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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Arranha-céus vazios de Nova Iorque onde os ultrarricos escondem fortunas


Quase metade dos apartamentos nos sete arranha-céus residenciais mais altos de Nova Iorque está atualmente vazia, incluindo a Central Park Tower, concluída em 2020 e considerada o edifício residencial mais alto do hemisfério ocidental, com mais de 470 metros.

A urbanização da zona começou no início da década de 2010, com edifícios como o One57, o 432 Park Avenue e o 220 Central Park South. Todos chegaram ao mercado ao longo da mesma década, com a Central Park Tower a ser comercializada ainda antes de estar concluída. [Reportagem do Guardian em 2019]

Com um preço médio de oferta de 30 milhões de dólares (25,2 milhões de euros), muitos apartamentos continuam, sem surpresa, por vender.

A Central Park Tower, por exemplo, ainda tinha 87 apartamentos por vender em 2023. No início de 2025, a Extell Development terá refinanciado 18 apartamentos ainda por vender com um empréstimo de 270 milhões de dólares (227,6 milhões de euros), sublinhando as persistentes taxas de escoamento muito baixas.

Ainda assim, a maioria dos apartamentos que foram vendidos acabou nas mãos dos ultra-ricos do mundo, muitos dos quais nunca lá chegaram a viver.

EUA: 'parking money' em arranha-céus de Nova Iorque
Para bilionários em todo o mundo, estes apartamentos de luxo funcionam menos como casas e mais como verdadeiros "cofres-fortes" imobiliários, numa estratégia que parece privilegiar a preservação do capital em vez da geração de lucros.

Antes de mais, o dinheiro é canalizado para ativos imobiliários denominados em dólares norte-americanos, o que ajuda a proteger a riqueza da inflação, da volatilidade cambial e da instabilidade política noutros países. Estes ativos podem ainda ser usados como garantia quando os proprietários precisam de liquidez.

O mercado imobiliário de Nova Iorque é amplamente visto pelos ultra-ricos como uma classe de ativos de "porto seguro", comparável ao ouro ou à arte de primeira linha. As casas de luxo em Manhattan, em particular, oferecem uma reserva de valor estável e relativamente imune a choques económicos.

Outro fator é que estes investimentos permitem diversificar carteiras mantendo o anonimato. Os apartamentos são frequentemente adquiridos através de sociedades de responsabilidade limitada (LLC), que podem ocultar a identidade do proprietário.

Essa opacidade é particularmente atrativa para ultra-ricos muito expostos mediaticamente, que pretendem evitar o escrutínio público sobre os fluxos de capital ou limitar aquilo que as autoridades fiscais dos seus países de origem podem inferir sobre o seu património global.

Por fim, o fenómeno das "torres fantasma". Os apartamentos permanecem às escuras e desabitados durante grande parte do ano, o que faz parte, de forma calculada, da própria estratégia.

Para um bilionário, o potencial rendimento de arrendamento de um apartamento de luxo é muitas vezes irrelevante face ao incómodo de gerir inquilinos e ao risco de desgaste de um ativo mantido em estado impecável.

Manter o apartamento vazio garante que se conserva em perfeitas condições, pronto para ser liquidado rapidamente quando for preciso dinheiro.

Consequentemente, o valor do apartamento reside no facto de ser detido e não habitado, funcionando como uma reserva de capital líquida, transmissível e hipotecável num dos mercados imobiliários mais cobiçados do mundo.

Estados Unidos: o bairro mais exclusivo do mundo
Os residentes da Billionaires' Row formam, provavelmente, um dos enclaves mais exclusivos do planeta. Ainda assim, raramente convivem como vizinhos e muitos permanecem totalmente anónimos.

A lista de proprietários é dominada por titãs dos fundos de cobertura norte-americanos e magnatas da tecnologia.

Ken Griffin, fundador e presidente-executivo da Citadel, um dos fundos de cobertura mais bem-sucedidos do mundo, foi notícia em 2019 ao fechar a compra de uma penthouse quádrupla recorde por 238 milhões de dólares (200,6 milhões de euros) no 220 Central Park South.

Michael Dell, fundador e presidente-executivo da Dell Technologies, também comprou na mesma faixa. Em 2014, adquiriu uma penthouse no One57 por 100,5 milhões de dólares (84,7 milhões de euros), então um recorde para a casa mais cara de sempre vendida em Nova Iorque.

A eles juntam-se outros nomes de peso do mundo financeiro, como Bill Ackman, da Pershing Square Capital Management, e Daniel Och, presidente e antigo presidente-executivo da Och-Ziff Capital Management.

Para lá dos compradores norte-americanos, muitas das torres pertencem a membros da elite global.

Entre eles contam-se figuras como o magnata saudita do imobiliário Fawaz Alhokair, que comprou a residência mais alta do 432 Park Avenue, o empresário têxtil de Hong Kong Silas Chou e Sting, o popular cantor britânico.


Ainda assim, para cada proprietário identificável, há dezenas de outros escondidos atrás de estruturas societárias complexas.

O resultado é um paradoxo curioso: alguns dos metros quadrados mais caros do planeta pertencem legalmente a empresas-fantasma.

O que realmente caracteriza estes proprietários é a sua transitoriedade. Um bilionário pode passar duas semanas por ano numa penthouse em Manhattan antes de seguir para uma propriedade nos Hamptons, uma villa em Saint-Tropez ou um apartamento em Knightsbridge, em Londres.

Por isso, a relação entre pessoal e residentes nestes edifícios é muitas vezes impressionante. Muitos funcionam com serviços de concierge de luxo 24 horas por dia e, nalguns casos, chefs privados, mantendo os apartamentos num estado de prontidão permanente, mesmo que o dono não ponha lá os pés há anos.

Nesse sentido, a Billionaires' Row está também cheia de "moradores fantasma", que são donos da vista, mas raramente aparecem na fotografia.

Estados Unidos: ofensiva de Mamdani contra bilionários
As finanças da cidade de Nova Iorque sofreram um forte abalo na semana passada, quando o autarca Zohran Mamdani apresentou o seu primeiro orçamento preliminar desde que tomou posse no início do ano.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Adam and The Ants - Stand And Deliver


Letra
I'm the dandy highwayman whon you're too scared to mention
I spend my cash on looking good and Pickering your pockets
Well, I'm the dandy highwayman
The one you're too scared to mention
I spend my cash on looking good and Pickering your pockets

Chorus:
Stand and deliver! Your money or your life!
Try and use a mirror, no bullet or a knife!
I don't let no lockdown, I don't let no door
I'm the dandy highwayman that you're looking for!

It's your money or your life
And if you tell a lie, you challenge me to die!
Even though you fool around with your fancy clothes
I'm the dandy highwayman who's looking for your nose!

(Chorus)

Qua qua da diddly qua qua da diddly
(Repeat)

Resultados desta canção com enorme sucesso em todo o mundo.

O Significado: A Estética como Arma de Assalto
O significado de "Stand and Deliver" assenta numa metáfora histórica brilhante para descrever a cena pop britânica do início dos anos 80. Adam Ant assume a personagem de um salteador de estrada (highwayman) do século XVIII, mas com um toque de "Dandy" — ou seja, um homem extremamente elegante e preocupado com a imagem.

A expressão que dá título à canção era o grito de guerra dos bandidos que assaltavam carruagens na Inglaterra antiga, equivalente ao nosso "Alto e para o baile!" ou "A bolsa ou a vida!". No entanto, Adam subverte este conceito: ele não quer apenas o teu dinheiro, ele quer a tua atenção e quer desafiar a monotonia da sociedade.

Quando ele canta "Try and use a mirror, no bullet or a knife" (Tenta usar um espelho, nada de bala ou faca), ele está a dizer que a verdadeira revolução daquela época não se fazia com violência, mas sim com a imagem e a identidade. Para o movimento New Romantic, a maquilhagem, as fardas militares históricas e os penteados extravagantes eram formas de rebeldia contra o cinzentismo do pós-punk.

Em suma, a música é um manifesto sobre o poder do estilo. Adam Ant apresenta-se como um "ladrão" que invade as tabelas de vendas e a televisão, forçando o público a olhar para ele. Ele usa a figura do salteador para mostrar que ser extravagante e "perigoso" visualmente era a forma mais eficaz de chocar o sistema naquela altura.

Adam Ant é o nome artístico de Stuart Leslie Goddard

Site

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A graciosidade efémera nas nossas cidades


Foto do meu amigo Nuno Pimenta

Grace amidst the grind

"One gaze follows the path ahead,
Tracing the lines where the sunlight is shed.
The other lingers, a quiet surprise,
With the world’s hidden mischief caught in her eyes.

Between the stone walls and the crowd's muffled roar,
Is a secret shared, then a moment more.
Amidst the grind, two women remain in a soft, steady light
The heart of the city, looking back at you. " 
João Soares, 13.02.206

Sobre os efeitos negativos da gentrificação aqui e aqui

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Mapeado: Como variam os preços das rendas nas principais cidades do mundo (valores em dólares)

Para melhor visualização amplie aqui
Metodologia
Este mapa compara os preços mensais de arrendamento de um apartamento de três quartos no centro das grandes cidades globais em 2025. Os dados para esta visualização são da Numbeo, via Deutsche Bank. O conjunto de dados da Numbeo é maioritariamente colaborativo, baseado em informações sobre o custo de vida enviadas por utilizadores de cidades de todo o mundo.

Análise
A nível global, a crise habitacional em 2026 não é um fenómeno isolado de Portugal, mas sim uma tendência que afeta grandes metrópoles e economias desenvolvidas. Embora as causas locais variem, existem macrotendências mundiais que explicam por que comprar ou arrendar casa se tornou um desafio global.
Aqui estão as principais causas a nível mundial:
1. Financeirização da Habitação
Este é um dos conceitos mais importantes em 2026. A habitação deixou de ser vista apenas como um direito social para se tornar um ativo financeiro.
Capital Global: grandes fundos de investimento internacionais compram milhares de imóveis para gerir carteiras de arrendamento, o que aumenta a competição com as famílias e inflaciona os preços.
Imóveis como Reserva de Valor: em tempos de instabilidade económica, investidores preferem "guardar" o dinheiro em imobiliário em cidades seguras (como Nova Iorque, Londres, Berlim ou Lisboa), muitas vezes mantendo as casas vazias apenas para valorização de capital.

2. Mudanças Demográficas e Urbanização
Urbanização Acelerada: a ONU estima que, até 2050, 70% da população mundial viverá em cidades. A procura concentra-se em centros urbanos com melhores empregos, enquanto as zonas rurais se desertificam.
Agregados Familiares Menores: há uma tendência mundial de as pessoas viverem sozinhas ou em famílias mais pequenas. Isto significa que são precisas mais casas para o mesmo número de pessoas em comparação com décadas anteriores.
Envelhecimento da População: em 2026, com os primeiros baby boomers a atingirem os 80 anos, há uma retenção de stock imobiliário por gerações mais velhas, dificultando a rotatividade para os mais jovens.

3. Choques nas Cadeias de Abastecimento e Custos
Materiais de Construção: os efeitos das crises geopolíticas globais e da pandemia elevaram o custo de materiais como o aço e o alumínio a níveis históricos. Construir uma casa nova custa hoje significativamente mais do que há 10 anos em qualquer parte do mundo.
Escassez de Mão de Obra: existe um défice global de trabalhadores qualificados na construção civil, o que atrasa projetos e encarece o produto final.

4. Políticas de "Zonamento" e Regulação
Restrições de Planeamento: em muitos países (especialmente nos EUA, Reino Unido e Canadá), leis de urbanismo restritivas impedem a construção de prédios altos ou de maior densidade, favorecendo moradias unifamiliares que ocupam muito espaço para pouca oferta.
Exigências Ambientais: embora necessárias, as novas normas de eficiência energética (edifícios de balanço nulo) aumentam o custo inicial da construção, que é invariavelmente passado para o consumidor.

5. Fenómeno dos "Nómadas Digitais"
A tecnologia permitiu que trabalhadores de países com salários altos (como EUA ou Alemanha) se mudassem para países com custo de vida mais baixo.
Gentrificação Transnacional: isto cria uma pressão de preços em cidades de "acolhimento" (como Cidade do México, Banguecoque ou Madrid), onde os residentes locais, com salários nacionais, não conseguem competir com o poder de compra estrangeiro.

O Ciclo Imobiliário de 18 Anos
Alguns economistas apontam que estamos a chegar ao pico do Ciclo de Kuznets (um ciclo imobiliário que dura cerca de 18 anos). Segundo esta teoria, 2026 seria um ano de tensão máxima antes de uma potencial correção ou estagnação global, devido ao desajuste extremo entre os preços e os rendimentos reais.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Ainda sobre as demolições de barracas no Talude Militar, em Loures


"[...] Não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida"

Ruy Belo, in Problemas da Habitação

É urgente resolver os "problemas da especulação imobiliária". E, para isso, diz Isabel Mendes Lopes, é preciso "não beneficiar quem compra casas para especular, não beneficiar os fundos imobiliários que compram e têm muitos ativos imobiliários e muitas vezes mantém-nos fechados exatamente para fazer especulação e para que eles valham mais daqui a uns tempos, é preciso garantir também todas as condições para que os senhorios tenham a confiança de pôr as suas casas no mercado. Atualmente temos cerca de 250 mil casas vazias em Portugal que estão fora do mercado de venda ou de arrendamento. 

segunda-feira, 5 de maio de 2025

A nova Lei dos Solos


O preço da casa em Portugal é determinado pelos Bancos que foram salvos em 2008, ou seja, pelos accionistas.
Quem diz que isto se vai resolver cuidando dos sem abrigo com assistência social e "arrefecer" o luxo (Livre), com tectos de rendas (Bloco), taxando a Banca (PCP), construindo mais e mais até não sobrar um sobreiro - PS, PSD, IL e Chega - está a mentir, embora possa ser sem intenções, mas a vida é como é. Qualquer uma destas medidas vai levar a tirar casas do mercado, aumentar o seu preço ou, no caso da direita, destruir o país ainda mais, que fica sem terrenos agrícolas. Sem nacionalizar (sob controlo dos trabalhadores, não do Estado) a Banca, as casas vão continuar a subir, porque tudo o que for para o mercado está no mercado mundial, está na mão da Banca mundial ( a ser comprado pelos poupanças e pensões da classe média do norte da Europa, e pelos fundos imobiliários). A esquerda que não é radical e tem medo de ser radical fica sem programa. Ficar sem programa autónomo não parece mas é de facto deixar de existir. Portugal é um refugio para investidores em solo, e os governos do PS a toda a direita são os mediadores desse processo. Há muito que o Estado português é um protetorado de facto, e que a "economia" é pura rapina.
Não precisamos de construir sem parar, precisamos aliás de menos cimento e mais jardins. A Banca alemã e francesa determina o preço da casa. A IL, o Chega, o PSD, o PS querem construir, em solos agrícolas, para vender a estrangeiros (o Livre também entrou no jogo defendendo "arrefecer" mas não impedir a compra). Esses estrangeiros não são para "deportar", são "investidores". Até porque não estão cá a viver. Açambarcam casas. Ao meu lado estão 6 casas vazias, uma delas um T0 foi vendido há 2 anos por 200 mil euros, depois foi vendido a brasileiros por 225 mil euros, está à venda por 240 mil. Ninguém nunca lá viveu, é puro açambarcamento. Especulação. Nada mais.
Sem propriedade pública dos solos - que impeça a especulação que determina o valor astronómico das casas - e habitação massiva pública, bem como total proibição de quem não é residente regular comprar casas, nada se resolverá.
Sem nacionalização da Banca e das casas dos fundos imobiliários - que também são Banca - nada se resolverá e ontem o mais longe que foi o PCP foi ter "um contributo da Banca". Esta é a esquerda menos envergonhada, ou seja, não consegue dizer em palavras que uma sociedade não pode ter os investimentos em mãos privadas, banca privada, que isso nos torna a todos reféns de accionistas, que por sua vez são donos de cada vez mais casas.

Em 1974-75 uma onda generalizada de ocupação de casas que estavam para especulação fez cair o preço da habitação. Não porque muitas casas foram ocupadas (só foram ocupadas casas para especulação, nunca foram as de segunda habitação). A ocupação levou ao medo dos senhorios que estavam a especular que colocaram as casas no mercado e assim o preço caiu. Em muitas regiões grupos de trabalhadores ocuparam terrenos, muitos públicos, e construíram bairros. A partir das comissões de moradores. E claro, a banca foi colocada sob controlo público - na verdade foi nacionalizada para ver se se retirava aos trabalhadores bancários o controlo sob a Banca. Parece radical? Não parece. É.

O país está à venda, teve um apagão eléctrico, vai ter um apagão alimentar (só um ignorante pode achar que a Europa fala a uma voz, e que a Europa não se vai dividir em lutas entre os seus Estados), Portugal terá um apagão de combustíveis, tem já um apagão na saúde e na educação, porque não há carreiras e decência no trabalho. Tem um apagão moral, de um governo que é alegadamente o conselho de administração da Spinunviva aos governos que apoiam de facto o genocídio em Gaza, mantendo relações com Israel, há muito se bateu abaixo do fundo.

Saber mais:

terça-feira, 18 de março de 2025

Gentrificação: o problema de saúde pública que afeta a cidade do Porto


Em 2021, uma equipa de investigadores do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP) propôs-se a estudar o impacto da gentrificação e da insegurança habitacional na saúde dos habitantes da cidade do Porto. Quatro anos depois, os resultados obtidos mostram que estes fenómenos têm consequências negativas claras na saúde dos portuenses, estando associados ao aumento da solidão, da depressão e até mesmo à deterioração da saúde física.

O projeto HUG: Os efeitos na saúde da gentrificação, da relocalização e da insegurança residencial nas cidades – liderado pela investigadora Ana Isabel Ribeiro, coordenadora do Laboratório Saúde e Território, da Unidade de Investigação em Epidemiologia do ISPUP e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) – surgiu com o objetivo de estudar de que forma a gentrificação urbana, a insegurança habitacional e o deslocamento forçado afetam a saúde física e mental da população.

Um dos primeiros estudos desenvolvidos no âmbito do HUG, liderado pelo investigador José Pedro Silva, procurou estudar a relação entre gentrificação e saúde, no Porto, a partir daquilo que as pessoas que vivem na cidade pensam, dizem e mostram sobre esta realidade. Para isso, os investigadores recorreram ao método Photovoice, que consiste em pedir a um grupo de pessoas que tire fotografias sobre um tema importante para a sua comunidade e que discuta em conjunto o que essas fotografias querem dizer.

Neste caso, foram selecionados 16 participantes da coorte EPIPorto, de contextos sociais e demográficos distintos. Estes participantes aceitaram fotografar a cidade, procurando mostrar, através das suas fotografias, como os processos de gentrificação estão a mudar o Porto e, consequentemente, a vida e a saúde de quem habita a cidade.

A informação que estas pessoas forneceram através das suas fotografias e dos seus testemunhos foi objeto de uma análise intensiva por parte dos investigadores, que procuraram identificar, relacionar e agrupar tematicamente as situações descritas. Estas foram enquadradas em seis grandes temas, cada um deles associado a várias consequências para a saúde dos portuenses – algumas positivas, mas a maior parte delas negativas.

Um Porto cidade mais desigual e com menos saúde
Verificou-se, assim, que o aumento da população flutuante (como turistas ou estudantes de outras cidades e países) revitalizou a cidade e estimulou a economia, mas trouxe também mais stress, ruído e poluição e gerou incerteza sobre a capacidade de resposta dos serviços de saúde face ao aumento de pessoas na cidade.

A dificuldade de acesso à habitação, traduzida sobretudo por preços mais elevados, mas também por processos de desalojamento, deslocou residentes para outras zonas da cidade e para a sua periferia, enfraquecendo laços sociais e gerando consequências graves para a saúde e a qualidade de vida, sobretudo dos mais velhos.

A construção e reabilitação urbana melhoraram infraestruturas, mas aumentaram o ruído, a poluição, as dificuldades de mobilidade e o stress. As mudanças no comércio local reduziram o acesso a bens essenciais, afetando idosos e pessoas com menor mobilidade.

A perda do sentido de lugar, enquanto espaço geográfico com significado afetivo para os seus habitantes, causou alienação, mal-estar psicológico e, em alguns casos, um ressentimento potenciador de violência.

Finalmente, estas mudanças socioeconómicas aumentaram as desigualdades, impactando negativamente a saúde pública e, particularmente, a saúde das populações mais vulneráveis.

Os mais velhos são os que mais sofrem com a gentrificação
A evidência científica internacional e os resultados do já mencionado estudo Photovoice demonstram que os adultos mais velhos são mais vulneráveis aos impactos da gentrificação. Assim, para melhor entender as suas perspetivas sobre o impacto da gentrificação na saúde, foi realizado um novo estudo qualitativo, liderado pelos investigadores Cláudia Jardim Santos e José Pedro Silva.

A partir da análise das entrevistas realizadas, concluiu-se que o ambiente urbano foi amplamente transformado, com a renovação de edifícios e o aumento do número de estabelecimentos comerciais voltados para turistas, elevando o custo de vida e tornando o espaço urbano menos acessível e atrativo para os mais velhos.

O aumento da população flutuante gerou benefícios económicos, mas também trouxe mais ruído, poluição, stress e sérias dificuldades de mobilidade pedonal para este grupo demográfico.

A falta de habitação a preços acessíveis gerou deslocamentos forçados e, com isso, a separação de famílias e o aumento do tempo perdido em deslocações pedonais, afetando a saúde mental e social dos idosos e agravando as desigualdades.

Muitos relataram também sentimentos de desenraizamento e perda de suporte social, com casos de depressão e até mesmo relatos de morte precoce entre a população deslocada.

Por fim, a perda da coesão social foi realçada como uma consequência central da gentrificação, com a perda de redes comunitárias e o maior isolamento.

Más condições habitacionais comprometem o envelhecimento saudável
A gentrificação caminha lado a lado com a insegurança habitacional, um conceito que reflete a dificuldade em garantir uma habitação estável, acessível e com condições adequadas. Assim, através de um outro estudo quantitativo, coordenado por Cláudia Jardim Santos e que envolveu 600 participantes da coorte EPIPorto, procurou-se estabelecer uma relação entre fatores como as condições de habitação, a acessibilidade económica, a habitabilidade e segurança e a estabilidade residencial e os seus impactos em marcadores chave da saúde das pessoas mais velhas, tais como a solidão, a qualidade de vida, a função cognitiva, a perceção do envelhecimento saudável e a qualidade do sono.

O estudo revelou que condições habitacionais precárias, como a falta de aquecimento, infiltrações, humidade e iluminação insuficiente, são muito prevalentes e estão associadas a maiores níveis de solidão e a uma pior qualidade de vida entre adultos mais velhos.

Viver em áreas com elevado nível de ruído, poluição e criminalidade também contribui para o aumento da solidão e reduz a perceção de um envelhecimento saudável. Além disso, a ausência de instalações sanitárias adequadas e o deslocamento forçado comprometem a função cognitiva.

A insegurança habitacional, caracterizada por dificuldades financeiras, despejos e mudanças frequentes de residência, também deteriora a qualidade de vida, intensifica a solidão e está associada a uma pior função cognitiva.

Desempenho cognitivo das crianças piora a cada mudança de residência
Um outro estudo, que incluiu mais de 6.000 crianças da coorte Geração XXI, desenvolvido no âmbito da tese de mestrado em Saúde Pública do estudante Obinna Ezedei, investigou de que forma as mudanças frequentes de residência até aos 10 anos de idade afetam a saúde e o bem-estar infantil.

Os resultados sugerem que a instabilidade residencial está associada a um maior risco de vitimização por bullying e a comportamentos agressivos. Além disso, cada mudança de residência corresponde a uma redução significativa no desempenho cognitivo, especialmente no Índice de Velocidade de Processamento e no Quociente de Inteligência Verbal.

No entanto, alguns destes efeitos variam de acordo com o destino da mudança: crianças que se mudam para áreas com pior qualidade ambiental tendem a apresentar desfechos de saúde mais negativos. Por outro lado, a mudança para regiões com melhor qualidade ambiental está associada a indicadores de saúde mais favoráveis.

É, por isso, fundamental promover a estabilidade residencial para famílias com crianças pequenas e garantir que os ambientes onde vivem sejam verdadeiramente salutogénicos, ou seja, propícios à saúde e ao bem-estar.
Moradores forçados a deixar as suas casas revelam ansiedade, dificuldade em dormir e dizem sentir-se deprimidos

Uma das consequências mais severas da gentrificação é o deslocamento forçado da população, muitas vezes causado pelo aumento das rendas ou pela não renovação dos contratos de arrendamento. Neste contexto, foi levado a cabo um estudo sobre deslocamento direto – a remoção de um agregado familiar da sua casa, por motivos não controlados por ele e preenchendo as anteriores condições necessárias para ocupar o alojamento – no contexto da crise habitacional do Porto, recorrendo a uma amostra de 12 voluntários que, tendo vivido em casas arrendadas, se viram “obrigados” a sair.

O estudo, liderado por José Pedro Silva, revelou que a relocalização forçada tem impactos significativos na saúde física e mental, além de contribuir para a modificação de comportamentos de saúde.

A angústia e a incerteza causadas pela iminência do deslocamento afetam os indivíduos antes mesmo da relocalização, com sintomas de ansiedade e depressão a poderem manifestar-se desde o momento em que surge a ameaça de despejo, e mantêm-se ao longo de todo o processo.

Numa fase posterior, em que já se verificou a deslocação para um novo alojamento, são frequentes os sentimentos de tristeza, impotência e ressentimento, por vezes também associados a sintomas como ansiedade, dificuldade em dormir e sentir-se deprimido. Além disso, a mudança de residência, geralmente para áreas menos centrais ou até para outras localidades, leva a uma reconfiguração do espaço onde se desenrola o quotidiano, implicando deslocações maiores e mais frequentes e mudança de hábitos relevantes para a saúde, por exemplo, a prática de atividade física.

A mudança de residência tem também implicações no que diz respeito aos laços sociais e interações, porque provoca mudanças na vida social das pessoas deslocadas: as interações com algumas pessoas tornam-se menos espontâneas e mais raras, ou deixam mesmo de existir, levando à retração de redes sociais e de suporte. Além disso, as novas relações de vizinhança podem revelar-se mais conflituosas do que as anteriores.

Finalmente, o ambiente residencial também muda frequentemente, podendo, por vezes, prejudicar a saúde, em casos em que a mudança é feita para uma casa sem conforto térmico, com problemas de humidade ou exposta ao ruído.

Tudo isto acontece num contexto habitacional de elevada pressão – marcado pela falta de habitações disponíveis e pelos preços elevados – que diminui as opções para as pessoas que precisam de encontrar um novo sítio para morar.

Refletir soluções para uma cidade mais saudável
Os resultados do projeto HUG vão ser apresentados esta terça-feira, 18 de março, no ISPUP, e mostram claramente que a gentrificação e a insegurança habitacional têm um impacto negativo na saúde dos portuenses, especialmente nos grupos mais vulneráveis.

A equipa do projeto reforça que estas são questões de saúde pública e devem ser abordadas como tal. Os investigadores sublinham ainda a necessidade de adotar políticas eficazes que conciliem a transformação urbana com a justiça social, garantindo que o Porto permaneça uma cidade acessível e saudável para todos os seus habitantes.

A sessão de apresentação dos resultados do projeto HUG contará com a participação de cidadãos, jornalistas, ativistas, investigadores e outros agentes locais. O objetivo não é apenas partilhar as conclusões do estudo com a comunidade, mas sobretudo refletir e discutir soluções que possam promover a saúde e o bem-estar de toda a população.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Loteamento de solos rústicos: seis décadas depois, reabrimos a caixa de Pandora?


Por Pedro Bingre do Amaral
Quase sessenta anos depois, com estas novas alterações, corremos o risco de manter as carências de habitação, ao mesmo tempo que prejudicamos a agricultura, a floresta e o ambiente, ao criarmos sobre os mercados imobiliários expectativas de valorização súbita dos terrenos rústicos por meio de alvarás de loteamento concedidos ad hoc

No final de novembro foi aprovado, para audições da Associação Nacional dos Municípios Portugueses e outras entidades, um decreto-lei que, ao alterar o Regime Jurídico dos Instrumentos de Gestão Territorial (RJIGT), permitirá às autarquias autorizar a construção de habitações em terrenos rústicos, ou seja, fora dos perímetros até agora dados como urbanos ou urbanizáveis nas Cartas de Ordenamento dos Planos Diretores Municipais (PDM). Com esta medida o legislador pretende enfrentar o renovado problema da habitação, disponibilizando mais terrenos para a construção de casas em solos que até agora se destinavam à agricultura, à floresta e à proteção da Natureza. Já em janeiro deste mesmo ano fora promulgada uma simplificação do mesmo RJIGT, também para facilitar novas construções.

Por atendíveis que sejam as preocupações sociais destas alterações legislativas, poderemos estar perante opções não somente ineficazes de satisfazer o interesse comum em matérias de imobiliário, como também deletérias para a qualidade do ambiente e do território. As soluções plasmadas nesta iniciativa legislativa repetem, na sua essência, os erros cometidos pelos legisladores portugueses de 1965 quando para resolver o problema da escassez de habitação e das pressões especulativas se promulgaram o Decreto-Lei n.º 46673, de 29 de novembro, criando a figura dos loteamentos privados ad hoc em solo rústico. Este decreto-lei criou o enquadramento legal para o desordenamento do território dos cinquenta anos seguintes.

Em termos muito simplificados, antes deste decreto-lei de 1965 a expansão urbana processava-se nas seguintes fases. Em primeiro lugar a administração pública traçava o plano do bairro que se pretendia criar, segundo os modelos urbanísticos de cidade clássica, cidade-jardim ou cidade moderna.

Seguidamente, adquiria os prédios rústicos necessários para implantar esse novo bairro, emparcelando-os. Tal como nos países mais desenvolvidos da Europa ocidental, era então prerrogativa exclusiva da Administração Pública concretizar as expansões urbanas. Aos particulares estava vedada a transformação de solo rústico em solo urbano. O poder público comprava ou expropriava solo rústico adjacente à malha urbana preexistente, pagando por esses terrenos o valor próprio de terras cujos únicos aproveitamentos autorizados eram a agricultura ou a silvicultura, já que a nenhum privado era concedida a faculdade de urbanizar.

Concluída esta etapa, realizavam-se as obras de infra-estruturação: vias de circulação, saneamento, jardins, &c. Estas obras definiam novos lotes urbanos, os quais eram vendidos aos particulares para edificação segundo a volumetria e finalidades estabelecidos no plano. Da venda destes lotes edificáveis resultavam avultadas mais-valias urbanísticas que ressarciam os custos que o erário suportara na operação de compra de terrenos agrícolas e da construção de infraestruturas. A Administração Pública não se endividava, os proprietários de solo rústico eram remunerados pela perda de terra agrícola, os construtores adquiriam a preços não especulativos solo onde edificar, os compradores finais encontravam habitação em bairros de boa traça arquitetónica e boa qualidade de engenharia civil. Assim nasceram bairros lisboetas como Alvalade, Azul, Alvito, Benfica, Campo de Ourique, Restelo, Areeiro, Encarnação, Olivais, &c. Como o preço do solo se mantinha bem regulado, era possível reservar para fruição pública (jardins, parques, praças, largos, calçadas) uma percentagem elevada da área urbana.

Chegados, porém, a meados da década de 1960, a situação sócio-económica alterou-se: as periferias das cidades portuguesas começam a sentir os efeitos combinados de uma explosão demográfica, do êxodo rural e de uma economia em franco crescimento. Escasseava habitação para o imenso número de famílias que chegavam às cidades e vilas, principalmente na faixa litoral entre Setúbal e Viana do Castelo. Os preços do imobiliário tornaram-se proibitivos para a maioria da população; a carestia de arquitetos e engenheiros atrasava a produção de novas expansões urbanas de iniciativa pública. O orçamento de Estado estava comprometido com um esforço de guerra para sustentar o aparelho militar em África. Perante isto, num acto irreflectido, os legisladores portugueses promulgaram o já referido Decreto-Lei n.º 46673, de 29 de novembro de 1965, permitindo aos privados substituírem-se ao sector público e concedeu-lhes a prerrogativa de realizar loteamentos urbanos em zonas rurais. Abriram-se as portas ao crescimento desregrado de novas manchas urbanas, de escassa qualidade, sem se ter, em compensação, conseguido tornar a habitação mais acessível, posto que tal decreto agravou sobremaneira as pressões especulativas. Em suma: até 1965 as cidades expandiam-se gradualmente por “bairros” em terrenos emparcelados cuja qualidade supera a da maioria das urbanizações construídas após a promulgação deste diploma legal; a partir de 1965 passaram a expandir-se por “urbanizações” em parcelas agrícolas avulsas, não emparceladas, de quintas e casais. O território ainda hoje se ressente da ocupação disfuncional e inestética que se produziu nas décadas seguintes, com loteamentos densos esparzidos pelo território, retalhados segundo a lógica da antiga malha cadastral agrícola.

quarta-feira, 10 de maio de 2023

Socorro a bancos, IA e Apple: o que Buffett disse em reunião anual com acionistas

Berkshire Hathaway, empresa do megainvestidor, reportou salto nos lucros nos resultados do primeiro trimestre, divulgados pouco antes do encontro

Batizada de “Woodstock dos capitalistas”, a reunião anual com acionistas da Berkshire Hathaway, realizada neste sábado (6), contou com a presença do CEO do conglomerado de investimentos, Warren Buffett, hoje com 92 anos, e do vice-presidente, Charlie Munger, 99, que subiram ao palco para responder a perguntas dos investidores e discutir sobre os negócios e a economia em geral.
Os investidores esperavam ouvir os comentários do “oráculo de Omaha”, apelido de Buffett no mercado, a respeito das recentes falências de bancos nos Estados Unidos e o abalo na indústria, e, sem surpresas, o tema esteve entre os tópicos que ele abordou.
“Teria sido catastrófico”, disse Buffett, se os reguladores não tivessem apoiado os correntistas do Silicon Valley Bank.
Buffett também observou que o medo no setor bancário sempre foi contagioso, mas a criação do FDIC (Federal Deposit Insurance Corporation), agência federal que tem a função de garantir os depósitos dos bancos, foi “extremamente sensata”, de acordo com o megainvestidor, garantindo que o governo dos EUA não tem interesse em deixar os bancos quebrarem.
Em relação ao First Republic Bank, banco que quebrou há pouco mais de um mês, Buffett disse: “O CEO e o diretor devem sofrer. Os acionistas, no futuro, não; eles não fizeram nada.”
Os nonagenários foram céticos em relação ao falatório exagerado em torno da inteligência artificial, mas disseram que ela deve ser transformadora.
“Vamos ver muito mais robótica no mundo”, disse Munger. “Pessoalmente, sou cético em relação a parte do ‘hype’ em torno da inteligência artificial; acho que a inteligência à moda antiga funciona muito bem.”
Buffett também fez comentários sobre o mercado imobiliário corporativo norte-americano. Há uma abundância de espaços vazios em prédios de escritórios, e as taxas de juros mais altas também fizeram com que os desenvolvedores atrasassem novos projetos de construção.
“Estamos começando a ver as consequências de pessoas que conseguiam tomar empréstimos a 2,5% e descobrir que isso não funciona com as taxas atuais”, disse Buffett.
Buffett também revelou o melhor negócio no amplo portfólio da Berkshire: “A Apple é diferente das outras empresas que possuímos”, disse. “Simplesmente é um negócio melhor”. A Berkshire tinha, recentemente, uma participação de 5,6% na Apple, de acordo com a agência de notícia Reuters.

Salto nos lucros
Divulgados pouco antes do encontro, os resultados da Berkshire Hathaway mostraram um salto nos ganhos no primeiro trimestre de 2023.
Os ganhos operacionais aumentaram cerca de 12% em relação ao ano anterior, para US$ 8,065 biliões no primeiro trimestre, disse o comunicado de resultados no sábado.
O lucro operacional é o lucro que resta depois que os custos das operações principais de uma empresa são retirados.
O conglomerado registou lucro de US$ 35,5 biliões no primeiro trimestre. O salto é atribuído, em parte, ao retorno do império de seguros da Berkshire.
O negócio de subscrição de seguros da empresa teve um aumento claro, de ganhos de US$ 167 milhões no primeiro trimestre de 2022 para US$ 911 milhões agora.
A receita com investimentos em seguros aumentou de US$ 1,17 bilião para US$ 1,97 bilião.
A companhia de seguros Geico, controlada pela Berkshire, teve um prejuízo com as subscrições de US$ 1,9 bilião no final do ano passado, depois de perder participação de mercado para a concorrente Progressive.
Até aqui neste ano, porém, está se saindo melhor, registando um lucro de US$ 703 milhões no primeiro trimestre, graças a mensalidades médias mais altas e custos de publicidade mais baixos, mesmo com um número menor de sinistros.
Por outro lado, a empresa de energia e ferrovia de carga da Berkshire, BNSF, teve uma queda nos lucros em comparação com o mesmo trimestre do ano passado.
A Berkshire também recomprou aproximadamente US$ 4,4 biliões em ações, e seu caixa aumentou para US$ 130,6 biliões, de US$ 128 biliões no quarto trimestre de 2022.

Original (EN) - aqui - here

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Emergência na habitação: 16 países europeus já têm controlo de rendas

O aumento desenfreado do preço da habitação desde 2015 tem levado vários países a procurar formas de regular o mercado. Na Europa, são já 16 com controlo de rendas - alguns há décadas, outros muito recentemente. E pelo menos três, com a Dinamarca à cabeça, restringem venda a estrangeiros.



Dos 27 estados da União Europeia (UE), 13 têm mecanismos de controlo de rendas. Quanto a países europeus não-UE, como a Islândia, Noruega, Reino Unido e Suíça, só no caso do primeiro não existem constrangimentos legislativos ou regulamentares à fixação e aumento de rendas.

Os constrangimentos em causa variam entre a determinação de um valor inicial para a renda, baseado em requisitos diversos, e limitações, ou mesmo proibições, de aumento das rendas.

De acordo com um relatório de maio de 2021 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) sobre controlo de rendas, no universo de 38 países membros - que inclui a maioria dos estados europeus, mas também os EUA, Austrália. Nova Zelândia, Japão, Turquia e México, entre outros -, mais de metade (23) impunham até essa data regulação no que respeita a aumentos durante a duração do contrato e em mais de um terço (13) existia algum tipo de regulação do valor inicial.

Classificados pelos especialistas do setor como "controlos de renda de primeira, segunda ou terceira geração"- consoante são dirigidos para a renda inicial ou incidem apenas sobre a variação dessa renda ao longo do tempo - estes mecanismos existem há décadas em alguns países, enquanto noutros são muito recentes. Em vários estados é até utilizado o conceito de "renda usurária", ou seja, a noção de que há rendas especulativas, fixadas acima do admissível, tendo em conta as características do locado e/ou o valor de referência do mercado. Na Alemanha, estas rendas são até crime previsto no Código Penal (secção 291, "Usura"), com pena de prisão até três anos ou multa.

Apesar de parecer incontroverso que se chegou em Portugal a uma situação de emergência na habitação - de acordo com o último Censos, efetuado em 2021, são já mais de 40% os agregados habitacionais a pagar rendas entre 650 e 999,99 euros e estima-se que o país seja, na Europa, daqueles em que o valor do arrendamento mais subiu desde 2015 - e de da mais recente remodelação governamental ter resultado a criação de um ministério exclusivamente a ela dedicado, a discussão pública e política tem recorrido muito pouco à análise das experiências de outros países no que respeita a tentativas de regulação do mercado.

Aliás, ainda em maio de 2022 o então ministro com o pelouro da Habitação, Pedro Nuno Santos, anunciava a criação, pelo governo, de um "grupo de trabalho para as questões da habitação" para "ver o que está a ser feito noutros países da UE e, havendo condições, aplicar em Portugal".

Não é conhecido, a existir, o resultado do trabalho de tal grupo, que deveria analisar, nomeadamente, os sistemas de controlo de rendas, mesmo se aquando desse anúncio o governante terá logo assegurado que não seria "solução" para o país. A hipótese de controlar as rendas tem de resto sido sempre desconsiderada pelos governos nacionais, embora na sua forma mais extrema, o congelamento, se mantenha em vigor no que respeita aos contratos anteriores a 1990 (foi inclusive várias vezes prorrogada pelos executivos de António Costa).

Para a jurista Dulce Lopes, professora na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra que integra o projeto Housing Policy in the European Union (Política de Habitação na UE), sendo também membro do Scientific Network on Eviction and Housing Rights, a relutância portuguesa no encarar de novas formas de controlo do mercado de arrendamento privado prende-se com "o historial que existe em relação a essa questão: o congelamento de rendas criou um trauma coletivo. Há a ideia de que a intervenção pública no mercado deve ser limitada."

A especialista considera que algumas iniciativas governamentais, como a do programa de Arrendamento Acessível [agora rebaptizado "de apoio ao arrendamento"], são "bem pensadas" - trata-se de um programa de adesão voluntária, no qual o proprietário tem um desconto total do IRS se arrendar a um valor 20% abaixo do "de mercado"-, mas atribui o seu insucesso às sucessivas e contraditórias alterações legislativas nas últimas décadas e ao citado trauma, que terão minado a confiança dos proprietários. "Também creio que há muita falta de informação, o programa não foi bem divulgado."
Países ricos limitam rendas, pobres entregam-se ao "mercado"?

Um estudo de maio de 2022 sobre controlos de renda (Rent control: principles, practicalities and international experience), efetuado por dois investigadores das universidades de Glasgow e Bristol a pedido do governo escocês, precisamente com o objetivo de informar o debate sobre "uma regulação eficaz", discrimina o tipo de controlo existente, até ao momento da publicação (tem havido mudanças rápidas neste aspeto) em 33 países europeus, distinguindo entre os que têm "um sistema de regulação de rendas" e os que não têm.

Na Áustria, Dinamarca, França, Alemanha, Irlanda, Holanda e Suécia há controlo das rendas iniciais, assim como em França (nas grandes cidades). Os aumentos de renda são sujeitos a regras na Áustria, Bélgica, Croácia, Chipre, Dinamarca, França, Alemanha, Irlanda, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Polónia, Reino Unido (apenas Escócia), Espanha, Suécia e Suíça.

Portugal surge no quadro comparativo como sendo um país no qual, à exceção dos contratos anteriores a 1990, não há sistema de regulação de rendas. Mas isto não é exatamente verdade: num contrato típico, os proprietários só podem, enquanto este está em vigor, aumentar o valor da renda de acordo com o índice de inflação publicado anualmente para o efeito - e como é sabido, para 2023 houve até, por decisão governamental e para controlar os efeitos da inflação, uma restrição da taxa a aplicar.

Os outros estados europeus nos quais, de acordo com este estudo, não existe controlo das rendas são a Bulgária, a República Checa, o Reino Unido/Inglaterra (à exceção dos contratos anteriores a 1989), Estónia, Finlândia, Grécia, Hungria, Islândia, Itália, Letónia, Lituânia, Malta, Roménia, Sérvia, Eslováquia e Eslovénia.

Curiosamente, parece não existir uma correspondência entre tipos de Estado, no que respeita à definição como mais ou menos liberal do ponto de vista económico, e a intervenção na habitação.

Isso mesmo concluíram os sociólogos finlandeses Hanna Kettunen e Hannu Ruonavaara em Rent Regulation in 21st Century Europe - Comparative Perspectives (Regulação de Rendas na Europa do Século XXI - Perspectivas Comparadas). Se os países europeus com ausência de controlo de rendas tendem a ser pós-socialistas (à exceção da Polónia e da Croácia), há estados neoliberais, como a Irlanda ou partes desses estados, como a Escócia, a introduzir recentemente esse tipo de política, e estados social-democratas, como a Islândia e a Finlândia, onde eles não existem. A não regulação tende também a verificar-se na Europa do Sul - sendo Espanha e Chipre exceções.

A existência ou inexistência de controlos de renda também não tem relação com o nível de vida/riqueza de cada país.

No Luxemburgo, que tem liderado o produto interno bruto per capita na UE e que, considerando a paridade do poder de compra, é consistentemente apontado como o mais rico do mundo, com um salário médio de cerca de 72 200 euros anuais e um salário mínimo fixado acima dos 2000 euros mensais, desde 2006 que a lei estabeleceu regras para o arrendamento habitacional - incluindo, para evitar as "rendas usurárias", um limite ao valor que os proprietários podem pedir. Excepto nos locados considerados "de luxo", esse valor não poderia exceder anualmente o correspondente a 5% do capital investido pelo proprietário.

No entanto, esta legislação, aprovada sob o primeiro-ministro Jean Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia de 2014 a 2019 e do Partido Popular Social Cristão, de centro-direita, não foi considerada suficiente para debelar o aumento das rendas nos últimos anos. As quais terão, de 2012 a 2022, sofrido um acréscimo de 17%, sendo a média atual 1400 euros.

Após um período de congelamento, entre maio de 2020 e dezembro de 2022, primeiro devido à pandemia de Covid-19 e depois por causa da inflação e do efeito da guerra na Ucrânia, o atual governo está a proceder a uma alteração legislativa com o proclamado intuito de reforçar a proteção dos arrendatários. A percentagem de referência do investimento baixa de 5% para 3-3,5% (3% para locados não eficientes do ponto de vista energético) e especifica-se a forma de cálculo do capital investido, o qual tem de ser referido no contrato de arrendamento. Por outro lado, elimina-se o conceito de locado "de luxo".
Estas alterações, no entanto, estão a ser contestadas pelos representantes dos inquilinos, os quais asseveram que a forma de cálculo proposta vai em muitos casos agravar o valor das rendas.

Zonas "de pressão" e índices de preços

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Bancos chineses podem perder até 348 mil milhões de euros com crise imobiliária


Os bancos da China enfrentam perdas hipotecárias de cerca de 348 mil milhões de euros no pior dos cenários, à medida que a confiança no mercado imobiliário do país se afunda com uma crise que parece não parar - ao contrário das construções imobiliárias, que viram os seus projetos paralisados -, noticia a "Bloomberg".

No pior cenário, a S&P Global Ratings estimou que 2,4 biliões de yuan (348 mil milhões de euros à taxa de câmbio atual), ou 6,4% das hipotecas, estão em risco, enquanto o Deutsche Bank é mais pessimista e diz que 7% dos empréstimos à habitação estão em perigo. Até agora, os bancos reportaram apenas 2,1 mil milhões de yuan (304 mil milhões de euros) em hipotecas afetadas pela crise.

Perante os casos covid-19, o desemprego jovem elevado e o abrandamento do crescimento económico, Pequim não quer ajudar a 100% os promotores imobiliários a acabar os seus projetos que estão suspensos, pois está a colocar a estabilidade financeira como prioridade. Até ao momento, as ajudas são: um período de carência no pagamento das hipotecas e um fundo, do banco central chinês, para ajudar estes promotores.

A "Bloomberg" escreve que o crescimento do rendimento disponível está a abrandar, prejudicando ainda mais a capacidade dos compradores de casas pagarem as suas dívidas.

Em junho, os investimentos imobiliários, que impulsionam a procura de bens e serviços que representam cerca de 20% do produto interno bruto (PIB) do país, caíram 9,4%. Tal traduz-se num aumento de 28 pontos base no total de empréstimos malparados, o que significa um declínio de 17% nos ganhos de 2022 dos bancos, indicam os analistas do Citigroup, num relatório de julho.

A exposição dos bancos chineses ao setor imobiliário é superior à de qualquer outra indústria. Os dados de março do Banco Popular da China, citados pela "Bloomberg", davam conta de 39 biliões de yuan (5,6 biliões de euros) de hipotecas pendentes e outros 13 biliões de yuan (1,9 biliões de euros) de empréstimos a promotores imobiliários.

Nesta conjuntura, os credores com elevada exposição podem vir a ser objeto de maior escrutínio. Por exemplo, as hipotecas representavam cerca de 34% do total de empréstimos no Postal Savings Bank of China e no China Construction Bank no final de 2021, quando o limite imposto por Pequim é 32,5%.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Cinco sinais de que uma recessão global pode estar a caminho

A extração de carvão representa vários perigos para os trabalhadores das minas. Para fazer face ao risco de libertação de gases tóxicos, indetetáveis pelos humanos, os mineiros levavam gaiolas com canários para os túneis onde trabalhavam. Assim que estes pássaros paravam de cantar (ou morriam), estava dado o sinal de alerta sobre a presença de monóxido de carbono ou metano, pelo que a mina tinha de ser evacuada.



A prática passou a ser recorrente no início do século passado nas minas britânicas. Na década de 80, felizmente, as empresas de extração de carvão recorreram a outros métodos menos bizarros para baixar o risco de vida dos seus trabalhadores. Mas a expressão perdura até hoje, sobretudo nos mercados financeiros, para ilustrar os primeiros sinais sobre algum perigo iminente.

Numa altura em que se intensificam os receios com a possibilidade de a economia global entrar em recessão, investidores, analistas e economistas tentam identificar os canários na mina de carvão (“canary in the coal mine”) que estão a dar o alerta sobre este cenário de contração na economia mundial.

A economia mundial vai entrar em recessão? Já este ano, ou só em 2023? Será acentuada e prolongada, ou temporária e suave? Numa altura em que os dados económicos que olham para o passado ainda não mostram esse cenário de recessão, os indicadores económicos avançados já sinalizam perigo no horizonte. E depois existem os sinais dos mercados, onde as expectativas dos investidores têm demonstrado, historicamente, serem mais certeiras a prever recessões dos que os economistas.

O ECO selecionou cinco destes sinais que estão a ser dados pelos mercados e indicadores avançados. Além destes, são vários os desenvolvimentos que estão a agravar o pessimismo sobre a evolução da economia global nos próximos meses. Os bancos centrais estão determinados na subida de juros para combater a escalada da inflação, mesmo que a economia trave de forma considerável; a Rússia continua a reduzir os fornecimentos de gás natural à Alemanha (e outros países europeus), sendo que se “fechar a torneira” por completo será inevitável uma recessão na maior economia europeia; a política de covid-zero está a condicionar fortemente a atividade económica na China, o que penaliza o comércio mundial e agrava os constrangimentos nas cadeias de abastecimento globais.

1 – Confiança em mínimos alimenta recessão

Os índices de confiança dos agentes económicos (consumidores, empresários e investidores) são dos melhores indicadores avançados, uma vez que olham para o futuro, sinalizando como vai evoluir o consumo das famílias, o investimento e contratações das empresas e as perspetivas para a evolução dos mercados financeiros. A evolução recente destes índices não augura nada de bom, estando na generalidade em queda acentuada e em alguns casos em mínimos de muito tempo. O que, historicamente, sinaliza uma travagem forte da economia, ou mesmo recessão.

Nos Estados Unidos existem vários índices para medir a confiança dos consumidores, sendo que o publicado pela Universidade de Michigan é dos mais relevantes. Em junho atingiu um mínimo histórico, com as famílias norte-americanas a mostrarem uma elevada preocupação com o aumento do custo de vida, reflexo da inflação estar em máximo de 40 anos acima dos 8%. O índice do Conference Board para avaliar as condições económicas está mais perto de máximos do que mínimos, mas já recua há três meses seguidos.

Sempre que este índice desceu durante quatro meses, a economia norte-americana já estava em recessão, pelo que a leitura que vai ser revelada este mês poderá ser mais um sinal preocupante. Um estudo de Danny Blanchflower, publicado pelo NBER (entidade responsável por decretar as recessões nos EUA), reforça os sinais negativos. Desde 1980, sempre que os índices da Universidade de Michigan e do Conference Board para medir as expectativas dos consumidores caem mais de 10 pontos, a economia entra em recessão. Os dois índices já desceram bem mais do que isso no atual ciclo.


Na Europa o cenário não é muito diferente, com a forte subida nos preços e a guerra na Ucrânia a pesarem de forma significativa na confiança dos agentes económicos. O índice da Comissão Europeia para medir a confiança dos consumidores aproximou-se em junho do mínimo histórico fixado nos primeiros meses da pandemia (abril de 2020). O índice da Sentix, que mede a confiança dos investidores na Zona Euro, recuou em julho para mínimos de maio de 2022, o que de acordo com o instituto torna “inevitável” uma recessão na região.

A subida acentuada dos preços de bens essenciais, com destaque para energia e alimentação, bem como a subida das taxas de juro que agravam as prestações dos empréstimos, estão a penalizar a confiança das famílias a nível global. O índice da OCDE para medir o sentimento dos consumidores já está a cair há 11 meses seguidos, situando-se atualmente já perto do mínimo histórico fixado na crise financeira de 2008, que foi marcada por uma poderosa recessão na economia global.

O grande problema da deterioração da confiança dos agentes económicos está no facto de exacerbarem os movimentos negativos da atividade económica, acabando por contribuir para que se concretizem as profecias de recessão. Os elevados níveis de pessimismo levam as famílias a adiar a aquisição de bens duradouros e retrair o consumo de bens correntes.

Entre os gestores, a quebra de confiança também é evidente, com muitos CEO a expressarem preocupação com o rumo da economia mundial. Vários líderes dos maiores bancos de Wall Street veem como certa uma recessão na maior economia do mundo e Elon Musk revelou recentemente ter um “super bad feeling” sobre a evolução da economia, tendo dado ordens para a Tesla reduzir a força de trabalho. Um bom exemplo de como as expectativas acabam por se concretizar devido ao sentimento dos agentes económicos.

2 – A queda preocupante do “Doutor Cobre”

O cobre é dos metais que tem a aplicação mais diversificada. É utilizado para fabricar produtos elétricos, eletrónicos, automóveis, sendo também uma matéria-prima essencial no setor da construção e na indústria em geral. É por causa desta abrangência que este metal é conhecido nos mercados como o “Doutor Cobre”, por ser capaz de antecipar a direção da economia global, merecendo por isso um grau de doutoramento.

Nos últimos 30 anos, sempre que o cobre entrou em “bear market” a economia não escapou a uma recessão. A diminuição da procura pressionava as cotações em baixa, sinalizando uma travagem numa série de setores que tornava inevitável uma recessão global. A evolução recente das cotações do cobre, também conhecido por metal vermelho, volta a gerar motivos de preocupação. O metal entrou em “bear market” no final de junho, sendo que atualmente já acumula uma queda de mais de 30% face ao máximo histórico de março, negociando em mínimos de 19 meses. Desde o início do ano, a matéria-prima já marca uma queda de 23%.

A desvalorização do cobre é a mais citada quando se procuram sinais para o rumo da economia, mas a tendência negativa está a afetar as “commodities” em geral, desde outros metais, a produtos agrícolas e até na energia. Uma evolução que mostra os receios com a procura de matérias-primas num contexto de travagem pronunciada da atividade económica global.

No segundo trimestre, os metais industriais sofreram a desvalorização mais acentuada desde a crise financeira de 2008, marcada por uma recessão profunda na economia global. O S&P GSCI Industrial Metals desce 29% desde o fim do primeiro trimestre, acumulando já uma queda superior a 16% em 2022. Além da desvalorização do cobre, também o alumínio e o zinco registam quedas acentuadas nos últimos meses.

Nas matérias-primas agrícolas a tendência descendente também é evidente nas últimas semanas, numa forte correção face aos máximos que foram registados após a invasão da Ucrânia por parte da Rússia, que reduziram a oferta por parte destes países que estão entre os maiores produtores mundiais de cereais. O S&P GSCI Agriculture recua 19% desde o início do segundo trimestre e já acumula perdas este ano.

Até o petróleo, apesar dos fortes constrangimentos do lado da oferta, registou uma forte correção nas últimas sessões, levando o Brent em Londres a atingir um mínimo de abril abaixo dos 100 dólares por barril. O S&P GSCI Energy já está em terreno negativo desde o final de março (-2%), acumulando ainda assim uma subida de 36% em 2022.

O índice S&P GSCI, que agrupa o desempenho de todas as matérias-primas, desvalorizou 8% desde o início do segundo trimestre. Uma evolução que denota as preocupações com uma desaceleração agressiva da economia, mas que, por outro lado, também alivia as pressões inflacionistas. Reduz o fardo sobre o aumento do custo de vida das famílias e pode levar os bancos centrais abrandar o ritmo de subida de juros. E assim atenuar o ritmo descendente da economia.

3 – A curva invertida

O mercado de obrigações dos Estados Unidos é o maior do mundo, onde o volume de transações é o mais elevado, sendo geralmente o que guia os investidores na alocação de ativos. É para as yields dos títulos de dívida soberana norte-americanos que os investidores olham para encontrar pistas sobre o rumo da inflação, das taxas de juro da Reserva Federal e também da economia.

Regra geral, as obrigações valorizam (e as yields descem) quando os investidores antecipam períodos de crescimento económico fraco ou recessão. E desvalorizam quando a economia está robusta. O atual momento do ciclo económico e dos mercados pode não ser o melhor para encontrar sinais no mercado de obrigações. Muitos analistas defendem que está distorcido por anos de política monetária ultra expansionista, com compras massivas de ativos pelos bancos centrais. Outros alegam que não vivemos períodos normais que permitam uma interpretação igual à do passado, pois a inflação em máximos de 40 anos está a obrigar os bancos centrais a apertar a política monetária quando se avizinha um período de desaceleração da economia.

A Fed está a combater a subida da inflação com uma política de rápida subida de juros que, confia ao banco central, vai resultar numa aterragem suave da economia (e não numa recessão). Nesse sentido, a instituição liderada por Jerome Powell tem desvalorizado os sinais do mercado de obrigações (“treasuries”). É que a curva das taxas de juro dos títulos de dívida soberana dos EUA deu o sinal de recessão em março, de novo em junho e também nos últimos dias.

Em circunstâncias normais, os investidores exigem uma taxa de juro mais elevada consoante mais longa for a maturidade da obrigação. O mesmo acontece num empréstimo normal, pois quanto mais longo for o prazo, maior o risco de incumprimento. Se o investidor pede uma remuneração mais alta para emprestar num prazo a dois anos do que a 10 anos, é sinal que vê um maior perigo no curto prazo.

É o que está a acontecer nas “treasuries”, com a yield dos títulos a dois anos de novo acima da rendibilidade dos títulos a 10 anos. Neste caso o sinal de perigo é uma recessão. A curva também já inverteu noutras maturidades, sendo que este movimento tem sido acompanhado nas últimas sessões por um alívio das yields, o que reforça os sinais de pessimismo com a evolução da economia.

Desde 2019 que a curva de rendimentos das obrigações dos EUA não invertia. Em 2020 surgiu a recessão na economia norte-americana. É obvio que o mercado não antecipou a pandemia e os seus efeitos devastadores na atividade económica. Contudo, em todas as recessões na economia norte-americana desde 1995 a curva inverteu sempre nos seis a 24 meses anteriores. A conclusão consta de um estudo publicado pela Fed de San Francisco em 2018, que dá conta que só por uma vez a inversão da curva deu um falso alarme.

Um outro estudo, elaborado pela Commonwealth Financial Network e citado pela Reuters, indica que a curva inverteu 28 vezes desde 1900, sendo que em 22 vezes surgiu uma recessão pouco depois. As últimas seis recessões nos EUA iniciaram entre seis a 36 meses depois de uma inversão na curva das taxas de juro.


Tendo em conta estes dados, não admira que os momentos em que as yields dos títulos de curto prazo ficam acima dos de longo prazo sejam marcados por períodos de forte turbulência nos mercados. Ainda assim, os padrões nos mercados nem sempre se repetem e também é importante salientar que no mercado de obrigações europeu a curva está muito longe de se inverter. As obrigações soberanas da Alemanha negoceiam com uma yield em torno de 0,5%, bem distante da taxa de 1,3% dos títulos a 10 anos.

4 – A bolsa e a economia de mãos dadas

Depois das matérias-primas e das obrigações, também é importante olhar para as ações. Ainda que neste mercado os sinais sejam menos robustos para prever o rumo da economia. Desde logo porque, cada vez mais, as bolsas não são um bom espelho da atividade económica. Há inúmeros estudos que mostram a desconexão entre Wall Street e Main Street, ou seja, entre a evolução dos mercados e da economia real. Basta olhar para o peso que uma empresa como a Apple tem no índice S&P500 e a importância bem mais residual que tem na economia. Ou para a composição do índice PSI e perceber como está desfasada da realidade da economia portuguesa.

Dito isto, e focando análise na bolsa norte-americana, também as ações estão a mostrar um sinal de alerta para a economia norte-americana. Sendo evidente que nem sempre as bolsas e o PIB andam de mãos dadas, os dados históricos mostram que nos 14 “bear markets” do S&P500 desde a II Guerra Mundial, nove deles coincidiram com períodos de recessão na maior economia do mundo.

A eficácia do S&P50O está longe dos atributos do cobre ou das “treasuries” para prever recessões, mas é mais um sinal que não deve ser ignorado. O índice norte-americano entrou em “bear market” no mês passado e fechou o primeiro semestre com uma queda acumulada de 21%, o que representou o pior desempenho desde 1970. Com os alertas de recessão a intensificarem-se, o rumo dos mercados acionistas nas últimas sessões tem sido sobretudo dominado pelas preocupações com a forte travagem da economia.

Os analistas estimam que se a economia norte-americana confirmar uma recessão, fica aberto o caminho para quedas adicionais em Wall Street. Contudo, o S&P500 regista uma valorização média de 1% durante o período em que a economia norte-americana esteve em recessão (desde 1945). Um desempenho que valida a tese de desconexão entre as bolsas e a economia real e mostra que os mercados refletem sobretudo as expectativas para o próximo ciclo económico.

5 – Imobiliário (ainda) resiste

De todos os sinais analisados em detalhe neste artigo, este é o que mais dúvidas levanta, devido às indicações pouco consistentes de travagem forte. O imobiliário é, habitualmente, o setor que mais se assemelha ao canário na mina de carvão. Logo aos primeiros sinais de debilidade económica, as famílias compram menos casas, o que pressiona em baixa os preços e nova oferta no mercado.

Os preços das casas vendidas nos Estados Unidos atingiram em abril um novo recorde, mais de 20% acima do registado no mesmo mês do ano passado, o que representa o crescimento homólogo mais alto de sempre. Contudo, existem indicadores avançados que mostram uma tendência de inversão no “boom” que se vive naquele que é um dos mercados imobiliários mais dinâmicos do mundo.


Um relatório da Redfin dá conta que os preços a que as casas novas estão a ser colocadas à venda desceram 1,5% em junho e que está a aumentar a frequência de revisões em baixa dos preços por parte das agências imobiliárias. Esta tendência reflete a redução da procura, evidente nas pesquisas no Google, bem como na descida de pedidos de crédito à habitação (-24%), numa altura em que a taxa média nos contratos a 30 anos está acima dos 5% e em máximos de 2008. Além disso, as vendas de casas pendentes baixaram 13%, maior queda desde maio de 2020.

No Reino Unido, os preços das casas também estão em níveis recorde, mas é já evidente uma redução das vendas. No Canadá, um dos mercados mais aquecidos do mundo, os preços já estão a cair, refletindo uma descida acentuada nas vendas. Em Toronto as vendas desceram 41% em junho e os preços das casas baixaram pelo quarto mês.

A Bloomberg publicou recentemente uma análise sobre o mercado imobiliário, onde dava conta dos alertas de preocupação nos países onde os sinais de bolha são mais evidentes. Além dos EUA e Canadá, mencionava também a Nova Zelândia e Austrália, colocando Portugal no lote dos países europeus mais arriscados.


Os últimos dados do Eurostat mostram que os preços das casas na Zona Euro dispararam 9,8% no primeiro trimestre, no maior aumento homólogo desde 2005. Em Portugal os preços subiram 12,9%. Olhando somente para os preços a que as casas estão a ser vendidas, é impossível detetar sinais de recessão. Ainda assim, os analistas consideram ser inevitável um arrefecimento neste mercado a nível global, sobretudo devido ao impacto da subida das taxas de juro, que vão restringir o acesso de muitas famílias ao crédito para comprar casa. Sobretudo num contexto de aumento do custo de vida devido à escalada da inflação.

Vários sinais positivos

Os alertas de recessão por parte de economistas têm-se intensificado nas últimas semanas. Recorrendo a uma bateria de indicadores das mais diversas áreas, os bancos de investimento estão a atribuir probabilidades cada vez mais crescentes de recessão em diversas geografias e a nível global.


Ao mesmo tempo, muitos economistas continuam convictos que o mundo escapará a um movimento de contração, citando uma série de fatores. Os indicadores de consumo continuam saudáveis, sustentados pela situação financeira robusta das famílias, que acumularam poupanças recorde durante a pandemia. Uma almofada que é vista como fundamental para enfrentar o atual aumento do custo de vida, que pode ser mais ou menos duradouro.

Também as empresas (e sobretudo os bancos) registam uma situação financeira bem mais resiliente do que em recessões anteriores, como as que aconteceram na crise financeira (2008) e na crise de dívida (primeiros anos da década passada). Os PMI, que são um dos indicadores avançados preferidos dos investidores, estão a recuar a nível global, mas sem apontar para uma recessão.

O mercado de trabalho também é um relevante barómetro da saúde da economia e os indicadores mais recentes continuam a apontar para uma situação bastante favorável. A taxa de desemprego na Zona Euro atingiu um novo mínimo histórico em maio e os Estados Unidos continuam a criar centenas de milhares de postos de trabalho todos os meses. Em junho foram quase 400 mil, o que é pouco consistente com uma recessão iminente, embora vários economistas tenham encontrado sinais de debilidade no relatório publicado na sexta-feira, sobretudo na redução do número de trabalhadores.

Na visão dos otimistas há ainda espaço para a China. A segunda maior economia do mundo vive uma crise no imobiliário e a atividade travou fortemente na primeira metade do ano, devido à política de covid-zero, mas o país regista uma inflação contida e Pequim pretende acelerar os estímulos monetários e orçamentais. Uma política em contraciclo com o resto do mundo e que pode amortecer o abrandamento da economia global.

Nos Estados Unidos as recessões são decretadas oficialmente pelo National Bureau of Economic Research (NBER), muitas vezes um considerável tempo depois de já terem iniciado. Em termos gerais, está convencionado que uma economia está em recessão técnica quando o PIB regista uma contração em cadeia (contra o período anterior) durante dois trimestres consecutivos.

Alertas pouco convencionais

Além dos indicadores mais evidentes para procurar sinais de recessão, muitos economistas olham para formas nada convencionais de detetar os “canários da mina de carvão”.

Alan Greenspan, que liderou a Reserva Federal durante 19 anos, estava atento às vendas de roupa interior masculina, considerando que este era dos últimos bens que os homens deixavam de comprar em alturas de aperto financeiro.

O economista Andrew Lawrence criou o “skyscraper index”, que sugeria que a construção de um elevado número de arranha-céus era um prenúncio de recessão. Há ainda o “lipstick index”, cunhado pelo presidente da Estee Lauder, que notou uma subida considerável na venda de cosméticos (sobretudo batons) durante a recessão de 2000. Esta teoria tem por base a ideia de que, em tempos de menor rendimento disponível, as mulheres substituem as compras de artigos como malas e sapatos por bens mais baratos.

Mais fácil do que acompanhar as vendas de artigos como batons ou cuecas, o melhor é mesmo seguir de perto a evolução dos mercados e indicadores económicos avançados para perceber para onde caminha a economia mundial. Se todos continuarem a confluir no sentido negativo, é mais provável que venha aí uma recessão.