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sexta-feira, 7 de agosto de 2026
She Past Away - Soluk
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domingo, 19 de julho de 2026
A tecnocratização do erro: como o Marketing Político substituiu a resolução de problemas
Esta semana foi pródiga em sobressaltos sociopolíticos que nos impõem uma reflexão e ponderação, antes de irmos a banhos. A 'guerra da água' em Almada, o caos logístico nos exames motivado pelo outsourcing na Educação e o caso Luís Neves expuseram a erosão da legitimidade política pela perda de confiança, a tecnocratização do erro (transformar falhas políticas em meros 'problemas de comunicação') e a crise de credibilidade institucional.
No horizonte, desenha-se já o caminho para a destruição do Serviço Nacional de Saúde e, provavelmente, da Segurança Social.
Em todos os casos, o padrão repete-se: o erro estrutural é sistematicamente reduzido a um problema de comunicação, esvaziando o princípio da responsabilidade política e transformando a governação num permanente spin-off, onde a gestão da imagem pública substitui a resolução dos problemas reais.
A análise contemporânea da crise cívica
Este divórcio entre quem governa e quem é governado não constitui um exclusivo da nossa contemporaneidade, mas adquiriu uma sofisticação técnica sem precedentes históricos. Em 1973, quando Jürgen Habermas publicou Crise de Legitimidade, o pensamento político ocidental foi alertado para o facto de o Estado moderno ter assumido uma hipertrofia de responsabilidades administrativas que fatalmente ditaria a sua vulnerabilidade. Ao centralizar e tutelar a gestão direta de pilares como a instrução pública ou a segurança precípua, o poder político inevitavelmente politizou o quotidiano da sociedade civil. O reverso desta dinâmica apresenta-se de forma severa: sempre que as estruturas e as respostas falham na sua execução factual, a responsabilidade cai diretamente sobre a cúpula governativa, e não sobre a imprevisibilidade do sistema. Para mitigar esta fragilidade estrutural, as elites políticas contemporâneas ergueram uma barreira assente na tecnocratização e na gestão permanente da imagem mediática. Quando um modelo de avaliação escolar colapsa ou o percurso ético de um governante é fustigado por inconsistências, a máquina estatal reage através da redução do erro a um mero incidente técnico, a uma contingência organizacional ou a um problema de comunicação reativa. Esta degradação da substância democrática em favor do espetáculo - fenómeno que Bernard Manin teorizou como a Democracia de Público - esvazia o escrutínio factual e promove o isolamento cívico, induzindo o cidadão a uma retirada cínica para a esfera privada do consumo.
Esta alienação institucional acarreta profundas sequelas morais e psicológicas na comunidade. Axel Honneth, na sua obra fundacional Luta por Reconhecimento (1992), demonstrou que o motor da coesão social não reside unicamente em vetores económicos, mas sim na necessidade inalienável de validação da dignidade humana. Sempre que a governação mascara a incompetência estrutural através de artifícios de retórica ou de justificações burocráticas, desrespeita diretamente a inteligência do eleitorado e a sua condição de sujeito de direito. Ao permitir-se a degradação da escola pública ou do sistema de saúde, envia-se uma mensagem implícita de desvalorização aos profissionais essenciais e às famílias, destruindo a premissa da casa comum. É nesta exata rutura de expectativas que a cientista política Catherine de Vries ancora o seu diagnóstico contemporâneo em "Political Entrepreneurs: The Rise of Challenger Parties in Europe" (2020). Recorrendo a dados empíricos, De Vries comprova que o cidadão atual ultrapassou a mera apatia; manifesta, sim, uma postura desafiante e reativa contra a ineficácia governativa. Quando se constata que as infraestruturas básicas falham sistematicamente enquanto as lideranças investem em dispendiosas estratégias de marketing de crise, fratura-se irremediavelmente o contrato de fidelidade aos partidos tradicionais. O populismo radical não cria a indignação; limita-se a recolher e a instrumentalizar os estilhaços dessa humilhação social, oferecendo simulacros de pertença e identidades exclusórias a uma população deliberadamente desprovida de voz pela arrogância tecnocrática.
Propostas de resolução e caminhos
A reversão deste diagnóstico e a consequente preservação das instituições democráticas requerem reformas profundas que transcendem o voluntarismo eleitoral ou a mera cosmética da mensagem oficial. A prioridade fundamental reside no desenvolvimento de uma autodefesa intelectual coletiva, pautada pela recusa inequívoca do jargão tecnocrático como justificação para falhas éticas ou políticas. Na ótica habermasiana, urge resgatar o agir comunicativo através da revitalização do espaço público informal, o que se traduz na necessidade imperiosa de reconstruir a comunidade a partir das suas bases, ocupando e dinamizando microespaços de debate real e deliberação local, onde o descontentamento atomizado possa ser articulado como exigência cívica organizada.
No plano das estruturas do Estado, o pensamento de Honneth impõe a necessidade imperiosa de desmercantilizar os serviços sociais basilares. A blindagem da saúde, da habitação e da educação face à lógica mercantil do custo-benefício constitui a única via para devolver a estes setores o seu papel primordial de espaços de igualdade absoluta e de cidadania partilhada, o que exige, concomitantemente, uma justa dignificação material e estima pública pelas carreiras que asseguram a reprodução da vida social. Finalmente, o desenho prático desta transição beneficia das propostas de Catherine de Vries no que concerne à descentralização efetiva do poder e à urgência de novos paradigmas de prestação de contas. Torna-se indispensável a implementação de mecanismos diretos e independentes de monitorização e auditoria da ação governativa por parte da sociedade civil. A convergência entre o revigoramento da participação comunitária, a restauração da dignidade social e o desenho de uma transparência institucional implacável desenha a única rota viável para resgatar a legitimidade democrática e neutralizar o avanço das soluções populistas.
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sábado, 13 de junho de 2026
Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia
A sua vida invulgar sempre despertou a minha curiosidade.
Para terem uma ideia, Han é um antigo metalúrgico que resolveu deixar a Coreia do Sul para estudar filosofia na Alemanha sem entender uma única palavra de alemão. Como não bastasse, debruçou-se sobre Heidegger e, pouco tempo depois, tornou-se uma espécie de celebridade.
A sua enorme popularidade não se deve à sua vocação para se expor; pelo contrário, Han vive afastado da turbulência gerada pelas redes sociais. Ainda assim, é popular. Creio que isso se deve ao facto de Han tratar-se, sobretudo, de um filósofo extremamente intuitivo e perspicaz. Os seus argumentos não se constroem em torno de uma linguagem técnico-filosófica fechada nos seus termos e conceitos, destinada apenas aos seus pares, mas antes a aforismos que deixam transparecer, com suavidade e leveza, a beleza do seu pensamento. Este pequeno ensaio é prova do seu brilhantismo.
Nesta obra o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han faz um diagnóstico cirúrgico - e bastante sombrio - de como a internet, as redes sociais e os algoritmos mudaram a estrutura do poder.
Se no passado o capitalismo dominava os corpos e as indústrias, hoje o poder é exercido através do controle e da manipulação dos fluxos de dados. O livro defende que não vivemos mais numa democracia tradicional, mas sim em uma infocracia.
Os pilares centrais do livro
1. O regime de informação e a falsa liberdade
Han explica que saímos do modelo disciplinar (onde o poder reprimia as pessoas e era visto como um "vigia" violento) e entramos no regime de informação.
A grande armadilha da infocracia é que ela não opera pela proibição, mas pela sedução: nós nos sentimos livres e consumimos/produzimos dados voluntariamente o tempo todo. Essa sensação de liberdade é o que garante a eficácia da dominação. O poder agora é psicopolítico: ele entra na mente do indivíduo e prevê seus comportamentos sem que ele perceba.
2. A destruição da esfera pública e do discurso racional
Para que a democracia funcione, é preciso haver debate, escuta e um discurso racional (a ideia da esfera pública de Habermas). Han argumenta que a digitalização destruiu isso:
- As redes sociais funcionam no modelo de "bolhas de filtro", onde os algoritmos nos mostram apenas o que já concordamos.
- O debate deu lugar à polarização e à criação de "tribos digitais" que não dialogam entre si, apenas atacam.
- A comunicação atual é rápida, fragmentada e guiada pelo like, o que impede a reflexão profunda e o amadurecimento das ideias políticas.
3. Da democracia à Pós-Democracia digital (Dataísmo)
O autor alerta para o perigo do "Dataísmo" — a crença cega de que os dados e a Inteligência Artificial podem resolver todos os problemas humanos. Na infocracia, a política perde a ideologia e a visão de futuro, transformando-se em uma mera gestão de sistemas baseada em Big Data. Os políticos correm o risco de serem substituídos por especialistas e cientistas de computação, esvaziando o verdadeiro sentido da ação política.
4. A crise da verdade e o novo niilismo
O último grande ponto do livro é o descolamento da informação em relação à realidade. Na era das fake news, dos exércitos de trolls e da desinformação em massa, a verdade factual perde a importância. O que importa é o impacto emocional e a velocidade com que a informação circula. Isso gera um niilismo contemporâneo: as pessoas perdem a crença na existência de uma verdade comum, fragmentando a base de confiança que sustenta a sociedade.
O grande aviso de Han: a informação, que teoricamente deveria nos libertar e nos manter informados, tornou-se a ferramenta mais sofisticada de vigilância, controle e deformação do processo democrático.
domingo, 11 de abril de 2021
A vida actual não convida a pensar - Entrevista com Peter Sloterdijk
Peter Sloterdijk (Karlsruhe, Alemanha, 1947) é um dos grandes nomes do mundo do pensamento. Professor de Estética e Filosofia na Escola Superior de Design de sua cidade natal, há anos agita o mundo da filosofia – e o mundo como um todo – com suas obras, seu novos conceitos e termos, e suas opiniões. Autor de livros cruciais do pensar de nossa época como Crítica da Razão Cínica, Ira e Tempo e principalmente sua monumental trilogia Esferas (Bolhas, Globos e Espuma), em que desenvolve uma assombrosa teoria do espaço íntimo, Sloterdijk une sua profundidade intelectual a uma face midiática incomum em seu campo e uma cordialidade, um humor e uma ironia que o afastam do paradigma do filósofo alemão usual (Karl Popper, para citar um mal-humorado).
O pensador visitou Barcelona onde se reuniu com várias centenas de pessoas em uma conversa no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB). Apesar de sua afabilidade e sua aparente tranquilidade, entrevistar Sloterdijk, cujas páginas um ser humano comum frequentemente precisa ler várias vezes para conseguir entendê-las, é um desafio. Com as passagens de Esferas ainda flutuando na cabeça – “a esfera íntima, consubjetiva, não pode possuir em absoluto uma estrutura eucíclica e parmenídea: o globo psíquico não tem, com o filosófico bem arredondado, um único centro que irradia e engloba tudo, e sim dois epicentros que se interpelam mutuamente por ressonância” –, se entrevista Sloterdijk como se estivesse diante de Plotino. Um Plotino, de fato, um pouco desarrumado e sem meias.
A entrevista é de Jacinto Antón, publicada por El País, 05-05-2019.
Eis a entrevista.
Não lhe parece que o pensar, o pensar de verdade, se tornou uma excentricidade? Ao ler seus livros, tão intensos, percebemos que o pensamento sério, o que exige esforço e concentração, não é numeroso. Nós nos desacostumamos.
Sim. Certamente. Isso me lembra uma cerimônia zen em que o mestre pega uma chaleira, como eu estou fazendo agora, e despeja chá até encher a taça, e então continua despejando e o líquido derrama. Você não pode entender nada se a taça não está cheia.
Perdemos a capacidade de pensar?
Não é capacidade como tal. Mas não ocorrem as circunstâncias vitais que nos permitem afastar e ganhar distância. Para Husserl e sua fenomenologia era preciso sair do tempo impetuoso da vida, o dispositivo mais elementar era sempre dar um passo atrás. Essa ação permite que você se transforme em observador. Sem uma certa distância, sem uma certa desconexão a atitude teórica é impossível. A vida atual não convida a pensar.
Hoje a superficialidade se impõe à profundidade.
A Filosofia moderna abandonou mais ou menos a metáfora da profundidade. Preferimos dizer que tudo está na superfície, e se existe profundidade é preciso fazer com que ela suba à superfície como se fosse superficial. Caso contrário, você se transforma em um mistagogo, um iniciador em mistérios sagrados.
Também é verdade que pensar de verdade é difícil e tem algo de doloroso e angustiante quando se chega perto dos limites do eu e da autoconsciência.
Não estou convencido disso. A filosofia original na antiguidade era algo ambivalente. Temos os dois topos: Heráclito, que chorava, e Demócrito, que ria constantemente. Esse traço comentado de ambos pelas fontes aparece até mesmo em suas estátuas. Para Platão, de uma tradição diferente, pensar é o prazer mais elevado. Isso por uma razão: a essência do pensamento é lembrar e o que devemos lembrar é o fato de que estivemos muito próximos da essência divina e a única coisa que deve ser feita para eliminar os obstáculos que não te permitem alcançá-la é lembrar claramente. Basicamente, deveria se tratar de felicidade. Mas não funciona assim porque, certamente, na antiguidade os pensadores eram conhecidos por ter sempre um rosto triste. Eram mais respeitados por isso, seus compatriotas esperavam que tivessem aspecto melancólico e o cenho franzido (ri). Era um truque muito bom, porque ninguém sentia inveja de alguém triste. É melhor esconder sua boa sorte. O que me lembra uma frase de Walter Serner, o dadaísta, autor de Manual para Enganadores, que dizia que sempre que você se mudar a uma nova cidade deixe que o rumor de que você tem câncer o preceda, isso reduz a inveja. Seus competidores já não te levarão tão a sério.
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
História e Holocausto — Estudar o passado, conhecer os assassinos
Por Irene Pimentel, 14 de Janeiro de 2018
Aproximamo-nos de 27 de Janeiro, Dia Internacional da Memória do Holocausto ou da Shoah. Foi escolhido, em 2014, por ter sido nesse dia, em 1945, que o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau (Polónia) foi libertado pelo Exército Vermelho soviético. Como se sabe, a historiografia sobre a Shoah tem sido muito abundante, sendo abordadas, para explicar esse terrível acontecimento, questões como a do anti-semitismo e da eugenia, das etapas que levaram ao Holocausto, da resistência — ou falta dela — ao nacional-socialismo, bem como da singularidade desse terrível evento relativamente a outras atrocidades ou o facto de ser comparável com estas.
Aproveito a proximidade da data para referir uma abordagem que tem sido central ultimamente quando se trata do tema e que pode servir de exemplo à análise sobre qualquer ditadura, incluindo a portuguesa. Trata-se dos estudos sobre os carrascos e os seus motivos, que constituem já um subtema de estudo com o nome em alemão de Täterforschung (investigação sobre os perpetradores), não só na historiografia, mas também na antropologia, psicologia, ciências políticas, direito e até na ficção. É que torturadores e criminosos de massa não nasceram assim, tornaram-se perpetradores, como diz Françoise Sironi, repegando uma expressão de Simone de Beauvoir sobre as mulheres. O criminoso Reinhard Heydrich, braço direito SS de Heinrich Himmler, aderiu tarde ao partido nacional-socialista, e para arranjar um emprego, pois não foi aceite na Marinha de Guerra.
De um modo geral, os estudos sobre o Holocausto e os perpetradores caracterizaram-se, entre os anos 1940 a 60, pela demonização e psicopatologização dos envolvidos. Os julgamentos do pós-II Guerra, a partir do de Nuremberga, nomeadamente o dos Einsatzgruppen, em 1958, e sobretudo o de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961, bem como, depois, o de Auschwitz, em Frankfurt, deram a conhecer os principais criminosos, proporcionando a publicação de sólidas análises sobre os motivos, estruturas e métodos dos líderes do regime nacional-socialista. A sua forma comum de defesa assumida foi em geral a de que “apenas” eram executantes que teriam obedecido a ordens superiores.
A partir de 1961, na senda de Hannah Arendt (1906-1975) e Raul Hilberg (1926-2007), estabeleceu-se uma segunda fase na investigação, que interpretou o grupo de perpetradores enquanto burocratas e assassinos de secretária. Para Hannah Arendt, “o mal radical” (depois qualificado de “banal”) é “obra da liberdade dos homens vulgares”, assinalando a filósofa que “os autores do mal não têm uma alteridade absolutamente diferente” da generalidade dos seres humanos. Arendt foi muito criticada, e também por Hilberg. Em The Destruction of the European Jews (1961), interpretou a Shoah como um processo que funcionou em etapas sucessivas, levadas a cabo por uma multitude de decisores no seio de uma vasta aparelhagem burocrática, através de um processo desumanizante que não foi travado por qualquer ética, moral ou religião.
Hannah Arendt
O historiador Raul Hilberg tinha sido influenciado, por seu turno, por Franz Neumann (1900-1954) que, em Behemoth, de 1942, atribuiu ao regime nazi a dupla característica de surgir como um poder monolítico submetido a um chefe absoluto, mas que, nos bastidores, resultava da lei da selva partilhada por quatro poderes rivais e universos semiautónomos: a burocracia estatal; o Exército; a grande indústria; o partido nazi. O poder de Hitler residia na sanção que dava aos compromissos passados entre as forças que se digladiavam entre si, fora do círculo dos projectores.
Três caminhos
Na abordagem historiográfica da Shoah, uma preocupação central passou a ser a de descobrir os motivos dos carrascos, desenvolvendo-se, até aos anos 90 do século XX, três principais teorias que contribuem para a explicação do comportamento dos perpetradores: as narrativas intencionalistas, as estruturalistas e as situacionistas. Os chamados “intencionalistas” viram no extermínio a aplicação de um programa predeterminado e metodicamente planeado imposto de cima para baixo, derivando da vontade anti-semita de Hitler e da sua iniciativa individual, mas, muitos historiadores, apresentaram opiniões mais matizadas. Já os “funcionalistas”, retomando a tese de Neumann, nos anos 70, tenderam a analisar o Holocausto enquanto crime em massa “mecanizado” por um “aparelho industrializado de genocídio”.
Para Martin Broszat (1926-1989), o Estado nazi foi uma “policracia” pluridimensional, na qual a autoridade de Hitler constituía a garantia suprema da coesão do sistema. Por seu turno, Hans Mommsen (1930-2015), autor do conceito de “radicalização cumulativa” para descrever os diversos estádios que levaram ao Holocausto, reconheceu sobretudo o papel crucial de cumplicidade das elites alemãs com o regime. Ambos puseram em causa a ideia de que a evolução do Terceiro Reich resultaria da aplicação de um plano pré-estabelecido, há muito anunciado no Mein Kampf, dando centralidade à análise do sistema caótico nazi.
Prendendo-se com uma crítica do historicismo, desencadeou-se, nos anos 1980, no meio intelectual da RFA, a chamada historikerstreit (“querela dos historiadores”). Originada por uma ideia controversa do historiador alemão Ernst Nolte (1923-2016), segundo o qual o extermínio dos judeus deveria ser visto como uma forma de reacção aos crimes estalinistas, a contestação surgiu através o filósofo Jürgen Habermas, que, num artigo do jornal Zeit (11 de Julho, 1986), discutiu o estatuto do nazismo na memória colectiva alemã e a centralidade e singularidade do genocídio dos judeus, transformando a reavaliação do nazismo numa questão política e nacional. Os “funcionalistas” foram também criticados de historicismo e de relativizarem o quadro político, ideológico e moral específico, bem como substituírem a condenação moral do nazismo pela empatia com o objecto de estudo (Saul Friedländer).
As abordagens intencionalistas e funcionalistas foram depois matizadas através de sínteses com os aspectos positivos de ambos os lados. O historiador alemão Norbert Frei assinalou a importância do Führer como suporte carismático do poder e de arbitragem de conflitos, assente numa multiplicidade de centros de decisão e de conflitos. A coerência do “estado do Führer” (Der Führerstaat. Nationalsozialistische Herrschaft 1933-1945, editado em 1987) residiria na preeminência de um chefe supremo, que, ao mesmo tempo, soube responder à necessidade de integração social dos alemães, conseguindo obter a colaboração de pessoas vulgares que cooperaram no reforço do anti-semitismo e das medidas raciais.
Ian Kershaw, autor na segunda metade dos anos 1980 de obras sobre a opinião pública no III Reich e sobre Hitler, escreveria uma biografia monumental deste último em dois tomos: Hitler, 1889-1936: Hubris, publicado em 1998; e Hitler, 1936-1945: Nemesis, publicado em 2000. Ao apresentar o paradoxo de este não estar na origem de tudo mas ter sido indispensável, explicou o poder de Hitler pelo seu carisma político, concluindo que este resultou na colaboração de todos aqueles que, na Alemanha, ocuparam uma posição de influência, cujo objectivo foi servir o Führer, esforçando-se por adivinhar e pôr em prática os seus desejos.
Os estudos actuais não colocam a agência do Holocausto nos comandos centrais da estrutura (Hitler e Himmler), mas entre os perpetradores directos da periferia
É certo que, entre os sobreviventes do Holocausto, Primo Levi (1919-1987) — que só conseguiu publicar o seu primeiro livro em 1958, depois de ter visto recusada a edição em 1947, e só mais tarde descoberto, com Se Isto é Um Homem, A Trégua, Os Que Sucumbem e os Que se Salvam —, caracterizou Auschwitz como uma fábrica invertida da morte, onde não cabiam unicamente as vítimas (“zona branca”) e os carrascos (“zona negra”), mas uma enorme “zona cinzenta” composta por uma “classe híbrida de prisioneiros-funcionários”. Um terceiro estádio da análise historiográfica, na senda de Christopher Browning, influenciado pelo conceito de “zona cinzenta” de Levi, passou a originar novas representações dos perpetradores, vistos como “homens vulgares”.
No seu livro de 1992, Ordinary Men, Reserve police battalion 101 and the final solution in Poland, Browning revelou criminosos nazis, feitos do mesmo tecido (humano) dos outros, cujos actos resultaram, em parte, de circunstâncias em que se operou uma passagem do normal para o patológico no seio de um sistema em que os fins justificam os meios. Browning mostrou que a maioria dos elementos do Batalhão 101, que mataram judeus na Polónia, eram técnicos amorais, cujas iniciativas “de baixo” tornaram desnecessárias a explicitação precisa das ordens “de cima”. O autor concluiu que, no seio de qualquer colectivo social, o grupo dominante exerce uma tremenda pressão e impõe as normas morais. Por outro lado, as noções de lealdade, dever e disciplina baniram quaisquer considerações humanas e morais do seio dos “perpetradores”.
Certo é que a investigação sobre os perpetradores passou a examinar as “circunstâncias” situacionais, paralelamente às motivações ideológicas, abordagem a partir da qual se baliza o início dos estudos sobre perpetradores numa perspectiva “situacionista”.
Contrariamente à abordagem multicausal de Browning, ao estudar o mesmo grupo (Hitler’s Willing Executioners, de 1996), Daniel Goldhagem afirmou através de uma postura essencialista que a história cultural da Alemanha foi marcada por um anti-semitismo “eliminacionista”, principal motivo de os alemães levarem a cabo a Shoah. Na controvérsia à volta do livro de Goldhagen, com base nas mesmas fontes de Browning, este concluiu que uma combinação de factores situacionais e ideológicos concorreram para desumanizar as vítimas, transformando-os de “homens vulgares” em “executantes voluntários”.
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segunda-feira, 26 de novembro de 2018
Diante do avanço do populismo de direita, “o único caminho é desenvolver um populismo de esquerda”. Entrevista com Chantal Mouffe
Após visitar a Argentina pela última vez em 2015, a cientista política belga Chantal Mouffe retornou ao país esta semana para apresentar seu novo livro e participar do Fórum Mundial do Pensamento Crítico, organizado pelo Clacso. Ao contrário de suas obras anteriores, Por um populismo de esquerda (Gradiva) não é um texto de teoria política, mas uma interpelação direta aos diferentes setores da esquerda diante daquilo que chama de “momento populista”, iniciado com a crise do atual modelo neoliberal.
Professora da Universidade de Westminster (Inglaterra) e esposa do famoso Ernesto Laclau – um dos intelectuais argentinos mais destacados do mundo –, Mouffe adverte sobre a possibilidade de que a saída dessa “crise de hegemonia” seja através de um populismo de direita, encarnada por líderes como Donald Trump ou a francesa Marine Le Pen. No entanto, e em uma reivindicação do populismo como forma de articulação política, ela proporá uma saída para um populismo de esquerda, no qual haverá uma “radicalização da democracia” baseada nos pilares da igualdade e da justiça social.
Numa longa entrevista concedida ao jornal Página/12, e embora o eixo do seu pensamento seja a Europa Ocidental, Mouffe também se refere à Argentina e ao novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, a quem chama pura e simplesmente de “fascista”.
A entrevista é de Sebastian Abrevaya, publicada por Página/12, 25-11-2018. A tradução é de André Langer.
Eis a entrevista.
O que você quer dizer quando diz que este é um “momento populista”?
Estamos passando por uma crise da hegemonia neoliberal. Essa crise pode dar origem a várias saídas: uma que vai em direção a governos mais autoritários, que vão restringir a democracia e esse é o caso em que ganha o populismo de direita. Mas enquanto isso é verdade, também abre a possibilidade para uma ampliação da democracia. Isso depende da atitude das forças da esquerda, das forças progressistas. Eu sou fortemente contra considerar os populismos de esquerda e de direita como os dois lados da mesma moeda antidemocrática.
No livro, você desenvolve o conceito de “pós-democracia” e afirma que atualmente provoca uma grande quantidade de resistências. O que significa essa ideia de pós-democracia?
A situação pós-democracia tem dois componentes. Um mais político, que em 2005 chamei de “pós-política”. Naquele momento, dizia-se que a distinção direita-esquerda havia acabado e que a democracia se tornara mais madura. Mas, ao contrário do que todos diziam, isso não significou um progresso, mas que os cidadãos, quando iam votar, não tinham nenhuma possibilidade de intervenção. É por isso que os partidos social-democratas, quando chegaram ao poder, não produziram uma alternativa, mas vivenciaram um pouco mais humanamente essa globalização neoliberal.
O outro componente da pós-democracia é de tipo econômico e é o fenômeno da oligarquização das sociedades europeias que vem ocorrendo cada vez mais desde a crise de 2008. É uma situação em que há um grupo cada vez mais reduzido de pessoas super-ricas e, por outro lado, há as classes populares e também as classes médias, em uma situação cada vez pior. Fala-se da desapropriação e do desaparecimento das classes médias. Pode-se dizer que é um processo de latino-americanização da Europa Ocidental. É uma consequência do domínio do capitalismo financeiro. É o que eu chamo de pós-democracia em seus dois lados: o econômico e o político.
Vamos voltar ao básico. O que é o populismo?
Eu sigo a definição de populismo de Ernesto Laclau no livro A Razão Populista. Não é uma ideologia, é uma estratégia discursiva de construção política. É uma construção baseada na fronteira povo-oligarquia. Obviamente, vocês, na América Latina, já tiveram isso antes, mas agora vocês veem exatamente esse tipo de populismo na Europa. A grande diferença entre o populismo de esquerda e o populismo de direita é como se constrói esse povo, porque esse povo não é a população, não é uma referência empírica; o povo é uma construção política.
Por que temos que caminhar para um populismo de esquerda?
Eu estou convencida de que a única maneira de lutar, de impedir o desenvolvimento do populismo de direita é desenvolver um populismo de esquerda. Os partidos tradicionais europeus, justamente porque estão tão ligados à manutenção da ordem estabelecida, não oferecem a possibilidade de canalizar um caminho democrático e progressista, que, para mim, consiste em expandir a democracia, porque isso implica uma ruptura com a ordem neoliberal. Não há meio de se evitar a crise se não se questionar o modelo neoliberal, e é evidentemente isso que faz o populismo de esquerda. Não devemos aceitar que se alguém quer defender a democracia contra o populismo de direita, que evidentemente tem tendências autoritárias, tem que defender o status quo.
Como se explica o avanço do populismo de direita?
Uma das críticas que eu faço no livro é a ideia de que aqueles que votam no populismo de direita são pessoas intrinsecamente racistas, sexistas, etc. Por exemplo, no caso da França, acho que há muitas pessoas das classes populares que se sentiram abandonadas pelo Partido Socialista, que se dedicou exclusivamente às classes médias, e se sentem abandonadas. Essas pessoas que não são fundamentalmente racistas, mas se constroem vendo os imigrantes como os responsáveis por seus problemas.
Eu acredito que originalmente o que essas pessoas querem é ter voz. Uma coisa do movimento dos indignados que eu sempre gostei muito é que eles diziam: “nós temos voto, mas não temos voz”. E é verdade: durante o sistema pós-político você tem voto, mas não tem voz. A origem desses movimentos populistas é que nos escutem, nos deem dignidade, que nos reconheçam. E consideram que os partidos tradicionais não o fazem, e é por isso que são atraídos por esses partidos de direita.
Em certos setores, esses populismos de direita são chamados de fascistas. São formas de fascismo?
Isso me parece perigoso e sou contra dizer que são fascistas. Eu penso que há uma grande diferença entre o populismo de direita e os fascistas. Por exemplo, atualmente, e não falo apenas a nível europeu, mas pensando na América Latina, há apenas uma pessoa que merece o título de fascista e é (Jair) Bolsonaro. O projeto de Bolsonaro é claramente um projeto que coloca em questão o Estado de Direito e as instituições da democracia pluralista. Mas eu não vejo nenhum outro realmente no mundo ocidental que vá tão longe.
É perigoso, porque diante do fascismo, a única coisa que você pode fazer nesse caso é proteger-se, estabelecer um cordão sanitário para impedi-lo. Então, em primeiro lugar, você não vai entender o que está acontecendo, a razão pela qual as pessoas estão votando nesses partidos. E então não vai entender como impedir que cresçam. Parece-me que é totalmente contraproducente.
Qualificaria Trump como um populista de direita?
A campanha de Trump é definitivamente a campanha de um populismo de direita, mas o governo Trump não pode ser, porque o populismo não é um regime. Populismo é uma estratégia para construir um povo, para construir uma força política para intervir, para mudar. No caso do populismo de esquerda, para criar uma nova hegemonia. Mas, realmente, para mim, não faz sentido falar de um governo populista, porque todos os governos democráticos precisam reivindicar o povo. Na verdade, existe uma dimensão que eu posso chamar de populista, que é necessária na democracia. Você não pode ter uma democracia sem povo.
Quais são as diferenças entre esse populismo de direita e de esquerda?
Uma das diferenças é que o populismo de esquerda vê que o que está em questão é a globalização neoliberal, existe uma dimensão anticapitalista. Digo “dimensão”, porque o populismo de esquerda não é justamente uma esquerda marxista. Dentro do populismo de direita não há uma dimensão anticapitalista. O que há em certos casos é uma dimensão antineoliberal, contra o modelo do capitalismo financeiro. Eles propõem, por exemplo, as medidas protecionistas.
No caso de Marine Le Pen, o que ela quer é estabelecer um capitalismo nacional. É interessante ver como, durante sua campanha e mesmo antes da campanha, muitas das coisas que ela propôs tinham um requinte de esquerda. Mais que o Partido Socialista, porque, por exemplo, ela defendia o Estado de Bem-Estar Social. Mas o Estado de Bem-Estar para os nacionais. O específico era isso. É por isso que é contra a União Europeia, é contra o elemento da globalização do capitalismo.
O livro dá conta do papel dos novos movimentos sociais como o ambientalismo, o antirracismo e o feminismo, entre outros. Na Argentina, o feminismo assumiu uma força muito grande. Como as exigências do feminismo se inscrevem especialmente nesta ideia de populismo de esquerda?
Parece-me que é um elemento fundamental. O argumento é que se trata de construir um povo. Esse povo não é um povo já dado; é um povo que resultará da articulação de demandas em uma cadeia de equivalências. A questão da articulação é ainda muito mais ampla, em consequência da hegemonia neoliberal, porque criou muito mais antagonismos. Há muito mais demandas heterogêneas que precisam ser articuladas no momento da hegemonia, demandas que chamamos de democráticas, que vêm das classes populares, das classes médias, do feminismo, do antirracismo. Obviamente, outro aspecto que estava presente, mas ao qual eu daria muito mais ênfase, é a ecologia. Isso é absolutamente fundamental.
Um tema que não está tão presente no livro, mas que é fundamental para a ideia do populismo, é a figura do líder...
O povo precisa ser construído em articulação com as demandas heterogêneas e isso não é fácil porque essas demandas não convergem naturalmente. É preciso fazê-las convergir e para isso se necessita de um princípio articulador. Ainda há uma discussão sobre o que esse princípio tem que ser. Muitas das críticas ao populismo dizem respeito à centralidade desse líder carismático. Parece-me que isso é apresentado de maneira completamente falsa.
Isso está ligado a outros elementos que considero importantes, que é o papel dos afetos na política. Quando você fala em criar um povo, na realidade fala sobre criar um nós, pessoas que se reconhecem e se identificam como uma coletividade. Isso implica um elemento afetivo e não é uma questão puramente racional. E o líder cristaliza: podemos ver isso aqui na Argentina com Cristina Fernández, e antes com Perón.
Mas é verdade que há aspectos problemáticos disso, porque pode haver tendências autoritárias, mas não necessariamente. Pode ser um líder interpares, não precisa necessariamente ser uma relação autoritária entre o líder e o povo. Mas há um outro aspecto: não necessariamente precisa haver um líder. O princípio articulador também pode ser uma das lutas, que se torna a luta simbólica. Na realidade, o que é necessário é que haja um símbolo da unidade do povo.
Essa luta poderia ser, por exemplo, o feminismo?
Acho interessante analisar se em alguns lugares o movimento feminista não poderia ser o princípio articulador. No caso europeu, apenas na Espanha esse movimento feminista é forte. O que aconteceu no 8 de Março foi impressionante, a greve feminista, que realmente é um movimento completamente transversal, de todas as idades, de todos os grupos. E o que é interessante é que é uma luta das mulheres, porque não se limita às demandas específicas das mulheres; é uma luta que se articula, na medida em que você tem mulheres trabalhadoras. Há uma série de lutas que se articulam.
Além disso, revolucionou o país em termos de valores. No senso comum, tiveram um impacto muito grande. Então, é possível pensar que o feminismo será o símbolo de todas as lutas pela radicalização da democracia. E parece-me que talvez algo semelhante possa acontecer aqui na Argentina. O movimento Ni Una Menos também é muito forte aqui. E também, pelo que entendo, é um movimento que articula diferentes demandas.
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