sábado, 10 de outubro de 2026

Do Punk ao Techno: memórias de como era viver a noite e a contracultura dos anos 80 e 90


Recordo-me sempre e tenho orgulho de ter vivenciado talvez uma das épocas mais felizes, depois de ouvir falar, na altura, dos anos 60 e em particular do Maio de 68. Absorvíamos um pouco de tudo: música gótica, metaleira, música de pista de dança, música clássica. Aqui em Portugal, os bares e discotecas tinham seguranças e formavam-se filas para entrar; no entanto, alguém conhecido do segurança entrava logo, criando desconforto e indignação. Ao passo que em Espanha era tudo aberto. O pessoal bebia, falava num bar e entrava noutro, num circuito aberto. 

Nesta época fui membro de uma banda de garagem gótica, inspirada sobretudo nos The Cure, Joy Division, The Chameleons, Einstürzende Neubauten, Virgin Prunes e In The Nursery (bebíamos também um pouco de The Fall). Chamava-se Lilás Postes Mórbidos.

Nos anos 80, o pós-punk, o goth, o new wave e a música industrial ergueram-se não apenas como géneros musicais, mas como verdadeiras armaduras existenciais. As pistas de dança dos bares e clubes alternativos cheiravam a fumo denso de cigarro, laca e suor. Dançava-se de forma introspectiva e solitária, envolto em gabardinas escuras, cabelos esculpidos a spray e botas pesadas, num ambiente dominado pelo niilismo e pela penumbra. 

A ética do Do It Yourself (DIY) era verdadeiramente o coração pulsante da cena, sobretudo entre punks, góticos e metaleiros. Num Portugal onde a oferta de roupa alternativa era escassa ou proibitivamente cara - sem fast fashion, lojas online ou encomendas à distância de um clique -, pertencer ao underground exigia tanta criatividade manual quanto devoção musical.

As t-shirts pretas de algodão barato tornavam-se telas em branco. Usava-se tinta de tecido, lixívia para criar padrões manchados e escorridos, stencils feitos à mão em radiografias velhas ou cartão, e giletes para cortar golas e mangas. Os casacos de cabedal ou de ganga eram autênticas obras de arte em construção permanente: pintavam-se os logótipos das bandas com pincéis finos, cravavam-se picos e tachas comprados em retrosarias, e cosiam-se remendos (patches) feitos a partir de restos de tecido e marcadores permanentes. As correntes vinham muitas vezes do hardware ou de ferragens de construção civil, e os alfinetes de dama serviam tanto para segurar rasgões como para afirmar uma estética.

Havia também um ecossistema económico e social paralelo. Nas poucas feiras de rua, mercados de velharias, concertos em garagens ou em pequenos festivais locais, surgiam bancas improvisadas em panos estendidos no chão. Aí vendiam-se e trocavam-se t-shirts personalizadas, pendentes em estanho ou cabedal, pins artesanais, cassetes gravadas com capas desenhadas à mão (tape trading) e fanzines fotocopiadas em papel de fraca gramagem. A troca não era apenas material; era a forma primordial de criar redes de contactos. Mudar de cidade ou ir a um concerto noutro ponto do país significava levar a mochila cheia de material para vender ou trocar por algo que não se conseguia encontrar na própria terra.

Essa dimensão artesanal garantia que quase ninguém vestia a mesma peça. A identidade não se comprava feita numa prateleira; construía-se com paciência, cheiro a tinta, agulhas picadas nos dedos e muitas horas passadas no quarto a aperfeiçoar a estética da sua própria tribo.

Sem a facilidade dos ecrãs, a logística de todo este ecossistema assentava em redes orgânicas e analógicas. Para saber onde era a festa ou o concerto da noite, dependia-se do passa-palavra, do papel fotocopiado dos flyers distribuídos à porta das lojas de discos ou nas faculdades, e da sintonização em emissoras de rádio piratas e programas de autor. Como era impossível avisar de um atraso no caminho, os pontos de encontro tinham de ser cumpridos com pontualidade rigorosa. Se alguém falhasse no local combinado, perdia a pista do resto do grupo até à manhã seguinte.

Acima de tudo, sair à noite nessa época significava viver no presente absoluto. Ao cruzar a porta de casa, cada pessoa desaparecia do radar do mundo convencional, usufruindo de uma liberdade radical na invisibilidade. Não havia o registo compulsivo do momento, nem fotografias instantâneas para alimentar expectativas alheias. As raras imagens eram captadas por máquinas descartáveis e o resultado só era revelado semanas mais tarde. A verdadeira prova de uma noite lendária ficava guardada no zumbido persistente nos ouvidos ao amanhecer, nos bilhetes de autocarro amarrotados nos bolsos e na pertença visceral a uma tribo urbana que partilhava a mesma margem do mundo

Entretanto, fiz rádio, numa altura em que houve um boom de rádios clandestinas. A banda, o círculo de amigos underground (dentro e fora da Faculdade) e a rádio foram relevantes em termos pessoais. Foi uma fase em que precisava mesmo disso, pois fatalmente faleceu, com 42 anos, a minha irmã mais velha. Tinha 22 anos. 

Sabíamos e ouvíamos falar da Movida espanhola. Quantas vezes preferia ir a Santiago de Compostela curtir a noite do que ficar no Porto. Sucede que um grupo de galegos, em conversa, nos sugeriu ir até Madrid. Bora lá, nem hesitámos. Durante as 5 horas de viagem, era a desbunda total. De tudo falámos e tudo cantámos juntos. O inglês dos espanhóis era sofrível e ríamo-nos muito. Qual cancel culture, virtue signaling, wokismo e outras "moralidades" da era digital. Não existiam, nem imaginávamos nada disso. Puramente diversão, muita filosofia on the road, falávamos dos escritores e realizadores que partilhávamos em comum e pouco mais.

Com a viragem para os anos 90, iniciaram-se nas vagas divergentes e, ao mesmo tempo, de contracultura: o techno, o grunge e o rap. 

La Cabra resume um pouco tudo o que atrás descrevi. Quando foi lançada, em 1993, uniu toda a juventude da época (desde os adolescentes até aos que, como eu, já estavam a entrar nos 26-27 anos). O seu único objetivo é a sátira social, o humor escrachado e a provocação irreverente. Antes de se tornar uma faixa eletrónica dos The Farmlopez, esta letra já pertencia ao cancioneiro popular anónimo de Espanha. Era o tipo de música cantada em viagens de autocarro, festas de aldeia, casamentos e tunas académicas. O significado prático da canção é ser um hino de folia e desbunda (el desmadre), feito especificamente para as pessoas cantarem juntas quando já consumiram algum álcool e querem apenas festejar sem pensar em regras.

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