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sábado, 25 de julho de 2026

A Odisseia é ficção. Mas os seus monstros e magia podem ter bases científicas

Pellegrino Tibaldi (1550–1551) - Ulisses acceca Polifemo (em português: Ulisses cega Polifemo)

A Odisseia é um mito. É duvidoso que um homem tivesse demorado, literalmente, uma década a viajar desde Tróia, uma cidade situada na costa da Turquia, até à ilha grega de Ítaca após a guerra de Tróia, tivesse sido amaldiçoado para fazer amor com bruxas, viajado até ao Hades e lutado com um ciclope. Ou, se tivesse mesmo demorado assim tanto tempo, a sua maldição deveria incluir não pedir indicações.

No entanto, o relato da viagem extraordinariamente longa de Ulisses alude a coisas que as pessoas poderão ter encontrado no mundo antigo, desde um ciclope de carne e osso a remoinhos assassinos e plantas alucinogénicas. Seguem-se algumas das realidades científicas por trás das suas lendárias aventuras.

O ciclope
Na história, o ciclope Polifemo - um gigante que aprecia carne humana e, como é óbvio, tem apenas um olho no meio da cabeça - prende a tripulação de Ulisses e come alguns dos seus homens ao almoço. Ulisses cega Polifemo com uma lança aquecida e depois eles conseguem fugir, amarrados às barrigas das ovelhas de Polifemo.

Uma das hipóteses para a origem deste gigante mítico com um só olho encontra-se nos fósseis do Deinotherium giganteum, um parente do elefante que deambulou pela Europa, a Ásia e África há entre 23 e 8 milhões de anos. Paleontólogos desenterraram os seus ossos na ilha de Creta, onde os antigos gregos também os podem ter encontrado. Os crânios de elefante têm cavidades oculares relativamente pequenas, com um orifício enorme no centro. Esse orifício aloja a tromba. Contudo, uma vez que os elefantes alcançavam 4,6 metros à altura do ombro, o enorme crânio poderá ter sido confundido com a cabeça de uma pessoa gigante com um só olho.

No entanto, os gregos também poderiam estar familiarizados com a ciclopia, um defeito congénito raro e mortal, em que as órbitas oculares e o cérebro não se dividem da forma correcta durante o desenvolvimento do embrião humano. Em vez de um nariz, o feto desenvolve um apêndice tubular que aparece geralmente acima de um único olho. A ciclopia só ocorre uma vez em cada 100.000 nascimentos humanos. Infelizmente, 39 por cento são nados-mortos e os que resistem ao nascimento não sobrevivem mais do que 13 horas.

Embora seja uma condição muito rara, os cientistas estimaram que na época d’ A Odisseia, poderiam nascer cerca de 53 casos de ciclopia humana por ano em todo o mundo. Além disso, outras espécies também podem padecer de ciclopia, incluindo ovelhas, vacas e cabras - sobretudo se as progenitoras ingerirem plantas como heléboro.

O monstro e o remoinho
Ulisses escapou a Polifemo de forma inteligente, mas uma vez encurralado entre o monstro marinho Cila, com as suas seis cabeças, e o poderoso remoinho Caríbdis, já não teve tanta sorte. Perdeu a sua tripulação numa tempestade intensa. Na manhã seguinte, Ulisses encontra-se entre os dois. Esta perigosa passagem baseia-se num sítio real – o Estreito de Messina, um canal estreito entre a Calábria, na península itálica, e a ilha da Sicília.

No estreito, o Mar Jónico encontra-se com o Mar Tirreno e os dois corpos de água têm marés opostas – a maré alta no Jónico é maré baixa no Tirreno e vice-versa, diz Sergio Longhitano, sedimentologista da Universidade de Basilicata, em Itália, que publicou um artigo sobre as águas traiçoeiras do estreito em 2018. Por isso, “no meio do Estreito de Messina, existe um ponto conhecido na oceanografia como ponto anfidrómico”, diz Longhitano, onde a altura da água nunca muda.

A altura pode nunca mudar, mas as correntes mudam, acelerando até uns estimados 5 metros por segundo quando há ventos fortes ou tempestades, diz Longhitano. As correntes rápidas e em constante mudança e as marés contrastantes formam padrões estranhos na água. “Por vezes, vêm-se as correntes divergentes”, diz Longhitano. As correntes mais fortes fluem em sentidos opostos, enquanto as mais pequenas puxam para dentro. Quando as correntes que puxam para dentro fluem na mesma direcção “ou quando as duas correntes convergem, pode haver remoinhos”, diz ele. As marés desta região mudam a cada seis horas, o que significa podem surgir remoinhos no estreito várias vezes por dia. Caríbdis está sempre à espera.

Quanto a Cila, o monstro de seis cabeças, existe “uma enorme falésia que pode ser vista à distância, sobretudo ao pôr do Sol. Conseguimos ver uma forma muito escura estendendo-se em direcção ao norte do Estreito de Messina”, explica Longhitano. Embora seja impossível conhecer a inspiração exacta de Homero, este pode ser um bom sítio para um monstro.

Os comedores de lótus
Alguns encontros d’ A Odisseia acarretam menos perigos, assemelhando-se mais a festas com drogas à disposição. Ao chegar a uma ilha, Ulisses envia batedores para conhecer os habitantes, mas eles são “comedores de lótus”, que partilham deliciosos frutos de “lótus”, pondo os tripulantes num transe que os leva a abandonar as suas tarefas.

Muitas pessoas pensam imediatamente em drogas viciantes como o ópio, mas os antigos gregos conheciam as papoilas e o ópio e não lhe chamavam lótus. Além disso, o ópio é mencionado especificamente na Odisseia, como “nepente”, uma droga que Helena de Tróia mistura com vinho para ajudar os gregos a esquecerem as suas adversidades.

O que era então o lótus? Numa análise efectuada em 2020, cientistas conseguiram identificar sete géneros diferentes de plantas às quais os antigos gregos chamavam “lótus”.

Algumas são os nenúfares que podemos descrever actualmente como flores de lótus, do género Nymphaea. Mas Homero diz que o “lótus dos Lotófagos” era uma árvore e autores posteriores como Heródoto, Teofrasto e Plínio situam os comedores de lótus no norte de África, na região da cidade de Trípoli, na Líbia.

“Não conheço nenhum ‘lótus’ que cause perda de memória, diz Joe Schwarcz, químico da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá. “Alguns historiadores supuseram que os gregos se referissem à jujubeira (ou tamareira-chinesa) como ‘lótus’.” Plantas arbustivas como a jujubeira pertencem ao género Ziziphus. As plantas deste género produzem um tipo jujuba que existe no norte de África. Este fruto não tem propriedades psicoactivas, mas pode ser fermentado e um golo de álcool é sempre bom para esquecer.

A bruxa que transformou homens em porcos
Noutra ilha, a bruxa Circe faz uma emboscada a Ulisses à a sua tripulação, causando-lhes mais problemas de memória. Fá-los beber uma poção com “drogas potentes que os fazem esquecer completamente o seu lar”. Ao beberem, os homens transformam-se em porcos. Ulisses vai libertá-los, auxiliado pelo deus Hermes, que colhe uma planta chamada moli, com raízes negras e flores brancas. Armado com a planta, Ulisses resiste à magia de Circe e salva os seus homens.

Seria necessária magia de verdade para transformar homens em porcos. Mas fazer homens acreditar que são porcos é muito mais fácil, diz Schwarcz. “Os antigos gregos conheciam certamente as plantas que tinham capacidades psicoactivas.” Plantas como a datura (Datura stromonium), frequentemente chamada figueira-do-inferno, e a beladona (Atropa belladonna) contêm compostos como atropina e escopolamina que bloqueiam os receptores de um mensageiro químico do cérebro chamado acetilcolina. “No cérebro, [este químico] participa na criação de memórias e o bloqueio da sua actividade causa alucinações e, possivelmente, delírios”, diz Schwarcz.

Quanto à “moli” que manteve Ulisses em segurança, “o antídoto para o envenenamento com atropina é a fisostigmina, que está presente no feijão-de-Calabar (Physostigma venenosum)”, diz Schwarcz. Num artigo publicado em 2022, Schwarcz também sugere que a flor branca de Ulisses pudesse ser Galanthus nivalis, que produz galantamina. Ambos os químicos bloqueiam a enzima que decompõe a acetilcolina, o que poderia aumentar os níveis do mensageiro químico. (Patologias como a doença de Alzheimer estão associadas a uma actividade reduzida da acetilcolina no cérebro e a galantamina e a fisostigmina foram ambas estudadas como tratamento.)

A Odisseia torna bem claro que as plantas podem ser remédios, mas também podem ser venenos. “A ideia mais enganadora talvez seja que “o natural é seguro” e “a natureza sabe o que faz”, diz Schwarcz.

E embora alguns dos encontros do poema épico possam ter uma base científica, um pouco de magia nunca fez mal a ninguém. É possível inventar monstros, os homens podem contar histórias sobre o submundo e as bruxas podem fazer venenos. “É apenas uma história. E numa história vale tudo”, diz Schwarcz. “As plantas podem transformar homens em porcos, embora algumas pessoas possam dizer que não são necessárias [plantas] para essa transformação.”


quinta-feira, 4 de junho de 2026

Encontros Improváveis: John Melhuish Strudwick e Fortunato Chelleri (1690-1757)


La navicella
Che scorge il lido,
La rondinella
Che trova il nido
Non han più l’odio
Di quel destino
Che le turbò.

Ma questo core
Costante e fido
Al dio d’amore,
Tiranno infido,
Al suo dolore
Chiedendo pace,
Non la trovò.

TRANSLATION (by John Thornley):
The little ship
Sighting the shore,
The swallow
Finding its nest,
Both forget their hatred
Of the malign fate
That threatened them.

But my heart
Constant and faithful
To the god of love,
That faithless tyrant,
Pleads for its pain
To give way to peace,
Yet none do I find.


É profundamente entusiasmante testemunhar a nova vaga de talentos que está a surgir no panorama musical contemporâneo. Ao ouvirmos interpretações desta qualidade, torna-se evidente que o futuro da música antiga está em mãos absolutamente excecionais. Esta nova geração de artistas alia uma técnica irrepreensível, que desarma qualquer complexidade das partituras barrocas, a uma sensibilidade e expressividade vibrantes. Longe de uma abordagem puramente académica ou rígida, estes jovens músicos tecnicamente estelares conseguem injetar uma frescura e uma energia contagiantes em obras com séculos de história, elevando a música barroca a níveis verdadeiramente estratosféricos. É um privilégio ver o passado ser redefinido com tanta vitalidade, transcendência e mestria.

Significado da ária
A ária "La navicella" (que se traduz como "A pequena embarcação") funciona como uma clássica ária de metáfora, ou aria di paragone, um dos recursos poéticos e dramáticos mais apreciados na ópera barroca. Através deste dispositivo, o libreto utiliza a imagem de um pequeno barco à deriva num mar revolto, fustigado por ventos violentos e ondas ameaçadoras, para espelhar visual e emocionalmente o estado de espírito da personagem. A tempestade e as águas tumultuosas representam as grandes adversidades da vida, os dilemas morais ou os conflitos amorosos e políticos que a sufocam, enquanto o barquinho frágil simboliza a própria personagem, indefesa e à mercê de forças que a transcendem na sua busca desesperada por um porto seguro. Na partitura de Fortunato Chelleri, esta agonia ganha vida através de ritmos agitados e cordas velozes que imitam o turbulento balanço do mar, exigindo da interpretação vocal um virtuosismo técnico brilhante para traduzir o pânico e a paixão humana, transformando uma simples imagem marítima num momento de pura transcendência dramática.

A Natureza não é um mero recurso - é onde o humano se reconecta

Toutinegra-de-bigodes-ocidental (Curruca iberiae)

Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol,
de céu e de lua mais do que na escola.

No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore, aprendeu melhor o azul.
E descobriu que uma casa vazia de cigarra, esquecida no tronco das árvores só serve para poesia.

No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores
são vaidosas. Que justamente aquela árvore na qual meu irmão
se transformara, envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que os
lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com as borboletas.

Manoel de Barros, in "O Livro das Ignorãças" (1993)

O poema de Manoel de Barros, extraído de O Livro das Ignorãças, constitui um hino à sensibilidade, à infância e à capacidade de o ser humano se libertar da lógica puramente racional para se fundir com o mundo natural. Ao longo dos versos, o autor convida-nos a compreender o mundo através daquilo que apelida de "desimportâncias", valorizando o olhar sensível em detrimento da rigidez utilitária do quotidiano.

No centro da narrativa encontramos o "estágio de ser árvore". Esta expressão não evoca uma metamorfose literal, mas sim um profundo exercício de empatia, silêncio e contemplação, onde o irmão do poeta adota o tempo e o ritmo da própria terra. É através desta simbiose que surge uma crítica subtil ao ensino tradicional e dogmático. Ao afirmar que o irmão aprendeu mais sobre o sol, a lua e a santidade no tronco de uma árvore do que na escola ou no internato com os padres, o poeta exalta o saber sensorial e a vivência direta. A comunhão com o meio ambiente revela-se a verdadeira escola da vida, capaz de aproximar o indivíduo daquilo que designa como o "perfume de Deus".

Manoel de Barros foca-se também na utilidade do que parece inútil. A imagem da casa vazia da cigarra, esquecida no tronco e que "só serve para poesia", ilustra perfeitamente a sua filosofia: numa sociedade focada no lucro e na funcionalidade, a arte e a poesia residem precisamente naquilo que foi abandonado e que perdeu a sua função prática. Ao mesmo tempo, o autor humaniza a natureza ao atribuir vaidade e ciúmes à árvore, esbatendo as fronteiras entre o Homem e o meio que o rodeia, celebrando uma amizade pura com as borboletas e os pássaros.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Allen Ginsberg faria hoje 100 anos


"We're beautiful golden sunflowers inside, blessed by our own seed and golden hairy, naked accomplishment-bodies, growing into mad black formal sunflowers in the sunset, spied on by our own eyes, under the shadow of the mad locomotive riverbank sunset Frisco hilly tin can evening sit down vision. " - Allen Ginsberg

Allen Ginsberg (1926–1997) foi a voz mais estridente, célebre e provocadora da Geração Beat — o movimento literário dos anos 50 que funcionou como o rastilho para a contracultura hippie dos anos 60. Poeta, ativista budista e provocador profissional, ele passou a vida a implodir os valores conservadores da América do pós-guerra.

Allen Ginsberg, a força motriz da poesia contracultural. Fonte: Wikipedia
Uma Vida na Vanguarda
Nascido em Nova Jérsia numa família judia, Ginsberg cresceu marcado pela doença mental da mãe (uma comunista convicta) e pela poesia do pai. Na Universidade de Columbia, nos anos 40, conheceu Jack Kerouac e William S. Burroughs. Juntos, formaram o núcleo do que seria a Geração Beat: um grupo focado na espontaneidade, na rejeição do materialismo e na exploração da consciência.

Ginsberg tornou-se o "ministro das relações públicas" do grupo, unindo a literatura ao ativismo político e social até à sua morte em 1997.

Os Factos Mais Polémicos e Contraculturais
O que tornou Ginsberg uma figura magnética (e profundamente odiada pelo establishment) foi a sua recusa absoluta em esconder quem era ou o que pensava.

1. O Julgamento por Obscenidade de "Uivo" (Howl)
Em 1955, Ginsberg leu em público o seu poema mais famoso, "Uivo" (Howl), em São Francisco. O poema abre com o lendário verso: "Eu vi os melhores cérebros da minha geração destruídos pela loucura...".

A polémica: quando o poema foi publicado pelo editor (e também poeta) Lawrence Ferlinghetti, as autoridades apreenderam o livro. O teor explicitamente homossexual e as referências a drogas levaram a um julgamento histórico por obscenidade em 1957.

O desfecho: o juiz declarou que a obra tinha "valor social redentor", transformando o livro num manifesto contracultural e dando a Ginsberg uma plataforma nacional.

2. Homossexualidade Aberta e a NAMBLA
Numa época em que a homossexualidade era considerada crime e doença mental nos EUA, Ginsberg vivia abertamente com o seu parceiro de uma vida, Peter Orlovsky. Ele usava a sua poesia para celebrar o sexo gay e desafiar a hipocrisia puritana.

A maior mancha no seu legado: anos mais tarde, o seu compromisso radical com a liberdade de expressão levou-o a defender e a afiliar-se à NAMBLA (North American Man/Boy Love Association), uma organização que defendia a legalização de relações sexuais entre homens e menores. Embora Ginsberg argumentasse que defendia apenas o direito à livre expressão e ao debate, esta posição continua a ser o ponto mais sombrio e indefensável da sua biografia.

3. O "Evangelista" do LSD e das Drogas Psadélicas
Ginsberg não consumia drogas apenas por recreação; ele via-as como ferramentas de expansão espiritual e política.
Participou nas primeiras experiências científicas com psilocibina em Harvard com Timothy Leary.
Defendeu publicamente o uso do LSD para "libertar a mente humana do controlo do Estado".

Foi deportado de Cuba em 1965 por chamar "atraente" a Che Guevara e criticar a perseguição do regime castrista aos homossexuais. No mesmo ano, foi expulso da Checoslováquia comunista após ser eleito "Rei de Maio" (Královna Máje) pelos estudantes de Praga, por ser considerado uma ameaça corruptora para a juventude.

4. Ativismo Político e o Conceito de Flower Power
Ginsberg esteve na linha da frente dos protestos contra a Guerra do Vietname. Durante os violentos protestos na Convenção Nacional Democrata de 1968, em Chicago, ele passou horas a entoar o mantra budista "Om" para tentar acalmar a tensão entre os manifestantes e a polícia militarizada.

Ele foi o criador do termo Flower Power (Poder das Flores), uma estratégia que desenhou em 1965 sugerindo que os manifestantes anti-guerra distribuíssem flores aos polícias e jornalistas para transformar os protestos políticos em espetáculos de paz e teatro visual.

O Vigilante do FBI: J. Edgar Hoover, o eterno diretor do FBI, considerava Ginsberg uma das maiores ameaças à segurança nacional dos EUA. O FBI manteve um ficheiro detalhado sobre o poeta com centenas de páginas, vigiando de perto os seus passos e as suas ligações à esquerda radical.

Ginsberg conseguiu a proeza rara de começar a carreira no submundo literário, ser perseguido pela polícia e terminar a vida como um membro consagrado da Academia Americana de Artes e Letras, sem nunca ter pedido desculpa por chocar o mundo.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Olhar nos olhos de uma ave

Papa-amoras-comum (Curruca communis)

"Olhar nos olhos de uma ave não é encarar um reflexo primitivo do passado, mas sim vislumbrar uma forma alternativa de inteligência. Sob o crânio minúsculo de um pássaro esconde-se um novelo de engenho: uma mente que mapeia continentes sem bússola, que cria ferramentas com a astúcia de um artesão e que reinventa a música todas as manhãs. A verdadeira genialidade das aves não está na capacidade de voar, mas na audácia de compreender o mundo com um cérebro do tamanho de uma noz."-Jennifer Ackerman

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Encontros Improváveis: Paul Éluard e Steven Mcloughlin


O perfume do espelho verde

A terra acorda vestida de azul,
Uma nudez de pétalas onde o vento se perde.
Não há caminhos entre as árvores,
Há apenas o olhar que se dissolve no infinito.

Eu toco na luz que atravessa as folhas,
Como quem toca nos teus cabelos ao amanhecer.
O bosque não esconde os seus segredos,
Exibe-os nesta tapeçaria de silêncio e cor.

Aqui, o tempo é um rio estagnado de flores,
Onde o rosa e o azul disputam a primazia da sombra.
Viver é este deslumbramento:
Ser árvore, ser haste, ser a claridade que nos salva.

O mundo é belo como um rosto reencontrado
No fundo de uma floresta que nunca termina.

Meu poema, baseado na leitura do livro Capitale de la douleur (1926), de Paul Éluard

Steven McLoughlin é um reputado artista britânico, nascido em 1970 em Derbyshire, Inglaterra, que se tem vindo a destacar no panorama da arte contemporânea pelo seu olhar único sobre as paisagens do Reino Unido. Maioritariamente autodidata, McLoughlin trabalhou durante vários anos no setor da arte comercial, um percurso que lhe permitiu consolidar uma extraordinária destreza técnica antes de se dedicar por inteiro à pintura de estúdio e de ar livre.

O seu estilo artístico insere-se num Impressionismo Atmosférico Contemporâneo. Mais do que uma reprodução literal ou fotográfica da realidade, o pintor procura captar o "estado de espírito" (mood) e a carga emocional de um lugar, deixando-se guiar pelas constantes mutações do clima e das estações do ano. As suas telas evocam uma profunda sensação de tranquilidade e nostalgia, convidando quem as observa a entrar na narrativa visual da obra, seja através de um caminho sugerido ou de uma clareira de luz.

No que toca à técnica, a luminosidade quase etérea que se observa em obras como Bluebell Forest é alcançada através de um processo minucioso. McLoughlin combina óleos e meios mistos, recorrendo frequentemente à técnica de vitrificação (glazing). Este método consiste na aplicação sobreposta de múltiplas camadas de tinta extremamente finas e translúcidas. Como resultado, a luz consegue penetrar estas películas e refletir-se a partir das camadas inferiores, conferindo ao tapete de jacintos-azuis e à folhagem das árvores um brilho vibrante, profundo e tridimensional que parece emanar do interior da própria tela.

domingo, 17 de maio de 2026

Pintassilgo (Carduelis carduelis) macho


"Eu não compreendo como alguém consegue olhar para uma ave e não ver um milagre da engenharia evolutiva. Cada pena, cada osso oco, cada batimento cardíaco acelerado é um poema escrito pela seleção natural para vencer a gravidade."
Richard Dawkins, biólogo evolutivo e autor do livro Flights of Fancy: Defying Gravity by Design and Evolution (2021)

Ao longo da sua vasta obra, o célebre biólogo evolutivo britânico defende que a seleção natural atua como um engenheiro cego, esculpindo cada detalhe anatómico ao longo de milhões de anos através de um processo implacável de tentativa e erro. No seu livro Flights of Fancy, Dawkins explora precisamente a forma como a vida animal desafia a gravidade, traçando paralelos impressionantes entre a engenharia mecânica humana e os mecanismos biológicos. Ele explica que a evolução não possui um plano abstrato numa folha de desenho; em vez disso, ela otimiza os organismos sobreviventes ao eliminar cruelmente os protótipos menos eficientes. É esta triagem contínua que justifica a perfeição aerodinâmica das penas de queratina, a resistência estrutural dos ossos pneumáticos reforçados por trabéculas e a eficácia incomparável do sistema respiratório de fluxo unidirecional das aves. Quando observamos o voo de um falcão ou a leveza de um passarinho, estamos a testemunhar uma obra-prima de design sem designer, onde cada batimento cardíaco acelerado é o resultado de uma pressão adaptativa extrema. Dawkins recorda-nos frequentemente de que a complexidade do mundo natural dispensa o sobrenatural, pois a ciência e a teoria da evolução oferecem uma explicação muito mais poética, elegante e mensurável para a beleza que nos rodeia.

Aqui estão alguns dos "milagres" de engenharia que fazem das aves o que são:
  1. Penas: não servem apenas para voar. A estrutura molecular das penas, composta por queratina, cria um isolamento térmico perfeito e uma aerodinâmica inigualável. As penas de voo combinam leveza extrema com uma resistência mecânica notável.
  2. Esqueleto Pneumático: para vencer a gravidade, o peso precisa de ser minimizado. Muitas aves possuem ossos ocos que são internamente reforçados por pequenas hastes (chamadas trabéculas). Isto garante a rigidez necessária para suportar a força dos músculos peitorais sem adicionar peso extra.
  3. Sistema Respiratório: o voo exige uma quantidade massiva de energia e oxigénio. Ao contrário dos mamíferos, as aves possuem um sistema de sacos aéreos que permite um fluxo unidirecional de ar. Isto significa que o oxigénio flui continuamente pelos pulmões, tanto na inspiração como na expiração, garantindo máxima eficiência a altitudes elevadas.
  4. Metabolismo e Coração: para alimentar o voo, o metabolismo é extremamente acelerado. Os corações das aves são proporcionalmente maiores e mais eficientes que os nossos, permitindo bombear o sangue a uma velocidade e pressão elevadas.

Richard Dawkins on reverse engineering evolution’s optimal beauty
Análise do livro Flights of Fancy

terça-feira, 7 de abril de 2026

Os porcos são muito mais inteligentes, limpos e empáticos que a trupe MAGA e brutalistas destes tempos cinzentos

Porky (2021) por Andrea Lavery
Sobre a Pintora e o quadro
Andrea Lavery é uma conceituada artista que cresceu no ambiente rural de Newtown, Connecticut, EUA residindo e trabalha atualmente na zona costeira do mesmo estado. A sua trajetória artística é marcada por uma evolução orgânica e apaixonada; embora os seus registos biográficos privilegiem a experiência prática, a sua técnica revela um domínio consolidado dos meios tradicionais, fruto da sua formação académica com um Bacharelato em Belas Artes (BFA) pelo Paier College of Art, concluído em 1985.

O seu trabalho é amplamente classificado como Impressionismo Contemporâneo, um estilo que a própria define como "Happy Colorful Art". A temática da sua obra é profundamente inspirada pela natureza e pela vida selvagem, destacando-se as suas representações vibrantes de pássaros, abelhas, coelhos e flores. Através de pinceladas fluidas e expressivas, Lavery cria texturas ricas que privilegiam uma interpretação emocional e luminosa do objeto em detrimento de um realismo rígido.

Do ponto de vista técnico, a artista utiliza predominantemente óleos solúveis em água, recorrendo ao óleo de linhaça com a mesma propriedade para conferir transparência e fluidez às composições. Andrea Lavery é particularmente reconhecida por trabalhar em painéis de pequeno formato, nos quais consegue concentrar uma enorme densidade de cor e energia. O sucesso do seu estilo reflete-se não só em galerias, mas também no mercado de licenciamento, com as suas criações a serem aplicadas em tecidos (notavelmente para a QT Fabrics), impressões artísticas e diversos objetos de decoração.

Os porcos são muito mais inteligentes, limpos e empáticos que a trupe MAGA e brutalistas destes tempos cinzentos

O que diz a Ciência 
Apesar dos estereótipos de serem animais simplórios e desleixados, os porcos/suínos são animais extremamente inteligentes, limpos, emotivos e sociais.

A investigação contemporânea no domínio da etologia e da neurociência cognitiva tem demonstrado que os suínos (Sus scrofa domesticus) possuem uma complexidade neurocognitiva que rivaliza com a de primatas não humanos e cetáceos, destacando-se como uma das espécies mais inteligentes do reino animal. No estudo fundamental "Thinking Pigs: A Comparative Review of Cognition, Emotion, and Personality in Sus scrofa domesticus" (Marino & Colvin, 2015), os investigadores compilam evidências de que os porcos exibem uma memória a longo prazo notável e uma capacidade avançada de resolução de problemas. Um dos marcos desta inteligência é a compreensão da perspetiva espacial, demonstrada no estudo "Pigs learn what a mirror image represents and use it to obtain information" (Broom et al., 2009), onde os animais conseguiram utilizar espelhos para localizar alimento escondido, um indicador de processamento visual sofisticado.

Para além da inteligência lógica, os porcos manifestam uma vida social e emocional extremamente rica. A existência de empatia e contágio emocional foi documentada em "Indicators of positive and negative emotions and emotional contagion in pigs" (Reimert et al., 2013), revelando que estes animais não só sentem emoções complexas, como estas são influenciadas pelo estado de ânimo dos seus pares. Esta sensibilidade estende-se à interação com humanos e à capacidade de aprendizagem tecnológica, como comprovado pela recente investigação "Investigation of Video Game Play in Pigs" (Croney & Boysen, 2021), onde os suínos demonstraram competência na manipulação de joysticks para atingir objetivos num ecrã.

Contrariamente ao estigma popular, o porco é um animal instintivamente limpo; quando dispõem de espaço adequado, estabelecem áreas rigorosas para alimentação e repouso, mantendo-as afastadas das zonas de excreção. O comportamento de se refrescarem na lama é, na verdade, uma solução biológica engenhosa para a termorregulação e proteção dérmica, uma vez que a sua anatomia possui um número reduzido de glândulas sudoríparas. Em suma, a ciência moderna reitera que os porcos são seres sencientes, dotados de consciência social, capacidades cognitivas superiores e uma higiene comportamental que desafia preconceitos históricos.

Saber mais:

1. Pig Intelligence

2. From snout to tail, there’s more to pigs than meets the eye

3. No, Pigs Aren't Dirty

4. Eight Things You Probably Didn’t Know About Pigs

quinta-feira, 5 de março de 2026

Encontros Improváveis: Thomas Nashe e Vanessa Bowman



✍ "Spring, the sweet spring, is the year’s pleasant king,
Then blooms each thing, then maids dance in a ring,
Cold doth not sting, the pretty birds do sing:
Cuckoo, jug-jug, pu-we, to-witta-woo!..."
Thomas Nashe (1567 - 1601), Spring, the sweet spring

🎨 Vanessa Bowman é uma artista Britânica contemporânea de estilo naif que nasceu em 1970

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Encontros Improváveis - John Muir

Parque Natural do Alvão
John Muir: o profeta da natureza
John Muir (1838–1914) foi o catalisador que mudou a percepção do mundo ocidental sobre a vida selvagem, movendo-a da exploração utilitária para a veneração espiritual.

"Wilderness is a necessity... there must be places for human beings to satisfy their souls." – John Muir

John Muir, frequentemente aclamado como o "Pai dos Parques Nacionais", foi uma das figuras mais influentes na formação da consciência ecológica moderna. O seu pensamento não era apenas uma teoria académica, mas uma filosofia vivida, profundamente enraizada numa visão espiritual e holística da natureza. Para Muir, o mundo natural não era um recurso a ser explorado, mas um templo sagrado onde a humanidade poderia encontrar renovação e verdade.

O panteísmo naturalista
No cerne da filosofia de Muir reside a convicção de que Deus e a Natureza são indissociáveis. Influenciado pelo transcendentalismo de Ralph Waldo Emerson e Henry David Thoreau, Muir via em cada glaciar, árvore ou tempestade uma manifestação direta do divino. Ele rejeitava a visão antropocêntrica — a ideia de que a Terra existe apenas para servir o Homem — e argumentava que todas as espécies possuem um valor intrínseco, independentemente da sua utilidade para a civilização.

Preservacionismo vs. Conservacionismo
Muir é o principal rosto do preservacionismo. Esta postura diferenciava-o de contemporâneos como Gifford Pinchot, que defendia o "conservacionismo" (a gestão eficiente dos recursos naturais para uso humano). Enquanto Pinchot olhava para as florestas como madeira em potencial, Muir via-as como essenciais para a saúde espiritual e psicológica da humanidade. Para ele, a natureza selvagem (wilderness) deveria ser mantida intacta, protegida de qualquer intervenção comercial.

Pontos-Chave do Pensamento de Muir
  1. Interconectividade: Muir antecipou conceitos da ecologia moderna ao afirmar que, quando tentamos isolar algo na natureza, descobrimos que está "preso a tudo o resto no Universo".
  2. A Natureza como terapia: Ele acreditava fervorosamente que o contacto com o mundo selvagem era a cura para os males do materialismo industrial, descrevendo a ida para as montanhas como um "regresso a casa".
  3. Ativismo político: A sua filosofia traduziu-se em ação direta, resultando na fundação do Sierra Club e na criação de parques icónicos como Yosemite, Mount Rainier  e Sequoia.
"Milhares de pessoas cansadas, de nervos abalados e demasiado civilizadas, estão a começar a descobrir que ir para as montanhas é ir para casa; que a vida selvagem é uma necessidade." — John Muir

A herança de Muir continua viva hoje, servindo de base para o movimento ambientalista global e para a compreensão de que a preservação do planeta é, em última análise, a preservação da nossa própria essência.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Encontros Improváveis: Véronique du Boisrouvray e Albert Camus

Véronique du Boisrouvray - La Médaille (2018)

Quando vi este quadro à minha frente, pensei logo em Albert Camus: "Todo o acto de rebeldia expressa uma nostalgia pela inocência e um apelo à essência do ser." 

A Condessa Véronique du Boisrouvray nasceu em Paris, em 1951.

É uma artista autodidata de pastel e retrato
Contexto: Oriunda de uma linhagem aristocrática, a sua vida é marcada pela discrição e pela dedicação total ao aperfeiçoamento da sua arte, sendo membro de honra de prestigiadas sociedades de pastellistas.

Estilo e Técnica
A obra de Boisrouvray é frequentemente descrita como Realismo Poético ou Hiper-realismo Suave.

A Técnica do Pastel: ela utiliza o pastel seco com uma precisão cirúrgica. Ao contrário de muitos artistas que procuram um efeito "esfumado" ou impressionista, Véronique trabalha as camadas para obter uma densidade de cor e uma textura que, à primeira vista, muitos confundem com pintura a óleo.

Luz e Sombra: A sua técnica foca-se no chiaroscuro (claro-escuro), onde a luz parece emanar de dentro dos objetos, conferindo-lhes uma qualidade quase sagrada ou eterna.

Precisão: Existe um rigor técnico extremo na representação das texturas — seja a transparência de um vidro, a suavidade de uma pétala ou a rugosidade de uma fruta.

Tema Principal
A artista foca-se no retrato.
Como explora o retrato?
A artista não se limita a reproduzir uma face; ela utiliza o pastel seco para construir uma presença física e psicológica:

A Técnica da Camada: ela sobrepõe inúmeras camadas de pigmento puro para criar a "carne" do rosto. Isso permite-lhe obter tonalidades de pele extremamente realistas, onde a luz parece estar sob a epiderme, e não apenas refletida nela.

O foco no detalhe tátil: Véronique dá a mesma importância à textura de um tecido (como a blusa em "La Médaille") ou ao brilho de um fio de cabelo do que aos traços fisionómicos. Isso cria uma sensação de proximidade quase íntima com o modelo.

Iluminação de Estúdio Clássica: ela utiliza frequentemente fundos neutros e escuros (estilo tenebrismo), o que isola o sujeito e força o observador a concentrar-se na expressão e na interioridade da pessoa retratada.

Qual é a mensagem?
A mensagem central da sua obra foca-se na dignidade do silêncio e na beleza da introspeção:

A pausa no Tempo: num mundo saturado de imagens rápidas e digitais, os seus retratos convidam à lentidão. A mensagem é que existe uma beleza profunda nos momentos comuns e silenciosos.

A humanidade singular: ao pintar modelos contemporâneos com uma técnica que remete aos grandes mestres do passado, ela transmite a ideia de que a dignidade humana é intemporal.

A Espiritualidade no quotidiano: Através do uso magistral da luz, a artista eleva o modelo a algo quase sagrado. A "mensagem" não é política ou social, mas sim estética e contemplativa: um apelo para reconhecer a poesia na luz que incide sobre um rosto ou um objeto.


Prémios e Exposições
Apesar de não ter um currículo académico padrão, a sua qualidade técnica é tão elevada que é reconhecida por instituições de elite. É membro da Sociedade Francesa de Pastel, da Sociedade Francesa de Arte em Pastel e membro efetivo da Sociedade de Pastel da América. Expõe em mostras internacionais, nomeadamente no Festival Internacional de Pastel de Feytiat, e alcançou o estatuto de "Master Circle" na IAPS em 2023.

"A minha busca é a da harmonia e da luz. O pastel permite-me tocar a matéria de uma forma que nenhum outro meio consegue."

Por que a sua obra é relevante?
Num mundo artístico muitas vezes focado no abstrato ou no digital, Véronique du Boisrouvray mantém viva a tradição da observação meticulosa. Ela prova que o pastel, muitas vezes visto como um meio secundário ou de esboço, é capaz de uma profundidade e durabilidade monumentais.

sábado, 31 de janeiro de 2026

José Lemos e Brio - Las estreyas


Pintura Kees van Dongen (1877-1968) - "Recuerdo de Toledo"

Resenha do álbum Romance (with Brio, 2008)
"Se ainda não ouviu Lemos cantar — e deveria realmente presenciar a sua performance ao vivo, pois é um artista muito carismático — irá reparar como a sua qualidade vocal e expressividade possuem uma intensidade quase 'nervosa', que difere da técnica de legato mais lírica e cristalina de, digamos, David Daniels ou Andreas Scholl. Parte disso deve-se à natureza das canções, que exigem ênfases emocionais que, ocasionalmente, priorizam a paixão profunda em detrimento da pura beleza do timbre. E Lemos domina completamente tanto o seu material musical, que envolve em grande parte os floreados e as melodias microtonais características da música do Médio Oriente, como a língua, seja o espanhol ou o ladino (a 'língua nativa dos judeus ibéricos')."

Las estreyas de los cielos,querida,
Eyas son que arrelumbran,
En eyas no hay firmeza,Nin~a de mi corazon,
Ya me abasta la mia passion.

Prima vez que yo te vide, querida,
En mi alma entrates,
Rayos de sol me dates,
Nin~a de mi corazon.
En mis ojos relumbrates.

Una cosa te dire', querida,
El mundo no queda ansi',
Muchas cosas yo pensi',
Nin~a de mi corazon Ainda no te alcanci'.

Ten pasiensia con ti,querida,
En estos dias speras tu avenir,
Que mos sera' briyante,
Nin~a de mi corazon
Mi amor en ti fondi yo.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Encontros Improváveis - somos todos parte de um mesmo planeta


"A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da Terra." - Carlos de Oliveira, no livro Sobre o Lado Esquerdo, 1978

É uma bela metáfora poética que expressa a ideia de partilha e solidariedade global, significando que enquanto aqui é noite, a luz do dia está a iluminar outra parte do mundo, e vice-versa, mostrando que o pôr do sol de um é o nascer do sol de outro, numa dança cósmica de dia e noite que une a humanidade.

Em essência, é um lembrete poético de que somos todos parte de um mesmo planeta, partilhando os ciclos da natureza e a luz e a escuridão.

domingo, 18 de janeiro de 2026

A fermosura desta fresca serra


A fermosura desta fresca serra,
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do Sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos of’rece,
Me está se não te vejo magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando
Nas mores alegrias, mor tristeza.

Luís Vaz de Camões, in “Sonetos

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Liberdade não se canta: vive-se!


A Liberdade é Acção  
"Os pássaros domesticados cantam sobre a liberdade. Pássaros selvagens voam." - John Lennon

Introdução
Esta breve citação encerra uma reflexão profunda sobre a forma como compreendemos e praticamos a liberdade. No seu aparente contraste simples — cantar versus voar — está implícita uma crítica poderosa aos discursos que exaltam a liberdade sem a concretizar. Este pensamento é particularmente pertinente quando analisado à luz da educação, da ecologia e da sociedade contemporânea.

Educação: ensinar a cantar ou aprender a voar?
Grande parte dos sistemas educativos afirma formar cidadãos críticos, autónomos e livres. Contudo, na prática, muitos continuam assentes em modelos de padronização, obediência e reprodução de conteúdos. Neste contexto, os estudantes tornam‑se “pássaros domesticados”: aprendem o vocabulário da liberdade, do pensamento crítico e da cidadania, mas raramente dispõem de espaço real para questionar, experimentar ou errar.

Uma educação verdadeiramente emancipadora não se limita a falar de autonomia — cria condições para que ela seja vivida. Voar, aqui, significa permitir escolhas, fomentar a curiosidade, aceitar a diversidade de percursos e reconhecer o erro como parte essencial da aprendizagem. Como defendia Paulo Freire, não há educação neutra: ou ela domestica, ou liberta.

Ecologia: discursos verdes em gaiolas douradas
No campo da ecologia, a metáfora de Lennon ganha uma força ainda mais evidente. Nunca se falou tanto de sustentabilidade, biodiversidade e proteção ambiental. No entanto, a degradação dos ecossistemas continua a acelerar. Multiplicam‑se os discursos “verdes”, mas persistem práticas económicas e políticas que mantêm a natureza confinada a uma lógica de exploração.

Cantar sobre a liberdade da natureza traduz‑se em campanhas, relatórios e compromissos internacionais; permitir que os pássaros voem implica respeitar os limites ecológicos do planeta, restaurar ecossistemas e aceitar que nem tudo pode — ou deve — ser controlado.

Uma ecologia autêntica não é apenas declarativa. É prática, ética e relacional. Reconhece que a natureza não precisa apenas de proteção, mas de autonomia funcional.

Sociedade contemporânea: a ilusão da liberdade
Vivemos numa sociedade que se apresenta como livre, aberta e plural. Contudo, muitos dos nossos comportamentos são moldados por algoritmos, padrões de consumo, pressões sociais e medo da exclusão. Fala‑se muito de liberdade de escolha, mas as escolhas são frequentemente condicionadas.

Os “pássaros domesticados” da contemporaneidade repetem discursos de liberdade enquanto permanecem presos a rotinas e expectativas impostas. Já os “pássaros selvagens” são aqueles que ousam questionar, desacelerar, resistir à normalização e viver com coerência entre valores e ações.

Voar, neste contexto, implica responsabilidade, consciência crítica e, muitas vezes, desconforto.

Conclusão: da retórica à prática
A citação de John Lennon lembra‑nos que a liberdade não se esgota na palavra. É uma experiência vivida, construída diariamente nas escolhas individuais e colectivas.

Na educação, na ecologia e na sociedade, o desafio é o mesmo: deixar de apenas cantar sobre a liberdade e criar condições reais para que ela exista. Porque, no fim, não é o canto que transforma o mundo — é o voo.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Encontros Improváveis - Violent Vickie e Nino Oxilia (Rapsodia Satanica)


Come to me
Wild and free
Trust in me 

Come to me
Break the mold
Thing to hold

Broken arms
Cut up legs
End the race

Come to me
Love that’s free
Willingly

Come to me
Wild and free
Trust in me 

Come to me
Break the mold
Thing to hold

Broken arms
Cut up legs
Win the race

Come to me
Love that’s free
Willingly

I know you’re mine
In endless time
Open the door

Know you’re mine
Endless time
Say no more

Know you’re mine
Endless time
Open the door

May you please
Arrive
May you please
May you please
Arrive

Vídeo com extractos do Filme "Rapsodia Satanica" (1917)

Significado da canção:

“Open the Door”, da Violent Vickie, é geralmente interpretada como uma canção sobre isolamento emocional, desejo de ligação e vulnerabilidade, usando a imagem simples de uma porta fechada como metáfora central.

A letra sugere alguém que está do lado de fora, pedindo acesso não apenas físico, mas sobretudo emocional. “Abrir a porta” significa permitir proximidade, intimidade e confiança, enquanto a recusa ou demora em abri-la aponta para medo, retraimento ou trauma. A insistência do pedido transmite urgência e fragilidade, quase infantil, o que contrasta com o tom frio e minimalista da música.

Dentro da estética cold wave / minimal synth da Violent Vickie, a canção reforça sentimentos de alienação, solidão urbana e incomunicabilidade, típicos do pós-punk. Não é uma narrativa literal, mas antes um estado emocional: alguém que quer ser visto, acolhido e reconhecido, enfrentando o silêncio ou a indiferença do outro lado.

Assim, a canção pode ser lida tanto como um apelo romântico quanto como uma metáfora mais ampla sobre a dificuldade de criar ligações humanas num mundo fechado, defensivo e emocionalmente distante.

Sobre o filme
Rapsodia Satanica é um filme mudo italiano de 1915, dirigido por Nino Oxilia, com Lyda Borelli interpretando uma versão feminina de Fausto, baseada em poemas de Fausto Maria Martini. Pietro Mascagni compôs a sua única trilha sonora para o filme e regeu a primeira apresentação em julho de 1917.

Rapsodia Satanica é um dos filmes mais emblemáticos do cinema mudo italiano. Aborda o tema do pacto com o diabo como metáfora para o medo do envelhecimento, a vaidade e o desejo de juventude eterna. A história acompanha Alba d’Oltrevita, uma mulher rica e já envelhecida que, atormentada pela perda da beleza e do poder de sedução, aceita um acordo com uma figura demoníaca para recuperar a juventude. Em troca, compromete-se a não amar, condição que entra em conflito com a sua natureza humana quando se envolve emocionalmente com dois irmãos. A transgressão do pacto conduz a um desfecho trágico, sublinhando a ideia de que o desejo de desafiar o tempo e a ordem natural tem um preço inevitável. O filme insere-se no imaginário simbolista e decadentista da época, funcionando como uma versão feminina do mito de Fausto e refletindo uma visão moral e melancólica sobre a beleza, o amor e a efemeridade da vida.

A ligação à literatura decadente e simbolista é profunda. O filme dialoga com autores como Gabriele D’Annunzio, Charles Baudelaire, Joris-Karl Huysmans e Oscar Wilde, que exploram temas como a exaustão moral da modernidade, o culto da beleza artificial, o prazer ligado à morte e a atração pela ruína. Alba encarna a figura típica da femme fatale decadente: bela, melancólica, destrutiva, consciente da própria teatralidade e condenada pela intensidade do desejo. O enredo privilegia o estado de alma e a atmosfera em detrimento da ação, algo característico do simbolismo.

Do ponto de vista histórico, Rapsodia Satanica é fundamental para o desenvolvimento do cinema como arte estética e não apenas narrativa. O filme aposta numa encenação altamente estilizada, movimentos coreografados, figurinos exuberantes e gestos exagerados que transformam o corpo da atriz num elemento expressivo central. A música original de Pietro Mascagni, composta especificamente para o filme, antecipa a ideia de banda sonora sinfónica integrada na dramaturgia, algo raro na época. Além disso, o filme consolidou o modelo do diva film italiano, influenciando a representação da mulher no cinema mudo europeu e abrindo caminho para um cinema mais psicológico, lírico e autoral.

sábado, 20 de dezembro de 2025

Clarice Lispector - Estado de Graça

Santuário Cósmico
"Quem já conheceu o estado de graça reconhecerá o que vou dizer. Não me refiro à inspiração, que é uma graça especial que tantas vezes acontece aos que lidam com arte. O estado de graça de que falo não é usado para nada. É como se viesse apenas para que se soubesse que realmente se existe. Nesse estado, além da tranquila felicidade que se irradia de pessoas e coisas, há uma lucidez que só chamo de leve porque na graça tudo é tão, tão leve. E uma lucidez de quem não adivinha mais: sem esforço, sabe. Apenas isto: sabe. Não perguntem o quê, porque só posso responder do mesmo modo infantil: sem esforço, sabe-se.
E há uma bem-aventurança física que a nada se compara. O corpo se transforma num dom. E se sente que é um dom porque se está experimentando, numa fonte direta, a dádiva indubitável de existir materialmente.
No estado de graça vê-se às vezes a profunda beleza, antes inatingível, de outra pessoa. Tudo, aliás, ganha uma espécie de nimbo que não é imaginário: vem do esplendor da irradiação quase matemática das coisas e das pessoas. Passa-se a sentir que tudo o que existe — pessoa ou coisa — respira e exala uma espécie de finíssimo resplendor de energia. A verdade do mundo é impalpável."

Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'

sábado, 22 de novembro de 2025

Twin Tribes & The Cure - Monolith/Lovesong (mashup)


Diria que infelizmente isto não é propriamente um mashup , porque ouvir música a sério dos Twin Tribes com os The Cure seria um sonho!
A parte instrumental dos Twin Tribes foi quase completamente feito à minha maneira.
Isto fica bem claro, uma vez que não soa igual. 
Matt Wan

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Hilda Hirst


Dez chamamentos ao Amigo
"Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.

E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo

Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento." ~ Hilda Hirst

Foto minha.

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Ute Weiner


“Começa de novo todos os dias
com um pequeno passo de agradecimento
aprende a te surpreenderes com os olhos do coração

Recomeça todos os dias
com um pequeno passo de esperança
Atreve-te a algo novo com ousadia de confiança

Recomeça todos os dias
com um pequeno passo de perdão
semear um grão de paz

Recomeça todos os dias
com um pequeno passo de amor
descobre uma imagem em ti

Ensina-me algo de novo todos os dias
o caminho dos pequenos passos
com ela nos momentos da vida quotidiana
o presente se ilumina"

Tradução livre da autora Ute Weiner - "Dem Klang der Liebe lauschen: Meditationen und Gebete"