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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Há um novo estreito em risco por causa da guerra entre Irão e EUA - trata-se do Estreito de Bab El-Mandeb : custos do comércio global podem disparar



O estreito de Bab El-Mandeb é uma das rotas comerciais mais importantes do mundo e separa os continentes asiático e africano. É a ligação entre o Mar Vermelho e o Oceano Índico, através do Golfo de Áden, e também uma das vias marítimas para o Canal do Suez, que liga ao Mediterrâneo.

A localização do Bab El-Mandeb confere-lhe uma enorme importância estratégica, que o Irão ameaça agora, através dos houthis, os maiores aliados que Teerão tem na região.

Os houthis são uma parte dos chamado Eixo da Resistência, uma coligação militar informal, liderada pelo Irão, que reúne vários grupos rebeldes armados que lutam contra a influência dos Estados Unidos, Israel e aliados no Médio Oriente.

O estreito fica entre o Iémen, o Djibuti e a Eritreia e é usado por cerca de 20 mil navios por ano, que representam um quinto de todo o comércio mundial.

Desde que o Irão bloqueou Ormuz, por exemplo, tem sido usado pela Arábia Saudita como única via para exportar milhões de barris de petróleo.

Nos últimos dois anos, os houthis atacaram e sequestraram alguns navios na passagem por Bab El-Mandeb, mas agora ameaçam com ataques em grande escala, que podem obrigar ao fecho do estreito e que podem, mesmo, chegar aos navios que atravessam o Mar Vermelho.

A ameaça de eventual bloqueio surge poucas horas depois de o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter voltado a endurecer o discurso contra Teerão, incluindo referências a possíveis ataques a infraestruturas como centrais elétricas e pontes.

Neste domingo Ali Akbar Velayati, conselheiro do novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, afirmou neste domingo numa publicação em inglês na rede social X que Washington deve encarar esta passagem estratégica “como encara Ormuz”, sugerindo que poderá sofrer perturbações semelhantes às já registadas no Golfo Pérsico.

Um analista do Atlantic Council não tem dúvidas do que pode acontecer se Trump não terminar rapidamente esta guerra: "O regime iraniano demonstrou o imenso poder global que pode exercer ao fechar o Estreito de Ormuz e ao pressionar a economia mundial. Se Trump agravar a situação ao atacar a ilha iraniana de Kharg, de onde é exportado 90% do petróleo do Irão, ou atacar a infraestrutura energética regional, o Estreito de Bab el-Mandeb tornar-se-á uma via crucial para o regime demonstrar o seu poder. Não estamos numa situação em que os iranianos estejam a capitular, já que Trump também está desesperado para negociar", constatou Danny Citrinowicz, citado pelo El País.

Se isso acontecer, será mais um golpe severo para a economia mundial, com os navios obrigados a irem dar a volta pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, aumentando exponencialmente os custos de milhares de produtos essenciais.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Invasão do Irão - a complexa teia de conflitos no Médio Oriente: um contributo histórico e teológico


Este cartoon que circula na net é pura desinformação e demonstrativo que há muita ignorância sobre o Islamismo,  o papel dos EUA, Palestina, Irão e Israel e Arábia Saudita e o extremismo muçulmano.
Vamos por partes: 

O Irão era um país governado por xiitas. Uma minoria no mundo muçulmano. 

Geografia
O termo "países sunitas" geralmente se refere a nações onde a maioria da população muçulmana segue o Sunismo, que é o maior ramo do Islão (estimado em 85% a 90% de todos os muçulmanos do mundo).

Diferente do Xiismo, que tem uma concentração geográfica muito clara (principalmente Irão e Iraque), o Sunismo está distribuído por quase todo o mundo islâmico.

Principais países de maioria Sunita
Estes países são centros políticos, culturais ou demográficos do mundo sunita:
  1. Arábia Saudita: considerada o "berço do Islão", abriga Meca e Medina. É a principal potência sunita no Médio Oriente
  2. Indonésia: o país com a maior população muçulmana do mundo, predominantemente sunita.
  3. Egito: sede da Universidade de Al-Azhar, a instituição de ensino sunita mais prestigiada do mundo.
  4. Turquia: embora laico é uma potência regional com uma longa tradição histórica sunita (herança do Império Otomano).
  5. Paquistão: possui uma das maiores populações sunitas globais.
  6. Nigéria: tem a maior população muçulmana da África Subsariana, maioritariamente sunita.
  7. Palestinos são maioritariamente sunitas.
Além disso existem países onde os xiitas não são a maioria absoluta, mas controlam o destino da nação:
  1. Líbano: não há um censo oficial recente, mas estima-se que os xiitas sejam o maior grupo religioso individual (cerca de 30-35%). Através do Hezbollah, os xiitas exercem um poder militar e político que muitas vezes supera o do próprio estado libanês.
  2. Iémen: cerca de 35-42% da população é Zaidita (um ramo do xiismo, como discutimos sobre os Houthis). Eles controlam atualmente a capital, Sanaa, e grande parte do norte do país.
  3. Síria: o país é majoritariamente sunita (70%), mas é governado pela família Al-Assad, que pertence aos Alauítas (um ramo minoritário e místico do xiismo). Por serem uma minoria xiita governando uma maioria sunita, o Irão é o seu aliado mais vital para se manterem no poder.
As diferenças teológicas entre sunitas e xiitas
A divisão entre Sunitas e Xiitas é a maior e mais antiga cisão do Islão. Embora ambos partilhem os pilares fundamentais - como a crença em um único Deus (Allah), no Alcorão e no Profeta Muhammad — a divergência começou como uma disputa política de sucessão que, ao longo dos séculos, ganhou camadas teológicas profundas. A separação ocorreu logo após a morte do Profeta Muhammad em 632 d.C.
  1. Sunitas: acreditavam que o líder (Califa) deveria ser escolhido por consenso entre os membros da comunidade e os seus companheiros. Eles apoiaram Abu Bakr, um amigo próximo do Profeta.
  2. Xiitas: acreditavam que a liderança era um direito divino e deveria permanecer na linhagem direta do Profeta. Eles apoiaram Ali, primo e genro de Muhammad, afirmando que ele foi designado pelo próprio Profeta. 
Com o passar dos séculos, essa disputa política evoluiu para divergências teológicas fundamentais. A principal delas reside no conceito de Imã. Para os sunitas, o Imã é um líder religioso e de oração, um homem respeitável, mas sem poderes sobrenaturais ou infalibilidade. Já para os xiitas, o Imã é uma figura divinamente inspirada e infalível, que possui um conhecimento esotérico do Alcorão inacessível aos homens comuns. A vertente majoritária do xiismo acredita em uma linhagem de doze Imãs, sendo que o último teria entrado em ocultação e retornará no fim dos tempos como o Mahdi, o salvador da humanidade.

Essas visões de mundo também alteraram a estrutura de autoridade. O Islã sunita é historicamente menos hierarquizado, focando na interpretação de textos por diversos juristas. O Islão xiita, por sua vez, desenvolveu uma hierarquia clerical muito forte e organizada - como os Aiatolás no Irão - onde os fiéis buscam orientação em líderes vivos que representam a autoridade do Imã oculto. 
Até mesmo nos rituais há nuances: embora ambos rezem voltados para Meca e sigam os cinco pilares do Islão, os xiitas costumam tocar a testa numa pequena pedra de argila (turbah) durante a prece e celebram datas de martírio, como a Ashura, com uma intensidade emocional e ritualística que não existe no mundo sunita.

Os Houthis (oficialmente conhecidos como Ansar Allah) trazem uma camada extra de complexidade a essa conversa. Eles são muçulmanos, mas pertencem a um ramo específico e diferente do que discutimos até agora.

Aqui está o "RX" religioso e político dos Houthis:
1. Eles são Xiitas, mas "Diferentes"
Os Houthis pertencem ao Zaidismo (ou Xiismo de Cinco Imames).O que isso significa? O Zaidismo é um ramo do xiismo que existe quase exclusivamente no Iémen.
Proximidade com os Sunitas: teologicamente, os zaiditas são considerados o ramo do xiismo mais próximo dos sunitas. Eles não acreditam na infalibilidade dos Imames da mesma forma que os xiitas do Irão (Duodecimanos) e não partilham a mesma hierarquia clerical rígida.
2. A Relação com o Irão
Embora os Houthis sejam zaiditas e os iranianos sejam xiitas duodecimanos, eles se tornaram aliados próximos por razões estratégicas- O "Eixo de Resistência": O Irão fornece armas, drones e treino aos Houthis.
Inimigo Comum: Ambos se opõem fortemente à influência dos EUA e da Arábia Saudita (que faz fronteira com o Iémen e interveio militarmente contra os Houthis).

Onde eles se encaixam no mapa que montamos?

Para facilitar a visualização de quem é quem nas alianças atuais:

Grupo radical/País

Ramo Religioso

Principal Aliado

Hamas (Palestinos)

Sunita

Irão (Apoio financeiro/militar)

Hezbollah (Líbano)

Xiita (Duodecimano)

Irão (Alinhamento total)

Houthis (Iémen)

Xiita (Zaidita)

Irão (Apoio militar/logístico)

ISIS e Al-Qaeda (Arábia Saudita)

Sunita 

EUA / Países do Golfo


Curiosidade: o Lema Houthi
Se você vir imagens dos Houthis, verá frequentemente uma bandeira com frases escritas em árabe (o Sarkha). O lema deles é bastante agressivo e reflete sua ideologia política: "Deus é o maior, morte à América, morte a Israel, maldição sobre os judeus, vitória para o Islão".

Política e gestão estratégica petróleo e nuclear
Na política do Médio Oriente, prevalece a regra de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. A Arábia Saudita, de liderança sunita, e o Irão, de maioria xiita, disputam a hegemonia da região há décadas, e o Irão é visto pelos sauditas como uma ameaça muito mais direta e existencial do que Israel. Como Israel também é o maior adversário do Irão, a Arábia Saudita e Israel tornaram-se aliados informais, trocando inteligência e cooperação militar de forma discreta para conter a influência iraniana.

Somado a isso, há a aliança estratégica com os Estados Unidos, já que a Arábia Saudita é um dos maiores parceiros americanos no mundo e o seu exército é quase inteiramente equipado com tecnologia dos EUA. Como Israel é o aliado número um de Washington, uma invasão saudita a Israel seria um suicídio diplomático e militar, pois os Estados Unidos cortariam todo o apoio à monarquia e possivelmente interviriam para proteger o Estado judeu.

O Paquistão consolida-se como uma das nações mais complexas do cenário global, sendo o país com a segunda maior população muçulmana do mundo, atrás apenas da Indonésia. Sua identidade é intrinsecamente ligada ao Islão, tendo sido fundado em 1947 como um refúgio para os muçulmanos do subcontinente indiano — um projeto liderado por Muhammad Ali Jinnah, que, curiosamente, era de origem xiita. Embora o país tenha nascido sob um ideal de união muçulmana contra o domínio britânico e a maioria hindu da Índia, a realidade interna contemporânea é marcada por uma profunda divisão sectária. A vasta maioria da população (cerca de 80-85%) é sunita, predominantemente da escola Hanafi e dividida entre os tradicionais Barelvi e os rigorosos Deobandi. No entanto, o Paquistão também abriga a segunda maior comunidade xiita do planeta (10-15%), o que representa um contingente expressivo de até 30 milhões de pessoas.

Essa composição demográfica coloca o Estado em uma posição diplomática delicada, funcionando como um pêndulo entre as influências da Arábia Saudita e do Irão. Enquanto os sauditas atuam como pilares económicos, fornecendo petróleo e suporte financeiro, o Irã é um vizinho geográfico direto com o qual o Paquistão precisa manter uma estabilidade fronteiriça pragmática. Essa dualidade frequentemente transborda para conflitos internos, onde grupos radicais sunitas realizam ataques sectários alimentados por rivalidades externas. O que eleva drasticamente o peso dessa instabilidade interna é o fato de o Paquistão ser a única nação do mundo islâmico a possuir um arsenal nuclear comprovado, o que torna sua segurança institucional uma prioridade de vigilância global.

Diferente de Estados laicos, a "República Islâmica" integra a Sharia em seu sistema judicial e exige constitucionalmente que seus líderes máximos sejam muçulmanos. Em 2026, o desafio do país permanece o mesmo: equilibrar uma economia fragilizada e as pressões de grupos extremistas internos com a responsabilidade de ser uma potência nuclear em uma das regiões mais voláteis do mapa. A manutenção deste equilíbrio é o que define não apenas a sobrevivência do Estado paquistanês, mas a própria segurança regional no Sul da Ásia.

Neste cenário de equilíbrios delicados, a Turquia desempenha um papel de "irmã estratégica" e modelo político alternativo. Ao contrário do modelo teocrático iraniano ou da monarquia absoluta saudita, a Turquia — historicamente laica, mas sob uma liderança que busca resgatar o prestígio islâmico — oferece ao Paquistão uma parceria baseada na cooperação militar e tecnológica. Ancara é um dos principais fornecedores de hardware militar para Islamabad (incluindo navios de guerra e drones), ajudando o Paquistão a modernizar suas defesas sem depender exclusivamente do Ocidente ou da China. Além disso, a Turquia utiliza o "soft power" cultural, como suas produções televisivas de temática histórica islâmica, para fortalecer laços com a juventude paquistanesa, promovendo uma visão de liderança sunita moderna e resiliente.

Essa aproximação com a Turquia permite ao Paquistão reduzir sua dependência histórica de Riade, embora os sauditas continuem sendo os principais financiadores económicos e fornecedores de petróleo. Enquanto o Irã permanece como um vizinho geográfico que exige uma convivência pragmática para evitar conflitos de fronteira, a Turquia surge como o parceiro ideal para o desenvolvimento industrial e a projeção de voz nos fóruns internacionais. Em 2026, o desafio do governo paquistanês é navegar por esse triângulo de potências (Arábia Saudita, Irão e Turquia) enquanto gere uma economia fragilizada e garante que seu poderio nuclear permaneça sob controle firme, evitando que as tensões sectárias internas alimentadas por rivalidades externas desestabilizem o Estado.

Israel, Arábia Saudita e Estados Unidos
Atualmente, o foco saudita mudou sob a liderança do Príncipe Herdeiro Mohammed bin Salman, que lançou o plano Visão 2030 para modernizar a economia e reduzir a dependência do petróleo. Ele sabe que uma guerra regional destruiria os planos de atrair turistas e empresas de tecnologia, pois a estabilidade é melhor para os negócios do que o conflito ideológico. Esse caminho da diplomacia ficou evidente com os Acordos de Abraão, onde a Arábia Saudita estava muito perto de reconhecer oficialmente Israel antes do conflito em Gaza em 2023. Para os sauditas, a causa palestina funciona hoje mais como uma ferramenta de negociação para obter concessões do que como um motivo real para uma guerra aberta.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Guerras preventivas são proibidas." Ana Gomes diz que ataques de Israel e EUA ao Irão "são completamente ilegais"


Ana Gomes confessou, este sábado, "olhar com surpresa" para os ataques de Israel e dos Estados Unidos da América contra o Irão. Em declarações à TSF, antiga eurodeputada considerou que a ação militar de ambos os países "completamente ilegal".
"É uma atuação da Administração Trump, de Israel e de quem os apoiar completamente ilegal. Guerras preventivas são guerras proibidas no direito internacional", afirmou à TSF Ana Gomes.
A ex-eurodeputada argumenta também que a "desculpa" de uma "guerra preventiva" é "absolutamente ridícula", uma vez que os EUA "estavam em negociações com o Irão".

Os Estados Unidos e Israel iniciaram esta manhã um ataque conjunto ao Irão, que atingiu a capital, Teerão.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou que os Estados Unidos iniciaram "grandes operações de combate no Irão" e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, afirmou que o ataque tem como objetivo "eliminar uma ameaça existencial representada" pelo regime iraniano.
Washington exige que o Irão cesse o enriquecimento de urânio e limite o alcance dos seus mísseis, que Teerão recusa, aceitando apenas cortes no seu programa nuclear em troca da suspensão das sanções em vigor.
Segundo as autoridades iranianas, os bombardeamentos já provocaram pelo menos 40 mortos e 48 feridos.
O Irão já respondeu, lançando mísseis sobre bases militares norte-americanas de vários países da região.

Cardinal Pizzaballa slams US-backed ‘Board of Peace’ for Gaza as ‘colonialist operation’


New photos and videos highlight close ties between Epstein and Trump

domingo, 1 de junho de 2025

domingo, 25 de maio de 2025

Gabor Maté, Chris Hedges and Aaron Maté on 'Palestine: The Moral Issue of Our Time'


Chris Hedges e Gabor Maté, apresentados pelo premiado jornalista Aaron Maté, discutem a "questão moral do nosso tempo", Gaza. Hedges e Gabor Maté fazem discursos, participam em discussões bidirecionais e respondem a perguntas do público.

Agradecemos ao Nick Laparra, da Let's Give a Damn, e à Middle East Children's Alliance por organizarem o evento, nos terem facultado as imagens e nos terem permitido partilhá-las no nosso canal e na Substack.

Pode assistir ao evento completo, com direito a uma atuação musical de Mona Miara, aqui no canal Let's Give a Damn no YouTube

"American Fascists: The Christian Right and the War on America" é um livro de não-ficção de 2007 do jornalista americano Chris Hedges. American Fascists perfila a ascensão de uma direita cristã americana e argumenta que o bloco politicamente ativo possui as características de um movimento fascista.

domingo, 11 de maio de 2025

O paradoxo militar e autoritário de Israel


Quando Israel bombardeia a Síria, o Líbano e Gaza, é “autodefesa”. Quando o Iémen responde, de repente é “antissemitismo”.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2025

Relembrando a odisseia de Freya Stark



Remembering the explorer/writer/photographer, Freya Stark, today on her birthday

Born in Paris, the British/Italian woman was gifted as a little girl, the book “A Thousand and One Nights”, which inspired her later travels. She served as a VAD (“Voluntary Aid Detachment”, i.e, a volunteer civilian nurse), in Italy during WWI, and learned a bevy of languages, including Arabic, Persian, Italian, English and others.

In 1927, Stark embarked on her first trip to the Near East, carrying only a fur coat, a revolver, and a little money. In the late 1920s/30s, she traveled throughout Syria, Lebanon, Iraq, Yemen, Kuwait, Iran and beyond. Occasionally, she ran into the politically charged reality of an area that, at the time, was under the colonial rule of France, Britain, et al. Writing about dealing with authorities, Stark wrote, “The great and almost only comfort about being a woman, is that one can always pretend to be more stupid than one is, and no one is surprised.”

Stark preferred to travel into dangerous and contested areas - she once inserted herself into a harem while in Iraq, providing a unique insight into a hidden world. She wrote about Bedouin peasants and tribal leaders, and was comfortable speaking with both.

Stark’s travels differed from those of her fellow female explorers, Gertrude Bell some years earlier, and her contemporary Aloha Wanderwell: Bell was an upper-class English aristocratic woman who stayed in fine hotels, and held parochial views towards indigenous peoples at times; Wanderwell traveled with a huge well-funded expedition. Stark, however, traveled alone, living and interacting with local peoples, speaking their language.

Stark’s work and viewpoints on the Near East would be controversial today. During WWII, she was essentially used as a propagandist for the British side.

Her last trip was to Afghanistan in 1968 when she was 75 years old, to see the 12th century brick-built Minaret of Jam, located in the inaccessible Hindu Kush region towards the northwest of the country.
Stark left approx 6,000 photographs, 50,000 negatives, and dozens of writings, of which her most well known is 1934’s “The Valley of the Assassins and Other Persian Travels”.
Freya Stark died in Italy in 1993 at the age of 100.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Empresas de transporte marítimo valorizam 22 mil milhões à boleia do conflito no Mar Vermelho


Desgraça de uns, sorte de outros. As maiores transportadoras marítimas do mundo registaram um salto na capitalização bolsista desde que começaram os ataques das milícias houthis. Agora, os barcos têm de contornar África para chegar à Europa, o que torna tudo mais caro.

Na senda da guerra entre Israel e a organização terrorista islâmica Hamas, as milícias houthi do Iémen começaram a atacar, há semanas, barcos no Mar Vermelho com drones e outras armas. Em meados de novembro, o grupo sequestrou um cargueiro, o "Galaxy Leader", propriedade de uma empresa israelita. Os houthis ameaçam agora atacar qualquer navio a caminho de Israel, se não for autorizado o transporte de mais alimentos e medicamentos para a Faixa de Gaza.

Os ataques dos houthis à navegação internacional são tão ferozes que quatro companhias de navegação internacionais anunciaram que vão passar a contornar uma das mais importantes rotas marítimas do mundo: o estreito de Bab al-Mandab, que liga o Golfo de Aden ao Mar Vermelho.

Os ataques dos Houthi a navios mercantes enquanto navegam através do Mar Vermelho estão a aumentar as acções de empresas que transportam tudo, desde bens manufacturados a petróleo e mercadorias.

A capitalização de mercado combinada das maiores companhias marítimas de capital aberto do mundo aumentou cerca de 22 mil milhões de dólares desde 12 de Dezembro, quando os ataques realmente aumentaram.

O aumento deve-se ao facto de um grande número de navios optar por evitar a área de conflito, onde os custos de seguro estão a aumentar. Isso significa que não podem usar o Canal de Suez do Egipto para fazer a ligação entre a Ásia e a Europa e, em vez disso, têm de navegar milhares de quilómetros ao redor de África para fazerem as suas entregas.

As maiores distâncias ocupam as frotas por mais tempo, reduzindo a oferta de navios. Os atrasos também causarão algumas perturbações, uma vez que os navios chegam aos seus destinos mais tarde do que o esperado e, em seguida, atrasam o regresso às suas próximas cargas, prejudicando ainda mais o abastecimento dos navios.

A Keuhne+Nagel, um gigante da logística global, disse quarta-feira que 103 navios porta-contentores foram desviados em torno de África, um número que espera aumentar. Alguns proprietários de petroleiros também insistiram em opções em seus fretamentos para evitar o sul do Mar Vermelho, enquanto a BP Plc e a Equinor ASA também se esquivaram da área.

A capitalização de mercado combinada das empresas do Solactive Global Shipping Index subiu para quase US$ 190 bilhões na quarta-feira. Em 12 de dezembro, era de US$ 166,2 biliões.

Existem também centenas de companhias marítimas privadas que poderão beneficiar se a perturbação no Mar Vermelho aumentar os custos de frete.

Saber mais:

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Leila Ghanem - O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista

Fonte: Coordenação dos Núcleos Comunistas

Nesta entrevista com a antropóloga e dirigente comunista libanesa Leila Ghanem há muita informação esclarecedora. Sobre o significado da operação de 7 de Outubro. Sobre o Hamas e sobre o Eixo da Resistência. Sobre as atrocidades anteriores e actuais cometidas pelo Estado sionista, no desempenho da missão que lhe foi atribuída pelo imperialismo ocidental: a de ser a cabeça de ponte para controlar rotas marítimas estratégicas, recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio sobre esta área de enorme importância. À custa do martírio do povo palestiniano e dos povos da região.

1. Porque é que a operação militar do Hamas de 7 de Outubro abalou o Médio Oriente e até o mundo? Qual é o impacto histórico deste acontecimento nos movimentos de resistência do Médio Oriente?
Não há dúvida de que para o povo palestiniano, e mesmo para o povo árabe, o “dilúvio de Al-Aqsa” de 7 de Outubro foi uma operação militar de proporções míticas; em qualquer caso, sem precedentes desde a ocupação da Palestina em 1948, uma espécie de epopeia lendária aos olhos dos povos árabes. Alguns escritores remontam a Homero para evocar a imagem da Ilíada, uma lenda heroica “em que os fracos conseguem derrotar o seu colonizador numa inimaginável relação de forças”. Em apenas duas horas a maior potência do Médio Oriente, o quinto maior exército do mundo, sofreu uma derrota esmagadora às mãos de uma modesta unidade de comandos apelidada de “Distância Zero” (para sublinhar o confronto do corpo contra o tanque), composta por uma centena de homens modestamente armados mas dotados de uma coragem heroica. Vinte colonatos libertadas, bases militares ocupadas - uma das quais abrigava o quartel-general do Tsahal no sul -, um observatório militar de alta tecnologia encarregado de vigiar a fronteira, a unidade de investigação 545 e a unidade de informações 414 foram neutralizadas e dois generais capturados. A lenda sionista-ocidental da invencibilidade do Estado sionista foi destruída. Numa questão de horas, Gaza transformou-se em Hanói. E recordamos a célebre frase do general Giap durante a sua visita a Argel, em Dezembro de 1970: “Os colonialistas são maus alunos de História”.

Para o escritor e activista palestiniano Saif Dana, o exemplo que mais se aproxima desta vitória militar, apesar do desequilíbrio na relação de forças entre colonizados e colonizadores, é a “Revolução Haitiana”, que foi e continua a ser um símbolo importante para as pessoas de cor de todo o mundo. Armados de coragem e da “vontade de emancipação”, os haitianos, liderados por Dessalines, lançaram-se numa batalha decisiva contra os colonos franceses, que tinham acabado de receber reforços sob o comando do general Rochambeau. Esta batalha parecia estrategicamente impossível, mas após quatro ataques heroicos dirigidos pelo líder negro Cabuat, os franceses foram finalmente forçados a capitular em 18 de Novembro de 1803, no Forte Vertières, embora os haitianos tenham sofrido uma perda considerável de vidas. As guarnições francesas renderam-se uma a uma, o que permitiu à antiga colónia proclamar a sua independência em 1 de Janeiro de 1804. A partir de então, passou a chamar-se Haiti. Esta lendária batalha ficou registada nos anais da história. Mais tarde, inspirou revoltas de escravos noutros locais, como a rebelião de Aponte em Cuba, em 1812, ou a conspiração de Denmark Vesey na Carolina do Sul, em 1822. Esta vitória teve também uma influência decisiva em Simón Bolívar e outros líderes de movimentos independentistas na América Latina, embora se tivesse de esperar até 1834 para abolir a escravatura.

O que aconteceu a 7 de Outubro na Palestina é tão lendário como a batalha do Haiti e ficará para sempre nos anais da história, tal como as batalhas de Hittin, El Kadissiya, etc., no tempo de Saladino.

Imaginem o terramoto que abalou todo o sistema do Império Ocidental perante a súbita derrota da sua mão direita, na qual tinha investido milhares de milhões de dólares durante quase um século. A mesma potência a quem o Império tinha confiado o papel de ser a cabeça de ponte imperial para controlar as rotas marítimas estratégicas, os recursos vitais como o petróleo, o gás e o urânio, e de ser a chave para consolidar o seu domínio desestabilizando os inimigos do Império, introduzindo relações de classe em benefício dos opressores…. Israel estava no centro deste sistema capitalista que tinha de manter os países do Sul dependentes dele; para isso, o povo palestiniano tinha de se converter num cenário precursor, um modelo a seguir… Para o conseguir, era necessário despossuí-lo, desumanizá-lo, mantê-lo sob bloqueio, massacrar os seus líderes históricos… Isto exigia um estatuto específico para os seus fantoches e protecção política, institucional, financeira e mediática…

O alarme imediato que abalou todos os dirigentes do mundo capitalista no dia 8 de Outubro, que acorreram em massa a Telavive, é a prova irrefutável do investimento do mundo ocidental neste Estado constituído à margem da lei, à margem de todos os direitos e normas humanas. Direitos e normas criados pelo próprio Ocidente.

O 7 de Outubro foi uma derrota para o Ocidente imperialista. E, a partir de agora, haverá um antes e um depois desse 7 de Outubro.

2. O Hamas é uma organização terrorista?
Comecemos por dizer que, para além dos EUA e da UE, nenhum outro país do mundo acusa o Hamas de terrorismo.

Se olharmos para a história, o termo “terrorista” nem sempre teve um carácter pejorativo. Os revolucionários usaram o “terror” contra os seus inimigos de classe. Foi durante a Revolução Francesa que o termo “terrorista” foi utilizado pela primeira vez, por Gracchus Babeuf, quando falou dos “patriotas terroristas do segundo ano da República”. Para o marxismo, o Terror não era em absoluto um fim político, mas uma ferramenta, o instrumento de uma política, e deve ser julgado em relação aos objectivos dessa política. Isto levanta duas questões diferentes: 1ª, a questão da legitimidade dos fins políticos. 2ª A adequação dos meios. Condenar o Terror como um “sistema” metafísico esconde um interesse em deslegitimar os objectivos políticos que ele se propôs.

Tomemos o exemplo da Comuna de Paris, ponto culminante da guerra civil francesa. Após a sua derrota, foram rotulados, para citar apenas Le Figaro, o órgão da reacção de Versalhes, como “terroristas do Hôtel de Ville”[da Câmara Municipal] ou “terroristas do 18 de Março” ou “a Comuna terrorista”.

O Terror foi defendido ou combatido em função dos objectivos que as diferentes classes sociais e facções políticas procuravam atingir, e que cada uma considerava legítimos.

Numa carta à sua mãe, Friedrich Engels explicava-lhe: “Dos poucos reféns que foram fuzilados à maneira prussiana, dos poucos palácios queimados à maneira prussiana, fala-se muito, porque tudo o resto é mentira; mas dos 40.000 homens, mulheres e crianças que os Versalheses massacraram com metralhadoras depois de terem sido desarmados, ninguém fala”.

Poder-se-ia pensar que esta descrição de Engels se refere aos acontecimentos em Gaza. Poder-se-ia pensar que ele está a descrever a forma como os meios de comunicação ocidentais avaliaram desproporcionadamente (e continuam a fazê-lo) o impacto do ataque do Hamas em 7 de Outubro e o genocídio que se seguiu com a retaliação sangrenta do exército Tsahal - o exército de Israel - apoiado pelas forças Delta dos EUA e pelos seus três porta-aviões no Mediterrâneo. Aqueles que falaram da Hiroshima de Gaza não estão longe do número das 70 000 vítimas que caíram no Japão em Agosto de 1945. Em Gaza, o número de civis mortos sobe para 50 000.

Os Estados imperialistas-coloniais têm denunciado habitualmente o terrorismo das lutas dos povos sob o seu domínio e tratado os seus combatentes como terroristas. Recordemos, uma vez mais, que várias organizações terroristas, colocadas no pelourinho ao longo da história, se tornaram interlocutores legítimos; foi o caso do Viet Cong, do Exército Republicano Irlandês (IRA), da Frente Argelina de Libertação Nacional, do Congresso Nacional Africano (CNA) e de muitas outras organizações que foram elas próprias qualificadas de “terroristas”, como a OLP e a FPLP na Palestina.

Este termo tinha e tem por objectivo despolitizar a sua luta, apresentá-la como um confronto entre o Bem e o Mal.

De cada vez que os palestinianos se revoltam, o Ocidente - tão rápido a glorificar a resistência dos ucranianos - invoca o terrorismo. Fê-lo durante a primeira Intifada, em 1987, e a segunda, em 2000, durante as acções armadas na Cisjordânia ou as mobilizações por Jerusalém, durante os confrontos em torno de Gaza, cercada desde 2007 e vítima de seis guerras em 17 anos.

Falta falar da questão da legitimidade de Israel para se defender e desarmar o Hamas. Alguns meios de comunicação sionistas chegam ao ponto de invocar Thomas Hobbes e a sua percepção daquilo a que chama a posse pelas classes dominantes do “monopólio da força física legítima”. Ignoram que essa legitimidade não pode ser aplicada a um Estado de colonos, legitimidade impugnada antes de mais pelos palestinianos, pelos povos dos países vizinhos atacados (libaneses, sírios, iraquianos, iemenitas, iranianos…) e por todos aqueles que o consideram um Estado de colonos. Antes da farsa do “Acordo de paz” de Oslo, a maioria dos países do mundo não reconhecia Israel. A sua legitimidade baseia-se simplesmente numa decisão da ONU, enquanto Israel tem rejeitado sistematicamente todas as decisões relativas ao povo palestiniano (resoluções 242, 323, 194, direito de regresso dos palestinianos ao seu país).

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

"Dispararam como chuva". Arábia Saudita acusada de mortes em massa de migrantes etíopes



Os guardas fronteiriços sauditas estão a ser acusados de matar centenas de migrantes, a maioria etíopes, usando armas explosivas e armas pequenas.No relatório da HRW, intitulado “They fired on us like rain” (“Eles dispararam contra nós como chuva”), conclui-se que "os guardas fronteiriços sauditas utilizaram armas explosivas para matar muitos migrantes e dispararam sobre outros à queima-roupa, incluindo muitas mulheres e crianças, num padrão de ataques generalizado e sistemático".

Em alguns casos, segundo o relatório, “os guardas fronteiriços sauditas perguntaram aos migrantes em que membro deviam disparar e depois dispararam sobre estes à queima-roupa".

No total, a HRW estima que "os guardas fronteiriços sauditas mataram pelo menos centenas de requerentes de asilo e migrantes etíopes que tentaram atravessar a fronteira entre o Iémen e a Arábia Saudita entre março de 2022 e junho de 2023". Os migrantes procuram atravessar o Iémen devastado pela guerra para chegar à Arábia Saudita.

A ONG defende que "os abusos sistemáticos sobre os etíopes (na Arábia Saudita) podem constituir crimes contra a humanidade" e apelou às Nações Unidas que iniciem uma investigação. A organização exigiu ainda à Arábia Saudita que revogue "imediata e urgentemente qualquer política de uso de força letal contra migrantes e requerentes de asilo".

“Vi pessoas mortas de uma maneira que nunca imaginei”

Algumas das pessoas que viajavam em grupos descreveram ter sido atacadas pelos guardas fronteiriços sauditas, munidos de espingardas e de outras armas explosivas, assim que cruzaram a fronteira. Outras afirmaram que foram espancadas por guardas com pedras e barras de metal. Mais de uma dezena de entrevistados testemunharam ou foram alvo de disparos à queima-roupa e seis foram atingidos tanto por armas explosivas como por disparos.

Algumas das testemunhas disseram que os guardas sauditas às vezes os mantinham em centros de detenção, em alguns casos durante meses, e os espancavam.

"Um rapaz de 17 anos afirmou que os guardas fronteiriços o obrigaram, juntamente com outros sobreviventes, a violar duas raparigas, também elas sobreviventes, depois de os guardas terem executado outro migrante que se recusou fazê-lo", refere o documento.

Todas descrevem um cenário de terror: vários corpos de mulheres, homens e crianças no chão, gravemente feridos, já mortos ou desmembrados.

“Vi pessoas mortas de uma maneira que nunca imaginei”, disse Hamdiya, uma menina de 14 anos que cruzou a fronteira com um grupo de 60 pessoas em fevereiro, citada pelo relatório. “Vi 30 pessoas mortas no local”, afirmou.

A principal investigadora do relatório da HRW, Nadia Hardman, descreveu as descobertas como “obscenas”.

“Eu cubro a violência nas fronteiras, mas nunca encontrei algo desta natureza, o uso de armas explosivas, inclusive contra mulheres e crianças”, disse Hardman.

Arábia Saudita rejeita acusações
As autoridades sauditas responderam ao relatório da HRW no passado sábado, rejeitando veementemente as acusações de assassinatos sistemáticos ou em grande escala.

"Com base nas informações limitadas fornecidas, as autoridades do Reino não descobriram nenhuma informação ou prova para confirmar ou sustentar as alegações", respondeu o Governo saudita numa carta enviada à ONG.

Cerca de 750 mil etíopes vivem e trabalham na Arábia Saudita e, "embora muitos migrem por razões económicas, outros fugiram devido a graves violações dos direitos humanos na Etiópia, nomeadamente durante o recente e brutal conflito armado no norte do país", salientou a ONG.

Embora a HRW tenha documentado assassinatos de migrantes na fronteira com o Iémen e a Arábia Saudita desde 2014, a ONG salienta que “os assassinatos parecem resultar de uma escalada deliberada, tanto no número como na forma de assassinatos seletivos”.

A HRW insta o governo saudita a "investigar e disciplinar ou processar adequadamente o pessoal de segurança responsável por assassinatos ilegais, ferimentos e tortura na fronteira com o Iémen" e apela aos "países preocupados" que imponham sanções a "funcionários sauditas e houthis credivelmente implicados em violações contínuas na fronteira".

“Os guardas de fronteira sauditas sabiam ou deveriam saber que estavam a disparar contra civis desarmados”, disse Hardman. “Se não houver justiça para o que parecem ser crimes graves contra migrantes etíopes e requerentes de asilo, isso apenas alimentará mais assassinatos e abusos", salientou

domingo, 25 de junho de 2023

“Tenho muita dificuldade em ver um país muçulmano exemplar nos direitos humanos” – xeque Munir


O imã da Mesquita Central de Lisboa, xeque David Munir, admitiu hoje à agência Lusa que tem “muita dificuldade” em ver um país islâmico exemplar, sobretudo no domínio dos direitos humanos, afinal, um dos pilares do Islão.
“Na teoria, o regime islâmico é baseado na tolerância, na misericórdia e na igualdade. […] Mas a questão que se coloca é que, no Islão, à partida, para dizer a verdade, eu tenho muita dificuldade de ver um país Islâmico exemplar. Em tudo. Nos direitos humanos e, acima de tudo, em valorizar o próximo”, afirmou o xeque Munir.
Numa entrevista à agência Lusa, o imã, que sábado foi um dos oradores de uma conferência subordinada ao tema “A Reforma no Islão”, organizada pela Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL), Observatório do Mundo Islâmico (OMI) e Centro Cultural Colinas do Cruzeiro (CCCC), frisou, porém, que o regime islâmico tem consagrado os direitos de igualdade, liberdade de expressão, liberdade de crença e tolerância.
“Cabe ao califa, que já não existe, ao emir, implementar. Tem de estar disposto a ouvir várias opiniões (…) na assembleia de pessoas, dos sábios ou dos mais entendidos ou dos líderes, os que têm a liberdade de dar a sua opinião”, explicou.
David Munir deu como exemplo o caso da democracia, quando, em eleições, um partido ganha eleições democraticamente com maioria absoluta, que lhe permite “fazer e desfazer”, sem dar hipóteses às restantes forças políticas representadas no Parlamento.
“Nos países islâmicos, temos militares e temos ditadores e temos pessoas que querem o poder e que não o querem deixar. Quando há uma pequena abertura para a possibilidade de haver um governo civil, há sempre golpes de Estado. Este é o mundo islâmico atual, em que a democracia não entra. Isto é assim, mesmo que a pessoa queira [mudar], não dura muito”, argumentou.
Para o xeque Munir, atualmente no Islão qualquer pessoa que levante a voz contra o regime, passa a ser considerado não islâmico, situação que lamenta.
"As opiniões das pessoas são válidas até a pessoa conseguir provar que não vai contra os princípios básicos do Islão. Mas, do outro lado, o que acontece nos dias de hoje, em termos gerais, qualquer pessoa que dê uma opinião diferente da do líder ou do partido que está no poder, não tem hipótese”, defendeu.
“Se for um país um pouco mais pacífico, tudo bem, tem o seu espaço, mas há pessoas que passam por represálias, põem a sua vida em risco, não se pode dizer nada, não se pode falar nada. Isto não tem nada a ver com o Islão”, acrescentou, admitindo que foi assim que surgiram movimentos extremistas, como o grupo Estado Islâmico, os Talibã ou o Al Shabbab.
“A falta de conhecimento, o querer o poder a todo custo, alguma influência também do Ocidente para criar uma certa instabilidade, enfim, se misturarmos tudo isto, temos uma boa refeição. No mundo Islâmico, ou em alguns países islâmicos, quando alguém sofre política, social e economicamente, quando se perde tudo, não tem razão de viver, então vai-se criando psicologicamente uma certa raiva, um certo ódio contra aqueles que estão no poder. Do outro lado, vem um grupo que usa o Islão e diz que vai manter a justiça ou igualdade. Dão alguma esperança à pessoa que perdeu quase tudo e esta acaba por se alinhar com alguma esperança. Mas depois, também acaba por ver que também não são diferentes dos outros”, explicou.
No entanto, na opinião de Munir, quem mais sofre com os grupos terroristas islâmicos “são os próprios muçulmanos”.
“A vida é sagrada para todos nós. Mas como há muçulmanos que não compactuam com a ideia deles e com a filosofia deles, passaram a ser inimigos também", afirma.
"Temos, infelizmente, vários grupos, vários 'lobos solitários' à solta e, quando um grupo é detido, desfeito, cada um faz aquilo que puder, na medida do possível, para manter a política, a filosofia, a ideia, a ideologia do grupo, e muitas vezes vai tentando influenciar o outro”, afirmou o imã da Mesquita Central de Lisboa.
“A falta de conhecimento faz com que as pessoas adiram sem saber porquê. E quando começam a estudar, quando começam a ler, abrem a mente e descobrem que, afinal, não é bem assim. E, ao abrirem a mente, quando começam a confrontar o líder, ou os líderes, são postos do lado”, justificou.
Questionado pela Lusa sobre quais os países muçulmanos que convivem num regime democrático, o xeque Munir admitiu ter “alguma dificuldade em responder”, uma vez que, apesar de já ter vivido em muitos países, não residiu em nenhum Estado muçulmano, pois sempre morou em Portugal, “no Ocidente”.
“O que eu sei sobre os países islâmicos é aquilo que sabemos das notícias. No entanto, os países que eu visitei, que não foram poucos, foram muitos, na prática não notei aquilo que eu gostava de notar. A justiça, a igualdade, a parte económica e social. Temos pessoas muito, muito ricas ou temos os muito, muito, muito pobres. Um dos pilares do Islão é a caridade obrigatória, 12,5%. Se todos dessem, iríamos melhorar muito a situação dos mais carenciados. Mas os ricos querem ficar mais ricos e os pobres vão ficar mais pobres. Esta desigualdade é social, mas também é islâmica”, explicou.
Admitindo que há ainda muito a fazer para pacificar o Islão no seu todo, o xeque Munir lembrou que “os grupinhos, grupos, líderes e congregações” que querem impor o radicalismo porque a leitura que fazem do Islão é muito limitada, não estão abertos a dialogar com os outros, mesmo sendo muçulmanos.
“Isso obriga a que o processo avance lentamente. Nalguns casos deram-se passos à frente e depois para trás e isso é um bocado complicado”, concluiu.

Sheik David Munir foi professor de Língua árabe no Instituto Oriental da Universidade Nova de Lisboa, na Universidade Independente e na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias.

É ainda membro do Conselho Consultivo Internacional da Fundação Paz e Democracia Monsenhor Martinho da Costa Lopes.

Tem como obras publicadas: “Deus que nunca o foi” (1987), “Ensinamentos Elementares do Islão” (1988) e “Da Ciência e Filosofia à Religião” (1996).

sábado, 3 de junho de 2023

EUA e Reino Unido são «obstáculos à paz» no Iémen


«Washington e Londres estão a perturbar activamente as negociações políticas iemenitas-sauditas», escreve o diário Al-Akhbar na sua edição de ontem.

De acordo com o periódico libanês, EUA e Reino Unido estão a tentar «obstruir todos os esforços que podiam conduzir à paz e colocam entre as suas primeiras considerações o interesse de Israel».

Este «interesse israelita» é a razão pela qual a Arábia Saudita tem estado a «adiar» os acordos que fez com Saná, que incluem o levantamento de todos os bloqueios e o pagamento dos salários aos funcionários, revela o jornal.

Isto, em conjunto com o envolvimento norte-americano e britânico, visa manter o Iémen num «estado sem guerra, mas sem paz».

«Os líderes políticos no Iémen sabem desde o início que… Riade é incapaz de cumprir os termos do acordo e… acabar com as repercussões da guerra devido aos interesses regionais divergentes», disseram as fontes que o periódico cita, acrescentando que, «por mais que concordem em minar a independência e soberania do Iémen», os membros da coligação «estão em conflito uns com os outros».

Neste sentido, explica que os interesses sauditas divergem hoje bastante dos dos Emirados Árabes Unidos, das potências ocidentais e de Israel.

De acordo com Al-Akhbar, a Arábia Saudita – que liderou a brutal guerra de agressão contra o vizinho do Sul desde Março de 2015 – está interessada em acabar a guerra e em sair do «pântano iemenita».

Já os Emirados Árabes Unidos pretendem manter a ocupação dos portos e campos petrolíferos do Iémen, bem como a ocupação das vias fluviais e, em particular, das ilhas, nomeadamente o arquipélago de Socotra, onde os emiradenses têm vindo a trabalhar com Israel para as transformar em centros conjuntos militares e de inteligência.

Isto está em linha com os interesses norte-americano e israelita em aumentar a sua influência no Mar Vermelho, sendo que Israel, segundo o periódico, está particularmente interessado no Estreito de Bab al-Mandab, que considera uma «artéria vital» para o comércio com o Oriente e um elemento central para fazer alastrar a sua influência no Corno de África.

Além disso, refere a publicação, os serviços de segurança israelitas manifestam preocupação com a capacidade do movimento Ansarullah para atingir Israel com mísseis.

Em várias ocasiões, o Conselho Supremo Político do Iémen acusou os EUA e o Reino Unido de fomentarem a guerra de agressão contra o país.

Esta semana, os dirigentes Hutis, que acusaram Washington de «ter obstruído a paz em diferentes períodos», afirmaram que os norte-americanos «estão a minar os esforços da mediação de Omã para pôr fim à agressão».

Segundo refere a cadeia iemenita al-Masirah, nos últimos tempos, as visitas de enviados norte-americanos a zonas ocupadas do Iémen e a Riade intensificaram-se, com o intuito de «abortar» a aproximação entre Riade e Saná.

sexta-feira, 24 de março de 2023

Guerra no Iémen faz 11 milhões de crianças precisarem de ajuda humanitária


O Fundo das Nações Unidas para a Infância, Unicef, lançou um alerta sobre a precária situação das crianças após oito anos de guerra no Iémen.

O agravamento do conflito, o fracasso económico do país e o desmonte de serviços essenciais lançaram mais de 11 milhões de menores numa situação desesperadora à espera de assistência humanitária urgente.

Em comunicado, a agência da ONU informa que milhões de crianças iemenitas estão sob risco de mal nutrição, e mais de 540 mil sofrem de forma aguda correndo risco de morte caso não receba tratamento urgente.

A Unicef explica que a vida de milhões de menores continua sendo massacrada pela guerra sem fim. O representante da agência no Iémen, Peter Hawkins, lembrou que mais de 11 mil crianças ficaram seriamente feridas pelo conflito entre março de 2015 e novembro passado.

O número de menores recrutados para o combate ultrapassa 4 mil.

Segundo a agência, houve mais de 900 ataques a instalações de saúde e educação assim como uso desses locais para fins militares.

A ONU afirma que oito anos de conflito, desespero e luto também colocaram 8 milhões de iemenitas na lista de espera para serviços de assistência psicossocial e de saúde.

Muitas famílias estão perdendo as crianças para o combate e o casamento infantil.

Os dados indicam que mais de 2,3 milhões de menores ainda estão vivendo em acampamentos de deslocados internos com acesso inadequado a serviços básicos de saúde e higiene.

O representante do Unicef diz que os oito anos do conflito levaram muitos a perder as esperanças. Várias crianças estão crescendo no meio da guerra e sem acreditar em dias melhores ou num futuro de paz.

A agência da ONU está pedindo US$ 484 milhões para continuar a salvar vidas neste ano.

Se não receber a quantia, o Unicef diz que será forçado a diminuir a assistência a crianças que precisam.

terça-feira, 15 de março de 2022

A 'guerra esquecida' no Iémen: 8 anos de conflito e 700 ataques aéreos num mês


Enquanto grande parte do mundo acompanha a invasão russa da Ucrânia, o Iêmen vive um dos períodos mais violentos desde 2014, quando começou a guerra civil no país.

Apenas no mês passado, foram mais de 700 ataques aéreos.

Este vídeo mostra o resultado de um ataque aéreo duplo. Enquanto o alvo do primeiro ataque foi um homem ligado aos rebeldes houthi, o segundo, que ocorreu logo depois, atingiu pessoas que foram ajudar.

Pelo menos 14 pessoas morreram — a maioria socorristas.

A guerra civil opõe duas potências do Oriente Médio. De um lado, estão as forças do governo de Abd-Rabbu Mansour Hadi, apoiadas por uma coligação sunita liderada pela Arábia Saudita. Do outro, está a milícia rebelde houthit, de xiitas, apoiada pelo Irão, que controla a capital, Sanaa, e partes do oeste do país.

Ambos os lados são acusados ​​de crimes de guerra, o que eles negam.

A Organização das Nações Unidas (ONU) classifica o Iêmen como a pior situação humanitária do mundo.

O conflito já gerou 233 mil mortes, incluindo 131 mil por causas indiretas, como falta de alimentos, serviços de saúde e infraestrutura. Mais de 10 mil crianças morreram como consequência direta dos combates.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Obama, o Nobel da Paz que se tornou o 1º presidente dos EUA a estar em guerra durante todos os dias de seu governo


Muitos chegaram a perceber a ironia. Barack Obama, que recebeu o prémio Nobel da Paz em 2009 quase que como "presente de boas-vindas" à Casa Branca, passou os seus dois mandatos em guerra.

Na verdade, o presidente que deixará o cargo nesta sexta-feira é o primeiro a completar oito anos completos de gestão com tropas de seu país em combate ativo.

A informação é publicada por BBC Brasil, 19-01-2017.

Nem mesmo Franklin Roosevelt, o presidente que encabeçou o esforço militar americano na Segunda Guerra Mundial, passou tanto tempo em guerra.

"Obama será lembrado como um presidente de tempos de guerra, o que é irônico, porque isso é a última coisa que ele planejava ou desejava", disse à BBC Eliot Cohen, professor de história militar na Universidade Johns Hopkins.

"Mas ele lançou nossa terceira guerra no Iraque (contra o Estado Islâmico), permaneceu no Afeganistão, expandiu a campanha alvejando terroristas e apoiou a empreitada europeia para derrubar Khadafi na Líbia", afirmou.

Nem um dia de paz

Seu antecessor, George W. Bush, teve ao menos os primeiros meses de seu mandato - antes dos ataques de 11 de setembro de 2001 às torres gémeas de Nova York - para aproveitar um governo sem guerras.

E Bill Clinton, o último presidente do Partido Democrata antes de Obama pode se orgulhar de ter conseguido oito anos à frente do governo americano "em paz".

A realidade para Barack Obama, porém, foi diferente. Ele assumiu o cargo em 20 de janeiro de 2009 já "herdando" dois conflitos - os Estados Unidos tinham tropas de combate no Iraque e no Afeganistão.

Ele acabou conseguindo cumprir parcialmente a sua promessa de reduzir drasticamente a presença militar americana no Iraque.

E no Afeganistão a situação é diferente hoje em comparação com o começo do seu mandato. Mas no dia 20 de janeiro de 2017, quando passar o posto a Donald Trump, Obama não poderá dizer que conseguiu terminar as guerras que herdou.

Combate ativo

Estima-se que cerca de 8,4 mil soldados americanos ainda estejam servindo o Exército em missões no Afeganistão nesse final de mandato de Obama.

E ainda há combates. Em 3 de novembro, por exemplo, na cidade afegã de Kunduz, dois soldados americanos morreram e dois outros ficaram feridos em uma batalha contra o Talibã. Os Estados Unidos lançaram bombardeios aéreos na zona de conflito contra tropas do Talibã que ameaçavam tomar a cidade. E em 8 de janeiro, Obama enviou 300 fuzileiros à província de Helmand, uma das mais problemáticas do Afeganistão.

É a primeira missão de tropas americanas na região desde 2014.

E não é só no Afeganistão que as tropas americanas estão engajadas em conflitos. A guerra contra o Estado Islâmico no Iraque e na Síria custou sete vidas americanas em situações de combate desde 2016.

No final do seu mandato, Barack Obama deixará cerca de 4 mil militares americanos no Iraque. Militares americanos também participaram de ações na Líbia, no Paquistão, na Somália, e no Iémen.

Presidente das guerras?
Mas apesar de ser o primeiro mandatário a completar dois mandatos com o país envolvido em guerras, ele dificilmente entrará na história dos EUA como o "presidente das guerras".

Afinal, ele recebeu um governo com 200 mil soldados em guerra no Iraque e no Afeganistão. Agora, após oitos anos, ele termina o seu mandato com uma presença militar de menos de 10% desse número em outros países.

E se tivesse forçado a retirada de todos os soldados da região, com certeza teria enfrentado resistência e ouvido reclamações de muitos americanos que consideram indispensável a presença militar dos Estados Unidos para garantir a segurança do país no exterior e dentro de suas próprias fronteiras.

Obama também ouviu muitas críticas quando, durante seu mandato, resistiu a ordenar intervenções militares em lugares como Síria e Líbia.

No fim, Obama contrariou tanto pacifistas como os que queriam uma presença militar americana mais ativa em áreas de conflito.

Em dezembro de 2009, ao receber o prémio Nobel da Paz, Obama disse no seu discurso: "Não trago comigo hoje a solução definitiva para o problema da guerra."

E acrescentou: "Há que se aceitar a dura realidade. Não encerraremos nunca o conflito violento em nossas vidas."

Desde o início de seu primeiro mandato, ele parece ter tentado reduzir as expectativas sobre possíveis mudanças que poderia trazer. Mas isso não atenua a decepção para os que esperavam um "presidente da paz".

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ofra Haza - Forgiveness


Ofra Haza with Nusrat Ali Fateh Khan
from CD The Prayer Cycle 1999 of Jonathan Elias (Sony)
Offically last recorded Ofra's song
Words from The Bible - Psalm 23:
The Lord is my shepherd; I shall not want.
Even when I walk in the valley of Darkness
May only goodness and kindness pursue me all the days of my life

O Ciclo de Orações é um álbum coral/orquestral do compositor americano de bandas sonoras para cinema e televisão Jonathan Elias. O álbum foi lançado pela Sony Classical Records nos Estados Unidos a 23 de março de 1999.

O projeto, gravado e misturado pelo co-produtor R. Walt Vincent, consiste numa sinfonia coral contemporânea em nove partes, em treze línguas (húngaro, maliês, suaíli, dwala, tibetano, alemão, francês, urdu, latim, inglês, italiano, hebraico e espanhol). Nas notas do livrete do álbum, Elias descreveu a obra como "um conjunto de nove orações em adágio" influenciadas pelas suas "visões pessoais" sobre o futuro da humanidade e o poder da oração em diferentes culturas. Os músicos que contribuíram "utilizaram poemas que [ele] escreveu como inspiração, interpretando as palavras à sua maneira, em diversas línguas e cantos". Mais informação aqui

domingo, 23 de novembro de 2008

Por que há uma guerra no Iémen e qual é o papel das potências internacionais

O Iémen, um dos mais pobres entre os países árabes, está há três anos numa violenta guerra civil.

Os combates deixaram o país à beira de uma crise de fome devastadora, que, segundo as Nações Unidas, pode estar afetando até 14 milhões de pessoas.

ONGs como a Save The Children acreditam que cerca de 85 mil crianças menores de cinco anos morreram nestes três anos de guerra por desnutrição.

A seguir, explicamos as causas desse conflito e quem são as partes envolvidas.

1. Como começou a guerra?
O conflito tem suas raízes na Primavera Árabe, de 2011, quando uma revolta popular forçou o presidente, Ali Abdullah Saleh, a deixar o poder nas mãos do vice, Abdrabbuh Mansour Hadi.
Supunha-se que a transição política levaria à estabilidade, mas o presidente Hadi enfrentou diferentes problemas, entre eles, ataques da Al-Qaeda e de um movimento separatista no sul, corrupção, insegurança alimentar e o fato de que muitos militares seguiam sendo leais a Saleh.
O movimento huti, que defende a minoria xiita zaidi do Iémen e lutou em várias rebeliões contra Saleh na década passada, se aproveitou da debilidade do novo presidente para tomar controle da Província de Saada e de zonas próximas.
Desiludidos, muitos iemenitas, mesmo sunitas, apoiaram os hutis, e, ao final de 2014, os rebeldes tomaram Saná, a capital, forçando Hadi a se exilar.

2. Quem está se enfrentando no conflito?
O conflito escalou dramaticamente em março de 2015, quando a Arábia Saudita e outros oito países árabes, principalmente sunitas e apoiados pelos Estados Unidos, Reino Unido e França, fizeram ataques aéreos contra os hutis com o objetivo declarado de restaurar o governo de Hadi.
A coligação temia que o sucesso dos hutis daria ao Irã, rival regional e país majoritariamente xiita, um ponto de apoio no Iémen, vizinho da Arábia Saudita.
A Arábia Saudita disse que o Irão está apoiando os hutis com armas e suporte logístico, o que o Irã nega.
Os dois lados vêm sofrendo com as lutas internas. Os hutis romperam com Saleh e combatentes seus o mataram em dezembro de 2017.

3. O que aconteceu desde então?
Em 2015, as tropas da coligação conseguiram se estabelecer na cidade de Áden e expulsaram os hutis e seus aliados de grande parte do sul do país.
Ainda que o governo de Hadi tenha se estabelecido temporariamente em Áden, o presidente continua no exílio.
Os hutis, no entanto, não foram expulsos de Saná e conseguiram se manter na cidade de Taiz, de onde disparam mísseis e artilharia em direção à Arábia Saudita.
Militantes deles e da Al-Qaeda na Península Arábica e seus rivais, grupos ligados ao Estado Islâmico, se aproveitaram do caos e tomaram territórios no sul do país, onde fizeram ataques letais, especialmente em Áden.
O lançamento de um míssil balístico em Riad, capital da Arábia Saudita, em novembro de 2017, fez a coalizão saudita reforçar seu bloqueio contra o Iémen.
A coligação  afirmou que o objetivo era impedir o contrabando de armas do Irão para os rebeldes, o que Teerão nega.
Mas a ONU afirma que as restrições poderiam provocar "a maior crise de fome que o mundo viu nas últimas décadas".
Todos os esforços organizados pela ONU para negociar um acordo de paz fracassaram.

4. Qual tem sido o custo humano?
A situação no Iémen é, segundo as Nações Unidas, um desastre humanitário.
Mais de 6.800 civis morreram e ao menos 10.700 ficaram feridos desde março de 2015, diz a ONU.
A guerra dura há mais de três anos e nela já morreram 6.800 pessoas.
Mais da metade dos mortos e feridos foram vítimas de ataques aéreos da coligação saudita.
Segundo o Conselho de Direitos Humanos da ONU, os civis têm sido vítimas de "implacáveis violações da lei humanitária internacional".
No ano passado, um surto de cólera afetou um milhão de pessoas, das quais 2 mil morreram - muitas delas, crianças.
Foi a maior e mais rápida epidemia já registrada, e ela se espalhou tão velozmente por causa da destruição dos sistemas de encanamento e saneamento.
Cerca de 75% da população (22,2 milhões de pessoas) precisam de assistência humanitária urgente, incluindo 11,3 milhões em situação grave que requerem ajuda imediata para sobreviver.
A piora da situação é tal que, segundo a ONU, há 14 milhões de pessoas que sofrem de insegurança alimentar, 8,5 milhões das quais se levantam sem saber se terão algo para comer ao longo do dia.
E a desnutrição aguda ameaça a vida de aproximadamente 400 mil crianças de menos de cinco anos.
Só metade das 3.500 instalações sanitárias do país funcionam completamente, o que significa que 16,4 milhões de pessoas carecem de assistência médica básica.
A guerra também forçou mais de três milhões de pessoas a fugirem de seus lares. Dois milhões seguem deslocados.

5. O que isso tem a ver com o resto do mundo?
Apesar da gravidade, o conflito no Iémen tem sido descrito como "guerra esquecida" pela escassa atenção que tem recebido do resto do mundo.
O que acontece ali pode exacerbar as tensões na região. Os países ocidentais temem que haja mais ataques, à medida que a situação for ficando mais instável.
As agências de inteligência ocidentais consideram que a Al-Qaeda na Península Arábica é o braço mais perigoso do grupo por seu conhecimento técnico e alcance mundial. Além disso, há preocupação pelo surgimento de grupos associados ao Estado Islâmico no Iémen.
Estrategicamente, o país é importante por sua localização no estreito de Bab al-Mandab, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden, pelo qual passa grande parte dos navios petroleiros do mundo.