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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Investigador quer reescrever a árvore evolutiva dos antepassados humanos

Hominídeo do género Paranthropus

As recentes descobertas sobre a evolução humana podem obrigar a repensar a forma como classificamos e designamos os nossos antepassados, segundo uma investigação da Universidade de Monash, na Austrália. O estudo, publicado na American Journal of Biological Anthropology, propõe que todas as espécies humanas e os seus parentes fósseis mais próximos que viveram nos últimos quatro a cinco milhões de anos sejam incluídos no género Homo.

A evolução humana é frequentemente apresentada como uma sucessão relativamente linear de espécies, desde antepassados com características semelhantes às dos símios até aos primeiros representantes do género Homo e, finalmente, ao Homo sapiens. No entanto, o registo fóssil revela uma história bastante mais complexa, com novas descobertas a pôr em causa características que durante décadas foram utilizadas para distinguir diferentes grupos.

Ian Towle, investigador do Monash Biomedicine Discovery Institute e autor principal do estudo, considera que os avanços recentes tornam este um momento adequado para rever a taxonomia tradicional. “As recentes descobertas de fósseis e os avanços na análise evolutiva e genética fazem deste um momento ideal para reconsiderar se a nossa taxonomia tradicional ainda representa de forma rigorosa a evolução humana”, afirma.

Segundo o investigador, as classificações atuais dos géneros Homo, Australopithecus e Paranthropus podem já não refletir adequadamente as relações evolutivas entre estes grupos, todos presentes no registo fóssil dos últimos cinco milhões de anos.

“Estes grupos não representam necessariamente ramos evolutivos distintos, ou ‘clados’, e as diferenças de comportamento e ecologia que eram anteriormente utilizadas para os distinguir são também cada vez mais difíceis de sustentar”, explica Towle.

Uma árvore evolutiva mais complexa
Nos últimos 50 anos, o conhecimento sobre a evolução transformou a forma como os cientistas classificam os organismos. A taxonomia moderna procura cada vez mais refletir as relações evolutivas reais, agrupando espécies com base na sua ascendência comum. Contudo, segundo o investigador, essa abordagem tem avançado mais lentamente quando se trata da nossa própria história evolutiva.

O género Homo foi tradicionalmente associado a características como cérebros maiores, utilização sofisticada de ferramentas e determinados traços anatómicos e comportamentais. Contudo, o registo fóssil revelou entretanto representantes do género com cérebros muito pequenos, enquanto existem indícios de comportamentos complexos em espécies classificadas nos géneros Paranthropus e Australopithecus.

É neste contexto que Towle propõe alargar o género Homo de forma a incluir também estes grupos. A alteração, defende, permitiria representar de forma mais coerente as relações evolutivas entre os diferentes antepassados humanos e reduzir a necessidade de alterar repetidamente a classificação à medida que surgem novos fósseis e novas informações.

“Quanto mais aprendemos sobre os nossos antepassados e parentes fósseis próximos, mais percebemos como a nossa árvore genealógica é complexa e não linear”, afirma o investigador.

“Expandir o género Homo de modo a incluir também espécies de Australopithecus e Paranthropus permitir-nos-á ter em conta as diferenças sem reclassificar regularmente determinados grupos”, conclui.

sábado, 8 de agosto de 2026

No mundo dos pássaros, as fêmeas têm vidas mais curtas do que os machos. Mas não se sabe bem porquê



A conclusão é de uma investigação que analisou dados sobre a longevidade de 92 espécies de aves das ordens dos Passeriformes e dos Piciformes (que inclui os pica-paus), recolhidos entre 1992 e 2018 nos Estados Unidos da América e no Canadá.
Ao contrário do que, regra geral, acontece nos mamíferos, em que as fêmeas tendem a viver mais do que os machos, no mundo dos pássaros elas têm vidas mais curtas do que eles.

A conclusão é de uma investigação que analisou dados sobre a longevidade de 92 espécies de aves das ordens dos Passeriformes e dos Piciformes (que inclui os pica-paus), recolhidos entre 1992 e 2018 nos Estados Unidos da América e no Canadá.

Num artigo publicado na revista ‘Proceedings of the Royal Society B’, os cientistas dizem ter percebido que, em média, as fêmeas de 35 espécies apresentam, depois de atingirem a idade adulta, uma taxa de sobrevivência 12,4% inferior à dos machos da mesma espécie.

“O que me pareceu interessante foi o facto de este padrão ser consistente em muitos tipos diferentes de aves, de papa-moscas e toutinegras a cardeais e tanagrídeos”, diz Joanna Wu, da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e primeira autora do estudo.

A sobrevivência na vida adulta é fortemente influenciada por fatores como gastos de energia e outros custos biológicos associados à reprodução, ao movimento e à competição por recursos. As migrações exigem muito em termos energéticos e expõem as aves a predadores e ao risco de ferimentos. Quando não estão em viagem, as aves têm de defender o seu território e os seus recursos.

Para as fêmeas, os custos acrescidos associados à produção e postura de ovos são mais um fator de pressão, ainda que o cuidado das crias possa, dependendo das espécies, ser partilhado pelos dois progenitores.

Ao olharem para as várias décadas de dados em mãos, os investigadores perceberam que os machos têm taxas de sobrevivência mais elevadas tanto em espécies migradoras como não migradoras, embora sejam maiores em migradores de longas distâncias. Além disso, percebeu-se que nas espécies com asas mais pontiagudas os machos também tendem a viver mais que as fêmeas, algo que também se constatou em machos com níveis mais altos de gordura corporal.

A equipa reconhece que, além desses aspetos, não conseguiram, para já, encontrar uma explicação clara para as diferenças entre machos e fêmeas no que toca à longevidade. Ainda assim, há algumas hipóteses em cima da mesa, e uma delas tem a ver com a genética.

A hipótese cromossómica
Nos mamíferos, as fêmeas têm duas cópias do mesmo cromossoma sexual - XX - e os machos têm dois cromossomas sexuais diferentes - XY. Como explicam os investigadores, isso significa que se um dos cromossomas tiver algum gene defeituoso, as fêmeas têm um “substituto”, mas os machos não.

Nos machos humanos (ou seja, nos homens), problemas nos cromossomas sexuais e falta de um “plano B” estão associados a uma maior suscetibilidade, por exemplo, a doenças cardíacas e cancro à medida que o avanço da idade faz degenerar o cromossoma Y.

Por isso, há cientistas que consideram haver uma relação entre a longevidade e o par de cromossomas sexuais. Contudo, nas aves esses cromossomas estão invertidos: as fêmeas têm XY e os machos XX.

“Nas aves, ao contrário dos mamíferos, são as fêmeas que transportam dois cromossomas diferentes, enquanto os machos carregam dois do mesmo”, diz Wu. “Isto pode ser mais uma prova que associa o cromossoma sexual a uma menor longevidade nas aves fêmeas, mas essa é uma questão que ainda não investigámos diretamente”, acrescenta.

A investigadora diz que investigações futuras devem também tentar perceber se existe alguma relação entre a reduzida longevidade das aves fêmeas e o declínio acentuado de várias populações de aves que está a ocorrer pelo mundo fora.

“Se as fêmeas se tiverem já reproduzido com sucesso antes de morrerem, o facto de as suas vidas serem mais curtas não faz grande diferença. Mas não sabemos ainda se é esse o caso ou não”, explica.

“Sabemos que a perda de habitat e as alterações climáticas são os principais culpados, mas queremos perceber se esses fatores podem estar a tornar a sobrevivência ainda mais difícil para as fêmeas do que para os machos, num mundo que os humanos estão a transformar rapidamente.”

Foto: Tartaranhão-caçador (Circus pygargus)

sábado, 25 de julho de 2026

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


terça-feira, 21 de julho de 2026

Do ADN às 2.100 Línguas: o que a genética e o Ethnologue revelam sobre África


Se a África decidisse desenhar as suas fronteiras com base nas identidades reais do seu povo - como a Europa fez ao longo de séculos -, o resultado seria um mapa com milhares de países. Só a África sozinha teria mais Estados soberanos do que todos os países do mundo atual juntos. [mapa interactivo: aqui]

E isto não é um exagero poético. Trata-se de uma realidade confirmada tanto pelos linguistas como pelos geneticistas.

Enquanto a base de dados do Ethnologue regista mais de 2.100 línguas vivas no continente, a genética da população humana diz-nos algo ainda mais fascinante: a África alberga a maior diversidade de ADN de todo o planeta. Como o Homo sapiens surgiu lá e ali permaneceu durante centenas de milhares de anos antes de pequenos grupos migrarem para o resto do mundo, a variação genética acumulada entre duas comunidades africanas vizinhas pode ser muito maior do que a diferença entre um europeu e um asiático.

Quando cruzamos a história das línguas com a história do ADN, este mosaico humano organiza-se em cinco grandes grupos:

1. Níger-Congo
É o maior gigante demográfico e linguístico do continente, reunindo cerca de 1.650 grupos. Inclui as grandes populações da África Ocidental — como os Yorubá, Igbo, Akan e Fulas — e toda a família de povos Bantu (como os Zulus, Xhosas e Kikuyus). O seu ADN reflete a maior expansão agrícola e demográfica da história africana, que se espalhou do oeste para todo o centro e sul do continente ao longo dos últimos três milénios.

2. Afro-Asiática
Ocupando o Sahara, o Norte de África e o Chifre da África, este grupo (que junta Bérberes, Hausas, Amharas e Somalis) soma entre 200 e 300 etnias. Os seus genes e idiomas contam a história de pontes milenares e trocas constantes entre o continente africano e o Médio Oriente.

3. Nilo-Saariana
Distribuídos ao longo do Vale do Nilo e da faixa do Sahel, povos como os Dinka, Maasai e Nuer mantêm linhagens genéticas profundamente antigas. São populações históricas de pastores e guerreiros adaptados aos ecossistemas de savana, com características físicas e linguísticas muito próprias.

4. Khoisan
Os povos San (os chamados Bosquímanos) e Nama do sul da África representam um dos capítulos mais antigos do ser humano. Famosos pelas suas línguas compostas por sons de "cliques", o seu ADN revela um ramo que se separou do tronco principal da humanidade há mais de 100.000 anos. São, literalmente, uma janela viva para a história genética mais remota da nossa espécie.

5. Austronésia
Localizado exclusivamente na ilha de Madagáscar, o povo Malgaxe é um caso fascinante. Embora a ilha faça parte da geografia africana, a sua população nasceu de uma fusão extraordinária: navegadores vindos do Sudeste Asiático há 1.500 anos cruzaram-se com as populações Bantu vindas do continente.

No fundo, os mapas políticos que estudamos na escola apenas cobrem a superfície. Por trás de linhas desenhadas à régua em conferências coloniais no século XIX, a África continua a ser o maior reservatório de diversidade biológica e cultural que a humanidade tem para oferecer.

Fonte

Os rostos por trás do mapeamento humano e linguístico de África
A compreensão do mosaico humano africano resultou do trabalho complementar de antropólogos, linguistas e geneticistas de renome ao longo do último século. No campo da antropologia e da cartografia étnica, um dos primeiros grandes marcos foi estabelecido pelo antropólogo norte-americano George Murdock que, na sua obra de 1959, Africa: Its Peoples and Their Culture History, delineou e catalogou territorialmente mais de 800 regiões étnicas no continente. Esta base histórica de Murdock abriu caminho para iniciativas de catalogação sistemática como o compêndio Ethnologue, impulsionado inicialmente por Richard S. Pittman na década de 1950 e posteriormente expandido por Barbara Grimes, transformando-se na maior referência científica mundial para a identificação e classificação de mais de 2.100 línguas vivas africanas.

Paralelamente ao desenvolvimento das bases de dados, a organização estrutural deste vasto universo de idiomas deve-se ao trabalho do linguista Joseph Greenberg. A sua obra seminal de 1966, The Languages of Africa, revolucionou a linguística ao classificar a totalidade dos idiomas do continente nas quatro grandes macrofamílias tradicionais: Níger-Congo, Afro-Asiática, Nilo-Saariana e Khoisan. A rigorosa taxonomia desenvolvida por Greenberg permitiu aos cientistas rastrear não apenas a evolução dos idiomas, mas também os padrões de expansão e migração dos povos ao longo dos milénios.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Cerca de 290 lobos em Portugal e quase 400 prejuízos comunicados este ano

Quase 400 comunicações de prejuízos atribuídos ao lobo-ibérico já chegaram este ano ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. O número foi avançado ontem, na Assembleia da República, durante uma audição sobre a proteção da espécie e os impactos na pecuária, e aproxima-se das 511 comunicações registadas em todo o ano anterior.
A audição, requerida pelo PAN e pelo Chega, decorreu na Comissão de Agricultura e Pescas e teve como pano de fundo o Programa Alcateia 2025-2035, aprovado pelo Ministério do Ambiente e Energia. Em debate estiveram as medidas de conservação do lobo-ibérico, mas também a resposta aos produtores pecuários afetados por ataques ao gado.
O ICNF associou o aumento das comunicações à atualização dos valores das compensações, admitindo que muitos produtores que anteriormente já não participavam os prejuízos poderão ter voltado a fazê-lo. O instituto defendeu ainda que o Programa Alcateia foi construído com entidades envolvidas no processo e que foram realizadas ações de comunicação para o fazer chegar aos interessados.
Mas os números abriram uma discussão mais larga sobre a eficácia das respostas no terreno. A Rewilding Portugal defendeu a criação de uma linha telefónica dedicada no ICNF para criadores sem meios digitais, a possibilidade de participação presencial nas juntas de freguesia, GNR ou serviços municipais, melhor articulação entre plataformas como IFAP e SENIRA e vistorias no próprio dia da comunicação. A entidade lembrou ainda que os valores das compensações foram atualizados em 2025 pela primeira vez desde 2017, após oito anos sem revisão.
A dimensão da população de lobo-ibérico em Portugal também entrou na discussão. A Palombar indicou que a espécie tem uma população pequena, fragmentada e em regressão, com uma redução de cerca de 20% da área de presença nas últimas duas décadas. O efetivo nacional foi estimado entre 190 e 390 animais, com uma média aproximada de 290 lobos.
A mesma associação defendeu que a coexistência passa por equipas de proximidade nas zonas onde surgem conflitos, apoio técnico às explorações, valorização da pastorícia, cães de proteção de gado e melhor prevenção. Segundo a Palombar, quando bem aplicadas, as medidas preventivas podem reduzir em 95% o número de ataques.
O BIOPOLIS/CIBIO alertou para a necessidade de análises forenses e genéticas que permitam identificar a origem dos ataques ao gado. A investigadora Raquel Godinho sublinhou a presença de cães errantes no território e o risco de hibridação entre cão e lobo, defendendo monitorização sistemática para distinguir ataques de lobos, cães ou híbridos.
O Grupo Lobo apontou o furtivismo como um dos principais problemas para a conservação da espécie e defendeu equipas de intervenção rápida, cães de proteção de gado, dispositivos de prevenção, melhoria do habitat e promoção de presas silvestres, como o corço. A associação admitiu o pagamento de prejuízos em caso de dúvida, mas rejeitou subsídios de risco generalizados, defendendo antes a valorização dos produtores que aplicam medidas de prevenção.
Da audição saiu um conjunto de prioridades: compensações mais rápidas, menos burocracia, equipas no terreno, controlo de cães errantes, combate ao furtivismo, melhor monitorização científica e apoio direto aos produtores em zonas de presença do lobo.
Em regiões como Trás-os-Montes, o Barroso e o Alto Tâmega, onde a pecuária extensiva mantém peso económico e social, a aplicação prática destas medidas será determinante para compatibilizar a conservação do lobo-ibérico com a atividade das explorações agrícolas.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Nem todos os narizes são iguais

Além do horizonte olfativo: uma Análise científica sobre a perceção química nos Mamíferos

Introdução
A perceção do mundo que nos rodeia é moldada pelos limites dos nossos próprios sentidos. Para o ser humano, a visão tende a ser o sentido primordial, o que frequentemente nos leva a subestimar a complexidade do universo químico que outros animais habitam. O infográfico analisado ilustra as distâncias estimadas a que diferentes mamíferos conseguem detetar o odor humano, variando entre escassos três metros na nossa própria espécie e impressionantes dezenas de quilómetros no reino dos grandes carnívoros e megafauna. Embora a propagação de partículas de odor na atmosfera dependa criticamente de variáveis ambientais dinâmicas — como a humidade, a velocidade e direção do vento, e a topografia do terreno —, a biologia molecular e a ecologia comportamental fornecem bases sólidas que validam a extraordinária assimetria retratada na imagem.

A Supremacia Genética do Elefante
No infográfico, o elefante surge com uma capacidade de deteção estimada em 15 quilómetros. Longe de ser um exagero hiperbólico, esta marca encontra eco direto na genética evolutiva. Em 2014, uma equipa de investigadores liderada por Yoshihito Niimura publicou um estudo pioneiro na revista Genome Research, onde examinou o repertório de genes de recetores olfativos (OR, do inglês Odorant Receptor) em treze espécies de mamíferos.

Os resultados revelaram que o elefante-africano (Loxodonta africana) possui cerca de 2 000 genes funcionais dedicados ao olfato, estabelecendo o recorde absoluto do reino animal conhecido. Esta dotação genética é mais do que o dobro da registada nos cães e cerca de cinco vezes superior à dos humanos. No plano ecológico, a organização Tsavo Trust e o SeaWorld documentam que este apuradíssimo sentido permite aos elefantes detetar massas de água subterrâneas ou frentes de chuva a distâncias que ultrapassam os 19 quilómetros, o que valida cientificamente a estimativa apresentada para a deteção do odor humano.

O Urso e o limiar máximo da quimioperceção terrestre
O limite superior do infográfico pertence ao urso, com uma distância de 30 quilómetros. Na literatura biológica, a anatomia nasal dos ursídeos é descrita como uma obra-prima da engenharia natural. A área de superfície da sua mucosa olfativa e a complexidade dos seus cornetos nasais são proporcionalmente massivas quando comparadas com o volume do seu crânio.

De acordo com dados partilhados pelo North American Bear Center e validados pelo National Park Service (NPS) dos Estados Unidos, o olfato é o sentido mais importante para a sobrevivência de um urso. Em ecossistemas polares, onde a dispersão de odores é facilitada pelas correntes de ar sobre superfícies planas de gelo, os ursos-polares (Ursus maritimus) demonstram a capacidade de rastrear o odor de focas ou carcaças de baleia a distâncias de 30 a 40 quilómetros, conseguindo inclusive localizar presas escondidas sob camadas de neve com um metro de espessura.

Canídeos e o mito do olfato humano "inútil"
O infográfico atribui distâncias de 2 e 3 quilómetros para o cão e para o lobo, respetivamente. Esta proximidade de valores justifica-se pela partilha de uma herança evolutiva direta. Enquanto o nariz humano médio contém cerca de 5 a 6 milhões de células recetoras, o focinho de um cão de caça ou de um lobo selvagem alberga até 300 milhões. Estudos de ecologia comportamental de canídeos confirmam que, em condições meteorológicas favoráveis, uma alcateia de lobos em linha de vento consegue detetar a presença de ungulados (como veados ou alces) a mais de 2,5 quilómetros de distância.

Por oposição, o ser humano surge na base da tabela com apenas 3 metros. Historicamente, a ciência perpetuou o mito de que a nossa espécie era "anósmica" ou fundamentalmente incapaz de processar odores de forma eficaz. No entanto, um artigo de revisão crucial publicado na revista Science pelo neurocientista John McGann veio reescrever esta narrativa. McGann demonstrou que o bolbo olfativo humano possui uma excelente capacidade de diferenciação química, sendo o nosso limiar de deteção comparável ao dos ratos e cães para certos compostos específicos. A limitação humana representada na imagem não advém, portanto, de uma incapacidade absoluta do órgão, mas sim da nossa postura bípede, da redução da área nasal e da ausência de comportamentos de rastreio ativo ao nível do solo. Três metros representam, com precisão, a distância média a que a pluma térmica e volátil do odor corporal humano se dissipa no ar num ambiente estagnado.

Conclusão
O infográfico em análise atua como uma excelente ferramenta de divulgação científica ao traduzir dados complexos de biologia molecular e anatomia comparada em métricas de distância facilmente compreensíveis pelo público leigo. Embora na natureza a eficácia real do olfato nunca seja um valor matemático fixo, os dados apresentados encontram amparo na literatura científica. Compreender que um urso nos pode cheirar a trinta quilómetros ou que um elefante possui um mapa genético olfativo cinco vezes mais complexo que o nosso convida-nos a uma reflexão profunda sobre a nossa própria perceção, relembrando-nos de que a nossa experiência sensorial é apenas uma fração modesta do espectro percetivo da biosfera.

Infográfico adaptado ao sistema métrico norte-americano


Referências Bibliográficas
McGann, J. P. (2017). Poor human olfaction is a 19th-century myth. Science, 356(6338), eaam7263. 

Niimura, Y., Matsui, A., & Touhara, K. (2014). Extreme expansion of the olfactory receptor gene repertoire in African elephants. Genome Research, 24(9), 1485-1496. Disponível em:

North American Bear Center. (s.d.). Bear Sense of Smell. Informação técnica e comportamental sobre ursídeos. 

National Park Service (NPS). (s.d.). Bears and Scent Detection in Wilderness Areas. U.S. Department of the Interior. 

Tsavo Trust. (s.d.). The Senses of the African Elephant: Survival in the Savannah. Relatórios de conservação e ecologia de campo. 


sexta-feira, 8 de maio de 2026

Churra da Terra Quente - A Aliança Antiga

Fonte

As ovelhas da raça Churra da Terra Quente atuam como bombeiras naturais ao consumirem a erva seca e os arbustos que, habitualmente, servem de combustível aos incêndios de verão nas montanhas da Terra Quente Transmontana e do Douro Superior. Este processo, conhecido como pastoreio dirigido, cria aceiros naturais em zonas declivosas ou rochosas onde a limpeza mecânica é impossível. Além de reduzirem a carga de combustível, estes rebanhos promovem a biodiversidade ao impedirem que o mato agressivo sufoque espécies vegetais de menor porte. Também regeneram o solo através da fertilização natural e da dispersão de sementes à medida que se deslocam pela paisagem. Ao manterem estes espaços abertos, as ovelhas representam uma alternativa sustentável e neutra em carbono face à utilização de maquinaria pesada. Esta prática tradicional não só protege a floresta, como também sustenta a economia rural, prestando um serviço ecológico vital para a região.

Foto de Carlos Aguiar

A Aliança Antiga
"Guardiãs das profundezas de esmeralda,
os seus passos suaves são uma canção silenciosa
sobre a terra.

Através do sol e da chuva, elas tecem
a tapeçaria do prado vivo,
uma dança harmoniosa de casco e erva.

Nesta aliança antiga, que possamos honrar
o seu fôlego, a sua lã, a sua natureza selvagem,
deixando-as pastar sob o céu vasto,
arquitetas eternas de um amanhã sustentável."
— João Soares, 08-05-2026

Fonte

A raça Churra da Terra Quente tem as suas origens genéticas no final do século XIX, mas apenas foi oficialmente reconhecida e caraterizada como raça independente em 1987

domingo, 29 de março de 2026

Conheça Eau10b, a primeira baleia intersexo conhecida — um ser vivo que desafia a nossa definição de sexo na biologia


1. Introdução: o legado de 1989
A biologia marinha foi recentemente surpreendida pela publicação na revista científica Marine Mammal Science (Crossman,C, 2024) , que detalha a descoberta da baleia-franca-austral (Eubalaena australis) denominada Eau10b. O aspeto mais extraordinário deste caso é o facto de a descoberta ter ocorrido "em laboratório", décadas após o contacto físico. Amostras de pele colhidas em 1989, através de dardos de biopsia, foram analisadas com tecnologias modernas de sequenciação genética, revelando uma aneuploidia cromossómica sexual (XXY).

2. A Genética da baleia Eau10b
Em mamíferos, o sexo é geralmente determinado pelo par XX (fêmea) ou XY (macho). Contudo, Eau10b apresenta um cromossoma X extra. Esta condição, análoga à Síndrome de Klinefelter em humanos, significa que o animal possui o gene SRY (responsável pelo desenvolvimento masculino), mas num contexto genético que também inclui o par feminino. Esta descoberta prova que variações cromossómicas complexas ocorrem mesmo em espécies de vida longa e de grande porte.

3. Evidências Científicas noutras Espécies
A intersexualidade não é uma anomalia isolada, mas um fenómeno documentado em diversas linhagens:
  1. Baleias Beluga (Delphinapterus leucas): um estudo clássico publicado na Canadian Journal of Zoology (De Guise et al., 1994) descreveu um caso de hermafroditismo verdadeiro num indivíduo do Estuário de St. Lawrence, que possuía dois testículos e dois ovários funcionais, um dos raros casos documentados em cetáceos.
  2. Ursos Polares (Ursus maritimus): investigadores em Svalbard e Nunavut documentaram casos de pseudo-hermafroditismo feminino. Um estudo seminal na Journal of Mammalogy (Carmichael et al., 2005) analisou ursas com genitais externos masculinizados (clitoromegalia), investigando se a causa seria genética ou fruto de desreguladores endócrinos (poluentes).
  3. Ursos Cinzentos e Pretos: Casos semelhantes de virilização em fêmeas foram reportados em populações de Ursus arctos e Ursus americanus, onde, apesar da genitália ambígua, muitas fêmeas mantinham a capacidade de procriar.´
A terminologia e as definições utilizadas para falar de indivíduos intersexo têm mudado ao longo do tempo, especialmente quando se referem a pessoas. Mas, de acordo com o historiador Beans Velocci, da Universidade da Pensilvânia, que estuda a história da classificação sexual, os cientistas usam o termo intersexo para descrever corpos que, independentemente da espécie, não podem ser facilmente categorizados como masculinos ou femininos. Nem todos os indivíduos intersexo têm cromossomas XXY — o termo abrange indivíduos com um leque de características resultantes de diferenças genéticas, hormonais e anatómicas. Um indivíduo intersexo pode ter órgãos sexuais ou uma aparência física que diverge da norma. Alguns indivíduos, por exemplo, têm um cromossoma Y e testículos, mas as suas células não respondem às hormonas sexuais masculinas, pelo que a sua anatomia externa é mais feminina.

Embora os animais intersexo sejam frequentemente inférteis e incapazes de gerar descendentes para ajudar no crescimento da população, Velocci afirma que, em espécies sociais como as baleias, os animais intersexo desempenham provavelmente papéis não reprodutivos importantes que beneficiam a população de outras formas.

O estudo dos animais intersexo ajudou os cientistas a compreender melhor como os genes e as hormonas moldam os indivíduos durante o desenvolvimento. Através do processo de domesticação de animais, as pessoas conhecem as vacas intersexo há milhares de anos. Em Vanuatu, no Pacífico Sul, os habitantes criam uma raça única de porcos intersexo, valorizados pelas suas delicadas presas em espiral. Mais recentemente, os investigadores também documentaram cavalos, cães, alces, ovelhas, peixes e muitos tipos diferentes de invertebrados intersexo. Os animais intersexo são raros em todas as espécies, diz Carla Crossman, mas são “mais comuns do que pensávamos historicamente”.

As baleias intersexo passam despercebidas, em particular, porque os cetáceos possuem genitais internos. “Não é comum ter uma boa visão dos genitais de uma baleia”, diz Carla Crossman. “Tudo fica lá dentro.” No entanto, os cientistas já encontraram baleias-fin, belugas, baleias-da-gronelândia, golfinhos-comuns-de-bico-curto e baleias-de-bico-de-True intersexo.

“Cada vez que [os investigadores] estão no terreno ou a examinar espécimes, continuam a encontrar estas exceções”, diz Velocci. Os cientistas “já viram vezes sem conta que o sexo claramente não é binário”.

Mas, segundo Velocci, o ensino científico não acompanhou esta mudança. “XX e XY são ensinados como a base da qual tudo o resto pode divergir, em vez de uma possível variação entre muitas”.

Para certas espécies bem estudadas, como a baleia-franca-do-atlântico-norte, parente próxima da baleia-franca-austral, que está em perigo de extinção, os investigadores estimam o sexo de um indivíduo observando comportamentos, como nadar com uma cria recém-nascida, ou características externas evidentes, como o tamanho e a cor da fenda genital. Mas, para a maioria das baleias, os testes de ADN são a única resposta.

No entanto, a história de Eau10b mostra que mesmo os testes de sexo mais comuns não são perfeitos. Ao reduzir o sexo à presença ou ausência de um único gene, o SRY, os cientistas correm o risco de ignorar os animais que não se enquadram perfeitamente na dicotomia macho-fêmea. Com os recentes avanços na investigação genética, porém, é agora mais fácil identificar animais intersexo comparando os resultados de diferentes testes. “Podemos simplesmente começar a procurar”, diz Crossman.

Quando os cientistas identificarem o próximo animal intersexo, esta informação provavelmente não irá alterar a forma como a sua espécie é gerida ou compreendida. Mas este indivíduo, seja um guppy ou uma baleia, representará mais um desafio às definições rígidas de sexo. O que a sociedade considera normal é uma caixa cuidadosamente desenhada em torno de um mundo selvagem e complexo, e cada indivíduo que não pode ser contido oferece um vislumbre fascinante da verdadeira diversidade da natureza.

Quadro-resumo da biologia intersexo

MecanismoEspécie ExemploBase Biológica
Aneuploidia (XXY)Baleia Eau10bMutação numérica nos cromossomas sexuais durante a meiose.
Hermafroditismo VerdadeiroBeluga (St. Lawrence)Presença simultânea de tecidos gonadais masculinos e femininos.
Pseudo-hermafroditismoUrsos de SvalbardCromossomas normais (XX), mas fenótipo alterado por hormonas ou ambiente.
Hermafroditismo SequencialPeixe-palhaçoMudança funcional de sexo baseada em gatilhos sociais/hierárquicos.
A complexidade destes casos reside na interação entre o genótipo e o fenótipo. Enquanto em peixes como o peixe-palhaço a mudança de sexo é uma estratégia adaptativa social (hermafroditismo sequencial), em mamíferos como a baleia Eau10b, trata-se de uma variação cromossómica estrutural. O gene SRY, localizado no cromossoma Y, actua como um fator de transcrição que ativa o gene SOX9, desencadeando a formação de testículos. No caso XXY, a presença deste gene "vence" a sinalização feminina dos dois cromossomas X, resultando num indivíduo com características híbridas. Estas descobertas, preservadas em biobancos desde os anos 80, sublinham que a diversidade biológica não é a excepção, mas sim uma característica intrínseca da evolução, desafiando a visão binária tradicional da zoologia.