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terça-feira, 30 de junho de 2026

Sabia que o seu protetor solar está a afetar os oceanos? Saiba como cuidar da sua saúde e proteger os oceanos

Com a chegada do verão e de mais temporadas passadas na praia ou na piscina, é muito importante manter a nossa pele protegida dos raios UV provenientes do sol, através do uso de protetor solar. No entanto, muitos dos filtros solares utilizados nestes produtos são prejudiciais à biodiversidade e aos ecossistemas marinhos.

Existem dois tipos principais de filtros solares: filtros minerais e filtros orgânicos (ou químicos). Estes últimos são os mais problemáticos para várias espécies marinhas, sendo um dos mais usados a oxibenzona. Este químico não se degrada facilmente e, por isso, pode persistir durante muito tempo quando introduzido na natureza. É também um dos mais encontrados em águas naturais.

Estes filtros solares químicos são introduzidos nos ecossistemas marinhos através do protetor solar que usamos na nossa pele e que depois se liberta quando entramos na água do mar, mas também podem ser descartados para a natureza através das estações de tratamento de águas residuais. Os efeitos negativos destes químicos são muito variados. Podem impedir o crescimento e a fotossíntese em algas marinhas, reduzir a fertilidade em peixes, causar danos nos sistemas imunitário e reprodutor de várias espécies de ouriços do mar e bivalves e também acumularem-se nos tecidos dos golfinhos. Um dos piores impactos verifica-se nos corais, nos quais estas substâncias se podem acumular e deformar o seu ADN, podendo levar ao seu branqueamento (uma das principais causas de morte nos corais, também provocada pelo aumento de temperatura da água do mar).

Existe uma lista de químicos potencialmente prejudiciais à vida marinha, publicada pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos EUA (conhecida pela sigla NOAA), na qual se incluem: oxibenzona, benzofenona-1, benzofenona-8, p-aminobenzoato de octilo dimetilo (OD-PABA), 4-metilbenzilideno cânfora, 3-benzilideno cânfora, dióxido de nano-titânio, óxido de nano-zinco, octinoxato e octocrileno. A utilização de alguns deles foi proibida na União Europeia, por poderem ser considerados prejudiciais ao ser humano e outros compostos, como a  oxibenzona e o octinoxato foram banidos em alguns locais com o intuito de proteger os corais, como o  Havai e o arquipélago de Palau, mas ainda continuam a ser muito comuns na maioria dos protetores solares.

Em Portugal, um projeto recente denominado Scree&Toxin (coordenado pela universidade de Aveiro) está a estudar de que forma a oxibenzona está a interferir na acumulação de biotoxinas marinhas em conquilhas da espécie Donax trunculus

O que podemos fazer?
Devemos por a nossa saúde em primeiro lugar, não dispensando o uso de proteção solar. No entanto, aquando da escolha de um protetor solar, podemos ter em atenção os ingredientes presentes e tentar evitar estas substâncias. Algumas marcas já apresentam na própria embalagem mensagens de alerta como “Reef Safe”, “Ocean friendly” ou “Respeita os oceanos”. No entanto, devemos ter atenção, pois alguns destes produtos poderão não estar livres de todos os filtros prejudiciais, sendo por isso importante rever a lista de ingredientes. Devemos igualmente adotar comportamentos que podem ser mais amigos do ambiente e também da nossa saúde como evitar a exposição solar nas horas de maior calor e usar roupa de e chapéu para prevenir as queimaduras solares.
Utilizar alguns aplicativos que nos ajudam a destrinçar os seus componentes, como a Yuka.
As marcas de protetores solares ecológicos dividem-se maioritariamente em fórmulas 100% minerais (filtros físicos de zinco ou titânio "não nano") que não prejudicam os corais e utilizam embalagens sustentáveis.
Para quem procura proteger a pele e o oceano, o mercado atual já oferece excelentes plataformas especializadas em cosmética sustentável com envio para Portugal. Se a preferência for explorar lojas multimarcas que fazem uma curadoria rigorosa, a My True Bio destaca-se a nível nacional por disponibilizar uma secção inteiramente dedicada a fórmulas minerais não-nano de marcas conceituadas. No mesmo alinhamento de desperdício zero, a pioneira Organii foca-se em opções biológicas certificadas e formatos inovadores, como os sticks solares sólidos. Já para quem valoriza a maior variedade possível de marcas europeias e quer comparar preços, a versão portuguesa da Ecco Verde oferece um catálogo vastíssimo com filtros estritamente seguros para os corais.

Por outro lado, se o objetivo for comprar diretamente aos fabricantes que lideram esta revolução ecológica, há marcas de referência com lojas online muito acessíveis. Fundada por surfistas, a sueca Suntribe é famosa pelas suas fórmulas ultra-minimalistas (com poucos ingredientes) em embalagens de cartão e alumínio. No campo da alta proteção aliada a uma textura mais fluida, os franceses dos Laboratoires de Biarritz criaram a aclamada gama Alga Maris, enriquecida com algas antioxidantes. Para o dia a dia e com texturas mais adaptadas à rotina urbana, a Freshly Cosmetics disponibiliza protetores físicos em alumínio reciclado que minimizam o habitual tom esbranquiçado na pele. Finalmente, focada na máxima biodegradabilidade para desportos aquáticos, a Amazinc! apresenta soluções líquidas e sólidas em latas totalmente reutilizáveis e livres de plástico

Para saber mais sobre este tema consulte:

segunda-feira, 30 de março de 2026

John Horsewell

John Horsewell é um conceituado pintor contemporâneo de nacionalidade britânica, nascido em Inglaterra  entre os anos de 1952. A sua trajetória artística é marcada por uma forte componente hereditária, uma vez que cresceu num ambiente profundamente criativo, tendo sido instruído no seio familiar pelo seu pai e pelo seu avô, ambos pintores profissionais.

Ao contrário de muitos dos seus contemporâneos, Horsewell não seguiu uma formação académica formal em faculdades de Belas Artes. A sua educação foi técnica e prática, moldada diretamente no ateliê da família e consolidada através da experiência no mundo do design de interiores e de galerias de arte após concluir o ensino secundário. Esta base autodidata e artesanal permitiu-lhe desenvolver um estilo muito próprio, que se situa entre o realismo e o impressionismo moderno.

O seu estilo  é definido como um impressionismo contemporâneo profundamente focado na captura da luz e na criação de atmosferas de serenidade absoluta. A sua estética afasta-se do detalhe fotográfico rígido para se concentrar na sensação de um momento, utilizando o que o próprio artista descreve como uma filosofia de "menos é mais". As suas composições são frequentemente minimalistas, apresentando horizontes baixos que dão protagonismo a céus vastos e dramáticos, evocando um sentimento de isolamento pacífico e de evasão da azáfama quotidiana.

O artista é particularmente célebre pelas suas paisagens costeiras, praias banhadas pelo sol e cenas rurais, frequentemente inspiradas pelas suas viagens pela Europa — com especial foco no sul de França e Itália — e pela Florida, nos Estados Unidos. 

A grande marca registada do seu trabalho é a mestria na utilização da espátula (palette knife), que combina habilmente com o uso do pincel. Enquanto as grandes áreas de céu e mar são trabalhadas com pinceladas suaves e fluidas para criar profundidade, os elementos centrais — como os barcos, as rochas ou a vegetação — são esculpidos com camadas espessas de tinta a óleo (técnica de impasto). Esta abordagem confere às telas uma qualidade tridimensional e uma textura rica, permitindo que a luz ambiente da sala interaja fisicamente com o relevo da pintura.

Quanto à paleta de cores, Horsewell utiliza tons que variam entre os azuis profundos e cerúleos dos oceanos e os tons quentes e pastéis das areias e campos europeus. O seu objetivo primordial é sempre o otimismo visual, transformando cada tela numa "janela" para um paraíso idealizado, onde o contraste entre as sombras suaves e os pontos de luz intensa convida o espectador a um estado de contemplação e calma interior.

Um exemplo perfeito desta estética é a obra "Calm Waters" (também conhecida como "Moored Boats"), pintada provavelmente entre 2010 e 2020. Nesta tela, Horsewell utiliza um horizonte baixo e uma paleta de azuis profundos em contraste com tons areia para evocar uma sensação de paz absoluta. Através de pinceladas suaves no céu e relevos texturizados nos barcos e no primeiro plano, o pintor convida o espectador a entrar num cenário de tranquilidade e isolamento regenerador.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Ibolya Taligas

Ibolya Taligas (aquarelista Húngara, nascida em 1974)

Vive há mais de 30 anos, em Londres. 
Estilo pictórico
Trabalha sobretudo numa linguagem figurativa, com forte componente realista, especialmente em paisagens, vistas urbanas e naturezas-mortas.
A paleta é geralmente luminosa, com uso expressivo da cor e valorização de atmosferas naturais e ambientes mediterrânicos/atlânticos (praias, cidades históricas, castelos).
Temas recorrentes
1. Paisagens costeiras e praias, como em “Fuerteventura Beach”.
​2. Cidades históricas e arquitetura tradicional, como Gjirokastra (Albânia) e o respetivo castelo.
​3. Naturezas-mortas simples, como composições com frutos (“Three Pears on the table”).
4. Retratos femininos ou de infância 
Técnica e materiais
As obras são apresentadas como pinturas de cavalete em suporte tradicional (tela ou painel), usando sobretudo técnicas de pintura a óleo ou acrílico, típicas da produção figurativa contemporânea; 
A técnica enfatiza desenho definido, volumes bem modelados e camadas de cor relativamente limpas, mais próximas de um realismo lírico do que de abordagens abstractas.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Eugenia Gorbacheva

Eugenia Gorbacheva (aquarelista Russa, nascida em 1985)

Estilo artístico
Predominantemente impressionista e figurativo, capturando luz, cor, atmosfera e sensação natural em seus trabalhos. 
A aquarela, como meio, destaca-se por sua transparência, fluidez e pelo trabalho com pigmentos solúveis em água — um meio que exige domínio cuidadoso do artista. 

Temas e assuntos
Os seus temas variam bastante, mas paisagens naturais, flores e elementos da natureza, cenas arquitetónicas e marinhas são recorrentes, muitas vezes evocando luz e atmosfera específicas (ex.: montanhas, flores, vilas e cenários costeiros). 

Técnica
Trabalha com aquarela tradicional sobre papel de alta qualidade (como Arches ou papel similar), concentrando-se no controle cuidadoso da água, pigmento e luz. 
A sua técnica envolve capturar transparências, nuances e fluidez típicas da aquarela, explorando o meio para expressar sensação, movimento e profundidade.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

France Jodoin

France Jodoin (pintora Canadiana, nascida em 1961)
Estilo:
É uma artista contemporânea cujas obras se situam entre o impressionismo e o romanticismo europeu moderno.
A sua pintura tem um caráter etéreo e sugestivo, equilibrando representação e abstração, com cenas que parecem vista através de névoa ou luz difusa. 
Os temas muitas vezes evocam marinas, paisagens, cityscapes, flores, figuras e animais, sempre com uma sensação de tempo efémero e uma atmosfera poética. 

Técnica:
Trabalha principalmente com óleo sobre linho, aplicando a tinta de forma gestual e intuitiva, construindo e reconstruindo a imagem com pinceladas fluídas.
Também faz desenhos e gravuras, incluindo técnicas de aquitinta e sugar lift em gravura. 
O seu processo de pintura é instintivo e não preconcebido, permitindo que a obra se desenvolva organicamente no suporte. 

As suas composições convidam o espectador a construir narrativas pessoais, em vez de retratar lugares ou pessoas específicos.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Last Grasp - Never Rend


You could trace the shore
you could search the beach
for all you know it is within reach
the love you've always shared
could never ever stack
to the brand of scorn that's on your back
will you be the one to satisfy?
or be the one to run and cry?
from the world with all its pain
the anxiousness that's in your brain
will you turn to breaking down?
or return to thee ground?

loving you is something like an art

I don't want to feel human
I don't want to feel the same
I just want someone to hold me tightly in vain
I'm a creature with no wisdom
I'm a creature with no past
cause everything's forgotten when your heart is made of glass
and every time I shatter
you find me to reform
our love forever stains us though our vows remain unsworn
when fate does ever find us
to lead us to our end
our souls will search forever till they cling and
Never Rend

A música Never Rend fala sobre alguém que se sente profundamente vulnerável — um coração “feito de vidro” que se parte com facilidade — mas que ainda assim deseja amor e conexão. Apesar da dor, da ansiedade e do medo de quebrar novamente, existe uma promessa íntima de não desistir nem se separar definitivamente do outro. A expressão never rend simboliza essa vontade de permanecer ligado e não se desfazer, por muito difícil que seja.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Ilhéu na Indonésia luta contra gigante suíço do cimento

Quatro residentes da pequena ilha indonésia de Pulau Pari prometeram lutar contra uma das indústrias mais prejudiciais para o clima: o cimento. A sua luta tem feito manchetes em todo o mundo. Nesta reportagem, falámos com eles na sua ilha natal ameaçada.

A partir de Jacarta, é preciso uma hora de barco e depois uma caminhada de cinco minutos para chegar à modesta casa de hóspedes no centro de Pulau Pari, uma pequena ilha cujo nome se tornou conhecido em todo o mundo.

Uma vez chegados, o olhar do visitante é imediatamente atraído por numerosos cartazes que apelam a "salvar a ilha".

De pé, junto ao fogão, a fritar bananas, está Ibu Asmania, gerente da casa de hóspedes. É também ela que está por detrás da primeira queixa climática apresentada na Suíça contra o fabricante de cimento Holcim.

Nesta manhã de quarta-feira de outubro, o terraço da pensão está cheio de gente. Um jornalista e um operador de câmara de um canal de televisão indonésio e dois representantes de uma ONG local também fizeram a viagem. "Viemos para contar a mesma história", diz entusiasmado o jovem jornalista.

O terraço da casa de hóspedes de Ibu Asmania está sempre ocupado, servindo de ponto de encontro para os residentes empenhados na justiça climática

A presença dos meios de comunicação social - incluindo do estrangeiro - já não surpreende ninguém nesta ilha paradisíaca de 1.500 habitantes. O processo que opõe quatro membros desta comunidade ao gigante do cimento Holcim, com sede em Zug, é histórico. Poderá abrir caminho a processos semelhantes na Suíça e noutros países.

Pulau Pari, que fica a cerca de 40 quilómetros a noroeste da capital indonésia, está na linha da frente do aquecimento global, tal como muitas pequenas ilhas em todo o mundo. A população sofre diariamente com o impacto negativo da subida do nível do mar, da degradação do ecossistema marinho e de condições meteorológicas cada vez mais imprevisíveis.

No entanto, os habitantes da ilha, que vivem principalmente da pesca e do turismo, contribuíram muito pouco para as emissões de gases com efeito de estufa responsáveis por estas alterações.

"As alterações climáticas estão a afetar-nos gravemente", diz Asmania. "Mas nós sempre cuidámos da nossa ilha. Estamos a sofrer as consequências das emissões de gases com efeito de estufa de multinacionais como a Holcim. É injusto."

Foi por isso que ela e três outros residentes decidiram deslocar-se à Suíça para intentar uma ação civil contra a Holcim, que consideram corresponsável pela crise climática. Exigem que o fabricante de cimento os indemnize pelos danos sofridos e contribua para medidas de proteção, num total de 14.700 francos suíços (18.200 dólares). Pedem igualmente à empresa que reduza as suas emissões de dióxido de carbono.

Depois de terminado o pequeno-almoço, Asmania, 42 anos, leva-nos para a sua sala de estar, onde apenas o zumbido de um ar condicionado quebra a calma. Na estante, há fotografias emolduradas da sua visita à Suíça, que a mostram em frente ao edifício do Parlamento Federal, em Berna, com vários deputados que apoiam a sua luta.

Um mês após o seu regresso, esta mãe de três filhos não esconde a sua preocupação enquanto "espera impacientemente" por notícias do tribunal de Zug.

Ao contrário dos outros queixosos, Asmania não cresceu em Pulau Pari, mas na cidade de Bekasi, a leste de Jacarta. Isso não a impede de lamentar o facto de o local ter mudado muito nos últimos anos. "Quando vim para cá, era uma ilha de pescadores", diz. Mudou-se para cá com o marido, Tono, com quem casou em 2005.

Na altura, Pulau Pari era conhecida pela sua cultura de algas marinhas, que eram exportadas internacionalmente e constituíam uma importante fonte de rendimento para a população. Depois de transformadas, estas algas eram utilizadas na indústria alimentar e farmacêutica.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Podemos estar a viver uma “extinção silenciosa” de aranhas únicas em Portugal

A aranha Macrothele calpeiana é uma das espécies que tecem as suas teias em forma de túnel

Fonte e mais imagens: Wilder 
Os grandes incêndios dos últimos anos e a perda de habitats, aliados à falta de recursos para investigação, podem levar ao desaparecimento de muitas espécies de aranhas únicas em Portugal e no mundo, sem sequer darmos conta, afirma Sérgio Henriques.

O alerta foi lançado numa entrevista à Wilder dada por este cientista português, líder do grupo de especialistas em aranhas e escorpiões da União Internacional para a Conservação da Natureza e especialista da Sociedade Zoológica de Londres.

Sérgio Henriques salienta também a singularidade do território subterrâneo português: “Para quem alguma vez sonhou em visitar o centro da terra e encontrar uma ‘selva’ tropical perdida no tempo, esse local existe, e fica nas cavernas de Portugal.”

Wilder: Estão para já descritas 829 espécies de aranhas em Portugal Continental. Este número é muito diferente de outros países europeus?
Sérgio Henriques: Os números variam muito de país para país, tal como o conhecimento que cada país tem da sua fauna. Será muitíssimo raro que exista alguma espécie nativa de aranha em Inglaterra que ainda não esteja descrita cientificamente, mas acontece todos os anos em Portugal. E mais vezes aconteceria, se houvesse recursos para estudar estes animais.

Ainda assim, Portugal tem um número considerável de espécies para a área que ocupa, devido à sua localização geográfica e à diversidade de habitats. Estamos localizados numa região de elevada biodiversidade, o Mediterrâneo. Ponto de encontro entre dois gigantes, África e Europa, Portugal foi um refúgio para muitas espécies durante a última glaciação: temos animais que sobreviveram aos impactos desta época no nosso país, mas foram erradicados de outros países do Norte da Europa.

As nossas cavernas são o melhor exemplo disso. Nelas temos espécies relictas [de grupos que já ocorreram na superfície mas que estão hoje isoladas nestas cavernas], cujos parentes mais próximos estão na Costa do Marfim, por exemplo. Essas são espécies de aranhas que já terão ocorrido numa área bem mais extensa do que a que hoje ocupam, mas cujos descendentes apenas sobreviveram no calor e segurança das cavernas portuguesas, tendo sido erradicadas em todos os outros habitats próximos na superfície.

Para quem alguma vez sonhou em visitar o centro da terra e encontrar uma ‘selva’ tropical perdida no tempo, esse local existe, e fica nas cavernas de Portugal.

W: E é possível estimar quantas espécies de aranhas existem em Portugal, incluindo aquelas que ainda não foram descritas?
Sérgio Henriques: Tenho a certeza de que o número será muito maior do que é hoje, mas não é possível fazer uma estimativa fiável. O número de espécies de aranhas descritas em Portugal cresce todos os anos e não me parece que vá parar tão cedo. Mas sem apoio, estas descrições são esporádicas e estão sobretudo dependentes de amadores.

Alguns fazem trabalho de topo, mas temos outros sem grande mérito, que descrevem espécies que claramente não são diferentes das anteriormente descritas. Alguns trabalham em colaboração com cientistas portugueses e com as autoridades, mas outros vêm “passar férias” e recolhem espécies em áreas naturais sem permissão de colheita e traficam-nas para fora do país.

Além disso, desta forma algumas áreas mais turísticas acabam por ser bem mais estudadas, como a costa algarvia, mas sabemos menos acerca do Interior do país, apesar da sua enorme riqueza biológica e da proximidade a Espanha. Pelo que é impossível fazer previsões sobre a velocidade com que novas espécies serão descritas ou registadas pela primeira vez para Portugal, quantas serão realmente válidas, e quando é que essas descrições vão começar a abrandar por estarmos a chegar ao número real de espécies que temos.

W: Os grandes incêndios que aconteceram nestes últimos anos podem estar a colocar em perigo aranhas únicas no país e no mundo?
Sérgio Henriques: Muitas das espécies de aranhas portuguesas estão adaptadas a incêndios ocasionais de baixa intensidade; algumas até podem depender deles. No entanto, os incêndios recorrentes com temperaturas muito elevadas, que afectam uma área enorme, dão pouca capacidade a alguns destes animais de recuperar. Particularmente quando já resta muito pouco habitat e as únicas áreas que se salvaram são urbanas ou agrícolas.

Além disso, Portugal não é um país enorme. E por isso, quando uma espécie ocorre apenas aqui, nunca ocupa uma área grande e não tem muita capacidade para se mover e viver noutros lados. E espécies como essas têm uma forte ligação à terra, são muito dependentes do seu habitat especifico e da estabilidade desse habitat.

W: E exemplos concretos de espécies afectadas?
Sérgio Henriques: Uma das que temo ter sido afectada pelos incêndios recentes é a Nemesia berlandi. É apenas conhecida de Fagilde, no Centro do país, e não era vista há quase 100 anos. Até que encontrei duas tocas numa pequena floresta.

Ao contrário de outras aranhas buraqueiras, que constroem tocas verticais com uma tampa, a N. berlandi parece construir tocas horizontais, o que a coloca em maior risco de não sobreviver às temperaturas elevadas de um incêndio. Infelizmente, o local onde encontrei as duas tocas era a única zona natural naquela área, que é sobretudo urbana ou agrícola, e a pequena floresta ardeu recentemente. Temo que não restem muitos outros locais apropriados para esta espécie viver.

É possível que algumas aranhas desta espécie tenham consigo sobreviver, mas tal como tem acontecido nas ultimas décadas, não há recursos para estudar esses animais. Na verdade, podemos estar a viver uma extinção silenciosa em que muitas espécies únicas do nosso pais desaparecem sem que saibamos, ou desaparecem antes mesmo de sabermos que existiam aqui.

W: Há outras ameaças para a conservação das aranhas?
Sérgio Henriques: Existem várias ameaças que parecem afectar as aranhas e outros invertebrados. A perda de habitat é uma das maiores e em Portugal está por vezes relacionada com os incêndios. Mas também com a urbanização e com a indústria mineira. Esta afecta particularmente a nossa fauna cavernícola, que é exepcionalmente única!

Mas temos também a construção de barragens, que prejudica os rios e inunda largas áreas únicas e de importância natural. E o aquecimento global, que impacta por exemplo a subida do nível do mar e aumenta a perda de habitat dunar (já afectado muitas vezes por outras ameaças), mas também causa a subida das temperaturas em habitats de alta montanha.

É provável que existam várias outras ameaças importantes que não tivemos ainda oportunidade e recursos para medir, uma vez que os esforços têm sido dirigidos para espécies endémicas [espécies que ocorrem apenas em território nacional]. Mas para além da perda de habitat, o uso de pesticidas agrícolas e a captura ilegal para venda ou coleccionismo têm certamente impacto em algumas espécies de aranhas portuguesas.

W: Os cientistas envolvidos nos trabalhos da Lista Vermelha de Invertebrados, como é o teu caso, estão a avaliar qual é o risco de extinção de várias centenas de animais invertebrados em Portugal Continental. Quantas espécies de aranhas estão a ser avaliadas?
Sérgio Henriques: As espécies-alvo desta Lista Vermelha são as endémicas do nosso país, que totalizam 42 espécies de aranhas, porque tememos que possam estar particularmente ameaçadas devido à sua distribuição reduzida. Por apenas existirem no nosso pais, a avaliação feita a nível nacional, como acontece neste projecto, é na realidade uma avaliação global

Esta aranha, apesar de ser endémica da Peninsula Ibérica – e não apenas de Portugal – é a única espécie que actualmente tem protecção oficial, neste caso pela rede Natura 2000. Por esse motivo, havia interesse científico e legislativo em analisar o seu estado de conservação.

Pessoalmente acho que é um imperativo moral protegermos o que é nosso. Se não o fizermos, quem o fará por nós?

W: Na tua opinião, ainda há muito para descobrir sobre as aranhas em Portugal?
Sérgio Henriques: Existe de facto muito a fazer, e não é que não haja gente nova com muito interesse ou conhecimento para isso, mas nunca houve apoio. E temo que ainda vamos perder muito mais habitat, espécies únicas e cientistas competentes, antes de termos o apoio que seria preciso.

Neste momento, nenhum aracnólogo activo português reside em Portugal. Emigrámos todos e continuamos a trabalhar no estrangeiro. Enquanto Espanha, por exemplo, embora esteja longe de ser perfeito, apoia vários destes especialistas.

Há muito ainda a fazer, mas qualquer boa casa começa com boas fundações. E qualquer campo de conhecimento biológico, antes de produzir conhecimento preditivo, tem de ter as fundações do conhecimento descritivo. E estas seriam descobrir que espécies temos e saber onde estão. O que se traduz em termos basicamente alguém a ser apoiado para descrever as espécies do nosso país que nunca foram descritas pela ciência, e a executar trabalho de campo para saber onde e quando essas e outras espécies ocorrem.

Este tipo de informação pode parecer de pouco valor, ou de interesse secundário, mas é a base que nos permite saber quão ameaçadas estão as nossas espécies, como as podemos proteger e quais são os impactos das alterações climáticas, que por sua vez nos poderão ajudar a prevenir os impactos em nós mesmos e nos recursos de que dependemos.

Essa informação também nos vai ajudar a produzir mais e melhor produtos agrícolas (sem recursos a pesticidas) e a descobrir novas substâncias, medicamentos mais eficazes ou melhores métodos de tratamento, que podem salvar vidas humanas. Sem esta base, todo este potencial se perde. Como uma biblioteca que arde sem que alguém tenha tido oportunidade de a ler.

Descubra as espécies de aranhas que já foram identificadas na Wilder e outras histórias sobre estes invertebrados ainda tão pouco conhecidos em Portugal, aqui.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

O dragão-azul


O dragão-azul (Glaucus atlanticus) tem aparecido em notícias pouco lisonjeadoras. Diz-se que este belo nudibrânquio pelágico apareceu em Espanha, que pode chegar a Portugal e que é perigoso, como se fosse um dinossauro perigoso.
Ora, já cansa tanta estupidez nas notícias. Esta lesma-do-mar de uns meros 3 ou 4 cm vive à superfície dos oceanos e é cosmopolita, ocupando as faixas tropical às zonas temperadas.
Ao contrário das notícias, existe, desde que há estudos, em Portugal, em especial nos Açores e Madeira. É predadora de medusas e pode comer a caravela-portuguesa (espécie altamente venenosa), incorporando os seus nematocistos que usa para se defender. Assim, alguns podem de facto causar queimaduras na pele de quem lhe toca mas longe da agressividade das alforrecas, até pelo seu pequeno tamanho. Por isso, convém apreciar estas belas criaturas sem lhes mexer, que é como deve ser, embora a maior parte seja inofensiva.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Sophia sobre S.Tomé e Príncipe

"Aqui nesta praia onde 
Não há nenhum vestígio de impureza, 
Aqui onde há somente 
Ondas tombando ininterruptamente, 
Puro espaço e lúcida unidade, 
Aqui o tempo apaixonadamente 
Encontra a própria liberdade"

terça-feira, 17 de junho de 2025

Câmara de Loulé viabilizou construção de aparthotel numa recém-criada área protegida - Petição para assinar


A Câmara Municipal de Loulé viabilizou a construção de um aparthotel e de um estacionamento com 377 lugares dentro da Reserva Natural da Foz do Almargem-Quarteira, uma recém-criada área protegida. O aparthotel ficará situado a 600 metros da praia, numa faixa litora odne o mar já engoliu o antigo forte novo e onde três restaurantes se encontram à beira da derrocada.

O projeto foi criado em agosto de 2024, por proposta do município. Três meses depois, a autarquia deu um parecer favorável ao projeto da unidade hoteleira. Segundo o jornal Público, o projeto do aparthotel implica uma área bruta de construção de 21.500 metros dentro de um pinhal centenário.

Movimentos locais e ambientalistas já se mobilizaram numa petição com mais de 3.500 assinaturas para pedir aos municípios que trave as obras. Segundo estes, na discussão pública da aprovação da reserva natural, nada foi mencionado sobre os projetos imobiliários.

O espaço da reserva natural é um ecossistema que faz parte de uma zona húmida com 11 habitats naturais e seminaturais, numa abrangência de 135 hectares. Desde o início do ano que os movimentos locais denunciam a ocupação da reserva natural. Foi nessa altura que a construção de um restaurante levou ao abate de duas dezenas de pinheiros centenários.

Na petição, que pode ser assinada online, denuncia-se o cercamento da área privada, a movimentação de terras em larga escala, a destruição de vegetação nativa e a remoção de árvores não apenas no terreno do projeto, mas também fora dele, “comprometendo ainda mais o ecossistema da reserva”.

É também apontada a falta de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) atualizado que considere o novo estatuto da área protegida. Os movimentos esclarecem que o projeto “ignora espécies protegidas e habitats frágeis, comprometendo o equilíbrio ecológico da reserva”.

As exigências dos cidadãos passam pela suspensão imediata das obras do restaurante e do estacionamento, a realização de um EIA atualizado, a reconsideração da licença do hotel, a responsabilização dos órgãos envolvidos e medidas para assegurar a recuperação da área, porque “a natureza não se defende sozinha”.

A Almargem, associação de defesa do património cultural e ambiental do Algarve, reagiu às obras ainda em Maio, pedindo esclarecimentos às autarquias e solicitando a realização de uma reunião extraordinária da Comissão Diretiva da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal.

A associação considera "insuficiente" a resposta das autarquias e reafirma que continuará a acompanhar o processo "com firmeza".

domingo, 8 de junho de 2025

ONU celebra Dia Mundial dos Oceanos com apelo a governos do mundo


Este 8 de junho é o Dia Mundial dos Oceanos. Juntos, eles produzem pelo menos 50% do oxigénio do planeta.

Este ano, a data é assinalada com o tema "Catalisar Ações para o Nosso Oceano e Clima" com um apelo claro à transformação: é preciso agir já para proteger este ecossistema essencial e profundamente ameaçado.

Principais ameaças aos oceanos
Entre os principais perigos que os oceanos enfrentam estão a poluição (incluindo os plásticos), a sobrepesca, a perda de biodiversidade e o aumento da temperatura da água, fatores agravados pela ação humana e pelas alterações climáticas.

A poluição plástica, no entanto, está acabando com cardumes, levando à perda de ecossistemas marinhos assim como ao aumento da temperatura que eleva o nível do mar.

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, a data serve para soar o alerta a governos em todo o mundo sobre fazer mais para proteger os mares. Os oceanos fornecem ar, alimentos, empregos e um clima do qual se depende.

Plano de Acção
Segundo a ONU, pelo menos 40 milhões de pessoas deverão ser empregadas na indústria oceânica até 2030.

Guterres defende investimentos massivos na ciência, na conservação e na economia azul sustentável além de ampliar o apoio às comunidades costeiras, pessoas indígenas e aos Pequenos Estados-Ilha, que já sofrem com as consequências da mudança climática.

Os mares absorvem 30% do carbono gerado por seres humanos sendo um grande aliado na luta contra as alterações do clima.

O secretário-geral lembra que é preciso proteger a biodiversidade marinha, rejeitando práticas que levaram a danos irreparáveis. A proposta de Guterres é de que os países cumpram as promessas previstas no Acordo de Biodiversidade Além da Jurisdição Nacional. Ver o seu progresso aqui, em Inglês.

A Conferência dos Oceanos começa nesta segunda-feira, 9 de junho, em Nice, na França. Para a ONU, o evento será uma oportunidade de avançar com as prioridades e a renovar os compromissos coletivos de proteção dos oceanos.

O objetivo é ambicioso: alcançar um acordo histórico para o oceano, à semelhança do que foi o Acordo de Paris para o clima, adotado há dez anos.

“Queremos um plano de ação operacional, em que os países se comprometam com medidas concretas para proteger o oceano”, afirmou o embaixador francês nas Nações Unidas, Jérôme Bonnafont.

A conferência culminará com a adoção da Declaração de Nice para a Ação no Oceano, um documento político que, embora não vinculativo, procurará refletir o consenso internacional sobre temas como biodiversidade marinha, financiamento, governação e combate à poluição.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Dia Mundial do Ambiente - relatório da Pordata


Portugal ocupa a 3.ª posição entre os países da UE27 com as mais baixas emissões de gases com efeito de estufa. Em 2023, o valor per capita foi o equivalente a 5 toneladas de CO2, colocando-nos no pódio da União Europeia a competir com os países mais evoluídos em políticas de proteção ambiental, revela um estudo da Pordata baseado nos últimos números oficiais (2023), publicado hoje, 5 de junho, no âmbito do Dia Mundial do Ambiente. De acordo com o relatório, para este esforço contribui também a significativa redução das emissões de CO2 pelos carros novos registados em Portugal, passando-se de 169g por km em 2000 para 90g por km em 2023. Uma tendência comum aos países da União Europeia, com especial destaque para o top 6, onde Portugal está incluído: não só apresentam os valores mais baixos como são os que mais reduziram emissões desde o ano 2000.   

O estudo, porém, não traz apenas boas notícias. Em 2022, Portugal emitiu 2,24 gramas de partículas finas por cada euro de riqueza gerada pela indústria. Ou seja, o total de partículas finas emitidas para a atmosfera não conseguiu ser compensado pela riqueza gerada pela indústrias, nomeadamente as que mais contribuem para esta disparidade: a química e a dos produtos químicos, e a do papel e a de produtos de papel.   

Igualmente muito preocupante: mais de metade do lixo ainda vai, hoje, para aterro. Os resíduos urbanos, que incluem o lixo produzido pelas famílias, pelo comércio, restauração, empresas e entidades públicas, tem vindo a aumentar ao longo dos últimos 20 anos. Em 2023, ascenderam a 5,6 milhões de toneladas, correspondendo esse valor a uma média diária de 1,4kg por habitante (mais do dobro do registado em 1995). Números que deixam Portugal na 8.ª posição da UE27 entre os países com maior valor per capita na produção de resíduos municipais, um ranking liderado por Luxemburgo, Bélgica e Chipre. O estudo é claro: Portugal é dos países que conduz para aterro uma maior proporção de resíduos (54%), estando, desde 2020, entre os 10 países onde esta percentagem é mais elevada.  
 
O valor das renováveis  
Além da proteção do ambiente, a PORDATA analisa e reúne um conjunto de indicadores em outras três grandes áreas: produção, consumo e dependência energética; temperatura do ar e pluviosidade; configuração e proteção do território, fornecendo dados que ajudam avaliar a viabilidade de o país atingir as metas definidas pela União Europeia no âmbito do Pacto Ecológico Europeu (PEE), com horizontes temporais ambiciosos para 2030 e 2050.  

“O país está no bom caminho no que a esforços diz respeito”, diz ao DN Luísa Loura. A diretora da Pordata destaca “a diminuição das emissões de CO2 provenientes dos carros e nas renováveis”.  

De facto, na área energética, verifica-se que o país tem registado uma evolução significativa: desde 1990, a produção nacional de energia mais do que duplicou, impulsionada pelas renováveis, responsáveis, em 2023, pela produção de 35% - 16 pontos percentuais acima do registado em 2004- da energia consumida. No entanto,  Portugal produz apenas um terço das suas necessidades – e, desse, mais de metade destina-se à exportação.  Em 2023, consumimos 22 milhões de TEP, quase o dobro dos valores de 1990, o que resulta na maior taxa de variação face a 1990 entre os países da União Europeia. Ainda assim, o consumo per capita português está abaixo do europeu.  

Estando a produzir mais, apesar de termos de importar a quase totalidade do que consumimos, a dependência energética de Portugal tem vindo a reduzir-se: o último dado disponível indica 67% (eram 85% no início do século). Ainda ficamos acima da média europeia, ao lado de Espanha, Alemanha e Itália que, apesar de serem grandes produtores de energia, têm uma dependência energética de mais de 60%.  Lideram a lista dos mais dependentes Malta, Chipre e Luxemburgo. No lado oposto estão Estónia, Suécia e Roménia.   
 
Aquecimento de 2ºC na temperatura média do ar   
Há um claro padrão de aquecimento desde os anos 2000, tanto na temperatura mínima como na máxima. O estudo avaliou os registos das temperaturas nas estações meteorológicas de Bragança, Castelo Branco, Lisboa, Beja e Funchal para concluir que, quando agregados em termos de médias, revelam um padrão comum de aquecimento a partir do início dos anos 2000 face a anos anteriores, uma conclusão válida para a temperatura máxima, média e mínima. A diferença face à década de sessenta aproxima-se dos 3ºC em Bragança, para a temperatura máxima, e supera os 2ºC no Funchal, para a temperatura média.  

No que diz respeito à pluviosidade, os registos do número de dias sem chuva nas mesmas estações meteorológicas, divulgados no relatório, revelam que Bragança tem, em média, mais dias de chuva por ano que as restantes estações (em cada 3 dias, 1 é de chuva) e que é no Funchal que menos chove (em cada 5 dias, só 1 é de chuva). Em Lisboa chove em 30% dos dias, um pouco menos do que em Bragança.  

Contrariamente ao que se passa com a temperatura, o padrão temporal da pluviosidade não apresenta sinais de tendência sistemática nos mais de sessenta anos em análise. Para qualquer das estações consideradas, os períodos mais e menos chuvosos vão alternando.  É o caso de Lisboa: choveu relativamente pouco entre 2000 e 2009, os anos sessenta e setenta foram mais chuvosos e, entre 2020 e 2024, o número de dias sem chuva esteve em linha com a média.  
 
Mais terreno para arbustos, menos para agricultura  
Olhando o território, Portugal é dos países com mais terreno ocupado por arbustos, e dos que têm menos terreno para produção agrícola. As áreas artificializadas (com casas, estradas e outras construções) representam apenas 6,4% da superfície do país, segundo a Pordata, citando dados do levantamento feito pelo Eurostat em 2018, os últimos dados disponíveis.   
A floresta ocupa quase 40% do território e as terras para cultivo não atingem a quinta parte. Em percentagem de área terrestre protegida, Portugal ocupa a 12.ª pior posição da UE27.  “Uma situação que é claramente contrastante com o mar”, comenta Luísa Loura, sublinhando a importância marítima, na história e na economia do país.   

No mar, seremos os primeiros  
 No mar, Portugal poderá tornar-se o país da UE com maior extensão de áreas marítimas protegidas. Este aumento é reflexo das novas áreas do Parque Natural Marinho do Recife do Algarve - Pedra do Valado (156 km2) e da Revisão do Parque Marinho dos Açores (adicionais 252355 km2). Em setembro de 2025, com a entrada em vigor do diploma, Portugal terá protegido cerca de 19% da sua área marítima.  Estão em causa cerca de 300 mil quilómetros quadrados.   

A qualidade das praias costeiras é outro ponto positivo: Nove em cada dez praias costeiras têm águas com qualidade excelente. Em 2023, Portugal ocupava, em 2023, o 9.º lugar entre os 22 países da União Europeia banhados pelo mar. Uma situação oposta da que se observa nas águas balneares interiores, onde a posição de Portugal é a 6.ª pior. Com apenas 67% das praias fluviais e lacustres com água de qualidade excelente, Portugal figura entre os 11 países da UE27 em que essa percentagem é inferior a 70%.  

domingo, 2 de junho de 2024

É assim que o TikTok ou o Instagram destroem praias, montanhas e outros locais naturais

De lugares tranquilos e pouco conhecidos a destinos que se tornaram populares devido ao poderoso efeito das redes sociais. Estas são as consequências para a natureza quando ela se torna um "alvo" em massa de selfies e vídeos.


Há quem sonhe viver em primeira mão as experiências turísticas idílicas e fotogénicas promovidas pelos criadores de conteúdos no TikTok ou Instagram. São lugares, por vezes pouco conhecidos, que, em questão de dias, recebem atenção global devido ao efeito viral das plataformas de vídeos curtos às quais milhões de pessoas estão fisgadas.

Então, é claro, vêm as deceções. E o que se imaginava como destinos exclusivos, como as trilhas naturais, transformam-se, parecendo verdadeiras romarias, filas intermináveis para visitar uma praia e "cotovelaços" para tirar selfies.

A consequência de “criar tendência” nos destinos turísticos é um aumento repentino e inesperado de visitantes em espaços que muitas vezes não são projetados para serem usufruídos por uma massa descontrolada de pessoas.

Um fenómeno ligado ao congestionamento, às multidões e à muita poluição, que já está a ser estudado e que tem consequências negativas para o ambiente natural.

As consequências danosas do ‘efeito TikTok’ na natureza
Em Espanha as ações de alguns influenciadores encorajaram a destruição real de espaços naturais protegidos.

Nas Dunas de Maspalomas, espaço natural localizado no sul de Gran Canaria, a organização de uma “caça ao tesouro” (mil euros enterrados) levou muitas pessoas a escavar nesta área protegida.

Em Tenerife, dois YouTubers, com 111 mil inscritos, vangloriaram-se no seu canal ao fazerem “o percurso mais perigoso” da ilha. Para isso, eles percorreram um caminho protegido numa área que possui espécies ameaçadas de extinção, como o lagarto gigante, sem se preocupar em pisotear a flora nativa. E o pior? Eles “inspiraram” outros.

Parques Nacionais soam o alarme
O efeito indireto causado pelas imagens e vídeos publicados nas redes sociais tornou-se um verdadeiro problema para a maioria dos parques nacionais em Espanha.

Até 11 dos 16 espaços protegidos da rede reportam “problemas óbvios” gerados pela multiplicação de visitantes e que devem ser geridos. Risco de incêndios, destruição de habitats e elevado número de veículos que geram engarrafamentos, poluição e problemas de segurança são os principais problemas.

Fora de Espanha, embora existam inúmeros exemplos, é bem conhecida a situação vivida no segundo pico mais alto do mundo. As intermináveis filas nas encostas do K2, uma montanha na Ásia, prenunciam um mau prognóstico: a montanha passa por um profundo processo de transformação devido à presença excessiva de seres humanos.

Protestos em Espanha contra o turismo maciço
Nas últimas semanas, milhares de habitantes cujos locais ficaram transformados em destinos turísticos saíram às ruas para protestar contra os impactos negativos deste modelo, tanto a nível ambiental como social, cultural e económico.

O movimento, que é global, já chamou atenção em Espanha. Em Palma de Maiorca, Donostia-San Sebastián, Las Palmas de Gran Canaria e em alguns municípios da Cantábria, como Loredo e Langre, os moradores mobilizaram-se com os seguintes argumentos:
  1. Gentrificação: o aumento dos preços da habitação causado pela 'proliferação' de apartamentos turísticos, e também de bens e serviços, resulta no deslocamento dos residentes locais dos seus próprios bairros.
  2. Perda de autenticidade: na sociedade de consumo tudo é comercializável. Também a cultura local, da qual são selecionados apenas os elementos, considerados produtos ou meros espetáculos de entretenimento, que fazem maior sucesso junto dos turistas. A consequência é a perda de tradições e costumes genuínos.
  3. Superlotação: quando afeta locais históricos ou bens culturais, podem sofrer danos devido ao excesso de visitantes.
  4. Dependência económica: quando as economias locais se tornam muito dependentes do turismo, tornam-se muito vulneráveis às mudanças que podem ocorrer na procura turística.
  5. Má qualidade de emprego: que o turismo gera riqueza é um facto. Porém, outra coisa é como isto é redistribuído. E, muitas vezes, os empregos ligados a este setor económico são sazonais e mal remunerados.
Rumo ao turismo sustentável
O impacto do turismo de massa não deve ser medido apenas pelos seus benefícios económicos e pela criação de emprego, que nem sempre é de qualidade. Para o ONU Turismo, o turismo sustentável é o turismo que “leva plenamente em conta os impactos económicos, sociais e ambientais atuais e futuros para satisfazer as necessidades dos visitantes, da indústria, do ambiente e das comunidades anfitriãs”.

Avançar para este novo modelo envolve, antes de tudo, regulamentação. Ou seja, limitar o número de visitantes em áreas sensíveis para evitar a sobre-exploração.

Do ponto de vista do ordenamento do território, é também necessário planear o uso do solo para minimizar o impacto ambiental e preservar a biodiversidade, o que inclui a criação de áreas de proteção e conservação.

Desenvolver uma consciência pública mediante campanhas de sensibilização para as comunidades locais e visitantes, e a promoção do turismo responsável através dos meios de comunicação social e das próprias redes sociais, é outra estratégia essencial para avançar para um turismo mais sustentável.

Fonte: Meteored

sexta-feira, 3 de maio de 2024

Dia Mundial da Jardinagem Nua 2024


Dia Mundial da Jardinagem a Nu 2024 (World Naked Gardening Day) decorre no primeiro sábado de Maio e incentiva as pessoas de todo o mundo a fazerem jardinagem sem roupas em locais, sejam em espaços públicos ou privados, apropriados para a prática naturista.

Assim, se és adepto da jardinagem, aproveita este dia e celebra praticando a nu as tuas tarefas.

Segundo o programa Today da NBC, o Dia Mundial da Jardinagem Nua (WNGD, na sigla em inglês) "tornou-se uma tradição anual que celebra a jardinagem, a plantação de flores e a poda de sebes em trajes de banho. Embora esteja ligado a um movimento de nudistas que promovem a aceitação saudável e despudorada do corpo humano, o dia pretende ser divertido, descontraído e apolítico, dizem os fundadores."

Os organizadores afirmam que "além de ser libertador, a jardinagem nua só perde para a natação como atividade que as pessoas estão mais dispostas a considerar fazer nuas".

Para além da positividade corporal, Corky Stanton, da Clothes Free International, uma organização que promove o lazer nu, afirmou que o evento oferece os "benefícios adicionais do lazer nu e sem pudor: a satisfação de fazer exercício ao ar livre; a beleza de um bronzeado uniforme; mais vitamina D em todo o corpo; a experiência incomparável de nadar nu se o evento naturista envolver uma praia ou um lago."

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Música do BioTerra: Moby feat. Sinead O'Connor - Harbour


The street bears no release
When everybody's fighting
The street bears no release
With life so hard and biting

I run the stairs away
And walk into the night-time
The sadness flows like water
And washes down the heartache
And washes down the heartache

[Refrão]
My heart is full
My heart is wide
The saddest songs are played
On the strings of my heart

The heat is on its own
The roof seems so inviting
A vantage point is gained
To watch the children fighting

So lead me to the harbor
And float me on the waves
Sink me in the ocean
To sleep in a sailor's grace
To sleep in a sailor's grace

[Refrão]

terça-feira, 23 de abril de 2024

Poema - Árvore naufraga

Mindelo

"Árvore naufraga quer ir ter com o mar,
Raízes cansadas de terra e chão,
Anseia pelo sal, pelo vasto, o sem par,
Navegar em ondas de pura emoção.

Os seus galhos, outrora altivos, agora clamam,
Por dançar com as brisas do oceano,
Sussurrar segredos que as marés inflamam,
E encontrar-se no horizonte, sem engano.

Despe-se das folhas, da rigidez terrestre,
Abraça a fluidez do azul infinito,
No balanço das águas, encontra o seu mestre,
Numa dança eterna, num ritmo bendito."

João Soares, 20.04.2024

terça-feira, 9 de abril de 2024

Petição Criação da Ordem dos Geólogos (2024)

Para: Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República

Os geólogos são profissionais com formação superior específica no vasto domínio da geologia, debruçando-se, nomeadamente, no estudo do solo, do subsolo, dos processos geológicos ativos e daqueles que ocorreram ao longo da história da Terra. Atuam, igualmente, no âmbito do ordenamento e planeamento do território, na exploração e gestão sustentável dos recursos naturais, e na prevenção e mitigação dos riscos geológicos. O desempenho da profissão de geólogo está dependente do conhecimento geológico do território, sendo este de importância estratégica para o desenvolvimento socioeconómico do país. Estes profissionais contribuem para a obtenção de soluções sustentáveis para muitos dos grandes problemas sociais, económicos e ambientais que a Sociedade enfrenta, tais como as mudanças climáticas, a transição energética, a escassez hídrica e o declínio dos ecossistemas.

A profissão de geólogo tornou-se, nas últimas décadas, complexa e muito diversificada devido à sua ligação com outras profissões numa grande variedade de domínios de atividade, nomeadamente, nos sectores das indústrias de construção, extrativa e energética, do ordenamento do território, da gestão ambiental, bem como da prestação de serviços especializados ao Estado e às empresas. Atua, ainda, nos setores da proteção ambiental e societal. Ou seja, o geólogo é um especialista com um olhar único na proteção e gestão sustentável do nexo solo-água-energia-alimentos-património, tão destacado, por exemplo, pela ONU – Organização das Nações Unidas, FAO - Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, e UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. Tem, também, um papel determinante na dinamização da geologia espacial dos programas da AEP - Agência Espacial Portuguesa, ESA – Agência Espacial Europeia e NASA - Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Estados Unidos da América).

Neste quadro complexo, mas desafiante, os geólogos defendem a necessidade da criação de uma associação pública profissional, assentando esta aspiração em quatro pontos fundamentais:

1) A necessidade de uma cabal regulação da profissão, visando definir os requisitos e as qualificações profissionais, o âmbito da profissão e a exigência dos respetivos atos profissionais, levando à atribuição de uma certificação através de uma cédula profissional, elevando assim os mais exigentes padrões na prática do geólogo profissional englobando todos os princípios éticos e de probidade técnica que acarretam;

2) A necessidade de dispor de um código de princípios deontológicos e de dispositivos jurídico-disciplinares adequados à defesa da independência do julgamento profissional;

3) A necessidade de criar condições que permitam o reconhecimento das qualificações e requisitos profissionais em condições de reciprocidade com instituições homólogas nacionais e estrangeiras, visando garantir o exercício da atividade profissional dos geólogos portugueses dentro e fora do espaço europeu;

4) A verificação do cumprimento de requisitos profissionais deve ser confiada aos próprios geólogos constituídos em associação pública profissional, dado que, face à atual complexidade desta atividade profissional, estão mais bem apetrechados para a realizar, compatibilizando a liberdade de acesso e de exercício da profissão, e a ponderação do interesse público.

A estreita relação entre a natureza da profissão e o interesse público emerge com clareza do simples enunciado de algumas das áreas mais paradigmáticas da intervenção profissional dos geólogos:

a) Planeamento territorial e georrecursos: estudos de cartografia geológica sistemática do país, realizada a várias escalas, implementação e gestão de bases de dados digitais da cartografia geológica, dos recursos geológicos, hidrogeológicos e geotérmicos, entre outros. Apoio à execução de cartografia temática e com fins diversos que incluem uma perspetiva agronómica, agrícola, geotécnica, hidrológica, territorial e de risco natural/geológico. De facto, o território é um agente de transformação a ser conhecido e gerido de uma forma ambientalmente sustentável e de interligação com todos os agentes envolvidos, incluindo as comunidades e os ecossistemas;

b) Riscos naturais, segurança e proteção civil: previsão e prevenção de riscos naturais visando a minimização dos desastres, a proteção da vida humana e a limitação de danos (identificação das falhas sísmicas e zonamento do perigo sísmico das regiões e dos sítios, contribuição na engenharia sísmica geotécnica, monitorização da atividade vulcânica, controlo da erosão, da estabilidade de taludes, das encostas e das arribas de praia ou adjacentes a outros espaços públicos, entre outros);

c) Análise de riscos na construção e economia das grandes obras: estudo e avaliação das condições geológico-geotécnicas para o projeto e construção das grandes obras de engenharia e identificação dos riscos financeiros, bem como de problemas de desempenho induzidos por causas geológicas (a derrapagem do custo final das grandes obras está frequentemente relacionada com a falta ou com a insuficiência de estudos de geologia de engenharia);

d) Ambiente, água, território e adaptação às mudanças climáticas: prospeção, pesquisa, captação e proteção de águas subterrâneas; contributo para a avaliação, proteção e gestão sustentável dos recursos hídricos e recursos hidrominerais, a várias escalas; avaliação da radioatividade natural; estudos sobre o uso sustentável do solo; prevenção e mitigação de riscos naturais ou tecnológicos; remediação de solos e águas contaminadas, monitorização da erosão costeira, restauro da natureza, gestão da geodiversidade, entre outros;

e) Gestão sustentável e proteção dos recursos naturais: prospeção, avaliação e extração dos recursos minerais numa base eco-eficiente (metálicos estratégicos e não-metálicos); estudo, caracterização e gestão de geomateriais; colaboração na exploração e gestão dos recursos energéticos (como a geotermia); conservação do património geológico e valorização do geoturismo;

f) Saúde pública e geologia: prevenção dos riscos de contaminação dos solos e das águas subterrâneas, com base no estudo dos sistemas aquíferos, da sua vulnerabilidade e dos processos de propagação dos contaminantes; estudo da contaminação dos solos e dos métodos de descontaminação; avaliação do risco de exposição da radioatividade natural; estudos e o papel da geologia médica nos solos-alimentos-água; o papel terapêutico e de bem-estar dos recursos hidrominerais; contributos dos recursos hidrominerais em produtos farmacêuticos e dermocosméticos, entre outros temas;

g) Geologia marinha e reconhecimento dos fundos oceânicos da Zona Económica Exclusiva (ZEE) de Portugal: o nosso país detém a maior ZEE da Europa, revestindo-se esta de grande valor estratégico e potencial base de um novo paradigma do desenvolvimento económico do país ligado à Economia do Mar e Oceanografia Geológica. Os geólogos têm um papel preponderante no estudo da geologia dos fundos marinhos, e no estudo, exploração e gestão dos valiosos recursos naturais localizados na ZEE. A geologia costeira é, igualmente, importante na gestão, valorização da zona costeira continental e insular, bem como para a valorização deste fantástico e frágil território de interface com o oceano;

h) Investigação, ensino e cultura: os geólogos têm um papel extremamente relevante quer nas atividades de investigação, desenvolvimento e inovação em equipas inter, multi e transdisciplinares, quer no ensino básico, secundário e superior, bem como na formação de cidadãos cultos e informados. É, igualmente, relevante a sua participação em programas de astrogeologia para a difusão da geologia planetária, promovidos pela AEP e ESA. Os geólogos têm, também, um papel pertinente na difusão e disseminação de uma literacia e cultura geocientífica esclarecida direcionada aos cidadãos, através de programas e iniciativas de divulgação científica.

Assim, tendo em conta a defesa dos direitos fundamentais dos cidadãos, a salvaguarda do interesse público e a correlativa necessidade de autorregulação da profissão de Geólogo, assinamos esta petição solicitando à Assembleia da República a criação da Ordem dos Geólogos.