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sábado, 20 de junho de 2026

O relógio climático está a acelerar

Durante anos, limitar o aquecimento global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais foi o objetivo mais ambicioso do acordo de Paris e a principal referência da ação climática internacional. Hoje, esse objetivo está muito próximo de falhar. Um novo estudo internacional, publicado na revista Earth System Science Data, conclui que o aquecimento provocado pelas atividades humanas poderá atingir este limiar já no final da década, mais cedo do que se previa.
O estudo reuniu mais de setenta investigadores de vários países e analisou os principais indicadores do estado do sistema climático global. Em vez de se focar em projeções para o final do século, avaliou a evolução observada do aquecimento global, das emissões de gases com efeito de estufa, do desequilíbrio energético da Terra e da margem de emissões ainda disponível.
Os resultados são claros: o clima está a mudar a um ritmo alarmante. Em 2025, o aquecimento global causado pelas atividades humanas atingiu cerca de 1,37 °C acima dos níveis pré-industriais. Mantendo-se a trajetória atual de emissões, torna-se altamente provável ultrapassar o limite de 1,5 °C em poucos anos.
Um dos sinais mais preocupantes é a rápida redução do chamado “orçamento” de carbono, ou seja, a quantidade de dióxido de carbono que ainda pode ser emitida sem comprometer a meta dos 1,5 °C. Segundo os investigadores, restam apenas cerca de 130 mil milhões de toneladas de CO₂. Ao ritmo atual, essa margem poderá esgotar-se em apenas três anos.
As emissões globais de gases com efeito de estufa continuam próximas de máximos históricos. Em 2024 atingiram cerca de 56,8 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente. Apesar dos avanços registados em alguns países e setores, a redução global continua demasiado lenta para inverter a trajetória do aquecimento.
Ao mesmo tempo, a Terra continua a acumular energia. Grande parte desse excesso de calor é absorvido pelos oceanos, acelerando o aquecimento das águas, intensificando as ondas de calor marinhas e agravando a subida do nível médio do mar. Entre 2006 e 2025, o nível médio dos oceanos aumentou cerca de 3,7 milímetros por ano, um ritmo superior ao observado durante grande parte do século XX.
Os impactos já são evidentes em todo o mundo. Ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, incêndios florestais de grande dimensão e episódios extremos de precipitação tornaram-se mais frequentes e destrutivos. Fenómenos outrora considerados excecionais começam a integrar a nova realidade climática.
Apesar da gravidade das conclusões, os autores sublinham que o futuro climático não está totalmente determinado. Cada décima de grau de aquecimento evitada reduz riscos para as populações, as economias e os ecossistemas. A diferença entre limitar o aquecimento a 1,6 °C, 1,8 °C ou 2 °C traduz-se em impactos muito distintos na frequência de fenómenos extremos, na subida do nível do mar e na capacidade de adaptação das sociedades.
O mundo aproxima-se rapidamente de um limite que durante anos procurou evitar. A margem para reduzir os danos continua a existir, mas está a diminuir a uma velocidade sem precedentes. As decisões tomadas nesta década, sobre energia, transportes, indústria e uso do território, terão influência direta no clima das próximas gerações. A diferença entre agir agora e adiar decisões não se mede apenas em décimas de grau: mede-se em vidas, em segurança, em estabilidade económica e na capacidade de preservar um planeta habitável.
Helena Freitas - Diário de Coimbra, 16.06.2026

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Measuring Ecological Limits: The United States and the World


The science is clear: Our rate of economic activity is having disastrous impacts on the environment, starting with the climate so crucial to our survival. Economic activities require the use of natural resources and systematically entail pollution. Resources eventually get used up, as does the capacity of the planet to assimilate waste. We are reminded of Herman Daly’s long-running emphasis that the economy is a subsystem of the environment, not the other way around.

Expanding on this, steady-state economists and other post-growth advocates argue that economic growth cannot be decoupled from material throughput. This can be explained with the trophic theory of money, which follows from the trophic structure of the economy of nature. Agriculture and extraction comprise the trophic foundation of the economy, and all other sectors rely on that trophic base. Therefore, we cannot rely on “dematerialized” sectors to grow the economy while decreasing its disastrous impacts on the environment.

Therefore, consumption must be reduced, particularly in high-income countries that consume more natural resources and release more waste. But just how much do high-income countries need to reduce their economic activity to be sustainable? Two metrics help us understand sustainable limits by quantifying the relationship between the environment and the economy: ecological footprint and biocapacity.

The Conceptual Framing of Ecological Footprint and Biocapacity
The ecological footprint is a measure of the area needed to support the demands of economic activity. Biocapacity is a measure of the area available to supply natural resources and absorb waste at a sustainable rate. When the ecological footprint exceeds biocapacity, that indicates ecological overshoot. The Ecological Footprint Initiative has been measuring global ecological footprint and biocapacity since 1961. We have been in overshoot since 1971.

The ecological footprint and biocapacity are made up of comparable components, including cropland, grazing land, forest land, fishing grounds, and built-up land. In addition, ecological footprint includes a carbon component.

Scientists measure ecological footprint and biocapacity with a unit called the global hectare. They convert the productivity of different ecosystems to global hectares based on the world average productivity of a hectare. This enables comparisons between different land types, places, and years.
Ecological Footprint and Biocapacity of the United States

The United States has a high ecological footprint that is larger than its biocapacity. In 2022, there were roughly one billion hectares across the United States. When categorized into the biocapacity components and compared to global average productivity, this equates to 1.25 billion global hectares (gha) of biocapacity.

In other words, U.S. land, most notably cropland and forest land, was more productive than the global average. The average biocapacity of one hectare of U.S. cropland was 3.7 gha. One hectare of forest land provided an average of 1.6 gha of forest land biocapacity. However, this above-average biocapacity of cropland and forest land does not indicate sustainability. The country’s total ecological footprint is far higher than its total biocapacity.

In 2022, the U.S. ecological footprint of production was over 2.5 billion gha. This was similar to the ecological footprint of consumption, because the footprints of imports and exports were nearly equal. However, there were differences among the footprint components of imports and exports. The carbon component was more prominent in the ecological footprint of imports, whereas the cropland component was more prominent in exports. This means the United States imported more carbon-intensive goods and services than it exported, and exported more cropland-intensive harvests than it imported.
U.S. Trends: Better or Worse?

One good sign is that total U.S. biocapacity has been increasing over time. In 1961, total biocapacity was just over 1 billion gha, and by 2024, biocapacity had grown to 1.3 billion gha (2023 and 2024 data were forecasted).1 This is because of increases in agricultural productivity. Biocapacity is a measure of what the environment can provide for human use, not of biodiversity or ecosystem health. In fact, it has a negative correlation with biodiversity indicators. Cropland illustrates this tension well, as using fertilizers and chemicals can increase agricultural productivity at the expense of ecosystem health.

The U.S. population has also been increasing over time, which has decreased biocapacity per person. In 1961 biocapacity was 5.7 gha/person, and in 2022 was 3.8 gha/person.

Meanwhile, the U.S. ecological footprint of consumption has been increasing. In 1961 it was 1.6 billion gha, and by 2024 it reached 2.5 billion gha. Counteracting that increase to some degree is the per-person ecological footprint of consumption, which has decreased in recent years. In 1961, it was 8.9 gha/person, and in 2022, it was 7.9 gha/person. Although this is not a huge reduction, it provides a glimmer of hope that the country can reduce its footprint per person to offset population growth. However, it would need a very sizeable reduction to retreat to the safe operating space of its biocapacity.

In summary, the best available ecological footprint and biocapacity science reveals that the United States is exceeding a sustainable level of resource use for the production and consumption of goods and services. In 2022, the ecological footprint of consumption was 7.9 gha/person, and biocapacity was 3.8 gha/person. Ecological footprint is more than double biocapacity, meaning that economic activity is (over) two times the amount the United States can sustain. And with its outsized carbon footprint, the American economy is impacting the biocapacity of ecosystems on Earth.
Diving Into the Footprint Details

The carbon component makes up 64 percent of the ecological footprint embodied in the consumption of goods and services in the United States. Almost all of this carbon component (95 percent) comes from fossil fuel emissions. The largest share of these emissions (37 percent) comes from transport, of which road transport constitutes the majority. The next-largest share of U.S. carbon emissions (34 percent) comes from public and private utility companies producing electricity and heat for sale to third parties.

For many people, these details highlight the importance of decarbonizing electricity and heat generation and shifting transportation to less emissions-intensive modalities, such as rail. However, the emissions reductions needed to bring the United States back within its biocapacity are so immense that “green” alternatives aren’t sufficient. Americans must also reduce consumption of electricity and heat, as well as the distance they travel, because “green growth” is not possible.

In 2022, cropland made up 18 percent of the U.S. ecological footprint of consumption. Of the cropland ecological footprint, 84 percent was used for crops consumed by people and pets, 15 percent was used to feed livestock, and less than 0.5 percent was used to feed fish. Almost 700 million metric tons of crops were harvested, and just over half was maize. The second most harvested crop was soybeans at 17 percent of total harvests.

Yet the proportion of ecological impact does not equal the proportion of total harvests. For instance, maize made up 52 percent of crop harvests (metric tons) and 43 percent of the cropland ecological footprint of production (gha) in 2022. On the other hand, soybeans accounted for 17 percent of harvests (metric tons) and 32 percent of cropland ecological footprint of production (gha). Therefore, soybeans had almost double the ecological impact per metric ton of harvest in the United States.
The United States in the Global Context

The United States consumes far more than its share of the Earth’s natural resources. The global average ecological footprint of consumption was 2.7 gha/person in 2022. The United States crushed that benchmark at 7.9 gha/person. The average U.S. citizen consumed resources at almost three times the rate of the average global citizen.

Here’s another way of thinking about this: The United States is responsible for twelve percent of the world’s ecological footprint of consumption. Yet the U.S. population only amounts to four percent of the world population. This represents a highly disproportionate environmental impact.

The U.S. ecological footprint per person is even higher than that of most other high-income countries. The average ecological footprint of consumption in high-income countries is 6.1 gha/person.

There are important debates about best practices for presenting ecological footprint and biocapacity data. Often, the ecological footprint of a territory is compared to the biocapacity of that territory. For example, U.S. ecological footprint is compared to U.S. biocapacity. This implies that a country achieves sustainability if its ecological footprint is lower than its biocapacity.

Many criticize this approach as an unfair representation of sustainability, because some countries are blessed with exceptionally high biocapacity. For instance, in 2022, the ecological footprint in Canada was 8.4 gha/person, and the biocapacity was 14.4 gha/person. Canada’s biocapacity was clearly higher than its ecological footprint. However, its ecological footprint per person was in the top ten highest in the world. Therefore, perhaps it is also important to compare a country’s ecological footprint to world average biocapacity (global ecological balance) in addition to the country’s biocapacity (local ecological balance).

In 2022, global biocapacity was 1.5 gha/person, significantly lower than the U.S. ecological footprint of 7.9 gha/person. In other words, U.S. citizens consume resources and emit carbon at five times the global average sustainable rate.

Ecological footprint and biocapacity data illustrate that we are using natural resources and releasing waste at unsustainable rates, in the United States and around the world. It shows that this has been happening for decades. The United States and other high-income countries are disproportionately responsible for this state of overshoot. They must pump the brakes on resource consumption and waste emissions if we are to exist within local and global sustainable limits. They must pump the brakes, in other words, on the economy.


Saber mais: 
Vídeomensagem de Brian Czech explicando o conceito Trophic Theory of Money

terça-feira, 7 de abril de 2026

US is ‘using Mexico as a garbage sink’ leading to ‘toxic crisis’, UN expert says


Mexico is facing a “toxic crisis” and has become a “garbage sink” for the US, exposing Mexican communities to dangerous pollution, a UN expert has warned.

In an interview with the Guardian and Quinto Elemento Lab, an investigative outlet, Marcos Orellana, an environmental specialist, said pollutants ranging from imported waste to dangerous pesticides were affecting people’s right to live healthy lives.

Orellana, whose title is UN special rapporteur on toxics and human rights, conducted an 11-day investigative mission in Mexico last month to learn about toxic threats facing its population. He said he found lax environmental standards and a lack of oversight, which have allowed pollution to accumulate over the years.

“Where standards are weak, what you get is legalized pollution,” he said, adding that imports of hazardous and plastic waste from the United States were worsening the situation.

“US overconsumption and economic activity are using Mexico as a garbage sink.”

The rapporteur said there were more than 1,000 contaminated locations officially recorded in Mexico’s National Inventory of Contaminated Sites, many of which he said had become “sacrifice zones”, where diseases such as cancer, and medical events such as miscarriages, were normalized.

In a preliminary report summarizing his visit, he cited factories spewing hazardous waste into the Atoyac River in Puebla, huge industrial pig farms contaminating drinking water on the Yucatan peninsula and a decade-old mining chemical spill that continued to affect health in communities around the Sonora River.

He said many of these situations left residents struggling with dire health effects.

A resident collects water outside their home in the Arizpe community, Sonora state, Mexico, in 2014, when a copper mine leaked 40,000 cubic meters of sulfuric acid into the Sonora River, seriously polluting the water way. Photograph: Héctor Guerrero/AFP/Getty Images

“As I heard during one meeting: living in a sacrifice zone means losing the right to die of old age,” he wrote.

He cited one place he visited, the industrial corridor of Tula in the central Mexican state of Hidalgo, where steel plants, cement factories and petrochemical facilities operate near a river polluted by industrial waste and untreated sewage from Mexico City. He said proposals to bring in additional waste for recycling would only add to an already devastating environmental burden on communities there.

Meanwhile, companies are not held responsible for preventing, mitigating and repairing the damage, he said.

The result, he said, was the “legalized poisoning of people”.

The rapporteur highlighted the influx of plastic waste from the United States. He said once this waste crosses the border, there is often little clarity about its final destinations. In addition, he said he was concerned that microscopic plastic particles had been detected in rivers such as the Tecate in Baja California, the Atoyac in Puebla and the Jamapa in Veracruz.

This view shows a section of the Pemex thermoelectric plant and refinery in Tula de Allende, Hidalgo state, Mexico, in August 2024. 

Government records show the US ships hundreds of thousands of tons of hazardous waste to Mexico each year, including lead-acid car batteries, as well as common scrap such as plastic, paper and metal for recycling. Environmental groups have questioned whether the country is equipped to handle all this without it leading to pollution.

Residents in Monterrey, which serves as a US manufacturing hub and suffers some of the worst air pollution in North America, welcomed the rapporteur’s calls for more attention to the health of Mexico’s people.

María Enríquez, a mother and activist in Monterrey, who co-founded the environmental group Comité Ecológico Integral, warned that poor air quality has become part of daily life in the city, and residents suffer from rhinitis, eye irritation and asthma attacks.

“We have learned to live sick, especially with respiratory illnesses,” she said.

Guadalupe Rodríguez, director of a network of childcare centers in Monterrey, agreed, saying children in her nursery program were also affected.

“Families consider it normal for children to have constant coughing,” said Rodríguez. She called on the government to do more to enforce Mexico’s constitutional guarantee of a healthy living environment, especially for the most vulnerable. “If they are not protected, the right to health is not being guaranteed.”
People take part in a protest demanding the closure of the Pemex refinery, blaming it for polluting the air, in Monterrey, Mexico, in January 2024.

The rapporteur’s visit, at the invitation of the Mexican government, comes at a time when toxic and hazardous waste are coming under increasing scrutiny in the country.

In Monterrey, residents have been demanding government action to reduce heavy metal pollution, much of it emitted in the air by factories that are manufacturing goods for the US or recycling hazardous US waste.

Already, officials in President Claudia Sheinbaum’s administration have acknowledged that regulatory standards, such as rules for how much pollution factories can emit, are out of date, and have announced plans to strengthen them.

In an interview, Mariana Boy Tamborrell, Mexico’s federal attorney for environmental protection, said her agency had reached a regulatory “turning point”, and would start requiring industries to remediate environmental damage they caused. Her agency is rolling out a new air monitoring system to detect emissions coming from specific facilities, starting in an industrial corridor of Monterrey.

“Then there will be no room for ‘it wasn’t me,’” she said. “We will be able to clearly identify the source.”

The rapporteur said Mexico could adopt restrictions on the import of hazardous waste as a measure to address part of the crisis. He noted that some countries had chosen to ban such imports to avoid becoming destinations for international waste, without undermining their participation in global trade.

Waldo Fernández, a Mexican senator, has already introduced legislation to more strictly regulate imports of waste into Mexico for recycling. The law would prohibit importing waste if it has greater environmental impacts in Mexico than allowed in its country of origin.

Mexico “must not become a dumping ground for toxic waste or a recipient of pollution under commercial pressures”, said Fernández.

The rapporteur also said the upcoming review of the free trade agreement between Mexico, the US and Canada represented an opportunity to strengthen environmental standards and their enforcement.

If they did not, “economic pressure will worsen the toxic crisis”, he said.

segunda-feira, 30 de março de 2026

Earth's Population Has Surpassed The Planet's Capacity



The Earth has already exceeded its ability to support the global population sustainably, with new research warning of increasing pressure on food security, climate stability, and human wellbeing. However, slowing population growth and raising global awareness could still offer humanity some hope.

Published in Environmental Research Letters, the study shows that humans have pushed well beyond the planet’s long-term capacity and that continued growth under current patterns of consumption will intensify environmental and social challenges for communities worldwide.

The research examined more than two centuries of global population data and uncovered a major shift in human population dynamics that began in the mid-twentieth century.

Lead author, Matthew Flinders Professor of Global Ecology Corey Bradshaw, from Flinders University says the trend reveals a clear biological signal that humanity is living far beyond what the Earth can support.

“Earth cannot keep up with the way in which we are using resources. It cannot support even today’s demand without major changes, with our findings showing that we are pushing the planet harder than it can possibly cope,” says Professor Bradshaw from the Global Ecology Laboratory in the College of Science and Engineering.

The researchers, including distinguished Professor Paul Ehrlich who recently passed away, analysed more than two hundred years of global population records and used ecological growth models to track how population size and growth rates have changed over time.

They tested the direction of these trends and compared results across world regions. They also measured how population size has historically aligned with changes in climate, emissions, and the ecological footprint to understand how human numbers cause environmental stress.

The study found that before the 1950s, global population growth actually sped up as human abundance increased. More people meant more innovation, more energy use, and more rapid technological development that supported further expansion.

However, this pattern broke down in the early 1960s when the global growth rate began to fall even as the population continued to rise.

“This shift marked the beginning of what we call ‘a negative demographic phase,” says Professor Bradshaw.

“It means that adding more people no longer translates into faster growth. When we examined this phase, we found the global population is likely to peak somewhere between 11.7 and 12.4 billion people by the late 2060s or 2070s if current trends hold.”

Professor Bradshaw says this upper limit is dangerous and has only been possible to date because human societies have relied on fossil fuels and drained natural resources faster than nature can replace them.

“The truly sustainable population is much lower and closer to what the world supported in the mid-twentieth century. Our calculations show a sustainable global population closer to about 2.5 billion people if everyone were to live within ecological limits and comfortable, economically secure living standards,” he says.

The researchers say the enormous gap between that sustainable number and today’s population of now 8.3 billion highlights the scale of global overconsumption. They argue that this overshoot has been hidden for decades by heavy reliance on fossil fuels, which boosted food production, energy supply, and industry, but also accelerated climate change and pollution.

The study shows a strong link between increasing population size and rising global temperatures, larger ecological footprints, and higher carbon emissions during the negative phase. Total population size explained more variation in these environmental indicators than per-capita consumption.

Professor Bradshaw says this highlights how both human numbers and consumption patterns jointly intensify environmental stress. “Humanity’s current path will push societies into deeper crises unless we make major changes,” he says.

“The planet’s life support systems are already under strain and without rapid shifts in how we use energy, land, and food, billions of people will face increasing instability. Our study shows these limits are not theoretical but unfolding right now.”

The researchers stress that the study does not predict sudden collapse, but instead offers a realistic assessment of the long-term pressures shaping humanity’s future. The consequences of overshooting Earth’s ‘biocapacity’ include stronger climate impacts, declining biodiversity, reduced food and water security, and widening inequality.

Professor Bradshaw says society must rethink how it uses land, water, energy, and materials if future generations are to live safe and stable lives.

“Smaller populations with lower consumption create better outcomes for both people and the planet,” he says. “The window to act is narrowing, but meaningful change is still achievable if nations work together.”

The team hopes the findings encourage governments, organisations, and communities to plan for the long term, recognise Earth’s environmental limits, and focus on strategies that reduce consumption, stabilise population, and protect natural systems.

“The choices we make over the coming decades will determine the wellbeing of future generations and the resilience of the natural world that supports all life,” concludes Professor Bradshaw.

Acknowledgements:

The Kids Research Institute Australia and Population Matters supported various aspects of the project.

The paper, ‘‘Global human population has surpassed Earth’s sustainable carrying capacity’ by Corey J.A. Bradshaw, Melinda A. Judge (University of Western Australia), Daniel T. Blumstein (University of California, USA), Paul R. Ehrlich (Stanford University, USA), Aisha N. Dasgupta (University of Cambridge, UK), Mathis Wackernagel (University of California, USA), Lewis J.Z. Weeda (University of Western Australia) and Peter N. Le Souëf (University of Western Australia) was published in Environmental Research Letters. DOI: 10.1088/1748-9326/ae51aa

sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Outdoor espectacular - a acumulação de riqueza é uma pandemia


Tax wealth — Created by anonymous artist network Brandalism, the action comes ahead of Black Friday, when UK shoppers are expected to spend £6.5 billion as brands run discounted sales of their products.

Activists have hacked 100 advertising sites across London in a coordinated protest against the tax avoidance of big tech companies like Amazon, and the ​“destructive hyper-consumerism” of Black Friday.

Satirical artworks pasted over billboards and Tube ads by the anonymous artist network Brandalism accuse companies of dodging taxes, exploiting workers and fuelling environmental collapse. Ethical Consumer estimates Amazon’s corporation tax avoidance may have cost the UK around £575 million in 2024.

The interventions mark the launch of the ZAP Games – Zone Anti-Publicité – a two-week Europe-wide campaign that repurposes commercial ad spaces. Posters inside Tube carriages compare tech CEOs to parasites, while others criticise the carbon and water intensity of Amazon’s AI-driven data centres.

Brandalism argues Amazon’s advertising dominance shields its practices from scrutiny. ​“Amazon epitomises 21st century destructive hyper-consumerism,” said spokesperson Tona Merriman. ​“It bombards us with advertising in the run up to Black Friday whilst squeezing the pay and conditions of workers, amassing eye-watering profits and then dodging its taxes.”

More than 100 artworks have appeared across the capital. One by artist Michelle Tylicki shows a Monopoly board filled with social goods overshadowed by an encroaching Amazon logo. Another juxtaposes an Amazon data centre with a burning rainforest to highlight ecological damage.

Activists say injury rates in Amazon warehouses spike during Black Friday demand. This year, mass strikes and walk-outs are planned globally by Make Amazon Pay, a coalition backed by more than 400 parliamentarians. Amazon paid UK corporation tax in 2024 for the first time since 2020, but campaigners argue it still avoids far more than it contributes.

Human rights criticisms are also intensifying. UN Special Rapporteur Francesca Albanese has accused Amazon, along with Microsoft and Alphabet Inc. (Google’s parent company), of aiding Israel’s genocide against Palestinians through its cloud services. Israeli military officials have credited Amazon software with enhancing their ability to track and kill targets. More than 67,000 Palestinians have been killed since October 2023.


This is not the only fallout surrounding Black Friday this year. Last week, Zara workers across Europe announced they would stage protests in Spain, Belgium, France, Germany, Italy, Luxembourg and Portugal. Unions are demanding that parent company Inditex reinstate a profit-sharing scheme scrapped after the pandemic.

Rosa Galan of Spain’s CCOO union said Inditex’s growing profits were ​“the result of the work of its staff,” calling for a fairer distribution. Inditex, whose share price has doubled over the past three years, did not respond to requests for comment.

Mais fotos e info aqui

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

“Humanity is missing the bigger picture”: Sandra Díaz explains



Sandra Díaz mais conhecida no campo da ciência é a Sandra Myrna Díaz, ecóloga argentina, nascida em 1961.

🔹 Quem é:
É considerada uma das cientistas mais influentes do mundo na área da ecologia funcional das plantas, biodiversidade e serviços dos ecossistemas.

🔹 Contribuições principais:

  • Desenvolveu o conceito de “síndromes funcionais das plantas”, que ajuda a compreender como diferentes espécies vegetais contribuem para o funcionamento dos ecossistemas.

  • Foi uma das principais autoras do Relatório Global da Plataforma Intergovernamental de Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES, 2019), um documento fundamental que alertou para a perda acelerada da biodiversidade global.

  • Criou a base de dados global TRY, a maior compilação de características funcionais de plantas do mundo.

🔹 Reconhecimentos:

  • Recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Investigação Científica e Técnica (2019).

  • Eleita entre as cientistas mais citadas em ecologia e meio ambiente.

  • Considerada referência mundial em debates sobre natureza, sustentabilidade e futuro do planeta.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

William Rees

William E. Rees é um ecologista e economista ecológico canadiano, professor emérito da Universidade da Colúmbia Britânica, reconhecido por ter criado o conceito de "pegada ecológica" juntamente com Mathis Wackernagel. Este conceito quantifica o impacto humano sobre os ecossistemas, medindo a área de terra e água necessária para sustentar o consumo de recursos e absorver os resíduos gerados.

Perspetiva crítica sobre sustentabilidade e transição energética
Rees é um crítico do tecno-otimismo — a crença de que a tecnologia por si só resolverá as crises ambientais. Num artigo coautorado com Megan Seibert, intitulado "Through the Eye of a Needle", ele argumenta que a transição energética baseada em fontes renováveis enfrenta limitações físicas e ecológicas significativas. Segundo Rees, a verdadeira crise não é apenas energética, mas sim um "excesso ecológico" causado por um sistema económico que ultrapassa os limites biofísicos do planeta. Ele defende que é necessário reduzir a escala da atividade humana e adotar uma economia pós-crescimento para alcançar uma sustentabilidade real.


Visão sobre a sociedade moderna
William Rees considera que a sociedade moderna é "ecologicamente disfuncional", com normas culturais que perpetuam padrões de consumo insustentáveis. Para ele, o que é considerado "normal" na cultura atual é, na verdade, patológico do ponto de vista ecológico. Ele defende uma mudança cultural profunda, que vá além de soluções tecnológicas, para enfrentar as crises ambientais de forma eficaz.

Em resumo, William Rees defende que enfrentar as crises ambientais requer uma transformação sistémica — não apenas tecnológica, mas também económica e cultural — para alinhar a civilização humana com os limites ecológicos do planeta.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Documentário: Antes que vire lixo


Na cidade de São Paulo, uma das mais influentes do Brasil, duas realidades contraditórias dividem o mesmo cenário, mas nem sempre são captadas pelo nosso olhar. 

Foi depois de cruzar a porta de um restaurante (onde um pedido chegou errado à mesa e a porção inteira de comida foi jogada fora) e se deparar com pessoas implorando por um pedaço de pão que a ideia do 'Antes que vire lixo' surgiu.
 
Neste documentário jornalístico mostramos algumas ações realizadas na cidade de São Paulo para tentar reduzir o desperdício de alimentos dos restaurantes, supermercados e feiras livres. 

Bora conferir? Produzida, gravada e editada por Beatriz Albertoni, Giulia Vidale e Paula Forster, a obra é resultado do nosso Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero (2016).

domingo, 14 de abril de 2024

Ted Trainer - A (Friendly) Critique of the Degrowth Movement

Over many years I have put forward a vision of The Simpler Way, and introduced visiting groups to it at Pigface Point.


The above video includes models of a typical suburb before and after such changes have been made.

The explosion of interest in degrowth since 2000 has seen the development of a large literature, international conferences, and many active groups spread around the world.

This is astounding, given that pioneers such as Georgescu-Roegen, Paul Ehrlich, Serge Latouche, and Herman Daly worked for decades to draw attention to the possibility that the pursuit of limitless growth and affluence might be problematic — and they were largely ignored. In the early 1970s, The Limits to Growth made quite an impact, but did not go into possible alternative social goals or forms. My book, Abandon Affluence and Growth (1985), summarized the case and argued that the only solution has to be transition to a Simpler Way. For the following 20 years these few works had almost no impact on mainstream thinking about the commitment to growth.

The recent spread of degrowth is encouraging — however, the movement is founded on a number of confusions and mistaken initiatives. This is understandable given its early stage, and can be regarded as a healthy exploring of possibilities. The literature welcomes ‘pluralism’, but we should be trying to find unifying directions.
The current focus of the degrowth movement

The focus within the degrowth movement has (understandably) been on why the pursuit of growth is a huge mistake, and little attention has been given to two crucial themes. One is strategy: this lack is recognised within the movement, and I discuss it at length in the current edition of Environmental Values. The other, which has received almost no attention, is the concept of simplicity. The defining principle of a society that has undergone degrowth to a sustainable and just state must be transition to far simpler lifestyles and systems.

First, the issue of definition; what is degrowth about, and what should it be about? The term is not a good descriptor for the movement that has emerged. The movement is asserting a wild variety of criticisms of and alternatives to the present globalized, industrialized, urbanized, financialized, neo-liberal, sexist, grotesquely unequal, extractivist, imperialist etc. world order. The expressed goals include all manner of social criticisms, ideals, and policies, ranging from mildly reformist to ultra radical. Many of these — such as monetary reform, making trade more equitable, housing justice, patriarchy, curbing advertising, fairer taxes, reducing debt, indigenous rights, and decolonization — actually have nothing to do with the reduction of economic growth, or could easily be implemented within an economy that continues to be about growth.

Degrowth should, instead, be seen in terms of a concern to reduce resource consumption and environmental impact, which means it is essentially about one thing, which is reducing GDP. It is in order for many sub-goals and domains to be seen as existing under this umbrella, as fields of endeavor relevant to the general quest or for which it has implications.

Thus the term degrowth has become ‘… a rag-bag of utopian dreams’. A more accurate title might be the ‘Finally Fed Up With Capitalism’ movement. All manner of ideals, dreams, alternate policies in a wide variety of fields have been put forward as degrowth proposals. This is highly desirable because it shows that discontent with consumer-capitalist society is finally boiling over. For 70 years its legitimacy and desirability have been largely unquestionable. But now the dominant paradigm is crumbling, evident in the weakening capacity of the rich countries to control the global geo-physical imperial system, the emergence of intractable resource scarcities and environmental problems, accelerating rates of inequality generating hardship and ‘cost of living’ difficulties, rising levels of debt etc. There is increasing realization that the system is causing the big global problems, notably climate change, that it can’t solve them and that it needs to be replaced.

Probably even more serious is the social situation, the loss of cohesion being caused by the inevitable march of capitalism, the deprivation and discontent accompanying rising inequality, and the decreasing capacity of governments to meet demands or provide for people. Large numbers in even the richest countries are poor or homeless. Thirty percent of Australians are reported to be going without sufficient food. The number one health problem in rich countries now is likely to be depression. The UK government recently established a ministry for loneliness. Large proportions of people are losing respect for ‘democracy’ and turning towards authoritarian and fascist options.

These many and varied discontents can be welcomed as undermining the complacency that characterized previous decades. But the scene is quite confused and chaotic, especially with respect to causes and solutions, and this is reflected within the degrowth movement. Even among degrowth advocates there is little realization that the multifactored global predicament cannot be resolved unless there is an extremely big and difficult revolution whereby most of the elements within our present economic, political, and cultural systems are scrapped and replaced by radically different systems. The crucial point here is that the new lifestyles and systems must be materially very simple. Little of the degrowth literature recognizes this, let alone focuses on it. Most of it proceeds as if we can all go on living more or less as we do now, with more or less the same kinds of ways and institutions that we have now, via reformed institutions and better policies. The degrowth movement does not recognize that the magnitude of the overshoot, the degree of unsustainability, of present society, totally prohibits that. To recognize this would decisively focus thinking about goals and strategies, and rule out many currently popular options.

The global situation
Most people do not grasp the extent to which this society has become unsustainable. We have far exceeded the limits to growth. There is no possibility that the per capita levels of resource consumption in rich countries can be kept up for long. Only a few of the world’s people have these ‘living standards’ and the rest can never rise to anything like them. This is the basic cause of the big global problems, including resource depletion, environmental damage, the deprivation of billions in the poor countries, and resource struggles.

There is a strong case that if we are to live in sustainable ways that all could share then rich world per capita rates of consumption must be reduced by 90 percent. The common response is the ‘tech-fix’ claim that technical advance will enable GDP growth to be ‘decoupled’ from resource and environmental impact. But there is now overwhelming evidence that apart from in some limited areas this is not happening and is not going to happen. (Haberle’s review examined over 800 studies.) If GDP is increased, impacts increase. It is not possible to solve the big problems if we are determined to maintain present levels of consumption and production — the solution can only be found on the demand side; that is, by greatly reducing production and consumption.

A major cause of our predicament is the fact that we have an economic system which must have growth and which allows the market and profit to determine what happens. As a result, what is produced, who gets it and what is developed, is determined by what is most profitable to the few who own most of the capital. The outcome is not determined by what is most needed. That is why the one percent now own about half the world’s wealth, and the poor countries have been ‘developed’ into a form which ships their resources out to enrich the corporations and rich world shoppers, while most people in even the richest countries struggle to get by.

The crucial point is that we have to try to shift to values and ways that enable all to live well on a very small fraction of the per capita resource and environmental impacts we in rich countries have now. We cannot achieve a sustainable way of life which all could share unless there is an enormous degrowth transition to far simpler lifestyles and systems. The magnitude of the required Degrowth is not sufficiently recognised within the movement. Nor are the implications for social change; because the over-shoot is so big that only change to extremely different lifestyles and systems can solve the big global problems.

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Documentário - Decrescimento: salvar o mundo renunciando o consumo e a sustentabilidade


Decrescimento
Aborda a grande questão do crescimento económico num mundo finito do ponto de vista de um movimento social e profundamente ecológico conhecido como decrescimento. 
Professores, economistas, engenheiros e filósofos participam deste importante movimento em inúmeros países como França, Itália, Espanha, Reino Unido e Canadá.

Enquanto os governos confiam, com miopia política e científica, numa panaceia tecnológica para resolver a crise do ambiente e dos recursos a que estamos sujeitos, na esperança de adaptar o planeta e a própria humanidade à vontade do produtivismo, o decrescimento representa uma reformulação do nosso modo de vida , tendo em conta os limites da biosfera e as reais necessidades do ser humano.

Este documentário justapõe dois mundos. O mundo tal como é agora, um mundo de desejo, do “ter” e do “sempre mais”, caracterizado pela ausência de freios. É um mito que hoje está sendo destruído graças ao declínio dos recursos energéticos e das matérias-primas e à crise ambiental, tudo abordado em entrevistas com especialistas neste documentário. Mas outro mundo está a caminho, um mundo de “ser”, consciente dos limites da biosfera, onde os chamados “objetores de consciência ao crescimento” trabalham juntos para construir uma alternativa socioeconómica que seja ao mesmo tempo sustentável e libertadora.

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Helena Freitas: A natureza devia ser central na economia de uma forma geral, e não apenas nas áreas protegidas

Correjola (Corrigiola litoralis)

Qual a importância de ambientes de biodiversidade na natureza?
A biodiversidade é o legado biológico que temos à nossa disposição e que resulta de milhões de anos de evolução. Permitiu que connosco co-existissem um conjunto muito amplo de espécies de diferentes grupos. Neste momento conhecemos cerca de dois milhões de espécies, sendo que isso representará talvez um quinto do conjunto de espécies que podem existir. A ciência conhece, e identificou em algum tempo da história uma espécie, que agora também devia ser objeto de reanálise. Muitas destas espécies estão hoje em gavetas de museus, portanto não voltaram a ser estudadas, porque infelizmente também não temos capacidade, recursos humanos suficientes ou especialistas nos diferentes grupos de organismos à escala do que seria necessário. Hoje percebemos cada vez mais a importância da biodiversidade. Cada espécie é um repositório evolutivo fantástico de um processo longo, muitas vezes muito mais longo que o nosso, de grupos de organismos que são relevantes.

No essencial conhecemos as plantas superiores, organismos mais visíveis, mais fáceis de reconhecer. Há grupos de organismos que conhecemos pior, mas nas últimas décadas o que temos percebido claramente é que essas espécies têm uma relevância extraordinária na composição e no funcionamento dos sistemas vivos. Aliás, também nós temos um conjunto de diversidade, microbiana nomeadamente, que é essencial para o nosso equilíbrio e bem-estar. É inequívoco que o nosso microbioma é uma parte essencial da nossa saúde.

Temos uma intenção muito grande de continuar a estudar a biodiversidade, todos os dias descobrimos espécies novas em muitos locais do mundo. Continuamos com esse objectivo de estudar e conhecer. Há grupos que também hoje percebemos que são da maior relevância e conhecemos mal, por exemplo os fungos. Conhecemos talvez 2% ou 4% dos fungos que poderão existir. Os fungos têm uma relevância incrível quer na relação com as plantas, na forma como podem intervir na cadeia alimentar, na simplificação dos sistemas, como podem decompor, são os únicos organismos capazes de decompor a matéria vegetal e com isso contribuir para o ciclo da vida.

Na ciência, o grupo mais expressivo do que conhecemos são os insectos. Têm uma expressão muito significativa no conjunto da vida. Mas é certo que se conseguíssemos ter acesso à diversidade bacteriana ou fúngica por ventura teríamos ainda muito mais em termos de número.

Quais são as principais razões da perda de biodiversidade aqui em Portugal?
Havia um grande biólogo, o Edward Wilson – a ele se deve esta ideia da biodiversidade -, que dizia que são cinco as grandes ameaças. Em inglês é hippo. H para a perda do habitat, o I para a invasive species, as espécies invasoras, ou exóticas, que são levadas para outros ambientes e ameaçam as espécies nativas (no caso português 20% da flora já é exótica), o P para poluição, o outro P para população, a expansão demográfica – tendemos a anexar activamente  as grandes florestas tropicais, os grandes habitats para a expansão das nossas cidades, agrossistemas da monocultura industrial -, e o O para overexploitation, o abuso de utilização de recursos.

Essas são as grandes causas, no mundo inteiro e em Portugal também, para a perda da biodiversidade. Há uma destruição enorme dos habitats naturais, designadamente aqueles que dependem da água, as nossas zonas húmidas, os nossos rios, mas também as áreas protegidas. Nas nossas florestas, com os incêndios sucessivos, a expansão das espécies exóticas é visível, o que significa que as espécies nativas não têm condições de competição, porque não são espécies de crescimento rápido.

Em relação às zonas húmidas e aos rios, existe uma preocupação particular no papel que têm no ecossistema?
Há uma preocupação enorme. Estamos a perder as zonas húmidas, e as zonas húmidas mais temporárias, que eram muito características. Os charcos no sul de Portugal, no Alentejo, estão tremendamente ameaçados, desde logo porque os cenários climáticos também impõem uma nova realidade. Os sistemas dependentes da água sofrem uma alteração no seu ciclo de vida. Não é por acaso que é maior a susceptibilidade a doenças de vários anfíbios. Isso é visível à escala global, e em Portugal também. Não temos uma monitorização tão regular que permita ter essa ideia muito assertiva para Portugal, mas é notório e são vários os investigadores que transmitem isso.

Ainda há dias vi nas notícias o desaparecimento de um pequeno peixe que era endémico de uma ribeira no Alentejo – as águas estão poluídas, o fluxo hídrico não é o mesmo e o caudal não é o mesmo.

Em Inglaterra estão neste momento a oxigenar artificialmente muitas massas de água para conseguir manter a vida lá dentro. As formas de vida, sejam plantas, sejam peixes, que vivem na água precisam de oxigénio, tal como nós. Havendo um aumento muito grande da poluição, diminuindo o fluxo hidrológico e com isso a oxigenação destes sistemas, as formas de vida ressentem-se.

Nós estamos a entrar numa rota de colapso da biodiversidade, que resulta de uma conjugação muito grande de fatores, mas que tem tudo a ver com as opções que temos tidos. Aquela intenção de “do not harm”, na verdade não estamos a conseguir implementar. Não é monitorizado, não é penalizado quem não o faz, portanto é verdade que estamos a destruir os recursos biológicos e a vida, sendo que nós somos parte dela. É chocante a forma como nos desligámos.

Para começar a haver essa proteção da biodiversidade, e conseguir que ela se desenvolva mais em certas áreas, onde iria demorar muitos milhares de anos e podemos proporcionar um aceleramento, é preciso mais legislação ou consciencialização?
Tipicamente o que temos feito para conservar a biodiversidade é identificar áreas que ficam consignadas à conservação da natureza, e acreditamos que os parques naturais e as áreas protegidas de uma forma geral é um sistema que nos garante que essas áreas estão intocáveis ou que pelo a biodiversidade está salvaguardada. Se formos honestos, sabemos que não é bem assim.

Há uma série de estatutos e classificações que foram criadas com o desígnio de conservar a natureza, mas é verdade também que não tem havido o investimento necessário para garantir ao nível da governança, da monitorização, do cumprimento da legislação. Sabemos que há muita permeabilidade no sistema.

Hoje, em resultado da Convenção para a Biodiversidade, que aconteceu em Montreal no final do ano passado, assinámos um acordo que tem como um dos objectivos ter 30% de terra e mar consignado à conservação da natureza. São mais de 190 Estados signatários que se comprometeram, é um desafio para todos. Mas mais importante do que a área em si seria garantir a sua eficácia. Infelizmente sabemos que isso é mais difícil, mas a minha esperança é sempre que a natureza seja cada vez mais parte da forma como equacionamos quaisquer soluções de progresso, seja num meio urbano ou parque natural, na forma como planeamos as novas construções, tendo em atenção as soluções baseadas na natureza, no reforço de mitigar a questão climática. A natureza devia ser central na economia de uma forma geral, e não apenas nas áreas protegidas. Na economia e na nossa forma de pensar o mundo e a vida.

A agroecologia pode ser uma das soluções?
A agroecologia é tremendamente importante para conseguir a transição ecológica, que penso que é uma inevitabilidade, e consagrar a civilização ecológica, aquela capaz de viver em harmonia com a natureza. Só essa consagração permitirá a própria sobrevivência da espécie humana. E para que isso aconteça a transição ecológica é fundamental a alteração do sistema alimentar.

O sistema alimentar depende dos ecossistemas. A forma como nós produzimos alimento atualmente é perversa a todos os níveis. Desde logo socialmente, quando temos grande parte do mundo que não tem acesso a alimento, e outra parte que sofre de doenças causadas por alimentos que são nocivos, ou porque incorporam elementos poluentes, ou porque nos fazem mal, ou porque consumimos em excesso. É um sistema que nós construímos e que está nas mãos de um conjunto de corporações que escolhem aquilo que nós comemos. Nós vamos ao supermercado comprar aquilo que escolhem por nós. Com isto abdicamos de uma atividade que nos ligava à terra.

Sou cientista, acho que a ciência nos vai ajudar, que a tecnologia e a inovação nos vão ajudar, mas a agroecologia diz-nos que nós temos de ser capazes de produzir alimento sem fazer mal aos solos, à água, à biodiversidade, e contando com a biodiversidade para nos ajudar neste processo. Por outro lado, é fundamental que as soluções agro-ecológicas também penetrem na agricultura convencional e industrial.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Capitalismo ou Humanidade



Por Jorge Bateira, 15 de Março de 2021
Durante milénios, as sociedades humanas mantiveram sistemas produtivos cujo impacto na biosfera tinha uma escala compatível com os seus mecanismos regeneradores. Porém, com o advento e a expansão do capitalismo, ocorreu uma ruptura Histórica em diferentes domínios. Karl Polanyi, um nome incontornável da Economia Política do século XX, explicou-nos o essencial: ao transformar (em larga medida) o trabalho, a moeda e a natureza em mercadorias, o capitalismo criou um enorme potencial de crescimento económico. A riqueza produzida cresceu exponencialmente, o que permitiu a alguns países alcançar, em poucas décadas, um nível de bem-estar inédito na História. Porém, tal sucesso teve custos que não podem ser ignorados. A exploração dos seres humanos destruiu milhões de vidas, da escravatura às guerras, criou pobreza em larga escala e de ordem estrutural, gerou desigualdades chocantes e lutas de classes que dilaceram sociedades, promoveu guerras locais e empurrou milhões de pessoas para a emigração intercontinental. A criação de moeda pelos bancos, e a sua aplicação em activos para uso especulativo, produziu sucessivas crises financeiras de consequências devastadoras para as sociedades. O crescimento industrial, alimentado pelo consumo de massa – ele mesmo objecto da manipulação pelo marketing –, foi sustentado pela extracção desenfreada de combustíveis fósseis, pela transformação do solo agrícola e da floresta em agro-negócio global, e pela degradação dos solos e da água com a utilização de produtos químicos, para além da acumulação de gases, resíduos tóxicos e produtos não recicláveis.

A lógica do lucro comanda o capitalismo e o motor da sua expansão é o continuado crescimento do consumo. Porém, este permanente crescimento económico colide com a finitude dos recursos naturais que até agora o sustentou e, ao mesmo tempo, colide com a capacidade do planeta para absorver os desequilíbrios que lhe são infligidos. Há quem defenda que o capitalismo pode adaptar-se e continuar a crescer, sobretudo através dos serviços, utilizando proporcionalmente menos recursos materiais. Contudo, a investigação mais recente não sustenta esta tese e conclui que o “crescimento verde” é uma ilusão.[1]

Na realidade, o que temos pela frente é uma trajectória que, se nada de radical for feito, conduzirá ao colapso das condições de vida na Terra. A comunidade científica tem vindo a produzir documentos de alerta sobre a gravidade da situação em que nos encontramos, com destaque para as consequências calamitosas de um aumento da temperatura média global do planeta que ultrapasse os 2 ºC por comparação com a do início da Revolução Industrial. Isto implica uma travagem drástica das emissões de gases com efeito de estufa, ou seja, emissões nulas ou mesmo negativas (por recurso a diversas formas de captura do carbono) até ao final do século XXI. Em 2017, mais de 15 000 cientistas de 184 países produziram um sério aviso à Humanidade. Face à predação dos recursos do planeta, a comunidade científica afirmou que estamos a caminho de “miséria em larga escala e de uma catastrófica perda de biodiversidade.” Um aspecto poucas vezes mencionado é a natureza cumulativa das emissões de carbono. O que determinará a futura temperatura global, e as decorrentes alterações climáticas do planeta, é a acumulação das emissões passadas, das presentes, e as dos próximos anos. Portanto, não basta neutralizar as emissões de carbono dos países ditos desenvolvidos, é preciso travá-las à escala global, o que coloca o gravíssimo problema da reconversão dos modelos de desenvolvimento industrial nos países ‘emergentes’, e noutros que legitimamente pretendem alcançar melhores condições de vida.

Apesar da gravidade do que está em causa, os avisos dos cientistas ainda são formulados numa retórica de grande contenção para evitar questionar os fundamentos do sistema económico que, sendo a causa dos males do planeta, também lhes financia a investigação e o emprego. Nos documentos oficiais, as análises são quase sempre sujeitas a uma ‘edição’ que suaviza os termos mais fortes e procura preservar a teoria económica dominante que fundamenta as políticas económicas do capitalismo.[2]

Contudo, a devastação produzida pelo ciclone Idai em África (Moçambique, Zimbabwe e Malawi), as inundações com perdas da produção agrícola na Guatemala, Honduras e El Salvador, assim como a recente onda de calor na Europa, seguida do degelo na Gronelândia, os fogos na Rússia e no Ártico, e os furacões devastadores nos EUA – apenas alguns episódios de uma lista que poderia ser muito longa –, constituem fenómenos com impacto relevante para questionar políticas ambientais que não incomodam o sistema económico-financeiro predador do planeta.

Face à gravidade da situação, seria de esperar que os media ocupassem uma parte significativa do seu tempo a discutir as causas das alterações climáticas, a eficácia e o grau de cumprimento dos acordos internacionais, e a escala das mudanças a realizar na produção e na logística das actividades económicas, assim como o nível e a estrutura do consumo actual, incluindo o turismo por via aérea. Porém, a comunicação social de grande alcance, a dos canais de televisão, apenas responde ao que dá rendimento publicitário. O tema das alterações climáticas não é comercialmente interessante, e até pode ser incómodo para alguns anunciantes que contribuem significativamente para o problema que enfrentamos. Exibe-se a tragédia humanitária mas silencia-se a discussão séria das causas estruturais dos desastres ambientais.

Se pensarmos bem, não é difícil perceber o interesse das grandes empresas na manutenção do caminho para o abismo que estamos a percorrer. A cotação das suas acções na bolsa depende em boa parte das expectativas de crescimento da economia, sendo este em larga medida sustentado pelo crescimento do consumo, o que exige a exploração dos recursos finitos e a degradação do planeta. Há aqui um conflito de interesses e uma real ameaça à democracia. Os decisores políticos estão sujeitos a uma enorme pressão das empresas no sentido de manterem uma política de mudanças leves que não ponham em causa o status quo. Como alguns cidadãos já perceberam, este crescimento económico e financeiro só pode ser mantido através de uma poderosa rede comunicacional que seja eficaz na alienação das populações através do entretenimento vazio, e alimente a ilusão de que, através de alguns investimentos em energias renováveis, temos boas perspectivas para uma trajectória sustentável. Difundem um cenário de resolução do problema pela via do mercado das emissões e pela inovação tecnológica que está em curso. Através de um ‘crescimento verde’, o capitalismo reinventar-se-ia e a crise ambiental desapareceria.

Na verdade, apenas uma transformação profunda deste sistema económico pode evitar o colapso da Humanidade. Isso implica grandes mudanças nos padrões de consumo, grandes mudanças nos sistemas agrícolas, grandes mudanças no sentido da desglobalização comercial (os transportes aéreo e marítimo são uma grande fonte de emissões) e, ainda mais importante, uma mudança no que entendemos por desenvolvimento. Para além de um dado limiar de consumo frugal, as políticas públicas deverão promover a busca do sentido da vida através da criação de tempo/espaço favorável a relacionamentos humanos de qualidade, uso de serviços e equipamentos públicos, fruição da natureza, investimento pessoal na organização e nas actividades da comunidade a que pertencemos, intervenção em diferentes níveis de debate e decisão no quadro de uma democracia participativa, em complemento de uma renovada democracia representativa, etc. Uma nova macroeconomia focada no pleno emprego, no desenvolvimento regional e local, na justiça social, e no respeito pelos limites e equilíbrios do planeta terá de informar as políticas económicas.

De facto, confrontados com um enorme risco de sobrevivência da Humanidade, bloqueados pelos interesses instalados que insistem no caminho para o desastre, enfrentando o silêncio cúmplice dos media que anestesiam os cidadãos, só nos restam a mobilização através dos media alternativos, e a realização no espaço público de acções mediáticas que abram caminho a novas iniciativas políticas. Por imperativo moral, o silêncio não é uma opção. A ideologia e o sistema de interesses que comandam as nossas vidas obrigam-nos a escolher: ou o Capitalismo, ou a Humanidade.
 
[1]Schroder, E. e Storm, S. (2018), Why “Green Growth” Is an Illusion. 

[2]Anderson, K. (2015), On the duality of climate scientists. Disponível em: 

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

Dia da Sobrecarga do Planeta à escala mundial: A partir de hoje, Humanidade vive a ‘crédito’ na Terra


Esta quarta-feira, dia 2 de agosto, assinala-se o dia em que a Humanidade excedeu a capacidade do planeta para regenerar os recursos e serviços ambientais de que precisa para viver, no âmbito dos atuais padrões de produção, consumo e desperdício. A partir de hoje, estamos a usar os recursos naturais a ´crédito’, que só deveriam começar a ser usados a 1 de janeiro do próximo ano.
Em 2022, o Dia da Sobrecarga do Planeta chegou no dia 1 de agosto, e, segundo a associação ambientalista Zero, embora nos últimos 70 anos se tenha observado uma antecipação do uso do ‘cartão de crédito ambiental’, “a última década espelha uma desaceleração”.
Quanto aos últimos cinco anos, esse dia ocorreu entre 1 e 3 de agosto, com exceção de 2020, em que se assinalou a 16 desse mês (muito provavelmente devido aos efeitos da pandemia de COVID-19), com a Zero a dizer que “a tendência é de estagnação”.
Tal dever-se-á, sugerem os ambientalistas, “aos esforços de descarbonização e a um conjunto de políticas que visam promover o respeito pelos limites do planeta, muito embora possa também estar a ser influenciada por alguma desaceleração económica nos últimos anos”.
Apesar disso, a Zero alerta que “esta tendência é insuficiente para alcançar os objetivos do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPPC) de reduzir as emissões de carbono a nível mundial em 43% até 2030 (tendo por referência 2010)”. Para ser possível cumprir essas metas, “teremos de retirar 19 dias em cada um dos próximos sete anos”.
A organização portuguesa diz que “a Humanidade tem de acelerar o passo e promover as mudanças necessárias de forma a reduzir o impacte que as suas atividades e necessidades têm sobre a capacidade de carga do planeta”, explicando que aumentar o contributo das energias renováveis para 75% das necessidades mundiais de eletricidade poderá reduzir em 26 dias o uso do ‘crédito ambiental’, e que cortar em quase metade o desperdício alimentar a nível global “pode contribuir para uma redução de mais 13 dias”.
Além disso, a redução das emissões de dióxido de carbono e do consumo de carne são também apontadas como centrais para adiar o dia em que passamos a viver acima das nossas possibilidades na Terra.
Existem muitos projetos ativos que contribuem para equilibrar a atividade humana com o orçamento ecológico da Terra. Pode encontrar uma ótima visão geral aqui.

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Entrevista a Nicolas Jourdain: Economia circular pode ser “difícil de implementar” mas “o potencial é enorme”


A economia circular é apontada como um pilar-chave da transição para modos de produção e consumo mais sustentáveis e com menos impactos sobre o planeta. A maior parte dos recursos que nos são disponibilizados pela Terra, e dos quais as nossas economias e vidas hoje dependem, não são infinitos, pelo que os modelos de extração, transformação, comercialização e consumo também não podem basear-se na ideia de que são inesgotáveis.

Por isso mesmo, a União Europeia quer duplicar a presença de materiais reciclados nas economias regionais até 2030, mas este não parece ser um caminho fácil. Em 2021, os materiais reciclados representaram 11,7% de todos os materiais usados, um aumento de menos de 1% face a 2010.

Como tal, ainda temos muito terreno por desbravar para que consigamos concretizar uma verdadeira circularidade nas economias europeias.

Nicolas Jourdain, responsável de Economia Circular da KPMG para as regiões da Europa, Médio Oriente e África, falou com a ‘Green Savers’ sobre o potencial da circularidade para ajudar as economias europeias, e não só, a serem mais sustentáveis, a reduzirem a pressão sobre os sistemas planetários e a recuperarem, pelo menos em parte, a harmonia com a Natureza.

Estima-se que, se mantivermos os atuais níveis de consumo de recursos naturais, em 2050 precisaremos de três Terras para satisfazer as nossas necessidades. Do outro lado da moeda, temos os resíduos gerados pelo consumo, que se estima que aumentem em 70% até 2050. Como é que a economia circular pode ajudar a inverter estas tendências?

Das 100 mil milhões de toneladas de recursos naturais extraídas todos os anos, apenas cerca de 7% são circulares, pelo que o potencial é enorme. Mas temos de enfrentar uma grande mudança comportamental na compra de materiais, na produção, nos modelos de negócio, nos padrões de consumo e na gestão do fim de vida dos produtos. Tudo tem de basear-se nos princípios da economia circular, que visa dissociar o crescimento económico da extração de recursos naturais.

Os atuais debates sobre o tratado para pôr fim à poluição por plásticos, por exemplo, são muito interessantes, pois demonstram o que está em jogo e as forças frequentemente contraditórias em jogo para se chegar a uma solução sustentável. Das 408 milhões de toneladas métricas de resíduos plásticos produzidos todos os anos, menos de 18% são efetivamente separadas para reciclagem em todo o mundo e, frequentemente, o resultado é uma qualidade degradada. O problema não está na reciclagem, mas no próprio design dos produtos e na sua conceção inicial.

Quase tudo é concebido para ser deitado fora após a utilização, como se o material não tivesse qualquer valor residual. Tudo tem de ser reinventado em termos de conceção, volume, utilização e tratamento dos produtos, quando já não precisamos deles. Os mesmos princípios aplicam-se a praticamente todos os materiais de base utilizados para produzir os bens que consumimos: têxteis, metais, cimento, biomassa, vidro e combustíveis fósseis.

A transição energética é apontada como fundamental para reduzir os impactos humanos no planeta, combater as alterações climáticas, reduzir a poluição e travar a perda de biodiversidade. As tecnologias de energias renováveis podem basear-se na economia circular para serem verdadeiramente sustentáveis, em vez de dependerem da extração contínua de minerais e outras matérias-primas?

Abordámos esta questão fundamental num relatório intitulado “Resourcing the energy transition”.

Ao implementar o Acordo de Paris, são necessários esforços globais por parte dos governos e do setor privado para avançar para um sistema de energias renováveis. Fechar o ciclo não será fácil. O desenvolvimento destas estratégias de economia circular pode deparar-se com barreiras jurídicas, financeiras, organizacionais e operacionais, que exigem a colaboração entre as diferentes partes interessadas e, potencialmente, novas competências (tecnológicas, ambientais e económicas) para ultrapassá-las.

No entanto, à medida que a tecnologia avança, as oportunidades de adotar os princípios da economia circular e a sua aplicação aos recursos necessários para este sistema energético e para outras inovações tecnológicas deve estar no topo da agenda das empresas de um amplo espectro de setores.

A passagem para um sistema de energias renováveis e a transição para uma economia mais circular fazem parte da mesma agenda.

Porque é que é tão importante que a economia circular se torne o ponto de orientação das economias e deixe de ser algo marginal? As empresas apercebem-se da sua importância, não só para o planeta, mas para elas próprias?

É evidente que, atualmente, a economia circular é reconhecida pelos governos e decisores políticos como uma solução importante, se não a única solução, para resolver em profundidade os problemas do aquecimento global devido às emissões de gases com efeito de estufa, da poluição do solo, do ar e da água e do impacto na natureza e na biodiversidade devido à extração cada vez mais massiva de matérias-primas virgens (combustíveis fósseis, minerais ferrosos e não ferrosos, biomassa).

Mas a transição de uma economia linear, baseada precisamente em volumes muito elevados, em reduzidos ciclos de vida dos produtos e numa intensidade de extração muito elevada dos recursos naturais a custos relativamente baixos, é particularmente difícil de implementar.

Estamos a falar de uma transformação completa dos modelos empresariais e das relações entre as funções empresariais e com os fornecedores, clientes e concorrentes, que devem evoluir para uma maior integração e colaboração. Muitas coisas precisam de ser repensadas, como a conceção dos produtos e a gestão do ciclo de vida, para prolongar ou mesmo multiplicar a vida dos produtos vendidos ou alugados, uma vez que a economia circular evoluirá necessariamente para modelos de aluguer ou de leasing, em que o cliente pagará pela utilização e pelos serviços prestados pelo produto, em vez de ter propriedade sobre ele.

É uma transição que levará tempo, mas muitos líderes de mercado já vão com avanço. Os líderes da circularidade estão a emergir em muitos setores, como o automóvel, a eletrónica, o equipamento industrial ou a construção. A longo prazo, será uma corrida pela competitividade e inovação.

Os produtos circulares e responsáveis tornar-se-ão uma questão importante tanto para o impacto ambiental das empresas como para os clientes e os consumidores, que deixarão de aceitar produtos irresponsáveis que causam danos aos ecossistemas e à sua saúde.

O que é que tem impedido a economia circular de se afirmar verdadeiramente e de se tornar a regra e não a exceção? Será que é a resistência das empresas e indústrias em utilizar materiais “usados”, é o facto de os consumidores não exigirem esta mudança e quererem produtos novos, ou será que a responsabilidade recai sobre os organismos governamentais e reguladores que não implementam as regras necessárias?

Penso que é um pouco de tudo isso. Mas, na minha opinião, é sobretudo uma questão de acesso fácil a recursos virgens e a combustíveis fósseis baratos nos últimos 150 anos. Toda a indústria tem sido organizada em torno de uma economia linear de “pegar, fazer, usar, desperdiçar” desde o final do século XIX, com uma aceleração acentuada após a Segunda Guerra Mundial.

Por isso, tudo precisa de ser alterado e adaptado, e isso envolverá o lado da oferta e inovações das empresas, o setor público e, especialmente, as cidades e regiões, o apetite dos consumidores por esses novos tipos de produtos e padrões de consumo mais responsáveis, os legisladores e os investidores.