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sábado, 10 de outubro de 2026

O Nobel da Paz 2026: A Pós-Verdade de Donald Trump

“Navi” Pillay, que hoje já toda a gente conhece por ter merecido o Nobel da Paz, é uma verdadeira heroína do Direito Internacional e da ordem mundial. Veio de origens muito humildes, e aprendeu cedo que os valores da ética comportamental e da solidariedade genuína chegam longe, e compensam - havendo resiliência e realismo. Doutora em Direito, seguiu um percurso absolutamente admirável na defesa dos Direitos Humanos em todos os campos, desde o anti-apartheid ao feminismo, passando pelos LGBT e pelas minorias étnicas. De louvar a sua passagem pelo Tribunal Penal Internacional, pilar das legalidades internacionais, especialista em crimes de guerra, crimes terroristas, crimes contra a Humanidade, limpezas étnicas, genocídios, assumiu um papel vital na avaliação do genocídio no Ruanda. Ainda hoje labora sobre casos gravíssimos como o de Mianmar, e emitiu ditâmes vitais sobre o genocídio uigur. [Fonte]

1.Tudo sobre Navanethem Pillay
2. Página oficial

A reação de Trump foi quase imediata. No mesmo dia, 9 de outubro, a administração de Donald Trump impôs sanções financeiras diretas e uma proibição de transações contra o Tribunal Penal Internacional (TPI), que Washington tem acusado repetidamente de “ações politizadas” e de “visar Israel”. O Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, justificou a medida afirmando que os Estados Unidos não estão sujeitos à jurisdição da instituição. “Vamos proibir transações com este tribunal à margem da lei, cortando-lhe os recursos e impedindo-o de atuar contra nós”, afirmou Rubio numa mensagem em vídeo partilhada nas redes sociais. “A nossa mensagem é clara: os Estados Unidos e o povo americano não estão sujeitos à jurisdição deste falso TPI”, acrescentou.

Durante a noite, o presidente norte-americano, Donald Trump, lançou um longo e duro ataque à decisão de atribuir o Prémio Nobel da Paz à jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay.

Numa publicação na rede social Truth Social, Trump qualificou a decisão como uma “mancha indelével para a Noruega”, desvalorizou a carreira de Pillay e enalteceu o seu próprio percurso diplomático.

“Não sei nada sobre esta mulher, e ninguém sabe! Aliás, tanto quanto sei, ninguém alguma vez ouviu falar dela, a não ser pelo facto de, de forma muito evidente, odiar Israel”, escreveu, acrescentando: “Não sei o que é que essa mulher fez.”

Afirmou ainda que “deveria ter ganho 8 Prémios Nobel da Paz” por ter “resolvido 8 guerras” e disse que, em breve, vai “resolver, ou vencer, mais duas”, numa referência às guerras no Irão e na Ucrânia.

Trump enumerou os conflitos que diz ter “resolvido”: Camboja e Tailândia, Kosovo e Sérvia, República Democrática do Congo e Ruanda, Paquistão e Índia, Israel e Irão, Egito e Etiópia, Arménia e Azerbaijão, e Israel e Hamas.

Cada vez mais irritado, Trump continuou a detalhar aquilo que considera serem os seus feitos, antes de retomar o ataque a Pillay, que descreveu como “uma liberal que trabalha nas Nações Unidas”.

“O Prémio Nobel da ‘Paz’ ficou desacreditado para sempre por um punhado de ideólogos radicais, antidemocráticos e inimigos da civilização!”, concluiu.

A publicação surgiu depois do presidente já ter criticado a decisão, num comício de campanha em Syracuse, Nova Iorque, na sexta-feira, onde a classificou como “vergonhosa e embaraçosa”.


Esta narrativa presidencial encontra, contudo, forte resistência e desmentido dentro da própria política norte-americana. Já em 3 de março, a senadora Elizabeth Warren afirmou categoricamente: «Nenhum presidente americano ordenou mais ataques militares contra tantos países diferentes como Donald Trump.»


A senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, é uma crítica do historial militar do presidente Donald Trump e da sua decisão de atacar países do Médio Oriente, de partes de África e da Venezuela sem a aprovação do Congresso. Num discurso no Plenário do Senado, Warren criticou as explicações de Trump para iniciar a guerra contra o Irão e por recuar numa promessa de campanha.

"Ele disse que seria um presidente para acabar com guerras, não para as começar. E os americanos acreditaram nele. Mas agora enfrentamos uma realidade feia: na era moderna, nenhum presidente americano ordenou mais ataques militares contra tantos países diferentes como Donald Trump", disse Warren a 3 de março. "Nenhum."

Perguntámo-nos se a declaração de Warren era precisa e como é que ela define a "era moderna". Quando contactámos o gabinete de Warren em busca de provas que apoiassem a sua afirmação, um porta-voz enviou ao PolitiFact várias notícias, incluindo:
  • Um artigo do Axios de 2 de março, com uma abertura que coincide quase na totalidade com a declaração de Warren: "Nenhum presidente na era moderna ordenou mais ataques militares contra tantos países diferentes como Donald Trump." O artigo do Axios define "era moderna" como os presidentes pós-11 de setembro: George W. Bush, Barack Obama, Trump e Joe Biden.
  • Um artigo do The Washington Post sobre os ataques militares de Trump em 2025, incluindo os dirigidos a alegados traficantes de droga no Caraíbas e no Pacífico Oriental. O Post reportou que Trump autorizou quase tantos ataques militares em 2025 quantos Biden autorizou ao longo do seu mandato de quatro anos.
  • Um gráfico no Instagram publicado pelo The Recount, um órgão de comunicação focado em política, que lista vários países, inclusive no Médio Oriente, África e Venezuela, juntamente com os rostos dos presidentes do século XXI que ordenaram bombardeamentos nesses locais; o rosto de Trump aparece ao lado de cada país. O órgão partilhou o gráfico a 28 de fevereiro, após Trump ter anunciado os ataques dos EUA e de Israel contra o Irão.
Após rever estas fontes e reportagens adicionais, concluímos que Trump autorizou o maior número de ataques e teve como alvo o maior número de países em comparação com outros presidentes do século XXI.

Países visados por presidente
Afinal, quantos países visou cada presidente com ataques militares?
A contagem de Trump é a mais elevada, de acordo com diversas fontes de informação.
  • Desde o início do seu primeiro mandato até ao presente, Trump atacou 10 países. Desde o início do seu segundo mandato, em janeiro de 2025, atacou sete países, além de embarcações no Mar das Caraíbas e no Oceano Pacífico Oriental.
  • Os ataques militares de Biden atingiram 5 países.
  • Os ataques de Obama atingiram 7 países ao longo de dois mandatos.
  • Os ataques de Bush atingiram 5 países ao longo de dois mandatos.
Para enquadramento, Bush iniciou guerras de longa duração no Afeganistão e no Iraque após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Obama terminou a operação militar no Iraque em 2011, mas introduziu novas operações militares no Iraque e na Síria após a ascensão do Estado Islâmico. A guerra no Afeganistão continuou ao longo do primeiro mandato de Trump, tendo Biden posto fim à mesma — no meio de uma retirada caótica e de um atentado bombista suicida que vitimou 13 militares norte-americanos - em 2021.

A maioria dos ataques militares dos presidentes esteve focada no combate ao terrorismo, incluindo os ataques de Trump em 2025 contra grupos como o Estado Islâmico na Síria e os Houthi, um grupo militar apoiado pelo Irão no Iémen, de acordo com o Council on Foreign Relations.

Eis os países visados por cada presidente:
  1. Trump: Afeganistão, Iraque, Iémen, Paquistão, Somália, Líbia, Síria, Venezuela, Nigéria, Irão.
  2. Biden: Afeganistão, Iraque, Somália, Síria, Iémen.
  3. Obama: Afeganistão, Iraque, Paquistão, Somália, Iémen, Líbia, Síria.
  4. Bush: Afeganistão, Iraque, Iémen, Paquistão, Somália.
Mark Cancian, conselheiro sénior do Departamento de Defesa e Segurança do Center for Strategic and International Studies, afirmou que os países visados não foram uma surpresa, mesmo que as táticas de Trump o tenham sido. Por exemplo, há vários anos que os presidentes criticavam o Irão e a Venezuela.

"Tem sido imprevisível, embora os seus alvos venham a ser debatidos há muito tempo, tanto por ele como por presidentes anteriores", disse Cancian.

Cancian recomendou analisar o número de tropas terrestres em zonas de combate como uma métrica mais reveladora do uso da força militar por parte de um presidente.

Trump tem- até agora- mantido as atividades militares maioritariamente limitadas a ataques aéreos. Cancian observou que a Guerra do Golfo em 1991 e a invasão do Iraque em 2003 foram operações militares de dimensão muito superior em comparação com as ações de Trump no Iémen, na Venezuela e no Irão. Os EUA destacaram mais de 150 000 tropas no início da invasão do Iraque.

E quanto ao número total de ataques?
Warren mencionou "mais ataques militares contra tantos países diferentes", pelo que comparámos os números de ataques efetuados pelos presidentes.

Os ataques militares englobam várias táticas, incluindo ataques com drones não tripulados, mísseis de precisão e ataques aéreos, que exigem o lançamento de bombas ou mísseis balísticos a partir de aeronaves pilotadas.

Durante o seu primeiro mandato, Trump aumentou drasticamente os ataques aéreos na Somália e no Iémen em comparação com Obama, que já tinha aumentado significativamente os ataques a essas nações durante a sua presidência.

Trump realizou mais ataques com drones durante o seu primeiro mandato do que cada uma das presidências de Obama e Bush na sua totalidade.

Em 2017, Trump autorizou mais de 10 000 bombardeamentos adicionais no Iraque, Síria e Afeganistão do que Obama e Bush autorizaram nos respetivos anos de maior atividade militar (2016 e 2003), segundo o Comando Central das Forças Aéreas dos EUA.

Biden esteve envolvido na menor quantidade de atividade militar, autorizando 694 ataques aéreos e com drones durante o seu mandato de quatro anos - significativamente menos do que no primeiro mandato de Trump e ligeiramente mais do que o número de ataques de Trump em 2025.

Veredicto do PolitiFact
Warren afirmou: "Na era moderna, nenhum presidente americano ordenou mais ataques militares contra tantos países diferentes como Donald Trump."

Desde o início do seu primeiro mandato até ao presente, Trump ordenou ataques em 10 países, o que representa mais três do que o presidente seguinte com a contagem mais alta no século XXI, Obama.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Agência de Proteção Ambiental elimina limitação às emissões de gases com efeito de estufa nas centrais elétricas dos EUA

A Agência de Proteção Ambiental (EPA) norte-americana divulgou na segunda-feira que vai revogar as regras que limitam as emissões de gases com efeito de estufa, que causam o aquecimento global, provenientes de centrais elétricas alimentadas a carvão e gás natural.
A alteração à regra, inicialmente proposta no ano passado, representa uma mudança fundamental em relação aos esforços dos presidentes democratas Joe Biden e Barack Obama para combater as alterações climáticas e reduzir a poluição industrial.

Os grupos ambientalistas criticaram a medida, afirmando que vai prejudicar a saúde dos norte-americanos e degradar ainda mais o ambiente, noticiou a agência Associated Press (AP), que antecipou também batalhas judiciais após a entrada em vigor da nova regra.

A revogação da regra para as centrais elétricas da era Biden permitiria poupar mais de 300 mil milhões de dólares em custos para o setor e ajudar a libertar a energia norte-americana, de acordo com a EPA.

A mudança permitirá que as empresas de energia tomem as melhores decisões para os seus consumidores, em vez de serem forçadas a fechar centrais antigas ou ineficientes, sublinhou o administrador assistente da EPA, Aaron Szabo.

A proposta, que deverá ser oficializada no próximo ano, surge na sequência de uma ação anterior da EPA, realizada este ano, que revogou uma conclusão científica que há muito servia de base central para a atuação dos EUA na regulação das emissões de gases com efeito de estufa e no combate às alterações climáticas.

A medida de fevereiro eliminou todos os padrões de emissão de gases com efeito de estufa para automóveis e camiões.

O novo plano aplicaria uma lógica semelhante para uma reversão mais ampla das regulamentações climáticas dirigidas a fontes fixas, como as centrais elétricas.


As centrais termoelétricas alimentadas a carvão, gás e petróleo são responsáveis por cerca de um quarto de toda a poluição climática dos EUA, ficando apenas atrás do setor dos transportes.

A poluição proveniente destas centrais é uma das maiores fontes globais de poluição que altera o clima.

As normas visadas pela EPA sob a administração liderada por Donald Trump poderiam evitar cerca de 30 mil mortes e gerar uma poupança de 275 mil milhões de dólares por cada ano em que estivessem em vigor, segundo um estudo da AP realizado no ano passado, que incluiu avaliações anteriores da própria agência e várias outras pesquisas.

Enquanto a China consolida o domínio mundial nas tecnologias limpas do século XXI (baterias, painéis solares, veículos elétricos), os EUA arriscam-se a ficar para trás num mercado global de energia limpa estimado em biliões de dólares. 

Na Europa mantem o foco na sustentabilidade ambiental e regulação, assumindo custos económicos mais altos no curto prazo para liderar a transição ecológica.

sábado, 4 de julho de 2026

A Filantropia enganadora e porque é importante taxar os bilionários

Durante anos venderam a ideia de que a luta de classes era uma invenção da esquerda. Conversa de comunistas. Teorias de ressabiados. Inveja de quem teve sucesso. Uma fantasia repetida sempre que alguém ousava falar de desigualdade ou da concentração da riqueza.
Depois aparece Warren Buffett. Sim, Warren Buffett. Esse conhecido marxista. Admirador de Che Guevara. Frequentador assíduo da Festa do Avante. Praticamente um bolchevique de Wall Street.
E diz isto:
De repente, a teoria da conspiração da esquerda passou a ser uma confissão de um dos homens mais ricos do planeta. Buffett não disse que a luta de classes existiu. Disse que existe. Não disse que a sua classe ganhou. Disse que está a ganhar. [New York Times, 2006]
Durante décadas, convenceram milhões de pessoas de que falar em luta de classes era coisa de comunistas, sindicalistas e ressabiados. Entretanto, a guerra continuou a ser travada. E, segundo um dos seus principais protagonistas, está a correr bastante bem para um dos lados.

"Regra Buffett" nunca chegou a ser implementada.
Apesar de ter tido uma enorme tração mediática e o apoio explícito do então presidente Barack Obama, a proposta falhou o seu caminho legislativo no Congresso dos Estados Unidos.

Em 2012, o projeto de lei (batizado formalmente como Paying a Fair Share Act) foi levado a votação no Senado norte-americano. Embora tenha conseguido uma maioria simples de votos a favor (51 contra 45), a proposta foi travada pela oposição do Partido Republicano através de uma manobra de bloqueio parlamentar (o chamado filibuster), que exigia uma maioria qualificada de 60 votos para que o debate e a votação final pudessem avançar.

Os opositores da medida argumentaram na altura que aumentar os impostos sobre os mais ricos equivalia a uma "guerra de classes" e que a introdução desta taxa iria prejudicar o investimento privado, travar a criação de emprego e desacelerar a economia.

Assim, o sistema fiscal norte-americano manteve-se estruturalmente idêntico no que toca à proteção dos rendimentos de capital. Até hoje, os ganhos derivados de investimentos financeiros e ações continuam a ser taxados a taxas significativamente mais baixas do que os salários do trabalho, permitindo que a assimetria denunciada por Warren Buffett continue a ser uma realidade.

O outro lado da Filantropia
A generosidade proclamada pelos super-ricos através de iniciativas como o The Giving Pledge costuma recolher aplausos unânimes, mas, quando se vira a moeda, a filantropia dos multimilionários revela uma face muito mais cinzenta e amplamente criticada por economistas e sociólogos. Longe de ser um ato puramente altruísta, a transferência de fortunas para fundações privadas funciona, em grande parte, como um mecanismo altamente eficaz de evasão ou otimização fiscal. Ao canalizarem o seu dinheiro para estas estruturas, os bilionários obtêm deduções de impostos massivas, o que significa que o Estado — e, por arrastamento, os cidadãos comuns — deixa de arrecadar receitas que poderiam ser aplicadas em serviços públicos essenciais, como o SNS, a escola pública ou as infraestruturas.

Além da questão financeira, há um profundo défice democrático neste modelo. Quando a riqueza é transferida para fundações geridas pelos próprios magnatas ou pelas suas famílias, o poder de decisão sobre o que é prioritário para a sociedade passa das mãos de governos eleitos para as mãos de elites privadas. São os multimilionários que passam a ditar, segundo as suas convicções pessoais ou interesses de mercado, se o dinheiro deve ir para a cura de uma doença específica, para a exploração espacial ou para reformas educativas que nem sempre são testadas ou validadas. Este fenómeno cria uma espécie de plutocracia disfarçada de caridade, onde o destino do bem-estar social fica sujeito aos caprichos de um punhado de indivíduos que não respondem perante nenhum eleitorado. Ler como os ricos se tornaram mesquinhos

Por fim, não se pode ignorar o tremendo ganho de reputação e a lavagem de imagem, muitas vezes apelidada de philanthro-washing. Muitas destas fortunas colossais foram erguidas com base em práticas laborais controversas, salários baixos, lóbis políticos para travar direitos sociais ou modelos de negócio que aceleraram a crise climática. Ao doarem uma percentagem vistosa do que acumularam, estes empresários conseguem desviar as atenções do escrutínio público e das críticas à forma como geraram a sua riqueza, transformando-se de predadores económicos em benfeitores da humanidade, enquanto mantêm intacto o sistema económico que perpetua as desigualdades que eles próprios dizem combater.

A forma mais democrática é exigir regulação e taxação dos bilionários. 
A exigência de uma maior taxação sobre os bilionários tem deixado de ser um debate puramente académico para se tornar uma pressão política concreta, movida pela necessidade de corrigir o que muitos consideram ser uma falha estrutural do capitalismo moderno. A estratégia para viabilizar esta mudança assenta, primordialmente, na cooperação internacional, dado que os super-ricos operam numa economia globalizada que lhes permite deslocar o património para jurisdições com tributação mais favorável. Projetos como a proposta de um imposto global sobre a riqueza, que visa estabelecer uma taxa mínima anual sobre as maiores fortunas, são fundamentais para evitar a concorrência fiscal entre Estados e impedir a existência de paraísos fiscais que servem de refúgio ao capital.
A nível nacional, a luta pela justiça fiscal passa por reformas legislativas que alterem a forma como a riqueza é tributada, centrando-se na taxação de mais-valias não realizadas - o património latente que cresce sem ser tributado enquanto não é vendido - e no encerramento de lacunas que permitem aos multimilionários viver através de empréstimos garantidos pelas suas próprias ações, escapando assim ao imposto sobre o rendimento das pessoas singulares. Paralelamente, o reforço dos impostos sobre heranças é defendido como uma medida essencial para prevenir a cristalização de dinastias financeiras que exercem um poder desproporcional sobre a democracia. 
Esta causa tem vindo a ganhar força através da pressão cívica, com movimentos de cidadãos e até de investidores consciencializados a sublinharem que a filantropia voluntária é um paliativo insuficiente perante a necessidade urgente de um sistema redistributivo robusto, transparente e democrático, que reponha o equilíbrio entre a acumulação de capital privado e o financiamento dos bens e serviços públicos que sustentam a coesão social.

Saber mais:

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

William Elliott Whitmore - Civilizations


Letra
Don’t mind me I’m just livin here
Don’t mind me I’m just livin’ here
Tear down the mountains, cut the forest clear
Don’t mind me I’m just livin here

Pay no attention I’m just trying to exist
Pay no attention I’m just trying to exist
I’ve said too much now my name’s on a list
pay no attention to me

I know, I know, I know
Civilizations they come and they go
Sooner or later they crumble and fall
We’re just here in the middle of it all

Don’t mind me I’m bleeding now
Don’t mind me I’m just bleeding now
A hand from above cut out my heart somehow
Don’t mind me I’m just bleeding now

Under the radar hopefully
Under the radar hopefully
I’ll live live live ‘til they bury me
Under the radar hopefully


"Civilizations" é uma das faixas mais poderosas do álbum Radium Death (2015), de William Elliott Whitmore. É uma música que resume bem a filosofia do artista: uma mistura de folk visceral, activismo rural e uma pitada de estoicismo.

A canção é acompanhada por um evocativo videoclipe animado em tons sépia, co-realizado por Joel Anderson e Matt Scharenbroich. Utiliza imagens de paisagens em transformação e decadência histórica para reflectir o tema de "ascensão e queda" da música.

O Significado e a Inspiração
A canção é uma reflexão sobre a natureza cíclica da história humana e a resiliência do "homem comum".
O Ciclo da História: o tema central é que impérios e governos — as "civilizações" do título — eventualmente desmoronam sob o próprio peso, enquanto as pessoas comuns e a terra permanecem.

Comentário político: Whitmore escreveu a música como uma crítica à arrogância das potências modernas. Ele frequentemente traça paralelos com a queda de Roma, sugerindo que sociedades que priorizam o progresso industrial desenfreado em detrimento da terra estão destinadas ao fracasso.

Raízes Pessoais: a inspiração veio de uma luta real na defesa da sua quinta familiar no Iowa. Na época, havia um projeto de instalação de um oleoduto que passaria pelas terras de sua avó, o que deu origem aos versos sobre montanhas sendo derrubadas e florestas devastadas.[Fonte]. Ler mais detalhadamente abaixo

Estilo Musical
Diferente de outras faixas de Radium Death, que trazem guitarras elétricas e uma sonoridade mais rock, "Civilizations" é minimalista e acústica.
O Banjo: a música é guiada por um dedilhado de banjo lento e deliberado.
A Voz: a voz grave e "rasgada" de Whitmore (que soa muito mais velha do que ele realmente é) dá à canção um peso ancestral, como se estivesse sendo cantada por alguém que já viu séculos passarem.


O Contexto Político (Obama e o Iowa)
Obama estava no seu segundo mandato e, curiosamente, o contexto político da época cria um contraste interessante com a mensagem da canção:

A Contradição da energia: embora a administração Obama tenha promovido energias renováveis, também presenciou um boom na produção de petróleo e gás natural nos EUA. Foi precisamente durante este período que o projeto da Dakota Access Pipeline (que Whitmore contestava ativamente no Iowa) avançou a nível federal.

O "Home State" Político: o Iowa foi o estado que catapultou a carreira de Obama em 2008. Ver um artista do Iowa como Whitmore a cantar sobre a queda de "civilizações" e a ganância das corporações em 2015 mostrava um certo desencanto de parte da população rural que sentia que as promessas de proteção ambiental e económica não estavam a chegar ao terreno.

A Canção como Protesto
Quando Whitmore canta "Civilizations, they come and they go" (As civilizações vêm e vão), ele está a adoptar uma perspetiva histórica longa, sugerindo que nenhum governo ou império — mesmo o de um presidente popular como Obama — é permanente face à força da natureza e da terra.

Whitmore chegou a participar em protestos físicos no Iowa contra a construção da conduta de petróleo durante esse governo

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Matt and Kim - Lessons Learned



Tape holds things that cannot stick
And keep leftovers in the fridge
While lessons learned go down the drain
I can't believe in everything
All the bad names gone
And the good ones were all wrong

And so I stayed up all night
Slept in all day
This is my sound
Thinking about tomorrow won't change how I feel today

Never let your mark erase
'Cause broken legs can be replaced
Two steps to the finish line
Three sips till I finish mine
A straw will always suck it out
Close your eyes and use your mouth
And tell me about your song

And so I stayed up all night
Slept in all day
This is my sound
Thinking about tomorrow won't change how I feel today

Lançada em 2009 no álbum Grand, a canção foca-se na ideia de viver o momento e aceitar as consequências das nossas ações, sem grandes arrependimentos. Há uma celebração da juventude e da falta de inibição.

A Letra: A música fala sobre a sensação de liberdade ao "deixar-se ir" e como as experiências (mesmo as mais caóticas ou embaraçosas) se tornam "lições aprendidas". Há uma celebração da juventude e da falta de inibição.

O Vídeo Icónico: É impossível falar desta música sem mencionar o videoclipe. Nele, o duo caminha por Times Square, em Nova Iorque, enquanto se despe completamente até ficarem nus em público.

O conceito do vídeo: Reforça a mensagem da letra — a vulnerabilidade total e a ideia de que, independentemente do "escândalo" ou da reação dos outros, o que importa é a experiência vivida e a liberdade pessoal.

Curiosidade: O vídeo foi gravado num dia de muito frio e foi filmado de forma "guerrilha" (sem autorizações completas para nudez em público), o que resultou na detenção (encenada) dos artistas no final.

O que foi real?
O Frio: Sim, era real. Foi filmado em fevereiro de 2009. Se olhares para as pessoas em pano de fundo em Times Square, verás que estão todas com casacos pesados de inverno.

O Estilo Guerrilha: Sim. Eles não tinham autorização para nudez (o que seria quase impossível de conseguir ali). A produção foi feita de forma rápida para evitar que a polícia os parasse antes de terminarem a caminhada.

O que foi encenado?
A Detenção: Não foi real. No final do vídeo, vemos agentes da polícia a algemarem o Matt e a Kim. No entanto, aqueles "polícias" eram, na verdade, atores contratados pela produção.

A Nudez: Embora eles estivessem tecnicamente despidos no local, a Kim revelou mais tarde em entrevistas que eles usaram "pequenos truques" (" modesty patches, "como fita adesiva de cor da pele e protetores) para não estarem 100% expostos perante a multidão, embora para quem passava a ilusão fosse total.

Porquê a confusão?
A banda e o realizador queriam que o vídeo parecesse um documentário real de um crime ou de um ato de rebeldia pura. Durante muito tempo, eles mantiveram o mistério para alimentar o "hype" do vídeo, que acabou por ganhar o prémio de Melhor Vídeo Revelação nos MTV Video Music Awards de 2009

Resumo: Eles foram corajosos ao ponto de passarem muito frio e arriscarem uma multa a sério, mas o final "atrás das grades" foi apenas uma escolha artística para fechar a narrativa da música.

Fontes:
Butts, Blood and Busting Moves: How Matt and Kim Videos Rock the Internet
Entrevista sobre o vídeo

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

A maior desregulamentação climática da história dos EUA: Trump quer revogar limites às emissões


Em 29 de julho de 2025, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA), sob a liderança de Lee Zeldin, anunciou a proposta de revogar o chamado endangerment finding — a declaração científica, aprovada em 2009, ainda no governo Obama, de que os gases com efeito estufa (nomeadamente CO₂) representam uma ameaça à saúde pública e ao bem-estar da população, anunciou a revista brasileira Veja. Esta constatação é a pedra angular legal que permite à EPA impor limites às emissões provenientes de veículos, centrais elétricas e operações de combustíveis fósseis.

Zeldin caracterizou esta proposta como “a maior ação de desregulamentação da história dos EUA”, afirmando que remover esta base legal abriria caminho para eliminar as normas existentes e impedir futuras regulações federais. A Veja refere ainda que o líder afirmou: “Estamos a encerrar o que chamo de graal sagrado da religião do clima”.

Para conseguir implementar com mais segurança as suas ideias, a Folha de São Paulo, diz ainda que Trump anunciou cortes de cerca de 65 % no pessoal da EPA, reduzindo significativamente a capacidade operacional da agência para fiscalizar e implementar políticas ambientais.

Mas ainda há luz ao fundo do túnel. Trump ainda não venceu. Um artigo de um só planeta diz que grupos ambientalistas e analistas jurídicos alertam que o plano de Trump enfrenta barreiras legais. Segundo eles, a constatação de 2009 baseia-se numa decisão do Supremo tribunal de 2007 que reconheceu que os gases com efeito de estufa podem ser considerados poluentes atmosféricos. A mesma fonte adverte também que o representante do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais (NRDC), David Doniger, é “praticamente impossível” que a EPA crie uma justificativa sólida para anular a constatação de 2009.

E porque isto é um problema? Por vários motivos, mas um dos mais importantes é que os EUA são o segundo maior emissor do mundo, pelo que andar para trás na regulamentação é colocar o planeta em maus lençóis.

Motivação política e expetativas legais
A política ambiental de Trump está inserida num plano estratégico amplo para resgatar a “dominância energética” dos EUA através dos combustíveis fósseis. Lee Zeldin foi nomeado para a EPA com o compromisso de acelerar desregulações e revitalizar a indústria automóvel e de combustíveis fósseis, diz o Diário de Notícias.

A administração afirma que o plano pouparia cerca de 52 mil milhões de dólares em custos (cerca de 47,84 mil milhões de euros) de conformidade regulatória. “No entanto, analistas legais e ambientais preveem batalhas judiciais intensas, por ferir decisões do Supremo Tribunal que sustentam a autoridade da EPA desde 2007”, lê-se no The Guardian.

Especialistas destacam ainda que empresas já investiram pesadamente em tecnologias limpas e transição energética — e que a instabilidade regulatória pode afastar investimentos duradouros, segundo a Reuters.

Para o The Guardian, se concretizadas, as medidas anunciadas representam um retrocesso sem precedentes na política climática dos Estados Unidos — com efeitos na saúde pública, na confiança institucional, no mercado global de energia limpa e na liderança internacional na emergência climática. Muitas destas medidas ainda estão sujeitas a consultas públicas (fase de 45 dias) e devem enfrentar desafios legais significativos nos tribunais federais.
Revogação das normas de emissões veiculares

Segundo noticiou a agência Reuters, em consequência da revogação da base legal, a EPA pretende também anular todas as normas federais de emissões de gases de veículos e motores, incluindo os limites para CO₂ emitido por escape. A revisão abrangerá também regras associadas, como eficiência de ar condicionado automóvel e monitorização de baterias. O impacto será particularmente grave no setor de transportes — o maior responsável pelas emissões nos EUA.

O relatório de "avaliação crítica" encomendado pelo regime de Trump para justificar este retrocesso na regulamentação climática dos EUA contém pelo menos 100 afirmações falsas ou enganosas, de acordo com um inquérito da Carbon Brief que envolveu dezenas de cientistas climáticos de renome.

Reversão das normas de emissões das centrais elétricas
Estas medidas já estavam a ser cozinhadas há muito. Desde junho de 2025, a administração Trump anunciou a intenção de reverter regulamentos que limitavam as emissões de dióxido de carbono e poluentes tóxicos, como o mercúrio, emitidos por centrais a carvão e gás natural. O argumento oficial é “que essas normas elevam os custos da eletricidade às famílias, enquanto Zeldin defende um “equilíbrio entre proteção ambiental e economia doméstica”, escreve o UOL Notícias.

Além disso, segundo noticiou o site da EuroNews, o governo de Trump considera que centrais elétricas não aumentam a poluição do ar, contudo, a mesma fonte afirma que 19 cientistas climáticos dizem que isso é um “absurdo” qualificando como factualmente incorreta a afirmação de que essas emissões “não contribuem significativamente para a poluição do ar”.

Retirada dos EUA do Acordo de Paris
Também não nos podemos esquecer que a 20 de janeiro de 2025, Donald Trump ordenou a segunda retirada dos Estados Unidos do Acordo de Paris, marcando o país como um dos poucos — como Irão, Líbia e Iémen — fora do pacto internacional de redução de emissões, mas 37 estados ainda estão comprometidos com o clima, representando 70% do PIB dos EUA por isso, ainda há esperança.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Franco “Bifo” Berardi: “A espécie humana não sobreviverá a este século"


Conhecido por “Bifo” desde jovem, o italiano Franco Berardi é uma referência do pensamento de esquerda das últimas décadas. Em Maio de 1968 participou na revolta dos estudantes da Universidade de Bolonha. Faria parte do grupo extraparlamentar Potere Operaio, ao lado de figuras como “Toni” Negri. Nesses anos de agitação rebelde fundou a revista A/traverso e esteve na rádio pirata Alice. Nos seus livros, Berardi sai das baias do marxismo mais ortodoxo, chamando, por exemplo, ensinamentos e conceitos da psicanálise para a sua crítica às sociedades capitalistas pós-industriais.

O seu último livro, Disertate (2023), identifica na “onda” de depressão entre os jovens um sintoma de um mundo de trabalho em excesso e em crise climática. Perante o caos e a dor, a resposta desses jovens é a “deserção”, a desistência, como se a alegria só pudesse ser encontrada nas “ruínas”, defende “Bifo”.

Sim, Franco Berardi, hoje com 75 anos, perdeu a esperança. Quisemos falar com ele tendo a recente edição portuguesa de Futurabilidade — A Era da Impotência e o Horizonte de Possibilidade pela VS. como pretexto. Nesse livro, editado originalmente em 2017, o filósofo já fazia um diagnóstico sombrio da vida enformada pelo capitalismo, mas ainda acreditava que seria possível abrir uma rota de fuga. Como? “Criando uma consciência comum e uma plataforma técnica comum para os trabalhadores cognitivos do mundo.” Foram eles, os trabalhadores intelectuais (os artistas, os engenheiros, os cientistas), que montaram a engrenagem, cabia-lhes agora “reprogramar” a grande máquina do mundo para benefício colectivo.

Quase dez anos depois de escrever essas linhas, a esperança de Franco Berardi, que conversou com o Ípsilon por videochamada a partir da sua casa em Bolonha (uma entrevista terminada por email), esfumou-se.

Futurabilidade acaba com um apelo aos trabalhadores intelectuais. Havia alguma esperança nesse livro, mas já me avisou que a perdeu. Porquê?
Futurabilidade foi, de certa forma, o meu último livro a propor a possibilidade de uma alternativa. Foi antes da pandemia, antes da ilusão que a pandemia nos deu e antes do regresso do genocídio à história do mundo.

Sei que o que tenho a dizer não abre uma perspectiva, mas devo escolher entre mentir, afirmar algo em que não acredito, e dizer a verdade. E a verdade é, sintetizando, esta: a experiência humana acabou.

O que é a experiência humana?
É a ideia, crucial na modernidade, de que o mundo, a linguagem, a razão e a lei podem controlar a imediatez do instinto, da bestialidade. As vítimas têm de se tornar assassinas — esta é a lição que aprendi com a transformação de Israel numa entidade nazi. Esta é a lição que aprendo quando vejo Auschwitz nas praias do Mediterrâneo, na costa de Gaza e em centenas de campos de concentração em toda a bacia mediterrânica.

O que faz do horror de Gaza algo diferente de outros conflitos?
Há 50 anos, quando eu tinha 25 anos, testemunhei uma guerra suja que foi como um genocídio, no Vietname. Mas, naquele momento, tínhamos a percepção de que a guerra do Vietname era o início de um futuro possível. Quando os vietcongues conseguiram derrotar os agressores, tivemos a percepção de uma nova possibilidade... Estávamos errados. Os vietcongues não eram uma esperança para a humanidade. Mas nós, tal como milhões de pessoas, víamos ali uma possibilidade de futuro.

Agora, a verdadeira novidade é que a nova geração está consciente do facto de que o genocídio é a regra do mundo em que vivemos hoje. Quando olhamos para Gaza, estamos a olhar para o símbolo de um genocídio que está a acontecer em todo o lado, ao longo da fronteira entre o Norte e o Sul do mundo, de Myanmar [Birmânia] ao Sudão e ao mar Mediterrâneo, onde todos os dias migrantes são mortos pelos fascistas de Itália.

Em Futurabilidade defendia que havia outros futuros possíveis, inscritos na realidade actual, passíveis de serem desbloqueados. Não é perigoso abandonar a esperança, como está a fazer agora?
Futurabilidade tinha que ver com uma análise materialista do trabalho e da actividade social. Por isso, na última parte, escrevi que, apesar do triunfo de Donald Trump, apesar do “Brexit”, havia uma possibilidade. Uma possibilidade, não uma esperança: a possibilidade de solidariedade entre os trabalhadores cognitivos para criar um terreno comum de transformação.

Esta ideia está no movimento Occupy, de 2011, e está no movimento de 68, que foi o movimento dos trabalhadores intelectuais contra o imperialismo e o capitalismo.

A pandemia acelerou uma tendência que já estava inscrita na história da nova geração: solidão, distanciamento social, medo do corpo do outro. Esta é a transformação antropológica e psicológica que tornou a solidariedade impossível. Quando saímos da pandemia, descobrimos que a nossa solidão era definitiva. A solidão é a característica determinante da vida da geração digital.

Tenho trabalhado particularmente com jovens, estudantes, militantes, pessoas que falam comigo por razões psicanalíticas, e o que descubro é que, para eles, a solidão é o seu futuro. Não há nada que permita imaginar solidariedade no futuro. É por isso que digo que a experiência humana acabou.

Tem toda a razão quando diz que esta minha afirmação está a cancelar a possibilidade de esperança para o futuro. Mas eu respondo: a esperança agora é perigosa. O importante é estarmos conscientes do facto de que não temos possibilidade de ser humanos no futuro. Então, o que devemos fazer?
O meu último livro intitula-se Quit Everything [na versão inglesa, de 2024, de Disertate]. Desista de tudo. Abandone. Vá embora. Pare de procriar. Esta é a verdadeira política para o futuro.

No entanto, nos últimos anos, assistimos a alguns movimentos de reacção. Vimos, por exemplo, jovens a aderirem aos “sabbaths digitais”, um dia semanal com pouco ou nenhum uso de tecnologia digital. E objectos como a série Adolescência e o livro A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, provocaram grandes debates. Há uma maior consciência dos efeitos da tecnologia nas vidas, incluindo dos mais jovens?
Sim, mas é tarde de mais. A questão é que nenhuma campanha cultural, nenhuma terapia psicológica pode mudar a programação básica da mente. A geração que aprendeu mais palavras com uma máquina do que com a mãe não pode ser “reeducada”, não pode ser “curada”. Não se pode ajudar um adolescente a sair da prisão digital porque é o único mundo que conhece, porque a sua mente foi formatada de acordo com esse tipo de estímulo, de acordo com esse paradigma. Não creio que haja um caminho de volta do inferno digital.

Argumenta que a tecnologia e os crescentes automatismos (da economia à política) que governam a vida contemporânea contribuem para aquilo a que chama “era da impotência”. Como podemos sair dela?
A impotência é a característica definidora da vida política mundial nas últimas décadas.

A derrota política da esquerda, dos trabalhadores, está essencialmente ligada à relação automática entre as finanças e a sociedade. Veja o que aconteceu na Grécia em 2015. Nesse livro [Futurabilidade], falo muito sobre a Grécia. 61% da população grega votou contra o memorando [de resgate] financeiro. Mas, no final, Alexis Tsipras foi obrigado a ceder porque era impossível, porque o automatismo financeiro destruiu totalmente a democracia. A democracia é uma farsa e uma coisa inexistente quando as finanças ditam as decisões políticas e económicas dos governos.

Hoje somos impotentes intelectualmente, sexualmente, politicamente. A nossa potência é a bomba atómica. A nossa potência é a concentração de tecnologia e armas.

O seu primeiro livro, publicado em 1970, intitula-se Contro il lavoro, ou seja, contra o trabalho. Acreditava então que a tecnologia seria um aliado do ser humano — permitiria, por exemplo, a libertação do trabalho. O que correu mal?
Muitas coisas correram mal. A primeira coisa errada — muito errada — é a chamada esquerda. Em vez da autonomia social, o foco dos revolucionários sempre foi o poder político. A tecnologia em si é apenas uma possibilidade, mas a esquerda interpretou completamente mal a função e o potencial da tecnologia. Desde o início do século XX, os comunistas reduziram a tecnologia a uma mera ferramenta.

Nos últimos 50 anos, os anos da transformação electrónica e depois digital, os sindicatos consideraram a tecnologia como um inimigo, em vez de pensar que era uma possibilidade.

Quando dissemos “recusa do trabalho” era uma forma de dizer: vamos aceitar a mudança tecnológica e, simultaneamente, vamos lutar pela redução do tempo de trabalho. Os sindicatos e a esquerda em geral disseram algo diferente: é preciso defender os empregos contra a tecnologia.

Até agora, a inteligência artificial não levou a uma redução dos horários de trabalho. Em 1928, o economista britânico John Maynard Keynes escreveu um pequeno ensaio, "Possibilidades económicas para os nossos netos", no qual imaginava como seria o mundo dentro de um século. Escreveu Keynes que, em 2028, os padrões de vida teriam melhorado de tal forma que seria possível trabalhar apenas três horas por dia. Está à vista: a automação não nos deu esse mundo.
Aconteceu o contrário: hoje em dia, as pessoas trabalham mais por menos dinheiro. Mantenho a ideia de que a automação poderia ser uma oportunidade para reduzir o trabalho. Ela foi transformada numa ferramenta para aumentar os lucros, aumentar o poder militar e expandir o consumo inútil.

O problema não é a automação, mas a incapacidade antropológica e cultural de redefinir os objectivos sociais, as aspirações sociais. Deveriam ser trabalhar menos e reduzir o consumismo. Mas a frugalidade nunca foi considerada pelo movimento operário.

Fala muito em depressão, aplicando o conceito clínico a toda a sociedade capitalista.
Os psiquiatras dizem que os jovens estão deprimidos. Isso é verdade do ponto de vista da sintomatologia psiquiátrica, mas acho que há algo mais a entender: os jovens estão a ver a verdade.

James Hillman, um importante psicólogo, dizia que a depressão é o ponto mais próximo da verdade, a verdade da morte e da fragilidade humana. Assim, a depressão não deve ser entendida apenas do ponto de vista patológico. É claro que reconheço que existe um enorme problema terapêutico, mas há outro nível de compreensão da depressão. A depressão é uma forma de conhecimento, de compreensão. Os jovens olham para o presente, olham para o futuro e compreendem que não há futuro humano. Não há amor, não há sexo, não há prazer, não há respeito, não há ar respirável. Então, como podem não estar deprimidos? Eu não chamo a isso depressão, chamo deserção. Deserção é a compreensão de que não há saída e de que a única coisa que podemos fazer é viver em solidariedade diante da extinção da espécie humana.

Mas algo de positivo pode surgir dessa deserção?
Espero que haja uma cultura de alegria entre os desertores. Somos obrigados a desertar. Somos obrigados a abandonar a palavra guerra, a palavra bestialidade. Esta geração tem o direito de pensar na sua vida de forma alegre. O meu presente é feliz porque sei que não devo nada à humanidade. A humanidade acabou, mas eu ainda estou vivo.

A eleição de Barack Obama, em 2008, deu-lhe ânimo. E o sucesso de Zohran Mamdani, que venceu as primárias democratas de Nova Iorque, e a popularidade de alguém como Bernie Sanders, num país onde era quase tabu falar em socialismo?
Acho que todas as tentativas de criar espaços de humanidade devem ser saudadas como algo positivo. Adoro Zoran Mamdani, mas sei que ele não tem possibilidade de sucesso.

Durante os últimos dez ou 15 anos, muitas vezes esperámos algo novo da esquerda — na Grécia, em 2015, com [Jeremy] Corbyn [ex-líder do Partido Trabalhista britânico], com Sanders. Bem, esse entusiasmo é bom, partilho desse entusiasmo, mas não sou idiota, sei que estamos derrotados para sempre! A palavra “esquerda” não significa nada. Essa é a questão.

Partilho a alegria de estarmos juntos contra o fascismo. Mas sei que devo ir além dessa alegria temporária e criar as condições para sair da agonia da espécie humana. Como filósofo, a minha tarefa não é encontrar uma estratégia, é compreender. E o que compreendo é isto: a espécie humana não sobreviverá a este século. Temos de criar as condições para a alegria e a solidariedade durante a agonia.

segunda-feira, 26 de maio de 2025

Harvard e o exemplo de Barack Obama


Político norte-americano, Barack Hussein Obama II nasceu em Honolulu, no Havai, Estados Unidos da América, a 4 de agosto de 1961.

Filho de um economista queniano e de uma antropóloga americana, Obama cresceu no Havai, viveu alguns anos na Indonésia e mais tarde foi para Nova Iorque. Lá, estudou na Universidade de Columbia, onde se formou em Ciências Políticas em 1983.

Em 1985, Obama resolveu colocar de parte a sua vida académica por algum tempo e mudou-se para Chicago onde se tornou num dinamizador da comunidade, trabalhando com um grupo de orientação religiosa que procurava melhorar as condições de vida nos bairros pobres marcados pelo crime e por altas taxas de desemprego. Ao desenvolver este trabalho, Obama percebeu que para conseguir melhorar verdadeiramente as vidas das pessoas não só daquela comunidade, como de outras, era necessária uma mudança quer a nível legislativo, quer a nível político.

Em 1988, regressou aos estudos na Universidade de Harvard, onde concluiu o seu doutoramento em Direito com distinção três anos depois. Na mesma universidade, o jovem tornar-se-ia o primeiro afro-americano a ser presidente da Harvard Law Review. Pouco depois regressou a Chicago onde exerceu a sua profissão - ocupando-se principalmente de casos relacionados com Direitos Civis - e deu aulas de Direito de Constitucional na Faculdade de Direito da Universidade de Chicago.

Retirem as vossas conclusões.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Cristina Martín Jiménez - livro e tese de doutoramento sobre o Clube Bilderberg



A jornalista espanhola Cristina Martín Jiménez, que investiga o secreto clube Bilderberg há 10 anos, conclui que a crise actual não é uma mera “casualidade”, mas o resultado de um plano em benefício dos ricos.

Uma ideia que Cristina Martín Jiménez defende em entrevista à TSF, onde foi falar do seu livro “O Clube Secreto dos Poderosos – Os Planos Ocultos de Bilderberg”.

“A casualidade, tal como ela nos tem sido apresentada, que chegou uma crise de um dia para o outro, a casualidade não existe, o que existe é uma inteligência, um cérebro que pensa como é possível subtrair as soberanias nacionais e como fazer com que todo o dinheiro fique em suas mãos”, assegura Cristina Martín Jiménez.

“Quem saiu beneficiado da crise? Os ricos“, diz a jornalista, que investiga o clube Bilderberg há cerca de 10 anos, e que constata que este grupo secreto pretende “criar um governo mundial único, em mãos privadas”.

“Governaram Portugal, Espanha e Grécia através da Troika“, diz Jiménez. Notando que é formado por “elites”, a jornalista salienta que os “membros do clube conspiram, afastam e colocam presidentes” com o objectivo de “dirigir o planeta como se fosse um tabuleiro de xadrez”.

As reuniões Bilderberg já contaram com a presença de figuras como Barack Obama, Bill Clinton, Tony Blair, José Sócrates, Durão Barroso e Cavaco Silva.

E Cristina Martín Jiménez fala em particular do caso português, considerando que “o que é diferente em relação a outros países é a quantidade de políticos convidados que houve”.

“José Sócrates foi eleito primeiro-ministro de Portugal um ano depois de ter participado da reunião Bilderberg. Tal como Durão Barroso, mesmo que, nas primeiras eleições nacionais a que se apresenta, diz: sei que vou ganhar, só não sei quando”.

“Barroso também já tinha estado no Bilderberg em 1994”, salienta Cristina Martín Jiménez..

A jornalista fala também da participação de Francisco Pinto Balsemão, ex-primeiro-ministro do PSD e proprietário do Grupo Impresa, que detém a SIC e o Expresso, entre outros órgãos de informação, concluindo que “é algo muito importante controlar a imprensa, a opinião pública”.

Balsemão é o único português que é membro permanente do clube Bilderberg. As restantes personalidades portuguesas têm participado nas reuniões como convidados.

Rui Rio e António Costa participaram na reunião Bilderberg de 2008. Pedro Passos Coelho foi convidado para a reunião de 2013.

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Doutoramento a investigar o clube dos poderosos

Cristina Martín Jiménez nasceu em El Viso del Alcor (Sevilha), em 1974. Escritora e conferencista, doutorou-se em Comunicação e Jornalismo com uma tese dedicada ao Clube Bilderberg. Tem trabalhado e colaborado com vários órgãos de comunicação social, como os canais de televisão Telecinco e Cuatro Televisión, a revista e os jornais Público (Espanha) e El Informador. 

quarta-feira, 21 de setembro de 2022

21 de Setembro: Dia Mundial da Paz - uma reflexão

O tema deste ano "Fim ao Racismo" [Página Oficial]


Neste preciso dia está a circular pelas redes sociais este gráfico. Portugal votou bem, a meu ver.

Este quadro interessa ao discurso putinista, pró-soviético e saudosistas de um império tão imoral e corrupto como o "grande capital" (vulgo, neoliberalismo radical).

Para chegarmos aqui, temos que recuar na História e fazer uma refocagem.

"Biden conduziu os preparativos necessários para a visita de Obama à Rússia, discutiu o futuro do “reset” nas relações EUA-Rússia e as perspectivas da adesão da Rússia à OMC, reuniu-se com empresários russos e norte-americanos e apresentou uma palestra  aos alunos da Universidade Estatal de Moscou." [fonte]

Não esquecer que em 2010 é BARACK OBAMA presidente dos EUA e o pró-russo Viktor Ianukovytch, presidente da Ucrânia.

NUNCA houve qualquer campanha anti-russa; a NATO NUNCA cercou a Federação Russa de bases militares e armamento ofensivo; a Ucrânia NUNCA massacrou durante oito anos os ucranianos russófonos do Donbass.

De "nazificação" e seu combate, acho que estamos conversados. Ler mais aqui

Repito e insisto - está nas mãos de Putin acabar com a guerra. 


Falando do grande capital e apesar das iminentes sanções e proibições de importação, a Rússia exportou US$ 97,7 bilhões em combustíveis fósseis nos primeiros 100 dias desde a invasão da Ucrânia, a uma média de US$ 977 milhões por dia.[fonte]




Saber mais:
Putin's Revenge

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Livro de férias: Gary Gerstle- The Rise and Fall of the Neoliberal Order

Uma nova pobreza- a pobreza energética. Muitas questões e poucas respostas. Que regimes nacionais e mecanismos justos e empresariais para uma fonte de energia descarbonizada, menos impactante em termos ecológicos, geradora de empregos e segurança dos trabalhadores?
Quanto mais leio sobre as alterações climáticas mais me parece que o que quer que aconteça não será uma transição mas uma ruptura, e que isso implica o fim da ordem neoliberal. Não o escrevo com leveza, porque sei que as rupturas causam um sofrimento avassalador.



Book review by Finantial Times

It’s rare that one can use the term “instant classic” in a book review, but Gary Gerstle’s latest economic history, The Rise and Fall of the Neoliberal Order, warrants the praise. It puts neoliberalism, defined as a “creed that prizes free trade and the free movement of capital, goods and people,” as well as deregulation and cosmopolitanism, in a 100-year historical context, which is crucial for understanding the politics of the moment, not just in the US but globally. 
The book also knits together a century of very complicated economic, political, and social trends, which are often siloed but are in fact quite interrelated, creating a new and important narrative about where America has been, and where it may be going. One of the most useful things Gerstle does for readers is to blow up the usual definitions of conservative and liberal, at least in terms of how US economic history is framed. Former Republican presidents Ronald Reagan and both Bushes were “conservative”, while their Democrat peers Bill Clinton and Barack Obama were “liberals”. And yet all of them could be described as neoliberals, in the sense that many of their economic policies were at core about unleashing (or at least not restraining) capitalism, with the underlying belief that markets would, indeed, know best. 
Capital, as always, moved faster than goods or people.  While decades of unchecked markets ultimately contributed to everything from the financial crisis, to the rise of both Donald Trump and Bernie Sanders (reflecting again the way in which neoliberalism and its discontents have blurred political categories), they were in the beginning a necessary and in many ways useful reaction to what came before. You can’t really understand the Reagan revolution, with its dismantling of unions, deregulation, and tax-slashing, without understanding FDR’s “New Deal,” and how it so dramatically expanded the power of the public sector. And so, the first section of the book tackles the 1930s to the 1970s, in which the pendulum of economic power swung towards state planning, welfare, the curbing of corporate monopolies, and stability over speculation. 
The fact that a book on neoliberalism starts with Herbert Hoover, the president whose failure paved the way for Roosevelt’s success, rather than Friedrich Hayek, will throw some readers (like me). Other important works on the topic, such as Quinn Slobodian’s Globalists (2018), which Gerstle quite rightly name checks, begin with the European roots of neoliberalism in post-first world war Vienna, where economists such as Hayek and Ludwig von Mises struggled to find a way to knit a war-torn continent back together. 
What they came up with as a philosophy was neoliberalism, the idea being that if capital, goods, and people could more freely move across borders, conflict would be less likely. Their ideas informed the creation of institutions such as the International Monetary Fund and the World Bank, which have since stopped working as well as they once did, in part because the world was never quite as flat as New York Times columnist Tom Friedman would have had us believe. 
Capital, as always, moved faster than goods or people. Gerstle does a particularly wonderful job of connecting the political and economic dots in that post 2000s era in the US, a complicated and fascinating time in which the sort of “techno-utopianism” exemplified by Friedman’s book The World Is Flat (2005) collided with two ill-advised wars in Afghanistan and Iraq, as well as a Democratic party in thrall to both Wall Street and Silicon Valley, the election of the first black president, an economic crash, and a political narrative — we must save banks but not homeowners — that never quite added up to average voters. While it’s impossible to include every scintillating detail of the time in 300 pages (I craved even more on the existential splits between the neoliberal economic policy camp exemplified by Alan Greenspan, Bob Rubin and Larry Summers, and others like former Clinton and Obama administration advisers including Robert Reich and Joe Stiglitz, who worried about where it was all leading), Gerstle gets the broad brush strokes right. Low interest rates, financialisation, and Bush’s “ownership society” collided with increasing California wealth, identity politics, and creative accounting of stock options to brew up our very own version of 1929, which was quickly followed by the ugly race and class-dividing politics we have now. 
Gerstle has a real genius for capturing political irony — how 1960s hippies turned into Bay Area libertarians, how increased access to credit hurt minorities most, how Democrat Jimmy Carter was a deregulator, how individual “freedom” to pursue prosperity might morph into terrible inequality and insecurity. But one such point he seems to have missed is the way in which Reagan, whom he sees as the “ideological architect” of the past half century of neoliberalism, supported industrial policy, something Gerstle either misses or doesn’t explore, and used state power in the form of things such as voluntary export agreements and anti-dumping duties to bolster American trade interests. Of course, protectionism and neoliberalism can marry with particularly unfortunate results such as Trump, who slashed taxes even as he started a trade war with China. 
As Gerstle points out towards the end of the book, the former president may have been “pushing on an open door,” in the sense that globalisation as we’ve known it since the 1980s started shifting after 2008, when both “producers and consumers” in various countries began “to question the pursuit of a borderless world”. As The Rise and Fall of the Neoliberal Order shows us, some of this reckoning is racist and xenophobic. Some of it is a necessary swinging of the economic pendulum back to a happy medium. As we wait to see where it lands, Gerstle’s history of where we’ve been is essential reading for a post-neoliberal era.

Site oficial: Gary Gerstle

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

A call for governments to save soil

To ensure food security, the world must stop letting fertile soil wash and blow away. 
Fonte: Nature, 24 January 2022

                                               

Book:

Soil creates life from death. The production of more than 95% of the food we eat relies on soil, a heady mix of rock particles, decaying organic matter, roots, fungi and microorganisms. Yet this precious resource is eroding at a global average of 13.5 tonnes per hectare per year. Instead of nourishing crops, fertile topsoil is ending up in inconvenient places such as ditches, reservoirs and the ocean.

Microbiologist Jo Handelsman takes on the challenge of making readers care in A World Without Soil, aided by environmental researcher Kayla Cohen. Their prologue takes the form of a letter about soil erosion that Handelsman wishes she had sent to US president Barack Obama while working in the White House’s Office of Science and Technology Policy in the mid-2010s. Alas, she did not understand the true gravity of the problem until the waning days of the administration. Her biggest regret? That she wasn’t able to make soil management the federal priority she thinks it should be.

Soil can be created over time, as dead things break down and contribute energy and nutrients to an ecosystem based on the underlying rock. But it erodes 10–30 times faster than it is produced. Globally, erosion reduces annual crop yields by 0.3%. At that rate, 10% of production could be lost by 2050. In erosion hotspots such as Nigeria, 80% of the land has been degraded. In Iowa, up to 17% of land is almost devoid of topsoil. Almost more convincing than the many facts and figures is a colour photograph of a field in Iowa with so little topsoil that the pale, lifeless sandy rubble beneath pokes through.

Age-old solutions

A sense of dread builds in the chapters that cover the basic science of soil as well as the causes and consequences of its erosion. The last part of the book brings a burst of enthusiasm, as the authors turn to possible solutions — many of them simple, and some millennia old. These involve improving holding capacity through planting diverse crops in rotation; increasing organic content with additions such as compost and biochar; reducing the erosional effects of water and wind by reshaping the land with contouring, terraces, windbreaks and the like; and ploughing as little as possible.

In a chapter on traditional soil-management techniques around the world, Handelsman and Cohen describe deep black “plaggen” soils on Scottish islands, made rich with cattle manure; rice terraces managed for 2,000 years by the Ifugao people in the Philippines; the milpa farming system of the Maya in Latin America, with its 25-year rotation of crops including trees; and compost made of seaweed, shells and plant material by the Māori in New Zealand. Each system yields rich agricultural productivity while maintaining deep banks of carbon-rich, fertile soil. “We know how to do this,” write Handelsman and Cohen.

Why, then, is fertile soil being allowed to wash and blow away? The answer, not surprisingly, rests in the shackles of global capitalism. Farming’s profit margins are razor-thin, forcing producers to plant the highest-yielding variety of the highest-profit crop from field edge to field edge every season. Terracing, rotating crops and forgoing tilling enrich soil in the long run, but nibble into profits this year. And farmers can’t pay their mortgages or lease equipment with the aroma of deep black topsoil.




Handelsman and Cohen urge the world to demand real change in how mainstream agricultural production is managed. “The burden of protecting soil cannot be relegated to indigenous people and environmental activists,” they note. But their specific suggestions are a little underwhelming. They join the calls for international soil treaties, but given how poorly climate treaties have worked, I am cynical about the potential of such agreements. Countries seem likely to both under-promise and under-deliver unless there are costly penalties for failure. The same goes for the consumer-facing labels that the authors propose for food produced on farms that are working to improve their soil. Similar labels have not put a meaningful dent in climate change or other environmental problems — and many customers cannot afford to spend more on “soil-friendly” food.

Top-down change

What farming needs is a top-down overhaul. Handelsman and Cohen gesture at this with proposed discounts on crop-insurance premiums for farmers who increase the carbon in their soil. More is needed. Governments must pay farmers to build soil. In the United States, farmers can apply for funding for anti-erosion improvements through the Environmental Quality Incentives Program, run by the Department of Agriculture. Funding announced this month will increase the amount of land planted with cover crops to 12 million hectares by 2030 — but even that would represent only some 7% of US cropland. It is not enough.

We need to change how we think of farming. We have already begun to move towards a model in which farmers are less independent businesspeople growing and selling food, and more government-supported land stewards managing a complex mix of food production, soil fertility, wildlife habitat and more. Around the world, many farmers depend on subsidies, drought relief and payments from piecemeal schemes to conserve soil and nature. Such programmes — currently small-scale, ad hoc fixes for a broken system — should be the core of the agricultural sector.

Our land, our fresh water, our biodiversity and our soil are too precious to be destroyed by the market price of commodity grains and other foodstuffs. We must invest deeply and thoughtfully in our farmers so that they can invest deeply and thoughtfully in the land, becoming holistic landscape-management professionals. This is the future of farming.

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