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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Dinheiro, gastos e benesses do Estado. Os segredos da vida financeira de Salazar


Há mitos que sobrevivem porque são confortáveis. O de D. Sebastião sobrevive porque alimenta a esperança. O de Robin dos Bosques porque consola os desfavorecidos. E o de António de Oliveira Salazar porque oferece aos seus admiradores uma espécie de superioridade moral retrospetiva: sim, foi ditador, dizem alguns, mas ao menos não roubou; sim, governou durante décadas sem eleições livres, mas morreu pobre; sim, concentrou um poder sem paralelo na história portuguesa contemporânea, mas nunca se aproveitou dele para enriquecer.

O problema dos mitos é a sua irritante tendência para se chocarem com os factos.

Um extenso trabalho de investigação do jornalista Marco Alves publicado na revista Sábado (n.º 1160, de 22 a 28 de julho de 2026) veio reunir um conjunto impressionante de informações sobre a situação patrimonial do antigo presidente do Conselho. E aquilo que emerge não é a figura de um milionário extravagante nem a de um cleptocrata à escala de outros ditadores europeus. Mas também não é a imagem do professor pobre, vestido de modéstia franciscana, que alguns continuam a apresentar.

Marco Alves já tinha, em 2023, publicado o livro Salazar Confidencial. Durante quatro décadas, António de Oliveira Salazar recebeu milhares de cartas de amigos, familiares, ministros, padres e figuras ilustres da elite do Estado Novo. Mendigavam ao presidente do Conselho favores, ajudas e cunhas para obterem um cargo, uma promoção, uma casa em Lisboa ou uma palavra de Salazar para intervir em todo o tipo de problemas, incluindo em processos judiciais e em casos de crime, violência e adultério envolvendo figuras notáveis da sociedade.

Importa recordar que essa imagem não foi construída apenas pelos admiradores que lhe sobreviveram. Foi também alimentada pelo próprio. Salazar ajudou a moldar cuidadosamente a perceção pública de uma vida austera e quase desapegada dos bens materiais. Ficou célebre a frase segundo a qual devia “à Providência a graça de ser pobre”. Décadas depois, essa frase permanece viva na memória coletiva e continua a funcionar como uma espécie de certificado moral póstumo.

A verdade, porém, como tantas vezes acontece, é mais incómoda.

Salazar cultivou durante toda a vida uma imagem de austeridade. Essa imagem tinha fundamento. Gostava pouco de ostentação, não se deixou seduzir pelo luxo exuberante e manteve hábitos relativamente sóbrios. Contudo, austeridade não é sinónimo de pobreza. Uma pessoa pode ser frugal sem ser pobre. E uma pessoa pode viver de forma simples sem deixar de acumular património.

Quando morreu, em 1970, Salazar possuía contas bancárias, propriedades rurais, terrenos, casas, objetos de prata, ouro, livros, manuscritos, coleções e diversos bens cujo valor, atualizado para os dias de hoje, atingiria montantes muito significativos. Só os depósitos bancários conhecidos correspondiam a cerca de 113 mil euros em valores atuais. A isso somavam-se casas, quintas, vinhas, olivais, pinhais e terrenos cujo valor acumulado, nos preços do mercado contemporâneo, atingiria facilmente valores de vários milhões de euros.

Nada disto faz dele um magnata. Mas também não permite continuar a repetir, sem qualificação, que "morreu pobre".

Aliás, a reportagem desmonta um dos aspetos mais curiosos da narrativa salazarista. O homem que passava a vida a falar de contenção financeira era simultaneamente proprietário de um património rural bastante respeitável. Herdou parte dele, adquiriu outra parte e valorizou alguns desses bens ao longo do tempo. Isso não constitui qualquer crime. O problema surge quando essa realidade desaparece da história e é substituída por uma imagem quase monástica.

Há ainda outro equívoco recorrente.

Os admiradores de Salazar costumam estabelecer uma comparação implícita entre o chefe do Estado Novo e alguns governantes contemporâneos. A mensagem é simples: os políticos de hoje entram pobres e saem ricos; Salazar entrou pobre e saiu pobre.

A primeira parte da frase pode ser objeto de discussão. A segunda torna-se mais difícil de sustentar.

Segundo os elementos revelados pela investigação, o antigo governante acumulou poupanças ao longo da vida, possuía património imobiliário e conservava um espólio de valor considerável. Não estamos perante alguém dependente da caridade alheia ou reduzido à indigência. Estamos perante um homem que viveu confortavelmente durante décadas e que morreu com uma situação financeira sólida.

Há ainda um dado curioso que raramente aparece nestas discussões. Atualizado para valores de hoje, o salário de Salazar como presidente do Conselho rondaria os 8.450 euros brutos mensais, valor que não difere dramaticamente daquele que aufere um primeiro-ministro contemporâneo. À primeira vista, isto parece reforçar a narrativa da modéstia. Mas só à primeira vista. É que Salazar passou cerca de 31 anos instalado no Palacete de São Bento sem suportar uma despesa que pesa fortemente no orçamento de qualquer cidadão comum: a habitação. A comparação só é justa quando se compara o pacote completo.

A questão torna-se ainda mais interessante quando se observa a fronteira entre o dinheiro privado e os recursos públicos.

Não surgem provas de enriquecimento ilícito no sentido clássico do termo. Mas aparecem numerosos exemplos de uma realidade típica dos regimes longos: a progressiva confusão entre o Estado e o governante.

Funcionários públicos trataram de assuntos privados relacionados com propriedades suas. Membros do Governo ocuparam-se de questões pessoais. Houve intervenções administrativas relativas a casas, terrenos, obras, jardins, abastecimento de água e diversos problemas da sua esfera particular. Tudo isto era frequentemente encarado com naturalidade.

E porquê?

Porque as ditaduras tendem a produzir esse efeito. Ao fim de décadas, deixa de ser evidente onde acaba o poder do Estado e onde começa a vida privada de quem governa. O aparelho público passa gradualmente a funcionar como extensão do governante.

Nem sequer é necessário existir corrupção para que essa promiscuidade aconteça.

O mesmo se verifica nos últimos anos da sua vida. Após a queda da cadeira que o afastou do poder, o Estado suportou despesas significativas relacionadas com os seus cuidados médicos e com a sua situação pessoal. Segundo os elementos reunidos pela investigação, os encargos associados ao tratamento prolongado de Salazar ascenderiam, a valores atuais, a cerca de 1,9 milhões de euros. Além disso, foi-lhe atribuído um vencimento vitalício após deixar o exercício efetivo das funções governativas.

sábado, 4 de julho de 2026

Regarding the 250th anniversary of US Independence


We, the generation of the 60s, 70s, 80s have memories. So we must say and show the right path to our young generation. No propagandists, no to hate speech, no to neofascists, whether from the left or from the right. Having witnessed the turbulent shifts of history, we carry a unique responsibility to pass down the truth about where fanaticism and authoritarianism inevitably lead. When icons like Woody Guthrie, Johnny Cash and Pete Seeger sang, they did not answer to partisan machines or blind dogmas; they stood firmly for human dignity, truth, and the freedom of ordinary people against any form of oppression.

Extremism operates the exact same way no matter what flag it waves, relying on propaganda to distort reality, dehumanize opponents, and silence dissent. Guiding the youth today means teaching them to question easy promises and political scapegoats, encouraging them to look closely at the lessons of the past, and reminding them that standing up for the working class and the vulnerable is an act of universal empathy rather than a tool for political manipulation. By keeping our collective memory alive with honesty and conviction, we can ensure the next generation recognizes these historical traps and uses the power of authentic voice and art to keep building a freer, more compassionate world.


Also recall the episode of a tweet by George Bush's brother in 2016. The tweet was published by Jeb Bush on February 16, 2016, during his campaign for the Republican Party presidential primaries. The post is extremely minimalist and consists of just one image: a photograph of a .45 caliber semiautomatic pistol (an FNX-45) with the inscription "Gov. Jeb Bush" engraved on the barrel. The caption simply read "America." The tweet immediately went viral and generated a massive wave of criticism, memes, and parodies on a global scale. Users from all over the world began responding with photos of typical objects from their own countries using the same monotonic caption. In 2020, Anja Thaler made a homonymous music video "America is a Gun", based on this story.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Relembrar o pensamento de Charles Chaplin


"Em termos políticos, sou anarquista. Odeio governos, regras e grilhões. Não suporto animais enjaulados. As pessoas têm de ser livres." - Charles Chaplin
Esta frase foi dita pelo lendário cineasta e ator Charles Chaplin e reflete profundamente a postura humanista e anti-autoritária que marcou toda a sua vida e obra. Embora não pertença a um discurso oficial, a declaração resume a sua revolta contra as amarras institucionais, algo que ele expressava frequentemente em entrevistas e na sua própria arte. A personagem do Charlot era, na sua essência, a personificação do homem livre e marginal que desafiava constantemente as convenções sociais e a autoridade policial. Ao longo das décadas de 1930 e 1940, com o lançamento de obras primas como Tempos Modernos e O Grande Ditador, Chaplin usou o cinema para criticar ferozmente a desumanização industrial, o fascismo e o nacionalismo cego, o que acabou por atrair a atenção do governo dos Estados Unidos. Durante a era do Macarthismo, o FBI passou a vigiá-lo de perto, acusando-o falsamente de simpatias comunistas. O culminar deste sufoco político aconteceu em 1952, quando Chaplin viajou para Londres e o governo americano aproveitou a ocasião para lhe revogar o visto de reentrada no país. Revoltado com a perseguição e com o controlo estatal, o cineasta recusou-se a implorar o regresso e exilou-se na Suíça. Assim, quando Chaplin afirmava que odiava governos e não suportava ver pessoas como animais enjaulados, falava com o conhecimento de causa de quem sentiu na pele o peso do autoritarismo e da censura de um Estado que tentou travar a sua liberdade.
Este excerto pertence ao filme "O Grande Ditador" (The Great Dictator), lançado em 1940.
Esta cena, em específico, é o lendário discurso final do filme, amplamente considerado um dos momentos mais marcantes e emocionantes da história do cinema. No filme, Chaplin interpreta dois papéis: um ditador implacável chamado Adenoid Hynkel (uma sátira direta a Adolf Hitler) e um humilde barbeiro judeu. No final, o barbeiro é confundido com o ditador e é obrigado a discursar perante uma enorme multidão; em vez de propagar o ódio, ele quebra a personagem e faz este apelo universal à paz, à humanidade, à união e à liberdade.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Investigação: como o algoritmo opera na mente de extremistas


O documentário produzido pelo portal Metrópoles aborda o avanço do extremismo violento e da radicalização no Brasil, destacando o papel central desempenhado pela internet, pelas redes sociais e pelos algoritmos das grandes empresas de tecnologia nesse processo. A produção utiliza acontecimentos reais do cenário nacional para demonstrar como cidadãos comuns passam por um processo gradual de doutrinação ideológica online. Entre os casos citados estão a ação de Francisco Vanderlei Luiz, conhecido como "Tio França", autor do ataque com explosivos na Praça dos Três Poderes em novembro de 2024, a Operação Hashtag da Polícia Federal em 2016, que prendeu apoiantes do Estado Islâmico no país, e a Operação Trapiche em 2023, voltada à investigação de brasileiros recrutados pelo grupo Hezbollah.

O enredo explica que o fenómeno da radicalização não ocorre do dia para a noite, mas sim por meio de uma escalada contínua dentro do ambiente digital. O documentário detalha como os algoritmos das plataformas, desenhados para maximizar o tempo de retenção do usuário e gerar engajamento para dar lucro às empresas, acabam promovendo conteúdos polarizadores, chocantes e de ódio. Os grupos extremistas, em particular neonazismo, eugenia e da machosfera aproveitam-se desse mecanismo usando estratégias como a disseminação de memes aparentando inocência, elementos de cultura pop e jogos electrónicos para atrair pessoas em situação de vulnerabilidade, oferecendo-lhes um falso sentimento de pertencimento e propósito. Com o tempo, esses indivíduos são direcionados para canais fechados e aplicativos de mensagem criptografados, onde a visão de mundo se torna totalmente distorcida.

Para analisar esse cenário complexo, a reportagem conta com o depoimento de diversos especialistas, autoridades e representantes da sociedade. Agentes da Divisão Antiterrorismo e da Coordenação de Inteligência da Polícia Federal relatam as barreiras técnicas e burocráticas no combate aos crimes virtuais, como a falta de cooperação ágil das Big Techs na entrega de dados e o desafio de identificar potenciais atritos sem violar a liberdade de expressão ou monitorizar indevidamente o cidadão. Pesquisadores de tecnologia e comunicação examinam o funcionamento secreto dos softwares de recomendação e as dinâmicas sociais da polarização política. Representantes da comunidade islâmica no Brasil também são entrevistados e enfatizam de forma categórica que actos violentos e de terror não possuem relação com os ensinamentos do Islamismo. Por fim, depoimentos de familiares de investigados ilustram o impacto devastador que a transformação de um parente radicalizado provoca no núcleo familiar.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Ouçam o discurso de Noah Eckstein: O fim da escuta - porque já não sabemos debater? Um manifesto anti-polarização


Noah Eckstein inicia o seu discurso de forma descontraída, recorrendo à estrutura de uma piada tradicional: um cristão, um muçulmano e um judeu entram num bar. Contudo, contextualiza que, na sua própria família, essa união resultou no casamento dos seus avós e, gerações mais tarde, no seu próprio nascimento como um judeu orgulhoso que também celebra as heranças cristã e muçulmana da sua família.

O ponto central da mensagem de Eckstein baseia-se na lição que aprendeu com os seus avós (um muçulmano paquistanês que cresceu durante a guerra de 1947 e um refugiado judeu do Holocausto): o oposto da divisão não é o acordo, mas sim a compreensão. Ele destaca que o mundo atual nos empurra constantemente para binários e visões polarizadas (esquerda vs. direita, progressista vs. conservador, nós vs. eles), exigindo sempre que escolhamos um lado.

Os seus avós discordavam em inúmeros temas morais e ideológicos, mas mantinham o hábito de se sentar à mesa a debater e a demonstrar preocupação mútua. Eckstein lamenta que a sociedade atual tenha perdido essa capacidade; os debates tornaram-se mais barulhentos, as pessoas discutem apenas para vencer ou humilhar o adversário, e o indivíduo do outro lado deixou de ser visto como uma pessoa para passar a ser visto como um obstáculo.

O orador salienta que tentar compreender quem pensa de forma diferente não significa desculpar atos monstruosos ou abdicar dos próprios ideais. Pelo contrário, compreender o percurso e as motivações do outro é uma ferramenta crucial, aplicável tanto aos grandes conflitos geopolíticos como às pequenas interações do dia a dia — seja com um familiar no jantar de Ação de Graças ou com um colega de turma na faculdade.

Ao concluir, Eckstein deixa um desafio aos recém-graduados de Harvard: quando encontrarem alguém com quem discordam, devem defender as suas convicções, mas também devem colocar-se no lugar do outro e escutar como se pudessem estar errados. Lembra que os seus avós morreram fiéis às suas próprias crenças e tradições, sem nunca cederem nos seus ideais, mas mantiveram sempre o respeito mútuo. Num mundo profundamente fraturado, a verdadeira mudança e a cura das divisões só serão possíveis através de um esforço genuíno para compreender a humanidade do próximo.

Uma pequena bio aqui

Fez-me relembrar uma citação famosa "O oposto da guerra não é a paz... É a criação!" que consta numa obra de teatro musical, "Rent" (1996) composta por Jonathan Larson.

Em 2005 estreou a adaptação para o cinema de Rent, sob a direção de Chris Columbus.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

A nova Era dos Bárbaros - o crepúsculo dos gigantes de vidro


"O problema da humanidade é que temos emoções do paleolítico, instituições medievais e tecnologia divina." — E.O. Wilson

Retomando as recentes reflexões de Helena Freitas, depois de ler este livro e começando com a citação supra, cumpre-me fazer uma reflexão sobre esta era. Aqui vai.

O Crepúsculo dos Gigantes de Vidro
Se olharmos para o espelho da História, a nossa era assemelha-se a uma estranha forma de barbárie sofisticada. Não somos bárbaros no sentido clássico — aqueles que derrubavam portões de ferro —, mas sim bárbaros de luva branca e ecrã tátil, capazes de uma violência sistémica que a tecnologia apenas torna mais eficiente. Esta nova barbárie manifesta-se, acima de tudo, no desprezo pelo mundo vivo e na morte da empatia. Tratamos o planeta como um armazém de recursos infinitos e as pessoas como perfis a abater. Em Portugal, a ascensão de forças como o Chega, com canal televiso próprio no Youtube e o esgoto de propaganda de páginas como o "Sentinela Lusa", ou plataformas de maior alcance como o "Direita TV", perfis da rede X e influencers, assim como diversos grupos de inspiração eugenista e ultranacionalista no Telegram, são o sintoma local de um mal maior: a falência da comunicação. Nestes feudos digitais, a xenofobia e a segregação são vendidas como soluções para um "novo Portugal", enquanto, na verdade, apenas nos devolvem ao tribalismo mais obscuro e especulativo.

Esta rejeição da linguagem comum de proteção à vida ganha contornos de barbárie institucional quando observamos o abandono formal de tratados internacionais. Não se trata apenas de burocracia, mas de um desinvestimento na sobrevivência da espécie. O caso do Acordo de Paris é o mais emblemático deste recuo, com os Estados Unidos a formalizarem a sua retirada em 2026, colocando a maior economia do mundo fora do esforço global para limitar o aquecimento a 1,5°C, enquanto a Arábia Saudita, embora formalmente presente, é acusada de obstruir metas que impliquem o abandono dos combustíveis fósseis. Este padrão de excecionalismo é antigo e profundo: os EUA nunca ratificaram o Protocolo de Quioto nem a Convenção da Basileia sobre Resíduos Perigosos - continuando a ser um dos maiores exportadores de lixo plástico sem controlo estrito -, e permanecem como o único país do mundo que não ratificou a Convenção sobre a Diversidade Biológica.

Vemos, assim, o colapso de uma ordem que se pretendia racional. Quando potências com o maior poder biotecnológico e militar do planeta se recusam a vincular-se a regras de proteção de ecossistemas ou do Mar Alto, abrem caminho para um cenário de eugenia e exploração desenfreada. Quando a ciência é perseguida por conveniência política e os cidadãos são sacrificados a sangue-frio em nome de nacionalismos, o "Gigante de Vidro" da civilização começa a estilhaçar-se. Somos a primeira civilização com ferramentas de deuses e impulsos de paleolítico, onde o belicismo recorrente substitui a diplomacia. No final, esta barbárie não se faz pelo desconhecimento, mas pelo desprezo deliberado pela vida e pela palavra, deixando-nos isolados enquanto observamos a nossa própria humanidade estilhaçar-se através de um retângulo de vidro.

Referências Bibliográficas
1. ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. (1944). Dialética do Esclarecimento.
Foco: A análise da "barbárie sofisticada" e como a racionalidade técnica pode levar ao retrocesso civilizacional.

2. ECO, Umberto. (2018). Contra o Fascismo.
Foco: A identificação do "Ur-Fascismo" e as raízes do nacionalismo e da intolerância que alimentam os "feudos digitais".

3. FREITAS, Helena. (2020). A Vida na Terra: Ecologia e Conservação.
Foco: A urgência da proteção da biodiversidade e a crítica ao desinvestimento institucional na sobrevivência da espécie.

4. HAN, Byung-Chul. (2022). Infocracia: Digitalização e a Crise da Democracia.
Foco: O impacto do "retângulo de vidro" na destruição da empatia e na fragmentação da comunicação pública.

5. HARARI, Yuval Noah. (2018). 21 Lições para o Século XXI.
Foco: O colapso das narrativas globais e os perigos da fusão entre biotecnologia e algoritmos (eugenia e controlo).

6. LATOUR, Bruno. (2017). Onde Aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno.
Foco: O abandono dos tratados climáticos pelas elites e a negação da realidade física do planeta.

7. MALM, Andreas. (2016). Fossil Capital: The Rise of Steam Power and the Roots of Global Warming.
Foco: A resistência de potências como a Arábia Saudita em abandonar os combustíveis fósseis por interesses económicos sistémicos.

8. SNYDER, Timothy. (2017). Sobre a Tirania: Vinte lições do século XX para o presente.
Foco: O aviso sobre a fragilidade das instituições modernas perante o avanço do autoritarismo e da propaganda.

8. WILSON, Edward O. (2012). A Conquista Social da Terra.
Foco: A origem do conflito entre os nossos impulsos paleolíticos (tribalismo) e a necessidade de cooperação global.

sábado, 25 de abril de 2026

De James Monroe a Donald Trump


Entre a escravatura silenciada e a “regeneração nacional” trumpista, o que une as mensagens presidenciais não é a grandeza imperial, mas a tentativa de conter, em cada época, as fissuras abertas pelos de baixo.

Mais ou menos eficazes, os discursos governamentais estão carregados de ideologias e as suas análises requerem, entre outros procedimentos, o exame das estruturas e práticas sociais no interior das quais foram produzidos. Isto pode evitar a disseminação de abordagens unilineares e teleológicas que considerem os processos históricos como resultantes, fundamentalmente, da inquestionável vontade dos dominantes. Esta temporalidade de uma nota só bloqueia a perceção de contradições complexas e facilita a perceção da história como um processo imune a múltiplas formas de resistência e mesmo a revoluções advindas, em grande parte, da iniciativa dos dominados e dominadas.

A 2 de dezembro de 1823, o presidente dos EUA, James Monroe, apresentou uma mensagem ao Legislativo dos EUA acerca da política do conjunto da sua gestão governamental. Um dos eixos do discurso era o complexo processo de territorialização do jovem país. Oito décadas mais tarde, em dezembro de 1904, Theodore Roosevelt explicitou que, em relação ao novo contexto internacional, a mensagem que enviava ao Congresso atualizava as formulações de James Monroe.

Em novembro de 2025, Donald Trump, agora em cumprimento da Lei Goldwater-Nichols, enviou uma mensagem às duas Câmaras legislativas, na qual também afirmou que, no que toca à política internacional, especialmente com vista ao Hemisfério Ocidental, produziu o que ele próprio intitulou Corolário Trump.

A América para os americanos
Mesmo ausente do texto escrito, a famosa frase expressa, em termos muito gerais, a mensagem de 1823. Mas, de James Monroe ao MAGA, fica o problema: qual América?

Já no início, James Monroe justificou a sua mensagem com a referência à soberania do povo, pilar de um “sistema político” (expressão do próprio) que, fruto de “nossa revolução” (a independência dos EUA), é condição para que os seus cidadãos sejam os mais prósperos e felizes do mundo. Neste sentido, o presidente afirmou que a escolha de tal sistema pelos movimentos de independência fazia com que qualquer interferência das metrópoles fosse considerada uma agressão aos próprios EUA.

Em todo o texto, James Monroe (de onde veio o nome Monróvia, da atual Libéria) não se referiu aos escravos, cuja exploração era a base da economia do sul, inclusive da Virgínia, onde nasceram ele e mais três dos quatro primeiros presidentes dos EUA. Nem à Lei dos Três Quintos, que contabilizava 60% dos escravos em cada estado para fins de aumento da bancada dos sulistas na Câmara dos Representantes. Na única menção aos indígenas, James Monroe elogiou a repressão aos Arikaees, devidamente punidos pelo ataque para que o “espírito hostil” não se estendesse a outras tribos. Medidas “para conter o mal”, sentenciou (p. 6).

Nos idos de 1823, os EUA eram uma formação social com a forte presença de relações pré-capitalistas, uma classe dominante nacionalista, inclusive a fração esclavagista, sequiosa por ampliar a fronteira agrícola; um expansionismo que era conduzido em sentido mais estratégico pelos dirigentes da política estatal. A produção e exportação algodoeira para a indústria inglesa acelerava-se, mas com tecnologia ainda anterior à explosão dos anos 1830. Várias condições favoreciam uma agressiva política estatal de produção de uma territorialidade que articulasse a escravatura, no sul, e a dominação burguesa, a norte.

Esta relação de unidade e contradição entre o escravagismo e o capitalismo embrionário manifestava-se, inclusive, nas complexas negociações em torno dos impactos da incorporação de cada novo território, pois, ao implicar o acolhimento ou a rejeição do escravagismo, gerava efeitos sobre a correlação política interna do país. A questão da territorialidade também produzia tensões relativas às Caraíbas como rota comercial e/ou em termos militares.

A cada um, a sua revolução
James Monroe também silenciou sobre a única revolução de escravos vitoriosa da história, ocorrida no que é, desde então, o Haiti, com enorme repercussão nas três Américas e na Europa. A mensagem operou um corte entre relações de produção e sistema político, o que lhe permitiu legitimar, no plano discursivo, uma ordem escravagista. Não constituídos estruturalmente como sujeitos, os escravos não podem (?) fazer uma revolução.

Apropriações sociais de leitura: desde crianças, “sabemos” que James Monroe, uma espécie de Pai Natal, foi o primeiro governante a reconhecer a independência do Brasil, este país imperial escravagista. Pouco se ensina que, tal como os seus antecessores Jefferson e James Madison e todos os que o sucederam até à Guerra de Secessão, Monroe não reconheceu a independência do Haiti. Até propositadamente, a sua mensagem teve pequena repercussão imediata e só recebeu o nome de doutrina quando, cerca de duas décadas mais tarde, foi apropriada por patriotas preocupados em salvar a “América”, vista como nação branca ilhada pela decadência do escravagismo na Europa, em países independentes da América e mesmo em colónias francesas e britânicas.
Outras apropriações sociais vieram.

O populismo antissistema de Andrew Jackson
A ligação de Donald Trump a Andrew Jackson não é apenas uma preferência histórica passageira, mas sim uma escolha estratégica e pessoal que molda profundamente a sua identidade política. Para compreender esta admiração, é necessário olhar para Jackson como o grande divisor de águas da democracia americana no século XIX, uma vez que ele foi o primeiro presidente a não pertencer à elite aristocrática da Virgínia ou de Massachusetts. Sendo um militar de origem humilde, conhecido pelo seu temperamento explosivo e por uma lealdade feroz aos seus seguidores, Andrew Jackson serve de espelho para Trump, que se apresenta como uma figura externa ao sistema que chegou ao poder com a missão de o limpar e de devolver o governo aos cidadãos comuns.

O ponto central desta identificação reside no populismo antissistema, pois tal como Trump critica frequentemente a burocracia de Washington, também Jackson travou uma guerra aberta contra o Segundo Banco dos Estados Unidos, por o considerar uma ferramenta de corrupção das elites financeiras contra o trabalhador comum. Trump vê nesta postura de combatente o arquétipo do líder forte que não se verga às normas da etiqueta política sempre que estas interferem na sua agenda. Este simbolismo tornou-se evidente logo na tomada de posse de 2017, quando Trump escolheu o retrato de Jackson para decorar a parede da Sala Oval, enviando a mensagem clara de que não governaria como um republicano tradicional, mas como um herdeiro do Jacksonianismo, focado no nacionalismo económico e numa relação direta com a sua base eleitoral.

Além disso, Trump admira a resiliência física e política de Andrew Jackson, um homem que sobreviveu a duelos e enfrentou processos no Congresso sem nunca recuar. Para Trump, a política é vista como uma arena de força onde a vontade do povo, representada pelo líder, deve prevalecer sobre as instituições que tentam contê-la. Em suma, Jackson é o modelo ideal para Trump porque forneceu um precedente histórico para o seu estilo de liderança, sendo simultaneamente um herói para os seus apoiantes e uma figura profundamente disruptiva para os seus opositores.

Theodore Roosevelt e a aurora do imperialismo estado-unidense
Trinta anos após a Guerra de Secessão, os EUA não só se tornaram a primeira economia mundial como ingressaram no estágio imperialista do capitalismo. Ao lado de um extraordinário processo de acumulação e centralização de capital, deu-se uma intensa imigração – e, com ela, mais racismo – e o colonialismo de novo tipo. Houve um empobrecimento do campesinato e ampliação do número de trabalhadores urbanos, grande parte em situação de miséria nas grandes cidades industriais. Cresceram as mobilizações de massas e politizaram-se lutas, inclusive processos eleitorais.

Por intermédio da guerra com a Espanha, iniciou-se uma grande ofensiva sobre as Caraíbas, com o domínio de Cuba e Porto Rico, e, na bacia do Pacífico, a conquista do Havai, Ilhas de Guam e das Filipinas, onde haveria forte e heróica resistência popular. Enfim, a grande América em expansão marítima.

Tal como a mensagem de James Monroe, a de Th. Roosevelt era otimista. Ele afirmou que, numa sequência de bons governos, a prosperidade era notável e havia aprovação popular. Tudo isto dinamizado pelo industrialismo, a “nota dominante da sociedade moderna” e, com isso, a importância das relações capital-trabalho, “especialmente capital organizado e trabalho organizado” (p. 1). Ao contrário do silêncio de Monroe sobre os produtores diretos, Th. Roosevelt dedicou cerca de 11 das 33 páginas da sua mensagem a esta relação, referindo-se a políticas intervencionistas em múltiplas esferas da vida social: do direito dos trabalhadores se organizarem para se defenderem contra “abusos das grandes corporações” ao trabalho infantil e da mulher grávida, acrescentando que o maior dever da mulher é “ser mãe, dona de casa” (p. 10).

Mas, acima de tudo, defendia a responsabilidade e a tolerância entre capitalistas e assalariados. Ele próprio racista, declarou-se contra o preconceito em relação a migrantes e negou que houvesse riscos de chegarem em excesso, desde que fossem “do tipo certo”. No plano externo, expandiu a área de influência nas Caraíbas e na Bacia do Pacífico, onde forçou a política de portas abertas na China e arbitrou o conflito entre os impérios Japonês e Russo, o que lhe assegurou, em 1906, o Nobel da Paz.

James Monroe declarou opor-se à intervenção de potências europeias nos processos em curso pela independência na América porque estes adotavam um “sistema político” semelhante ao dos EUA e, portanto, superior ao delas. E, ao dirigir-se a elas, a sua posição era altiva, mas defensiva.

Já a mensagem de Th. Roosevelt era explicitamente agressiva. Alertava para os males que ocorreriam se, na ausência de “algum grau de controlo internacional sobre as nações infratoras”, as “potências mais civilizadas… de maior senso de obrigação internacional e com a mais aguda e generosa apreciação do certo e do errado, se desarmassem” (p. 29). Daí a importância de, sempre que necessário, elas, armadas, exercerem um poder de polícia internacional (id.).

A aparente mitigação do hobbesianismo primário ficava por conta da comunhão de interesses entre atacante e atacado. “Os nossos interesses e os dos nossos vizinhos do sul são… idênticos” (p. 30); ou as Filipinas não precisavam de “independência alguma…” (p. 36). E, num esforço de síntese transoceânica, afirmou que, “em relação a Cuba, Venezuela e Panamá, ao esforçarmo-nos para circunscrever o teatro de guerra no Extremo Oriente e para assegurar a abertura das portas na China, agimos no nosso próprio interesse, bem como no interesse da humanidade em geral” (p. 31).

segunda-feira, 13 de abril de 2026

Documentário - Eugenics: Science's Greatest Scandal (2 episódios, BBC)


Série documental da BBC em duas partes. A jornalista científica Angela Saini e o ativista pelos direitos das pessoas com deficiência, Adam Pearson, revelam que a eugenia — a controversa ideia que impulsionou os campos de extermínio nazis — teve origem nos altos escalões da comunidade científica britânica. Os apresentadores descobrem como crenças eugenistas chocantes permearam o establishment e a intelectualidade britânica; entre os seus apoiantes encontravam-se figuras como Winston Churchill e Marie Stopes. Mostram como a eugenia influenciou a Lei da Deficiência Mental de 1913, que resultou no encarceramento de milhares de pessoas com deficiência durante décadas. A eugenia moldou a legislação da imigração, as políticas educativas e até o planeamento urbano. O documentário revela ligações perturbadoras entre as universidades britânicas e os cientistas raciais alemães na primeira metade do século XX e investiga a forma como a eugenia alimentou as ideologias racistas da Alemanha nazi.  
 

É comum pensar-se que a eugenia desapareceu após os horrores do Holocausto nazi, mas os apresentadores descobrem como as práticas eugenistas, como a esterilização de pessoas pobres, continuaram à escala global durante muitos anos. Os apresentadores encontram vítimas desta ideologia, incluindo uma mulher que foi esterilizada. Angela e Adam questionam ainda se as atitudes eugenistas em relação aos pobres e aos deficientes continuam a moldar a sociedade atual e exploram se os avanços na medicina, como os exames preventivos e a edição genética, se combinarão com o preconceito contra as pessoas com deficiência para trazer de volta uma forma de eugenia. Ponderam os inegáveis benefícios da medicina moderna com a possibilidade do seu uso indevido em nome do melhoramento humano. Investigam a história das primeiras tentativas de editar o genoma humano na China e exploram as mais recentes descobertas científicas sobre o que é mais importante: a genética ou o meio envolvente (política, educação,ideologia).

segunda-feira, 16 de março de 2026

Pete Hegseth - Trump’s Stupidest Cabinet Member



At a press briefing on Friday, Defense Secretary Pete Hegseth complained about a CNN report that the Trump administration had underestimated Iran’s ability to disrupt global oil traffic by closing the Strait of Hormuz.

“Patently ridiculous,” Hegseth told reporters, adding — even as the strait’s blockage was proving to be Iran’s most powerful leverage in the war — we “don’t need to worry about it.” He also denied that the U.S. bombed the school where some 175 children were killed. Hegseth added that, as to CNN, “the sooner David Ellison takes over that network, the better.”

These remarks are remarkably stupid, on several levels.

First, CNN got it absolutely right in reporting that Trump’s national security team had underestimated Iran’s ability to disrupt global oil traffic. CNN cited “multiple sources familiar with the matter.”

The New York Times published a similar story, reporting that in the lead-up to the U.S.-Israeli attack, “Trump downplayed the risks to the energy markets.”

Even The Wall Street Journal, hardly a New York Times or CNN clone, substantiated the story on Friday, reporting that Trump rejected warnings that Iran would likely retaliate by closing the strait because he believed Iran would capitulate before doing so, and he assumed that even if Iran tried to close it, the U.S. military could handle it.

Second, Hegseth’s comment that we “don’t need to worry about” the blockage of the strait is not only false but flippantly insulting to an American public that deserves to know what the Trump regime is planning to do about soaring prices at the gas pump, directly due to that blockage.

Third, even if Hegseth believes that David Ellison’s ownership of CNN will silence CNN’s critical coverage of Trump, it’s remarkably stupid of Hegseth to say it out loud. “The sooner David Ellison takes over CNN, the better” is an open admission that Trump backed Ellison’s bid to acquire Warner Bros. Discovery, CNN’s parent, to silence criticism.

That deal is still pending, so Hegseth’s admission is likely to fuel even more opposition to it. California’s attorney general has already suggested he’ll go to court to block it. Now other attorneys general, the ACLU, and Democrats in Congress may join the case as co-plaintiffs.

Hegseth’s admission also confirms CNN’s worst fears that Ellison will throttle criticism of Trump - a fear that’s already caused several leading lights to exit. As Variety put it, “Anderson, cooped. Jake, tapped. Erin, burnt. Kasie, hunted. Wolf, blitzed.”

Ellison has already proven himself an unreliable steward of journalistic independence at CBS News. One departing producer there explained in a farewell memo to colleagues that she could no longer work where stories are “evaluated not just on their journalistic merit, but on whether they conform to a shifting set of ideological expectations — a dynamic that pressures producers and reporters to self-censor or avoid challenging narratives that might trigger backlash or unfavorable headlines.”

Finally, Hegseth’s denial that the U.S. is responsible for the deaths of nearly 200 schoolchildren in Iran is belied by mounting evidence that the U.S. did bomb the school. Hegseth’s further insistence that the U.S. “never targets civilians” is refuted by the U.S. military’s killing of at least 157 people on 40 small boats in the Caribbean without evidence they were “narcoterrorists” rather than civilians.

And, friends, this was just one news conference.

Pete Hegseth’s job is so far over his head that he can’t even see it. He evidently believes it’s to cheerlead and defend Trump with bonkers claims like “We didn't start this war, but under President Trump we’re finishing it” and “America is winning decisively, devastatingly, and without mercy” and “we will show no quarter for our enemies.” (“No quarter” means kill everyone and take no prisoners, which is a war crime.)

In the days leading up to the U.S. attack on Iran, Hegseth spent his time criticizing “wokeness” at American universities, feuding with Anthropic over safeguards for AI, and, in the day before the war began, forcing Scouting America to abandon programs aimed at promoting diversity.

He dismisses war crimes, pooh-poohs the rules of engagement, and projects unequivocal belligerence at a time when the United States is rapidly losing whatever moral standing it had in the world.

Granted, it’s difficult to select one of Trump’s Cabinet members as the stupidest. But Pete Hegseth stands out for sheer boneheaded ignorance.

segunda-feira, 9 de março de 2026

‘A very dangerous person’: alarm as Pete Hegseth revels in carnage of Iran war

Not a single senator probed the most dangerous part of Hegseth's background: his support for white Christian nationalism [Fonte]

Critics say brash, bombastic Fox News host out of his depth to guide US military through murky new Middle East conflict



Brash and bellicose, he sounded more like a cartoon bully than a sombre statesman. “Death and destruction from the sky all day long,” Pete Hegseth, wearing a red, white and and blue tie and pocket square, bragged to reporters at the Pentagon near Washington. “This was never meant to be a fair fight, and it is not a fair fight. We are punching them while they’re down, which is exactly how it should be.”

Hegseth, 45, a former Fox News TV host who now commands the world’s most powerful military, has this week become the face of Donald Trump’s war in Iran. That has set off alarm bells for critics who warn that the Secretary of Defense – pointedly rebranded “Secretary of War” – has rapidly transformed the Pentagon into the staging ground for an ideological and religious crusade.

With machismo, Christian nationalism and callousness toward the lives of US troops, they say, Hegseth’s puerile displays on TV are aimed at sating Trump’s desire for a warmonger worthy of the manosphere. This was reinforced by a lurid social media video that intersperses clips from Hollywood blockbusters such as Braveheart, Gladiator, Superman and Top Gun with Hegseth and real kill-shot footage of the attacks in Iran.

Janessa Goldbeck, chief executive of Vet Voice Foundation, a nonprofit advocacy organisation, said: “Pete Hegseth is a very dangerous person. He’s a white Christian nationalist and has the arsenal of the United States government at his disposal and a permission slip from President Trump to deploy carnage wherever he wishes against whomever he wishes.”

Hegseth’s rise would have been unthinkable under any other commander-in-chief. Born in Minneapolis, he studied politics at Princeton University and became publisher and editor of the Princeton Tory, a conservative student journal, where he frequently waded into culture-war issues such as feminism and homosexuality.

After leaving Princeton, Hegseth joined the US army national guard as an infantry officer. His service included deployments to Guantánamo Bay in Cuba and tours of Iraq and Afghanistan. He later revealed in a book that he told soldiers under his command in Iraq to ignore legal advice about when they were permitted to kill enemy combatants under their rules of engagement.

Hegseth became chief executive of Concerned Veterans for America, a conservative advocacy group, but departed in 2016 amid allegations of financial mismanagement, sexual impropriety and personal misconduct.

In 2018 Hegseth’s mother, Penelope, sent him an email that said: “You are an abuser of women – that is the ugly truth and I have no respect for any man that belittles, lies, cheats, sleeps around, and uses women for his own power and ego. You are that man (and have been for years) and as your mother, it pains me and embarrasses me to say that, but it is the sad, sad truth.”

Hegseth subsequently became a familiar face on TV as a contributor and co-host of Fox & Friends on Fox News, frequently interviewing Trump and defending his policies. He once wrote that, in the event of a Democratic election win, “the military and police … will be forced to make a choice” and “Yes, there will be some form of civil war”.

But Trump prevailed in 2024 and nominated Hegseth to serve as secretary of defence. At his confirmation hearing, senators raised serious questions about his record: disparaging remarks about women serving in the armed forces; allegations that he drank while on duty; claims of sexual assault and misconduct; his troubled tenure running two small veterans’ nonprofit organisations; and his lack of experience for a post overseeing the world’s most powerful military.

The Senate ultimately split 50–50, forcing the vice-president, JD Vance, to cast the tie-breaking vote. As defence secretary Hegseth has vowed to “unleash overwhelming and punishing violence” on enemies and promised to dispense with “stupid rules of engagement” – rules designed to restrict attacks on civilian populations.

Now, in his first week guiding the nation through a murky new Middle East conflict, Hegseth has largely forgone the solemnity of a traditional defence secretary in favour of the performative antics of a partisan broadcaster revelling in America’s capacity to inflict violence.

For years he had cultivated a hypermasculine “muscleman” aesthetic designed to play to Trump’s sensibilities and the rightwing media ecosystem. Now, faced with a geopolitical crisis that demands nuance and strategic foresight, he appears to many to be out of his depth.

Goldbeck, a Marine Corps veteran who was deployed overseas as a combat engineer officer, commented: “I wish I could say how cavalier, obtuse and hopeless Secretary Hegseth is at leading the Pentagon. I can’t even muster the words to describe his self-adulation, matched only in scope by his apparent moral depravity.”

She added: “Let’s not forget that Pete Hegseth is a former morning-show Fox News TV host, and has this cartoonish persona, speaking what he thinks is tough-guy language, but sounds to me as a veteran and to many of my peers who served in combat like somebody who is completely inept and pretending to have this macho persona.

“Honestly, it’s embarrassing. We know this guy is incompetent. I wouldn’t feel safe leaving Pete Hegseth in charge of putting together a DoorDash order.”

Hegseth at the International Christian Media Convention in Nashville last month. [Fonte]

Former White House officials share the concerns. Brett Bruen, president of the public affairs agency Global Situation Room and former global engagement director of the Barack Obama administration, said: “Hegseth is ill-suited for the kind of reassurance and strategy that Americans and our allies need to hear from the Pentagon right now.

“They don’t need a bumper sticker. They don’t need the bravado and the brashness that he brings. They need to know that America’s military is in strong, stable hands and what we have seen in his first couple of war press conferences is an inability to move beyond this Fox personality and into the role of leader of our nation’s military at a time of war.”

During his Pentagon briefing on the war on Wednesday, Hegseth adopted a bombastic tone, saying of Iranian leaders: “They are toast and they know it. Or at least soon enough they will know it. America is winning – decisively, devastatingly and without mercy.”

He bashed “fake news” while addressing the six army reservists killed in an Iranian attack on an operations center in Kuwait. “When a few drones get through or tragic things happen, it’s front-page news. I get it. The press only wants to make the president look bad. But try for once to report the reality. The terms of this war will be set by us at every step.”

The comments provoked uproar for their lack of empathy for America’s fallen. Jeremy Varon, a history professor at the New School for Social Research in New York, said: “That’s outrageous. You have a national effort by all media regardless of partisan bent to memorialise and honour the dead and he sees that simply as a tactic to bring down Trump.”

There was another aspect of Hegseth’s personality barely addressed by the Senate: his sympathy for Christian nationalism. Photos have shown him bearing two tattoos associated with crusader imagery. One depicts the Jerusalem cross – a cluster of five crosses long connected to medieval crusader iconography – on his chest.

Nearby is an image of a sword accompanied by the Latin phrase “Deus vult”, meaning “God wills it”, a slogan historically linked to the crusades and revived in recent years by various far-right groups. It appeared on clothing and flags carried by some participants in the January 6 Capitol attack.

Nor are the references merely symbolic. In his 2020 book, American Crusade, Hegseth wrote that those who benefit from “western civilisation” should “thank a crusader”. The book suggests that democratic politics alone may not suffice to achieve the goals of his political allies, declaring: “Voting is a weapon, but it’s not enough. We don’t want to fight, but, like our fellow Christians one thousand years ago, we must.”

There have been reports of more troubling behaviour. The New Yorker reported that a colleague at Concerned Veterans for America complained that he and another man repeatedly shouted “Kill all Muslims!” during a drunken episode at a bar while travelling for work.

Hegseth has previously endorsed the doctrine of “sphere sovereignty”, a worldview derived from the extremist beliefs of Christian reconstructionism (CR). The philosophy calls for capital punishment for homosexuality and strictly patriarchal families and churches.

The defence secretary attends Pilgrim Hill Reformed Fellowship, a church linked to the Communion of Reformed Evangelical Churches, a denomination co-founded by the pastor Doug Wilson, who has openly advocated a theocratic vision of society in which wives should submit to their husbands and women should be denied the vote. Wilson recently led a worship service at the Pentagon at Hegseth’s invitation.

Robert P Jones, president and founder of Public Religion Research Institute thinktank in Washington, said: “This is not one or two comments. It’s not a kind of one-off behaviour. This is like a longstanding publicly demonstrated orientation that Hegseth has. It’s not just a glorification of violence but a glorification of violence in the name of Christianity and civilisation.”

The Military Religious Freedom Foundation (MRFF) says it has received more than 200 complaints from service members about military commanders invoking extremist Christian rhetoric about biblical “end times” to justify involvement in the Iran war. Such language could also be offensive to Arab allies and provide Iran with the fodder it needs to justify its own holy war against the US.

Jones warned: “It casts this not as anything related to the public – is it about a nuclear programme? Is it about sponsoring terrorism? – which are legitimate political concerns. It takes it out of the realm of politics and casts it as a holy war of a supposedly Christian nation against a Muslim nation.”

Doug Pagitt, a pastor and executive director of the progressive Christian group Vote Common Good, compares Hegseth’s worldview to the historical heresy of Constantine, who allegedly painted a cross on his shield to conquer in the name of God – a theology the broader Christian church has spent centuries trying to distance itself from following the horrors of the Crusades.

Pagitt said: “It seems to me that Pete Hegseth has a worldview, which is contorted toward thinking that this administration has a particular divine calling. He believes – because he said it – that God has uniquely ordained Donald Trump and those that he chooses to accomplish very specific purposes in the world.

“Pete Hegseth’s own version of Christianity is one that’s built around a certain Christian advancement that comes through the domination of the governments of nations. He believes that not only is the military at his disposal to use for his purposes but it’s there to fulfill God’s agenda for the world.”

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domingo, 8 de março de 2026

Sangue e Petróleo: A Ecologia Política do Fascismo Fóssil Contemporâneo

Robin Mackay (esquerda) e Mark Alizart (direita)

A emergência do conceito de carbofascismo (ou fascismo fóssil) marca uma rutura analítica necessária na compreensão das extremas-direitas contemporâneas. Ao contrário do ecofascismo tradicional, que instrumentaliza a preservação da natureza para justificar a exclusão xenófoba e o controlo populacional, o carbofascismo manifesta-se como uma defesa militante e autoritária da economia extrativista. Esta ideologia não é apenas um subproduto da ignorância científica; é uma reforma identitária que funde a supremacia branca e o destino das nações industrializadas ao consumo desenfreado de hidrocarbonetos. No centro desta tese, Andreas Malm e o Zetkin Collective argumentam que o investimento histórico no capital fóssil criou uma estrutura de dominação que as elites globais não estão dispostas a abandonar, mesmo perante o colapso biosférico.

O fenómeno assenta naquilo que a investigadora Cara Daggett denomina como petromasculinidade. Nesta ótica, a queima de combustíveis fósseis é interpretada como um símbolo de virilidade, autonomia e poder patriarcal. A transição para energias renováveis não é vista apenas como uma mudança técnica, mas como uma ameaça à própria identidade do "homem ocidental" e à sua posição de domínio sobre a natureza e os povos do Sul Global. Assim, o negacionismo climático deixa de ser um debate sobre factos para se tornar uma guerra cultural, onde o carro a gasóleo e a extração de carvão são elevados a totens de liberdade contra uma suposta "tirania ecológica" das instituições transnacionais.

Historicamente, o fascismo sempre teve uma relação ambivalente com a tecnologia e a natureza. No entanto, o fascismo fóssil do século XXI radicaliza esta ligação ao defender a continuidade do status quo energético através da repressão estatal e da violência contra os movimentos de justiça ambiental. À medida que os efeitos do aquecimento global intensificam as crises migratórias, o carbofascismo propõe uma solução de "fortaleza": garantir o acesso aos recursos energéticos para os grupos dominantes enquanto se militarizam as fronteiras contra as vítimas da degradação ambiental que o próprio sistema produz. 

Para Alizart, a negação das alterações climáticas por parte de certas elites não é ignorância, mas uma estratégia deliberada. O carbofascismo descreve um sistema onde o colapso ambiental é utilizado para justificar regimes autoritários, o fecho de fronteiras e a exclusão de populações inteiras "excedentes" que não caberão nos recursos escassos do futuro. Alizart utiliza o termo termoplítica para explicar como a gestão do calor e da energia se tornou a nova ferramenta de controle social. No cenário do carbofascismo, quem controla o carbono e a energia controla a vida e a morte.

Mackay tem um histórico ligado ao CCRU (Cybernetic Culture Research Unit). A sua visão sobre o carbofascismo é matizada pela ideia de que o sistema atual não está "quebrado", mas sim acelerando em direção a uma forma de controle autoritário baseada na escassez de recursos.

Em suma, o "Sangue e Petróleo" representa a fase final de um sistema que prefere o autoritarismo à descarbonização, transformando a geologia em ideologia de sobrevivência seletiva.

Referências Académicas
Alizart, M (2021). The Climate Coup
Daggett, C. (2018). Petro-masculinity: Fueling conspiracy theories and authoritarian desire. Millennium: Journal of International Studies, 47(1), 25-44.
Malm, A., & Zetkin Collective. (2021). White Skin, Black Fuel: On the Dangers of Fossil Fascism. Londres: Verso Books.
Moore, J. W. (2015). Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital. Nova Iorque: Verso Books.
Staudenmaier, P. (2011). Ecofascism Revisited: Lessons from the German Experience. Porsgrunn: New Compass Press.
Turner, J., & Bailey, C. (2022). "Ecotype": Understanding the extremist environmental transitions. Studies in Conflict & Terrorism.

sábado, 7 de março de 2026

Mafalda Livermore: a ironia faz-se sózinha


O caso de Mafalda Livermore é o exemplo acabado de como a realidade, por vezes, se encarrega de expor as maiores contradições sem precisar de floreados. A ironia faz-se sozinha porque o choque entre a retórica e a prática é absoluto: uma criminologista, ligada a um partido que se apresenta como o único capaz de limpar a corrupção e combater o "sistema" de privilégios, acaba exonerada por um caso de nepotismo direto e pela exploração de condições de habitabilidade indignas. Rever Prova dos Factos

A situação torna-se particularmente gritante quando observamos que o lucro vinha precisamente da população imigrante, o grupo que o partido mais utiliza como alvo do seu discurso de insegurança e desordem. Quando uma estrutura política que reclama a exclusividade da moralidade e da "lei e ordem" se vê enredada em esquemas de favorecimento familiar e na precarização de seres humanos, a narrativa de "pureza" colapsa. Não é necessário um debate ideológico profundo para perceber a incoerência; basta olhar para os factos, que se revelam tão opostos às promessas eleitorais que a própria situação se torna uma sátira da mensagem política que o partido tenta vender.

O Chega é um verdadeiro poço de bandidos de toda a ordem. Quase não há dia nenhum em que não se descubra que mais um bandido chegano foi caçado numa das milhentas falcatruas possíveis de serem feitas neste mundo de pseudo empresários nascidos nas redes sociais.
As escandaleiras envolvendo cheganos são tantas e de tal ordem que já ninguém se admira quando um qualquer noticiário abre com a noticia de um chegano metido em vigarices ou enfiado num qualquer processo judicial. Escolheram-nos a dedo o que não admira numa seita montada sobre milhentas assinaturas falsificadas pelas quais ninguém foi responsável nem responsabilizado. Até hoje ninguém percebe como um gangue de bandidos pode concorrer a eleições com órgãos diretivos ilegais, com contas não aprovadas pelo tribunal Constitucional e com estatutos reprovados pelo mesmo Tribunal. O Chega utiliza estas derrotas no Tribunal Constitucional para alimentar a sua própria narrativa: presentam-se como vítimas de uma perseguição das elites ou dos juízes "do sistema" e quanto mais o TC chumba os seus estatutos, mais o partido diz aos seus eleitores que "eles" (os poderes instituídos) estão a tentar calar a voz do povo.
Mas se toda esta vigarice causa estranheza a muita gente mais estranheza causa que 25% dos eleitores nacionais estejam de tal forma alienados e hipnotizados com este bando de gangsters que lhes entregam o seu voto.

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Era só o que faltava que eu não pudesse reflectir em voz alta - Amanhã votarei em António José Seguro!

Ainda tem dúvidas? 
Autarca do Chega de 49 anos aterrorizou um vizinho com tiros (!!). Além de lhe ter matado uma ovelha, o fulano causou danos avaliados em 20 mil euros à vítima, também resultantes de disparos de arma de fogo.
Amanhã voto ANTÓNIO SEGURO, faça chuva, faça Sol.

Amanhã irei votar contra o ódio, contra o fascismo, contra o racismo, contra a xenofobia, contra a homofobia, contra a misoginia, contra as touradas, contra a bufaria, contra a militarização das fronteiras, contra a criação de uma polícia migratória estatal e contra criminosos de colarinho branco. 

Não é só Portugal que está em causa. André Ventura partilha e difunde os pilares fundamentais do movimento Internacional Nacionalista, a saber: 

A. Nacionalismo Identitário: A defesa da "identidade cristã" e dos valores tradicionais contra o multiculturalismo. 

B. Populismo de Exclusão: A dicotomia entre o "povo de bem" e as "elites corruptas", estendendo-se frequentemente a ataques contra minorias (especialmente a comunidade cigana e imigrantes). 

C. Segurança e Autoritarismo: Defesa de penas mais pesadas (prisão perpétua, castração química) e um apoio incondicional às forças policiais. (vejam o ICE, nos EUA)

2. As Alianças Internacionais 
André Ventura tem sido muito eficaz a inserir-se na "Internacional Nacionalista". Ele não é apenas um admirador, é um parceiro ativo de figuras chave: 

Santiago Abascal (VOX) Espanha - O aliado mais próximo, com frequentes visitas mútuas e uma agenda comum para a Península Ibérica. 

Matteo Salvini (Lega) Itália - é parceiro no grupo parlamentar europeu Identidade e Democracia (ID). 

Marine Le Pen (RN) França - uma das principais referências e apoiante pública de Ventura em campanhas eleitorais. 

Viktor Orbán (Hungria)- Ventura aponta frequentemente a Hungria como modelo de defesa das fronteiras e da família. 

Donald Trump / Jair Bolsonaro- Ventura adoptou o estilo de comunicação direta e brutalista nas redes sociais e a retórica de "limpeza do sistema" destes líderes.

André Ventura pratica e abusa de deepfake, bots e mentiras.

Só tenho pena de não ter sido discutido o tema ecologia e ambiente.

Provavelmente este “ português de bem ”vai apresentar como defesa, que a ovelha o insultou ou era do Bangladesh (ironia)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O problema com Stephen Miller é que ele não sente vergonha. O arquiteto da política de imigração de Trump cometeu um erro em Minneapolis



Depois da morte do enfermeiro norte-americano Alex Pretti às mãos do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos EUA, as atenções começam a virar-se para Stephen Miller, o principal conselheiro de Donald Trump, responsável por redesenhar a política de imigração do país.

Nas redes sociais, Miller não demorou a classificar a vítima como um “aspirante a assassino”, que tentou matar agentes federais”, apenas algumas horas depois do confronto fatal entre as forças do ICE e o homem de 37 anos. Mas nem Donald Trump parece concordar com a afirmação, tendo assegurado esta terça-feira que “não” acredita que Pretti fosse um assassino.

No mesmo dia, em declarações à CNN, Stephen Miller admitiu que os agentes “podem não ter seguido” o protocolo adequado antes do tiroteio que tirou a vida a Pretti - uma posição insólita vinda de alguém conhecido por reforçar as suas convicções, de acordo com o The Guardian.

Antes de ser contrariado pelo próprio presidente, já se levantavam dúvidas sobre a ausência do conselheiro na reunião de duas horas que Donald Trump realizou com a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, esta segunda-feira, de onde saiu um novo anúncio: foi destacado para Minneapolis o “czar da fronteira” da Casa Branca, Tom Homan, para “recalibrar as táticas” e melhorar a cooperação com as autoridades estatais e locais.

Além de Homan ser conhecido por criticar a abordagem de Stephen Miller, Donald Trump manteve ainda telefonemas cordiais com o governador do Minnesota, Tim Walz, e com o presidente da Câmara de Minneapolis, Jacob Frey.

“O problema com Stephen Miller é que o mal é resiliente. Ele não sente vergonha, não acha que isto seja algo mau. Está convencido de que outras pessoas o envergonharam, mas não acredita que ele esteja a conduzir um ataque às liberdades constitucionais dos americanos”, afirmou Rick Wilson, co-fundador do Lincoln Project (um grupo anti-Trump), citado pelo mesmo jornal.

Em maio do ano passado, o conselheiro de Trump encomendou ao serviço de imigração três mil detenções diárias, um aumento de quase dez vezes relativamente ao ano anterior. Segundo, Larry Jacobs, diretor do Centro para o Estudo da Política e Governação da Universidade do Minnesota, o abuso de poder de Miller foi um dos principais fatores a desacreditar a política de deportação de Donald Trump.

“O facto de ele ter sido afastado da reunião na Casa Branca é uma mensagem forte para Washington de que o presidente não aprova este processo e de que tem de haver uma mudança”, reforça o responsável, afastando, ainda assim, a possibilidade de Miller vir a ser despedido. “Não espero que Stephen Miller seja despedido, porque Donald Trump apoia a política, só não apoia a forma como foi executada”, sublinhou Larry Jacobs.

Apesar de os democratas terem avançado com uma iniciativa para destituir Kristi Noem, os especialistas não têm dúvidas de que o verdadeiro culpado da tragédia de Minneapolis é Miller, que ocupa ainda o cargo de vice-chefe de gabinete da Casa Branca.

Larry Jacobs destaca Stephen Miller como o verdadeiro “arquiteto” que “tem pressionado o ICE para endurecer e apresentar mais números, trazer pessoas e só depois ver se são as pessoas certas”.

“A imprudência, a brutalidade, a falta de processo legal. Tudo isso tem raízes em Stephen Miller”, frisou o especialista.

Depois do erro de Minneapolis, o principal conselheiro de Donald Trump “terá um papel público muito menor no futuro previsível”, afirmou Henry Olsen, investigador no Ethics and Public Policy Center, em Washington.

“É claro que Trump pessoalmente não gosta, do ponto de vista das relações-públicas, do que tem estado a acontecer, e é sensível a isso, sempre foi. Ele sabe, tanto pelo seu instinto como pelo que os dados lhe dizem, que Miller e Noem não se favoreceram com a forma como abordaram imediatamente a morte” de Pretti.

Mesmo assim, corrobora a opinião dos investigadores que não acreditam numa demissão de Miller: “Ele está com Trump há bastante tempo e o presidente não tem problemas em livrar-se de subordinados que não rendem, mas suspeita-se que Miller, em muitos aspetos, está a render e, por isso, Trump não o vai atirar borda fora precipitadamente.”

“Stephen Miller é demasiado dominante no esquema mental de Trump sobre o que a base MAGA quer, para ser verdadeiramente afastado do seu círculo. Não acho que exista um mundo em que Miller não mantenha a sua autoridade e o seu poder junto de Trump”, corrobora Rick Wilson.

Henry Olsen sublinha que é do interesse de Donald Trump manter Miller por perto, já que o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, rende onde interessa ao presidente: na televisão. É um defensor combativo de Trump, que caracteriza os democratas como uma “organização extremista doméstica” e a América como líder de um mundo “governado pela força, governado pela violência, governado pelo poder”.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

PJ desmantela grupo neonazi "Grupo 1143" responsável por crimes de ódio e detém 37 suspeitos


A Polícia Judiciária (PJ) desmantelou hoje uma associação criminosa que praticava crimes de ódio, tendo detido 37 suspeitos com “vastos antecedentes criminais” e “ligações a grupos de ódio internacionais”.

Em comunicado, a PJ adianta que, no âmbito da operação “Irmandade”, foram constituídos “mais 15 arguidos e realizadas 65 buscas domiciliárias e não domiciliárias”.

Os detidos, entre os 30 e os 54 anos, “adotavam e difundiam a ideologia nazi, inerente à cultura nacional-socialista e extrema-direita radical e violenta, agindo por motivos racistas e xenófobos, com o objetivo de intimidar, perseguir e coagir minorias étnicas, designadamente imigrantes”.

São suspeitos de terem fundado a organização criminosa, com uma estrutura hierárquica e distribuição de funções, “com o exclusivo propósito de desenvolver atividades que incitavam à discriminação, ao ódio e à violência racial”.

A organização é “responsável pela prática de crimes de discriminação e incitamento ao ódio e à violência, ameaça e coação agravadas, ofensas à integridade física qualificada e detenção de armas proibidas”.

Na operação, conduzida pela Unidade Nacional de Contraterrorismo, participaram cerca de 300 elementos da PJ.

Segundo a CNN Portugal, o líder do grupo é Mário Machado, conhecido neonazi que está a cumprir pena por crimes da mesma natureza e que dava as instruções a partir da cadeia, e as vítimas eram imigrantes de países islâmicos.

Fonte próxima do processo disse entretanto à Lusa que a cela de Mário Machado foi alvo de buscas hoje de manhã.

Os detidos têm marcado o primeiro interrogatório judicial, para aplicação das medidas de coação, na quarta-feira no Tribunal Central de Instrução Criminal de Lisboa.

Há dois elementos "não civis" entre os 37 detidos do Grupo 1143 durante a Operação Irmandade, esta terça-feira. A PJ não quis explicitar se se tratam de elementos das forças e serviços de segurança, na conferência de imprensa realizada poucas horas após as buscas. Mas o Expresso apurou que um destes dois elementos é um militar e o outro polícia.