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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Dinheiro, gastos e benesses do Estado. Os segredos da vida financeira de Salazar


Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves publicado na revista Sábado (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026) veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Marco Alves já tinha, em 2023, publicado o livro Salazar Confidencial. Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que "morreu pobre".

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o pacote completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que essa promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Sisters of Mercy - Dominion

Melhor som aqui

Lançado em 1987 no aclamado álbum Floodland, o tema "Dominion" (frequentemente editado na sua versão longa como "Dominion / Mother Russia") destaca-se pela sua sonoridade grandiosa e hipnótica, impulsionada por uma linha de baixo marcante, pelas batidas industriais da famosa caixa de ritmos da banda, apelidada de "Doktor Avalanche", e pela densidade dos coros operáticos providenciados pela New York Choral Society.

O impacto visual da canção foi imortalizado num videoclipe memorável filmado em fevereiro de 1988 nas ruínas históricas de Petra, na Jordânia. Esta produção tornou-se um marco histórico por ter sido o primeiro videoclipe de música pop/rock a receber autorização governamental para ser gravado naquele sítio arqueológico. Para alcançar os impressionantes planos aéreos que caracterizam o vídeo, Andrew Eldritch conseguiu inclusive o apoio da própria família real jordana, que cedeu um helicóptero militar para as filmagens.

No plano lírico, a letra assume um tom profundamente cínico e literário. Em passagens como "In the land of the blind king / The one-eyed man is king / Don't look back to the neon and the cold grey morning / Say the prayers for the sand to come", que em português de Portugal se traduz como "Na terra do rei cego / O homem que tem um olho é rei / Não olhes para trás para o néon e para a manhã cinzenta e fria / Reza as orações para que venha a areia", a banda constrói uma atmosfera de decadência urbana e alienação. Na segunda secção do tema, intitulada "Mother Russia", a letra expande-se numa crítica geográfica direta: "Mother Russia rain down / There's a lighthouse in the middle of Prussia / A white house in a red square / And a mobile home in Memphis", cuja tradução corresponde a "Mãe Rússia, chove cá em baixo / Há um farol no meio da Prússia / Uma casa branca numa praça vermelha / E uma caravana em Memphis".

O significado por trás desta poesia sombria reflete a genialidade política de Eldritch, que transformou a faixa numa das mais contundentes críticas à Guerra Fria e ao imperialismo dos anos 80. Ao utilizar o provérbio clássico de que em terra de cegos quem tem um olho é rei, o músico ironiza a facilidade com que as massas se deixavam manipular por líderes políticos medíocres num período de paranoia global, enquanto a "areia" simboliza o colapso inevitável das civilizações. O segmento "Mother Russia" foi inspirado de forma muito direta pelo desastre nuclear de Chernobyl, ocorrido em 1986, apenas um ano antes do lançamento do disco; o apelo para que a Rússia "chova cá em baixo" funciona como uma metáfora literal para a nuvem radioativa que se espalhou pelos céus europeus através da precipitação. Por fim, ao fundir os maiores símbolos das superpotências da época numa única imagem - uma casa branca americana plantada no meio da Praça Vermelha soviética -, o tema expõe o absurdo do jogo geopolítico que esmagava a Europa Central (a Prússia) e reduzia a cultura ocidental ao vazio consumista simbolizado pelas caravanas de Memphis, deixando o mundo à mercê de um iminente apocalipse nuclear.

sábado, 25 de abril de 2026

25 Abril: Rui Tavares acusa André Ventura de citar Adolf Hitler e mito nazi na sessão solene


O porta-voz do Livre Rui Tavares acusou hoje o presidente do Chega de ter citado Adolf Hitler e um mito nazi no discurso da sessão solene do 25 de Abril quando repetiu diversas vezes a expressão “apunhalado pelas costas”.

Em declarações aos jornalistas durante a tradicional descida da Avenida da Liberdade, em Lisboa, para celebrar a Revolução dos Cravos, Rui Tavares afirmou que Ventura, na sessão solene comemorativa do 25 de Abril, no parlamento, repetiu “quatro ou cinco vezes uma frase de Hitler, como se não fosse nada”.

“A famosa frase ‘apunhalada nas costas’, que é uma frase que vem dos nazis, e que se referia à Primeira Guerra Mundial e que ele hoje usou para a Guerra Colonial, como se não fosse nada”, sustentou.

Em causa está a crítica feita por André Ventura na intervenção desta manhã no parlamento, em que criticou aqueles que “exaltam guerrilheiros que estavam a matar militares portugueses por todo o mundo” e afirmou, repetindo a expressão três vezes, que estes portugueses foram “apunhalados pelas costas”.

A “lenda da punhalada nas costas” foi um mito político difundido na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, segundo o qual o exército alemão não teria sido vencido no campo de batalha, mas sim traído internamente por, entre outros, socialistas, bolcheviques e judeus alemães, tendo contribuído para a ascensão de Hitler do Partido Nazi.

Rui Tavares considerou que há uma escalada no discurso político que está a ser ignorada: “Hoje cita Hitler e os nazis, toda a gente faz de conta que não ouviu, e amanhã diz ou faz qualquer coisa ainda mais terrível, e toda a gente faz de conta que não é consigo”.

Também a deputada do PS Eva Cruzeiro criticou a expressão utilizada por André Ventura, considerando, numa publicação feita na rede social ‘X’, que não se trata de uma “frase qualquer”.

“Remete diretamente para a Dolchstoßlegende [Lenda da Punhalada pelas Costas], um dos pilares da propaganda que abriu caminho ao nazismo. Foi usada sistematicamente para alimentar ressentimento, fabricar inimigos internos e justificar a erosão da democracia da República de Weimar. Foi central na narrativa que Adolf Hitler explorou para chegar ao poder”, criticou.

Para a socialista, o líder do Chega não estava a fazer “um desabafo inocente”, mas sim a “convocar um imaginário político perigoso, assente na divisão, na desconfiança e na distorção da história”.

E conclui: “Quem conhece a história reconhece estes sinais e sabe que a democracia não se perde de um dia para o outro, desgasta-se quando se normalizam discursos que já provaram, no passado, aonde conduzem. André Ventura mostra abertamente o seu plano. É inaceitável”.

A tentativa de André Ventura em adaptar a "Lenda da Punhalada pelas Costas" (Dolchstoßlegende) ao contexto da Descolonização (1974-1975)

Essa narrativa de que Portugal foi "apunhalado pelas costas" durante o processo de descolonização é um exemplo flagrante de pós-verdade, pois ignora os factos históricos em favor de um revisionismo emocional que serve interesses políticos atuais. Ao transpor o mito alemão da Dolchstoßlegende para a realidade portuguesa de 1974, André Ventura e a direita radical operam uma inversão da causalidade: tentam convencer o público de que o 25 de Abril "causou" a derrota em África, quando, na verdade, foi a exaustão de uma guerra impossível de vencer que causou o 25 de Abril. Esta construção ignora que o exército português enfrentava um impasse militar absoluto, um isolamento diplomático total perante a ONU e uma economia asfixiada que consumia cerca de 40% do orçamento do Estado na defesa do Ultramar.

Ao utilizar esta retórica, Ventura não está a fazer uma análise histórica, mas sim a praticar uma "pesca de arrasto" no ressentimento de antigos combatentes e retornados, oferecendo-lhes um culpado conveniente — a "elite de Abril" — para um trauma coletivo que é muito mais profundo e complexo. A pós-verdade reside precisamente nesta simplificação: transforma-se uma transição histórica inevitável e tardia numa traição planeada, substituindo a complexidade do fim dos impérios coloniais europeus por uma fábula de "bons patriotas" contra "traidores entreguistas". No fundo, é a utilização de uma mentira histórica confortável para atacar a legitimidade da democracia portuguesa e reabilitar um passado autoritário sob a capa de um orgulho nacional ferido.

Historiografia
Museu Histórico Alemão - Dolchstoßlegende

O mito da punhalada pelas costas (em alemão: Dolchstoßlegende, pronuncia-se Lenda da Punhalada pelas Costas) é uma teoria da conspiração anti-semita e anticomunista, promovida por Adolf Hitler.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

A Verdade sobre o Genocídio Arménio

Em 1915, por entre derrotas militares e colapso político, o Império Otomano entrou na Primeira Guerra Mundial em profunda crise. Tendo já perdido a maior parte dos seus territórios europeus, o império enfrentava uma crescente instabilidade. A ideologia nacionalista ganhou influência entre a elite governante, intensificando as divisões internas e a suspeita em relação às populações minoritárias.

A comunidade arménia, estabelecida na Anatólia Oriental há milénios, passou a ser cada vez mais retratada como inimiga interna. Entre abril de 1915 e julho de 1916, mais de um milhão de arménios foram deportados, massacrados ou morreram durante marchas forçadas pelo deserto da Síria. Estes acontecimentos são amplamente reconhecidos por muitos historiadores como o primeiro genocídio do século XX — um século marcado por repetidos episódios de violência em massa.

Durante décadas, na Turquia moderna, o debate público sobre os acontecimentos de 1915 foi fortemente restringido, e o termo “genocídio” permaneceu altamente controverso e politicamente sensível. Contudo, nos últimos anos, vozes da sociedade turca começaram a confrontar essa história dolorosa.

Este documentário reúne duas pessoas cujas histórias familiares se encontram em lados opostos da tragédia: Hasan Cemal, jornalista turco e neto de uma das figuras proeminentes associadas aos acontecimentos, e Fethiye Çetin, advogada turco-arménia e neta de uma sobrevivente. Através de testemunhos pessoais e reflexões históricas, exploram a memória, a responsabilidade e a necessidade urgente de verdade e diálogo.

Ao examinar tanto o registo histórico como os debates contemporâneos, o filme lança luz sobre um dos capítulos mais sombrios do início do século XX — e sobre a luta contínua em torno da forma como é recordado.

domingo, 29 de março de 2026

Nesta semana a ONU aprovou, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade". O que isso significa?


A Assembleia Geral das Nações Unidas apoiou esta semana, por larga maioria, uma resolução que declara o tráfico transatlântico de escravos "o crime mais grave contra a humanidade".

A resolução histórica aprovada na quarta-feira foi apoiada pela União Africana (UA) e pela Comunidade das Caraíbas (Caricom). Tinha sido proposta pelo presidente do Gana, John Dramani Mahama, que disse: "Que fique registado que, quando a história chamou, fizemos o que era certo em memória de milhões que sofreram a indignidade da escravatura."

Ao saudar a votação, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, afirmou que a riqueza de muitas nações ocidentais foi "construída sobre vidas roubadas e trabalho forçado".

Assinalando os "castigos bárbaros que mantinham o controlo – desde grilhões e coleiras de ferro a açoites e violência sexual", disse que "não se tratava simplesmente de trabalho forçado".

"Era uma máquina de exploração em massa e de desumanização deliberada de homens, mulheres e crianças. As feridas são profundas e muitas vezes passam despercebidas."

A resolução, apoiada por países africanos e caribenhos, não é juridicamente vinculativa, mas os analistas afirmam que transmite uma mensagem poderosa.

"É já um passo enorme e significativo em termos políticos ter este debate na ONU, mesmo que tenha um valor mais simbólico", disse Almaz Teffera, investigadora sénior sobre racismo da Human Rights Watch, à BBC.

Ela afirma que isto poderia aumentar as hipóteses de progresso nas discussões sobre reparações ou alguma forma de compensação.

A resolução foi aprovada por 123 votos a três, com 52 abstenções, incluindo o Reino Unido e os Estados-membros da UE.

Os Estados Unidos, a Argentina e Israel votaram contra.
A Dra. Erieka Bennett, que lidera o Fórum Africano da Diáspora, sediado no Gana, disse à BBC que a votação teve um significado pessoal para os descendentes de pessoas escravizadas, como ela.

"Significa que sou reconhecida, significa que o meu antepassado finalmente descansa em paz". Para mim, pessoalmente, como afro-americano, é algo avassalador – até que se tenha vivido o que aconteceu, é muito difícil perceber o que isso realmente significa.

Os países afetados pela escravatura têm vindo a pedir reparações há mais de um século. Mas o debate intensificou-se nos últimos anos, sobretudo depois de algumas nações e empresas que historicamente lucraram com o trabalho escravo africano terem pedido formalmente desculpa e anunciado medidas de reparação.

Qual é o argumento a favor das reparações?
Dos séculos XV ao XIX, cerca de 12 a 15 milhões de homens, mulheres e crianças africanos foram capturados e traficados para as Américas para trabalharem como escravos.

Foram enviados para colónias controladas por países europeus, como Espanha, Portugal, França e Reino Unido. Acredita-se que dois milhões de pessoas morreram a bordo dos infames navios negreiros.

Os efeitos de séculos de exploração ainda se fazem sentir nos dias de hoje.

No Brasil, o maior recetor de africanos escravizados – 4,9 milhões, a maioria durante o período em que era colónia portuguesa – as pessoas negras têm o dobro da probabilidade de viver na pobreza. como brancos, de acordo com o órgão oficial de estatísticas do país (IBGE).

As reparações têm como objetivo funcionar como uma restituição – um pedido de desculpas e um pagamento às pessoas negras cujos antepassados ​​foram forçados à escravatura. A moção, proposta pelo Gana, insta os Estados-membros da ONU a considerarem pedir desculpa pelo tráfico de escravos e a contribuírem para um fundo de reparações.

A Dra. Esther Xosei, académica, ativista e figura de destaque no movimento global pelas reparações, saudou a votação, mas duvida que faça grande diferença por si só.

"É uma boa vitória [para o movimento pelas reparações], mas vamos recordar “Isto é apenas uma declaração de intenções”, disse ela à BBC.

Xosei acrescentou que, embora fosse “encorajador ver as nações africanas a assumir o protagonismo nestas discussões”, destacou a importância da ação popular.

“Corações e mentes não serão conquistados na ONU.”

“A verdadeira batalha será travada nas ruas, onde as pessoas ainda estão mal informadas sobre a história da escravatura e os seus efeitos duradouros na vida dos africanos e dos seus descendentes.”

Existe algum precedente histórico para as reparações?
Sim – o caso de reparações mais famoso envolve a Alemanha. Desde 1952, a nação europeia pagou mais de 80 mil milhões de dólares (60 mil milhões de reais) às vítimas judias do regime nazi, incluindo pagamentos a Israel.

Mas, até agora, nunca nenhum país pagou reparações aos descendentes de africanos escravizados ou às nações africanas, caribenhas e latino-americanas afetadas.

A maior parte das reparações pagas pelos governos veio sob a forma de indemnizações aos proprietários de escravos no século XIX, e não àqueles que foram escravizados.

Isto inclui o Reino Unido - na década de 1830, após a abolição da escravatura, o país pagou aos proprietários o equivalente a mais de 21 mil milhões de dólares (16 mil milhões de libras) em valores actuais.

Mesmo nações que pediram formalmente desculpas pelo seu papel na escravatura, como a Holanda em 2022, descartaram reparações financeiras diretas aos descendentes de pessoas escravizadas. O governo holandês criou, em vez disso, um fundo de 230 milhões de dólares para "iniciativas e projetos sociais para lidar com o legado da escravatura".

"O mais importante a compreender é que ninguém está a tentar mudar o passado, mas sim a lidar com as suas consequências no presente", explicou a Dra. Celeste Martinez, investigadora especializada em colonialismo espanhol em África.

"Os legados da escravatura ainda persistem hoje sob a forma de racismo e desigualdade. Reconhecer o passado é crucial se queremos sociedades mais justas e democráticas."

quarta-feira, 11 de março de 2026

Nestes tempos de belicismo relembro esta canção "Masters of War", magnificamente cantada por Eddie Vedder, durante o Concerto de Aniversário dos 30 anos de carreira de Bob Dylan (1992)


Letra
Come you masters of war
You that build all the guns
You that build the death planes
You that build the big bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks

You that never done nothin’
But build to destroy
You play with my world
Like it’s your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly

Like Judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain

You fasten the triggers
For the others to fire
Then you set back and watch
When the death count gets higher
You hide in your mansion
As young people’s blood
Flows out of their bodies
And is buried in the mud

You’ve thrown the worst fear
That can ever be hurled
Fear to bring children
Into the world
For threatening my baby
Unborn and unnamed
You ain’t worth the blood
That runs in your veins

How much do I know
To talk out of turn
You might say that I’m young
You might say I’m unlearned
But there’s one thing I know
Though I’m younger than you
Even Jesus would never
Forgive what you do

Let me ask you one question
Is your money that good
Will it buy you forgiveness
Do you think that it could
I think you will find
When your death takes its toll
All the money you made
Will never buy back your soul

And I hope that you die
And your death’ll come soon
I will follow your casket
In the pale afternoon
And I’ll watch while you’re lowered
Down to your deathbed
And I’ll stand o’er your grave
’Til I’m sure that you’re dead 
Bod Dylan, 1963

"Masters of War" é, sem dúvida, uma das composições mais viscerais de Bob Dylan, funcionando como um manifesto implacável contra aqueles que lucram com a destruição alheia. Escrita num contexto de profunda ansiedade devido à Guerra Fria e à crescente intervenção militar, a canção distingue-se por não recorrer às habituais metáforas abstratas de Dylan; em vez disso, utiliza uma linguagem direta e gélida para confrontar o complexo industrial-militar. O foco da crítica não são os soldados que combatem no terreno, mas sim os estrategas e fabricantes de armas que, protegidos pelo conforto das suas secretárias e pelas paredes de vidro dos seus escritórios, enviam os jovens para a morte como se fossem meras peças num tabuleiro de xadrez.

Ao longo da letra, Dylan expõe a cobardia inerente a este sistema, acusando os "mestres" de se esconderem enquanto o mundo arde. A utilização de referências bíblicas, como a comparação a Judas, eleva a crítica de um plano meramente político para um plano moral e espiritual. Para Dylan, estas figuras não cometem apenas erros estratégicos; elas cometem um pecado imperdoável contra a própria humanidade ao colocarem o lucro acima da vida e ao brincarem com a ameaça do aniquilamento nuclear como se o mundo fosse um brinquedo descartável.

O que verdadeiramente distingue esta obra de outras canções de protesto da década de 60 é a sua conclusão sombria e desprovida de qualquer otimismo pacificador. Dylan não pede paz ou diálogo; ele expressa um desejo de justiça absoluta e final. Ao declarar que espera seguir estes homens até ao seu túmulo e que se manterá de pé sobre a sua cova até confirmar que partiram definitivamente, o músico canaliza uma fúria profética que reflete o desespero de uma geração que se sentia traída pelos seus líderes. É uma peça de uma agressividade rara, onde o autor despe a diplomacia para revelar a podridão de um sistema que vicia o baralho da existência humana.

Página Oficial do Concerto aqui e aqui

Concerto completo aqui

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Vivaldi - "Apri le luci, e mira" por Roberta Mameli


"Apri le luci, e mira" é uma ária da ópera Catone in Utica (RV 705), composta por António Vivaldi com libreto de Pietro Metastasio. A ária aparece no Ato I, Cena 9 ou 10, dependendo da edição, e é frequentemente interpretada por sopranos, como Roberta Mameli, ou contra-tenores.

Mais informações aqui

Apri le luci

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira, sospira
E non l'inten...
Intendi ancor

Apri le luci e mira
E mira il mio costante affetto
E mira il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira
Costa...ante
Costa...ante

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
E non l'intendi ancor
E non l'intendi ancor

E in tacita favella
Co' soli miei sospiri
Ti scopro, oh Dio, la bella
Fia...amma che m'arde il cor

Ti scopro, oh Dio
La bella bella fia...amma
Oh Dio, co' miei sospiri
La bella bella fiamma
Che m'arde, m'arde il cor
Che m'arde, che m'arde il cor

Apri le luci
Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira, sospira
E non l'inten... intendi ancor

Apri le luci e mira
E mira il mio costante affetto
E mira il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
Per te il mio cor sospira
Costa...ante
Costa...ante

Apri le luci e mira
Il mio costante affetto
Per te il mio cor sospira
E non l'intendi ancor
E non l'intendi ancor

O Enredo e a Personagem
A ária é cantada por Arbace, o Príncipe da Numídia. Ele está profundamente apaixonado por Marzia, a filha de Catão (Cato), o Jovem. O conflito central da cena reside na lealdade dividida e no amor não correspondido:

A Situação: Arbace é um aliado fiel de Catão contra Júlio César. No entanto, Marzia, por quem ele é devoto, está secretamente apaixonada pelo inimigo de seu pai, César.

O Momento: A ária ocorre após um confronto onde Arbace tenta expressar os seus sentimentos ou a sua fidelidade, enfrentando a frieza ou a agitação de Marzia.

O Significado do Texto
O título traduz-se como "Abre os olhos e olha".

Apelo Emocional: Arbace pede a Marzia que olhe para ele e reconheça o sofrimento e a sinceridade do seu amor.

Contraste Dramático: A letra evoca a imagem de alguém que está a "morrer" de amor ou lealdade, implorando por um único gesto de compaixão ou reconhecimento antes do destino trágico que a guerra civil romana impõe a todos.

Características Musicais
Como é típico de Vivaldi, a música reflete o estado psicológico da personagem:

Estilo: é uma ária que mistura o virtuosismo técnico do barroco com uma linha melódica expressiva, destinada a mostrar a nobreza e a agonia de Arbace.

Instrumentação: o acompanhamento de cordas é vibrante, sublinhando a urgência do pedido "Apri le luci" (abre os olhos).

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Dia do Amor - Handel: Dove sei, amato bene (Rodelinda)



Sobre a Ópera Rodelinda

Dove sei, amato bene!
Vieni, l’alma a consolar

Sono oppresso da’ tormenti
ed i crudeli miei lamenti
sol con te posso bear.

Dove sei... 

Tradução
Onde estás, amado!
Vem, consola a minha alma.

Estou oprimido por tormentos,
e os meus cruéis lamentos
só contigo posso suportar.

Onde estás...

Esta é uma das árias mais belas e emocionantes de George Frideric Handel. Ela faz parte da ópera Rodelinda, estreada em 1725, em Londres.

Aqui está o contexto dramático e a tradução para ajudar você a sentir a profundidade da obra:

O Contexto na Ópera Rodelinda
A ária é cantada por Bertarido, o rei deposto de Milão. Todos acreditam que ele morreu no exílio, inclusive a sua esposa, a rainha Rodelinda.

Neste momento (Ato I, Cena VI), Bertarido retorna disfarçado e vê seu próprio monumento fúnebre erguido pela rainha. Ele está escondido, observando de longe o sofrimento da sua amada, sentindo a dor da separação e a solidão de ser um "fantasma" em seu próprio reino. É um momento de extrema vulnerabilidade e melancolia.

1. Mais sobre Georg Friedrich Händel
2. Cantada por Jakub Józef Orliński
3. Dia de S.Valentim. Dias dos Namorados. Dia do Amor

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Mais umbigos que cabeças

This Incredible Map Tool Reveals Just How Much the Mercator Map Distorts the World [aqui]

Os provérbios são a nossa enciclopédia de bolso, e quando acordamos para o dia com as más notícias do dia anterior convém saber que "deus é grande e o mundo é pequeno". Tão pequeno que cabe num guardanapo. Era esse mesmo o significado que o latim atribuía à palavra mapa, sinónimo de toalha, lenço ou trapo. E era também mapa que chamavam ao pedaço de lona que, no silêncio expectante do circo, dava o sinal de largada para as corridas de bigas, também utilizadas como carros de guerra, como se aqueles cavalos fossem galopar pelos confins, a galgar fronteiras. Foi na superfície dessas telas que os romanos desenharam os limites do universo conhecido.

Os mapas retratam o melhor e o pior da nossa espécie: a curiosidade sôfrega e inquieta, a fome de descoberta, mas também vaidade agressiva e a sede de conquista e dominação. Os mapas fascinam porque contam histórias e revelam paixões. Mas são também os mapas que constroem nossa visão do mundo. As razões pelas quais o Norte nos aparece sempre virado para cima não são científicas, mas estratégicas e até ideológicas: o alto tem conotações positivas, enquanto o baixo é menosprezado. Associamos a pobreza aos países do Sul e a prosperidade aos países do Norte. A famosa imagem da Terra obtida pela Apollo 17, em 1972 -aquela bola azul, em forma de berlinde - foi rodada para efeitos de publicação, pois só sabemos ler o planeta posicionado dessa forma. No entanto, durante séculos o Leste costumava ocupar a posição superior, porque a luz vem do Oriente, lá onde nasce o dia.

Os mapas contam verdades, mas também algumas mentiras. São atlas das mentalidades, medos e ambições das sociedades que os inventaram. Todos sabemos que a terra é aquela bola redondinha, mas a projeção cartográfica mais utilizada ainda hoje, conhecida como Mercator, esconde distorções interessadas. Tão interesseiras como aquela que, em Tordesilhas, levou o nosso D. João II a reclamar como limites da expansão portuguesa as 360 léguas para lá de Cabo Verde. Foi esse desvio no meridiano do mapa do Tratado que permitiu a Portugal explorar as terras onde hoje se encontra o Brasil. Vistos daqui, os mapas-múndi que navegamos com a ponta dos dedos retratam um Ocidente enorme e central, sobredimensionado num hemisfério Norte que ocupa dois terços e relega o Sul a um minúsculo terço inferior. Não é essa, porém, a visão dos mapas que se estudam nas escolas orientais, onde a China e o Japão ocupam posição central, ou nas australianas onde os mapas retratam o nosso mundo de pernas para o ar.

Desde que se começámos a traçar geografias em guardanapos, tendemos a acreditar que somos e estamos no centro do mundo. Ao longo da história, muitos povos sofreram dessa miragem imprópria para habitantes de um planeta esférico. Segundo os gregos antigos, Zeus soltou duas águias nos confins do universo para saber onde ficava o centro da Terra. Inevitavelmente, as aves encontraram-se em Delfos, lugar marcado para a posteridade na pedra oval a que chamaram de "omphalus", ou seja, umbigo - da mesma forma que os chineses da época se julgavam o "império do meio". Ambos acreditavam ser o núcleo cartográfico do Universo e a única cultura civilizada, cada qual a julgar-se no epicentro de tudo. E talvez seja por isso que o mundo ainda tem mais umbigos do que cérebros. O delírio megalómano tem muitas vezes cinzelado geografias a golpes de invasão, guerra e dominação, em nome de purezas remotas e nações triunfantes. A história prova, porém, que pensamento e ciência resultam do cruzamento dos povos, em rotas de viagens, encontros e trocas. Na verdade, aprendemos sobre nós mesmos quando ousamos olhar outras paisagens e ouvir outras vozes. Só os outros nos dizem quem somos.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Chameleons - Saviours Are A Dangerous Thing

[Intro]
Here he comes now

[Verse 1]
Here he comes gliding down the street
Thousand dollar trainers on his feet
All the monkeys part to let him pass
Thinks he's Jesus riding on an ass

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king, dancing the tango
With opinions, roasted minions
Bow as they're kissing the ring

[Chorus]
Saviours are a dangerous thing
Saviours are a dangerous thing

[Verse 2]
Here he comes to sweep you off your feet
With his little orange parakeet
Bringing as he offers something sweet
Suck-suck-suck-suck-sucking on the teat

[Pre-Chorus]
Young Narcissus and his sisters swoon
In the madness they bring, dancing the fandango
Celebration population sings
Dancing the king

[Chorus]

[Bridge]
Far from you, I feel so very far from you
From everything you say and do, I feel so very far from you

[Pre-Chorus]
Super Nero and his ego smile
As they worship the king

[Chorus]

[Outro]
I feel so very far from you
From everything you say and do
I feel so very far from you
From everything you think is true
Here he comes now, saviours are a dangerous thing

Significado da canção
A canção "Saviours Are A Dangerous Thing", lançada pelo The Chameleons em 2024 (do álbum Arctic Moon), é uma crítica contundente ao cenário político global e ao perigo de seguir cegamente figuras messiânicas ou autoritárias.

De acordo com o vocalista e compositor Mark Burgess, o significado central gira em torno de três eixos:

1. Crítica ao Populismo e Autocracia
Burgess afirmou em diversas entrevistas que a letra reflete como as pessoas tendem a buscar "salvadores" em tempos de crise. Ele mencionou especificamente o comportamento de oficiais do governo que "fazem fila para beijar o anel de palhaços" que se comportam mais como reis autoproclamados do que como funcionários eleitos. A música faz referências visuais e líricas (como o "pequeno periquito laranja") que muitos interpretam como uma crítica à figura de Donald Trump e outros líderes populistas similares.

2. Ecos da História (Anos 1930)
O compositor declarou ver muitos paralelos perigosos entre o clima político atual e a década de 1930 na Europa — o período que precedeu a Segunda Guerra Mundial e viu a ascensão do fascismo. A canção alerta que a propaganda sedutora muitas vezes usa a "máscara da esperança" para esconder ideologias perigosas.

3. A Sedução da Propaganda
A letra explora como a humanidade se rende facilmente a promessas vazias de salvação, apenas para acabar presa por "algemas invisíveis". Termos como "Super Nero" e referências a Narciso na letra reforçam a ideia de líderes egocêntricos que queimam o mundo enquanto sorriem, enquanto seus seguidores (os "minions") os adoram cegamente.

Resumo do Conceito
O título já resume a tese da banda: "Salvadores são uma coisa perigosa". A mensagem é um chamado à vigilância individual e ao ceticismo diante de quem promete soluções fáceis para problemas complexos.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O problema com Stephen Miller é que ele não sente vergonha. O arquiteto da política de imigração de Trump cometeu um erro em Minneapolis



Depois da morte do enfermeiro norte-americano Alex Pretti às mãos do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA, as atenções começam a virar-se para Stephen Miller, o principal conselheiro de Donald Trump, responsável por redesenhar a política de imigração do país.

Nas redes sociais, Miller não demorou a classificar a vítima como um “aspirante a assassino”, que tentou matar agentes federais”, apenas algumas horas depois do confronto fatal entre as forças do ICE e o homem de 37 anos. Mas nem Donald Trump parece concordar com a afirmação, tendo assegurado esta terça-feira que “não” acredita que Pretti fosse um assassino.

No mesmo dia, em declarações à CNN, Stephen Miller admitiu que os agentes “podem não ter seguido” o protocolo adequado antes do tiroteio que tirou a vida a Pretti - uma posição insólita vinda de alguém conhecido por reforçar as suas convicções, de acordo com o The Guardian.

Antes de ser contrariado pelo próprio presidente, já se levantavam dúvidas sobre a ausência do conselheiro na reunião de duas horas que Donald Trump realizou com a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, esta segunda-feira, de onde saiu um novo anúncio: foi destacado para Minneapolis o “czar da fronteira” da Casa Branca, Tom Homan, para “recalibrar as táticas” e melhorar a cooperação com as autoridades estatais e locais.

Além de Homan ser conhecido por criticar a abordagem de Stephen Miller, Donald Trump manteve ainda telefonemas cordiais com o governador do Minnesota, Tim Walz, e com o presidente da Câmara de Minneapolis, Jacob Frey.

“O problema com Stephen Miller é que o mal é resiliente. Ele não sente vergonha, não acha que isto seja algo mau. Está convencido de que outras pessoas o envergonharam, mas não acredita que ele esteja a conduzir um ataque às liberdades constitucionais dos americanos”, afirmou Rick Wilson, co-fundador do Lincoln Project (um grupo anti-Trump), citado pelo mesmo jornal.

Em maio do ano passado, o conselheiro de Trump encomendou ao serviço de imigração três mil detenções diárias, um aumento de quase dez vezes relativamente ao ano anterior. Segundo, Larry Jacobs, diretor do Centro para o Estudo da Política e Governação da Universidade do Minnesota, o abuso de poder de Miller foi um dos principais fatores a desacreditar a política de deportação de Donald Trump.

“O facto de ele ter sido afastado da reunião na Casa Branca é uma mensagem forte para Washington de que o presidente não aprova este processo e de que tem de haver uma mudança”, reforça o responsável, afastando, ainda assim, a possibilidade de Miller vir a ser despedido. “Não espero que Stephen Miller seja despedido, porque Donald Trump apoia a política, só não apoia a forma como foi executada”, sublinhou Larry Jacobs.

Apesar de os democratas terem avançado com uma iniciativa para destituir Kristi Noem, os especialistas não têm dúvidas de que o verdadeiro culpado da tragédia de Minneapolis é Miller, que ocupa ainda o cargo de vice-chefe de gabinete da Casa Branca.

Larry Jacobs destaca Stephen Miller como o verdadeiro “arquiteto” que “tem pressionado o ICE para endurecer e apresentar mais números, trazer pessoas e só depois ver se são as pessoas certas”.

“A imprudência, a brutalidade, a falta de processo legal. Tudo isso tem raízes em Stephen Miller”, frisou o especialista.

Depois do erro de Minneapolis, o principal conselheiro de Donald Trump “terá um papel público muito menor no futuro previsível”, afirmou Henry Olsen, investigador no Ethics and Public Policy Center, em Washington.

“É claro que Trump pessoalmente não gosta, do ponto de vista das relações-públicas, do que tem estado a acontecer, e é sensível a isso, sempre foi. Ele sabe, tanto pelo seu instinto como pelo que os dados lhe dizem, que Miller e Noem não se favoreceram com a forma como abordaram imediatamente a morte” de Pretti.

Mesmo assim, corrobora a opinião dos investigadores que não acreditam numa demissão de Miller: “Ele está com Trump há bastante tempo e o presidente não tem problemas em livrar-se de subordinados que não rendem, mas suspeita-se que Miller, em muitos aspetos, está a render e, por isso, Trump não o vai atirar borda fora precipitadamente.”

“Stephen Miller é demasiado dominante no esquema mental de Trump sobre o que a base MAGA quer, para ser verdadeiramente afastado do seu círculo. Não acho que exista um mundo em que Miller não mantenha a sua autoridade e o seu poder junto de Trump”, corrobora Rick Wilson.

Henry Olsen sublinha que é do interesse de Donald Trump manter Miller por perto, já que o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, rende onde interessa ao presidente: na televisão. É um defensor combativo de Trump, que caracteriza os democratas como uma “organização extremista doméstica” e a América como líder de um mundo “governado pela força, governado pela violência, governado pelo poder”.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Robert Reich - Trump cumpriu as suas promessas?


A administração Trump começou a semana a contar mentiras sobre o assassinato de Alex Pretti. Agora, Trump voltou a mentir sobre a economia para mudar de assunto. Trump mente como qualquer outro ser humano respira.

O primeiro ano de Trump no cargo tem sido repleto de mentiras e promessas quebradas. Estamos no auge das eleições intercalares, pelo que não é demasiado cedo para examinar o que prometeu e como cumpriu as suas promessas.

No vídeo desta semana, analiso as 10 maiores promessas de campanha de Trump e o que aconteceu desde que assumiu o cargo.

Duvido que precise de ser convencido, mas talvez queira partilhar o vídeo com o seu "Tio Bob" trumpista ou com qualquer outra pessoa que ainda acredite que ele está a fazer o que prometeu.

Está a sentir a "Nova Era de Ouro"? Está a gostar dos preços dos imóveis e da energia "reduzidos para metade"? E a satisfação de ter paz em todo o mundo? E quanto à promessa de divulgar TODOS os arquivos de Epstein?

São tantas as promessas para referir que nunca adivinharia qual é que ele de facto cumpriu.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Tempos de escalamento de guerra

Esta pintora Alemã fascina-me bastante.

Esta pintura e uma breve ausência do ruído das redes sociais e de notícias da praxis de políticos medíocres que nos sobressaltam como colectivo, levou-me a esta reflexão.

"Tempos de escalamento de guerra revelam uma tensão central do pensamento político moderno: a contradição entre o progresso técnico e a fragilidade ética. Nunca a humanidade dispôs de tantos instrumentos para cooperar globalmente, e nunca foi tão evidente a facilidade com que o medo, o nacionalismo e a lógica de poder se sobrepõem à razão política. O escalamento não nasce apenas de armas, mas de discursos que normalizam a excepção, a desumanização do outro e a ideia de que a violência é inevitável.

Ainda assim, o pensamento político moderno não se esgota no realismo cínico. Da tradição iluminista aos movimentos democráticos contemporâneos, persiste a noção de que a política pode ser um espaço de contenção da barbárie, e não o seu motor. A esperança, neste contexto, não é ingenuidade: é uma práctica consciente. Ela manifesta-se na defesa do direito internacional, na diplomacia, na sociedade civil activa e na recusa em aceitar a guerra como destino.
Agir em tempo de medo exige, antes de tudo, resistir à sua naturalização política. O medo não é apenas uma emoção individual, mas um dispositivo colectivo que pode ser mobilizado para justificar a suspensão do juízo crítico, a concentração de poder e a erosão do espaço público. Reconhecer esta dimensão é um primeiro gesto de acção: tornar o medo objecto de reflexão, e não princípio de decisão.

Pensar politicamente no contexto contemporâneo implica, em última instância, uma escolha normativa fundamental: ou a reprodução de lógicas securitárias que intensificam o medo, a polarização e o conflito, ou o compromisso crítico com a construção de horizontes políticos partilhados, capazes de sustentar a possibilidade de um futuro comum, mesmo em contextos marcados pela incerteza e pela escalada da violência."

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

"Este é o NOSSO Hemisfério"- diz Trump sobre eventual invasão ilegal da Gronelândia


Hitler chamou-lhe Lebensraum ("Espaço Vital").
Putin chama isso de Russkiy Mir ("o Mundo Russo").
Trump chama isso de "Nosso Hemisfério".

Seja em sua forma nazi, racista ou fascista americana, esse imperialismo descarado deve ser combatido por todos os amantes da liberdade, em qualquer lugar do mundo.
O direito internacional, tal como a Carta da ONU, reconhece a igualdade de soberania dos Estados.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Boxing Day ou dia de Santo Estevão


Hoje é feriado no Reino Unido, e em vários países europeus. Em terras de Sua Majestade celebra-se o Boxing Day, que coincide com o o dia de Santo Estevão. Na Idade Média, e mesmo nos séculos seguintes, era um dia dedicado à caridade. As famílias abastadas dispensavam os trabalhadores e criados, e ofereciam-lhes comida e dinheiro, como recompensa por terem servido os patrões na Consoada e no dia de Natal. As igrejas abriam as caixas das esmolas, e distribuíam pelos pobres, e as famílias mais carenciadas da comunidade recebiam ofertas dos mais ricos. Pensa-se que este costume já existia no início da Cristandade, no final do Império Romano. No Reino Unido, quando o dia 26 calha a um Sábado ou Domingo, o feriado é transferido para o primeiro dia útil seguinte. O dia de Santo Estevão é celebrado em várias regiões ou países europeus, ou que fizeram parte do Império Britânico (África do Sul, Austrália, Canadá, Chipre, etc).

sábado, 27 de setembro de 2025

O Concerto Espiritual: A música barroca na época de Luís XV


Concert Spirituel (Concerto Espiritual, em francês) é o nome da série de eventos de concertos que existiu de 1725 a 1791 em Paris e foi pioneira para o gosto musical na França do século XVIII.

No final do reinado de Luís XIV (1722-1774), os chamados "concertos privados" tornaram-se moda em França. A música já não acontecia em igrejas e palácios, mas em casas particulares e jardins ao ar livre. Estes "concertos privados" tiveram o seu auge em França durante o reinado de Luís XV (1722-1774).

O nome Concert Spirituel deriva do facto de os concertos terem sido concebidos para serem realizados durante a Quaresma e outros feriados religiosos da Igreja Católica, totalizando cerca de trinta e cinco dias por ano, durante os quais todas as actividades "profanas" das principais instituições musicais e teatrais, como a Ópera de Paris, a Comédie-Française e a Comédie-Italienne, eram paralisadas.

Musique et Histoire é um festival internacional que se realiza anualmente desde 2006 na Abadia de Fontfroide, em Narbonne. O seu diretor artístico é o violista, maestro e musicólogo hispano-catalão Jordi Savall. Os concertos têm lugar em diferentes locais: particularmente na Corte Luís XIV, na igreja da abadia e no refeitório dos monges.

sábado, 9 de novembro de 2024

Make America Great Again!


The worst Holocaust in all of Human History
The American Holocaust consisted of the genocide of 100 million indigenous and native Amerindians
Dismantling The Empire is the only way to save America!~ Jill Stein

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

O Reino Unido é o maior facilitador mundial de abusos fiscais transfronteiriços


Juntamente com a sua rede de dependências da coroa e territórios ultramarinos, o Reino Unido é o maior facilitador mundial de abusos fiscais transfronteiriços. Na verdade, a "teia de aranha" do Reino Unido, como é frequentemente conhecida, foi desenvolvida como um sistema global de extração económica durante a retirada do seu império colonial formal. Um novo documento entregue ao Comité para a Eliminação da Discriminação Racial expõe os impactos profundamente racializados desta injustiça, que prejudica os países maioritariamente não brancos do Sul Global, e o papel pernicioso que o Reino Unido está a desempenhar na tentativa de impedir os esforços de uma reforma significativa. O Reino Unido emergiu como um dos principais bloqueadores nas negociações sobre uma nova Convenção-Quadro sobre Cooperação Fiscal Internacional nas Nações Unidas, uma iniciativa apresentada pelo Grupo de África num esforço para resolver a pilhagem histórica e contínua das suas economias devido aos níveis maciços de abuso fiscal internacional. Fonte