Mostrar mensagens com a etiqueta John Cobb. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta John Cobb. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 16 de março de 2026

O Earthism e a Transição para uma Civilização Ecológica


A crise civilizacional que enfrentamos no século XXI - marcada pelas alterações climáticas, pela perda acelerada de biodiversidade e pela erosão dos tecidos sociais — não é apenas um problema técnico que se resolve com melhores painéis solares ou carros elétricos. Trata-se, fundamentalmente, de uma crise de identidade e de metafísica. No centro da resposta a este desafio surge o Earthism (ou Terrismo), uma filosofia e um movimento ético que propõe uma reorientação radical: a transição de uma visão antropocêntrica para uma visão ecocêntrica da existência.

A Génese do Terrismo: De Whitehead a Cobb Jr.
Para compreender o Earthism, é obrigatório passar pela figura de John B. Cobb Jr., filósofo e teólogo norte-americano que dedicou a sua vida a construir as bases de uma Civilização Ecológica. Cobb fundamentou o seu pensamento na Filosofia do Processo de Alfred North Whitehead. Segundo esta perspetiva, o universo não é uma coleção de objetos inertes e independentes, mas sim um fluxo contínuo de eventos e relações.

Nesta visão, a Terra não é um "armazém de recursos" à espera de ser explorado, mas um organismo vivo e dinâmico onde cada parte — do microrganismo ao ser humano — possui valor intrínseco. Ao contrário da visão mecânica da modernidade, o Earthism defende que a natureza é "experienciadora". Quando destruímos um ecossistema, não estamos apenas a perder matéria-prima; estamos a ferir a própria trama da vida da qual fazemos parte.

Earthism vs. Ecologia Profunda: Uma Distinção Necessária
É comum confundir o Terrismo com a Ecologia Profunda (Deep Ecology), popularizada por Arne Naess. Embora partilhem a crítica ao consumo desenfreado, as nuances são vitais. A Ecologia Profunda é, muitas vezes, uma filosofia secular e puramente biocêntrica que pode tender para uma visão misantrópica, vendo o ser humano como um intruso ou uma ameaça à "pureza" da natureza.

Já o Earthism de Cobb Jr. é profundamente humanista e integrador. Cobb não nega a singularidade humana; pelo contrário, ele afirma que, por sermos a parte da biosfera que atingiu a autoconsciência e a capacidade tecnológica, temos a responsabilidade ética de agir como "guardiões" da Terra. O Terrismo não pede o fim da civilização, mas a sua transformação total numa civilização que floresça em harmonia com os limites planetários.

A Economia como Subsidiária da Ecologia
Uma das maiores contribuições de Cobb para o movimento foi a sua colaboração com o economista Herman Daly. No seu livro seminal For the Common Good, ambos desmontaram o mito do crescimento económico infinito num planeta finito. Para um "Earthista", a economia atual é uma forma de loucura matemática: tratamos o capital natural (solo, água, ar) como se fosse inesgotável.

A proposta de Cobb e Daly é a substituição do PIB (Produto Interno Bruto) por indicadores que meçam o bem-estar real e a integridade ecológica. Defendem uma Economia para a Comunidade, onde a produção é local, circular e regenerativa. Aqui, o sucesso não é medido pela acumulação de riqueza abstrata, mas pela capacidade de uma comunidade sustentar a vida de forma digna e sustentável.

A Convergência com Outros Pensadores
O Earthism não é uma ilha intelectual. Ele converge com o pensamento de Thomas Berry, que nos instigou a realizar o "Grande Trabalho" de transição da era Cenozoica para uma era Ecozoica. Bebe também da Democracia da Terra de Vandana Shiva, que luta contra a privatização da vida e pela proteção das sementes e da biodiversidade no Sul Global.

Conclusão: O Regresso à Terra
Em última análise, ser um adepto do Earthism significa reconhecer que não somos "donos" de nada, mas sim "terrestres". É a compreensão de que a espiritualidade, a política e a economia devem estar ao serviço da comunidade da vida. Como John B. Cobb Jr. frequentemente afirmou, o nosso destino e o destino da Terra são um só. Se a Terra falhar, a humanidade falha; mas se aprendermos a viver como parte integrante deste superorganismo, poderemos finalmente construir uma civilização que seja digna desse nome.

Referências Bibliográficas
  1. Berry, T. (1999). The Great Work: Our Way into the Future. Nova Iorque: Bell Tower.
  2. Cobb, J. B., Jr. (2010). Spiritual Bankruptcy: A Prophetic Call to Action. Nashville: Abingdon Press.
  3. Daly, H. E., & Cobb, J. B., Jr. (1994). For the Common Good: Redirecting the Economy toward Community, the Environment, and a Sustainable Future. Boston: Beacon Press.
  4. Naess, A. (1989). Ecology, Community and Lifestyle: Outline of an Ecosophy. Cambridge: Cambridge University Press.
  5. Shiva, V. (2005). Earth Democracy: Justice, Sustainability, and Peace. Londres: Zed Books.
  6. Whitehead, A. N. (1929/1978). Process and Reality: An Essay in Cosmology. Nova Iorque: Free Press.

domingo, 15 de março de 2026

A filosofia de John Cobbe


O pensamento de John B. Cobb Jr. (nascido em 1925, Japão) representa uma das sínteses mais ambiciosas dos séculos XX e XXI entre a espiritualidade, a ciência e a economia. Como principal expoente da Teologia do Processo, Cobb baseou a sua visão de mundo na filosofia de Alfred North Whitehead (1861–1947), rejeitando a ideia de um universo estático composto por objetos isolados. Para ele, a realidade é um fluxo contínuo de eventos interconectados, onde cada ser é constituído pelas suas relações com os outros. Esta perspetiva alterou radicalmente a compreensão de Deus: em vez de um monarca onipotente e imóvel, o Deus de Cobb é uma presença sensível que sofre e se alegra com a criação, influenciando o mundo não pela coerção, mas pela persuasão em direção ao bem, à beleza e à vida.

Essa fundamentação filosófica levou Cobb a tornar-se um pioneiro da teologia ecológica. Ao compreender que o bem-estar humano é indissociável da saúde da biosfera, passou a criticar severamente o modelo de desenvolvimento industrial. A sua colaboração mais famosa neste campo ocorreu com o economista Herman Daly (1938–2022), com quem escreveu a obra seminal For the Common Good (1989). Juntos, desafiaram o uso do PIB como única métrica de progresso, argumentando que o crescimento económico cego ignora a degradação ambiental e a erosão das comunidades. Propuseram o Índice de Bem-Estar Económico Sustentável (ISEW), uma ferramenta prática para medir a economia sob uma ótica de preservação e justiça social.

Além de Daly, outros colaboradores foram fundamentais para a expansão deste sistema. Charles Hartshorne (1897–2000) forneceu o rigor lógico necessário para definir a natureza dipolar de Deus no processo, enquanto David Ray Griffin (1939–2022) trabalhou ao lado de Cobb na fundação do Center for Process Studies em 1973, consolidando a teologia do processo como uma alternativa viável à modernidade materialista. Cobb também se destacou no diálogo inter-religioso, especialmente com o Budismo, publicando Beyond Dialogue: Toward a Mutual Transformation of Christianity and Buddhism em 1982. Atualmente, o seu legado vive no movimento pela Civilização Ecológica, uma proposta de reorganização total da sociedade que busca garantir a sobrevivência e o florescimento de todas as formas de vida na Terra, conceito que ganhou forte tração em fóruns internacionais e políticas de sustentabilidade na China a partir de 2007.

E o que é a Civilização Ecológica?
Cobb foi um dos primeiros a usar o termo "Civilização Ecológica". Ele acreditava que o modelo atual de civilização industrial está em colapso e que o Terrismo é a base para a próxima fase da humanidade:
  1. Localismo: comunidades mais pequenas e autossuficientes.
  2. Respeito biocêntrico: leis que protegem o ecossistema acima do lucro corporativo.
  3. Educação integrada: ensinar as crianças que a sua identidade é, antes de mais, "terrestre".
"O destino da humanidade e o destino da Terra são um só." — Esta frase resume a dedicação de Cobb ao longo de décadas.

É fascinante notar como Cobb influenciou até políticas públicas na China, onde o conceito de "Civilização Ecológica" foi adotado oficialmente.[em março de 2018]

Biografia
Mais info aqui

Urze de Lume - Besta Soberana


Na linha de bandas como ROMErepresentando a melancolia das cinzas da Europa, os Urze de Lume são o fogo que ainda arde nas serras portuguesas. Falar da filosofia deste projeto nacional, liderado por Ricardo de Castro e Tiago de Castro, é mergulhar no que eles próprios chamam de "Música das Terras Ásperas", uma missão de resgate cultural que vai muito além da estética. O pilar central do seu pensamento é o atavismo, a recuperação de instintos ancestrais que a modernidade tentou apagar, focando num Portugal profundo, rural e pré-cristão. Esta música serve como uma ponte para um tempo em que o homem e a terra eram um só, manifestando um saudosismo espiritual e telúrico em vez de político.

A própria materialidade do som é uma declaração filosófica, rejeitando o sintético através do uso de instrumentos tradicionais como adufes, bandolins e gaitas-de-fole transmontanas, além de elementos orgânicos como ossos, pedras e o som do ofício manual de pastores e ferreiros. O nome "Urze de Lume" simboliza esta resiliência: a urze que cresce em solos pobres e o lume que purifica e aquece, sugerindo que a cultura portuguesa, embora pareça esquecida, pode sempre voltar a arder com a faísca certa. Diferente do Neofolk nórdico, a filosofia da banda foca no animismo ibérico e na sacralidade do solo, celebrando divindades pré-romanas como Endovélico e integrando sons reais das serras da Estrela ou do Gerês. Em resumo, os Urze de Lume propõem uma "Ecologia da Alma", um convite para olhar para as montanhas e para o silêncio dos campos, ecoando em cada batida de adufe o sentimento de que nascemos da terra e a ela voltaremos.

Site oficial
Urze de Lume

ROME – Hate Us And See If We Mind


[Verse 1]
We could never have won this;
We were fighting blind
Now we've all but conquered fate
So hate us, and see if we mind
Washing off the dust
Like the first rains of the raining season
And encircling rage and reason, we postponed our grieving
But the rains, they never seem to come

[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over

[Refrain]
All over
All over

[Verse 2]
To this house of stone we flock
Hiding like the snails between the reeds and rocks
And they'll be searching the valleys in vain
As we'll be waiting for the rain
A nation reborn; a lame shepherd
One must wait and go for the throat when hunting leopard
Now, we're blinking back each tear
There's no changing the balance of fear
You might also like
One Fire
Rome
The River Eternal
Rome
A Country Denied
Rome
[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over

[Refrain]

[Chorus]
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know it's all over
To have you here
To make you see
The wild hoax we pulled; it's all over
What care for glory?
What care for thee?
By now, you know It's all over

[Outro]
All over
All over
All over

"Hate Us And See If We Mind" (Odeie-nos e veja se nos importamos) é uma música de desafio e resiliência.
Estoicismo e isolamento: a letra fala sobre manter a própria posição e identidade, independentemente do julgamento externo ou do ódio alheio. É um hino àqueles que vivem à margem ou que escolheram um caminho difícil e impopular.
Identidade europeia: como é comum no ROME, há uma camada de melancolia sobre o destino do continente. A canção sugere um orgulho silencioso e uma resistência contra a homogeneização do pensamento moderno.
Referência histórica: o título ecoa o lema romano Oderint dum metuant ("Que odeiem, desde que temam"), mas Jerome Reuter o transforma em algo mais introspectivo: não se trata de causar medo, mas de uma indiferença soberana perante a hostilidade do mundo.