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segunda-feira, 20 de julho de 2026

Rússia e China adotam “movimento dissimulado de apropriação territorial” no Ártico: “A Noruega tem soberania sobre Svalbard, ponto final”


Durante mais de duas décadas, um par de imponentes leões de granito ladeou a entrada de um edifício vermelho-ferrugem em pleno Círculo Polar Ártico. Já não é assim. No mês passado, desapareceram - e a sua ausência conta uma história sobre a geopolítica cada vez mais tensa no topo do mundo.

Os leões desaparecidos guardavam outrora uma estação de investigação operada pela China na colónia de Ny-Ålesund, em Svalbard, um arquipélago situado entre a Noruega continental e o Polo Norte. Em maio, foram removidos pela empresa estatal norueguesa que gere a colónia; em junho, a mesma empresa retirou uma placa do edifício onde se lia "Estação Rio Amarelo".

A iniciativa da Noruega é vista por alguns especialistas como parte de uma tentativa de reforçar a sua soberania sobre esta parcela do Ártico, face a mudanças geopolíticas e climáticas sísmicas.

A Gronelândia pode dominar as preocupações no Ártico - com o Presidente Donald Trump a tentar repetidamente reivindicá-la para os Estados Unidos, invocando a necessidade de contrariar a crescente influência de Pequim e Moscovo -, mas outra disputa potencialmente explosiva está a desenrolar-se em Svalbard, onde a China e a Rússia já têm presença. E há quem receie que o mundo não esteja a prestar atenção suficiente.

Um arquipélago único sob pressão
Svalbard é um grupo de ilhas singular. Tem apenas cerca de 3000 residentes, mas não tem população nativa e as mulheres não podem dar à luz ali. É o lar da cidade permanentemente habitada mais a norte do planeta, Longyearbyen, e é o local que mais rapidamente aquece na Terra, a um ritmo cerca de seis a sete vezes superior à média global.

Um tratado centenário confere à Noruega total soberania, mas também permite que cidadãos de quase 50 países signatários, incluindo a China e a Rússia, vivam e trabalhem em Svalbard sem necessidade de visto.

Nas últimas décadas, tornou-se o principal centro mundial de ciência ártica e um local raro de cooperação internacional.

"Pessoas de todo o mundo, com enormes diferenças culturais... juntam-se para colaborar", afirmou Hedda Andersen, uma glaciologista que trabalha na Estação de Investigação de Ny-Ålesund.

Contudo, esta harmonia está a desgastar-se à medida que a orgânica única de Svalbard colide com relações internacionais cada vez mais fraturadas e com a busca dos países por influência num Ártico em rápido aquecimento.

"Estamos a ver o contexto geopolítico mais amplo a transbordar para o território de uma forma que não se via nas décadas anteriores", explicou Otto Svendsen, investigador associado no Center for Strategic and International Studies (CSIS).

A atração estratégica de Svalbard
A geografia de Svalbard é grande parte do que a torna tão atraente:
Recursos: o seu oceano ostenta ricas zonas de pesca e minerais críticos no fundo do mar.
Tecnologia: está numa localização privilegiada para controlar e descarregar dados de satélites de órbita polar usados para ciência, previsão meteorológica e defesa.
Militar: situa-se perto da Península de Kola, na Rússia, uma das regiões militares mais estratégicas de Moscovo, onde se encontra grande parte do seu arsenal nuclear marítimo.

O arquipélago é de fácil acesso. Voos regulares a partir da Noruega continental permitem chegar ao alto Ártico em poucas horas. Dezenas de países têm presença em Svalbard, incluindo a Rússia, a China, o Reino Unido, a Itália, o Japão e a Polónia. As suas estações de investigação servem de porta de entrada para a influência no Ártico, funcionando "quase como uma moeda geopolítica", sublinhou Serafima Andreeva, investigadora do The Arctic Institute.

O fim do "Alto Norte, baixa tensão"
Durante décadas, o lema na região foi "Alto Norte; baixa tensão", recordou Eivind Vad Petersson, secretário de Estado no Ministério dos Negócios Estrangeiros norueguês, mas "essa já não é uma descrição precisa da realidade".

A invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 desfez a ideia de que o Ártico estava imune aos ventos geopolíticos e colocou o foco na dissonância de a Rússia ter uma colónia em território da NATO. Barentsburg, um posto avançado de mineração e investigação em Svalbard, é habitado quase inteiramente por russos e é vigiado por um enorme busto de Vladimir Lénine.

As ações russas em Svalbard têm inflamado ainda mais as tensões:
Em 2023, a Rússia realizou um desfile de estilo militar em Barentsburg, com uma coluna de camiões e motas de neve com bandeiras russas e um helicóptero a voar a baixa altitude, o que valeu a Moscovo uma multa da autoridade de aviação norueguesa.
No ano passado, o deputado russo Sergey Mironov sugeriu que Svalbard deveria ser renomeada como "Ilhas Pomor", numa referência a um grupo de caçadores russos presentes no arquipélago há séculos.
Retórica: A Rússia tem invocado o mesmo tipo de linguagem que usa para justificar as suas ações na Ucrânia, argumentando que precisa de proteger os falantes de russo em Svalbard. Tem também acusado repetidamente a Noruega de tentar militarizar as ilhas.

Nikolay Korchunov, embaixador da Rússia na Noruega, afirmou que Oslo "bate no limite" da estipulação do Tratado de Svalbard de que as ilhas não devem ser usadas para "fins bélicos". Korchunov acrescentou que a Rússia nunca pôs em causa la soberania da Noruega, mas está, sim, a "tentar trazer clareza" sobre a forma como esta soberania é exercida.

O papel da NATO e as ambições da China
O secretário de Estado norueguês, Petersson, rejeitou as alegações de militarização, explicando à CNN que o Tratado de Svalbard impede a criação de uma base da NATO nas ilhas ou a sua utilização para fins bélicos, mas que isso é "muito mais restrito e algo muito diferente de ser uma zona desmilitarizada".

"Svalbard é parte da Noruega; Svalbard é parte da NATO; Svalbard faz parte dos planos de defesa noruegueses", declarou.

Poucos acreditam que a Rússia esteja a traçar um caminho para uma ação militar direta. Já tem quase tudo o que quer em Svalbard e está focada na Ucrânia, apontou Andreas Østhagen, investigador sénior no Instituto Fridtjof Nansen, em Oslo. Em vez disso, a Rússia parece querer usar Svalbard como um local "para mostrar que não será recuada pela Noruega, ou pela NATO em geral".

Mas não são apenas as ações da Rússia que preocupam. Há também a China.
Ao contrário da Rússia, a China não é uma potência ártica, mas tem ambições. No seu documento de estratégia para o Ártico de 2018, autodenominou-se um "Estado quase-Ártico" e referiu repetidamente Svalbard. Tem também planos para uma "Rota da Seda Polar", um corredor de infraestruturas e navegação no topo do mundo.

Em 2024, quando a China celebrou o 20.º aniversário da sua estação de investigação em Ny-Ålesund, uma empresa de viagens chinesa levou mais de 100 turistas a Svalbard. Alguns agitaram bandeiras; um deles vestia uma farda de camuflagem com o que parecia ser um emblema militar chinês. O evento gerou alarme na Noruega.

Um porta-voz da Embaixada da China na Noruega afirmou que o país participa nos assuntos do Ártico "de acordo com o direito internacional" e que as suas intenções na região visam "salvaguardar os interesses comuns de todos os países".

O catalisador das alterações climáticas
Existe outro fator crucial nesta teia de tensões: as alterações climáticas causadas pelo Homem. No verão de 2024, Svalbard quebrou recordes anteriores de degelo, perdendo mais de 60 gigatoneladas de gelo (cerca de 1% do seu total), com as temperaturas a subirem cerca de 4ºC (7ºF) acima da média. Quatro dos últimos cinco anos estabeleceram novos recordes de perda de gelo.

As alterações climáticas são "em grande parte o que está a impulsionar muito do interesse geral em direção ao Ártico", referiu Østhagen. Existe a narrativa de que o degelo abrirá oportunidades económicas e estratégicas.

A realidade é mais complexa. Há décadas que se antecipa um fluxo de navios pelo Oceano Ártico e uma corrida ao petróleo, gás e minerais sob as suas águas gélidas - mas isso ainda não aconteceu. A região continua a ser dura e inóspita.

Ainda assim, se o degelo vai ou não abrir a região "não importa", considerou Torbjørn Pedersen, professor na Universidade Nord. O "medo de ficar de fora" está a empurrar os países a marcarem presença no Ártico e a exercerem influência política.

A Noruega aperta o controlo
Face a isto, a Noruega parece estar a apertar o controlo sobre Svalbard:
  1. Alteração de leis: em 2022, o governo mudou as regras eleitorais para impedir que cidadãos não noruegueses votassem nas eleições de Longyearbyen, a menos que tivessem vivido na Noruega continental durante três anos.
  2. Mineração: a Noruega assumiu a ambição de explorar minerais críticos numa vasta extensão do fundo do mar do Ártico em redor de Svalbard. O plano foi contestado pela Rússia.
  3. Símbolos nacionais: seguiu-se a remoção dos leões da China e de símbolos nacionais noutros edifícios de Ny-Ålesund.
"Não existe uma estação de investigação chinesa em Svalbard", clarificou Petersson. "Existe uma estação de investigação norueguesa com inquilinos chineses. Essa é uma distinção que faz a diferença."

Para já, a Noruega mostra-se confiante na capacidade de "manter um certo nível de estabilidade nesta região". Mas o mundo está a mudar rapidamente. Com Trump a reiterar que os EUA deveriam deter a Gronelândia, a aliança da NATO sob pressão crescente e os países a posicionarem-se como potências árticas, o futuro parece cada vez menos certo.

Os países podem começar a pensar que "o que importa agora é o poder e a capacidade de afirmar esse poder", concluiu Østhagen, "e não necessariamente as normas e leis que estabelecemos ao longo do último século."
Fonte [PT] [EN]

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quinta-feira, 12 de março de 2026

As observações de satélite confirmam a previsão da variação do nível do mar dos anos 90


As projeções climáticas dos anos 90 acertaram em cheio na subida do nível do mar, mas subestimaram o degelo das camadas de gelo. Agora, com a aceleração da subida do nível do mar, os cientistas alertam para os riscos regionais e para a possibilidade de um colapso catastrófico.

As alterações globais do nível do mar são medidas por satélites há mais de 30 anos e uma comparação com as projeções climáticas de meados da década de 1990 mostra que estas são notavelmente exatas, de acordo com dois investigadores da Universidade de Tulane.

“O derradeiro teste às projeções climáticas é compará-las com o que se passou desde que foram feitas, mas isso requer paciência - são necessárias décadas de observações”. Torbjörn Törnqvist, autor principal do estudo e Professor de Geologia no Departamento de Ciências da Terra e do Ambiente.
Törnqvist frisa ainda que os investigadores ficaram espantados com a qualidade das primeiras projeções, especialmente quando comparamos a rudeza dos modelos existentes na altura, com os que estão disponíveis agora.

O nível do mar não varia de forma uniforme
O coautor Sönke Dangendorf, Professor Associado no Departamento de Ciências e Engenharia Fluvial e Costeira, afirmou que, embora seja encorajador ver a qualidade das primeiras projeções, o desafio atual é traduzir a informação global em projeções adaptadas às necessidades específicas das partes interessadas em locais como o sul do Louisiana.

"O nível do mar não sobe uniformemente - varia muito. O nosso estudo recente desta variabilidade regional e dos processos que lhe estão subjacentes baseia-se, em grande medida, nos dados das missões de satélite da NASA e nos programas de monitorização dos oceanos da NOAA. A continuação destes esforços é mais importante do que nunca e essencial para a tomada de decisões informadas em benefício das pessoas que vivem ao longo da costa.” Sönke Dangendorf.

Uma nova era de monitorização das alterações globais do nível do mar arrancou quando foram lançados satélites no início dos anos 90 para medir a altura da superfície do oceano. Isto mostrou que a taxa de subida global do nível do mar desde essa altura tem sido, em média, de cerca de 0,30 centímetros por ano. Só mais recentemente é que se tornou possível detetar que a taxa de subida do nível do mar está a acelerar.

Quando os investigadores da NASA demonstraram, em outubro de 2024, que a taxa duplicou durante este período de 30 anos, chegou o momento de comparar esta descoberta com as projeções feitas em meados da década de 1990, independentemente das medições por satélite.

As projeções do IPCC verificaram-se bastante próximas da realidade, apesar da subestimação do degelo
Em 1996, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) publicou um relatório de avaliação pouco depois do início das medições do nível do mar por satélite. Projetava que o valor mais provável da subida global do nível do mar nos próximos 30 anos seria de quase 8 cm, notavelmente próximo dos 9 cm que se verificaram. Mas também subestimou o papel do degelo em mais de 2 cm.

Na altura, pouco se sabia sobre o papel do aquecimento das águas oceânicas e sobre a forma como este poderia desestabilizar os setores marinhos do manto de gelo antártico a partir de baixo. O fluxo de gelo do manto de gelo da Gronelândia para o oceano também tem sido mais rápido do que o previsto.

As regiões com cotas ao nível do mar encontram-se sob maior risco, em caso de subida do nível do mesmo.

As dificuldades do passado em prever o comportamento dos mantos de gelo também contêm uma mensagem para o futuro. As atuais projeções da futura subida do nível do mar consideram a possibilidade, embora incerta e de baixa probabilidade, de um colapso catastrófico do manto de gelo antes do final deste século.

As regiões costeiras baixas dos Estados Unidos seriam particularmente afetadas se esse colapso ocorresse na Antártida.

Referências bibliográficas

R. S. Nerem
Nerem, R. S., Beckley, B. D., Fasullo, J. T., Hamlington, B. D., Masters, D., & Mitchum, G. T. (2018). Climate-change–driven accelerated sea-level rise detected in the altimeter era. Proceedings of the National Academy of Sciences, 115(9), 2022-2025

Torbjörn E. Törnqvist, Clinton P. Conrad, Sönke Dangendorf, Benjamin D. Hamlington. Evaluating IPCC Projections of Global Sea-Level Change From the Pre-Satellite Era. Advancing Earth and Space Science - Earth’s Future (2025).

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

A Islândia classifica o colapso da corrente do Oceano Atlântico como um risco para a segurança nacional


Tal como grande parte da Europa, a Islândia registou em 2025 o seu ano mais quente, num contexto em que os gases com efeito de estufa continuam a aquecer o planeta.

O governo Islandês declarou o possível colapso de uma importante corrente do Oceano Atlântico como um risco para a segurança nacional.

A Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) é um sistema de correntes oceânicas que transporta águas mais quentes dos trópicos através do Ártico até ao Oceano Atlântico Norte, bem como águas mais frias para o sul, ajudando a regular o clima global.

Recentemente, os especialistas levantaram a possibilidade de colapso da AMOC, o que poderá tornar os invernos na Europa mais rigorosos e perturbar o clima em todo o mundo. Estes alertas foram levados ao conhecimento do Conselho de Segurança Nacional da Islândia, marcando a primeira vez que uma questão relacionada com o clima foi apresentada ao conselho, que está agora a coordenar uma resposta ao problema.

"É uma ameaça direta à nossa resiliência e segurança nacional", disse o ministro do Clima da Islândia, Johann Páll Johannsson, à Reuters.

Isto acontece depois de parlamentares islandeses que participaram na conferência COP30 no Brasil, no mês passado, se terem focado nos perigos do colapso da AMOC.

“É muito importante que comecemos já a usar a nossa voz com força neste fórum e, claro, que cumpramos as nossas obrigações internacionais a este respeito”, afirmou a deputada islandesa ÁSa Berglind Hjálmarsdóttir em entrevista ao portal de notícias islandês

Para além dos efeitos que a corrente tem no clima, a AMOC  é também essencial para a vida marinha. A circulação transporta nutrientes, aumenta a salinidade e leva oxigénio às camadas mais profundas do oceano. Se a circulação diminuísse ou entrasse em colapso, poderia, por exemplo, reduzir as populações de zooplâncton, o que, por sua vez, afectaria todo o sistema alimentar. Além disso, a circulação é essencial para prevenir a acidificação do oceano, ajudando os moluscos, o plâncton e os corais a construir as suas conchas.

O Sustainability Directory constatou que os efeitos provavelmente impactariam espécies de importância comercial.

“Isto poderá ter consequências económicas significativas para a pesca na região, bem como impactos ecológicos nos ecossistemas habitados por estas espécies”, referiu o relatório.

Embora Johannsson e outros membros do governo islandês considerem o problema uma potencial ameaça à segurança, os países vizinhos estão menos preocupados.

"Não acreditamos que haja uma necessidade urgente de preparar as Ilhas Faroé para um cenário com uma corrente do Golfo mais fraca", disse Karin M. H. Larsen, oceanógrafa do Instituto Faroês de Investigação Marinha, à emissora pública das Ilhas Faroé, KVF.fo.

Larsen reconheceu que existe a possibilidade de a circulação parar em algum momento, mas não há indícios de que isso aconteça em breve.

"É possível a longo prazo, mas as incertezas científicas são grandes", disse ela, acrescentando que há muitas incertezas para determinar se isso levará um século ou mais, ou mesmo se acontecerá. "Por enquanto, é melhor lidar com o facto de o oceano estar a aquecer."

O Ministério do Ambiente da Noruega, por sua vez, disse à Reuters que está a procurar aprofundar o seu conhecimento através de novas pesquisas.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Hilariante - A paródia e a amostra que Donald Trump é mesmo ignorante


Esta sexta-feira, a Casa Branca publicou uma nova montagem que mostra que ou Donald Trump não sabe que não existem pinguins na Gronelândia ou que, no limite, pensa levar estes animais para o território.

“Abracem o pinguim”, lê-se na descrição da fotografia publicada esta sexta-feira na conta oficial da Casa Branca na rede social X. Na imagem, vê-se Donald Trump a caminhar ao lado de um pinguim, que carrega na sua mão uma bandeira norte-americana. As pegadas de ambos — note-se, de iguais dimensões — caminham até às montanhas, onde se encontra uma bandeira da Gronelândia.

Os pinguins encontram-se apenas no Hemisfério Sul, com a sua maior população na Antártida. A Gronelândia fica no Hemisfério Norte.

sábado, 17 de janeiro de 2026

A petromoralidade de Trump



Em 1953, a Inglaterra e os Estados Unidos da América coordenam esforços para depor o governo democrático do Irão. Até há pouco tempo, a CIA e o MI6 negaram ter promovido um plano para derrubar o primeiro-ministro eleito, Mohammed Mossadegh, até que, em 2013, um relatório publicado pela CIA admitiu a manipulação da imprensa, as operações de propaganda e o financiamento de protestos contra o governo, reconhecendo a autoria do golpe.

A monarquia apoiada pelo Ocidente converteu-se numa ditadura brutal. A recente nacionalização do petróleo, motivo não assumido para o golpe de Estado, foi revertida a favor de empresas britânicas, norte-americanas, holandesas e francesas. Durante 38 anos, os iranianos sofreram as brutas consequências da intervenção imperialista. O profundo ressentimento popular aberto por essas décadas de repressão e exploração pavimentaram o caminho para a Revolução de 1979 e a instauração de um regime teocrático e violento, contra o qual o povo iraniano agora resiste corajosamente nas ruas.

Independentemente das coordenadas ideológicas de cada um, não acredito que exista um historiador ou analista intelectualmente honesto que não estabeleça um nexo de causalidade entre a intervenção externa motivada pelo controlo de petróleo e a ascensão do regime repressivo liderado por Ali Kahmenei. Da mesma forma, ninguém nega as verdadeiras motivações que levaram à destruição do Iraque, deixando um rasto de guerra e morte, milhões de refugiados e a ascensão do DAESH.

Tanto esforço dedicado à mentira, encobrimento e malabarismos morais para afinal acabarmos aqui. Séculos de doutrina da “guerra justa” arduamente pensada por filósofos, historiadores, teólogos, militares, glosadores e intelectuais, tudo arrasado numa frase digna do absolutismo mais raso, não de um príncipe, mas de um canalha: “os limites da guerra são os limites da minha moral”, ou seja, nenhuns.

Trump não precisou de uma tese hipócrita e mentirosa para justificar a operação militar especial e a ocupação (do poder) na Venezuela, não precisou de autorização do Congresso nem de fingir respeito pelo direito internacional. Bastou-lhe a legitimidade conferida pelas poderosas petrolíferas norte-americanas e o seu vazio ético e moral.

É tudo assustador, mas será suficiente para demolir um edifício normativo internacional fundado no século XVII e edificado depois de duas guerras mundiais, cem milhões de mortos e mais do que um genocídio? Não, isto não é trabalho para um homem só.

O resto, o bocado que falta, está a ser-lhe servido na bandeja da quieta complacência europeia e da terna cumplicidade dos que exclamam “as pessoas falam do petróleo como se isso fosse uma razão menos digna para uma intervenção”.

Não celebro o fim da hipocrisia, acho que havia nela uma réstia de ilusão sobre um mundo em que os pequenos conseguem proteger-se contra os desvarios dos grandes. Está na moda teorizar sobre o interesse nacional, reduzindo-o à legitimidade de pilhar os vencidos. Até admito que nos EUA essa tese seja “natural”, o que me espanta é a síndrome de Estocolmo em países periféricos e mínimos mas com 1,7 milhões de km² de águas marítimas e uma plataforma continental que pode chegar a 4 milhões de km².

Em nenhuma circunstância Portugal teria a possibilidade de garantir militarmente a sua soberania no Atlântico, o que inclui os Açores. Será assim tão difícil compreender que é do interesse de Portugal e da maioria dos estados (que não são superpotências) alinhar pela defesa do direito internacional e do respeito pela soberania?

Enquanto escrevo, tropas alemãs, norueguesas, suecas e dinamarquesas são simbolicamente desembarcadas para “defender” a Gronelândia dos apetites vorazes do sr. Trump. Mas há em Portugal quem ache que o nosso destino é escolher um dos líderes imperiais autoritários para ser o “nosso líder autoritário”. Sonham com o império e aceitam patrioticamente converter-se em pequeno jardineiro do seu quintal… que patético “interesse nacional”.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

"Este é o NOSSO Hemisfério"- diz Trump sobre eventual invasão ilegal da Gronelândia


Hitler chamou-lhe Lebensraum ("Espaço Vital").
Putin chama isso de Russkiy Mir ("o Mundo Russo").
Trump chama isso de "Nosso Hemisfério".

Seja em sua forma nazi, racista ou fascista americana, esse imperialismo descarado deve ser combatido por todos os amantes da liberdade, em qualquer lugar do mundo.
O direito internacional, tal como a Carta da ONU, reconhece a igualdade de soberania dos Estados.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Ainda a invasão da Venezuela por Trump


“Todos os Membros devem abster-se, nas suas relações internacionais, da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado, ou de qqer outra forma incompatível com os Propósitos das Nações Unidas"
Art. 2º, §4º, da Carta ONU

Meia dúzia de notas sobre Trump e  Nicolás Maduro.
1. Maduro e Trump estão bem um para o outro. Trump, perdeu as eleições de 2020 e recusou reconhecer o resultado, algo inédito na história moderna dos EUA. Tentou pressionar instituições para reverter o resultado eleitoral. Trump tentou manter o poder contra o resultado eleitoral.

2. Em maio de 2018, Maduro foi reeleito para um mandato de seis anos numa polémica eleição, não reconhecida pela oposição, pela Organização dos Estados Americanos e União Europeia, além de países como Estados Unidos e Brasil. Em janeiro de 2019, foi empossado para um segundo mandato. Isso acabou gerando uma grave crise política interna, com a Assembleia Nacional não reconhecendo a posse do presidente e várias nações do mundo removeram os seus embaixadores de Caracas, como protesto. Para a oposição, Nicolás Maduro estava, efetivamente, transformando a Venezuela numa ditadura sob seu comando.

3. Porém, esta intervenção americana é ilegítima e injustificada — representa uma gravíssima violação do Direito Internacional Público. Não é uma manobra de defesa, é uma manobra de dominação geoestratégica. Trump apresenta a desculpa dos cartéis de droga, mas o objetivo é chegar ao petróleo, ao lítio, ao ouro, aos minerais raros. Um regresso à lógica imperialista do século XIX que legitima outras intervenções e ocupações noutras partes do mundo. Uma visão de uma tripartição do globo, em que os EUA dominam o continente americano, a Rússia fica com a Ucrânia e a China ocupa Taiwan.

4. Além disso, esta intervenção na Venezuela é também uma conveniente manobra de diversão para os incómodos Epstein Files. Trump é um perigoso narcísico, um autoritário anti-democrático que só conhece o cotão do seu umbigo e instintos viscerais. Move-se por uma lógica egoísta, transacional e pela lei da força.

5. Mesmo sendo obviamente desejável uma mudança de regime na Venezuela, é assustador que seja feita desta forma.

6. A imposição pela força não pode ser aplaudida, mesmo quando é contra regimes de que não gostamos. Porque a pergunta obrigatória é esta: e quando esta imposição pela força for feita contra regimes, líderes ou países de que gostamos?


Trump anunciou a invasão nas redes sociais. Inédito. Desrespeitou auscultação prévia do Senado e do Congresso!


E quando o próximo ciclo de ficheiros Epstein for libertado, Trump invadirá a Gronelândia!

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Satélites revelam que o sul da Europa está a ficar sem água. E nós somos o sul


Durante anos, a seca foi uma imagem associada a outros continentes. Agora, os mapas gravíticos que “pesam” a água do subsolo mostram uma mancha em aceleração sobre o sul e o centro da Europa. Em duas décadas de medições, os cientistas vêem aquíferos em queda de Espanha à Roménia e avisam que o que falta debaixo dos nossos pés pode transformar-se depressa em problema à superfície: nas torneiras, nos campos e nas prateleiras dos supermercados

Vastas reservas de água doce na Europa estão a encolher, sobretudo no sul e no centro do continente, com efeitos anunciados para a agricultura, os ecossistemas e o abastecimento urbano.

A conclusão resulta de uma análise a dados de satélite entre 2002 e 2024, conduzida por investigadores da University College London (UCL) em colaboração com a organização Watershed Investigations e o jornal britânico The Guardian, que desenha um mapa em contraste: o norte e o noroeste da Europa, incluindo partes do Reino Unido e de Portugal, aparecem mais húmidos, enquanto grandes áreas do sul e do sudeste, da Península Ibérica à Roménia e à Ucrânia, surgem cada vez mais secas.

Para chegar a estas tendências, a equipa recorreu a satélites que medem variações no campo gravitacional da Terra e permitem “pesar” quanta água está armazenada em aquíferos, rios, lagos, solos e glaciares, já que a massa da água altera o sinal.

Quando cruzaram esses registos com bases de dados climáticos, as curvas bateram certo. “A quebra do clima” está escrita ali, no subsolo, resume Mohammad Shamsudduha, professor de crise hídrica e redução de risco na UCL, citado pelo The Guardian. Shamsudduha lembra que já não se discute realisticamente limitar o aquecimento global a 1,5 °C e que o mundo caminha para mais 2 °C face à era pré-industrial, "com consequências já visíveis".

Uma análise específica à água subterrânea mostrou um desenho muito parecido ao da água total em terra, o que confirma que até as reservas consideradas mais resilientes estão a ser esvaziadas. No Reino Unido, nota este académico, o sinal é cada vez mais claro: o Oeste fica mais húmido, o Leste mais seco, com chuva total estável ou ligeiramente crescente, mas concentrada em aguaceiros intensos e verões com períodos longos sem precipitação, o que favorece cheias repentinas e menos recarga dos aquíferos.

Estratégia de resiliência hídrica
Do lado das pressões humanas, os dados da Agência Europeia do Ambiente indicam que, entre 2000 e 2022, o volume total de água captada de origens superficiais e subterrâneas na União Europeia desceu, mas as captações de água subterrânea subiram 6 %, puxadas pelo abastecimento público e pela agricultura. Em 2022, os aquíferos garantiam 62 % da água que chega às torneiras e um terço da procura agrícola nos Estados-membros.

Bruxelas responde com uma “estratégia de resiliência hídrica” que quer adaptar a gestão à nova climatologia, construir uma “economia inteligente em água” e melhorar a eficiência em pelo menos 10 % até 2030, com prioridade a reduzir perdas numa rede onde as fugas variam entre 8 % e 57 %.

É nesse contexto que vozes como a da hidróloga Hannah Cloke, da Universidade de Reading, também citada pelo jornal The Guardian, descrevem como “angustiante” ver confirmada estatisticamente a perda de água subterrânea num país, a Inglaterra, que tem atravessado grandes secas e avisos de chuva abaixo da média.

A Agência Europeia do Ambiente já pediu à Inglaterra que se prepare para a possibilidade de a seca se prolongar até 2026, e o Governo britânico anuncia nove novos reservatórios para reforçar a resiliência, mas Cloke contrapõe que infra-estruturas que só estarão prontas dentro de décadas não resolvem o problema imediato e defende mais reutilização, menos consumo, separação clara entre água potável e água reciclada e soluções baseadas na natureza para desenhar cidades e novas urbanizações.
“As alterações climáticas são reais, estão a acontecer e estão a afectar-nos”

Os investigadores avisam que o padrão de secagem observado em muitas regiões europeias terá impactos “de longo alcance” sobre a segurança alimentar, a actividade agrícola e os ecossistemas dependentes de água, em especial os habitats alimentados por aquíferos.

A redução das reservas em Espanha, exemplifica Mohammad Shamsudduha, pode sentir-se directamente num Reino Unido que depende fortemente de frutas e legumes importados daquele país e de outros parceiros europeus. E lembra que o que agora se vê no mapa europeu é uma versão próxima de fenómenos há muito descritos no Sul global, do sul da Ásia a partes de África e do Médio Oriente.

Secas prolongadas e aquíferos em queda estendem-se hoje também pelo Médio Oriente, Ásia, América do Sul, costa oeste dos EUA, Canadá e regiões frias como a Gronelândia, a Islândia e Svalbard. No Irão, Teerão aproxima-se do “dia zero” em que deixará de ter água canalizada, o Governo prepara racionamentos e o Presidente, Masoud Pezeshkian, já admitiu que a capital poderá ter de ser evacuada se essas medidas falharem.

Perante este quadro, Shamsudduha insiste na mesma ideia: é preciso aceitar “que as alterações climáticas são reais, estão a acontecer e estão a afectar-nos” e usar isso como ponto de partida para uma outra forma de gerir a água, abrindo espaço a soluções que ainda soam pouco convencionais, como a captação generalizada de água da chuva em países como o Reino Unido.

sábado, 25 de outubro de 2025

Anja Huwe / Xmal Deutschland - Polar Forest


Anja Huwe é a vocalista icónica dos lendários precursores do movimento pós-punk Xmal Deutschland. Após o sucesso da banda com quatro álbuns em editoras de culto como a 4AD, Huwe seguiu uma carreira nas artes visuais, sem nunca ter abandonado a sua paixão pela música através de várias plataformas criativas.

Convidada pela sua amiga de longa data Mona Mur, musicista, compositora e produtora, Huwe reconsiderou o seu hiato de décadas na música e decidiu juntar-se a Mur no seu estúdio em Berlim. Juntas, trabalharam durante um ano e meio, compondo, tocando e produzindo as faixas de raiz, que acabariam por se tornar no álbum “Codes”, lançado este ano pela Sacred Bones Records, de Nova Iorque.

O álbum apresenta sons electrónicos distintos, bem como o estilo único de guitarra Xmal de Manuela Rickers. O regresso de Anja Huwe aos palcos com a apresentação do seu requintado álbum a solo “Codes”, juntamente com uma sólida seleção de clássicos de Xmal Deutschland em interpretações modernas é inesperado, mas há muito esperado. “Codes” é a página que faltava nos livros de história do pós-punk, a tinta acabada de espalhar pela tela de décadas – é o produto da incansável vontade de sobreviver nos seus próprios termos.

domingo, 19 de outubro de 2025

Inside the planet’s race to adapt - Por dentro da corrida do planeta para se adaptar


Esta década decisiva exige ações sem precedentes para enfrentar o maior desafio da humanidade. Com acesso global, esta série em três partes examina as consequências reais das alterações climáticas para a nossa civilização, ao longo do século XXI e mais além.

O jornalista irlandês Philip Boucher-Hayes visita pontos críticos do clima, desde o degelo dos glaciares da Gronelândia até aos extremos climáticos da África Subsariana, desde a inundação de terras agrícolas no Bangladesh até ao degelo do permafrost siberiano. Encontra-se com especialistas e testemunhas que explicam a interconectividade da frágil ecologia mundial, à medida que atingimos pontos de inflexão dos quais pode não haver retorno.

A série analisa a nova ciência climática e enfrenta as duras realidades de um mundo em mudança – ecossistemas em colapso, mortandade marinha e fenómenos climáticos extremos crescentes. Mas também explora uma visão positiva para reimaginar economias, paisagens e infraestruturas – e soluções práticas, formas de mobilizar a determinação colectiva e desafiar a humanidade a tornar-se uma força transformadora, aproveitando a inovação para salvaguardar o futuro da civilização.

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Extremos climáticos no abismo?


«Corremos o risco de atravessar pontos de inflexão planetários? Corremos o risco de empurrar o planeta para uma trajetória em que se possa afastar continuamente de um estado que possa sustentar a vida tal como a conhecemos? Este documentário explora estas questões, apresentando perspetivas de especialistas e investigação científica em curso sobre o sistema terrestre em rápida mudança e o risco crescente de desencadear feedbacks de "ciclo vicioso" rápidos, não lineares e até auto-reforçados em sistemas planetários críticos, como os mantos de gelo da Antártida e da Gronelândia , as correntes oceânicas (incluindo a circulação meridional de capotamento do Atlântico ou AMOC) e a Floresta Amazónica.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Oceanos absorveram 90% do aquecimento global e registam mudanças irreversíveis


Os oceanos absorveram mais de 90% do calor excessivo retido pelos gases com efeito de estufa desde 1971 e estão já a passar por “mudanças que serão irreversíveis nos próximos séculos”, alertou hoje a Organização Meteorológica Mundial (OMM).

Esta é uma das conclusões do relatório da OMM sobre o estado do clima no sudoeste do Pacífico no ano de 2023, apresentado no Tonga pela secretária da organização, Celeste Saulo, e pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, que se encontra de visita ao país durante a realização do 53.ª cimeira do Fórum de Líderes das Ilhas do Pacífico.

As ilhas paradisíacas do Pacífico estão em perigo devido ao “transbordamento” do oceano, disse Guterres, à medida que a subida média dos mares em todo o mundo ocorre a uma velocidade sem precedentes. Mas o problema “está a chegar a todos nós, juntamente com a devastação da pesca, do turismo e da economia azul”, disse o líder das Nações Unidas.

O secretário-geral da ONU alertou ainda para a ameaça real de um degelo da Gronelândia e da Antártida ocidental, que colocaria em perigo aglomerações como Los Angeles, Lagos e as megacidades asiáticas de Xangai, Mumbai e Dhaka.

Guterres referiu-se assim ao impacto da crise climática na subida do nível do mar durante um discurso no arquipélago oceânico de Tonga, no âmbito da cimeira de líderes das ilhas do Pacífico, que estão entre as mais ameaçadas pelas alterações climáticas.

Tendo feito da crise climática uma das bandeiras do seu mandato, o secretário-geral da ONU deu como certo que haverá um aumento de um metro no nível do mar, mas insistiu que depende da ação humana “a escala, o ritmo e impacto” desse aumento.

O relatório da OMM indica que o degelo na Gronelândia e nos pólos, somado à alta absorção do aquecimento global pelos oceanos, está a acrescentar água às grandes massas do planeta, que por sua vez aumentam a sua temperatura e se expandem, levando ao aumento dos seus níveis.

“Prevê-se que os 2.000 metros superiores do oceano continuem a aquecer devido ao calor excessivo acumulado no sistema terrestre pelo aquecimento global, uma mudança que é irreversível em escalas temporais de séculos e milénios”, avança o relatório.

As ilhas do Pacífico estão na “linha da frente” da crise climática devido à sua elevada exposição aos efeitos das emissões de gases – para os quais praticamente não contribuem -, incluindo ciclones tropicais e inundações, e fenómenos como uma erupção vulcânica que gerou um tsunami e uma forte produção de vapor em 2022.

 “As atividades humanas enfraqueceram a capacidade do oceano de nos sustentar e proteger e – através da elevação do nível do mar – estão a transformar um amigo de longa data numa ameaça crescente”, lamentou a OMM.

“Já estamos a ver mais inundações costeiras, recuo da linha costeira, contaminação de reservas de água doce por água salgada e deslocação de comunidades”, acrescentou.

Entre 1993 e 2023, a mediana do aumento global do nível do mar foi de 9,4 centímetros (cm), mas no Pacífico tropical foi superior a 15 centímetros em alguns pontos. Num cenário de aquecimento de três graus Celsius (em linha com a atual trajetória), o nível do mar na região poderá subir mais 15 cm entre 2020 e 2050.

Entre as consequências do aquecimento global, que as organizações instaram a travar imediatamente, não está apenas o aumento do nível do mar: também a maior intensidade e frequência das ondas de calor marinhas, mais calor na superfície e no conteúdo do oceano, e mais acidificação. Cada fenómeno com as suas próprias ramificações.

“Há preocupações crescentes de que algumas ilhas-nação possam tornar-se inabitáveis”, alerta o documento, “com implicações para a sua realocação, soberania e estatuto de Estado”.

“São necessários AGORA cortes profundos, rápidos e sustentados nas emissões globais de gases com efeito de estufa para permanecermos numa trajetória de aquecimento a longo prazo de 1,5 graus”, insta o relatório, que considera necessário melhorar a adaptação costeira e investir na resiliência em todo o mundo, especialmente nas pequenas ilhas.

sábado, 22 de junho de 2024

Cientistas descobrem população de ursos polares que sobrevive com pouco gelo


Um grupo de cientistas da Universidade de Washington descobriu uma subpopulação de ursos-polares (Ursus maritimus) que vive com pouco gelo marinho no sudeste da Gronelândia. Com as alterações climáticas e cada vez menos gelo no Ártico, a sobrevivência das populações de ursos polares tem sido um tema cada vez mais preocupante. A equipa decidiu estudar esta população isolada, de forma a compreender como é que se adapta a este ambiente – o que pode trazer novas respostas para o futuro da espécie nesta região, que é cada vez mais afetada pelo aquecimento global.

Foram recolhidos dados que compreendem um período de sete anos, tendo os mesmos sido cruzados com dados históricos dos últimos 30 anos. Sabe-se, agora, que têm uma grande diferença genética das outras populações de ursos polares.“São a população de ursos polares mais geneticamente isolada do planeta. Sabemos que esta população vive separada de outras populações de ursos polares há pelo menos várias centenas de anos e que o tamanho da sua população ao longo do tempo permaneceu pequeno”, explica a investigadora Beth Shapiro, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz.

Uma das características que os distingue é serem “caseiros” e manterem-se sempre no mesmo local. Mesmo quando se deslocam para caçar, estes ursos regressam a casa. Para caçar as focas, eles recorrem aos blocos de gelo que se desprendem do manto de gelo e flutuam pela água doce, saltando depois na hora de regressar. Outra diferença está no seu tamanho: comparativamente a outras populações, as fêmeas adultas são menores e têm menos crias.

“Se estiver preocupado em preservar a espécie, então sim, as nossas descobertas são esperançosas – acho que nos mostram como alguns ursos polares podem persistir sob as alterações climáticas”, refere a autora principal do estudo, Kristin Laidre. “Mas não acho que o habitat das geleiras vá sustentar um grande número de ursos polares. Simplesmente não existe o suficiente. Continuamos a esperar grandes declínios de ursos polares no Ártico”.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Parlamento Europeu - Primeiro organismo internacional a criminalizar casos “comparáveis ao ecocídio”


Os países terão dois anos para transpor a directiva actualizada, que abrange crimes “comparáveis ​​ao ecocídio”, para a legislação nacional.

A União Europeia tornou-se o primeiro organismo internacional a criminalizar os casos mais graves de danos ambientais que sejam “comparáveis ​​ao ecocídio”.

A destruição dos ecossistemas, incluindo a perda de habitat e a exploração madeireira ilegal, será punida com penas mais duras e penas de prisão ao abrigo da directiva actualizada da UE sobre crimes ambientais.

Numa votação no Parlamento Europeu na terça-feira, os legisladores da UE apoiaram esmagadoramente a medida com 499 votos a favor, 100 contra e 23 abstenções.

Os Estados-Membros têm agora dois anos para consagrá-lo na legislação nacional.

Aqui está o que você precisa saber sobre a lei atualizada, que os especialistas chamam de revolucionária.

Crime ambiental: uma nova página na história da Europa
De acordo com Marie Toussaint, advogada francesa e eurodeputada do grupo Verdes/Aliança Livre Europeia, a UE está “adoptando uma das legislações mais ambiciosas do mundo”.

“A nova directiva abre uma nova página na história da Europa, protegendo contra aqueles que prejudicam os ecossistemas e, através deles, a saúde humana. Significa pôr fim à impunidade ambiental na Europa, o que é crucial e urgente”, afirma.

De acordo com Toussaint, as actuais legislações da UE e nacionais não dissuadem os infractores de cometer crimes ambientais , porque as infracções são demasiado limitadas e as sanções muito baixas.

“Os crimes ambientais estão a crescer duas a três vezes mais rapidamente do que a economia global e tornaram-se, em poucos anos, o quarto maior sector criminoso do mundo”, diz ela.

Os crimes ambientais ainda ocorrem na Europa. No seu relatório sobre a luta contra a criminalidade ambiental na Europa, o Gabinete Europeu do Ambiente cita numerosos exemplos de crimes ambientais que continuavam impunes porque não estavam incluídos na antiga directiva.

Estes incluem a pesca ilegal de atum rabilho , a poluição agroindustrial em áreas protegidas, bem como práticas ilegais de caça e fraude no mercado de carbono.

Crimes ambientais comparáveis ​​ao 'ecocídio'
Os proponentes de tornar o ecocídio o quinto crime internacional no Tribunal Penal Internacional argumentam que a directiva actualizada criminaliza efectivamente o ecocídio . Embora a directiva não inclua a palavra directamente, no seu preâmbulo refere-se a “casos comparáveis ​​ao ecocídio”.

O ecocídio é definido como “atos ilegais ou arbitrários cometidos com o conhecimento de que existe uma probabilidade substancial de danos graves, generalizados ou de longo prazo ao meio ambiente serem causados ​​por esses atos”.

Foi formulado em 2021 por 12 advogados de todo o mundo e apresentado pela Stop Ecocide International.

No ano passado, o Parlamento propôs incluir o ecocídio na legislação da UE.

Penas de 10 anos de prisão por prática de crimes ambientais
A captação de água , a reciclagem e a poluição de navios , a introdução e propagação de espécies exóticas invasoras e a destruição do ozono são todas identificadas como actividades ambientais na nova directiva.

Contudo , não menciona a pesca, a exportação de resíduos tóxicos para países em desenvolvimento ou a fraude no mercado do carbono .

Para indivíduos – como CEOs e membros de conselhos de administração – as consequências da prática de crimes ambientais podem ser penas de prisão até oito anos, aumentando para 10 se causarem a morte de qualquer pessoa.

O advogado Antonius Manders, eurodeputado holandês do Grupo do Partido Popular Europeu (Democratas-Cristãos), descreveu as mudanças como muito esperançosas.

“Os CEOs podem arriscar uma multa, mas não querem se envolver pessoalmente. Eles nunca querem ir para a cadeia”, diz ele.

Os indivíduos podem ser responsabilizados se estiverem conscientes das consequências das suas decisões e se tiverem o poder de as impedir, explica Manders.

“Por exemplo, a defesa de uma licença não é mais possível, pois as pessoas têm o dever de cuidar. Se novas informações mostrarem que o comportamento está causando danos irreversíveis à saúde e à natureza – você terá que parar.”

Michael Faure, professor de direito ambiental comparado e internacional na Universidade de Maastricht concorda.

“Quando implementado pelos Estados-membros, os operadores devem estar cientes de que o simples cumprimento de uma licença já não os isenta de responsabilidade criminal. E isso não é menos que uma revolução”, diz ele.

Ao abrigo da anterior directiva da UE sobre crimes ambientais e da maioria das leis dos Estados-Membros, o crime ambiental só pode ser punido quando existe ilegalidade, mas desde que uma empresa cumpra as condições de uma licença, as suas acções não serão consideradas ilegais.

“Como resultado, poderá haver casos graves de poluição ambiental, mesmo com danos concretos à saúde humana como consequência. Mas, desde que um operador cumprisse as condições de uma licença, não haveria ilegalidade”, afirma Faure.

Um exemplo, explica Manders, é que a indústria química nos Países Baixos recebeu em 1982 uma licença para poluir a água com PFAS , antes de estes produtos químicos serem identificados como prejudiciais à saúde humana.

“Mas hoje sabemos que os produtos químicos causam câncer e até a morte. Portanto, num processo judicial como o da empresa química Chemours , embora a empresa tenha licença, quando a nova directiva entrar em vigor, tem de parar, uma vez que está provado que o PFAS prejudica as pessoas”, acrescenta Manders.

Será que a directiva ambiental actualizada vai suficientemente longe?
Os Estados-Membros terão dois anos para implementar a directiva revista na legislação nacional.

Entre outras coisas, terão a flexibilidade de escolher entre introduzir multas para as empresas com base numa proporção do seu volume de negócios - até cinco por cento, dependendo do crime, ou multas fixas até 40 milhões de euros.

“Gostaríamos de ter ido muito mais longe”, diz Toussaint.

Caberá também aos Estados-Membros se os crimes cometidos fora das fronteiras da UE em nome de empresas da UE forem abrangidos pela nova directiva, uma vez que isto ainda não foi acordado pela UE.

Embora seja de facto “revolucionário”, Manders defende a existência também de um procurador público a nível da UE.

“Esse é o futuro. No entanto, dependerá da avaliação do mandato da Procuradoria Europeia – e se no futuro a UE poderá lidar com tais casos”, afirma.

Toussaint concorda e afirma que é crucial manter-se atento às negociações em curso no Conselho da Europa, onde a Convenção sobre a Protecção do Ambiente através do Direito Penal - equivalente à directiva da UE, mas a nível do Conselho da Europa - está actualmente a ser revisado.

“Esta convenção, originalmente adoptada em 1998, nunca foi ratificada e, portanto, nunca entrou oficialmente em vigor. A actual revisão da directiva europeia poderá assim ter uma grande influência nas negociações em curso e um impacto fora do território da UE”, afirma.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

Gronelândia perdeu mais de 5 mil quilómetros quadrados de gelo desde 1985


O manto de gelo da Gronelândia, o segundo maior do mundo, perdeu cerca de 5.091 quilómetros quadrados de gelo desde 1985, de acordo com um estudo publicado na revista Nature.

Embora esta quantidade tenha tido um impacto relativamente pequeno na subida do nível do mar, a perda de gelo pode ter implicações na circulação oceânica e, consequentemente, na distribuição da energia térmica global.

Os lençóis de gelo em todo o mundo sofreram um recuo nas últimas décadas, com o lençol de gelo da Gronelândia, em particular, a registar um período de perda de massa acelerada desde a década de 1990.

Os modelos climáticos preveem, com um elevado nível de certeza, que esta perda de gelo na Gronelândia irá continuar, mas a investigação sobre a forma como o manto de gelo recuou anteriormente poderá oferecer uma ideia do seu comportamento futuro.

Chad Greene e os seus colegas utilizaram imagens de satélite para estabelecer 236.328 posições de terminais glaciares de 1985 a 2022.

A partir daí, os autores quantificaram a extensão do parto – o processo de rutura do gelo na extremidade de um glaciar – e as alterações nos bordos do manto de gelo e, consequentemente, a área total de gelo perdida.

Os autores descobriram que o manto de gelo da Gronelândia tinha perdido cerca de 5.091 quilómetros quadrados de gelo nas últimas quatro décadas. Esta área equivale a cerca de 1.034 gigatoneladas (1.034 triliões de quilogramas) de gelo. Mais especificamente, a camada de gelo diminuiu em média 218 quilómetros quadrados por ano desde janeiro de 2000, segundo a análise.

Os autores observam ainda que este recuo não parece contribuir substancialmente para a subida do nível do mar, mas pode desempenhar um papel nos padrões de circulação oceânica e na forma como a energia térmica é distribuída pelo planeta.

Greene e os seus coautores descobriram também que alguns dos glaciares do manto de gelo da Gronelândia que registaram a maior diferença entre o crescimento no inverno e o recuo no verão num único ano (incluindo o Jakobshavn Isbræ e o Zachariæ Isstrøm) foram também os glaciares que mais recuaram entre 1985 e 2022. Isto indica que a variabilidade sazonal dos glaciares pode ser um fator de previsão do recuo a longo prazo.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

O "gelo zombie" da Gronelândia está imparável. E a subida do nível do mar pode ser mais do dobro do estimado

As notícias sobre os efeitos das alterações climáticas são cada vez mais pessimistas e esta segunda-feira foi divulgado um estudo que traça um retrato ainda mais apocalítico. O derretimento de "gelo zombie" dos icebergues da Gronelândia vai provocar uma subida de pelo menos 27 centímetros do nível da água do mar, mesmo que os restantes fatores da atual crise climática, como o uso de combustíveis fósseis, cessem de imediato

O relatório salienta que, apesar de inevitável, este fenómeno poderá ainda ser exacerbado pelas continuadas emissões carbónicas, o derretimento de outras camadas de gelo e o aquecimento oceânico. As consequências serão globais, e particularmente nefastas para os biliões de habitantes em zonas e países costeiros - incluindo Portugal.

Os resultados do estudo ultrapassam as últimas previsões do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas da ONU, que no ano passado estimava uma subida do nível das águas entre os 6 e os 13 centímetros até ao ano 2100. Os 27 centímetros agora calculados, mais do que o dobro do pior cenário, correspondem a 3,3% de todo o volume de gelo da Gronelândia - ou seja, a 120 triliões de toneladas de gelo.

O "gelo zombie" - e a Gronelândia que "morre à fome"

Mas, afinal, o que é gelo "zombie"? Tal como o nome faz adivinhar, trata-se de "gelo morto" que continua anexado a camadas de gelo mais espessas, apesar de já não se alimentar delas. Estes glaciares, por sua vez, recebem menos neve para se reabastecer - e as alterações climáticas ocupam-se do resto, condenando o gelo "zombie" ao desaparecimento.

"É gelo morto. Vai simplesmente derreter e desaparecer da camada de gelo", explica William Colgan, glaciologista e coautor do estudo, citado pela agência noticiosa Associated Press e The Guardian. "Este gelo já foi consignado ao oceano, independentemente do cenário climático que adotemos agora."

Com os grandes glaciares a receber cada vez menos gelo e o "gelo zombie" a desaparecer a um ritmo cada vez mais acelerado, o saldo final é claramente desequilibrado. "Penso que morrer à fome seria uma boa frase" para a situação dos níveis de gelo na Gronelândia, acrescenta Colgan.

O glaciologista Richard Alley, apesar de não ter participado no estudo, explica o fenómeno com uma analogia simples: a perda de massa de gelo, quando exposta a temperaturas crescentemente elevadas, é como "um cubo de gelo colocado numa chávena quente de chá".

Os investigadores mostram-se incertos quanto ao período de tempo necessário ao derretimento total do "gelo zombie", mas indicam o final do século como a hipótese mais provável - ou, num cenário mais otimista, até 2150. Mas alertam: não podemos depositar todas as esperanças em cenários otimistas. Os derretimentos glaciares ocorridos em 2012 e 2019 pareceram invulgares de tão dramáticos, mas até os anos que interpretamos como "normais" seriam considerados "extremos" há apenas 50 anos.

"É assim que as alterações climáticas funcionam", conclui William Colgan. "O que ontem era a exceção, hoje torna-se a norma."

terça-feira, 6 de julho de 2021

A Bordo do Titanic 2.0



por Viriato Soromenho Marques
«No dia 14 de abril de 1912, antes da colisão com o icebergue que o afundaria, o Titanic recebeu seis avisos via rádio de diferentes embarcações acerca de perigosos blocos de gelo flutuante dispersos na sua rota. Aparentemente, o seu comandante, Edward Smith, estava convencido de que nenhuma força natural poderia opor-se ao mais rápido e poderoso navio do mundo. O Titanic nem sequer abrandou a sua velocidade excessiva (22 nós, ou 41 km/h), o que foi crucial no fracasso da manobra de desvio que poderia ter evitado a colisão fatal.

A síndrome da indiferença - um misto de cegueira e surdez - a todos os avisos de perigo é hoje uma característica transversal à plutocracia que manda nos governos e nos mercados por esse mundo fora. Um exemplo desse comportamento indesculpável é a sua total indiferença perante o que está a ocorrer nos últimos meses nas latitudes extremas da criosfera (os 10% da área da superfície terrestre ocupadas por gelo permanente).

No dia 19 de junho, foram atingidas nalgumas zonas do Círculo Polar Ártico temperaturas de 45º C (o que seria imenso até para a nossa Amareleja!). Na povoação russa de Verkhoiansk (67º 33" N), que costumava ter uma média em janeiro de -50º C, o termómetro subiu agora aos 38º C (a mesma temperatura em Las Vegas). Na cidade mais setentrional do mundo, Norilsk (69º 21" N), a imensa mina de níquel rasgada pelos escravos do Gulag de Estaline, o permafrost (solo e rocha que estiveram permanentemente gelados durante centenas de milhares de anos e que correspondem a 60% do território da Rússia) entrou em colapso, provocando a rutura de um depósito onde se encontravam 20 mil toneladas de diesel, que agora contaminam a bacia hidrográfica do rio Pyasino.

No extremo oposto, no Polo Sul, a estação científica norte-americana aí localizada registou nos últimos 30 anos um aumento da temperatura média de 0,6º C por década, o triplo da média mundial (0,2º C).

Já há muito que se considerava a criosfera como um dos sistemas naturais mais ameaçados pelas alterações climáticas antropogénicas. Contudo, os modelos têm subestimado a velocidade do seu colapso (principalmente no Ártico, na Gronelândia e na Antártida), bem como do permafrost.
Tudo indica que esse processo já começou, e com isso as alterações climáticas e seus impactos serão intensificados por quatro razões: a) o desaparecimento do efeito de albedo no Ártico vai aumentar o calor absorvido pelo oceano; b) o derretimento do permafrost vai iniciar a libertação de cerca de 1, 5 biliões de toneladas de carbono orgânico (mais do dobro do carbono existente hoje na atmosfera...); c) os megaincêndios boreais transformarão as florestas de sumidores em fontes de carbono; d) finalmente, a subida do nível médio do mar irá causar a rutura de muitas regiões costeiras, ainda neste século. Não me comove o destino dos poderosos que aceleram o Titanic global rumo à catástrofe, mas não me saem da cabeça os versos de Augusto Gil: "Mas as crianças, Senhor/ Porque lhes dais tanta dor?"»
Diário de Notícias, 4/07/2020

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Documentário da Semana: Migradores de longa Distância - Entre Portugal e o Ártico - RTP




No dia 6 de dezembro a RTP exibiu o que à primeira vista poderia parecer mais um documentário sobre a vida selvagem com propósitos educativos. Mas Migradores de Longa Distância: entre o Tejo e o Ártico não é só o resultado filmado duma década e meia de investigação sobre a odisseia dos maçaricos-de-bico-direito entre o estuário do Tejo e a região sub-ártica da Islândia. É uma interpelação sobre a estupidez humana.

Estas aves que abundam nos estuários, lagoas, e zonas costeiras de Portugal desaparecem entre abril e setembro, pois migram para o Ártico para se reproduzirem. Escandinávia, Rússia, Canadá, Gronelândia e Islândia enchem-se literalmente de vida quando aves limícolas ocupam estas paragens para fazerem os seus ninhos, colocarem os ovos e produzirem a nova geração de pilritos, borrelhos e maçaricos que irão novamente ocupar as zonas húmidas portuguesas, antes do Ártico voltar a ficar preso em gelo e neve até à próxima primavera.

É este ciclo anual que José Alves segue cada ano, tentando desvendar os mistérios destes fenómenos migratórios e as respostas que estas espécies são capazes de desenvolver perante as drásticas alterações dos seus habitats naturais.

As aves limícolas estão na linha da frente das alterações ambientais, uma vez que o aquecimento global é mais acentuado nas zonas polares, para onde migram na primavera, e a perda de habitat nas zonas costeiras que habitam no outono/inverno é muito acelerado em todo o planeta. São por isso um modelo de excelência para se perceber qual a capacidade da biodiversidade em se adaptar às alterações globais.

Em Portugal, o estuário do Tejo, a maior e mais importante zona húmida para este grupo de aves, é o ponto de partida do documentário "Migradores de longa distância: entre o Tejo e o Ártico", com imagens nunca antes emitidas em televisão. Bandos de 40 a 50 mil aves, capturas noturnas e marcação individual destas aves foram registadas nos dois anos de rodagem deste trabalho, que acompanhou também as aves (e os investigadores) até à Islândia, capturando o nascimento das crias, e as ameaças que estas enfrentam e que os investigadores portugueses, islandeses e ingleses tentam desvendar. De regresso ao estuário do Tejo, as ameaças locais, nomeadamente a intenção de operar um aeroporto comercial na península Montijo, coração geográfico desta zona húmida é também abordada.

Este documentário internacional, gravado entre 2018 e 2020, apresenta as aves migradoras como nunca vistas: um espetáculo natural partilhado pelos vários países que têm o privilégio de as receber e a que a todos compete preservar!

Joaquim Pedro Ferreira, investigador e Divulgador de Ciência, captou as imagens do documentário, no qual partilha a autoria com José Alves, a revisão científica com Amadeu Soares e a realização com Pedro Miguel Ferreira, da Produtora PlaySolutions Audiovisuais.