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segunda-feira, 27 de novembro de 2023

Geoengenharia solar: ineficaz, arriscada e desnecessária

Solar geoengineering is becoming a respectable idea [The Economist, 22.11.2023]


Tem gente propondo combater a mudança do clima por meio da geoengenharia solar, a diminuição artificial da intensidade da insolação. Um processo em grande parte ineficaz, desnecessário e que traz riscos potenciais. Ao invés disso, devemos nos concentrar em soluções que funcionam no mundo real.


Interromper as mudanças do clima é relativamente simples. Nós sabemos o que fazer. Só temos que fazer.

Sobretudo, precisamos acabar o mais rápido possível com as emissões de gases de efeito estufa – vindas do uso da energia, do uso da terra e da agricultura, e de materiais exóticos do mundo. Já existem muitas oportunidades para se reduzir as emissões de eletricidade, alimentos e agricultura, indústria, transporte e edificações.

Também há oportunidades para se apoiar e melhorar os sumidouros naturais de carbono que podem ajudar a remover os gases de efeito estufa que já emitimos. E há maneiras de melhorar a sociedade com benefícios climáticos adicionais.

No Project Drawdown, delineamos dezenas de oportunidades para reduzir emissões, apoiar os sumidouros de carbono e melhorar a sociedade – impedindo que o mundo se encaminhe para mudanças climáticas descontroladas.

As soluções climáticas começam por se reduzir as fontes de gases de efeito estufa, incentivar remoções de carbono e melhorar a sociedade de maneiras que ofereçam benefícios climáticos. Imagem por Projeto Drawdown 2021.

As soluções essenciais estão bem na nossa frente. Nosso trabalho é aplicá-las em escala da forma mais rápida, segura e equitativa possível.

Mas alguns parecem não estar dispostos a aceitar isto e propõem a implantação de ideias descabidas para combater as mudanças climáticas ao invés de atacar suas causas subjacentes.

O que é Geoengenharia Solar?
A ideia básica é manipular a quantidade de luz solar que atinge a Terra, refletindo parte dela de volta ao espaço. O processo pretende esfriar o planeta apenas o suficiente para neutralizar os efeitos de aquecimento causados pelo aumento dos gases de efeito estufa.

Há várias maneiras de se refletir a luz solar. Podemos colocar grandes espelhos em órbita ou em uma posição estável entre a Terra e o Sol. Mas a opção mais frequentemente discutida é injetar aerossóis na estratosfera, a camada de ar que reside a cerca de 10 a 50 quilômetros acima da superfície. Estes aerossóis espalhariam um tanto da luz solar que atinge a Terra, refletindo-a para o espaço.

Já existe uma camada natural de aerossóis de sulfato na estratosfera, com enxofre proveniente de emissões vulcânicas e outras fontes naturais. Sua espessura varia de ano para ano, especialmente após grandes erupções vulcânicas. A geoengenharia solar tornaria esta camada mais espessa, refletindo mais luz solar, resfriando assim o planeta.

À primeira vista, pode parecer razoável. Por que não podemos simplesmente dissipar um pouco de sol e esfriar um pouco o planeta? Isto não contrabalançaria bem os efeitos do aquecimento global?

Não exatamente.
Espalhar aerosois na atmosfera não combate efetivamente o aquecimento causado pelos gases de efeito estufa

Embora possa parecer razoável se cancelar o aquecimento do efeito estufa com a refrigeração por geoengenharia solar, não é tão simples assim. As formas como os gases de efeito estufa aquecem o planeta são muito diferentes de como a geoengenharia solar poderia resfriá-lo. Um não cancela diretamente o outro.

Ao efetivamente “aprisionar” parte da radiação infravermelha de saída da Terra, os gases de efeito estufa aquecem o planeta de uma forma particular. Em primeiro lugar, o aumento dos gases de efeito estufa faz com que o planeta se aqueça mais à noite do que durante o dia – um padrão observado em grande parte do mundo. Eles também aquecem o planeta mais nas altas latitudes, especialmente no Hemisfério Norte, do que nas regiões equatoriais. E geralmente causam mais aquecimento nos meses de inverno do que nos de verão.

Injetar aerossóis na estratosfera esfriaria o planeta – mas de uma maneira diferente. Como os aerossóis refletem a radiação solar, eles são mais eficazes durante o dia, durante o verão e na zona equatorial. Em outras palavra: o padrão oposto do aquecimento causado pelos gases de efeito estufa.

Portanto, este tipo de geoengenharia solar não combateria efetivamente o aquecimento causado pelos gases de efeito estufa. Ela tenderia a esfriar os lugares errados, nas horas erradas, para ser um antídoto perfeito contra o aquecimento de efeito estufa.

Simplificadamente, não se apresenta como uma solução fácil para o aquecimento causado pelos gases de efeito estufa.

Uma analogia vem à mente: se seu cabelo pegar fogo, colocar os pés na água gelada não vai ajudar.

A geoengenharia solar não só é largamente ineficaz como pode ser perigosa. O efeito combinado dos gases de efeito estufa e da geoengenharia solar pode criar uma verdadeira desordem – potencialmente desestabilizando os padrões climáticos e meteorológicos de formas imprevisíveis. Isso pode tornar as coisas ainda piores.

Há outros riscos
Se os efeitos da geoengenharia solar somente no clima não o preocupam – e deveriam – há um conjunto de outros impactos a se considerar.

Em termos potenciais, o mais grave deles é como a mudança da natureza da luz solar ao redor da Terra afetaria a fotossíntese, a própria fundação da biosfera. Ao se reduzir a quantidade de luz solar que atinge a superfície da Terra e mudar o equilíbrio da luz solar “direta” e “difusa” (efetivamente fazendo o céu parecer mais nebuloso), a geoengenharia solar poderia causar um impacto profundo sobre os ecossistemas e as culturas.

Além disso, mudar fundamentalmente a natureza da estratosfera – por décadas à frente – poderia ter impactos profundos na física, na química e na circulação da atmosfera superior. Os efeitos ambientais disto, a longo prazo, ainda são mal compreendidos, mas uma preocupação é que poderiam prejudicar a camada de ozônio estratosférica.

A geoengenharia solar não faz nada em relação aos efeitos não-climáticos do aumento do dióxido de carbono. Mesmo que pudesse neutralizar o aquecimento global, seria nula em relação à acidificação dos oceanos. Isto, por si só, a retira da contenda como uma solução séria.

Principalmente, me preocupo com o risco moral da geoengenharia solar – nos distraindo do trabalho real de lidarmos com as mudanças climáticas. Ao invés de gastarmos tempo, atenção e dinheiro com fantasias, concentremos nossa atenção na redução das emissões de gases de efeito estufa do mundo, apoiando os sumidouros de carbono da natureza e melhorando os fundamentos da sociedade.
Apesar de manchetes equivocadas, os cientistas não estão endossando a ideia

A geoengenharia solar recentemente ganhou atenção porque a Academia Nacional de Ciências, um respeitado órgão consultivo do governo dos Estados Unidos, propôs um programa de pesquisa limitado sobre o tema.

Ela não endossou o conceito, como alguns meios de comunicação erroneamente relataram. Ela meramente propôs um esforço de pesquisa para se examinar o conceito, incluindo seus perigos potenciais. É uma linha de ação razoável.

Mas não confundam esta proposta de estudo com um endosso da geoengenharia solar por cientistas climáticos sérios. Não é o caso.

A geoengenharia solar é desnecessária
Um último argumento dos proponentes da geoengenharia solar é que podemos precisar dela como uma medida de emergência para “dar uma brecada” nas mudanças climáticas – se não agirmos a tempo.

Essa é uma posição irónica, já que a geoengenharia solar desvia a atenção da ação efetiva sobre o clima.

Mas também é equivocada por outro motivo: temos outras ferramentas para “dar uma brecada” no sistema climático. E estas não representam uma distração perigosa no caminho de impedirmos a mudança do clima. Na verdade, elas são parte da solução.

O aquecimento global é causado por vários gases – não apenas pelo dióxido de carbono. Cada gás tem suas próprias características. Alguns retêm mais calor, molécula a molécula, do que outros. E alguns duram mais tempo na atmosfera do que outros.

Para rapidamente diminuir a mudança do clima e ganhar tempo para que possamos fazer outras reduções de emissões, podemos nos concentrar em gases de efeito estufa poderosos e de curta duração como metano, monóxido de carbono e “carbono negro”.

Para entendermos como isto pode funcionar, olhemos os seguintes gráficos “pulso-resposta” de como os gases de efeito estufa afetam o clima. Veremos como um único ano de emissões (com base no mix que emitimos hoje) aqueceria o planeta durante as décadas seguintes. Em outras palavras, poderemos estimar como um único ano de “pulso” de gases de efeito estufa causa uma “resposta” de aquecimento nas décadas futuras.