc. XVIIl, conhecido como o “pai da taxonomia moderna”], catalogaram um pouco mais de dois milhões de espécies de todos os tipos de organismos. Mas o número estimado de plantas, animais e micro-organismos no mundo está próximo dos 10 milhões. Por outras palavras, aproximadamente 80% das espécies na Terra continuam por descobrir. Vivemos num planeta com muito por descobrir.”

A fragilidade do ser humano

“Fizemos avanços inimagináveis no nosso conhecimento científico e tecnológico. Mas esse conhecimento está, na sua maioria, confinado ao nosso bem-estar imediato, em particular no que diz respeito aos aspetos biológicos da medicina. Temos um instinto muito poderoso para explorar; sabemos, agora, bastante de astrofísica, mas quando olhamos para o mundo biológico – os recursos que há e como vamos gerir o nosso futuro com ou sem um certo número de espécies a viver connosco – é praticamente uma incógnita. Nós somos frágeis e se continuarmos as tendências vigentes na utilização da Terra, poderíamos ter uma catástrofe.”

O papel da tecnologia e da revolução digital

“Tomei um rumo diferente de alguns dos meus colegas, que defendem a oposição clássica entre o progresso humano e a tecnologia versus a Natureza. Penso de outra forma. Na era digital, com os incentivos económicos básicos que os seres humanos têm para tirar o máximo proveito de qualquer coisa, a economia caminha, quase automaticamente, em direção a um mundo menos material, com menos energia e mais eficiência. Esta tendência, aliada a uma mudança para as fontes de energia alternativas, cria o potencial de se reduzir aquilo a que chamamos a nossa pegada ecológica: a quantidade média de espaço necessária para a subsistência de cada ser humano.”

Como seria implementado? A Terra seria mesmo dividida ao meio?

“Atualmente, 15% da superfície terrestre e 3% do mar estão reservados para fins de conservação. O sistema de Parques Nacionais dos EUA idealizou algumas estratégias que demonstram como se pode alcançar a meia Terra em etapas. Estas incluem coisas como os monumentos naturais nacionais: áreas que têm um valor especial para o país, seja em termos de natureza ou de história. Não haveria alteração na posse [da propriedade] ou regras contra o uso desta terra. Mas quando as pessoas possuem propriedades num monumento natural nacional, costumam ter orgulho disso e fazer bom uso da terra. Este é apenas um dos muitos passos que foram idealizados dentro do nosso sistema atual de parques nos Estados Unidos. Também existem as áreas demarcadas reconhecidas oficialmente pelas Nações Unidas. Podemos fazê-lo aos poucos.”

Estou bastante otimista. Acho que uma das principais razões por que não temos avançado mais rapidamente é porque não passámos por essa transformação em que as pessoas valorizam aquilo a que se chama vida selvagem. Não apenas os animais grandes, mas o resto das formas de vida. Assim que as pessoas se apercebam do que isso é e da sua importância para os ecossistemas da natureza e, em última análise, para elas próprias, acredito que uma mudança rumo à preservação das outras formas de vida seguir-se-ia, para nosso benefício geral.

Fonte: Uniplanet

quarta-feira, 12 de maio de 2021

Simbiosfera: hacia otro modo de entender lo humano

La pandemia nos recordó que la Tierra no existe para ser el hotel de nuestras vacaciones. No debemos confundir el progreso humano con la explotación de los recursos naturales y para eso necesitamos más narradores del Antropoceno.


Por Jorge Carrión
El amor inmortal solo puede encarnarse en células cancerígenas. En 2014, la artista Marta de Menezes y el científico Luis Graça introdujeron genes inductores de cáncer en sus células inmunes y enamoradas. Crearon así dos núcleos esenciales de vida, dos resúmenes de sí mismos, pero condenados a no poder interactuar, porque se rechazarían mutuamente. El precio de la inmortalidad es la soledad eterna, afirma la ficción —en forma de instalación artística— Inmortality for two.

En la mortal realidad, en cambio, nunca estamos solos. Porque vivimos en la simbiosfera.

Si la semiosfera es el universo de los signos y símbolos en que todos nos encontramos sumergidos, la simbiosfera es el de las relaciones biológicas y tecnológicas del que también es imposible escapar. Un espacio planetario de relaciones múltiples e incesantes entre organismos y objetos diversos, donde lo humano no es necesariamente central. Somos tan solo una de las cerca de nueve millones de especies de seres vivos que convivimos en la Tierra.

La pandemia, con su difusión masiva de imágenes microscópicas de virus, de infografías de cuerpos humanos en situaciones de contagio y de cuadrículas de Zoom, nos ha familiarizado con la representación de nuestras innumerables y constantes interacciones, con nuestra condición simbiótica. Hay distintos tipos de simbiosis, desde las que benefician a todas las especies que se relacionan entre sí hasta las parasitarias o las destructivas. El SARS-CoV-2 nos ha recordado con virulencia ese espectro y también que la Tierra no existe para ser nuestra granja, nuestra cantera o el hotel de nuestras vacaciones.

“La capacidad para el lenguaje, la ciencia y el pensamiento filosófico nos convirtieron en los administradores de la biosfera. ¿Poseemos la inteligencia moral para cumplir con esa tarea?”, se pregunta el escritor y biólogo Edward O. Wilson en Génesis. El origen de las sociedades. Hasta ahora la respuesta ha sido no.

Debemos empezar a imaginar futuros que no sigan los patrones de los últimos siglos —o de los últimos 12.000 años, desde el Neolítico—, que no confundan el progreso humano con la explotación de los recursos naturales y el imperialismo respecto a las plantas y animales. Para ello el ser humano tiene que entender que forma parte de la simbiosfera. Que el mundo no existe para su uso y consumo y que él mismo no es solo un sujeto ni un cuerpo, una unidad estática, sino un fenómeno de alianzas y relaciones, una mutación elástica.

La crisis ha hecho llegar a los medios de comunicación de masas esa realidad, que ya había sido explorada por una de las constelaciones más importantes del arte y las narrativas de este cambio de siglo: la de los autores y artistas que se han asociado con científicos e ingenieros para trabajar los intercambios biológicos o las hibridaciones cíborg. Para representar y comunicar la simbiosfera es necesario realizar previamente otro tipo de simbiosis: entre las ciencias y las artes, las tecnologías y las letras.

Eso es lo que hace, precisamente, el filósofo y curador inglés Timothy Morton, quien pone en conversación la ecología y la teoría de la ciencia con el cine y las artes visuales para analizar nuestras interdependencias. En Humanidad. Solidaridad con los no-humanos, escribe: “En el genoma humano hay un retrovirus simbionte llamado ERV-23 que codifica las propiedades inmunodepresoras de la barrera de la placenta. Usted está leyendo esto porque un virus en el ADN de su madre evitó que su cuerpo lo abortara espontáneamente”.

Desde ese momento inicial, toda vida humana se desarrolla en simbiosis. Aunque los individuos —como la propia palabra indica—, nos percibamos eminentemente como sujetos distintos y relativamente aislados, desde el parto sobrevivimos gracias a la alianza con otras personas, con otras especies y con diversas tecnologías. Nuestro cuerpo y nuestra identidad no son autónomas, sino tramas de seres y cosas que dependen los unos de los otros.

La ampliación brutal de la conciencia de que somos partes interconectadas de un todo, aunque sea hija de la hipótesis Gaia que James Lovelock propuso en 1969 —según la cual la biosfera se comporta como un sistema autorregulado—, ya no se inscribe en el contexto de la emergencia de la política ecológica o del pensamiento new age de las últimas décadas del siglo XX, sino en la conciencia y la asunción del Antropoceno, el nuevo orden climático y la digitalización del mundo en el siglo XXI.

Por eso el histórico acuerdo al que han llegado los países miembros de la Unión Europea, para la recuperación por el impacto de la COVID-19, privilegia la ayuda a los programas económicos que estén relacionados, precisamente, con lo digital y con la transición ecológica. Y —también por eso— no es casual que una de las filósofas más leídas y respetadas en estos momentos sea Donna Haraway, quien en 1983 publicó el Manifiesto Cyborg y en los últimos años ha desarrollado una teoría del parentesco multiespecies.

En la instalación biotecnológica Symbiome. Economy of Symbiosis, las artistas Saša Spačal y Mirjan Švagelj idearon en 2016 un ecosistema armónico donde se ayudan mutuamente una planta y una bacteria. Tres años antes, junto con Anil Podgornik, construyeron una cápsula de ciencia ficción capaz de conectar a seres humanos con hongos. Se trata solamente de dos ejemplos, entre muchos más, del tipo de investigaciones que se están llevando a cabo en el campo del arte contemporáneo. “El arte es pensamiento procedente del futuro”, dice Morton en Ecología oscura. Sobre la coexistencia futura. La normalización de esos relatos transhumanos en nuestros museos, libros y pantallas nos prepara para asumirnos como seres interdependientes, trenzados, conjuntos.

Más de cinco siglos después del “hombre de Vitruvio” de Leonardo da Vinci y cerca del cuarto centenario del “pienso, luego existo” de Descartes, ha llegado la hora de cambiar el círculo individual por la red y la esfera, por el ecosistema y la comunidad. Para asumir esa realidad simbiótica es preciso que el conocimiento humano naturalice sus propias simbiosis. Por eso necesitamos más que nunca a artistas de la hibridación, a narradores del Antropoceno, a pensadores contrabandistas de saberes distintos, que realicen síntesis epifánicas, como Wilson, Menezes, Graça, Spačal, Morton o Haraway.

Solamente las convergencias entre la ecología y la política, las ciencias y las humanidades, las tecnologías y las artes pueden conducir hacia nuevas maneras de entendernos como personas y como seres vivos, en entornos cada vez más y más complejos.

*Jorge Carrión, colaborador regular de The New York Times, es escritor y director del máster en Creación Literaria y del posgrado en Creación de Contenidos y Nuevas Narrativas Digitales de la UPF-BSM. Su nuevo libro se titula Lo viral.

quarta-feira, 5 de maio de 2021

O Que Perdemos Com a Extinção Animal

"A perda de habitat, estimulada principalmente pela expansão humana – através do desenvolvimento de terrenos para habitação, agricultura e comércio – é a maior ameaça enfrentada pela maioria dos animais, seguida da caça e pesca. "

Fonte: Nat Geo, 2019

Grande parte dos animais que aqui mostramos fazem parte das mais de 28.000 espécies de animais e plantas que a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) afirma estarem em perigo de extinção. Mas, na realidade, este número é muito mais elevado. Em 1964, a UICN estabeleceu uma “lista vermelha” para as espécies ameaçadas e começou a compilar dados recolhidos pelo mundo inteiro. Esta lista tornou-se no banco de dados global mais proeminente sobre as ameaças sofridas pela vida selvagem – e uma ferramenta essencial para as políticas de conservação. Porém, das mais de 1.500 milhões de espécies de animais, e mais de 300.000 espécies de plantas, a UICN só conseguiu avaliar cerca de 106.000 espécies – já descritas e nomeadas por cientistas. Esta estimativa, acreditam os cientistas, não representa sequer 25% da realidade. O relatório publicado recentemente na Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos, sobre a crise na biodiversidade, estimava que esta extinção ameaça perto de 1 milhão de espécies animais e vegetais, conhecidas e desconhecidas. Até 2020, a UICN espera aumentar o número de avaliações de espécies para as 160.000. E a seguir, na agenda da convenção internacional: uma "lista verde" para os sucessos de conservação. Será muito mais curta do que a vermelha.

MAIOR AMEAÇA: HUMANOS
A perda de habitat, estimulada principalmente pela expansão humana – através do desenvolvimento de terrenos para habitação, agricultura e comércio – é a maior ameaça enfrentada pela maioria dos animais, seguida da caça e pesca. Os habitats, mesmo que não se percam na sua totalidade, podem sofrer alterações às quais os animais não se conseguem adaptar. As vedações fragmentam pastagens e a indústria madeireira dizima áreas de floresta, destruindo os corredores migratórios; os rios estão a ficar tóxicos com a poluição; os pesticidas matam com um alcance vasto e de forma indiscriminada. E para cada uma destas ameaças locais, é preciso adicionar, cada vez mais, as ameaças globais: o comércio de vida selvagem, que propaga doenças e espécies invasoras de um lugar para o outro, e as alterações climáticas, que eventualmente afetarão todas as espécies da Terra – começando pelos animais que vivem em montanhas frias ou que dependem do gelo polar. Todas estas ameaças estão ligadas, direta ou indiretamente, aos humanos e ao aumento da nossa presença. Grande parte das espécies enfrenta diversas ameaças. Algumas conseguem adaptar-se a nós; outras desaparecem.

Se vivêssemos em tempos normais – no sentido de tempo a longo prazo e sem o ritmo de uma época geológica – seria quase impossível assistirmos ao desaparecimento de uma espécie. Tal evento ocorreria muito raramente para alguém o conseguir testemunhar no seu tempo de vida. No caso dos mamíferos, o grupo de animais mais bem estudado, o registo fóssil indica que a taxa de extinção "de fundo", a que prevalecia antes de os humanos entrarem em cena, era tão baixa que, ao longo de um milénio, só desaparecia uma única espécie.

Mas, como é óbvio, não vivemos em tempos normais. Para onde quer que olhemos, as espécies estão a diminuir. Só na última década, extinguiram-se duas espécies de mamíferos: um morcego conhecido por pipistrelle-da-ilha-do-natal, e um roedor, o Melomys rubicola.

A UICN tem mais de 200 espécies e subespécies de mamíferos listadas em perigo crítico. Em alguns casos, como o rinoceronte-de-sumatra, ou a vaquita – uma toninha nativa do Golfo da Califórnia – restam menos de 100 indivíduos. E noutros casos, como o baiji (também conhecido por golfinho do rio Yangtze), a espécie, embora ainda não esteja oficialmente declarada extinta, provavelmente desapareceu.

Infelizmente, o que acontece com os mamíferos também acontece com quase todos os outros grupos de animais: répteis, anfíbios, peixes e até insetos. Hoje, as taxas de extinção acontecem a um ritmo que é centenas – ou talvez milhares – de vezes mais acentuado do que a taxa de fundo. Estas taxas são tão elevadas que os cientistas afirmam que estamos à beira de uma extinção em massa.

A última extinção em massa, que aconteceu nos dinossauros há cerca de 66 milhões de anos, deveu-se ao impacto de um asteroide. Hoje, a extinção é provocada por fatores mais difusos: exploração madeireira, caça furtiva, propagação de patógenos, alterações climáticas, pesca em excesso e acidificação dos oceanos.

Se rastreamos as causas destes eventos até ao seu início, o culpado é sempre o mesmo. “Os humanos são a primeira espécie na história da vida a tornarem-se numa força geofísica”, diz o grande naturalista Edward O. Wilson. Muitos cientistas argumentam que entrámos numa uma nova era geológica – o Antropoceno, ou idade do homem. Por outras palavras, desta vez, o asteroide somos nós.

O que se perde quando um animal se extingue?

Pensar numa espécie, sejam macacos ou formigas, é como responder a uma questão: como viver no planeta Terra? O genoma de uma espécie é como se fosse um manual de instruções; quando a espécie desaparece, o manual desaparece. Neste sentido, estamos a pilhar uma biblioteca – a biblioteca da vida. Em vez de Antropoceno, Wilson apelidou a era em que estamos a entrar de Eremozóico – a era da solidão.

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O livro mais recente de Elizabeth Kolbert, The Sixth Extinction, venceu o prémio Pulitzer. O fotógrafo Joel Sartore tem sido chamado de Noé dos tempos modernos, por ter construído a Photo Ark, a maior coleção do mundo de fotografias de estúdio de animais.

Photo Ark é um projeto conjunto da National Geographic e Joel Sartore. Descubra mais em natgeophotoark.org