No seu pequeno-almoço de hoje, comeu um pão de alfarroba? Se a resposta foi afirmativa, pertence a um número diminuto - e não crescente - de portugueses que consome e valoriza esta iguaria. A grande ironia é que, enquanto esse pão é comercializado quase como um produto de nicho ou exclusivo, toneladas do mesmo fruto apodrecem pelos campos do nosso país por falta de valorização no mercado nacional.
Quem percorre o barrocal algarvio ou as paisagens secas do Alentejo está habituado à silhueta imponente da alfarrobeira (Ceratonia siliqua). Durante séculos, a alfarroba fez parte do quotidiano rural do Sul de Portugal. Fruto escuro, rijo e de aroma adocicado, foi durante muito tempo visto como uma cultura de subsistência - alimento para os animais de tração, recurso em tempos de escassez e uma modesta fonte de rendimento complementar para as famílias agrícolas.
Contudo, nas últimas décadas, a perceção sobre este fruto sofreu uma transformação radical. A alfarroba passou de "comida de animais" a "ouro negro da agricultura portuguesa". O seu preço por quilo atingiu máximos históricos e a expetativa em redor desta cultura parecia ilimitada. Hoje, porém, assistimos ao colapso dessa ilusão. O mercado ruiu, o preço pago ao produtor desabou e toneladas de alfarroba ficam a apodrecer debaixo das árvores ou acabam utilizadas como simples estrume. Como é que um fruto com um valor nutricional excecional e um potencial económico gigante foi, em tão pouco tempo, votado ao quase esquecimento?
Sob o ponto de vista nutricional, a alfarroba é uma verdadeira preciosidade vegetal e apresenta-se como a alternativa ecológica perfeita ao cacau. A polpa da alfarroba contém entre 40% a 50% de açúcares naturais (frutose, glicose e sacarose), o que permite a sua utilização na doçaria e na panificação sem a necessidade de adicionar açúcares refinados em excesso. Ao contrário do cacau, não contém teobromina nem cafeína, sendo uma opção ideal para crianças, grávidas ou pessoas sensíveis a estimulantes. Além disso, é uma fonte extraordinária de fibra solúvel e insolúvel, auxilia na regulação intestinal e contém elevados níveis de polifenóis antioxidantes, apresentando simultaneamente um teor de gordura naturalmente muito baixo. A juntar a isto, a pegada ecológica da alfarrobeira é incomparavelmente menor que a do cacaueiro, tratando-se de uma árvore extremamente resistente à seca e perfeitamente adaptada ao clima mediterrânico.
Para compreender o colapso do mercado, é preciso desmistificar o valor económico da alfarroba. A grande tragédia deste fruto reside no facto de a indústria nunca ter estado verdadeiramente interessada na sua deliciosa polpa - que representa cerca de 85% a 90% do peso do fruto -, mas sim no seu caroço. As sementes representam apenas uma pequena fração do peso total, mas é delas que se extrai a goma de alfarroba, identificada na indústria alimentar com o código de aditivo E-410. Este ingrediente é um dos espessantes, emulsionantes e estabilizadores naturais mais valiosos do mundo, estando presente numa infinidade de produtos como gelados, molhos, iogurtes, comida para bebés, produtos farmacêuticos e cosméticos. Aqui instala-se a grande ironia: enquanto as multinacionais disputavam o caroço a peso de ouro para garantir o E-410, toneladas de polpa rica em nutrientes ficavam sem destino comercial claro, sendo desvalorizadas ou simplesmente desperdiçadas.
O auge desta instabilidade socioeconómica registou-se no contexto da pandemia de COVID-19. A crise sanitária internacional provocou ruturas graves nas cadeias globais de abastecimento e na logística marítima, levando a indústria agroalimentar a procurar assegurar agressivamente stocks de aditivos e estabilizadores cruciais. Esta escassez conjuntural gerou um pico especulativo no mercado da alfarroba em Portugal, onde o valor pago ao produtor atingiu patamares históricos - superando, em determinados momentos, os 2,50€ a 3,00€ por quilo -, o que motivou corridas à apanha e uma expetativa irrealista sobre a rentabilidade futura do setor.
Contudo, tratou-se de um fenómeno puramente conjuntural e desprovido de sustentabilidade estrutural. Com a normalização das rotas comerciais pós-pandemia, a pressão sobre os stocks de matérias-primas cedeu e a procura industrial regressou a níveis padronizados. Pressionada pelos custos elevados do aditivo E-410 durante a fase de escassez, a própria indústria alimentar reformulou vários dos seus produtos, substituindo a goma de alfarroba por alternativas sintéticas ou hidrocoloides mais económicos, como a goma de guar, a xantana ou amidos modificados. Sem a procura inflacionada pelo E-410, a cotação da alfarroba entrou em queda livre e a margem paga ao produtor desceu para patamares que inviabilizam financeiramente o custo da mão de obra necessária para a apanha manual.
Hoje, a realidade no campo é desalentadora. Em muitas explorações agrícolas do Sul do país, os agricultores optam por nem sequer colher o fruto. A alfarroba fica a apodrecer no chão ou é triturada para servir de fertilizante e estrume para o solo. É o fecho de um ciclo doloroso: um superalimento de valor inestimável reduzido a composto orgânico por incapacidade de valorização do mercado nacional. A história da alfarroba em Portugal é o reflexo de um modelo agrícola e industrial cego ao valor real dos seus recursos. Enquanto continuarmos a olhar para a alfarroba apenas como um fornecedor de aditivos químicos para a indústria transformadora estrangeira, ficaremos sempre reféns das oscilações dos mercados internacionais.
O futuro da alfarroba passa, inevitavelmente, pelo investimento na valorização da polpa: na criação de farinhas de alta qualidade, no desenvolvimento da panificação e doçaria saudável, na indústria de bebidas e na afirmação da alfarroba como uma alternativa ecológica e ética ao cacau. Até lá, continuaremos a assistir ao triste espetáculo de ver o nosso "ouro negro" a decompor-se na terra, à espera que a indústria se lembre, uma vez mais, de como ele é valioso.

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